quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PAS141. A arte de domar um potro


Rex era um homem um pouco vaidoso e estava acostumado a impor a sua vontade. Por ser filho do patrão, os vaqueiros toleravam-no.
Tony não lhe foi simpático.
Rex despendurou um laço entrançado e, indicando-lhe o curral, disse, entregando-lhe a corda:
- Vou soltar aquele potro ruão, para ver se és capaz de laçá-lo; mas, para isso, terás de montar o teu cavalo pois esse bicho corre como um comboio.
Os vaqueiros tinham-se aproximado, curiosos, desejando presenciar aquela prova. Todos sabiam que o potro era veloz como a luz a galopar e sempre dava imenso trabalho a fechá-lo. Além disso, tratava-se de um cavalo indómito e cheio de manhas.
Tony nada respondeu, limitando-se a pegar no laço e a montar no seu baio.
Rex, com um maligno sorriso nos lábios, subiu pelas traves do curral e, abrindo a portela, fez sair o potro. Este, apenas se viu livre, soltou um relincho e, sacudindo a cabeça, partiu a galope.
- Olha que ele foge, «boy»! – gritou um vaqueiro.
- Não irá muito longe – replicou Tony.
E, fazendo virar o seu cavalo, cravou-lhe as esporas e partiu em perseguição do ruano. Todos, ao vê-lo cavalgar, compreenderam que era um bom cavaleiro. Ia erguido e com os braços livres. A sua mão direita fez voltear o laço sobre a cabeça.
Rex, a seu pesar, teve de confessar que aquele rapaz não era nenhum novato. Com tudo isto, Tony adiantou-se ao potro, cortando caminho, e de súbito lançou o laço que, descrevendo umas quantas voltas no ar, foi envolver o pescoço do ruano.
Este, ao sentir-se laçado, quis continuar o galope, mas Tony, demonstrando saber o que fazia, apoiou a extremidade da correia À cintura e, fazendo dar uma volta ao seu cavalo, travou de chofre a carreira do potro, o qual, caindo de cabeça, deu uma aparatosa cambalhota o que fez soltar gritos de admiração aos vaqueiros que presenciavam o trabalho.
Não contente com isto, adiantou-se e, desmontando de um salto, foi apanhando o laço até se aproximar do indómito animal. Este, ao vê-lo aproximar-se, tratou de patear enfurecido, mas Tony não lhe deu tempo para realizar semelhantes exercícios.
 
Com o maior assombro, todos viram como o novel «cow-boy» saltava sobre o ruão e, utilizando o laço como rédea lhe passava uma volta pelo alto da cabeça, convertendo, assim, a correia em cabeçada.
O potro, ao sentir aquele peso estranho sobre os lombos, começou a retroceder metendo a cabeça entre as patas até que, de súbito, rompeu numa corrida, deteve-se, levantou-se sobre as patas traseiras e realizou as mais extravagantes contorções, tratando de se libertar do cavaleiro; este, poré, como se estivesse colado ao animal, aguentou toda aquela espécie de piruetas. Depois, começou a dar formidáveis saltos, terminando por girar como a roda de um moinho.
Tanto Rex como os vaqueiros permaneciam assombrados e com as bocas abertas, porque nunca tinham imaginado que houvesse alguém capaz de realizar semelhante exibição.
O próprio Cliff, que tinha saído do rancho ao ouvir de súbito os gritos de entusiasmo dos seus homens, ficou como se tivesse visões, ao contemplar o ruano que, movendo a cabeça para cima e para baixo, estava firme sobre os cascos e soprava ruidosamente.
- Que me enforquem – disse Cliff – se não é o novato.
- É mesmo – respondeu-lhe Rex. – Fiz que o laçasse, supondo que não o conseguiria e, não contente com isso, montou-o e pretende domá-lo.
- E creio que se vai sair bem. Se mo dissessem, não acreditiva.
Tony, com a extremidade do laço, castigou as ancas do ruano, fazendo-o andar mais depressa. Deu várias voltas a todo o galope e, quando compreendeu que o cavalo estava cansado, encaminhou-o para o curral.
Antes de chegar lá, o potro tratou ainda de fazer algumas cabriolas, mas, ao sentir as esporas, relinchou asperamente e ficou quieto.
O cavaleiro não se confiava demasiado. Sabia muito bem as artimanhas a que recorrem todos os potros rebeldes. Por issi, fê-lo passar por diante da paliçada, dando-lhe palmadas no pescoço, ao mesmo tempo que lhe dirigia palavras carinhosas:
- Vamos, «pequeno», acaba com as tuas manhas. És um animal muito bonito, mas estás mal acostumado.
O ruano, ao sentir os gritos e os aplausos dos vaqueiros, voltou a encabritar-se, e desta vez dando saltos tão desiguais que qualquer outro teria beijado o pó, mas Tony, com as pernas coladas aos flancos do animal, aguentou a violenta acrobacia.
O cavalo suava e os seus olhos saltitavam inquietos e alarmados. A sua inquietação, estava cheia de furor. Era a primeira vez que um homem permanecia sobre o seu lombo tanto tempo.
A todos quantos o tinham tentado não lhe fora difícil livrar-se deles, mas agora havia um que se lhe tinha colado como lapa À rocha.
O seu pelo brilhava inundado de suor, e os tremores da sua pele demonstravam claramente que o medo começava a tomar posse dos seus poderosos membros.
Ainda não se deu por vencido.
Fez a última tentativa com uma volta rápida, um salto de lado e uma investida contra a paliçada, procurando, sem dúvida, esmagar a perna do cavaleiro contra os troncos. Mas de nada lhe valeu, porque Tony, com um forte puxão, obrigou-o a torcer-se, ao mesmo tempo que voltava a cravar-lhe as esporas. E foi tudo. O ruano, vencido, baixou a cabeça e, resfolegando, imobilizou-se.
(Coleção Pólvora, nº 26)

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