sábado, 14 de abril de 2018

CLF043.02 O desafio veio de uma mulher

Os grupos de curiosos tinham-se dissolvido quando o xerife saiu do gabinete, mas permaneceram debaixo dos alpendres, no mais completo silêncio, e olhando para a parte sul da povoação.
McParson compreendeu que os habitantes de Trinidad pensavam como ele. Estavam à espera do regresso de Parris.
Sem dirigir uma palavra a ninguém, simulando não os ter visto, o xerife alcançou a pousada onde se alojava Jim. Ali já tinham conhecimento do sucedido, e deram-lhe o cavalo sem um só comentário.
McParson continuou o caminho, e um quarto de hora depois metia o animal pelas traseiras do gabinete. Depois rodeou o edifício, abriu a porta, e voltou a olhar para os homens que estavam na rua.
Muitos afastaram o olhar, mas outros sustiveram-no, com evidentes amostras de desafio. McParson sorriu. Os habitantes de Trinidad iam sofrer uma desagradável surpresa em não ver o espetáculo que esperavam.
Já frente a frente, os dois homens olharam-se. E foi Jim quem primeiro falou:
— Continuo sem compreender o motivo disto, xerife McParson.
O representante da Lei, sorriu.
— Antes disse-lhe a verdade, Jim. Por outro lado, estou convencido que as coisas aconteceram como me contou, ainda que não me fio muito em Parris e seus vaqueiros. Por isso, mais que por nada, quero que parta; para evitar um dia de luto em Trinidad. Crê que poderá fazê-lo?
Sem replicar, o jovem pôs-se de pé.
— Com mais ou menos trabalho.
E imediatamente virou-lhe as costas, avançando pelo corredor, direito ao local que lhe apontava o representante da Lei. Antes de correr o ferrolho da pesada porta, Jimmy voltou-se para olhar para McParson.
— Obrigado, de novo.
E abriu a porta, para sair imediatamente. McParson fechou a porta e abrindo um armário, tirou de lá uma espingarda e aproximou-se da janela, observando a rua, enquanto nas traseiras Jimmy se aproximava dos estábulos.
Com passos vacilantes aproximou-se do fantástico garanhão, que montou com não menos esforço. Pegou nas rédeas, e ao chegar a uma ruela, esporeou o animal.
O brusco arranque da sua montada, teve a virtude de lhe arrancar um gemido de dor.
Jimmy levou a mão ao ombro ferido, e procurou amoldar-se ao vaivém do cavalo, esperando com isto contrabalançar o mais possível os saltos a que se via obrigado a dar na garupa.
Mas apesar disso, o jovem sabia que não poderia continuar por muito tempo naquele endemoniado galope. A sua força era muito grande, mas tinha perdido bastante sangue, e esta perda far-se-ia notar sem demora.
Três milhas adiante, Jimmy deteve o animal e durante meia milha obrigou-o a ir a trote. Depois, já a passo, e vendo que ninguém o perseguia, continuou dessa maneira.
Ao anoitecer, desmontou junto a um riacho, depois de ter deixado para trás a povoação de Starkville, onde não quis entrar, por causa de uma possível perseguição de Chet Parris.
Jimmy não se fiava nem na sua própria sombra. Ainda que tivesse voltado a cabeça para trás, várias vezes, sem conseguir ver nada, estava desconfiado.
Sentindo cada vez mais a perda de sangue, Jimmy sentou-se debaixo de uma árvore de grande copa e entregou-se ao descanso.
Depois de enrolar um cigarro, voltou a pensar naquela estranha carta, e por associação de ideias, naquele homem do Texas.
Jimmy não o conhecia e, sem dúvida, sabia que se chamava Joe Milton, e que tinha um enorme rancho nas margens do Colorado, próximo de Bronte.
Tampouco sabia onde tinha ouvido dizer que se tratava de um bandido, ainda que nem de todo mau, e que era imensamente rico.
«Procura Sarilhos» Jimmy sentia antipatia por todo o banditismo. Por isso estava decidido a ir àquele lugar, só para lhe meter um par de balas na cabeça, se o merecesse.
Aquilo era estranho até mesmo para ele. Isto pensava muitas vezes, mas uma força superior à sua vontade férrea, empurrava-o para ali, desde o dia em que acabou aquela sangrenta guerra. Era como que uma obsessão, um impulso do subconsciente.
Andando de um lado para outro, Jimmy deixou passar dois anos sem se decidir definitivamente, e se não tivesse sido aquela carta, talvez nunca se tivesse decidido. Nem ele o sabia com segurança.
Estava próximo do Novo México e ali entraria no Texas pela parte mais próxima.
Em Dumas, esperava-o uma mulher!
E ao pensar nela, Jimmy sorriu. Depois procurou no bolso a carta amarrotada. À luz do crepúsculo, Jimmy voltou a lê-la. Tudo era estranho naquela carta, até a direção.
«A «Procura Sarilhos» Jimmy, no Oeste.
Deve andar próximo de Trinidad, ou povoações próximas».
E com aqueles sinais originais, a carta chegara ao seu poder. E o texto não era menos original, pois dizia:
«Meu querido Jim:
«Isto é um desafio em toda a ordem, de uma mulher formosa. Até aos meus ouvidos chegaram vários comentários sobre as manhas que um «pistoleiro» como tu utiliza para enamorar uma mulher. Pois bem; o meu desafio é este: há cinquenta mil dólares, que serão para ti, se conseguires com que eu me enamore de ti. Mas isto não é tudo, querido. Não sorrias antes de tempo. Tenho um negócio em Dumas, que está a fraquejar. És um aventureiro; vem e soluciona isto. O prémio, ainda que não me enamore de ti, será trinta mil dólares. Que preferes, «Procura Sarilhos» Jimmy? Ter as algibeiras cheias e uma formosa mulher, ou continuar a vaguear de um lado para outro? Porque o prémio pode ser esse, ainda que não me enamore de ti: O dinheiro e eu. Casamento, é claro. Poderemos falar os dois acerca disso, quando chegares. Perdoa-me, se agora não te digo o meu nome. Ainda que com isto me exponha a que não venhas. Se o fizeres, eu mesma te procurarei».

