quarta-feira, 31 de maio de 2017

PAS755. Paixão na reserva índia

— «Raio de Lua», sabes porque venho visitar-te todos os dias? — A rapariga baixou a cabeça e ruborizou-se.
Os jovens estavar sentados à sombra, dentro da «Reserva» índia e permaneciam muito perto um do outro.
Len colocou-lhe um braço por cima do ombro e atraiu-a a si suavemente.
--Diz-me. Não compreendeste que te amo?
«Raio de Lua» levantou a cabeça e sorriu.
— Eu também te amo, Len... — exclamou.
Mas Len observou que a rapariga estava preocupada.
— Tens qualquer coisa — disse ele. — Porque não tens confiança em mim? Deves dizer-me o que se passa...
— Somos diferentes, Len. Pentencemos a duas raças que se odeiam e não poderíamos viver em paz. E tu não podes ficar a viver dentro da nossa «Reserva», com os meus... nem eu te pediria esse sacrifício...
Len olhou-a carinhosamente.
—Levar-te-ei comigo!... Viveremos sempre juntos! Verás que nenhum branco te despreza...
— Tu és muito bom, Len. Mas os teus irmãos não quererão admitir que uma índia seja tua esposa...
— Tu és diferente de todas. A cor da tua pele é como a da minha... Tua mãe também não é índia. Não pertence à tua raça embora tenha vivido sempre com o povo «semínola»... Conheces a história de tua mãe?...
— Apenas sei que é a «squaw» de meu pai... Todavia sempre estranhei que tivéssemos a cor da pele diferente da dos nossos irmãos de raça...
— A tua mãe é branca, «Raio de Lua». O sangue dela, passou para o teu corpo... Eu julgo conhecer a história de tua mãe, mas só «Pluma Negra» a pode confirmar. Mas o chefe dos «seminolas» não quer falar...
— Oh, Len, tenho medo por nós!... As vezes penso o' que será da minha tribo, de mim mesma e do nosso amor impossível!
— Não deves pensar nessas coisas. Tem fé nos homens, «Raio de Lua» e, sobretudo, confia em mim...
E Len atraiu a si a rapariga e beijou-a docemente.

terça-feira, 30 de maio de 2017

PAS754. «Raio de Lua»

Len Mckee percorria o rancho, vigiando o trabalho dos vaqueiros quando chegou aos seus ouvidos a voz de uma criança a pedir auxílio.
Estava perto dos limites do rancho pelo lado em que confinava com a «Reserva» dos «semínolas», e aquilo preocupou-o.
Dois dos vaqueiros que estavam com ele, naquele momento, olharam-no intranquilos.
— Parece uma criança... — comentou Len, saltando para o seu cavalo.
Os dois homens imitaram-no sem dizer palavra e os três cavaleiros galoparam para o lugar de onde havia partido a voz.
Quando se aproximaram ouviram o ruído de uma disputa e a voz de uma mulher misturada com a da criança e vários homens.
De súbito, ao dobrarem a curva na base de uma pequena elevação, uni espetáculo lamentável apareceu-lhes à vista.
Quatro homens brancos procuravam dominar unia rapariga índia, que se defendia bravamente com unhas e dentes, enquanto duas crianças de uns doze anos de idade, pertencentes à mesma raça, procuravam ajudá-la na medida das suas forças.
Os brancos, ao ouvirem os cascos dos cavalos que se aproximavam, soltaram a rapariga por um momento e deitaram mão aos seus revólveres.
Len disparou rapidamente, quase sem apontar e dois daqueles bandidos morderam o pó para não mais se levantarem.
Os outros, impressionados pela certeza daqueles tiros, não esperaram mais e, saltando para as suas montadas, cravaram furiosamente as esporas lançando-se num galope desenfreado...
Quando Len e os dois vaqueiros chegavam perto dela, a rapariga, abraçada aos dois pequenos, chorava.
Só levantou a cabeça quando Len, dirigindo-se carinhosamente a ela, lhe perguntou:
— Quem eram esses homens?... Porque a atacavam?...
— São homens maus... — disse a índia. — Estão sempre a rondar a nossa terra e perseguem todas as mulheres... oh!...
E a rapariga continuou a chorar ainda mais que antes.
Len aproximou-se dela e acariciou-lhe pensativamente a cabeça. A rapariga sorriu através das suas lágrimas.
— Len!... — disse um dos vaqueiros. — Estes dois homens pertencem ao rancho do senhor Provost...
— Esse bandido! — exclamou Len, enfurecido. Depois, dirigindo-se à rapariga, perguntou: — Pertences à tribo «semínola»?...
— Sim... Meu pai é «Chifre de Búfalo», o filho do grande chefe «Pluma Negra»... O meu nome é «Raio de Lua»...
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— Vamos, rapariga, levar-te-ei até à vossa povoação...
A jovem deixou-se levar e, seguidos pelos dois peque-nos, encaminharam-se para o acampamento índio.
Len e a rapariga iam um ao lado do outro, conversando sobre o acontecimento enquanto os dois vaqueiros se riam com a conversa dos pequenos peles-vermelhas.
Ao chegarem ao acampamento, dando uma volta para não passarem em frente da casa do agente, foram recebidos pelos olhares de surpresa dos índios.
«Raio de Lua» guiou-os até ao «wigwan» de seus pais e os três homens ficaram surpreendidos ao contemplar a esposa de «Chifre de Búfalo».
Em frente deles, sentada ao lado do esposo, encontrava-se uma mulher completamente diferente das outras índias.
Embora vestisse da mesma maneira que as demais índias da sua tribo, a sua pele, queimada pelo sol e pelos ventos, era a de uma mulher branca.
A mulher, que aparentava uns cinquentas e seis anos de idade, mostrava ainda no rosto sinais de uma grande beleza.
Os dois vaqueiros olharam surpreendidos para Len mas este, contemplando fixamente a mulher, não os viu.
«Raio de Lua» falou rapidamente no idioma da sua raça com os pais e Len ouviu-a explicar tudo o que acontecera e a sua intervenção final.
Logo que a rapariga acabou de falar Len disse na mesma Língua:
— O que fiz não tem importância. Não podemos consentir que essa espécie de abusos se cometa na maior impunidade.
— Conheces a nossa língua — disse «Chifre de Búfalo» em inglês. — Compreendeste tudo o que disse minha filha. O povo «seminola» nunca esquecerá este favor que lhe fizeram... Se todos os homens brancos tivessem o vosso nobre coração, não haveria o ódio que separa as nossas raças...
Antes que pudessem responder entrou «Pluma Negra» na tenda e disse para Len:
— «Pluma Negra» está em dívida para com o homem branco...
Len olhou uma vez mais a mulher que permanecia silenciosa e submissa e voltou-se para o chefe índio.
— Gostaria de falar com o chefe dos «seminolas»... particularmente.
Este indicou-lhe, com um gesto, que o seguisse e, uma vez dentro do «wingwan» de «Pluma Negra», o rapaz perguntou:
— Quem é essa mulher branca que vive com o teu povo?
O velho chefe não pareceu surpreendido com a pergunta.
Olhou para Len com bondade e disse:
— É a «squaw» de meu filho...
— Eu sei. Mas..., como veio viver convosco?
— É uma história que pertence ao passado. Não se deve mexer nunca nas cinzas, pois o fogo pode reacender-se... ~ente guardando silêncio se conseguirá que a dor não cause feridas nos corações dos nossos entes queridos... O irmão branco compreende-me..., não é verdade?
Len compreendeu que não lhe conseguiria arrancar uma palavra mais e despediu-se deles.
Inclinou-se diante da esposa de «Chifre de Búfalo» e disse-lhe:
— Se me permitirem, voltarei a visitá-los...
O filho do chefe índio abraçou-o.
— O nosso povo receber-te-á sempre que o desejares, com os braços abertos. És um irmão nosso...
Len olhou para «Raio de Lua» e sorriu.
A índia ruborizou-se e baixou a vista.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

