sexta-feira, 11 de agosto de 2023

ARZ161.02 Seis pepitas transformam o cartógrafo em assassino

A caixa de chumbo de Denis O'Donell continha várias coisas de interesse para o seu trabalho e também uns pacotes de barras escuras que Kingler, um dos guias, reconheceu imediatamente.

— Diabo, O'Donell! Isto é dinamite! Não me diga que se serve dele para desenhar mapas!

— A si não lhe interessa para que me sirvo dele. Seja como for, não tardará a sabê-lo.

O cartógrafo dedicou-se durante três dias a traçar o curso do rio principal e dos seus afluentes; depois internou-se na enorme planície, para medir a sua extensão e parcelá-la.

A planície tinha apenas erva alta e azulada. Nem uma única elevação e apenas uma ou outra árvore. Foi então que O'Donell mostrou para que utilizava a dinamite.

— Preciso de pontos de referência; para isso servem os explosivos, Klinger. Afastem-se um pouco. Vou colocar aqui alguns cartuchos. O montículo que resultar será o número um.

Usando uma curta pá, O'Donell cavou um buraco onde colocou alguns cartuchos. O solo era rochoso sob a capa de terra vegetal. Para aumentar o poder do explosivo, O'Donell colocou sobre ele uma grande pedra. Depois esticou a mecha, dizendo aos seus ajudantes que se afastassem.

A explosão foi intensa.

As pedras subterrâneas afloraram, formando uma espécie de pirâmide. Bastou-lhes aproximar algumas pedras dispersas para formar uma marca visível a grande distância. O'Donell marcou-a no seu plano e a partir dela fez várias medições, escolhendo outro ponto para levantar uma segunda referência. Zavala tinha murmurado:

— Esperemos que estas explosões não alarmem os «arapahos». Deve ser algo desconhecido para eles.

Denis O'Donell tinha-se esquecido completamente dos índios. Não se deixavam ver, para ele era como se não existissem.

A segunda explosão foi ainda mais forte; as pedras e os torrões subiram a grande altura. Os guias dedicaram-se a aproximá-las, protestando, dizendo que aquele trabalho não lhes competia. Tinha acabado de colocar a segunda pedra quando Step murmurou:

— Eh! Os índios!

Moose John e o seu grupo de chefes tinham voltado a aparecer com o mesmo sigilo da vez anterior.

Zavala aconselhou prudência.

— Cuidado. Eu explicar-lhes-ei que estas explosões são inofensivas para eles. Raio de ideia de usar dinamite!

Antes que Zavala se aproximasse dos índios, o velho chefe tinha desmontado e dirigia-se para Denis O'Donell, enquanto o cartógrafo empalidecia, impressionado. Moose John estendeu a mão direita, dizendo:

— Tu dominas o fogo e o trovão, tu tens o raio na mão, és uni homem forte, os «arapahos» são teus amigos. Eu, o chefe Moose John, quero ver como fazes voar a terra.

Zavala murmurou ao ouvido de O'Donell:

— Faça uma pequena demonstração, ou ficarão ofendidos. Um só cartucho. Estes homens não conhecem a pólvora e estão muito impressionados.

O'Donell meteu a mão na sua caixa, tirando um cartucho que manteve habilmente escondido. Foi-se afastando até chegar junto de uma árvore seca, abrasada por algum ralo. Escondeu o cartucho num buraco do tronco. Tinha já um pedaço de mecha e pegou-lhe fogo, retrocedendo rapidamente.

A explosão pulverizou a árvore, lançando os seus fragmentos em todas as direções. Alguns pedaços passaram sobre as cabeças dos «arapahos», que nem sequer pestanejaram. Moose John sorriu, satisfeito.

— Tu és um homem muito forte. Os «arapahos» são amigos dos homens fortes.

Ergueu um braço, e outro dos índios desmontou, trazendo algo nas mãos. Era uma espécie de cesto, que entregou ao chefe. Este, por sua vez, estendeu-o a O'Donell, dizendo:

— Uma oferta. E tua, senhor do raio...

O'Donell pegou no cesto, com expressão depreciativa. O chefe índio voltou ao seu cavalo e o grupo afastou-se, com os animais a passo. Denis O'Donell resmungou:

— Zavala, obrigaste-me a desperdiçar um cartucho para que aquele maldito velho se divertisse. E a oferta deve ser qualquer porcaria, uma fruta malcheirosa ou...