Jimmy já sabia a carta de memória. Pôs-se de pé, quando o sol acabava de se ocultar por completo, e as primeiras sombras da noite começavam a cair.
Aproximou-se do cavalo que pastava, e quando ia a montá-lo, olhou para o caminho que acabara de percorrer. Descobriu um grupo de cavaleiros que, em compacto pelotão, se aproximavam rapidamente.
Não pôde contá-los, nem pode averiguar de quem se tratava, mas não era necessário ser muito esperto para o supor.
Sem vacilar, montou e galopou, até às margens do rio que fazia a divisória com o Novo México e escondeu-se na outra margem, entre agrestes rochedos, e esperou-os de espingarda na mão.
Levou perto de uma hora a fazer o percurso, mas conseguiu arranjar um bom local, onde escondeu facilmente o cavalo, e que o punha a coberto das vistas dos seus perseguidores.
Encostado a uma rocha, a mais de cem metros de altura, esperou pacientemente.
Meia hora depois, o jovem pensava o que teriam feito daqueles homens. Teriam acampado ou voltado para trás, não desejando meter-se pelo território do Novo México?
Dez minutos depois apareciam eles, à entrada da estreita passagem. com rochas altas dos dois lados, num dos quais se encontrava Jimmy.
Este reconheceu alguns dos homens, e o que cavalgava à cabeça era o capataz de Parris, Jeff Dalton.
Jimmy levou a arma à cara, apontou e disparou.
O cavalo de Dalton caiu no chão, quando uma bala entrou por uma orelha e saiu por outra. Jimmy fez mais três disparos, sentindo a cada coice da arma, uma dor aguda no ombro.
Mais três cavalos rodaram pelo chão, e os outros, num total de cinco, picaram esporas, tentando fugir àquela espingarda mortal. Mas somente dois chegaram a cobrir-se com as rochas, pois Jimmy fez mais três disparos e três animais ficaram estendidos para sempre.
Lamentava o que estava a fazer, mas era algo que não tinha remédio. Entre sacrificar os homens ou os animais, preferiu estes últimos.
Um silêncio trágico e sinistro estendeu-se pelo estreito vale. Jimmy estava assombrado. Ninguém respondera à agressão, mas ele estava seguro de que aqueles homens tinham vindo á sua procura.
Compreendeu que, na posição em que estava, aqueles não podiam tê-lo visto e que agora, ao amparo das rochas, procuravam descobri-lo. Jimmy voltou a montar e resolveu subir mais.
Não olhou para trás. Sabia que aqueles homens, por mais que corressem, nunca poderiam alcançá-lo, sem cavalos. Ao amanhecer, completamente desfalecido pelo esforço,
«Procura Sarilhos» Jimmy cavalgava em pleno território do Novo México. E para os homens que o seguiram, muito depois, o terreno rochoso e desértico tirou-lhes quaisquer possibilidades de seguir as marcas das ferraduras do cavalo.
Mas Chet Parris era esperto!
 

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