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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

KNS128. Epílogo

Dois dias depois, realizou-se o julgamento do juiz e dos pistoleiros sobreviventes.
O júri foi inflexível, condenando à morte esses criminosos. Lawrence Godfrey, o homem soberbo, ávido de poder e dinheiro, manteve-se firme, imperturbável. Ninguém o viu estremecer. Nem mesmo no momento de parar a sua montada, debaixo da árvore onde seria enforcado, nem quando sentiu na garganta o nó da corda de cânhamo. Os outros também sofreram a mesma pena.
Quando tudo acabou, as gentes mais destacadas da povoação afastaram-se. O xerife ia à frente, ao lado de Ron e de Babe.
— Nunca esqueceremos o que o senhor fez, Ron Delaney. Por que não aceita o cargo de juiz?
— Obrigado. Não posso aceitar. Deve haver gente mais competente para isso, do que eu... De resto, vou vender o «saloon» e deixar Broad Pace...
— O senhor afirmou que a nossa terra teria um futuro brilhante.
— E repito-o. Mas Babe e eu partiremos.
— O senhor não pode fazer isso, não deve...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

KNS128.10 Armadilha na Passagem do Urso

Logo que pôde, Babe informou Ron do descabelado projeto de Virgínia. O jovem franziu a testa.
— Ela está doida?! Isso é perigoso! A sua expressão mudou subitamente.
— Mas, espera... Também é eficaz...
— Que queres dizer?
— Parece-me uma excelente ideia... É uma bela oportunidade para surpreender Savold.
— Deixarás essa rapariga afrontar o perigo ?
— Deus bem sabe quanto lamento. Mas assim é preciso...
— Ela quer partir amanhã, pois seu irmão já tinha tudo preparado.
— Então, não há tempo a perder. É necessário falar com o xerife esta noite...
Já a noite ia bastante avançada, quando teve oportunidade de dirigir-se ao escritório do xerife.
Savold já tinha saído. Provavelmente, o malvado rancheiro adotaria a mesma tática das vezes anteriores. Inteirado já da decisão de Virgínia Hamilton, estava preparado para sair ao seu encontro. Assim, permaneceu no «saloon» até bastante tarde, para não despertar suspeitas.
Entretanto, Ron andou cautelosamente, para não ser surpreendido. Quando chegou a casa do xerife, empurrou a porta e entrou. Este era bastante confiado, além de que tinha o sono bastante leve. De súbito, ouviu-lhe a voz:
— Quem anda aí ?

domingo, 16 de dezembro de 2018

KNS128.09 O traidor denuncia-se

Logo que amanheceu, dois cavaleiros saíram de Boad Pace. Eram Ron Delaney e o xerife. Cavalgavam num galope não muito puxado.
Nos seus rostos havia uma sombria expressão que refletia bem a indignação que lhes ia na alma pela nova façanha de Bert Savold e dos seus homens.
Era penoso que um grupo de vaqueiros valentes e abnegados tivesse caído numa emboscada. Aquilo não devia repetir-se. Era preciso impedi-lo, a todo o custo.
Para não ser espoliado, Mike Food resolvera levar o seu gado a Phoenix, onde lho pagariam pelo seu verdadeiro valor. Mas a morte saíra-lhe ao encontro.
O xerife parou por um momento no alto de uma colina, estendeu o braço direito e apontou na direção do desfiladeiro Dourado, que já se via ao longe. O reflexo dos raios do Sol causava um efeito estranho — uma mancha de ouro no meio do verde-escuro dos bosques e da planície — o que originara o seu nome.
—É ali!

sábado, 15 de dezembro de 2018

KNS128.08 O «trust» ataca no desfiladeiro

Três dias depois, apareceu em Broad Pace outro rancheiro com uma excelente manada. Os vaqueiros entraram a gritar, na Rua Maior. Mas os seus gritos, embora alegres, não eram espontâneos. Esforçavam-se por mostrar um júbilo que não sentiam.
Bert Savold já estava na povoação, acompanhado de seis dos seus homens. O seu rosto oferecia um aspeto horrível, trazia um olho fechado pela inchação, tinha muitas feridas e hematomas. Foi ao encontro do rancheiro, formulando a sua pergunta habitual:
— Então? Como foi a jornada?
— Menos mal. O gado é que perdeu algum peso... Qual é o preço, Savold?
— O mesmo que da vez anterior.
— Isso é muito pouco. Estou tentado a reatar a marcha...
— Isso é consigo... O senhor precisa de uma boa equipa de vaqueiros para poder resistir às quadrilhas de salteadores que infestam a região.
— Eu sei, senhor Savold — disse o rancheiro com tristeza...
— E expõe-se portanto, a perder tudo...
— Sim... Não posso pôr em perigo as vidas dos meus homens.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

