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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ARZ140.16 A serpente do deserto fez o que parecia impossível ao homem

No momento em que a avistou, ao dobrar um cotovelo rochoso, avistou também Roland, que saía. Roland ia bem vestido, como sempre, e levava um baú amarrado à garupa do cavalo, atrás da sela.
Viu vir Larsen e compreendeu em seguida do que se tratava. Não perdeu nem um segundo. Pusera pouco antes em liberdade todos os cavalos, para que ninguém o pudesse perseguir. Agora chegava aquele intruso, mas não duraria muito...
Um só disparo bastou para acabar com o animal montado por Larsen. Este caiu pesadamente no chão, enquanto Roland soltava uma gargalhada. A menos de trinta jardas parou e apontou a Larsen, o qual sabia que já não tinha tempo de sacar. E o seu inimigo via-o perfeitamente, porque as primeiras luzes do amanhecer surgiam no horizonte. A segunda gargalhada de Roland ecoou triunfalmente na claridade leitosa.
— Sabes que estás perdido, Larsen... Sabes que não poderás mexer um dedo antes de eu disparar. E como sei ao que vens, dispararei sem hesitar... Mas antes quero dar-te a satisfação de te dizer que tinhas razão... Sim, eu fiz assaltar a diligência e depois arranjei as coisas de modo a ficar com todo o ouro. E tu deste-me uma pequena fortuna, para me ajudares! Se tivesse tempo, oferecer-te-ia uma bonita lápida, boneco, mas não tenho. Antes de passar uma hora atravessarei a fronteira do México, de modo que penso acabar contigo agora mesmo...

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

ARZ140.15 A última fronteira para um xerife

Larsen parou. Teria parado mesmo no ar ao ouvir aquela voz. Porque era a voz do xerife Rocket.
Coberto de pó, com os olhos a brilhar como carvões acesos, a mão crispada a muito pouca distância do revólver, o xerife Rocket olhava-o fixamente a doze passos de distância. Boa distância para matar... ou para morrer.
— Procurei-te por todo o Sudoeste — resmungou o xerife. — Agora, maldito seja o inferno, chegámos os dois ao fim, chegámos à última fronteira. Vamos decidir isto de uma vez para sempre.
Larsen disse, num fio de voz:
— Sim, xerife, de uma vez para sempre.
— O teu revólver está carregado?
— Ainda tem, pelo menos, duas balas xerife. Mas antes de acontecer o inevitável quero que me escute. Todo o condenado à morte tem direito a formular o último pedido.
— Fala, mas sê breve. Juro-te que os meus dedos já tremem ao pensar no gatilho.
— Você não tem autoridade aqui, Rocket. Não procede em nome da lei.
— Bom, e depois? Procedo em nome do meu revólver.
— Contratou pistoleiros para me liquidarem por qualquer preço. Um desses pistoleiros foi até dos que assaltaram a diligência. Descobri-o porque o seu cavalo me trouxe, impelido pela querença, a casa de Roland. E contratar pistoleiros não é legal.
— Eu não falo de legalidades, rapaz; falo de balas.
— Pois ouça-me agora, xerife Rocket. Posto que estamos nesta situação, posto que não tem o direito de me prender, podemos chegar a um acordo. Deixe-me ir a casa de um homem que fica exatamente a duas milhas daqui. Assim que resolver um assunto com ele, terei muito prazer em conversar do nosso caso.
O homem da estrela denegou lentamente com a cabeça, ao mesmo tempo que um sorriso lhe aflorava aos lábios.
— Não há acordo, Larsen.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

ARZ140.14 Um cavalo com uma conduta estranha e salvadora

Larsen parou um momento no meio da rua principal, a olhar com saudade os edifícios da pequena cidade. Jamais teria podido imaginar que um lugarejo tão insignificante como aquele penetrasse tão fundo no seu coração.
Estava numa aldeola perdida nas imediações da fronteira, num sítio ao qual quase não levava nenhum caminho, num recanto situado em parte alguma. E, no entanto, pelo simples facto de Ingrid viver ali, a povoação de Deming adquiria um significado diferente. Era um lugar doce, um sítio bom para viver e morrer.
Mas Larsen não viveria nem morreria ali. Larsen tinha de fugir, teria de fugir sempre, eternamente, enquanto ó xerife Rocket continuasse a persegui-lo com aquele ódio fanático. Estava a cavalo e mal levava provisões que lhe permitissem chegar ao México. Uma vez lá, pensaria no que devia fazer.
A ferida doía-lhe intensamente, mas não tinha febre. Aquela dor devia ser a inevitável consequência dos últimos esforços despendidos. Mais valia não pensar nela.
Mas enquanto Larsen estava mergulhado nestas reflexões, despedindo-se da cidade, alguém decidira que ficasse ali.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

