domingo, 20 de novembro de 2022

CLT022.11 Procura-se o cadáver do enforcado


Koehler irrompeu pelo quarto onde se encontrava Hayden lendo «O Clarim de Watson City». O ganadeiro levantou o olhar do diário, e disse:

—Que se passa, Zacarias? Qualquer pessoa diria que acaba de ver um morto...

— Vi-o ontem à noite! —exclamou nervosamente o outro, deixando-se cair numa poltrona.

— Outra vez cheio de medo? — resmungou Clinton.

—Sei que não vai acreditar! Sei que parece fantástico, irreal e inaudito!... Mas juro que é verdade!... Sabe quem vi!

—O Presidente Lincoln.

— Deixe-se de brincadeiras, Hayden! E demasiado sério.

— Está bem, quem é esse fantasma?

—Keith Yerbi.

O rancheiro esteve uns segundos em suspenso, e soltou uma gargalhada.

—Agora compreendo porque deseja ir-se embora. Vai mudar de profissão. Quer ser actor. Vendo os seus olhos dir-se-ia que tudo o que diz é verdade.

—E é, Clinton! Tem que acreditá-lo! E preciso que acredite! Isto vale a sua vida e a minha e a de outros...

Fez-se uma pausa, e depois Hayden levantou-se gritando enfurecido:

—Estou farto dos seus medos

—Repito-lhe que vi Keith Yerbi.

—E também me diz que lhe falou!

—Sim.

—Muito engraçado. E que lhe disse?

—Que fizesse uma confissão de todos os delitos em que fui seu cúmplice, e que a enviasse em carta esta manhã ao Presidente do Tribunal de Apelação de Austin.

Hayden levantou-se, agarrou o advogado pelas bandas do casaco, levantou-o enquanto dizia:

— Repulsiva víbora!... Pretende fazer chantagem!... Quer mais dinheiro! E utilizou este método para consegui-lo. Agora irá dizer que Yerbi lhe pediu determinada quantia para desaparecer, para voltar para a sua sepultura... Tomou-me por idiota?...

— Engana-se, Clinton!... Não pediu dinheiro. Disse-me que se eu confessasse conseguiria uma pena leve, já que eu diria que o tinha feito espontaneamente, e ele não declararia em contrário. Ameaçou matar-me se não o fizesse. Disse que voltaria a ver-me esta noite à meia-noite.

— E quere-me fazer acreditar que se expôs a que o matem, negando-se a seguir as suas ordens?... Mas, que estou dizendo?... Se Yerbi morreu!... Conseguirá tornar-me louco também!

— Pensei que Yerbi não era inimigo para si e que se uma vez conseguiu escapar à morte não conseguirá duas vezes... Não quero passar dez anos da minha vida na cadeia... Quando saísse encontrar-me-ia velho e sem dinheiro. Isto é o que me deu coragem para vir contar-lhe tudo!... Sei que sou um cobarde, e por isso não me moverei de sua casa... Até que me diga que esse homem foi realmente enterrado!

— Você será o cadáver, se continua com essa conversa!...

—Não se dá conta, Clinton? Ê verdade que nós vimos como Yerbi era enforcado, mas recordo-me que nos fomos embora em seguida. Estava morto? Não o sabemos. É uma simples dedução que fazemos por ver o corpo enforcado numa árvore!...

As pupilas do ganadeiro cintilaram. Soltou Koehler, e ficou numa atitude pensativa. Pouco a pouco o seu rosto foi-se iluminando. Ao fim dum momento fez barulho com os dedos, exclamando:

— Isso explicaria tudo!

—Ê tão lógico que não compreendo como não o pensámos antes. Yerbi tinha amigos, não?

—Sim, e agora iremos visitar um deles.

—A quem?

— Ao sheriff Beerman. Vamos !

Quando entraram no escritório deste, encontraram-no escrevendo em cima duma pequena mesa. Depois de trocarem uma saudação, Beerman advertiu, olhando Hayden:

—Se vem pelo seu rapaz, já lhe digo a minha resposta. O defunto promotor também a conhecia...