KNS128.07 Visitas inesperadas

Ron viu entrar o empregado e com um movimento de cabeça perguntou-lhe o que queria.
— A menina Hamilton deseja falar com o senhor.
— Como ? Sem poder conter-se, pôs-se em pé de um salto.
Custava-lhe a crer no que ouvia. Não era possível que Virgínia Hamilton estivesse lá em baixo.
— A menina Hamilton...
— Já sei. Ouvi muito bem.
Quando saiu, caminhou depressa, mas mantendo o mesmo aspeto correto e elegante. Viu Virgínia. A sua esbelta figura parecia empequenecida e frágil no meio da sala vazia. Sentiu o desejo de correr para ela e estreitá-la entre os seus braços, para defendê-la contra todos os infortúnios que a ameaçassem.
— Disseram-me que deseja falar comigo...
— Assim é...
— Quer ter a bondade de subir ao meu escritório ?!
— Não tenho nenhum inconveniente.
Ron subiu atrás dela, admirando o harmonioso corpo da jovem, que se deteve no patamar. Ele indicou-lhe o escritório, cuja porta ficara aberta. Virgínia fez um gesto de assentimento, mas quando ia a entrar deteve-se. Babe acabava de aparecer.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

KNS128.06 Entra o irmão da beldade

Ron Delaney passeava pelo «saloon», que a essa hora estava cheio. Os clientes pareciam satisfeitos com ele. A sova dada a Savold granjeara-lhe simpatia e popularidade.
Entraram três jovens vaqueiros. Como sempre fazia com novos clientes, Ron examinou-os dos pés à cabeça. Um deles chamou-lhe mais a atenção do que os outros dois. A sua fisionomia era-lhe quase familiar. De súbito, recordou-se. Devia ser irmão da beldade que o ia atropelando.
Precisamente nesse momento, o jovem Hamilton dirigiu-se-lhe:
— É o senhor Ron Delaney?
— Exatamente.
— Estava com imenso desejo de conhecê-lo. Tenho ouvido falar muito no senhor. Sobretudo por causa da tareia que propinou a esse javali do Savold.
— Cala-te, Danny — apressou-se a dizer um dos seus companheiros...
— Porque me hei-de calar? Há muito tempo que ele precisava de uma lição dessas. Só lamento que não fosse eu quem lha desse.
Já estavam ao balcão, a beber.
— E lamento também não ter visto o espetáculo.
— Foi uma coisa sem importância. Uma simples peleja de «saloon».

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

KNS128.05 Uma sova das antigas

No «saloon» fez-se um profundo silêncio. Alguns homens tinham-se apressado a afastar mesas e cadeiras para junto das paredes, deixando o espaço suficiente para os contendores.
Savold olhou desdenhoso a elegante figura do seu inimigo. Cerrou os punhos com força e deu um passo em frente. Não o golpearia com força excessiva, mas o bastante para aturdir o aventureiro e dominá-lo, recreando-se no castigo que lhe propinaria; e, apesar da presença do xerife, não descansar enquanto não o liquidasse. Tinha de aproveitar essa oportunidade, que se lhe apresentava tão inesperadamente.
Os seus braços robustos moveram-se apressadamente e os seus punhos estavam preparados para esmagar Ron. Um sorriso de antecipado triunfo assomou aos seus lábios. Atirou o seu braço direito com toda a força, de punho fechado, mas não encontrou o desejado alvo. Perdeu o equilíbrio ; mas antes de retomá-lo, recebeu um potente soco na face esquerda, que o fez retroceder alguns passos.
Ouviu-se uma exclamação de assombro. Os espectadores animaram-se, ao ver a aparente facilidade com que Delaney evitou o formidável soco de Savold, ao mesmo tempo que lhe atirava um esquerdo à cara, com uma precisão matemática.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