ARZ140.13 Ainda há quem entregue o ouro ao bandido

Roland regressou silenciosamente a sua casa, dando uma volta para não ser ouvido, e por fim entrou por uma janela das traseiras. Já colocara debaixo da janela um grosso tapete, para abafar o ruído dos seus passos, e dali entrou silenciosamente num quartinho que lhe servia de arrecadação e no qual havia um armário que Ingrid jamais se atreveria a abrir. Era o armário onde se guardavam as carabinas e as munições, coisas que para nada interessavam à mulher.
Arrumou as carabinas no armário, em cujo fundo havia um buraco muito bem dissimulado pelas caixas de munições. Nesse buraco ia a colocar o baú, mas antes sentiu a tentação irresistível de o abrir.
Queria ver os duzentos mil pesos mexicanos, queria desfrutar a contemplação de uma fortuna que o convertia no homem mais rico da região.
O conteúdo daquele baú permitir-lhe-ia viver no México como um nababo, até que dentro de cinco ou seis anos, esgotado o dinheiro e cansado da mulher que o acompanharia, começasse vida nova.
O pensamento de que aquele dinheiro custara muito sangue e, além disso, se esgotaria um dia, não o preocupou absolutamente nada.
Tinha na sua frente cinco ou mais anos de riqueza e prazer na companhia de urna mulher que lhe transtornava os sentidos. E isso era mais que suficiente para um homem como Roland.

domingo, 27 de outubro de 2019

ARZ140.12 Perseguição Implacável chega a Deming

O homem que avançava penosamente entre os rochedos ouviu o cavalo relinchar segunda vez, o que parecia indicar que farejara à distância a presença de algum outro ser humano.
Pouco antes tinham-se ouvido tiros e a isso se devia o facto de o cavaleiro se ter desviado do seu caminho para se meter por aquele labirinto rochoso. Mas estava convencido de que, quando chegasse, já não encontraria o autor das detonações.
O relincho do cavalo fez-lhe conceber a esperança de que talvez ainda chegasse a tampo. Picou de esporas e obrigou-o a avançar mais depressa na escuridão, embora com risco de que o animal partisse uma pata.
 Pouco depois julgou distinguir um leve clarão entre umas rochas. Ao aproximar-se mais, viu que se tratava de uma fogueira prestes a extinguir-se. Em torno dela descobriu uns vultos que não tardou a verificar serem cadáveres de homens.
O recém-chegado desmontou e, à luz da fogueira, observou os rostos dos mortos. Conhecia-os, conhecia-os muito bem. Eram todos bandidos da fronteira, tipos que cometiam os seus crimes no Sul do Novo México, valendo-se da relativa impunidade que lhes proporcionava o poderem passar com facilidade de um país para o outro.
Eram procurados em vários condados, entre os quais o dele. Porque o homem que acabava de chegar à cena da matança e de desmontar junto da fogueira, não era senão o xerife Rocket. Desta vez vinha só. Nenhum pistoleiro a soldo o quisera seguir para capturar um tipo tão perigoso como Larsen e nenhum voluntário se oferecera também para aquele trabalho. E como Rocket não tinha autoridade para isso na região, tão--pouco pudera formar uma milícia. Mas ele continuava sozinho. Seguiria a pista até à última pegada, até ao fim.
— Até à morte de um dos dois.