PAS753. Um pau cravado na terra

A «Grande Corrida» havia começado!
A terra virgem, que era o Território Ilidi°, foi rapidamente invadida, pisada e atravessada por aqueles milhares de pessoas que se iam apoderar dos dois milhões de acres (1) cedidos pelo Governo.
Os «cherokees», «creeks», «seminolas», «choctaws», «chickassaws» e «cheyennes» contemplaram, das suas «reservas», a invasão que o homem branco fazia pelo seu território, encurralando-os uma vez mais...
Os dois amigos e a rapariga cavalgavam na mesma direção, enquanto os outros se estendiam pela pradaria, tratando de chegar em primeiro lugar aos melhores terrenos.
Ao fim de várias horas pararam os cavalos. Diante dos seus olhos alongavam-se hectares e hectares de pastagens verdes, formadas por erva alta que havia crescido livremente naqueles terrenos selvagens.
O lugar onde estavam era ideal para formar um rancho, pois um ribeiro que descia dos prados mais altos proporcionava a água necessária para o gado.
Assim o compreenderam os três que, desmontando, mediram os 160 acres que correspondiam a cada um.
Depois, cravando um pau na terra, em cuja extremidade haviam prendido um lenço, tomaram posse simbólica das respetivas parcelas.
Uma vez feito isto, Len contemplou, pensativo, os dois jovens e disse-lhes?
— Este lugar é ideal para organizar uma bela ganadaria. Cada uma das nossas parcelas poderia, só por si, constituir um pequeno rancho, mas, se formarmos uma sociedade, unindo as nossas parcelas, em vez de nos empenharmos em trabalhar isolados conseguiremos formar um dos ranchos mais importantes desta nova terra e, nele, a melhor ganadaria do Oeste...
— Sabes que viemos juntos e continuaremos juntos até ao fim, Len — disse Tyler. — O que achares melhor é o que eu aceito de antemão...
Sorrindo, Len voltou-se para Polly:
—E tu que dizes!... Concordas com esta sociedade?...
Antes de responder a rapariga olhou rapidamente para Tyler e, ao observar o seu rosto ansioso, sorriu:
— Creio que é o melhor que tenho a fazer... sozinha, não poderia lutar para o conseguir!
 
(1) Acre, medida de superfície equivalente a 0,40467 hectares. (N. do A.).

domingo, 28 de maio de 2017

PAS752. À espera da grande corrida

Os quatro homens, levando cada um pequeno saco às costas, saíram do armazém apontando os seus revólveres para o interior do estabelecimento.
Montaram os seus cavalos e partiram a galope, no momento exato em que, do armazém, saía uma figura ridícula, com um revólver na mão disparando desesperadamente e com fraca pontaria contra os que fugiam...
As centenas e centenas de forasteiros que, naqueles dias, chegavam continuamente a Medicine Lodge, contemplaram a cena com indiferença.
Ninguém se preocupava com o que sucedia aos outros.
Todos tinham um pensamento fixo, uma obsessão que se impunha a qualquer sentimento de solidariedade ou de indignação perante o roubo... e o crime.
Tinham de chegar à fronteira antes da data indicada.
Para isso, alguns cavalgavam há mais de seis dias mal dando descanso às montadas e, consequentemente, mal repousando os seus maltratados corpos.
Todavia, dois jovens altos, com os rostos curtidos pelo sol e pelo vento, aproximaram-se daquele homem baixo, completamente calvo e com um bigode farto, perguntando-lhe:
— Roubaram-no, amigo?
O comerciante voltou-se e olhou-os com simpatia. Era a primeira frase amável que ouvia desde que se anunciara que a fronteira ia ser aberta e começaram a entrar na cidade forasteiros de todos as espécies...
— Levaram mais de quinhentos dólares em comestíveis!... Os bandidos querem ir bem fornecidos de viveres para o Território Índio, sem gastar um centavo... Se lhes volto a pôr a vista em cimal...
Os dois jovens sorriram.
— Será difícil encontrá-los, amigo...!
E não se enganavam.
Eram milhares e milhares as pessoas que, abandonando a sua terra, se dirigiam para a fronteira.
Vinham de Arkansas, Colorado, Iowa, Texas, Minnesota... E em todas as cidades próximas da fronteira aconteciam coisas parecidas.
Em Ashland, Wellington, Meade... foram muitos aqueles que carregaram as carroças ou encheram os alforges das suas montadas com víveres, picaretas, pás, machados... oferecendo como única moeda de curso legal, para pagamento, o chumbo das suas armas...
Os aventureiros de todo o mundo tinham marcado encontro na fronteira e não havia força humana capaz de deter aquela avalancha dominada pela excitação da aventura naquele território desconhecido e pela ambição de enriquecer quanto antes.
— Creio que podemos parar para bebermos um trago!...
— Não podemos, Tyler. Temos de chegar à fronteira antes que os soldados disparem as suas espingardas para o ar...
O chamado Tyler olhou para o seu companheiro e, encolhendo os ombros, exclamou:
— Continuemos, pois...
Aquilo parecia um rio humano.
Montada em cavalos, subida nas carroças, carros e toda a espécie de veículos; a pé ou arrastando atrás de si um pequeno burro carregado até não poder mais com tudo o que considerava necessário para a sua nova vida, aquela gente não tinha um momento de hesitação na sua rota para o desconhecido.
Tyler e Len chegaram à fronteira ao anoitecer e contemplaram fascinados o espetáculo que se oferecia aos seus olhos.
Uma fila interminável de aventureiros preparava-se para passar a noite naquele terreno deserto, longe de qualquer cidade.
Havia mulheres com crianças, de mãos duras e rostos enrugados; jovens vestidas com trajes de vaqueiro, cuja única propriedade era o cavalo que as levaria para a sua nova terra; homens de rosto indescritível e de idade indeterminada...
Toda aquela enorme multidão se estendia por larga faixa de terra, de milhares de milhas de longitude...
Desde Englewood até Chepata passando por Kiowa, Caldwell... e todas as povoações próximas da fronteira, o rio humano descia até ao limite marcado pelo governo da União onde os soldados montavam guarda e lutavam para conter os mais impacientes.
Na mente de todos estava gravada uma data: doze de Abril de 1889.
As doze horas em ponto daquele dia, os soldados dariam o sinal e, com este sonho, a legião de aventureiros de todas as nacionalidades preparou-se para passar a última noite de espera.
Todas as conversas giravam em torno do novo dia e do que os esperava quando o sol abrisse caminho através da escuridão e brilhasse com força...
Tyler e Len tiraram as selas aos cavalos e estenderam as mantas no chão, descansando a cabeça na sela de montar.
Próximo de eles, uma rapariga fez a mesma operação.
Estava só no meio daquela barafunda humana e não dava o menor sinal de perturbação.
Tyler contemplou os preparativos em silêncio, admirando a esbelta figura da rapariga e a beleza do seu rosto.
O cabelo negro e ondulado estava recolhido dentro de um chapéu de aba larga.
Não aparentava mais de vinte anos e a descontração dos seus movimentos e decisão que se via nos seus grandes olhos negros chamaram a atenção de Tyler...
—Já tem a sua terra escolhida?... — perguntou quando a rapariga se deitou, contemplando o firmamento.
Esta voltou-se surpreendida para Tyler e pareceu estudá-lo com o olhar antes de responder.
— Creio que quase todos os que aqui estamos o fizemos já, não é assim?
Tyler sorriu ante aquela resposta.
— Não procurava saber onde está situada... — disse. — Mas admiro-me de a ver só nesta estranha aventura... Não tem nenhum parente... ou amigo que a defenda ?...
— Se lhe interessa saber, dir-lhe-ei que não tenho ninguém... Estou só e, por isso mesmo, aprendi a cuidar de mim mesma. E agora agradecia-lhe que me deixasse dormir. O dia de amanhã será muito duro...
As palavras da rapariga, delicadas mas frias deixaram Tyler sem ânimo para continuar a insistir.
Olhou para ela furioso, quando a seu lado soou uma risada de Len.
— Deu-te o que merecias por seres curioso, Tyler!... — exclamou.
— Vai para o inferno!... — resmungou o amigo.
O tom da sua voz fez sorrir a rapariga.
Minutos mais tarde esta voltou a olhar para o lugar onde estavam os dois amigos e contemplou, interessada, o rosto agradável e sereno de Tyler enquanto este dormia.
Pouco a pouco foi adormecendo no meio do silêncio que reinava em toda a fronteira.
A noite ia adiantada e o bulício anterior havia dado lugar à serenidade, quando Tyler e Len acordaram sobressaltados ao ouvir o relincho dos seus cavalos...
A lua iluminava a cena e viram quatro sombras que procuravam arrastar atrás delas os três cavalos carregados com as provisões que Tyler, Len e a rapariga levavam para a sua aventura.
Ao vê-los, puseram-se em pé de um salto.
— Querem que os ajudemos?... — perguntou Len ironicamente.
Os quatro ladrões pararam ao ouvir a sua voz.
— Larguem esses cavalos!... — ordenou Tyler.
— Oiçam, rapazes... — respondeu um daqueles homens. — Só nos interessam os víveres e os animais... Não temos qualquer interesse em lhes tirar também a vida mas, se...
— Não levarão mais que chumbo, se não obedecem com rapidez! — interrompeu Tyler.
Mas aqueles homens estavam decididos a levar o que tinham em seu poder.
Como única resposta as suas mãos desceram com rapidez aos coldres.
Não haviam contado, porém, com o inimigo que tinham pela frente.
As armas de Tyler e Len vomitaram chumbo antes que qualquer deles pudesse «sacar».
Enquanto os ladrões caíam por terra e o seu sangue se misturava com a areia vermelha, os dois amigos aproximaram-se dos cavalos.
O ruído dos tiros despertou vários aventureiros que olharam com indiferença para os cadáveres.
Os seus olhos cravaram-se nos dois jovens e, após alguns segundos, desinteressaram-se completamente do que havia sucedido à sua volta.
A rapariga estava levantada quando se aproximaram levando os animais à rédea e olhava grata e admirada para eles.
— Aqui tem a sua montada... Como vê, ainda necessita da ajuda de estranhos!... — disse Tyler, com ironia.
Len, sorrindo, deitou-se no chão, vendo como o amigo se afastava da rapariga.
Olhou para ela e notou, pela sua expressão, que ia dizer qualquer coisa. Mas depois, fazendo um gesto de desgosto, guardou silêncio enquanto acariciava o animal...
Mal havia nascido a manhã quando toda aquela multidão quebrou o silêncio com os gritos, risos e pragas.
Como se faltassem cinco minutos para a hora marcada em vez de várias horas, que lhes pareceriam intermináveis, uma atividade febril apoderou-se de toda a fronteira.
Guardavam-se rapidamente os utensílios; obrigavam--se as crianças a subir aos carros; engatavam-se os cavalos e os homens subiam à. boleia empunhando as rédeas com impaciência.
Tiveram, porém, de lutar contra o desejo de penetrar quanto antes na terra prometida.
Ninguém podia atravessar a fronteira e penetrar no território índio antes de soarem os tiros que anunciariam a partida.
E assim, aqueles milhares de aventureiros tiveram de aguentar durante horas a inclemência do sol que caia desapiedadamente sobre eles.
Não tinham nem um palmo de terra onde houvesse sombra. A fronteira, a planura que se estendia prometedora diante deles, era completamente deserta...
— Lamento ter-me portado ontem tão mal… — disse a rapariga para Tyler na manhã seguinte enquanto preparavam os seus cavalos. — Fui... uma estúpida...
— Todos cometemos erros... menina...
— Polly Leeds... — disse a rapariga, sorrindo. — Acha que os índios ficarão tranquilos ao ver que invadimos o seu território?...
— Se não estão contentes terão de concordar, pelo menos aparentemente — disse Len. — Nas «Reservas» serão bem tratados pelo governo...
— As vezes duvido das razões que nos empurram para este território...
— Refere-se ao acantonamento dos peles-vermelhas? — perguntou Tyler. — Se assim é, estamos de acordo. Toda esta terra que nos é oferecida agora pertence-lhes. Empurrámo-los à força desde a Geórgia e não deixámos de os perseguir até se meterem nesta terra estéril e deserta que o governo lhes designou. Realmente, a colonização do Oeste exige sacrifícios somente a estes seres indefesos...
— Este calor é insuportável!... — exclamou Polly. — Daria qualquer coisa por alguns sorvos de águal...
— Não existe esse liquido em algumas milhas em redor... Estamos numa zona deserta, talvez mais para lá da linha divisória, naquelas pastagens que se veem ao longe, exista algum rio que nos ajude a matar a sede... — respondeu Len.
Realmente o sol era escaldante e a força dos seus raios queimava a pele.
Mas toda aquela gente suportava com estoicismo as inclemências, esperando, ansiosa, o sinal da partida.
Este chegou, finalmente.
Os soldados engatilharam as espingardas do regulamento e dirigiram os canos para o céu...
Naquele momento o nervosismo apoderou-se de todos os presentes.
Os cavalos escarvavam contagiados pela agitação dos seus donos, golpeando a terra dura com os cascos. Os cavaleiros solitários mantinham-se inclinados sobre os pescoços das suas montadas, enquanto os condutores dos carros tinham o braço levantado, segurando firmemente o cabo do chicote.
Os que tinham relógio não afastavam os olhos dos ponteiros, enquanto as mãos se lhes crispavam sobre as rédeas. Chegou, por fim, a hora marcada e os soldados apertaram os gatilhos das suas armas.
Nuvenzitas de fumo levaram-se lentamente... Mas o ruído dos tiros foi amortecido pelo de milhares de cascos que, naquele mesmo momento, começaram a bater na terra freneticamente...

