segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

PAS853. Um ajudante de xerife qoe gostava de cavalgar

Kild Janos, o ajudante do xerife, era um mocetão ágil e forte. O seu passatempo predileto consistia em andar a cavalo e o pessoal dos «ranchos» ou os cavaleiros que demandavam a cidade encontravam-no a cavalgar sozinho pela pradaria plana, que os raios do sol queimavam ao atingir a força máxima do seu esplendor.
Aquele que vive no Oeste está sujeito às suas leis naturais, que ninguém criou, ou melhor, foram o fruto de uma existência árdua e rude. Assim, se um «rancheiro» pensa admitir um vaqueiro hábil a montar para conduzir o gado, ao perguntar-lhe: «Você sabe montar»? — o outro não vai responder afirmativamente e tecer elogios à sua perícia. Limitar-se-á a dizer, modestamente: «Não custa nada experimentar. Pode ser que eu dê um jeito» — ou então: «Talvez. Se me der licença vou experimentar» -- e o «rancheiro» sabe automaticamente que tem um bom cavaleiro, porque este não se vangloria da sua habilidade hípica. Se, ao invés, o candidato a empregado respondesse: «Se monto?! Sou o melhor cavaleiro desta região!» — então o padrão voltar-se-á para o seu pessoal, dizendo: — «Hem, rapaziada, até que enfim encontrámos um que sabe montar! Tragam o cavalo» — e o cavalo que eles iam buscar era, certamente, um alazão bravio ou ainda não domesticado, sendo certo e sabido que o vaqueiro não se aguentaria muito tempo na sela, acabando por morder o pó, provocando o gáudio dos circunstantes. Em Enid era assim! Cada região tem as suas leis e costumes diferentes, que se modificam de uma terra para outra. E por isso que, sempre que um forasteiro chega a um povoado à procura de trabalho, informa-se imediatamente dos seus usos.
Kild Janos era capaz de montar qualquer cavalo, com ou sem sela. Inúmeras vezes ia até aos «ranchos», quando sabia que lá queriam domesticar um potro selvagem, saindo sempre vencedor. Por este facto era bem conhecido pelo pessoal das fazendas. Mal apanhava um espaço de tempo livre, montava no «Judy» — nome que dava ao cavalo — e saía da cidade. Costumava ir ao Monte Escarpado, elevação rochosa de onde se divisava uma bela paisagem. Enquanto «Judy» ficava livremente a mordiscar as ervas, nada tenras, que cresciam por entre as fragas, Kild escalava a rocha até atingir a crista, onde ficava sentado, a contemplar o espetáculo impressionante e angustioso, que a Natureza oferecia aos seus olhos. A terra era estéril e pedregosa, sem vegetação de qualquer espécie, parecendo ter sido calcinada por um fenomenal incêndio, até próximo da cerca, lá muito ao fundo, que demarcava o «rancho» de Burt Sullivan.
Paradoxalmente, as terras de Sullivan eram produtivas e fartas. Este milagre, quase lhe podemos chamar assim, era devido à circunstância feliz de naquela propriedade existir uma nascente de água que brotando da rocha lá ia, pela terra fora, engrossando sempre, passando para outras fazendas, marginada por ulmeiros e algodoeiros que, vistos daquele ponto altaneiro, definiam as voltas graciosas do ribeiro.
Boggy — nome de batismo do ribeiro — possuía o dom de fertilizar as terras por onde passava. Por sua causa, logo depois da «Corrida» e da atribuição dos lotes aos futuros proprietários, surgiu um conflito que não degenerou em guerra aberta entre os fazendeiros, porque um tal Green se meteu de medianeiro para resolver o problema.
Tudo começou por Burt Sullivan querer impedir que a nascente de água que brotava nos seus domínios passasse para as terras dos outros. Green, de quem ainda alguns se lembravam, não conseguiu às primeiras convencer o casmurro Burt que se o ribeiro nascia na sua propriedade também podia ter nascido noutra qualquer e ele então ficaria na situação dos outros «rancheiros».
Sullivan só amansou quando Green o ameaçou que ia pedir a intervenção do Governo para resolver o litígio e ele podia ser expropriado da propriedade. Desde essa altura, ninguém voltou a incomodar-se com o Boggy e este continuava a correr livremente pelo seu leito já talhado no solo. Green era barbeiro, mas, meses mais tarde, constando-se a descoberta de ouro mais ao Sul, para ali foi, como espécie de garimpeiro, nunca mais regressando a Enid. Para lá do ribeiro, a campina verdejante estendia-se até se confundir com o horizonte.
Quando não ia para o Monte Escarpado, Kild atravessava a propriedade de Sullivan, para se deitar sobre a relva macia, debaixo de uma árvore. Descalçava as botas e ria sozinho, visto as ervas fazerem-lhe cócegas. Outras vezes, ia visitar o velho Howell.
Howell era uma espécie de ermitão, que vivia completamente só, numa barraca em ruínas na pradaria, descendo muito raramente à cidade. Passavam-se muitos meses sem que ninguém o visse. Os «rancheiros» estimavam-no e mandavam-lhe presentes — géneros alimentícios — pelos seus empregados. Desta maneira o velho vivia, sem dinheiro, mas com a mesa farta.
Antes, muito antes, de Enid nascer, quando aquela terra era denominada no mapa por Território Cherokee, zona dos índios «cherokee», Howell fora destacado para ali, trabalhava nos Correios, para guardar uma muda. Ele próprio dirigira a construção daquele barracão e, quando os três operários se foram embora, ficou s6 com a companhia dos quatro cavalos. Todas as semanas vinha um estafeta, transportando a mala do correio, que se demorava cinco minutos com Howell, bebendo um trago, partindo logo depois noutro cavalo em cavalgada endiabrada pela planície fora. Howell tinha nessa altura trinta e cinco anos. O cavalo cansado e suado era tratado e ficava três semanas a descansar, enquanto não chegava novamente a sua vez para mais uma corrida esfalfante, até à muda mais próxima, que distava umas boas dezenas de quilómetros. Howell soubera granjear a amizade dos índios, únicos seres viventes em muitas léguas em redor.
O grande «Chefe Cherokee» visitava-o amiudadas vezes e levava--lhe presentes. Chamava-lhe «o rosto-pálido amigo». Uma vez levara-lhe uma mulher, tornando-a sua serva. A índia era ainda nova e bonita. Howell, a muito custo, visto que para ela era uma honra habitar servilmente com o «rosto-pálido» amigo do Grande Chefe, conseguiu fazer-lhe entender que lhe restituía a liberdade e que, por isso, eras urna mulher livre, podendo ir paz aonde muito bem lhe apetecesse. Ela, porém, não o abandonou, continuando pela vida fora a ser sua mulher até que a doença, numa noite triste, a vitimou. Howell havia encontrado nela a compreensão, humildade e lealdade que muitas mulheres brancas não sabem dar.
Assim que o Território Cherokee foi comprado pelo Governo americano e os índios retrocederam para outras paragens, sendo substituídos pelos brancos que, como feras esfaimadas, vieram por ali abaixo na mira de ocuparem os melhores talhões, Howell não ficou radiante, como se possa supor.
Depois de muitos anos a falar a língua índia, quase não se lembrava já da sua fala de origem, e não era só isso, os seus hábitos, os seus costumes incompatibilizavam-no com os da sua raça. Howell não era já aquele moço decidido e vigoroso, de compleição atlética, de trinta e cinco anos. Tinha engordado, a pele encarquilhara e cansava-se rapidamente.
Começou a constar-se que os Correios iam acabar com os estafetas e as mudas nas terras onde houvesse serviço de transportes, sendo este pessoal desocupado empregado nos escritórios centrais. Howell descreu deste boato. Mas, uma manhã, pelo meio-dia, estava ele ocupado em distribuir a ração habitual pelos solípedes, quando o chamaram de «mister» Howell! Dois cavaleiros já de meia idade identificaram-se como pertencendo aos Correios. Howell acompanhou-os numa rápida visita de inspeção ao barracão e, no fim, «os dois senhores» disseram que estavam incumbidos de transmitir uma noticia ao pessoal. O velho ficou em suspenso. As mudas iam ser extinguidas e o pessoal aproveitado nos escritórios ramificados por todas as cidades. Brevemente viria alguém buscá-lo e aos cavalos.
— E o barracão? — perguntara o velho.
Os dois homens encolheram os ombros depreciativamente.
— Ficará para aí. Nem vale o trabalho de ser destruído. Não tarda que caia de podre!