sábado, 26 de outubro de 2019

ARZ140.11 Um bando desfeito

A pequena fogueira cobria de leves resplendores os rostos dos bandidos reunidos no acampamento que Roland visitara noites antes. As estrelas recamavam o céu e a quietude era absoluta.
Os cinco homens reunidos ali tinham quase a sensação de se encontrarem numa ilha deserta, no fim do mundo, onde nenhum perigo os poderia ameaçar. E esse excesso de confiança, originado por vários dias, de estada ali sem o menor contratempo, levara-os a não pôr ninguém de guarda à entrada do refúgio.
Agora os rostos de quatro deles estavam voltados com irritação para o homenzinho que imitava o uivo dos coiotes e se entretinha a caçar as serpentes do deserto.
— Já mataste esse bicharoco? Não o terás escondido perto daqui, com risco de se introduzir no acampamento?
— Juro-lhes que...
— Tu e as tuas malditas serpentes acabarão na fogueira! Nunca vi mania mais repugnante do que essa! Podias entreter-te a colecionar mulheres...
— As mulheres são mais traiçoeiras do que as serpentes e ligam-me muito menos importância.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

ARZ140.10 O amor que não desapareceu

O jovem montou no que já considerava o seu cavalo e dirigiu-se sem demora para a casa dos arredores onde morava Ingrid. Caso surpreendente, também desta vez não teve necessidade de dirigir o cavalo. O próprio animal tomou tranquilamente o caminho da casa e parou diante dela, como se a conhecesse desde que nascera.
Normalmente, este facto teria chamado a atenção de Larsen; mas ia absorto nos seus pensamentos e não o notou. Quer dizer, teve a sensação de guiar o cavalo de uma forma maquinal, quando, na realidade, fora a montada que não necessitara de ser dirigida.
Quando o animal se deteve diante da casa, Larsen desmontou calmamente e aproximou-se do alpendre. Tinham descido já as sombras da noite e o ar parado dava ao ambiente uma doçura especial.
A casa, branca e limpa, salientava-se na penumbra com uma claridade quase irreal, proporcionando uma sensação de paz que tocou o fundo do coração de Larsen. Mas este disse para consigo que não vinha falar com Ingrid e sim com o seu marido, Devia esquecer tudo o que os ligara noutro tempo.
Ao bater à porta, porém, abriu-lha a própria Ingrid. Trazia um vestido preto, muito cingido às suas formas, e os seus olhos claros brilhavam com tanta limpidez como nos tempos em que os seus destinos foram comuns.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

ARZ140.09 Ganhar 100 mil dólares falsos

Percy era um homem ordenado e meticuloso, um verdadeiro jogador profissional. Depois de uma breve visita de observação, na noite anterior, ao «saloon» da cidade, durante a qual não notara nada de extraordinário, decidiu que no dia seguinte poderiam começar as partidas. Por isso, naquela tarde, por volta das cinco, apresentou-se no «saloon», sentou-se a uma mesa e começou a fazer paciências, sem dar atenção, segundo parecia, a nenhum dos homens que havia no estabelecimento. Um cavalheiro tão bem vestido como ele tinha de chamar a atenção do «saloon».
Alguns dos clientes mais habituais começaram a olhá-lo. Parte desses clientes vestia pobremente, mas eram gente rica. Alguns viviam do contrabando com o México, outros vendiam armas e álcool aos índios da fronteira...
Não poucos possuíam terras e gado que davam bons rendimentos e — o mais importante — a maior parte deles não sabia o que era trabalhar. Por isso, a dois desses homens tentou-os a possibilidade de uma partida com aquele desconhecido.
Deming era uma povoação ainda não explorada pelos jogadores e ninguém desconfiou. Percy começou por dizer que não queria jogar.
— Agradeço-lhes, cavalheiros, mas estou apenas de passagem na cidade. Instalei-me no hotel até receber a visita de um negociante de gado que tem de fechar um negócio comigo. Só faço paciências para me distrair. Na realidade, desconfio das cartas; não me dão sorte.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ARZ140.08 O coiote que uivava com precisão de relógio