sábado, 27 de maio de 2017

PAS751. Expulsão ou assimilação dos índios

O general Andrew Jackson era um homem modesto. Isto sabiam-no todos os membros do partido democrata que votaram por ele nas eleições de 1829, e aqueles que não votaram na sua candidatura.
Apesar da sua falta de cultura, Jackson foi eleito Presidente dos Estados Unidos.
Talvez o seu carácter houvesse influído nos eleitores; porque Andrew Jackson era um homem duro, desses que, quando se empenham em conseguir alguma coisa, lutam com todas as suas forças e com todo o seu entusiasmo. Educado num ambiente de lutas, paixões e roubos, onde cada homem devia defender com a sua força os sentimentos e fazenda, o general Jackson adquiriu um carácter irascível e quezilento. Não obstante, a rudeza dos seus modos perdia a importância se se tivesse em conta que Andrew Jackson era um autentico homem.
Este carácter duro manifestou-se um ano mais tarde, quando assinou a lei brutal do homem da fronteira em relação às terras que estavam sob o domínio dos índios.
Jackson era de opinião, e não se importava de a manifestar publicamente, que, sempre que os brancos tivessem necessidade de ocupar qualquer terreno que fosse propriedade dos peles-vermelhas, estes deviam abandoná-lo e deixá-lo ao homem branco.
No poder, Jackson, ordenou a expulsão dos índios; a forma não tinha importância. Se fosse necessário, admitia o emprego da violência.
Mas isto não era tão simples como se julgava em Washington.
Enquanto no Noroeste, os índios haviam sido atirados para o outro lado do Mississipi ainda antes de 32, a expulsão dos índios nas terras do Sul apresentava aspeto diferente. Havia qualquer coisa com que não se contava no Senado.
No Sul, os peles-vermelhas pareciam dispostos a assimilar pacificamente a cultura dos brancos e viviam em contacto com eles; desta maneira, e sem o notarem, haviam anulado o pretexto habitual para a sua expulsão e o seu esbulho.
Todavia, este inconveniente não foi tomado em linha de conta pelo irascível Jackson.
Andrew indignou-se ante a atitude claramente pacífica dos índios «creeks», «choctaws», «chicksaws» e «cherokees», que ocupavam ainda mais de uma quarta parte do território pertencente aos Estados de Alabama, Mississípi e Geórgia, assim como os «semínolas», e ordenou a sua expulsão pela força, mesmo contra o parecer do Supremo Tribunal que foi impotente para contrariar a vontade do Gabinete de Jackson.
Em 1830 começou o êxodo destas tribos, até ao ano de 1837 em que foram obrigadas por Washington a instalar-se e a viver numa demarcação de terreno que lhes foi indicada e a que chamavam Território Índio, situado entre Texas e Kansas.
Mas os «semínolas» não se conformaram com esta decisão e, talvez devido ao facto de levarem uma vida nómada, ofereceram uma tenaz e desesperada resistência à invasão do homem branco.
Isaiah Turker foi um, entre numerosos colonos, fazendeiros ou agricultores, que pagaram com a vida a ambição dos seus companheiros de pele branca.
Foi em 1840 que se viu desagradavelmente surpreendido ao divisar as silhuetas de vários índios semínolas sobre um monte próximo. Assustado, correu para a sua casa de troncos, onde estavam sua mulher e sua filha Edith, de sete anos. Porém, mal havia fechado a porta atrás de si, ouviu uma gritaria ensurdecedora que se aproximava da rústica vivenda.
Apesar disso, Isaiah só teve um pensamento: salvar Edith.
Para isso, não hesitou em saltar pela janela traseira da casa com a criança nos braços e em a meter num dos barris vazios que serviam para a água.
Quando regressou para junto da mulher esta perguntou:
—Escondeste a menina, Isaiah?... Estás certo de que não a encontrarão?
A resposta do homem foi serena:
--Duvido que a possam encontrar, mas Não sei o que será melhor para elal... Ali pode morrer de fome e de sede...
Os gritos dos índios galopando à volta da casa impediram-nos de continuar a conversar.
Os tiros do casal causaram algumas baixas entre os selvagens, mas não eram suficientemente rápidos e numerosos para conter a avalancha que lhes caía em cima.
Isaiah compreendeu que não podiam resistir por muito tempo ao ataque dos índios e olhou para a mulher. Esta disparava com grande sangue-frio, sem se preocupar com a sua vida.
Isaiah sentiu medo pela mulher, ao ouvir as pancadas do tronco usado pelos índios como ariete improvisado contra a porta.
A madeira estava quase a ceder...
Impulsivamente, Isaiah disparou todo o carregador do seu revólver contra as costas da esposa, no desejo de lhe evitar o tormento dos selvagens...
A porta caiu e, pela abertura, apareceram muitos rostos pintados, olhando-o com ódio
Isaiah lançou-se decididamente contra aqueles seres odiosos, levado por um irresistível desejo de vingança...
Vários «tomahawks» desceram com rapidez e caíram sobre a sua cabeça.
Depois, os «semínolas» prenderam fogo à casa no meio de gritos ferozes.
Um dos selvagens ouviu chorar a criança e aproximou-se cautelosamente. Levantou a tampa do barril e ergueu o braço armado com um «tomahawk» para descarregar o golpe mortal, quando se viu interrompido por uma ordem seca:
— Quieto!... Cachorro de branco vir «wigwan» (1) «Pluma Negra»...
Desta forma, Edith Turker passou a formar parte, como um membro mais, da tribo «semínola», vivendo e crescendo na companhia de «Chifre de Búfalo», o jovem filho do chefe «Pluma Negra»...
(1) «Wigwan»: Cabana fixa dos peles-vermelhas.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