Foram-se embora. Howell debatia-se num dilema. Ou abraçava um futuro incerto, nada promissor na sua idade, indo para a cidade trabalhar nos escritórios, ou ficava ali para sempre, à espera da sua hora, naquele barracão onde tinha vivido desde os trinta e cinco anos. Optou pela segunda hipótese e quando veio outro homem buscar os solípedes, disse-lhe que se despedia e ficaria ali.
As economias amealhadas durante o longo tempo do seu serviço deram-lhe para se governar por um ano. Mas quando acabaram, compreendeu que lhe restava morrer de fome. Isto teria acontecido se os «rancheiros» da região, ajuizando das suas dificuldades, não lhe tivessem valido.
E assim vivia o velho, naquela existência sem brilho, apegado àquele barracão de madeira apodrecida e aos trastes velhos do interior, que muitas recordações lhe guardavam.
Quando Kild o ia visitar, vinha recebê-lo à porta com as suas compridas barbas brancas, os olhos encovados, agarrado a um cajado, vestido de trapos, ou roupas desmedidamente grandes que o pessoal dos «ranchos» lhe dava. Sentavam-se os dois no chão à entrada a conversar, embora o Howell fosse de pouca e soturnas palavras. Mas um cigarrito dado por Kild humanizava-o um pouco.
O ajudante do xerife gostava de o ouvir. O velho era sincero e contava-lhe pormenores da sua vida e, às vezes, escapava-se-lhe dos lábios um triste comentário à sua presente situação, ou à ocupação pelos brancos daquele território índio, o que ele não aprovara. Os índios eram seus amigos e não concebia que os tivessem escorraçado dali. Quando se retirava, Kild Janos deixava-lhe sempre uns cigarritos e uma onça de tabaco para cachimbo comprado propositadamente na cidade.
Presentemente, porém, Kild não se dirigia para o Monte Escarpado, nem se deitava sobre a relva viçosa e muito menos ia visitar o velho Howell. Quando saia da cidade, levava um rumo definido. Esse secreto destino das suas saídas tinha um nome de gente. Ana Mattox Bronco!
A filha mais velha do xerife era já, com as suas dezasseis primaveras, uma bela mulher. Possuía os mesmos olhos do pai, o mesmo nariz e a mesma cor do cabelo. Eximia amazona gostava, também, de passear a cavalo. Montava quase sempre o «Tristão», bonito potro malhado.
Kild vira-a pela primeira vez, num pôr do sol. Cavalgava velozmente pela pradaria, incitando com gritos a montada, e o vento modelava-lhe o busto na camisete e fazia-lhe esvoaçar os cabelos. Kild Janos ficou parado, estupefacto, soprando o pó que os cascos do cavalo dela levantavam. Depois, cedendo a um impulso instintivo, esporeou o «Judy», correndo atrás da amazona. Se «Judy» era Veloz, «Tristão» não cedia terreno; se Janos era o melhor cavaleiro da região, Ana não tinha confronto entre as mulheres que montavam.
Deste duelo impressionante — subiam montes, desciam desfiladeiros, pulavam cercas, serpenteavam junto ao Boggy — resultou a derrota daquele que partira atrasado: Kild!
Pressentindo ser seguida, Ana olhara para trás avistando aquele cavaleiro curvado sobre a montada, interrogara-se sobre este procedimento e, compreendendo o desafio, sorriu vitoriosa. Será que entre um ser humano e um cavalo pode haver transmissão do pensamento por telepatia? O certo é que «Tristão» compreendeu também o repto e aumentou de velocidade. Devia estar na base deste entendimento o apertão das pernas de Ana. Depois de uma meia hora de corrida, sem que a distância que separava os dois diminuísse ou aumentasse, a amazona parou, não tardando que Kild se lhe juntasse.
— Tem uma boa montada, menina. Eu e «Judy» coramos de inveja! Sou Kild... Kild Janos, o ajudante do xerife.
— Meu pai...
— Meu pai...
— Meu pai... é o xerife!
Estas tinham sido as suas primeiras palavras... e é de adivinhar a atrapalhação de Kild. Desde esse pôr do sol, encontravam-se regularmente, sem que o pai, chefe de Janos, desconfiasse sequer daquele conhecimento. Cedo Ana e Kild compreenderam que se amavam. E então, o jovem começou a tomar conhecimento do que se passava em casa da noiva, pelas suas próprias palavras.
Ana Mattox era esperta e percebera, apesar do mutismo do pai, que as coisas no «rancho» não corriam bem. Artur, o capataz, desinteressava-se. Duas vezes fora apanhado a dormir e outras tantas a jogar às cartas com o pessoal. E as colheitas perdiam-se, o gado morria e a madeira das construções — casa, celeiro, estábulo, oficina — apodrecia.
Os únicos capazes de endireitar aquilo eram o próprio dono, Jefferson, mas esse via o seu tempo tomado pelos afazeres da profissão, ou Kild Janos, o seu jovem ajudante, homem novo, mas conhecedor de todos os trabalhos concernentes a um «rancho», possuindo ainda o vigor e energia dos vinte anos. Ana sabia que assim era e por isso pedia-lhe que falasse ao pai, visto que ele mais cedo teria de ser sabedor.
Kild, porém, temendo uma desilusão, adiava consecutivamente esse momento e interrogava-se: «Qual será o conceito que o velho tem por mim»?
Naquele dia, depois de se avistar uma vez mais com Ana prometera-lhe, jurando que falaria com o pai. Regressou ao povoado com esta determinação teimosa: «Algum dia terá de ser!» — confortava-se.
Desmontou à porta da Delegacia e foi encontrar o xerife dormitando, sentado na cadeira da secretária, com as mãos cruzadas sobre a barriga. Chamou-o:
—Xerife!
Bronco não se moveu e respondeu-lhe:
— Não estou a dormir, rapaz! Penso.
Kild olhou sério para o chefe e percebeu que, parecendo dormir, este observava a porta da entrada, com os olhos semicerrados.
— Onde foste?
— Vinha falar-lhe à cerca disso, chefe!
Jefferson sobressaltou-se. Teria Kild arranjado melhor emprego e desistira de ser seu auxiliar? O rapazote não valia grande coisa, essa era uma verdade, só pensava em passear e folgar. Quanto ao serviço, bem, que diabo, com isso não se preocupava ele, mas habituara-se a tê-lo com a força dos seus vinte anos. Bronco remexeu-se na cadeira e endireitou-se:
— Sabes que esse Brown já apresentou ao Mc'Cleen os papéis para se sagrar herdeiro do falecido? Amanhã far-se-á o inventário da herança... Mas, o que é que me querias dizer?
Apesar de firmemente resolvido a levar avante o seu propósito, Janos, não deixou de sentir um momento de hesitação. Mas não desistiu:
— As coisas lá pelo «Sol-Ar» não vão nada boas pois não, chefe? O pessoal dorme, ou joga às cartas e, entretanto, o serviço fica parado, não se faz, as casas apodrecem...
Bronco estava perplexo.
— Mas... Qual é a tua ideia! Queres comprar-me o «rancho»?
Janos riu alto.
— Não, chefe. A minha ideia é... ir trabalhar no seu «rancho»! —E continuou com mais calor: — O gado não está de todo perdido, as terras são produtivas, o madeirame das construções pode ser reparado. Você tem, ao sul, magníficas árvores de mogno, madeira excelente, e resistente, que pode ser utilizada nas reconstruções sem gasto de mão-de-obra.
— Que percebes tu disso, Kild?!
— Das árvores de mogno? A árvore é cortada a três metros do chão, quando a Lua está no minguante, porque sendo cortada antes da lua-cheia, o mogno tem menos seiva e é mais resistente...
Na verdade, Bronco não incidira a sua pergunta sobre o corte das árvores, mas sobre todos os trabalho agrícolas de um «rancho». Todavia, o moço, dando outro sentido à pergunta, dera-lhe uma resposta que o creditava conhecedor dos serviços. O xerife puxou do cachimbo, começando a atulhá-lo de tabaco.
— Tens razão ao afirmar que as coisas não vão boas lá por minha casa. Sabendo-me ausente, o pessoal desleixa-se e a propriedade, não dando lucro, dá ainda prejuízo.
—Despede-se esse tal Artur e põem-se os outros a trabalhar — exclamou o ajudante.
—És homens para isso?
Xerife e o ajudante apertaram as mãos, como se selassem um pacto. Bronco estava contente. Janos desandou para a porta e foi nessa altura que surgiu uma pergunta no cérebro de Jefferson:
— Espera — Kild parou e voltou-se. — Quem te disse tudo isso do meu «rancho»?
— Ah! Foi a Ana! — e saiu.
O xerife ficou especado e ainda murmurou:
— Ana?!
Só então percebeu tudo. Na realidade, as coisas eram bem simples.
— Ana e Kild! Tinha confiança no rapazote. Quem diria, hem! O diabo tece-as!
Pois se Janos queria roubar-lhe a Ana, tinha de demonstrar qualidades de trabalho... e «Sol-Ar» seria também seu! Sorriu. O cachimbo já estava cheio de tabaco e Bronco chegou-lhe o fogo. Aspirando longas fumaças, continuava a sorrir.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