KNS128.04 Serpente pronta a dar a picada

Delaney reuniu o pessoal do «saloon» e todos o escutaram em silêncio. Quando acabou de expor o sucedido, Ron acrescentou:
— Todos podem ficar nos lugares que ocupam, com o mesmo ordenado. Não lhes prometo mais nada. Só o futuro dirá o que poderei fazer mais tarde. Entretanto, quero adverti-los de que não tolerarei aqui trapaças no jogo. E cada um terá a responsabilidade de fiscalizar as mesas, onde se jogar. Independentemente disso, vou abastecer o «saloon» das melhores qualidades de bebida.
As suas decisões calaram no ânimo de todos. A mudança de patrão foi acolhida com verdadeiro agrado e os empregados dispuseram-se a trabalhar com renovado ardor.
Babe Custer tinha exatamente a mesma autoridade no «saloon», que o seu amigo. O aspeto do pessoal agradava-lhe inteiramente, com exceção de um empregado de mesa, que ele prometeu a si próprio vigiar com o maior cuidado. Se se provasse alguma coisa, despedi-lo-ia. Ron e Babe foram nesse dia ao cartório do juiz, que era em sua própria casa.
Sem saber bem porquê, o jovem pressentia estar em frente de um inimigo. Um homem, que permitia a atuação de um poderoso «trust» numa povoação, cujos destinos regia, não podia ser honrado. Já não pelo facto de permitir a sua existência, mas pela ilegalidade dos seus processos. Lawrence Godfrey devia contar cinquenta anos, era de estatura média e seco e tinha um olhar duro. Foi ao encontro dos seus visitantes. Vestia um fato cinzento, de riscas brancas. Não mostrou a menor amabilidade ao dirigir-se-lhes:
— Que desejam?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

KNS128.03 Organizados para adquirir gado e jogar

O repto fora lançado com toda a regra. Todos os habitantes da localidade se inteiraram dele. O elegante forasteiro demonstrou claramente não recear Bert Savold nem a sua equipa. O seu companheiro demonstrou da mesma forma o que era capaz de fazer, tanto com o revólver, como com os punhos.
Quando soube disso, Savold encheu-se de cólera. A sua primeira intenção foi saltar sobre o seu cavalo e correr à povoação para dar ao atrevido o castigo que merecia. Não obstante, conteve-se.
Ron Delaney acabava de matar um dos seus vaqueiros, precisamente o mais rápido no manejo das armas. O seu rosto contraiu-se. Crispou os punhos. Havia de chegar a oportunidade de torná-lo a ter em seu poder, gozando em socá-lo, sem piedade, para o deixar como um frangalho, destroçado, a seus pés.
A este pensamento, sorriu satisfeito, com a certeza de que essa ocasião não tardaria.
Ron e Babe passearam todo o dia pelos arredores.
Existiam inúmeros ranchos e puderam certificar-se de que o maior pertencia precisamente a Bert Savold.

domingo, 9 de dezembro de 2018

KNS128.02 Um rancheiro muito agressivo

Dois cavaleiros aproximavam-se de Broad Pace. Quando chegaram ao alto de uma lomba, detiveram-se para admirar o soberbo vale. A povoação estava situada no meio dele.
À simples vista desarmada, podia apreciar-se que se tratava de uma localidade importante.
O caminho seguido pelos viajantes, desde que se internaram no Arizona, foi árido, escabroso, zonas monótonas, desertas, para cavalgar por um dédalo de vales e desfiladeiros, até chegar àquele magnífico vale, no seu caminho para Phoenix.
— Que esplêndido isto é, Babe ! — exclamou um dos cavaleiros. — Dá a impressão de um paraíso...
— Tenhamos cuidado... As aparências enganam...
Como se as palavras de Ron Delaney tivessem sido um mau presságio, ouviu-se o tropel de cavalos. Os dois amigos voltaram-se, e viram surgir de trás de algumas árvores, à sua direita, cinco cavaleiros. Ron ficou com a impressão de que eles estavam à sua espreita. O que vinha à frente era um homem de compleição robusta. A sua atitude era francamente ameaçadora. Os outros avançaram atrás dele, formando um semicírculo, no meio do qual ficassem os dois amigos. Estes permaneceram numa serena atitude.
— Onde vão, forasteiros? — inquiriu o cavaleiro da frente.
— Com que direito me pergunta isso? — quis saber Ron.
— Não tem que me perguntar coisa alguma. Eu é que quero a sua resposta.