BUF139. A grande corrida

(Coleção Búfalo, nº 139)
 
Esta novela trata mais uma vez da colonização do chamado «Território Índio» e consequente formação do Estado De Oklahoma. Três jovens, dois rapazes e uma rapariga que dizia saber cuidar de si, decidem participar na grande corrida e, posteriormente, unir esforços para ter êxito nos espaços que acabaram por escolher, sob o olhar cabisbaixo dos anteriores habitantes.
Como é natural, entre todos os que se estabeleceram estavam indivíduos pouco honestos e grande parte da novela é passada em fanfarronices estre os três jovens e a seita de malvados as quais acabaram num duelo favorável aos «bons». Para além deste aspeto de menor interesse, há, no entanto, o cruzar da novela com os resultados com um conflito com os índios, onde se vem a descobrir que a esposa de um grande guerreiro é uma branca raptada muitos anos antes quando ainda era criança. Criada entre os índios, os seus filhos acabaram por encontrar naqueles que chegaram um acesso à vida em «civilização».
 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

PAS750. Confissão

Eu, Oliver Charington, de cinquenta e quatro anos de idade, em perfeito uso das minhas facul-dades mentais, declaro o seguinte:
Ao ter conhecimento do projectado enlace de minha filha com um dos meus vaqueiros, de nome Percy Tilling, decidi-me a impedir que ele se rea-lizasse. Não queria que ninguém me disputasse o carinho de minha filha. Depois de averiguar que iriam viver longe de mim, logo que se casassem, tomei uma resolução.
Em São Luis, um dos meus compradores falou-me de Frank Carter, prevenindo-me contra ele, por se dedicar à venda de gado inexistente...
Pus-me em contacto com Frank Carter. Então, incumbi-o de assustar Tilling por meio de amea-ças escritas e atentados, na esperança de o fazer sair de Cairo. Por uns meses, o pistoleiro, por mim contratado, viveu escondido num dos barra-cões de Ohio. Ante a inutilidade dos nossos esfor-ços, resolvi mandar eliminar Percy. Como? Eu não encontrava solução. Sucedeu, porém, que Dormont Hobart veio pedir-me a mão de minha filha. Este facto fez-me conceber um plano do qual resultaria a morte dos dois rivais. Frank Carter apoderou-se de um revólver de Hobart, deixando-o cair no maisal, para que Tilling o descobrisse. Tudo sucedeu conforme eu previra. O noivo de Dorothy era um jovem impetuoso. Logo acusou Dormont de tentar assassiná-lo, e, como desforra, ameaçava-o de morte. Carter com-pletou o resto. Deitou um narcótico índio na garrafa de uísque. O meu cúmplice não teve dificuldade em sair do «saloon», na companhia de Tilling. Logo que este caiu sem conhecimento, Carter tomou-o nos braços e conduziu-o às ime-diações da casa de Dormont Hobart. Vigiou então a sua futura vitima, que trabalhava no escritório. A janela estava aberta. Carter, logo disparou com um dos revólveres de Tilling. Depois pegou no jovem desmaiado e levou-o para o escritório de Darmont, já assassinado. Frank, que era hábil no crime, colocou na mão de Tilling o revólver e de tudo se ocupou sem complicações. Os crimes foram perpetrados com rapidez...

 
— Pai! — exclamou Dorothy, num soluço, que era um grito de angústia — Para que fizeste isso ? Para quê ? Oliver Charington não respondeu à filha. Limitou-se a dizer ao capataz: — Continua, Ted. Falta pouco. A Providência casti-gou-me com o que eu temia. Dorothy abandonou-me para ir contigo libertar Percy. As minhas cãs e a morte que se aproxima são frutos dos meus torturantes remorsos. Frost proseguiu a leitura:
 
Logo que eu soube da fuga de Tilling e que a minha filha o acompanhava, só tive uma ideia: era necessário que alguém matasse Percy, a fim de Dorothy regressar a casa. Chamei Frank Car-ter e mandei-o perseguir o fugitivo. O meu pro-cedimento foi indigno. Por este, motivo, faço a presente declaração. Nada justifica os crimes cometidos contra Dormont Hobart e Percy Tilling, de que eu, de cumplicidade com Frank Carter, sou completamente responsável. Que Deus e a minha filha me possam perdoar.

terça-feira, 23 de maio de 2017

BUF137. Vidas cruzadas

(Coleção Búfalo, nº 137)
 
Percy era um jovem vaqueiro do rancho de Oliver Charington e tinha uma paixão pela filha deste, Dorothy, a qual lhe correspondia.
Um dia, Percy começou a receber ameaças e chegou ao ponto de ser alvejado. Curiosamente, descobriu uma arma no local de onde tinha partido o disparo a qual tinha as iniciais de um outro pretendente da jovem, Dormon Horbart. Calcula-se a reação do rapaz e tudo ficou mais complicado quando Hobart apareceu morto.
Percy foi preso e condenado à morte. Com a ajuda do capataz, Ted, e de Dorothy escapou da prisão e acabou por se estabelecer num outro Estado da União, enquanto os outros pensavam que ele tinha sido morto pelos índios.
Ted e Dorothy acabaram por se apaixonar e unir e um dia a rapariga vem a saber quem tinha estado na origem de toda aquela embrulhada na sua vida…
Eis uma narrativa muito interessante de Alar Benet da qual vos deixamos a confissão do responsável pela grande mudança na vida de Dorothy.