Deviam ser três horas da madrugada e a noite estava muito escura quando aquele coiote se pôs a uivar nas montanhas.
Roland, que estava no leito contíguo ao da esposa, no grande quarto com duas camas, levantou a cabeça ao ouvir aquele prolongado e agoirento uivo. Este repetiu-se. Pelos vistos, o coiote procurava a fêmea.
Em silêncio, levantou-se, procurando não acordar a esposa, embora soubesse que não eram necessárias muitas precauções, porque lhe pusera umas gotas de narcótico no copo de vinho do Porto que em geral tomavam ambos depois do jantar.
Vestiu-se com rapidez, para sair de casa, e calçou botas de montar, mas sem esporas. Depois, afivelou um cinturão-cartucheira com um revólver e saiu pela janela, silenciosamente. Os criados dormiam nas traseiras da casa, de modo que nenhum deles, logicamente, deveria dar pela sua saída.
Aproximou-se da cavalariça, mas no último momento pareceu pensar melhor e caminhou velozmente, procurando pisar a erva fresca, até se afastar do rancho umas quinhentas jardas. Então, abandonou todas as precauções e estugou o passo, embora fizesse barulho ao pisar as pedras.
Não foi em direção a Deming, a pequena povoação vizinha, mas sim em direção às montanhas que ficavam a leste, onde o coiote continuava a uivar regularmente, com uma exasperante monotonia, de três em três minutos. Por fim, entre uns penhascos, encontrou o tipo que imitava tão bem o uivo do animal.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

ARZ140.07 Jogar com dinheiro falso

Naquele momento, enquanto Larsen refletia febrilmente, um grupo formado por cinco cavaleiros observava a cidade do alto de uma das colinas que a rodeavam.
Os cinco cavaleiros eram um tanto especiais, porque havia dois que estavam elegantemente vestidos, enquanto os outros três tinham aspeto de pistoleiros da fronteira.
Os dois elegantes envergavam sobrecasacas cinzentas, calças pretas e coletes bordados. Bastava vê-los para se descobrir que eram jogadores profissionais, embora o mais novo deles tivesse cara de inocente. Os seus olhos grandes e límpidos deviam ter infundido falsa confiança a mais de um criador de gado, que depois lamentaria a perda das economias de toda a sua vida.
Quanto aos tipos que os seguiam, deviam estar contratados para os proteger. Nem tudo eram rosas na profissão de jogador e convinha tomar precauções.
Às vezes, um homem esperava ganhar uma montanha de ouro e ganhava um pedacinho de chumbo. O jogador de mais idade perguntou:
— Vês isso, Len?
— Sim... é, com certeza, a povoação de Deming. Uma terra excelente e civilizada onde nem sequer há xerife. Persistes na ideia de nos estabelecermos aqui, Percy?
Percy, o jogador mais velho, refletiu uns instantes.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

ARZ140.06 Honradez de cão

Ingrid fitou o homem que estava no limiar. A sua palidez era extrema. Queria manter-se calma, mas os lábios tremiam-lhe espasmodicamente.
— Não devias ter aparecido — murmurou.
— Ouvi tudo, da cama, e já não podia aguentar mais.
— Mas comprometeste-me... Não sabia que estavas aqui, Ingrid. Não sabia, também, que aquela voz era a do teu marido. Eu só percebi que na casa onde me tinham ajudado estavam em apuros, e julguei meu dever aparecer e... — De súbito, calou-se. — Lamento, Ingrid. Agora compreendo que fui um estúpido. Partirei imediatamente.
— Não podes. Tens febre...
— E tu tens um marido. Isso é muito mais importante.
— Sabes que... Sabes que Roland te odeia. Nunca te perdoará saber que te deve pouco menos do que a vida.
— Não me voltará a ver. Já te disse que me vou embora imediatamente.
Ia dirigir-se para o quarto onde estavam a sua camisa e as suas coisas, mas nesse momento dobraram-se-lhe os joelhos, devida à sua fraqueza. Conseguiu refazer-se sem demora, mas Ingrid notou-lhe o desfalecimento.
— Não podes ir-te embora assim. Seria uma loucura.
— Pelo contrário, a loucura seria ficar aqui.
-- Porquê?
Ele virou-se devagar. Os seus olhos percorreram lentamente a figura da mulher, pareceram criá-la de novo, como se Ingrid surgisse do fundo das suas recordações, talvez do nada. Nos olhos do homem brilhou a chispazinha de uma mágoa distante, mas que ia crescendo pouco a pouco.