sábado, 8 de dezembro de 2018

KNS128.01 Expulsos de São FRancisco

Ron Delaney contou as notas de Banco, com um ar impassível, como se se tratasse de um assunto corrente.
Não era assim na realidade. Acabava de trespassar o seu «saloon», onde pusera todas as suas ambições, julgando ter encontrado ali o pedestal da sua fortuna. Mas isso não acontecera e resignava-se com o seu fracasso. Mercê da sua honradez, só granjeara poderosos inimigos.
Apesar de ser um aventureiro nato, que não hesitava em empreender qualquer empresa, sem olhar aos perigos que dela pudessem advir, nunca foi capaz de cometer a mais pequena injustiça.
 Quando jogava, os parceiros contrários podiam ter a certeza de que não faria batota, embora na parada estivesse a sua fortuna. Mas o seu olhar de águia advertia rapidamente qualquer irregularidade ou falsidade no jogo e o seu autor podia considerar-se em perigo de morte.
A rapidez de Ron Delaney era proverbial em S. Francisco.
Babe Custer olhava com admiração as feições nobres do seu amigo. Não lhe era possível conter a indignação de que estava possuído. O seu semblante de expressão ameninada demonstrava, com bastante evidência, o seu estado de espírito ; os seus olhos azuis moviam-se iracundos; as suas pálpebras agitavam-se continuamente, e os seus lábios apertava-os com toda a força. A sua corpulenta humanidade não podia permanecer quieta.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

BIS170.11 Assalto ao quartel dos bandidos

Os coiotes uivavam no descampado e o ulular dê um mocho fez-se ouvir entre os algodoeiros próximos. A noite era escura e tranquila, com um céu repleto de estrelas brilhantes e um vento brando do sul. A madrugada ia adiantada e faltariam cerca de duas horas para o alvorecer quando Rand Allen desmontou com extrema cautela, deixando o cavalo em liberdade.
Aquele animal havia pertencido a um dos homens do rancho e o dono nem soubera do empréstimo. Rand havia-o encontrado ao anoitecer, preparando o jantar, apenas a umas quatro milhas do lugar onde o tinham torturado. Estava só e bastara uma bala para resolver o assunto. Mais tarde, quando encontrassem por ali o animal, de manhã, fariam muitas conjeturas, mas, sem dúvida, ninguém adivinharia a verdade.
Entretanto, ele ia introduzir-se no rancho dos seus inimigos e ajustar as contas com eles.
Chegou facilmente junto da cerca alta, feita de adobe, que rodeava as construções. Aquela hora da madrugada não deviam ter grandes desejos de vigiar, certos de não existir nenhum perigo imediato. Havia-se recomposto quase totalmente da sova brutal recebida pela manhã e, inclusivamente os pulsos, cuidadosamente curados, tinham recuperado a elasticidade, apesar de ainda lhe doerem muito.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

BIS170.10 Prisioneiro por traição e pronto para a vingança

Caminharam juntos na direção do «saloon», com o companheiro de Douglas — a quem este apresentou laconicamente como Stubbs — indo do outro lado de Rand.
Douglas ia curiosamente excitado pela situação, causando a Rand a impressão de um leopardo que sente o cheiro de sangue. Mostrou-se muito cortês deixando-lhe a passagem livre para entrar no estabelecimento e, por um instante, Rand temeu que fosse um truque para lhe disparar pelas costas. Contudo, não tardou a abandonar tal ideia.
Frankie Douglas era, segundo parecia, um pistoleiro nato e o que ora suspeitava sobre a sua habilidade com uma arma de fogo na mão levá-lo-ia a provocá-lo para um duelo de morte, no lugar e momento previamente escolhidos, mas nunca o levaria a matá-lo pelas costas nem permitiria que outros o fizessem. De certo modo havia-o marcado como sua presa privativa.