domingo, 21 de maio de 2017

PAS749. O apelo da honestidade

Cinco horas depois aqueles homens não pareciam os mesmos, ao entrarem no «rancho» em que residia Corver.
No momento em que penetraram no salão recebeu-os uma quente salva de palmas. Helen, acompanhada por seu pai, deu-lhes as boas-vindas.
Luci, ao lado de Paul, estava radiante como nunca. Do seu rosto haviam desaparecido os vestígios do cansaço, e a sua figura esbelta desenhava-se perfeitamente graças ao vestido que lhe emprestara a filha do anfitrião.
Estavam reunidos todos os criadores de gado da região e as autoridades das povoações próximas.
— Agrada-te sentires-te honrado, Pierre? — perguntou Stevens, em voz baixa, que se apercebeu do efeito que haviam causado as suas palavras.
Pela primeira vez Pierre sentia o verdadeiro prazer da honradez. Não era a segurança que ele procurava numa vida retirada e tranquila. Era a satisfação, o sentir-se acarinhado pelo facto de ser honrado. Também ele, quando se inteirou de que havia salvado duzentos mil dólares, sentira passar-lhe fugazmente pela cabeça a ideia de que o melhor teria sido mudarem de direção e levarem o dinheiro. Estava certo de que no cemitério de Saint Cloud não havia uma quantia semelhante.
Naquele momento a orquestra, de cinco elementos, atacou os compassos alegres de uma canção vaqueira. Helen sorriu a Paul, o que estava mais próximo, e este convidou-a a dançar. Deram as primeiras voltas sozinhos. Depois Stevens passou o braço pela cintura de Luci e ambos se reuniram ao par que dançava.
Uns compassos mais e amplo solão ficou cheio de pares.
Era a primeira vez que Stevens abraçava Luci. Sentia o seu corpo muito perto e uma estranha sensação de felicidade envolvia-o. Era uma sensação rara, que poucas vezes havia experimentado. Os seus olhos encontraram os dela e por instantes ambos sustentaram os olhares. Depois, quase ao mesmo tempo, baixaram a vista e deixaram-se embalar pela música.
Quando terminou aquela dança, Helen foi buscar Stevens e dançou com ele. Depois fez o mesmo com Jim e Pierre.
Seis números de dança depois, a orquestra atacou um «glanfond». Os sons rápidos encheram o salão e os pares movimentaram-se, ágeis. A cada quatro voltas as mulheres desprendiam-se dos braços dos respetivos pares e mudavam para outros.
Numa dessas mudanças Luci foi parar aos braços de Stevens. Giraram uma vez, adiantaram-se com dois passos curtos e voltaram a girar duas vezes. A quarta, os braços retiveram-se fortemente e não a deixaram fugir.
Stevens fê-la dar umas voltas mais e, aproveitando o facto de estar próxima a porta do jardim, conduziu-a para a saída.
Luci, entontecida pelas voltas, abanou a cabeça e riu.
-- É a primeira vez que a oiço rir, Luci — disse Stevens.
— E admira-se? — perguntou a rapariga. — Não creio que alguma mulher possa estar muito alegre durante uma viagem de quatro dias, suportando um sol terrível e comendo sempre o mesmo.
— Lamento-o, mas todos temos pressa de chegar a Saint Cloud.
— Fica a quatro milhas daqui, que é como se dissesse na esquina mais próxima... Está mais tranquilo?
— Não! Não creio que a nossa aventura termine ali.
— Então onde?
— Não sei, mas estou certo de que nem todos aceitarão o fim que eu quero impor.
— Nem todos? Se é verdade o que disse creio que nenhum o aceitará.
— Um, talvez: Pierre. No fundo é um homem formidável, que está agora a viver um dos momentos mais agradáveis da sua vida, sentindo-se honrado. Não é todos os dias que se tem a oportunidade de devolver duzentos mil dólares.
— Quer dizer que a presença de Helen não influi nestes momentos agradáveis para Pierre? — perguntou Luci, com malícia.
— Pode ser... Pierre é um bom homem e necessita de alguém que o ame. Pode encontrar o amor em qualquer sítio, onde menos se imaginar, num salão, a dançar, ou num jardim, passeando ao luar.
Luci fitou Stevens.
— Que quer dizer? — perguntou, por fim.
— Luci, permite-me uma pergunta?
— Faça-a sem receio. Imagino qual será.
— Ama Paul?
— Vejo que não me enganei. Esperava essas mesmas palavras. Melhor dizendo, se pretende a verdade, não de um modo tão direto, mas a mesma ideia...
— E que responde?
-- Não. Não o amo.
— Então... porque casa com ele?
— Paul é o poder em Dorming e encheu o nosso «rancho» de pistoleiros, que lhe são fiéis e dedicados.
— Poucos devem restar. Deixámos um montão de mortos à entrada do «rancho» quando fugimos.
— Sim, isso alegrou-me bastante... Há anos, quando se apresentou no nosso «rancho», à procura de trabalho, pareceu-me simpático. Eu era uma rapariga jovem e inexperiente e agradou-me, não posso nega-lo, o aspeto de Paul. Ajudei-o em tudo o que pude e, sem me aperceber, fui-me enamorando dele. E ele foi-se impondo cada dia mais nas questões do «rancho» até chegar a tornar-se imprescindível e ocupar o lugar de capataz, depois de matar o que tínhamos, um homem que nos havia sido fiel durante quinze anos. A sua rapidez no manejo das armas foi o que primeiro me fez pensar que o seu passado não era tão limpo como devia ser o de um lie/nem honrado... ou, pelo menos, o de um homem que merecesse ser meu esposo. Depois, meu pai ficou paralítico e a partir daquele momento a única vontade que imperou ali foi a sua. Se não casar com ele estou plenamente convencida de que meu pai morrerá assassinado.
— E estava disposta a casar-se para salvar a vida de seu pai?
— Sim, e ainda o estou.
— Creio que não será necessário o seu sacrifício, Luci; durante estes dias, tenho-me ido apercebendo de muitas coisas. Cavalgámos juntos muitas milhas e tive tempo de observar e de anotar todas as suas reações... Luci, eu creio que... — Stevens pigarreou uns momentos e engoliu em seco. Era-lhe difícil exprimir o que sentia — ... Luci, olha... tenho-te observado desde que deixámos o «rancho» e...
— Sim, já o disseste... e depois?
Era a primeira vez que se tratavam por tu.
Na semiobscuridade viam-se os olhos dela, suspensos do movimento dos lábios de Stevens.
—Luci, creio que... que te...
— Que...? — perguntou ela, num sussurro, apercebendo-se da sua vacilação.
Stevens voltou a pigarrear.
Naquele momento ouviram-se passos perto. Voltaram--se e viram Pierre e Helen caminhando lentamente pelo jardim.
Stevens sorriu ao vê-los.
—De que te ris—perguntou-lhe Luci.
— De Pierre. Pensava nele. li um bom rapaz e...
-- Já o disseste há pouco — interrompeu ela.
De repente, Stevens pareceu despertar.
— Vamos dançar? — perguntou.
A sua voz voltara ao mesmo tom de antes, quando no salão tinha ido buscá-la para dançar.
Ao reentrarem no salão, os olhos de Stevens procuraram Paul. Estava a um canto, conversando com Corver. Depois, seguindo o rancheiro-banqueiro, subiu as escadas e desapareceu por uma porta.
— Não receias que o meu futuro esposo fuja? — perguntou ela, com ironia.
— Não, estás tu aqui e o cemitério a poucas milhas. São duas garantias que me fazem estar seguro.