PAS852. Uma arma escondida

«Lady» Astor realizava naquela noite o seu último espetáculo em Enid. Segundo ela própria afirmava, outros contratos a impediam de se demorar mais tempo ali.
E, ou fosse esse o motivo, ou o facto da chegada de Brown ao povoado, o «Estrela Prateada» estava numa das suas melhores noites, com uma invulgar afluência de fregueses. Sem dúvida que na cidade o homem que neste momento mais prendia as atenções gerais era Brown O'Brien. Quando este desceu as escadas, que comunicavam com o andar superior, o rumor das vozes cessou quase completamente. Brown viu que todos os olhares estavam fixos na sua pessoa, mas não se intimidou, continuando a descer, balançando as pernas. Depois atravessou por entre as mesas, ficando parado junto a uma, onde quatro vagueiros jogavam às cartas. Um pouco incomodados pela presença daquele estranho, continuaram o seu jogo. Brown esperou que aquela jogada terminasse. Assim que isto aconteceu, exclamou:
—Há lugar para mais um?
Os jogadores entreolharam-se, surpreendidos. O'Brien meteu a mão ao bolso mostrando-lhes um punhado de notas. Um dos vaqueiros, sem dúvida o mais novo, arregalou os olhos e disse, enrubescendo:
— Nós não estamos a jogar «duro», senhor.
— E isso que tem? Se não se joga «duro», joga-se baixo. E em qualquer momento podemos aumentar a parada.
Vários olhos estavam fixos naquela mesa, presenciando a cena. Brown foi a uma mesa próxima buscar uma cadeira e os vaqueiros apertaram-se mais, para ele se sentar. O'Brien apanhou as cartas, baralhou-as com rara habilidade, própria de um bom profissional e pousou-as na mesa. Enquanto um dos parceiros as distribuía, levantou-se e despiu o casaco. Foi nesta altura que, aqueles que presenciavam a cena, soltaram uma abafada exclamação de surpresa.
Brown O'Brien, suposto irmão do falecido Bishop O'Brien, usava uma arma num coldre sovaqueiro, por baixo do braço esquerdo com a coronha voltada para a frente! Enid era uma cidade pacifica e pacata, algo afastada do esplendor de outras cidades, e nenhum dos seus habitantes ia supor que se pudesse usar um «Colt» miniatura naquele sitio inverosímil, metido num coldre fixo ao corpo por duas correias, uma que rodeava o tronco e outra que passava pelo ombro.
Afinal, Brown e Bishop, tinham feitios que os indicava como irmãos: Bishop, inofensivo, sabia sugar os seus semelhantes mais fortes: Brown, agressivo, armado, hábil no jogo das cartas, era o protótipo do trapaceiro — e ambos, a seu modo, atingiam um único objetivo: passar o dinheiro dos outros para os seus bolsos!
Como sempre, o xerife recebeu a notícia, deturpada já pelo «uso» de várias bocas que, à sua maneira, a foram modificando, e pareceu não ficar surpreendido. Bishop e Brown eram iguais. E um como o outro não eram boa coisa na cidade

sábado, 17 de fevereiro de 2018

PAS851. A sabedoria de «Chefe Cherokee»

Toda a gente na cidade conhecia o trôpego «Chefe Cherokee», velho índio fanfarrão, que vestia trapos de cores berrantes e adornava a cabeça com uma carapuça de plumas. Era, por assim dizer, o último vestígio da lendária e opulenta tribo «cherokee».
«Chefe Cherokee», apelido porque era conhecido em Enid visto o seu verdadeiro nome, desconhecido da maioria, ser uma palavra intrincada com muitas letras e difícil pronúncia, não acompanhara os seus conterrâneos, por qualquer motivo, e ficara na povoação que começava a nascer. Hoje vivia exclusivamente da caridade dos habitantes e estava tão velho, que precisava de se apoiar a um cajado nas suas curtas caminhadas. Ninguém sabia onde tinha ido arranjar o seu diadema de plumas mas este devia pertencer a um verdadeiro chefe da tribo, que na precipitação da partida o esquecera no meio das coisas inúteis.
O «Chefe Cherokee» passava os seus dias vagabundeando pela urbe, esmolando alimento e dinheiro, ou então ficava sentado nos degraus do «Estrela Prateada».
A garotada gostava de ouvir as bafientas fanfarronices do velho índio e sentava-se à sua volta, ouvindo as histórias que enriqueciam a sua imaginação infantil. Ele contava episódios de guerras entre tribos ou aventuras de caça e, uma vez por outra, permitia-se entrar como personagem das suas narrativas.
Naquela tarde, o «Chefe Cherokee» contava ao rapazio a história do cavalo branco encantado. «Chefe Cherokee» embora não perdesse a sequência à narrativa, não deixava por isso de vigiar a entrada do «saloon», porque havia sempre um ou outro que lhe dirigiam o convite que os seus ouvidos mais gostavam de ouvir:
— «Vamos a um copo, «Chefe Cherokee»?
Então, o índio agarrava-se ao cajado que ficava no chão para o ajudar a levantar e, trôpego, seguia o ofertante, sim, porque, segundo ele mesmo afirmava, a «agua-de-fogo» era a melhor coisa que os brancos possuíam! «Chefe Cherokee» viu o xerife entrar no «saloon» é ficou admirado de não lhe ter falado. Mas, quando, um quarto de hora depois, Bronco voltou a sair e se dispunha a seguir, ligeiro, pela rua, chamou-o:
— Hem, xerife! Que pressa é essa?
Jefferson parou e voltou atrás ficando por momentos a ouvir a história do índio.
— Aí vai com que beberes um copo, «Chefe Cherokee»! — e atirou-lhe uma moeda que o índio apanhou com ambas as mãos.
— Obrigado, xerife.
Bronco acenou-lhe e seguiu o seu caminho.
— Por hoje acabaram as histórias, meus amigos —disse «Chefe Cherokee».
A garotada debandou em correria. «Chefe Cherokee» entrou no «saloon» agitando de contente a mão que continha a moeda.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

PAS850. Chega o herdeiro

A chegada da diligência era sempre um acontecimento em Enid. Ela trazia notícias dos outros Estados da União, passageiros, encomendas, etc... O veículo poeirento, puxado por quatro solípedes suados, percorria velozmente a cidade, a voz forte do cocheiro a comandar os cavalos, o chicote a estalar, para parar à porta da Agência. O garotio, geralmente, corria atrás da carruagem, misturando-se com o pó que o rodado levantava e fazendo uma gritaria infernal.
Naquela manhã, tudo isto aconteceu. A carruagem chegava pontualmente à hora e, quando assim sucedia, era certo e sabido ser o «índio» o cocheiro, apelido por que era conhecido um indivíduo de meia idade, de tez escura, curtida pelos sóis da planície abrasante, baixote, homem conhecedor de todos os caminhos de Cherokee e hábil na sua profissão. Corton, o «Incho», era uma espécie Bufalo Bill da região. E, doesse a quem doesse, para que a sua fama não fosse desmentida, a diligência tinha de chegar pontualmente à tabela.
Assim que a carruagem parou à porta da Agência, juntou-se a habitual roda de curiosos. Os cavalos foram desatrelados, dois empregados subiram ao tejadilho para descarregar as encomendas e, enquanto isto, a portinhola abriu-se para dar passagem aos dois únicos passageiros.
Um era «rancheiro» na região e conhecido em Enid. O outro ninguém o conhecia e foi imediatamente focado pela curiosidade dos circunstantes. Apeou-se agilmente, sacudiu as calças listradas e O casaco preto, perguntou qualquer coisa a um empregado e caminhou em seguida, levando duas maletas, para o «Saloon Estrela Prateada». Era um tipo alto, magro, possuía olhos pequenos, nariz anguloso e barba hirsuta. Abeirou-se de Mallor, que estava no seu posto por detrás do balcão, pediu um quarto e quando o taberneiro lhe pediu que assinasse o livro de registo, fez um gesto de enfado, respondendo:
— Logo!
Depois, apanhou a chave e desapareceu escadas acima.
Como se afirmou, Enid era, de facto, uma progressiva cidade, sempre a renovar-se. Pelas suas ruas passeavam, coches e carruagens de carga, cavalos puro-sangue e pilecas de transporte, homens bem vestidos e simples tratadores de gado. As suas artérias tinham movimento, bulício que, afinal, se transmitia aos escritório e lojas comerciais. Os vestidos coloridos das mulheres eram, uma nota alegre a cobrir o ambiente. Ninguém diria sem o saber, que o solo onde a urbe se erguia era, havia poucos anos atrás, terreno deserto e árido, terra de índios, porque o crescimento da cidade processara-se em ritmo acelerado. No entanto, embora grande, Enid não era tão extensa que impossibilitasse uma noticia de, em pouco tempo, correr todas as bocas, isto é, de ser conhecida em toda a cidade. Foi o que aconteceu com a chegada do forasteiro na diligência do meio-dia. Uma hora depois, já não devia haver ninguém que não soubesse da sua onda. E o comportamento que viria a tomar, ainda mais espicaçou a curiosidade geral. O desconhecido esteve uma boa parte da tarde metido no quarto, depois de ter pedido que lhe levassem lá uma frugal refeição. Desceu por volta das quatro horas e já não parecia o mesmo homem, alquebrado e cansado da viagem. Agora estava alegre e folgazão. Os quatro vaqueiros que se encontravam no «saloon», a jogar às cartas, viram-no a descer as escadas. Envergava uma camisa, branca com riscas verticais pretas, por baixo do casaco de couro, calças pretas e sapatos. Dirigiu-se ao balcão. Mallor serviu-lhe o uísque que havia pedido e ouviu-o dizer, enquanto admirava numa visão geral e rápida o interior do estabelecimento:
— O meu «saloon»!
Depois, voltou-se e ordenou: — Ponha mais quatro uísques e vá levá-los àqueles cavalheiros.
Mallor obedeceu. Os quatro vaqueiros, ao receberem aquele inesperado oferecimento, perguntaram a quem se devia a oferta e o taberneiro informou-os em voz baixa:
— Foi aquele tipo que chegou na diligência! Eles olharam então na direção indicada e viram o forasteiro, encostado displicentemente ao balcão, que lhes sorria. Levantou o copo e disse:
— Bebam à saúde do novo dono desta casa! Sou o irmão do inditoso Bishop O'Brien!
O efeito destas palavras não podia ter sido mais espetacular. Mallor ficou confundido, com a bandeja na mão, esquecendo-se talvez de que estava de pé! Os quatro vaqueiros, assim que se refizeram da surpresa, levantaram o copo e tomaram a bebida, porque um uísque oferecido não é coisa, de se deitar a perder. Um deles, porém, falou com os outros e saiu.
Queria ser o primeiro a dar a grande novidade!
O irmão do falecido atirou uma moeda para cima do balcão para pagar a despesa e caminhou para a porta cumprimentando.
Jefferson Bronco recebeu a noticia com a esperada admiração. Ninguém conhecia nenhum parente de Bishop O'Brien e muito menos um irmão! Ficou intrigado, pegou no chapéu e saiu em busca do forasteiro.
Enquanto caminhava pela rua via os olhares que os transeuntes lhe dirigiam, o que o convenceu de que toda a cidade conhecia a grande nova. Maior, do «Estrela Prateada», voltou a contar-lhe a mesma história que ele já conhecia e informou-o de que o misterioso indivíduo não se encontrava lá, tendo ido a pé pela rua acima.
De informação em informação, Bronco foi encontrá-lo dentro do cemitério, ajoelhado diante da campa de Bishop O'Brien. Nessa altura, levantou-se e veio saindo. Bronco não queria encontrar-se com ele, mas foi o próprio forasteiro quem o chamou:
— Xerife!
Bronco parou. O outro vinha mais ligeiro e cobria a cabeça com o chapéu.
Estendeu a mão ao xerife, cumprimentando-se
— Sou Brown O'Brien, irmão de Bishop O'Brien. Certamente já foi avisado da minha chegada. Bronco acenou afirmativamente.
— Hei-de procurá-lo para me constituir herdeiro universal de meu irmão.
— A pessoa mais indicada para esse fim é «mister» Mc'Cleen, o Promotor de Justiça e juiz.
Caminhavam juntos. Brown riu.
— Tanto faz um como outro. Não tenho pressa! Contaram-me já o modo misterioso como o meu irmão foi morto e certamente ainda não descobriram o assassino. O xerife confirmou com um aceno. Assim que receber a herança, vou pagar a um agente particular para trabalhar no caso. O assassínio de meu irmão não pode ficar impune! Bronco ficou parado na calçada, estupefacto. Mas, vencida a surpresa, respondeu:
— «Mister» Brown é que sabe e agirá como entender.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PAS849. Retrato e morte dum usurário