domingo, 2 de dezembro de 2018

BIS170.09 A desconfiança é a melhor aliada

Rand cavalgou para o Norte diretamente durante algumas léguas. Mas uma vez que passou para além dos últimos pastores e se internou nos bosques que formavam como uma barreira fronteiriça entre Valle Hermoso e os terrenos circundantes, modificou o seu rumo, procurando o rio Braços, o qual atravessou num ponto onde as águas, na estiagem, eram pouco profundas.
Na outra margem cavalgou na direção do Oeste, através dum terreno de colinas onduladas cheias de vegetação e de caça e, segundo parecia, também de índios, a julgar pelos sinais que ia encontrando.
Contudo, não se encontrou com nenhum pele-vermelha e apenas viu um caçador na margem de um regato, ocultando-se antes de que ele o visse. Não estava nos seus planos ser visto por alguém.
Caminhou durante todo o dia, descrevendo um arco de círculo que, ao anoitecer o deixou a sudoeste da povoação de Waco e a uns vinte quilómetros da mesma. Dormiu abrigado numa gruta profunda até ao nascer do sol e não se apressou a partir, parando também ao meio-dia durante várias horas.
Começava a entardecer quando avistou a primeira granja, onde um homem e um rapaz que trabalhavam num milheiral o olharam com desconfiança.

sábado, 1 de dezembro de 2018

BIS170.08 Casa comigo ou irei para freira

— Sairei daqui amanhã.
Rand, Barclay e os Cortés estavam a comer na espaçosa sala de jantar da fazenda. Lá fora anoitecia lentamente após um longo e quente dia de Verão. Dom Pablo colocou o seu copo sobre a mesa e Isabel ficou com o garfo no ar. Os outros também deixaram de comer.
— Amanhã ?
— Sim. Quero chegar ao limite das terras de Seth Markham ao anoitecer.
Houve um breve silêncio. Dom Pablo quebrou-o com a sua voz calma.
— Muito bem. Darei ordem para lhe prepararem um cavalo e tudo o necessário para a viagem. Não se falou mais sobre o assunto durante o jantar.
Mais tarde, no alpendre cheio de luar. Rand sentou-se a ouvir o planger das guitarras e as canções dos vaqueiros no pátio. Isabel Cortés e sua irmã ocupavam pesadas cadeiras de balouço à sua direita, e dom Pablo ocupava outra à sua esquerda. Pedro Cortés estava encostado à balaustrada e Marclay fumava sentado nos degraus, com as costas apoiadas contra um dos pilares de adobe.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

BIS170.07 Elogio do pele-vermelha

Os dois feridos de Markham haviam sido atados a pesadas argolas numa cave do edifício, ficando ali à mercê da febre e da dor, sem mais que uma cura sumária, sem delicadeza. Estavam assim há setenta e duas horas quando Rand Allen, coxeando e apoiado no ombro dum vaqueiro entrou no sombrio calabouço. Um deles estava quase agonizante, com a cabeça caída sobre o peito. O outro olhou-o com expressão alucinada, ofegando roucamente:
— Malditos sejam! Matem-nos de uma vez…
— Agua... água...
Rand esperou que lhe colocassem a cadeira que outro vaqueiro trazia e que entrasse dom Pablo Cortés. Sentaram-se os dois vagarosamente sem fazerem caso dos pedidos, maldições e súplicas dos prisioneiros. Dois vaqueiros trouxeram uma pequena mesa e uma toalha sobre a mesma. Depois, ele e um dos vaqueiros colocaram sobre a mesa comida apetitosa, uma cesta repleta de fruta fresca, uma garrafa de vinho, uma jarra de água... Depois de a mesa estar pronta dom Pablo fez um sinal com a mão e os criados saíram, fechando a porta. A luz de um cadeeiro iluminava a expressão ávida e febril dos dois presos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