domingo, 20 de outubro de 2019

ARZ140.05 Salvo pelo rival

O cavalo deteve-se diante da porta da casa. Era um cavalo alugado, nem muito novo nem muito bom, que ao chegar ao seu destino estava à beira do esgotamento.
Ingrid saiu ao ouvir o barulho dos cascos do animal. Encontrou-se diante de um homem novo, bem vestido, que tinha aspeto de banqueiro ou de empregado de alta categoria. Aquele homem era, nem mais nem menos, que Roland, seu marido.
Ingrid viu-o tão alterado que se aproximou impulsivamente dele.
— Que tens, Roland? Não devias ter regressado ontem à noite?
A mulher estava vestida normalmente, pois haviam passado já vinte e quatro horas desde que Larsen ali chegara ferido e ela viera ao alpendre apenas em camisa de dormir. Naquele momento, e apesar das roupas severas que a cobriam, a sua beleza era serena, perturbadora, inquietante. O homem beijou-a nos lábios, mas dando a sensação de que pensava noutro coisa.
— Não devias ter regressado ontem à noite? — repetiu Ingrid.
— Sim, mas aconteceu uma coisa terrível. Passei vinte e quatro horas a prestar declarações ao xerife, metido em diligências, em sarilhos...
— Que aconteceu?
— Roubaram-me todo o ouro que transportava do México. No total, o valor andava por duzentos mil dólares.

sábado, 19 de outubro de 2019

ARZ140.04 Assalto à diligência

A diligência atravessara a fronteira sem novidade e agora os seis cavalos que a puxavam galopavam ritmicamente em direção norte.
O maioral e o seu ajudante observavam o horizonte de modo maquinal, aborrecidamente, pois aquele trecho da estrada era o que menos perigos oferecia, apesar de estar muito perto da fronteira. Cinco milhas adiante encontrava-se a casa de posta, onde poderiam mudar de cavalos e beber um copo de uísque. Um pouco mais à frente dormiriam e na manhã seguinte voltariam a encontrar-se num trecho perigoso do caminho. Mas agora não tinham motivos para se preocupar. O ajudante até cabeceava, com a carabina atravessada nos joelhos.
— Eh, não adormeças!... — resmungou o maioral. —A companhia paga-te para que estejas com os olhos bem abertos...
O ajudante pouco se animou.
— Mas se aqui não há nada... Nem um desfiladeiro, nem uma árvore onde se possa esconder um assaltante... Demónio, para isso era preciso dares-me uma cotovelada? Não vês que neste sítio nunca nos acontecerá nada?
— Bom, pois então continua a dormir...
—É o que penso fazer, cabeça de mula!

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

ARZ140.03 Encontro com a pessoa mais odiada no Mundo

Era uma casa branca, limpa e bem construída. Tinha um só piso, mas não lhe faltava nada para ser cómoda. Nalguns aspetos, como nas flores e nas cortinas que adornavam as janelas, notavam-se os cuidados de mão feminina.
Quando o cavalo se deteve, Larsen, que conservara inconscientemente um difícil equilíbrio, escorregou e caiu por terra. Apesar da pancada, não recuperou os sentidos.
O ruído que produziu, junto a um relincho do cavalo, fez que se acendessem uma luz dentro da casa.
A porta desta abriu-se e a figura de uma mulher que segurava um candeeiro de petróleo recortou-se no limiar.
Era uma mulher nova e vestia uma comprida e quase transparente camisa de dormir.
Ao princípio só viu o cavalo, mas ao acercar-se dele distinguiu o vulto caído por terra e uma exclamação de espanto brotou-lhe dos lábios.
Notou sem demora que aquele homem estava ferido, embora não lhe pudesse ver o rosto. Levantou o candeeiro e chamou:
— Gretchen!
Uma mulher de meia idade apareceu no limiar poucos segundos mais tarde. Era loura e devia ter sido bonita na sua juventude, mas agora estava prejudicada pela sua excessiva corpulência. Ao ver o vulto caído aos pés da outra mulher, arqueou uma sobrancelha.
— Que é isso?
— Não sei; parece um homem ferido.
— Algum pistoleiro...
— Talvez, mas, em todo o caso, devemos ajudá-lo.
— Que dirá o seu marido quando regressar e souber que deu alojamento a outro homem?
—E apenas um ferido; além disso, não discutas as minhas ordens, Gretchen. Ajuda-me a levá-lo para dentro.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ARZ140.02 Um cavalo com o freio nos dentes