Bishop O'Brien pertencia àquele número de indivíduos que não deviam existir à face da terra. Era um sovina e avarento da pior espécie. Tinha mais amor ao dinheiro do que à sua própria mãe. Quase se podia considerar o senhor de Enid, pois utilizava o seu dinheiro, amealhado com o maior desvelo, em compras de terras e casas, ou então emprestava-o aos proprietários sobre hipotecas e com juros.
Quando acontecia o juro não ser pago no prazo devido, não hesitava em levar o penhorado aos tribunais e confiscava-lhe a coisa hipotecada. Assim, a pouco e pouco, os seus bens aumentavam. Noventa e nove por cento dos habitantes de Enid ficariam contentes se um dia o corpo de Bishop fosse a enterrar no cemitério à saída do povoado. Temiam-no.
Quando ele passava, saudavam-no com grandes mesuras e sorrisos. Mas, por detrás, amaldiçoavam-no. O'Brien era um indivíduo franzino. De idade já avançada, era baixo e magro, tinha mãos esguias e ossudas e usava óculos com lentes de miopia. Vestia sempre um casaco preto, comprido, e calças de riscas, camisa branca e laço preto. Cobria a cabeça com .um chapéu baixo, diplomata.
Pertenciam-lhe a Agência de diligências, o «saloon» «Estrela Prateada», os «ranchos» «Sorriso» e «Cactus», além de muitos hectares de terreno ainda inculto, a Meia milha do povoado, e tinha quotas nos Caminhos de Perro e no Banco local.
Apesar de tudo isto habitava num quarto sombrio e escuro, no primeiro andar do «saloon» «Estrela Prateada», onde instalava também o seu escritório. O quarto tinha apenas a cama, uma mesa-de-cabeceira, uma mesa grande e um armário. Temendo, talvez, que lhe roubassem alguns documentos de valor, ou até dinheiro, não consentia que fossem lá fazer limpeza.
Seria difícil descobrir onde O'Brien guardava o dinheiro, mas na parede frontal à porta de entrada estava um quadro pendurado, com um retrato de Abraham Lincoln — paradoxo! — e debaixo deste mandara embutir na parede um cofre de ferro. Naquela manhã estava o usurário sentado à mesa de trabalho, repleta de papéis poeirentos, a ler um contrato de hipoteca, quando ouviu bater à porta.
— Quem é?
— Correio! — foi a resposta.
Levantou-se levando na mão o documento que estava a ler e foi abrir. Qual não foi o seu espanto, ao deparar-se-lhe um colossal cesto de flores artificiais, que encobria totalmente o portador.
— Mas que brincadeira é esta? — bradou irado. Não teve tempo de dizer mais nada porque soaram, duas detonações e os projéteis, atravessando as flores, foram-se cravar no corpo de O'Brien, no sítio do coração, e O'Brien Caiu, como saco vazio, sem um grito. O assassino atirou para cima do corpo a cesta com flores e correu pelo corredor.
 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

BIS153. O assassino levava flores

(Coleção Bisonte, nº 153)
 
Enid, a próspera cidade que de ano para ano crescia a olhos vistos, estava situada no território do Cherokee, que tinha uma vastidão de três milhões e um quarto de hectares, ao sul da fronteira com o Kansas e fora propriedade dos índios até mil oitocentos e noventa e três. Por essa altura, o Governo comprou-o à tribo «cherokee» e, depois de dividido em parcelas de oitenta hectares, fez a sua adjudicação aos interessados pelo sistema da «Corrida».
Quando havia uma corrida, ou seja, a distribuição de terreno pelo Governo aos colonos que o quisessem cultivar, vinha gente de quase todos os pontos do Oeste. Colocavam-se numa linha demarcada antecipadamente é às vezes esperavam duas e mais semanas pelo dia da «Corrida», para reservarem um local bom para a partida do despique.
Nesse dia, todos os interessados se colocavam na linha, ou meta, que era vigiada pelos agentes da Lei, de modo a que ninguém se adiantasse. Via-se toda a espécie de viaturas; carroças pesadas, ou outras mais leves, mas era maior a percentagem de cavaleiros montados em cavalos fogosos. Na maioria os solípedes estavam selados e estendiam-se pela linha até se perder de vista. O objetivo de cada homem era chegar primeiro ao terreno cobiçado e estava deste modo legalizada a posse.
Ao contrário do modo buliçoso como se dera a apropriação da terra na região, Enid era uma cidade pacata gerida por um xerife taciturno apoiado num rapaz meio amalucado e explorada por um sovina que parecia dono de tudo.
É nesta cidade calma que ocorre o assassinato do usurário e posteriormente a chegada do seu herdeiro a qual era no mínimo estranha para a autoridade. O xerife encontrou ali um bom ponto de referência para a pesquisa a qual teve de conciliar com a atenção ao rancho e a quem nele vivia dispensada por um ajudante que gostava de cavalgar.
Obra de um autor português, disfarçado no pseudónimo John Washinton, este livro é de agradável leitura e dele vamos proporcionar algumas passagens que são como que um retrato caraterizador dos que habitavam Enid, reunindo o que restava da população índia até aos que chegavam para se aproveitar de uma situação.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