BIS170.06 O retrato do canalha Seth Markham

Dava a impressão de ser uma verdadeira povoação fortificada e não outra coisa a fazenda dos Cortés em Valle Hermoso.
Um muro de pedra e argila, de três jardas de altura, circundava o cabeço baixo e arborizado onde se erguia a casa dos donos, formosa e ampla, sólida, de estilo colonial. De espaço a espaço, havia guaritas no muro, preparadas para as sentinelas e apenas duas portas davam acesso ao interior, ambas grandes, resistentes e bem protegidas.
Os pavilhões de adobe dos vaqueiros agrupavam-se a ambos os lados do pátio, havia ainda um moinho de vento e um poço, um grande chafariz para os cavalos e um tanque onde algumas mulheres lavavam roupa, redis para guardar gado, hortas bem cuidadas, árvores de fruto...
Quando a caravana se aproximou saíram-lhe ao encontro vários cavaleiros, à frente, dos quais ia um rapaz espigado, muito parecido com Isabel. A rapariga adiantou-se ao seu encontro e os dois irmãos abraçaram-se alegremente. Depois, ela apresentou-o a Rand.
— Meu irmão Pedro. O senhor Rand Allen, de Marzdland.
O rapaz estendeu-lhe francamente a mão delgada e morena, nervosa como o seu olhar.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

BIS170.05 Caminhar na noite, mesmo feridos

Kent Barclay recebera uma segunda ferida, mas ambas eram de pouca importância, por sorte. Chegou junto deles quando a coxa de Rand já estava a descoberto, pois Isabel havia cortado habilmente a perna das calças com uma tesoura e deitou uma olhadela à ferida que os outros dois também observavam.
O projétil havia atravessado a coxa uns vinte e poucos centímetros acima do joelho, saindo, segundo parecia, sem atingir o osso. A ferida era muito aparatosa e sangrava com abundância. Rand começava a sentir-se mareado e a perna intumescia.
— Façam um torniquete com uma corda molhada — resmungou. — É preciso estancar a hemorragia o mais rapidamente possível.
— Fique um momento com ele, Kent. Volto imediatamente.
A rapariga dirigiu-se apressadamente para o carro e Kent ajoelhou-se com esforço, fazendo uma careta. Rand, entretanto, tapava os orifícios com algodão enrolado num lenço que Isabel trouxera.
— Ao fim e ao cabo tivemos sorte, Allen — comentou. — Estamos vivos e essa gente foi-se, segundo parece sem vontade de voltar por agora.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

BIS170.04 Emboscada

A pequena caravana avançava lentamente sob o sol brilhante pela margem duma pequena corrente de água que se encaminhava para o sul e pela parte oriental de um largo vale, entre colinas arborizadas dum lado e lombas de vegetação luxuriante do outro.
Eram dez da manhã do décimo dia de marcha. Isabel cavalgava entre Torres é Rand, uns cem metros adiante do carro e do resto da escolta. A jovem ia falando:
— Chegaremos a casa amanhã ao meio-dia. Este é o rio Navasota. Valle Hermoso fica do outro lado, dessas colinas. Há-de gostar de Valle Hermoso, senhor Allen. Quatrocentos e cinquenta quilómetros quadrados da melhor terra do Texas, oito mil reses e vinte mil ovelhas. Tudo é nosso.
— Têm muita gente ao vosso serviço?
— Sessenta vaqueiros, oitenta pastores de ovelhas e quarenta camponeses. Valle Hermoso é uma verdadeira povoação, de quase quinhentos habitantes. Além disso estamos em relativas boas relações com os peles-vermelhas, pois não esquecem que meu pai foi sempre seu amigo.
— Compreendo. Onde fica o rancho de Seth Markham?
Isabel e Torres trocaram um olhar rápido. A jovem cerrou os lábios e indicou o norte com o indicador.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

BIS170.03 Em defesa dos índios

Descobriu que o grupo de mexicanos os aguardava e que também havia um carro novo, sólido, pequeno, puxado por quatro excelentes mulas, onde foi metida a bagagem, bastante volumosa, de Isabel.
Com certa surpresa, viu que ela tinha pensado em tudo, pois havia ainda um baio de boa estampa preparado para ele. A jovem sorriu, divertida, quando se referiu ao assunto.
— Não se trata de bruxaria. Em Alexandria mandei um recado ao chefe dos meus homens por um barco que se preparava para zarpar quando nós chegámos. Não se lembra? De resto, eles estão aqui há apenas quatro dias. Quando nos encontrámos a primeira vez, eu não ia para Shreveport, mas sim para Galveston, para, dali, tomar um barco para Nova Orleães. Foi uma casualidade afortunada o facto de nos encontrarmos a bordo do outro...
Possivelmente. Mas agora ele, Rand Allen, sentia que tinha sido como aprisionado numa teia de aranha gigantesca, e aquela aranha tinha os olhos mais belos e mais aveludados do mundo.