O xerife Rocket perscrutou as sombras e disse suavemente, enquanto as suas mãos acariciavam a carabina:
— Não tem por onde fugir.
Os seus quatro homens olhavam também para cima, onde o pequeno saliente rochoso se distinguia tenuemente entre a massa de sombras da montanha. As suas carabinas estavam prontas e não tinham abandonado a vigilância nem um só minuto, desde que o assédio começara.
— Existe um perigo — sussurrou um dos agentes. —Creio que é um tipo hábil e poderá escapar-nos depois de cair a noite.
— Não. Precisamente hoje muda a lua. Esta noite teremos quase tanta luz como durante o dia e ser-lhe-á impossível mexer-se sem que nós o notemos. A única coisa que é preciso é que não descurem a vigilância.
Observou o céu, recamado de estrelas, e acrescentou:
— Não há nem uma nuvenzinha. Estou certo de que a lua não se esconderá durante toda a noite e, portanto, não o deixaremos respirar. Vamos, ocupem os seus postos!
Dispusera os turnos de guarda com muita inteligência, de modo que houvesse sempre três homens de vigilância e um a dormir, tanto de dia como de noite. Desta maneira assegurava aos seus agentes um descanso razoável e deixava rebentado Larsen, pois este, com medo de que os seus inimigos trepassem pela montanha, com certeza não se atreveria a pregar olho.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ARZ140.01 Um homem cercado

A carabina crepitou três vezes.
O homem que estivera a observar o horizonte com o binóculo, percorrendo rocha por rocha aquela paisagem pétrea, estremeceu três veze na sela.
A primeira bala só o feriu, mas as outras duas foram mortais. Soltou um grito agudo e escorregou na sela, da qual ficou pendurado, com o rosto mergulhado no pó. O cavalo, apesar de ter sentido as balas quase morderem-lhe a carne, não se mexeu.
Os cinco cavaleiros que estavam atrás do homem abatido, separados deste por umas oitentas jardas, também ficaram como petrificados, no primeiro instante. Depois um deles, que trazia uma estrela no peito, gritou:
— Aí o temos! Avante, rapazes! Já não pode fugir!
Apontava um pequeno promontório entre os rochedos, onde ainda pairavam três diminutas nuvenzinhas brancas. A paisagem que se lhe estendia diante dos olhos era seca, terrivelmente árida e poderia confundir-se com uma paisagem lunar. Estava cheia de pequenas crateras e de promontórios rochosos, aos quais a erosão de milhares de anos dera formas caprichosas. Aquelas rochas, as crateras, os desníveis e os pequenos desfiladeiros que se abriam aqui e ali, convertiam a paisagem num labirinto que, à luz ofuscante do sol, adquiria características de autêntico pesadelo. Mas agora não seria necessário procurar mais, porque haviam localizado o inimigo.
Aquelas três nuvenzinhas brancas eram tudo o que necessitavam para saber o seu paradeiro.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

ARZ140.00 Reencontro na «Última Fronteira»

Retomamos «A última fronteira» porque as passagens deixadas não lhe faziam justiça. O papel daquele cavalo que voltava sempre a casa e assim esclareceu a Larsen o mistério da quadrilha de Roland não estava suficientemente claro. A novela quase podia chamar-se «O cavalo delator». Pena que o senhor Kane, no final, o tenha feito abater pelo bandido, era um destino que não merecia.
Devido a isso, nos próximos dias, vamos publicar este livro por inteiro