sábado, 20 de maio de 2017

PAS748. Convite para o festejo

— Sabem o que impediram ? — perguntou Jackson aos quatro homens.
Passeava lentamente no seu escritório, fumando um charuto. A sua maneira de andar era decidida, os gestos tinham o cunho especial que predomina nos homens enérgicos. Sobre o peito brilhava-lhe uma estrela de xerife.
— Ignoramo-lo, xerife, mas percebemos que havia quem necessitasse da nossa ajuda e acudimos a prestá-la — replicou Jim, falando lentamente, com cautela. Os seus olhos não perdiam um único gesto do xerife.
Sentado sobre a mesa estava outro homem, Corver. A seu lado, sorrindo, estava Helen Corver, a rapariga que umas horas antes tinha sido assaltada.
— Pois eu lho direi — disse Corver. — Se os bandidos lograssem o seu propósito levavam mais de duzentos mil dólares.
Os olhos de Paul procuraram por um instante Stevens. Este percebeu o que aquele olhar significava.
— Duzentos mil? -- perguntou Pierre, incrédulo.
— Sim. Vinham destinados a mim, ao meu Banco particular, enviados pelo Firts National Bank.
— O quê?
— Caramba, Stevens! Parece que se assusta... O Firts National, uma das entidades bancárias mais poderosas de todo o Oeste. Se este roubo tivesse sido bem-sucedido representaria um golpe duríssimo para o Firts... e para mim. Enviaram-me este dinheiro para efetuar os pagamentos da compra de gado nesta região e perdê-lo representava um prejuízo que eu não poderia suportar.
— Duzentos mil dólares... quase sem proteção?
— Sim, é um pouco estranho, mas certo. O condutor e o ajudante eram polícias rurais, homens valentes e decididos, que manejavam estupendamente as armas. Eu próprio insisti em que não era necessária maior proteção para não atrair as atenções dos bandidos para a diligência. Verifico que me enganei e que mais alguém sabia da chegada dos dólares.
— Duzentos mil dólares cheiram ao longe — murmurou Jim. — É uma bonita quantia, muito bonita, sim senhor.
— Perdida para mim se não fosse a vossa providencial aparição... Espero que esta noite aceitem presidir, junto de minha filha Helen, à festa que organizei para comemorar a sua chegada. Helen costuma passar largas temporadas longe de Marburg e quando volta o «rancho» adquire uma cor diferente. Tudo se modifica quando ela não está aqui, e eu gosto de a receber como merece: com uma festa em que todos podem vê-la e invejar-me por ser seu pai.
Os quatro homens entreolharam-se, hesitando quanto ao que deviam fazer. Na realidade, sentiam-se obrigados a aceitar o convite.
— Bem, creio que não fará mal uma festa — murmurou Jim.
— Se, primeiro, nos conseguirem um sitio para nos lavarmos e arranjarmos um pouco. Creio que devemos parecer mendigos.
— E se me emprestam ou me compras outras roupas... Não posso ir a nenhum lado desta maneira — disse Luci, apontando para as suas vestes, sujas e cheias de poeira.
— Por isso não deve preocupar-se. Tenho cá muitos vestidos que lhe ficarão bem e que quase não tenho usado... Aceita a oferta? — perguntou Helen.
— Sim, obrigado.
O grupo saiu para a rua, onde ainda se conversava e discutia. Colocados debaixo do um telheiro, cobertos por lençóis, estavam os três cadáveres dos homens que tinham pago com a vida o transporte dos duzentos mil dólares.
Atravessando por entre os grupos, que se abriam à sua passagem, dirigiram-se para o edifício que se erguia defronte do escritório do xerife. Era o «Hotel Wild West».

sexta-feira, 19 de maio de 2017

PAS747. Assalto frustrado por quatro homens maus

Helen passou o lenço pelo rosto belo. Depois, ao examiná-lo, reparou que tinha ficado sujo de poeira e de suor.
Olhou pelas janelas da diligência. Não lhe era agradável viajar naquela época, com aquele sol e aquelas nuvens imensas de poeira, que se colava em toda a parte.
Abanou-se com o lenço. Observou os companheiros de viagem. Havia dois homens, um deles elegantemente vestido e de maneiras esmeradas, e uma velha que, desde o início da viagem, não se movera nem um centímetro do seu canto.
Voltou a olhar pela janela. Diante dela desfilava uma paisagem dura, seca, poeirenta, entre montanhas.
Abanou-se de novo.
De repente sentia estalar o chicote e depois o relincho furioso dos cavalos, relincho dolorido provocado pelo freio a ser puxado para trás bruscamente. A diligência estacou de chofre e, no interior, os quatro ocupantes foram sacudidos com violência. A velhota, que não se havia movido, saltou, projetada, sobre um dos passageiros. Helen agarrou-se à janela para não rolar sobre o outro.
— O que se passou, condutor? — perguntou este, assomando a cabeça à janela.
Não foi necessária resposta para compreender.
— Desçam e não façam disparates! — disse-lhe uma voz, ao mesmo tempo que abriam a porta.
Helena ficou com a respiração paralisada pelo susto durante uns segundos. Na sua frente estava um homem mascarado, do qual apenas via os olhos, negros e brilhantes, e que empunhava um «Colt».
— Desçam! — repetiu.
Todos obedeceram. A velhota tremia dos pés à cabeça.
Mais três homens rodeavam a diligência. Um deles estava armado com uma espingarda de repetição. Os outros dois mantinham-se também empunhando armas.
O condutor e o ajudante continuavam sentados na boleia, de chicote na mão.
Um dos mascarados aproximou-se dos passageiros.
— Peço-lhes que não façam disparates e que me entreguem todos os valores... Será preferível a ter de revistá-los eu. E aviso-a, senhora, que seria um prazer fazê-lo.
— Canalha! — gritou Helen, sem poder conter-se.
— Dito por si, parece-me um galanteio. Quer repetir para que tenha o prazer de sentir-me deleitado de novo? — na voz do homem notava-se um acento frio que não pressagiava nada de bom.
— Canalha! Porco! — voltou a gritar a rapariga.
Não pôde continuar. Uma bofetada terrível estalou-lhe na face, e por momentos tudo andou à roda em seu redor, sem conseguir localizar nada. Mergulhada naquele turbilhão alucinante viu o homem elegante e esmerado com quem compartilhara a viagem lançar-se como um furacão contra o mascarado.
Aos seus ouvidos ressoou um disparo. Depois, tudo pareceu acalmar-se e a dança maldita terminou.
No chão, quase a seus pés, estava o corpo de um homem assassinado.
Os outros três aproximaram-se lentamente.
— Teria sido preferível evitar isto — disse um deles.
— Não pude.
Um dos mascarados, servindo-se do pé, deu uma volta ao cadáver. O seu rosto ficou virado para o céu, com a boca estranhamente aberta e os olhos vítreos. Um fio de sangue escorria-lhe entre os lábios.
— Não percamos mais tempo — disse. Depois, dirigindo-se ao condutor e ao ajudante, acrescentou: — E vocês, desçam, que precisamos de rebuscar debaixo dos vossos assentos!
Os interpelados moveram-se lentamente.
— Desçam de uma vez, malditos!
O condutor foi o primeiro a obedecer. Apoiou um pé num dos estribos e inclinou o corpo sobre esse pé. Os seus olhos miraram por momentos o que o vigiava. Viu-o a olhar para Helen. Pensou que aquele era o instante apropriado para agir e o seu pé saiu como que lançado por uma catapulta contra o resto do bandido. No mesmo instante, homem de uns trinta anos, saltou como um tigre sobre outros dos bandidos.
O pé do condutor passou roçando a cabeça do adversário. Foi o último gesto que fez com vida. Depois, o desprender-se do assento e resvalar foi já realizado por um corpo morto. Uma bala atravessara-lhe o coração.
O seu ajudante atingiu com um murro terrível outro
dos bandidos, mas não pôde fazer mais nada. Era um contra quatro e lutava sem armas. Tentou voltar-se e desferir novo golpe em outro bandido, mas o punho não chegou ao seu destino. Um tiro soou atrás de si. O corpo enrolou-se sobre si próprio e girou completamente. A mão agitou-se-lhe no ar, mas outro disparo fê-lo cair desamparado no solo.
— Venham, não percamos tempo! — rugiu um deles, o que parecia ter voz cantante.
Dois deles apoiaram-se nas rodas da diligência e no eixo e saltaram para a boleia. Com um sacão arrojaram para longe a manta que cobria a caixa existente debaixo do assento. No espaço aberto surgiu então um cofre.
— Está aqui — murmurou um deles.
— Os sacos! — ordenou o outro.
Tentaram então abrir o cofre, forçando-o, mas não o conseguiram.
— Um tiro, prega-lhe um tiro e abrir-se-á — gritou de novo o primeiro bandido.
Um deles voltou a empunhar o «Colt» e encostou a boca do cano à fechadura.
Soou um tiro.
Todos se quedaram. Helen voltou a cabeça para a direita, de onde soara o tiro. Os bandidos entreolharam--se durante uns segundos. Viram, ao longe, um cavaleiro que se aproximava a galope. Um pouco mais atrás uns metros apenas, aproximavam-se mais quatro.
— Que fazemos?
A velhota continuava a tremer, incapaz de se conter, choramingando. Helen permanecia muda, suspendendo a respiração, receosa de que a determinação que os bandidos viessem a adotar significasse mais cinco mortes.
Os mascarados entreolharam-se. Durante uns segundos hesitaram. Voltou a soar outro tiro. A bala passou silvando muito perto das suas cabeças.
— Que fazemos? — voltou a perguntar um dos que estavam em cima da boleia.
— Vamo-nos — gritou o que parecia ser o chefe.
Os dois homens que estavam no lugar do condutor saltaram. Um deles, ao falhar-lhe- ligeiramente o braço esquerdo, desequilibrou-se de encontro à diligência. Naquele instante o lenço escorregou-lhe e o rosto ficou a descoberto. Um rosto frio, inexpressivo, mas com algo peculiar e inconfundível. O lábio inferior descaia-lhe ligeiramente e dava-lhe um aspeto desagradável.
Segurou o lenço com a mão e correu em busca dos cavalos.
Momentos depois partiam a galope.
Vários disparos mais cruzaram o ar, mas já era tarde para que as balas pudessem cumprir a sua missão.
Quando Stevens chegou ao pé da diligência compreendeu que seria loucura lançar-se numa perseguição. Não havia a menor possibilidade de os alcançar e ainda menos não conhecendo o terreno.
Saltou do cavalo e aproximou-se dos sobreviventes.
— Como se sentem?... Aconteceu-lhe alguma coisa, senhora? — perguntou.
Instantes depois desmontaram Jim, Pierre e Luci. Paul pareceu hesitar uns momentos e por fim também se apeou, aproximando-se dos viajantes que tão desagradavelmente tinham sido surpreendidos pelos bandidos.
A velhota continuava a tremer como se fosse uma folha de árvore, sem conseguir dominar os nervos.
Stevens fê-la subir para a diligência evitar a visão dos mortos.
Depois, ajudado pelos companheiros de colocou os cadáveres sobre a capota do veículo
— Para onde iam? — perguntou.
— Para Marburg... fica a umas três ou daqui — replicou o passageiro que até àquele instante. — Pois acompanhá-los-emos. Nós também vamos para lá.
Stevens fez sinal a Paul para se sentar a seu lado, na boleia. Ao subir, o olhar deste fixou-se no cofre que estava no interior da caixa do assento. Não pôde reprimir um assobio de admiração.
— Viste isto, Stevens? — perguntou.
— Sim.
— Já sabes o que é?
Stevens assentiu com a cabeça. Desagradava-lhe aquela conversa porque pressentia o final.
— A defender esta caixa — continuou Paul — morreram o condutor e o ajudante. Estou certo de que eram eles os únicos que sabiam o que transportavam. E um cofre dos que os Bancos utilizam para transferir o dinheiro de uma região para outra e deixaria cortar o pescoço se não está cheio de dólares.
— Melhor, assim seremos recebidos com mais alegria.
— E porquê sermos recebidos? — perguntou Paul, nervosamente. — Podemos acabar o que os outros começaram e...
— Senta-te e cala-te!
— ...fugimos para longe daqui. Reparaste que é muito dinheiro?... Poderíamos ficar ricos.
— Cala-te!
Ao mesmo tempo, Stevens fez estalar o chicote por cima das cabeças dos animais que, excitados de novo, se lançaram num galope rápido.
Quando a diligência chegou a Marburg, ainda os cadáveres sangravam.
Um grupo silencioso rodeou-os, com curiosidade.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