PAS848. Capaz de matar o próprio filho

A figura daquele homem pareceu vagamente familiar a Richard Sutton. Mas não teve tempo de o examinar detalhadamente.
0 recém-chegado avançou para ele como uma fera. Sem deixar de lhe apontar o revólver, aplicou-lhe um soco nos queixos que o fez cambalear, arremessando-o de encontro ao balcão.
— Vou matar-te, como a um cão!
Mae soltou um grito de angústia e agarrou-se ao braço que segurava o revólver.
Lutou desesperadamente, durante uns momentos, pela posse da arma. Soou uma detonação e uma bala roçou pela cabeça de Sutton, mas, vibrantes e encolerizadas, ouviram-se as palavras de Mae:
— Suspenda, seu monstro! Ou quer matar seu próprio filho?
Fez-se a luz, de repente, no espirito de Sutton. A figura do recém-chegado parecera-lhe familiar pela simples razão de que se tratava de seu pai, em pessoa, a quem não via havia mais de oito anos.
Instantaneamente Mae e Michael deixaram de lutar.
Richard viu que seu pai ficava hirto e completamente paralisado como se acabasse de ser fulminado por uma descarga elétrica. No seu rosto estampara-se uma expressão de infinito assombro.
Olhou espantado para o revólver que empunhava e, largou-o tão depressa como se tivesse tocado ferro em brasa.
— Deus do céu! -- exclamou.
O encontro com seu pai foi, para Richard Sutton, inesperado e brutal. Passou-se mais de um minuto antes que pudesse reagir e quando o conseguiu sentiu-se moralmente quebrado. Tinha o espírito embotado.
Fisicamente, também não se sentia bem. Sentia umas náuseas indescritíveis. Tinha a cabeça à roda e as pulsações do coração latejavam em todas as suas veias.
Conseguiu, a custo, serenar. Fixou os olhos em seu pai que também o contemplava como se fosse aquela a primeira vez que o via.
Achava-o muito mudado. Os últimos oito anos não tinham passado debalde. Se se tivesse cruzado com ele numa rua de qualquer cidade, não o teria reconhecido.
A razão era simples. Michael Sutton tinha cinquenta anos, mas aparentava ter já muitos mais. Estava esgotado. Tinha profundas rugas na cara e bolsas sob os olhos cansados e raiados de sangue.
Olhou para Mae, que se encostara ao balcão, intensamente pálida, como se as pernas se recusassem a sustentá-la em pé.
Michael Sutton tomou a palavra:
— Que fazes aqui, em Chalperton?
— Acabo de chegar de Nova Iorque e estou de passagem para Atwell Springs.
— Porque não me avisaste?
— Para quê? Interessas-te, porventura, pelas minhas andanças? Durante oito anos apenas recebi três cartas tuas. Talvez estejas convencido de que foram suficientes, mas, para mim, que sou o teu único filho, não passaram de urna bem fraca esmola paternal.
Havia um ressentimento latente nas frases trocadas entre os dois homens... e uma absoluta, uma total incompreensão!
Michael Sutton fez um gesto com o queixo na direção de Mae.
— Que papel representa aqui essa mulher?
— Apenas o de uma pessoa que se encontra dentro de sua própria casa.
— Surpreendi-vos aos beijos um ao outro.
— E então? Que tem isso de extraordinário?
— Penso que ela se valeu das suas manhas para te iludir... essa mulher não passa de uma cadela.
— Cala-te! Não te refiras assim a uma mulher honesta que tem sabido defender-se das tuas infames ciladas.
Ao replicar a seu pai, Richard avançara inconscientemente contra ele, em atitude ameaçadora.
Michael Sutton manteve-se na expectativa, observando-o com as pupilas aceradas, através das pálpebras semicerradas.
— Não vais agredir teu próprio pai, não é verdade?
Richard deteve-se bruscamente... e abaixou a cabeça.
— Perdoa-me... Estava fora de mim. Lastimo-o sinceramente.
As desculpas de Richard não acalmaram seu pai. Pelo contrário, fizeram que o seu ressentimento lhe acudisse aos lábios com maior impetuosidade.
— És demasiado novo, rapaz. Falta-te a experiência. Não sabes distinguir a diferença que separa uma mulher honesta de uma mulher ordinária, cuja única satisfação, é despertar paixões aos homens que a rodeiam para ficar a rir-se deles, depois de sentir lisonjeado o seu amor--próprio.
Richard ouviu, perplexo, aquela insultante verborreia. Estava simplesmente horrorizado e sentia-se incapaz de reagir porque o natural respeito por seu pai o paralisava por completo.
Foi um dilacerante soluço de Mae que o fez voltar à realidade. Fechou os ouvidos às palavras de seu pai e acercou-se da jovem.
Tinha os cotovelos fincados no balcão e apertava as mãos na cabeça, chorando convulsivamente.
— Deus meu, Mae! Por favor. Está-se-me partindo o coração ao ver-te chorar dessa forma.
Richard pôs-lhe as mãos suavemente nos ombros. Ela olhou para ele, amorosamente, através das lágrimas que lhe alagavam os olhos e escondeu a cabeça no seu peito viril.
Michael Sutton tinha-se calado, mas, após um breve silêncio, soltou uma sonora gargalhada.
— Que cena tão enternecedora! para rebentar de emoção!
Richard não ligou importância. Os soluços de Mae iam diminuindo pouco a pouco e esperou que desaparecessem de todo.
— Retira-te, querida. Deixa-me só com ele. Peço-te.
— Sim, Dick. Como for da tua vontade.
O jovem cingiu-lhe a cintura com o braço direito e conduziu-a, muito encostada a si, até à porta do esta-belecimento.
— Eu encarrego-me de fechar a porta.
Ela concordou com um gesto e deu um beijo na face de Richard.
Este não tivera ainda tempo para examinar os seus próprios sentimentos acerca de Mae, mas, naquele momento, adquiriu a certeza de que estava perdidamente enamorado daquela mulher.
Esperou que ela dobrasse a esquina do edifício e voltou a entrar no estabelecimento.
Seu pai tinha-se sentado a uma das mesas; apoiava o braço esquerdo no tampo da mesa e tinha a cabeça encostada à palma da mão.
Pareceu-lhe tão cansado que sentiu uma infinita compaixão por ele.
Arrastou uma cadeira, aproximou-se e sentou-se do outro lado da mesa.
Michael Sutton continuou imóvel, sem dar pela presença do filho. Este esteve-o observando alguns instantes e, por fim, perguntou:
— Deve sentir-se muito satisfeito pela sua forma de proceder, não é verdade?
Michael Sutton levantou a cabeça.
— Olha, rapaz: o facto de eu estar ou não estar satisfeito é coisa que não tem o mínimo interesse` para ti.
Fez uma pausa, sem deixar de observar Richard, recostou-se na cadeira e cruzou os braços. Quando retomou a palavra, a sua voz tinha um acentuado cunho de tristeza, e as suas falas eram lentas e espaceadas.
— Encontro-me numa situação completamente nova para mim. Acontece que amo uma mulher há vários anos. Tenho feito tudo quanto é possível para casar com ela e ela obstina-se em desprezar-me cada vez mais. De repente, entra em cena um jovem presumido, e ela fica apaixonada num abrir e fechar de olhos.
Michael Sutton calou-se. A sua boca torceu-se num trejeito chocarreiro e continuou:
—Uma mulher que tenho de disputar a meu próprio filho. E muito engraçado!
E, logo a seguir:
—Responde: conheces algum meio para resolver esta situação?
Richard nunca tinha conhecido bem seu pai. Agora é que ele o compreendia. A sua forma de falar, o seu comportamento, todo ele, enfim, se lhe afigurava completamente estranho. Mesmo agora, não saberia dizer se estava a brincar ou a falar a sério.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

PAS847. Idílio interrompido

Sutton, obcecado por aquele acervo de cruciantes pensamentos, tinha ficado completamente abstrato. Mae, porém, perguntou:
— Que se passa consigo, Dick?
— Não se passa nada. Perdoe...
— Faço ideia. Eu preveni-o de que o meu relato deitaria por terra a reputação de seu pai.
Sem saber porquê, Sutton ficou contente por a jovem não se ter apercebido do seu verdadeiro problema, e disse:
— Conte-me alguma coisa acerca de Dingo Tracy. Tenho a convicção de que o conhece muito bem.
No rosto de Mae refletiu-se uma leve expressão de surpresa. Esteve calada durante alguns segundos, antes de se resolver a falar.
— Conheço-o há já um bom par de anos. Um dia hospedou-se no hotel e contraímos relações de amizade. Reconheço que se abriu mais comigo do que é costume, mas, apesar disso, apenas sei da sua pessoa o que ele mesmo me contou.
Mae esperou que Sutton lhe dirigisse alguma pergunta, mas o jovem limitou-se a esperar que ela continuasse.
— E um homem estranho que reage sempre da forma que menos se espera. Nunca fala da família nem da sua vida passada. Dá a impressão de que se trata de uma pessoa fria e calculista, sem sentimentos de qualquer espécie. Estou convencida, pelo que me respeita, que tem por mim muita consideração. A sua atitude leva-me a pensar que está enamorado de mim. Não obstante, nunca me disse nada, a tal respeito, claramente, e apenas chego a essa conclusão através de uma ou outra insinuação casual.
Mae calou-se. Esteve observando Sutton com a maior atenção, como se estudasse as suas reações ante as suas últimas palavras. Mas, logo se sorriu abertamente, dizendo num tom não isento de coqueteria:
— Se está interessado, dir-lhe-ei que tenho muita estima por Dingo Tracy... Como amigo, entenda-se. Não o amo nem nada que com isso se pareça. Não é homem que me interesse, nem que eu aprecie.
Mae, insinuante e um tudo nada provocante, tinha os olhos fixos em Sutton. E este sentiu que o seu coração pulsava como o de um colegial.
— Ainda não encontrei o homem dos meus sonhos e que satisfaça as minhas aspirações.... Compreende?
— Compreendo, Mae — disse ele com voz apagada.
Mas, como se um íman os atraísse, avançaram um para o outro. Ela lançou-lhe os braços ao pescoço e ele, aspirando o seu delicioso perfume, apertou-a contra si com tanta ânsia que quase lhe cortou a respiração. Depois, beijou-a longamente, num beijo quente que parecia não ter fim...
— Acabem lá de beijocar-se, seus animais!
Aquela voz estalou como se fosse uma chicotada. Mae e Sutton desenlaçaram-se bruscamente e olharam para a porta do estabelecimento.
Um homem alto e magro, com o rosto contraído numa expressão de fúria demoníaca e chispas de ódio nas pupilas, acabava de chegar. Empunhava um enorme revólver na mão direita.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