terça-feira, 20 de junho de 2017

PAS768. Salvo pela serpente

No momento em que a avistou, ao dobrar um cotovelo rochoso, avistou também Roland, que saía. Roland ia bem vestido, como sempre, e levava um baú amarrado à garupa do cavalo, atrás da sela. Viu vir Larsen e compreendeu em seguida do que se tratava. Não perdeu nem um segundo.
Pusera pouco antes em liberdade todos os cavalos, para que ninguém o pudesse perseguir. Agora chegava aquele intruso, mas não duraria muito... Um só disparo bastou para acabar com o animal montado por Larsen. Este caiu pesadamente no chão, enquanto Roland soltava uma gargalhada. A menos de trinta jardas parou e apontou a Larsen, o qual sabia que já não tinha tempo de sacar. E o seu inimigo via-o perfeitamente, porque as primeiras luzes do amanhecer surgiam no horizonte.
A segunda gargalhada de Roland ecoou triunfalmente na claridade leitosa.
— Sabes que estás perdido, Larsen... Sabes que não poderás mexer um dedo antes de eu disparar. E como sei ao que vens, dispararei sem hesitar... Mas antes quero dar-te a satisfação de te dizer que tinhas razão... Sim, eu fiz assaltar a diligência e depois arranjei as coisas de modo a ficar com todo o ouro. E tu deste-me uma pequena fortuna, para me ajudares! Se tivesse tempo, oferecer-te-ia uma bonita lápida, boneco, mas não tenho. Antes de passar uma hora atravessarei a fronteira do México, de modo que penso acabar contigo agora mesmo...
Larsen necessitava desesperadamente de ganhar tempo. Compreendia que ia morrer, mas ainda confiava num milagre, em qualquer coisa... Se o pudesse entreter um minuto ou dois... Se viesse alguém...
— Tu não levas esse dinheiro — resmungou. — Não acredito que o tenhas no baú.
Roland riu de novo.
Podia perfeitamente não responder àquilo, mas pensou que seria mais bonito matar Larsen depois de lhe mostrar claramente o seu triunfo. E como o caído não podia tentar nada, soltou com uma das mãos a correia que prendia o baú ao lombo do cavalo e passou-o para os joelhos, tudo sem grande esforço e sem deixar de olhar Larsen.
— Muito bem — riu. — Vou atirar para cima da tua cabeça um punhado de pesos mexicanos para que morras mais tranquilo. Convence-te! Olha!
Abriu bruscamente o baú e, nesse momento, os seus olhos dilataram-se de horror, ao mesmo tempo que soltava um espantoso grito de agonia.
A serpente saltou-lhe raivosamente aos olhos e à boca. Instilou-lhe profundamente o veneno que armazenara durante as suas horas de fome e reclusão. Roland caiu do cavalo e a serpente voltou a mordê-lo outra vez, e outra... até que Larsen, repugnado, lhe estoirou a cabeça com a sua última bala.
Quando, uns minutos mais tarde, chegou Ingrid, encontrou-se com o incrível espetáculo. E, sem palavras, lançou-se, chorando, nos braços de Larsen, sabendo que do fundo daquela dor, do fundo daquela incerteza, nasceria uma vida nova para os dois, uma vida que nunca devia ter quebrado.
Larsen murmurou:
— Foi essa serpente... Não sei quem diabo a escondeu ali...
E do Além, os homens da quadrilha de Roland — e, especialmente, o que gostava de animais e escondera ali aquela serpente para que não a matassem soltaram talvez uma gargalhada sinistra...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

PAS767. Atrás de outra mulher

O gesto felino dos dois homens foi acompanhado por um grito angustioso de Ingrid. Esta gemeu ao pressentir que Larsen ia morrer, ao adivinhar muitas coisas que ele quisera manter secretas, abafadas, mortas...
Impulsivamente, correu para o xerife, enquanto repetia:
— Não! Não...
Dois disparos simultâneos perfuraram o ar. Todos os presentes soltaram um grito de espanto ao ver o gesto de Larsen, que se atirava de lado ao chão e empregava a mão do flanco ferido para tirar o revólver e fazer fogo com ele. A dor foi terrível, mas sabia que só era necessário empunhar o revólver. Apontar, não. Estava diante de Rocket e àquela distância não podia falhar.
Num duelo daquele género só há tempo de disparar uma bala, e Rocket falhou a sua. O seu inimigo fizera justamente o movimento contrário àquele que imaginava. Quando quis retificar, já era tarde, porque uma bala se lhe alojara no coração. Caiu de bruços e expeliu uma grande golfada de sangue pela boca. Antes de morrer, murmurou:
— Nunca julguei que tivesse de morrer... numa aldeola... tão miserável... Maldito seja o infer...
Não pôde dizer mais nada. De repente, tudo se tornou vermelho e, mais tarde, negro. Uns segundos depois, até esse negro deixava de existir...
Larsen aproximou-se dele e tirou calmamente, de uma das algibeiras do xerife, um recorte de jornal de dois anos atrás. Sabia que Rocket o trazia sempre. Devagar, como se com isso desse cumprimento à. sua última vontade, estendeu o recorte à espantada Ingrid.
— Está aqui um desenho da rapariga que quis salvar... — disse, lentamente. — A rapariga atrás da qual fui. O irmão deste homem violentou-a e levou-a consigo. Mais tarde assassinou-a. Segui a sua pista durante quase um ano, até que acabei com ele e a vinguei. Se olhares esse desenho, encontrarás tu própria a explicação. Essa rapariga era muito parecida contigo. Quando soube o que lhe acontecera, senti o mesmo que sentiria se fosses tu a vítima e não me consegui conter... Durante a minha perseguição escrevi-te duas cartas, tentando explicar-te o que se passava, mas devolveste-mas sem as abrires. Julgaste que fora atrás de outra mulher, quando precisamente com isso te provava que...
Não quis continuar. Para quê? Para que abrir mais aquela ferida que sangrava de novo? Mas foi ela quem terminou a frase.
A sua voz pareceu tremer no ar quando disse:
— ...que o teu amor por mim era superior a todas as coisas. E fui eu... eu...
Agora era Ingrid quem não se atrevia a terminar, quem não podia. Mas Larsen também não lhe deu oportunidade, porque recuou, saltou para o cavalo e fê-lo tomar a direção da casa de Ingrid. Sabendo que ia para a cavalariça, o animal lançou-se num galope desenfreado.
Ingrid suplicou:
— Depressa, dêem-me um cavalo! Dêem-me um cavalo, por Deus!
Um dos presentes ofereceu-lhe o seu, quando já Larsen, no seu frenético galope, estava prestes a chegar à casa.