O cesto estava coberto por um pedaço de manta cozida com juncos. Arrancou-a. E então Denis O'Donell ficou vermelho, mordendo os lábios. No fundo do cesto brilhavam esplendidamente seis pepitas de ouro. Pareciam polidas. Nunca nenhum daqueles quatro homens tinha visto algo igual.

O'Donell levantou a cabeça. Os «arapahos» já iam longe. Então olhou para os companheiros.

— É ouro! Esses homens têm ouro, e é puríssimo. Nunca pensei que existissem pepitas deste tamanho! Valem uma fortuna!

Zavala disse:

— Deve vir dos arroios das montanhas. Para eles tem um valor quase sagrado. Teve sorte, O'Donell. É uma boa recordação dos homens que tanto insultou.

O'Donell pegou nas pepitas, embrulhou-as num lenço e guardou-as num bolso. Estava muito pensativo; decidiu que não trabalharia mais naquele dia. Tinham o acampamento ali perto; enquanto preparavam a comida, O'Donell disse:

— Rapazes, suponho que estão a pensar o mesmo que eu. Esses infelizes devem ter uma enorme fortuna nos seus povoados. Certamente conhecem na perfeição as areias onde podem encontrar o ouro.

Kingler e Step assentiram. Zavala negava.

— Esqueçam isso. Ninguém pode aproximar-se das montanhas. Quebrariam o tratado. Além disso, eles sabem que o ouro é valioso, não se deixarão roubar. E há perto de um milhar de índios.

Denis O'Donell não voltou a falar no assunto. De vez em quando contemplava o seu ouro. Estava a abandonar tanto o seu trabalho que Zavala lho recordou:

— Ouça, artista, passam os dias e os colonos chegarão dentro de poucas semanas.

Denis O'Donell olhou-o friamente, perguntando:

— Você sabe onde fica o povoado do Moose John?

— Sim.

— Quero que vá visitá-lo e lhe diga que desejo convidá-lo; agradecer-lhe a sua oferta, que eu não sabia o que continha o cesto quando ele mo deu. Suponho que não lhe parecerá mal este gesto de boa vontade. Poderá ajudar os colonos que vão viver aqui. Não sou nenhum lobo, amigo Zavala. Vá buscar esse bom homem.

O guia parecia hesitar.

— O Moose John julga-o um mago, O'Donell, por causa da dinamite. Não o defraude.

— Claro que não! Desperdiçarei outro cartucho a pulverizar uma rocha, se ele o desejar. Vá buscá-lo.

Zavala selou o seu cavalo, montou e desapareceu a caminho das montanhas. Sabia que, antes de chegar até elas, seria detido por um homem de Moose John e poderia assim transmitir a mensagem do cartógrafo.

Perto do rio, na planície, O'Donell ordenou aos outros dois que o ajudassem a construir uma espécie de choça com ramos e alguns troncos que estavam enterrados na margem. Os guias preferiam dormir ao ar livre, embrulhados nas suas mantas, mas O'Donell insistiu em que queria construir a choça.

Em todo aquele dia nada fez no trabalho do mapa, limitando-se a dirigir a construção da choça. Descia a noite quando Zavala regressou, acompanhado por quatro «arapahos». Moose John era um deles. Desmontou do seu cavalo com a maior dignidade, inclinando-se diante do cartógrafo.

— Tu queres ver-me. Eu respeito o senhor do raio, o homem que veio de onde sai o sol.

O'Donell indicou a choça recém-terminada.

—Entre, chefe, preciso de falar-lhe.

Moose John obedeceu. Os seus homens ficaram à porta. O'Donell sorria amistosamente.

-- Chefe, quero agradecer-lhe a sua oferta. Foi muito generoso. Essas pedrazinhas douradas...

Moose John interrompeu-o:

— O ouro é valioso. Os homens brancos apreciam-no muito. Para os «arapahos» é um símbolo de amizade. Por isso é sagrado, como a amizade.

O'Donell assentiu.

— Sábias palavras, chefe. Eu pensei que talvez pudesse trazer-nos mais pepitas... Agradecer-lho-íamos muito. Talvez...

Moose John voltou-lhe as costas, dirigindo-se para a porta. Mas antes que lá chegasse, Denis O'Donell, mudando de expressão, disse em voz baixa, ameaçadora:

— Chefe, lamento, não sairá desta choça, construímo-la para si. Se dá mais um passo disparo. Conhece o efeito de uma arma como esta?