PAS846. O amigo fiel

— Não quero entrar em pormenores que seriam, sem dúvida, muito desagradáveis. Basta que lhe diga que, seu pai tentou conseguir por todos os meios que eu me casasse com ele. Era-lhe indiferente que eu sentisse ou não amor por ele. Queria possuir-me por todo o preço; estava disposto a transigir com tudo, sob a única condição de eu lhe ser fiel. Rogou, suplicou e chegou, até, a ameaçar-me. Ou casava com ele, ou teria de abandonar a povoação. Não acreditei que fosse capaz de cumprir as suas ameaças e fiquei a rir-me dele. Oxalá eu nunca o tivesse feito. Moveu intrigas, deturpou a verdade, levantou falsos testemunhos... de parceria com todo o grupo de despeitados. Tornaram-me a vida impossível. Da manhã para a noite, todos os habitantes de Atwell Springs se tinham posto de acordo para apontar o meu estabeleci-'mento como um foco de imoralidade e um lugar de depravação onde se praticavam as mais vergonhosas orgias. Eu, não passava de um demónio de saias que personificava a tentação e o pecado. Todas as mulheres da povoação me envergonhavam em plena rua; as crianças, instrumentos inocentes daquela gentalha, perseguiam-me a toda a hora, dizendo-me os insultos mais vergonhosos. Tanto eu, como as pobres «girls» empregadas no «saloon», não nos atrevíamos a sair para fora de casa. Levaram os empregados a abandonar os seus lugares e chegou-se ao cúmulo de organizarem grupos de homens armados para impedir a entrada dos vaqueiros dos «ranchos» próximos. E não apareceu um único homem desse maldito povo que fosse capaz de pôr-se a meu lado, ante tão flagrante injustiça!
Mae pronunciara as últimas palavras com voz cava e os seus lábios contraíram-se num trejeito de amargura.
Sutton não duvidou um instante do esforço feito por Mae para manter a serenidade, no meio daquele desbobinar de recordações tão cruéis.
— Porque não recorreu ao xerife, a pedir-lhe proteção?
— Foi o que eu fiz, mas, o velho Fitzgerald nada pôde fazer. Os acontecimentos foram superiores a ele. Apesar disso foi ele quem protegeu as raparigas e a mim própria, quando abandonámos Atwell Springs. Dirigimo-nos para aqui, para Chalperton, e ficámos alojadas neste mesmo hotel. Dei uma indemnização às raparigas que se foram retirando pouco a pouco e eu mantive-me por aqui, à espera de poder vender o «Taça de Ouro». Mais tarde cheguei a um acordo com o antigo dono deste hotel. Tomou conta do «Taça de Ouro» e recebeu certa quantia em dinheiro, e eu tornei-me proprietária do hotel e do estabelecimento. Vivo aqui, a partir dessa data, onde tenho levado uma vida de relativa tranquilidade.
— Apenas relativa...?
— Sim. Porque não ficou tudo resolvido com a minha saída de Atwell Springs. Lembre-se que aquela povoação e Chalperton estão bastante próximas uma da outra. As notícias sabem-se depressa e seu pai conhece o meu paradeiro.
Mae interrompeu-se. Esteve um instante silenciosa e pensativa como escolhendo as palavras adequadas para continuar.
— Tem vindo por várias vezes a Chalperton e sempre com a mesma cantilena: que me ama e que me deseja para sua esposa. Deus meu! Juro-lhe que não compreendo como foi possível despertar-lhe uma paixão tão violenta, tanto mais que nada fiz para a favorecer.
Sutton lembrava-se, agora, do que ouvira dizer ao xerife: que seu pai vinha algumas vezes a Chalperton. Viu, então, qual era o motivo daquelas viagens que lhe pareciam pouco menos que inexplicáveis.
— Creia, no entanto, que isso não me amedronta —prosseguiu Mae. — Esta povoação não é Atwell Springs.
Tenho um negócio honesto, toda a gente me respeita e a Lei protege-me. Além disso tenho amigos fiéis que não hesitarão, a uma palavra minha, em dar a seu pai o destino que melhor convier.
— Conta Dingo Tracy, entre o número dos seus amigos fiéis?
— Sim e, por acaso, já se enfrentaram uma vez. Foi certo dia em que seu pai se atreveu a incomodar-me na sua presença. Deus meu! Pouco faltou para que se registasse um desenlace fatal. Dingo desarmou-o num ápice e vi jeitos de ele apertar o gatilho. Tive de interpor-me entre os dois e usar de toda a minha autoridade para evitar que disparasse. Seu pai retirou-se envergonhado e furioso, proferindo ameaças contra Dingo Tracy. Sei de boa origem que seu pai jurou matá-lo.
As últimas palavras de Mae provocaram em Sutton um indefinível mal-estar. Foi, pois, com ansiedade e emoção que começou a desfiar as suas ideias: seu pai tinha jurado matar Dingo Tracy, e, naquela mesma tarde, tinham chegado dois pistoleiros a Chalperton, dispostos a eliminá-lo... mas, foram induzidos em erro, porque o retrato era o seu próprio... que devia estar na posse de seu pai! E se este, possuindo um retrato de Dingo Tracy, o tivesse trocado inadvertidamente?... Santo Deus! Que estava ele pensando? Este raciocínio levava-o à convicção de que fora seu pai a pessoa que pagara aos dois assassinos para que o livrassem de Dingo Tracy.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