domingo, 18 de junho de 2017

PAS766. Reencontro

Gretchen, a criada, fitou-a com sobressalto.
-- Conhece este homem?
— Sim, conheci-o há anos.
— Pela cara de espanto que fez, parece ter visto um ressuscitado...
— De certo modo, é isso.
—Donde o conhece?
 A mulher engoliu em seco, penosamente.
— Não tem importância. Todos nós conhecemos, ao longo da vida, bastante gente; pessoas que nos convêm e pessoas que não nos convêm.
— Adivinho que este homem é dos que não convém conhecer...
— Talvez... Mas deixemo-nos de conversa, Gretchen. A primeira coisa a fazer é tratar-lhe da ferida.
Rasgaram com uma faca a camisa de Larsen e descobriram-lhe o peito forte. Viram que a bala passara entre duas costelas, abrira orifícios de entrada e salda e produzira pouco mais estragos do que esses. Mas as dores deviam ter sido insuportáveis e a perda de sangue fora bastante importante.
As duas mulheres lavaram a ferida e desinfetaram-na, o que arrancou a Larsen um gemido de dor.
Terminado o curativo, Gretchen murmurou:
— Onde o deitamos, «miss» Ingrid?
-- No quarto de hóspedes. Teremos de o velar toda a noite, para o caso de acordar, mas não lhe daremos de comer. Só um pouco de água.
— Eu faço o primeiro turno, «miss» Ingrid. Adivinho que não gostaria de ter uma conversa com ele.
— Claro que não. Quanto menos nos virmos, melhor para os dois.
— Então, procurarei que não se encontrem. Dentro de três ou quatro dias, este homem estará em situação de poder voltar a galopar, se as coisas não se complicarem.
— Não se complicarão. Vamos, ajuda-me.
As duas transportaram penosamente Larsen, que ainda não recuperara os sentidos, e dirigiram-se para um pequeno quarto que havia ao lado da sala de jantar. Depositaram-no na cama e cobriram-no com um lençol.
Ao saírem do quarto, Gretchen, a mulher mais velha, olhou fixamente para Ingrid.
— Esse homem era perseguido por alguém. Que acontecerá se quem o deseja apanhar for o xerife?
— Será um bom sarilho. Ter-me-ei convertido mais ou menos em sua cúmplice.
— Não seria melhor dar parte? Na cidade, como quem diz a meia dúzia de passos, temos um xerife...
— Não — murmurou Ingrid, abanando lentamente a cabeça. — Primeiro quero saber a verdade. Não o denunciarei sem saber porque o perseguiam.
— Apesar disso, pressinto que lhe guarda rancor, um velho rancor que jamais conseguiu dominar. Engano-me?
— Não, não te enganas, Gretchen. Esse homem é talvez a pessoa que mais odeio no mundo.
— Porquê?
— Há coisas de que não gosto de falar. Velhas coisas que até seria melhor esquecer para sempre.
— Que se passou entre si e esse homem, «miss» Ingrid?
Ela apertou os lábios, até que estes formaram no seu rosto uma máscara quase cruel.
— Estivemos quase a casar-nos — sussurrou. — Há três anos.