PAS746. Quatro homens e uma mulher partem à procura de dinheiro

— Vamos! Não há tempo para o amor!
Um relâmpago passou pelos olhos de Jim. Fitou a rapariga. Um sorriso de luxúria, bestial, desenhou-se-lhe nos lábios.
— E você também!... Tornar-nos-á a viagem mais divertida — disse.
Luci olhou-o, aterrorizada. Compreendeu o que significava aquela frase.
— Não! — gritou, cheia de medo. — Deixa-a, Jim!
— Que aconteceu, Stevens?... Ela representará para nós a certeza de que Paul nada tentará.
— Jim, juro-te que te matarei se conseguir salvar a pele — ameaçou Paul, sibilante.
— Não te darei oportunidade... Venha, Luci, não podemos perder tempo.
— Será melhor que nos acompanhe, senhora — interveio Stevens. — Dou-lhe a minha palavra de bom-, que nada lhe sucederá.
— Você fala de honra?... Pistoleiro!
— Chegou tarde para poder insultar-me com essa palavra. Agora já não tem importância para mim. Sou xerife.
Jim e Pierre voltaram a cara, surpreendidos. Iam retorquir quando chegou até eles o ruído de risos. Do saguão surgiu um homem. Lá fora soavam as vozes dos outros. Depois entraram todos. Eram cinco e todos estacaram, pregados ao chão, ante o espetáculo dos três companheiros mortos.
Levantaram os olhos, enfrentando o grupo.
Não foi necessária qualquer palavra. O ruído atroador dos disparos substituiu com vantagem as palavras. Os cinco caíram, atingidos por balas.
— Para a frente, Paul, ou as próximas serão para ti e para ela...
— Sim, já vejo que não deixaram de ser pistoleiros.
Luci colocou-se ao lado de Paul e o grupo atravessou o amplo saguão, chapinhando no sangue, que se estendia como uma mancha.
Lá fora estavam os cavalos.
- Montai! — ordenou Jim.
Segundos depois o grupo partia.
Não haviam decorrido cinco minutos quando chegaram os últimos homens do «rancho». Ao cruzarem o umbral estacaram petrificados. Ante eles havia um espetáculo macabro.
Um deles foi de corpo em corpo, identificando-o:
— Overs..., Matews..., Morgan..., Fronan..., Kipling..., Instein..., Naber..., Clington... e Yonsky.
Assim era. Nove dos seus companheiros estavam sem vida, estendidos a seus pés.
De repente reagiram com violência, como se despertassem de um sonho. Com as armas na mão subiram ao piso superior e repartiram-se por todos os cantos, abrindo as portas a pontapé.
Ninguém respondeu aos seus golpes e aos seus gritos.
Ao abrirem uma das portas, deparou-se-lhes o pai de Luci. Estava sentado na sua cadeira de paralítico, pés imobilizados, impossibilitado de se levantar. As lágrimas deslizavam-lhe pelo rosto. Os dedos sangravam--lhe, fortemente apertados sobre a madeira da cadeira.
Algumas unhas estavam despedaçadas pelo esforço supremo que fizera ao tentar erguer-se. Não o conseguira e o seu único consolo eram as lágrimas.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

BUF135. A morte espera no cemitério

(Coleção Búfalo, nº 135)
 
Quatro homens reencontram-se depois de alguns anos em que um deles era procurado por todos os outros. Ele, Paul, tinha participado com eles num assalto e fugira com a totalidade do bolo. Agora estava perante a ameaça de armas e a ordem para entregar aquilo de que se apossara. O perfil dos três homens que o procuravam era muito diferente. Um deles, Stevens, inclusivamente, tinha mudado de campo. Agora era representante da lei e queria recuperar o dinheiro para o devolver. Outro, Pierre, era sempre sensível ao apelo da honestidade.
O dinheiro estava escondido num antigo cemitério índio e uma estranha caravana, onde não faltava, a noiva do que fugira com o dinheiro, Luci, pôs-se a caminho para o recuperar e enfrentar um conjunto significativo de desafios, inclusivamente o do nascer de paixões. Que se passaria? Seria o dinheiro devolvido? Ou alguma armadilha estaria à espera de um grupo tão diferenciado.
Eis um livro muito interessante de John Weiber que faz cruzar este estranho grupo com um assalto a uma diligência, fazendo os seus elementos tomar uma posição ao lado dos «bons» que, veio-se a demonstrar, não seriam tão bons quanto era de acreditar.
Deixamos algumas passagens e, se estas foram suficientes para o interessar, pode procurar o livro por inteiro no «Novelas»

terça-feira, 16 de maio de 2017

PAS745. Despedida à «perigo de morte»