PAS845. A história de Mae

— Nasci em Atlanta onde vivi com meus pais até à idade de seis anos. Veio a guerra e deve saber como ficou aquela cidade depois do ataque das tropas do general Sherman. Meus pais morreram vítimas do bombardeio, pelo que, meu tio Maxwell tomou conta de mim, levando-me a viver com ele para Dallas.
Mae fez uma nova pausa. No seu rosto havia uma sombra de tristeza. Decorreram alguns segundos e prosseguiu:
— Quando meu tio morreu fui eu a sua herdeira universal, visto que não havia mais parentes: um «rancho» e um negócio misto de «saloon» e de hotel. Fiquei à frente dos negócios, mas, naquela altura, Dallas estava em completo desassossego e uma rapariga tão nova como eu não era, certamente, a pessoa mais indicada para gerir um estabelecimento daquele género. Vendi todas as propriedades pela soma de cinquenta mil dólares e abandonei a cidade. Vim então para o Oeste, com o propósito de estabelecer-me em qualquer parte que fosse mais tranquila do que Dallas. Foi assim que fui dar com os ossos a Atwell Springs, onde adquiri um desorganizado «saloon», chamado «A Taça de Ouro». Deve recordar-se ainda dele, não?
— Naturalmente. Mas, chamar àquilo desorganizado, é favor. A última vez que ali estive, pareceu-me mais uma espelunca do que outra coisa.
— Pois afirmo-lhe que o adquiri por bom preço. E, mais ainda do que isso, me custou pô-lo em condições. Mandei-o decorar de harmonia com o estilo moderno. Construiu-se um cenário para os espetáculos de atracões, instalei uma casa de jogo e escrevi para uma casa de Prisco (1) que se encarregou de enviar-me um escolhido grupo de «girls» para alegrarem o ambiente.
— Que arrojo, Mae! Isso devia ter produzido em Atwell Springs o efeito de uma bomba. Segundo me parece aquela gente é bastante austera.
— Hipócritas! Hipócritas e fariseus é o que eles são.
Mae estava transfigurada. Tinha os dentes cerrados e os seus olhos despediam centelhas de ódio. Apesar disso, Sutton continuou a achá-la lindíssima.
— Pode continuar, Mae.
— Durante os primeiros meses tudo correu às mil maravilhas. O clima que se respirava na «Taça de Ouro» era qualquer coisa de novo para aquela gente. Dispunham de um sítio para beber e jogar em companhia de belas raparigas. Para as poucas mulheres que ali havia, o meu estabelecimento devia assemelhar-se à antecâmara do inferno.
Mae sorriu-se com certa maldade e acrescentou:
— Havia ali um grupo de fregueses assíduos, constituído pelos homens mais categorizados da povoação. Naturalmente, eram eles os preferidos. Não pelas suas lindas caras, é bem de ver, mas apenas porque me interessava contar com pessoas influentes que, ao mesmo tempo que serviam de muralha contra o falatório e contra as más línguas, contribuíam para manter o ambiente em certo nível de honestidade. Enchiam-me de atenções e eram os primeiros a propalar aos quatro ventos que a «Taça de Ouro» não era um antro de perdição como afirmavam as megeras daquele lugar. Isto, é claro, foi no princípio. Por fim tudo mudou.
Não era difícil a Sutton acompanhar a descrição da jovem. Mae fazia reviver todas as personagens e todas as situações de outro tempo, com as mais pitorescas frases.
Depois de uma breve pausa, continuou:
-- Eu devia ter previsto o que estava para vir. Mas fui uma autêntica idiota por não me ter apercebido de que alguns daqueles sujeitos começaram a mostrar demasiado interesse por mim. Olhares, frases, insinuações que, ainda que me não passassem desapercebidas, não me incomodavam porque não lhes ligava importância. Em resumo: começaram aqui os meus desgostos. Que era mais amável com este; que me havia sorrido para aquele: que fulano tinha dito; que sicrano tinha insinuado. Enfim... tudo aquilo se converteu num inferno de ciúmes e de paixões que me não foi possível dominar. Aquela corja de imbecis confundia a minha simpatia e confiança com sentimentos que eu estava bem longe de sentir e que também não desejava despertar fosse em quem fosse. Foi um pandemónio, uma confusão dos diabos. Começaram por se afastar uns dos outros; seguiram-se os olhares carrancudos e as frases de duplo sentido e, por fim, passaram a vias de facto. Não havia dia em que não houvesse uma altercação que acabava, geralmente, por uma zaragata... Quereria poder demonstrar--lhe que em todo este desagradável assunto me comportei sempre como uma mulher digna e que jamais consenti que algum se excedesse.
— Acredito-a, Mae. Conheço-a há bem pouco tempo e já tive ocasião de formar o meu juízo a seu respeito. Tenho-a por uma mulher honesta, com uma cabeça muito equilibrada.
Os olhos de Sutton ficaram presos aos olhos de Mae. Viu neles uma doçura infinita e um desejo imenso de ser compreendida.
— Não tinha outro remédio senão cortar a direito — continuou a jovem. — Uma noite fiz reunir todos aqueles pretendentes e, depois de fechar o estabelecimento, pus as cartas todas à vista. Reconheço que fui demasiado brusca para com eles, mas, disse-lhes tudo quanto entendi acerca do seu ignóbil procedimento para comigo. Ri-me nas suas próprias barbas e diverti-me a explicar-lhes que não pensara ainda em me unir a homem algum e que, quando isso viesse a acontecer, não seria certamente com um «parolo» como sucedia com a maioria deles. Foram-se dali sem adeus me dizerem. n claro que nunca mais puseram os pés na «Taça de Ouro». O negócio continuou no seu ritmo normal. Os vaqueiros das redondezas continuavam a frequentar o «saloon», gastando ali o seu. dinheiro. Nada fazia prever a tempestade que estava para se desencadear. Como lhe disse, todos os meus desiludidos admiradores desapareceram para sempre do estabelecimento. Não foi exatamente assim: houve uma exceção. Essa exceção chamava-se Michael Sutton. Era o seu pai.
Sutton não foi apanhado desprevenido. Pelo que já era do seu conhecimento, presumia que seu pai tivesse tomado parte ativa nos factos que Mae estava relatando.
(1) Prisco: Denominação abreviada de São Francisco da Califórnia, usada nos Estados Unidos.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

BIS152. Nas fronteiras do ódio

 
(Coleção Bisonte, nº152)
No regresso a Atwell Spring, Rchard Sutton fez uma paragem em Chalperton e isso quase lhe ia fazendo perder a vida. Dois homens tentaram matá-lo julgando que ele se chamava Dingo Tracy, mas traziam consigo uma foto com as suas feições. Quem teria entregue a foto àqueles dois energúmenos, sabendo que só existiam duas cópias da mesma, uma na posse do seu pai outra de uma antiga namorada que vivia em Nova York?
Richard acaba por conhecer em Atwell uma mulher que o vai ajudar a esclarecer a questão. Afinal, a jovem era assediada pelo pai e tinha como amigo fiel o pistoleiro Dingo o qual era um obstáculo aos avanços do velho Sutton. Caiu assim nas fronteiras do ódio.
A evolução da novela acaba por trazer ao de cima a rivalidade entre pai e filho suscitada pelo amor a Mae a qual acabou por ter uma solução por arma alheia.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