Tinha empunhado um revólver, com o qual apontava a Moose John. O índio voltou-se, sem se alterar. Zavala disse, furioso, entrando na choça:

— Não seja estúpido! Largue essa arma, O'Donell, o chefe é nosso amigo! Pretende que os colonos, ao chegarem ao Lemhi, encontrem as tribos em pé de guerra e sejam todos mortos?

— O estúpido é você, Zavala. O que pretendo é que o chefe fique connosco, gozando a nossa hospitalidade. Seremos muito amáveis com ele. Entretanto, toda a sua gente lavará areia nos riachos até encher completamente esse saco de couro que está no chão. Cheio até acima, chefe. Quando os seus homens conseguirem enchê-lo de ouro e no-lo entreguem, você voltará para junto deles, são e salvo. Mas se fracassam...

Zavala gritou:

-- Isso é uma maldita traição! E pôr em perigo a vida de muitos inocentes e desobedecer às ordens que recebeu, O'Donell! Não o consentirei...!

Lançou a mão para o revólver que tinha à cintura, mas O'Donell moveu um pouco a sua arma, deixando de apontar a Moose John e apertando o gatilho. O projétil alcançou o guia de origem texana na cara, destroçando-lha e lançando-o de costas contra a frágil parede de ramos, que se desmoronou em parte, deixando cair o corpo de Zavala no exterior.

A arma do cartógrafo voltou novamente a apontar para o chefe índio. Os «arapahos» que estavam no exterior entraram, assim como Kingler e Step. O'Donell deu uns passos para Moose John, encostando-lhe às costas o cano da arma.

— Eu tenho o fogo na mão, chefe. Se não obedeces, as montanhas inteiras saltarão e toda a tua gente morrerá. E se não obedeces agora mesmo, morres também. Step, dê esse saco aos índios. Vão levá-lo e trazê-lo cheio de ouro até acima. Fizemos um acordo.

— Que aconteceu ao Zavala? — perguntou Kingler.

O'Donell respondeu, sem hesitar:

— Não estava interessado em ser rico. Espero que vocês compreendam a situação. O chefe ficará como refém. Pô-lo-emos em liberdade quando esses homens nos trouxerem o saco cheio de pepitas de ouro. E, se tentarem atacar-nos, a terra saltará sobre eles e o seu chefe será o primeiro a morrer. O ouro só o utilizam como adorno, não é, pois, um mau contrato. A vida do chefe por um saco de adornos... Vocês que dizem?

— Em partes iguais, O'Donell?

— Metade para mim e um quarto para cada um de vocês.

— Ouça, que se passará quando nos formos embora e chegarem as famílias dos colonos? — perguntou Kingler.

— Nós estaremos já na costa. Receio que nunca cheguemos a saber o que acontecerá... Importa-lhe muito o que possa acontecer num canto do mundo longe de si?

Kingler negou.

— Não demasiado. Mas temos os «arapahos». O Zavala dizia que há mais de mil nas montanhas.

— Excelente! Acabarão mais depressa de encher o saco! Chefe, diga aos seus homens que se vão embora e comecem a trabalhar. Para que saibam o que espera a sua gente se não nos obedecem, olhem para aquele lado, para o montículo junto do rio! Olhem!

Os «arapahos» olharam na direção indicada por O'Donell. Passaram mais de cinco minutos. Os índios permaneciam imóveis. De súbito, o montículo estourou, com grande ruído, e uma massa de pedras e terra precipitou-se no rio, levantando uma coluna de água a grande altura.

O'Donell calculara bem a duração da mecha que colocara à chegada dos «arapahos». Moose John disse:

— Poderoso, muito poderoso. Mas tens o coração envenenado. Mataste um amigo. O ouro não te dará a felicidade.

— A pobreza também não. Diz aos teus homens que esperaremos um mês para que nos tragam o ouro. Nem um dia mais. Agora que partam. Moose John falou aos índios no seu idioma e eles saíram da choça, levando o saco de couro.

O'Donell, muito sorridente, ordenou a Moose John que se sentasse no solo, encostando-se ao tronco que suportava a tecto da choça e amarrou-o a ele com força. Depois, com a ajuda de Step e de Klinger, enterrou Zavala.

E decidiram-se a esperar que os índios crivassem as areias de todos os riachos da montanha para recolherem o ouro. Denis O'Donell tinha esquecido completamente o mapa que devia levantar e também a expedição de colonos «quáqueres» que chegariam em breve àquele lugar aprazível, que a sua ambição convertera numa armadilha mortal. Só pensava no ouro e também no modo como, depois de o conseguir, enganaria Step e Klinger.

 

 

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