Ao chegar à janela para assistir ao embarque do cavalo notou que todos os olhos, agora sem dissimulação, se tinham pousado nele. E pareceu-lhe até ouvir vários suspiros de alivio, como para dar a entender que só agora, ao vê-lo dentro do comboio, se sentiam à vontade.
Minutos depois, quando a locomotiva arrancava, com bastante lentidão, ouviu a voz do xerife da porta do gabinete do chefe da estação:
— Boa viagem, homem, e nunca mais se lembre de que existe uma povoação chamada Cedar Rock.
— Não era necessária a observação, xerife.
Ainda a carruagem à janela da qual se encontrava o homem ruivo não tinha chegado à esquina do edifício, quando saiu deste uma mulher jovem e esbelta, com duas pedras nas mãos e duas labaredas de fogo nos olhos.
A mulher, colocando-se à beira do cais, dirigiu-se com voz indignada ao homem ruivo:
— Eh!, tu, Bob: «perigo de morte», como é que te vais embora sem te despedires de mim? Toma, aí tens o meu presente, para que te lembres sempre de Nelly Craig, a bailarina do «Dois Luzeiros».
O homem, ao ver o gesto agressivo da bailarina, retirou vivamente a cabeça, pelo que as duas pedras sibilaram ameaçadoramente sobre ele, sem lhe tocar, acabando por se estatelarem contra o vidro da janela da frente, que ficou feita em cacos, provocando nos viajantes um lógico sobressalto.
Bob, invadido por uma cólera fria, empunhou os «Colts» e, voltando à janela, começou a atirar aos pés da rapariga, que começou a dançar, aterrada, perante aquela chuva de projéteis que levantava junto dos seus sapatos tanta poeira, até que, incapaz de dominar por mais tempo os nervos descontrolados, acabou por desmaiar.
O xerife e os dois ajudantes, passado o estupor produzido pela violenta reação do forasteiro, puxaram rapidamente das armas e correram como setas até à cauda do comboio, insultando Bob e ordenando-lhe que se considerasse preso por tentativa de homicídio.
O homem soltou uma gargalhada cavernosa, apontou um dos revólveres para Hubert Dyncan e para os seus auxiliares e apertou suavemente o gatilho da arma três vezes.
Um oh! de admiração saiu do público que da estação observava a singular cena, ao ver os três chapéus dos representantes da Lei voarem a um tempo pelos ares.
Antes que o comboio acabasse de desaparecer ao dobrar um pronunciado cotovelo, os habitantes de Cedar Rock, surpreendidos, ainda ouviram uma nova gargalhada cavernosa e, a seguir, a voz sardónica daquele homem que seria eternamente recordado como «Bob: perigo de morte».
— Não sou eu que me hei-de lembrar de vocês, mas sim vocês de mim. E deem graças por eu ter escolhido como alvo os chapéus em vez das cabeças. Nem sempre me apanham de tão bom humor.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

PAS744. A amargura do pistoleiro

«Bob: «perigo de morte» — disse de si para si, pausadamente: — Até aqui já chegou o meu nome de guerra! Será verdade que levo comigo a morte vá para onde vá?»
Passou a mão pela testa, como se quisesse afastar recordações dolorosas. Mas os seus lábios, contra vontade, voltaram a entreabrir-se para reatar o interrompido e acerbo monólogo:
«Porque razão, se fujo da violência e da luta, a pez não vem ao meu encontro? Devo trazer comigo uma maldição, pois de outra forma não se compreende que cubra de cadáveres o caminho que piso. Onde encontrarei por fim a desejada tranquilidade? Será possível deixar um dia de ouvir este terrível epíteto de «perigo de morte»?»
Deixou morrer dentro de si um doloroso suspiro, sentindo uma forte opressão no peito.

domingo, 14 de maio de 2017

BUF134. Bob: perigo de morte

(Coleção Búfalo, nº 134)

 Chamavam-lhe Bob e, sempre que pronunciavam o seu nome, acrescentavam, com algum temor «perigo de morte». Aquele era um ser solitário, amargurado, misógino, muito rápido com as armas. Esses atributos valiam-lhe o temor dos homens e a atração das mulheres. Ao longo desta novela, vamos conhecendo os seus passos para defender uma pequena medalha onde recordava um ente querido e o modo como repôs a justiça num local em que um banqueiro devasso se servia de indivíduos pouco sérios para roubar os seus conterrâneos.
A narrativa de Leo Mason faz-nos estar permanentemente perante situações (e são tantas que por vezes nos parecem desligadas) em que Bob tem de enfrentar outros homens, assunto de que em geral se sai com mestria e só no final nos revela a razão da sua amargura e do seu afastamento em relação a mulheres. Uma delas acaba por lhe desfazer toda a má opinião de que era portador utilizando sofisticada «medicina».

segunda-feira, 1 de maio de 2017

PAS743. A história do homem que matou o melhor amigo

Mike deu uma profunda chupadela no cigarro e falou sem a olhar:
— Meu pai foi um pistoleiro de fama, Cristy. E morreu com as armas na mão, numa desordem de rua. Eu tinha só cinco anos, não o vi morrer, mas ouvi mais de uma vez o relato, dos lábios de minha mãe. Ela fazia-o, para que eu aborrecesse essa espécie de. vida... as armas de fogo... A pobre morreu, antes de descobrir que todos os seus esforços tinham sido vãos.
«Tinha dezassete anos quando matei o primeiro homem. Nos sete anos seguintes matei outros quinze. Eram homens valentes, hábeis com as armas, acostumados a lutas a tiro. Porém, matei-os. E converti-me num pistoleiro famoso, mais ainda do que meu pai tinha sido. Não tinha pena de ser assim. Na realidade, até gostava. Era como um jovem tigre.
«Dan Price criara-se juntamente comigo, éramos amigos desde que tivera o uso da razão. Era um belo rapaz, o melhor do mundo. E um homem pacífico. Através de todas as vicissitudes, a nossa amizade manteve-se inquebrantável. Mais do que amigos, éramos irmãos. A sua casa era o meu melhor refúgio de paz.
«Casara-se com uma excelente rapariga e tinha dois filhos, um de poucos meses, que tinha o meu nome pois fui seu padrinho. Naquela maldita noite, em Wichita, eu não sabia que ele se encontrava na cidade.
Fez uma pausa, para cobrar forças. Cristy escutava com atenção, as mãos cruzadas sobre o regaço. Prosseguiu:
— «Estava no «saloon» de Creswell, jogando às cartas com uns indivíduos. Junto de mim tinha uma dessas pobres raparigas que fazem vida por tais sítios. Já havia bebido bastante e estava a perder. Receei que estivessem a fazer batota e disse-o, lançando mão do revólver. Os outros conheciam a minha fama. Não tocaram nos seus e deram-me explicações.
«Não me conformei com elas. A bebida e a perda do dinheiro tinham-me posto furioso. E estava convencido de que faziam batota. Com uma bofetada deitei a rapariga ao chão. Ela levantou-se, insultou-me, tirando um revólver a qualquer daqueles homens com a intenção de me matar. Dei-lhe um tiro num braço e começou a guinchar.
«Um daqueles homens sacou da arma. Meti-lhe uma bala no estômago. Os demais levantaram os braços rapidamente, aterrorizados. E então entrou Dan...
«Ia buscar-me. Alguém lhe dissera que eu estava ali, metido numa zaragata, e sei que entrou julgando que eu precisava de ajuda. Porém, eu tinha perdido por completo o domínio dos nervos e só vi um homem que entrava apressadamente no local, com a mão sobre a coronha do revólver. Antes de ver a sua cará, já tinha apertado o gatilho. E matei-o...
Voltou a calar-se, vencido pela fadiga e pelos remorsos. Cristy, muito pálida, afagou-lhe a cabeça. Sem o parecer notar, Mike concluiu surdamente:
— Matei o meu melhor amigo, o homem que era como meu irmão e tinha corrido em meu socorro. Quando o vi cair, a nuvem de sangue e álcool que nublava os meus olhos evaporou-se de um golpe. Em dois saltos cheguei a seu lado... e ainda pude ver o seu olhar agónico fito em mim, perguntando-me porque o tinha matado... a ele.
«Senti-me louco. E apontando o revólver ao meu peito dei um tiro a mim mesmo. Porém, um dos que estavam junto de mim deu-me uma pancada no braço e desviou a bala, que apenas me feriu sem me matar. Despertei em casa de outro amigo, que me recolhera e curara, e quando pude valer-me das minhas forças, saí dali, montei a cavalo e afastei-me de Kansas, perseguido pelos remorsos do meu crime.
«Durante muitos meses, vagueei de um lado para o outro. Finalmente, acabei por chegar ao «Círculo Cross», onde pedi trabalho com um nome suposto. Julgavam-me morto, pois ao sair de Wichita não estava curado da minha ferida e até bem longe disso. E, na realidade, Mike Mansfield estava morto, e em seu lugar ficara um nutro homem ao qual causava horror empunhar uma arma contra um semelhante, matar outro homem, porque todos eles tinham o rosto de Dan Price...
Estremeceu e levantou os olhos para os fitar na jovem.
— Agora já conheces a história — disse. — E porque me horroriza matar. No entanto, sei que hoje matarei Crewe, sem o menor remorso.
Muito séria, com o olhar terno e compassivo, Cristy inclinou-se e beijou-lhe a fronte enfebrecida, murmurando:
—Obrigada por mo teres contado, Mike. Assim já pude compreender-te melhor...