PAS844. O fim dos preconceitos

-- Patrão! Olhe!
Amos Johnson encontrava-se a meia milha do seu rancho, inspecionando os estragos causados pelo nevão, pelo que era dado ver, não tinham sido muito grandes. Se o frio não aumentasse, em meia dúzia de dias teria desaparecido a camada de gelo ártico, trazido pelo vente em forma de pó. Ao ouvir a voz do seu vaqueiro, voltou -se na direção apontada por este.
Doze a catorze cavaleiros, embiocados em amplas capas, tal como ele e os dois vaqueiros que o acompanhavam também estavam, dirigiam-se decididamente para sua casa.
Durante uns segundos ficaram os três a olhar para o grupo que se aproximava. A distância a que se encontravam não lhes permitia distinguir as feições de quem quer que fosse. Porém, a direção de onde provinham indicava perfeitamente de quem se tratava.
— São os Withers... e não creio que nos venham fazer uma visita de cortesia! — disse, ao mesmo tempo que tocava ao de leve com as esporas na barriga do cavalo. — Vamos ao seu encontro.
— São muitos para nós, patrão — arriscou o vaqueiro que primeiro os havia visto. — Talvez seja melhor recolhermo-nos ao rancho.
Johnson fitou-o com um olhar duro.
— Tens medo deles?
— Não, mas... — o rapaz baixou a vista, um pouco envergonhado.
— Vamos!
Os outros já os haviam visto, mas não tinham feito qualquer movimento hostil. Amos Johnson e os seus dois vaqueiros colocaram-se na frente deles, obstruindo a passagem.
Dan Withers e um outro que Amos tinha visto antes, mas logo identificou como sendo seu irmão, marchavam à cabeça. Todo o grupo apresentava um ar de poucos amigos e uma expressão decidida.
— Já haveis reparado que este não é o vosso rancho? — interrogou Johnson com modos bruscos.
— Quem é este sujeito? — perguntou Jeff ao irmão.
— Amos Johnson em pessoa.
Então deixa que seja eu a responder-lhe. — E, voltando-se para o proprietário, prosseguiu: — Não sei por que se admira. Suponho que aqui deve ser um hábito generalizado invadir as terras dos outros. Porque não pede a opinião aos seus homens, que ainda ontem mataram um dos meus vaqueiros... dentro dos limites d nosso rancho?
Johnson ficou pálido de raiva.
— Os meus rapazes não são assassinos!
— ...E aos que há cerca de duas semanas nos assassinaram dois pastores, obrigando depois cerca de um milhar de ovelhas a despenharem-se num precipício, não falando já no incêndio que provocaram e nos poderia ter destruído as pastagens? — continuou Jeff, como s não tivesse dado pela interrupção.
Amos levou a mão ao revólver, no que foi imitado pelos seus vaqueiros. Aquela acusação ultrapassava todo os limites...
Mas tinham-se esquecido de que estavam a lidar com experimentados gun-men. Ainda eles nem sequer tinham conseguido fechar as mãos sobre os punhos das armas já estavam cercados por uma floresta de revólveres que os visavam.
Dan, agindo rapidamente, e sem pensar que estava arriscando a vida, obrigou o seu cavalo a dar um salto interpondo-se aos dois grupos.
— Não sejam loucos..., todos vocês! Deixem lá os revólveres! — gritou.
— Sai daí, Kid — avisou Jeff com um sorriso cruel, a bailar-lhe nos lábios. — Este assunto vai ficar resolvido já... e à nossa maneira.
— Calem-se! — berrou enfurecido o mais novo do Withers. E virando-se para o irmão, continuou: — Já te tinha dito, e volto a repetir-te agora, que não acredito que Amos tenha alguma coisa a ver com essa história por muito que ele odeie as ovelhas.
Lije foi morto junto dos limites do seu rancho — insistiu Jeff. — Terá de arranjar uma boa explicação, se quiser que o acreditemos.
Dan fitou de novo o pai da sua noiva.
— Tem alguma coisa a dizer a este respeito, Amos?
— Absolutamente nada. Não dei ordens, fosse a quem fosse, para que vos molestasse. Fico satisfeito só com o não vos ver... desde que vocês não entrem nas minhas terras. E posso dizer o mesmo de Noah. Temos conversado muito nestes últimos dias. Tratem de arranjar lar que essas porcas ovelhas que haveis trazido para a região não estorvem os outros, e nenhum homem decente se meterá convosco!
— Estás a ver, Jeff? — exclamou Dan, esperançado.
— Não passam de palavras — replicou este, que não ficara nem muito nem pouco convencido. — Se só formos a exercer represálias quando tivermos provas de quem é o nosso inimigo, bem podemos começar a fazer as trouxas.
— Posso garantir que não serei eu quem irá pedir para vocês ficarem — esclareceu o rancheiro, aproveitando a deixa.
Não precisamos que nos peça nada, amigo... nem para irmos, nem para ficarmos! Quanto à sua boa vontade, eu não sou tão crédulo como este. Quererá dizer-me o que faziam você e o outro homem honrado de região, esse tal Leigh, enquanto o Kid era despojado de tudo o que possuía, até ficar reduzido ao que tinha no corpo. inclusive a bala nos costados?
— Eles também perderam muita coisa, Jeff! — intercedeu Dan. — Falei-te nisso várias vezes.
— Não sejas palerma! — insultou Jeff que, excitado, estava pronto a explodir à mínima provocação. — Isso foi o que eles te disseram. Mas então como se explica o facto de eles continuarem na mó de cima, enquanto tu estás arruinado? O que seria feito de ti se nós não tivéssemos vindo? Bolas! Mas que lindos amigos tu arranjaste! Garanto-te que passarias muito melhor sem eles... De futuro, será bom que eles tenham sempre presente o seguinte: do mesmo modo que permitiram que tu te afundasses, sem mexerem um dedo para te ajudar, também nós faremos o mesmo quando chegar a sua vez. Cada qual tratará de si... e ai daquele que se cruze no nosso caminho!
Estava de tal modo dominado pela cólera, que algumas das suas palavras eram quase ininteligíveis. No entanto, a ameaça era bem clara; tão clara que quando eles fizeram meia volta e tomaram o caminho do rancho de Rockies, Amos Johnson, saindo do estado de aturdimento em que o lançara aquela torrente de ameaças e censuras, virou-se para os seus, vaqueiros e, contrito, admitiu:
— Creio que ele tem alguma razão, moços. Como nos não amargava... deixámos que o Dan se desembaraçasse sozinho. A minha filha apelidou-me muitas rezes de egoísta, e agora vejo que não andava muito longe da verdade...
— Não passam de uns porcos pastores de ovelhas, patrão! Deixe-os lá!
— Estás obcecado pelos preconceitos que todo criador de gado bovino alimenta contra as ovelhas. Eu também enfermo do mesmo mal, mas isso não me impede de pensar com clareza. A verdade é que até agora não deram o mínimo sinal de quererem invadir as terras destinadas às vacas, nem sequer no seu próprio rancho. E isto não é tudo. Sabeis o que penso?
Os dois vaqueiros encolheram os ombros, em sinal de ignorância.
— Que ainda tem razão noutra coisa. Os Whithers, presentemente, são os mais fortes do vale. Os tipos que os escoltavam mais pareciam pistoleiros do que qualquer outra coisa. Weser há-de pensar duas vezes antes de se meter com eles. Quem nos diz que não chegou a vez de nós soçobrarmos... e de serem eles a assistir ao espetáculo?
— Que acha que devemos fazer? Que nos aliemos a eles?
Johnson abanou a cabeça em sinal de dúvida.
— Dan, talvez... Mas o seu irmão não quererá saber de nós para nada. Vamos a casa de Noah. Tenho de lhe contar o que se passa, e aproveitaremos para ver que tal se tem portado o seu gado com este tempo.
Os catorze homens do rancho dos Withers atravessaram a propriedade de Johnson, cortando em diagonal. À medida que se iam aproximando do rancho da Rockies, Sammy Eden sentia-se cada vez menos tranquilo. Não tinha a menor graça acabar por se ver envolvido numa refrega em que estava sujeito a receber um balázio dos seus próprios amigos, ou, o que viria a dar no mesmo, que estes vendo-o fazer parte do grupo, o considerassem um duplo traidor. Por causa das dúvidas, foi diminuindo o andamento, até ficar na cauda da coluna. Mais do que isso não se atrevia a fazer, receando chamar a atenção.
— Esses cabeços aí indicam a linha divisória deste lado — esclareceu Dan. — Os edifícios ficam apenas a uma milha.
Os cavalos avançavam sem ruído sobre o branco manto de neve. Foi este facto que lhes permitiu chegar sem serem ouvidos junto de um grupo de quatro homens, os quais estavam preparando o almoço em frente de uma cabana.
Tanto uns como outros ficaram surpreendidos perante o inesperado encontro. O primeiro a ver os visitantes pôs-se em pé de um salto, empunhando o se revólver, enquanto gritava à laia de aviso:
— Cuidado, rapazes!
Foi a primeira vez que Dan lançou mão de uma arma na presença de seu irmão, tendo intenção de a usar. E tão fulminante foi a sua ação que o homem da Rockies, já tinha caído de costas com uma bala entre os olhos e ainda os outros não se tinham refeito da surpresa.
O revólver do homem disparou contra o chão, pois ele ainda nem sequer tinha tido tempo de o levantar, quando o espasmo da morte lhe fez apertar o gatilho.
— Bom tiro, Kid... — elogiou Jeff, admirado. — Nem eu próprio teria feito... Fred!
Acabava de identificar um dos outros três que se haviam posto de pé, com as mãos no ar. O seu antigo subordinado estava mais pálido que os restantes, pois não ignorava que, para si, o fim daquela entrevista era a morte.
Sammy Eden, cada vez mais assustado com o aspeto que o caso estava a tomar, adiantou-se de revólver em punho, pronto a disparar contra o seu amigo, dissimulando os seus verdadeiros motivos com uma torrente de injúrias:
— Traidor! Canalha! Era tu que...
Absolutamente desnorteado, pensou que o melhor processo de evitar que Fred dissesse alguma coisa que o pudesse comprometer seria matá-lo. Mas no momento em que ia levar a cabo os seus intentos uma bala incrustou-se-lhe no peito. O estampido do tiro de carabina permitiu localizar o atirador no cimo do cabeço que acabavam de contornar.
Sammy tombou da sela. Houve uns momentos de confusão que os outros três apaniguados de Weser aproveitaram para fugir em todas as direções. Entretanto a carabina continuava a entoar a sua canção de morte.
Outro dos homens de Jeff caiu de braços abertos quando um projétil lhe trespassou o cérebro. Um cavalo relinchou de dor ao sentir uma queimadura proveniente do terceiro disparo, caindo e arrastando o seu cavaleiro na queda.
Era inútil tentar dar ordens no meio daquela barafunda. A pé ou a cavalo, cada um corria para o seu lado, procurando um local para abrigar-se. Só ao fim de alguns segundos a luta assumiu um aspeto de batalha organizada.
Fred, o que melhor soubera aproveitar a oportunidade, galopava como um possesso em direção ao lancho. Os seus dois companheiros tinham-se encerrado na cabana, valendo-se da proteção do outro que continuava a disparar a coberto das rochas.
De carabina na mão, Dan arrastou-se até chegar junto de seu irmão.
— Temos de nos safar depressa daqui, Jeff. Aquele tipo dará o sinal de alarme, e o rancho não fica longe.
— Julgas que ainda não reparei no lindo sarilho em que, estamos metidos? Dá cá essa carabina. Temos de fazer calar o fulano que está ali em cima.
— É Smiley — informou Dan, reconhecendo-o. -- Deixa-o comigo.
Procurando esquecer os projéteis que zumbiam a sua volta, o mais novo dos Withers meteu a arma à cara, apoiando-se na rocha que lhe servia de escudo. A distância era bastante grande e o outro conservava-se bem oculto, não se mostrando senão o estritamente necessário para visar os que se encontravam em baixo.
Jeff começou a impacientar-se vendo a calma comi; que seu irmão fazia pontaria. Abriu a boca para protestar, mas, exatamente nesse momento, a carabina cuspiu a sua carga mortífera, envolta numa labareda de fumo.
Ao longe, lá no alto, uma arma voou pelos ares. O seu 1 proprietário pôs-se de pé, como se quisesse agarrá-la, mas, em vez disso, caiu de cabeça para baixo pelo declive escarpado, embatendo e rasgando-se de encontro às finas arestas dos penhascos.
Quando o seu corpo se deteve uns metros abaixo não dava o mínimo sinal de vida. Morrera quase instantaneamente.
— Em marcha! — comandou Jeff, felicitando intimamente Dan pela pontaria que havia demonstrado, tanto com a carabina, como com o revólver.
Erguendo-se sem deixar de fazer fogo sobre os homens que se tinham refugiado na cabana, retrocederam para o local onde se tinham reunido os cavalos. O momento não era muito indicado para se dirigirem à Rockies e tentarem falar com Weser. Jeff decidiu que noutra oportunidade... que tinha intenção de fazer surgir o mais depressa possível, iriam deixar um cartão de visita mais airoso que o presente.
Para já, tinham mostrado os dentes e provado que os sabiam usar.
Quando já se afastavam a todo o galope, puderam ver o numeroso grupo de cavaleiros que se aproximava da cena de batalha. Felizmente, demasiado tarde para fazerem outra coisa que não fosse enterrar os mortos.

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