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A rapariga montou com agilidade e dirigiu-se para o sítio
onde estavam a construir a cabana. Observava tudo com interesse, quando
inesperadamente se desprendeu uma pesada viga que por momentos pareceu ir
atingi-la. Por felicidade não aconteceu assim, mas caiu tão perto que roçou nas
patas do cavalo. O animal, espantado, saltou e esteve quase a derrubar a
amazona.
O barulho surdo de um corpo pesado a cair e um grito seguido
de estranha algazarra chamaram a atenção de Alan que, ainda com o machado no
ar, levantou a cabeça para saber o que sucedia. Então viu a mole negra de um
cavalo desenfreado prestes a desabar-lhe em cima.
Forte e vigoroso, o aspeto do animal era horrível. O peito
dilatado pela corrida louca, a boca meio aberta e cheia de espuma, os dentes À
mostra, parecendo resolvidos a morderem-no, formavam um conjunto aterrador.
O primeiro impulso de Alan foi atirar-se de cabeça fugindo
rapidamente do caminho trilhado pelo animal, mas deteve-o no último instante a
visão fugaz de uma carinha desfigurada pelo pavor e o débil vulto da amazona
que, com a força do desespero, se aferrava Às crinas do corcel, tão desnorteada
e sem domínio dos nervos que tinha largado as rédeas; já nem sequer tentava
pará-lo e o galope cego arrastava-os rapidamente para a selva, onde esmagariam
de encontro Às arvores que de maneira nenhuma podiam evitar. Foi a certeza
deste facto que impediu o seu primeiro e instintivo movimento.
Nesses poucos segundos, apenas o tempo de lançar uma vista
de olhos para avaliar a situação, o animal, ganhando terreno com fantástica
velocidade, atirava-se irresistìvelmente para cima dele. Um grito de horror
saiu da garganta dos espetadores daquela tremenda cena, tanto mais que a
ninguém era possível intervir.
Imobilizado pela expressão de medo que se lia nos olhos da
amazona, convenceu-se de que tinha de fazer qualquer coisa, fosse o que fosse,
para a salvar, mas a extraordinária rapidez do desenfreado animal impediu de
pensar na melhor maneira de o deter. Só
por instinto, afastou levemente o corpo na altura própria, deixando passar a
cabeça do cavalo e, com vigoroso impulso, saltou-lhe para o pescoço, de onde,
pela violência do choque, se viu repelido. Concentrando toda a sua força nos
braços para manter a posição, consegui afinal agarrar-se com firmeza e, então,
sustendo o peso do corpo com o braço esquerdo, avançou a mão direita para
agarrar as rédeas pendentes.
Chegou a julgar que ia cair pois o suor que empapava o corpo
do animal fazia resvalar o braço em que se apoiava; ao dar por isso, apertou
com novas energias as crinas do cavalo e, já com as rédeas bem presas,
obrigou-o, violentamente, a baixar a cabeça. Agarrando-se como podia, Às rédeas
e ao pescoço, foi estendendo as pernas que mantivera encolhidas, inclinou-se
para a frente e deixou cair os pés, a tocarem o solo, fincando os saltos dos
sapatos para se firmar no terreno, e largou-se puxando as rédeas com ambas as
mãos.
Fizera tudo aquilo com a maior rapidez mas, apesar disso, já
estavam a poucos metros do bosque, que parecia aproximar-se vertiginosamente,
sombrio, ameaçador…
Os músculos em completa tensão afiguravam-se incapazes de
resistir ao esforço, o terreno cedia debaixo dos pés, deixando um sulco a
rasgar a erva, mas, quando a catástrofe parecia iminente, o animal rendeu-se,
ofegante e trémulo. Um suspiro de alívio saiu do peito angustiado do jovem ao
perceber que os seus esforços tinam sido coroados do êxito mais rotundo. O
cavalo ainda tentou encabritar-se mas a forte pressão que sobre ele exercia
Alan dominou-o por completo.
(Coleção Búfalo, nº 27)
A seguir: Olhos de gratidão
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