Clinton sorriu, e começou a passear na reduzida habitação, enquanto murmurava:

—O defunto promotor e o defunto juiz. Soa bem, não é verdade, sheriff?

Beerman olhou o ganadeiro sem falar, e o outro continuou:

—Mas soará melhor quando puder dizer o defunto Koehler e o defunto senhor Hayden. — Clinton deteve-se interrogando com o seu olhar o representante da lei. — Acertei, sheriff

— Que se passa, Hayden? Caiu-lhe mal ontem à noite o jantar?

—Comi ligeiramente. Mas há certas coisas que fazem mal, como por exemplo uma indigestão de chumbo.

Beerman inquiriu serenamente:

—Está-me ameaçando?

—Quero que mostre o seu jogo.

—Pensei que já conhecia.

—Não me refiro agora ao meu cowboy. Que faz para capturar o assassino de Chandler e Greene?

— Dediquei muitas horas a interrogar mais de meia população, e ordenei aos meus ajudantes que vigiassem atentamente os suspeitos...

—Estupendo! Dá gosto ter um sheriff tão eficiente.

— Limito-me a cumprir o meu dever.

— Que modesto! —Clinton fez uma pausa e juntou: —E se você tivesse interesse em que o assassino não fosse encontrado?

Beerman pôs-se lívido. Passado meio minuto exclamou:

—Vá-se embora daqui, Hayden!

— Ainda não terminei! Estou-o acusando, sheriff

—Você acusa-me a mim? Não me esgote a paciência!...

—Onde se esconde Keith Yerbi?

Beerman semicerrou as pálpebras e enrugou o rosto, como se não tivesse ouvido bem.

—A quem se refere?

— Sabe-o perfeitamente! A Keith Yerbi!

— Agora estou certo de não ter perdido a cabeça, Hayden. O pobre Yerbi já está há bastante tempo debaixo da terra.

—O pobre Yerbi, hem? Era-lhe simpático, não é verdade?

—Não o nego, e dir-lhe-ei mais. Era inocente do crime de que o culparam.

—E por isso você representou a comédia do seu enforcamento e deixou-o vivo para que fosse matando um a um a quantos, com a ajuda da lei, tive-mos alguma relação com a sentença que o condenou.

Beerman replicou irónico:

—Não sabia que acreditava em fantasmas, Hayden.

O ganadeiro, ao ver a firmeza que manifestava o sheriff, vacilou, e então valeu em sua ajuda Koehler.

— Keith Yerbi não é um fantasma! Eu falei com ele!

Beerman respondeu:

— Dizem que os que não têm a consciência limpa, veem espectros, Koehler...

—Não vim aqui para ouvir os seus insultos, sheriff!

Clinton cortou a discussão, dizendo:

—Há um meio de saber a verdade, Beerman. Vamos ao cemitério, e comprovamos se Yerbi continua no seu caixão.

Ouve um silêncio enquanto o sheriff olhava com firmeza o rancheiro. Finalmente aquele disse:

—Somente tendo a autorização do Município.

Hayden e o advogado saíram do escritório, e meia hora mais tarde encontravam-se junto da sepultura de Keith Yerbi. Os acompanhantes eram dois homens providos de pás e picaretas. Examinaram as pedras, a cruz que tinha a placa gravada, e não notaram nada de anormal. Hayden perguntou a Koehler:

—Continua pensando que Yerbi tenha podido sair daqui?

O aludido dirigiu um olhar à sepultura, e respondeu com uma voz horrorosa:

—Sim.

—Está bem, terminemos quanto antes. Comecem, rapazes.

Afastaram-se para um lado, enquanto os dois cowboys realizavam o seu trabalho. Passados uns quinze minutos, o da pá disse:

— Podem aproximar-se.

Hayden engoliu saliva contemplando o caixão que estava à vista, e ordenou:

— Abram-na!...

Uma mão tremenda pegou nas argolas, e tirou a tampa para cima.

Sem comentários:

Enviar um comentário