quarta-feira, 11 de agosto de 2021

RB007.06 O fim do contrato

Olharam-se durante longo tempo, enquanto o silêncio que reinava dentro do barracão se podia sentir. Finalmente, e depois de mais uns minutos de silêncio, Holland atreveu-se a interrompê-lo.

—Se quer que lhe diga a verdade, mister Durgan, é tanto o que tenho para lhe dizer, que nem sei por onde começar. Não queria que... — hesitou e acrescentou ainda vacilante. — Veja, mister Durgan, eu...

Calou-se ao olhá-lo. Durgan esboçou um sorriso irónico.

—Ouça, mister Holland—replicou friamente em face do seu silêncio. — Por que não se deixa de evasivas e vai diretamente ao fim? Enfim — continuou depois de uma pequena pausa—, o senhor quer falar-me deste dique e ao mesmo tempo de Sadie Farrow. Não é verdade?

Holland pôs-se lentamente de pé. Guardaram silêncio durante alguns segundos, olhando-se um ao outro, como a tentarem medir-se.

— Bem, assim é. Não me interessa que as obras deste dique prosperem, mister Durgan.

— Ah, sim? Posso saber porquê?

—A mim interessa-me Sadie como mulher. Ela sabe que a amo há muito tempo. Por outro lado, ao levantar o dique neste sítio, quando vierem as grandes cheias serão as minhas terras a ficar inundadas. A água elevar-se-á muito, passará para o outro lado do penhasco, e...

— Pode ser que assim aconteça, mister Holland — atalhou Durgan. — Mas isso não me diz respeito. Contrate outro engenheiro e construa um dique nas suas terras. Miss Sadie Farrow paga-me para construir este. Como deve compreender, não a vou deixar em má situação só para satisfazer um capricho seu, e para que o senhor tente obrigá-la a aceitar o seu amor. Por outro lado, rancheiro, creio que, com miss Farrow, já perdeu a sua oportunidade.

— Que tenta fazer-me compreender?

— Simplesmente o que disse. O senhor, Holland, há tempo que a conhece, se até agora não conseguiu nada, pensa que o impedimento da construção do dique o vai conseguir?

—A questão do dique é o menos, mister Durgan, embora seja um fator para a obrigar a aceitar a aceitar — ficou pensativo alguns minutos, enquanto Durgan o não perdia de vista, perguntando a si mesmo onde diabos queria ir parar com tanta retórica, e depois acrescentou: — Quanto lhe paga miss Farrow?

Durgan arqueou uma sobrancelha e olhou-o fixamente.

— Não creio que lhe interesse muito, não é verdade, mister Holland?

— Não, realmente não. Mas pensei que talvez nós dois pudéssemos chegar a um acordo.

—Por exemplo?...

—Dou-lhe o dobro se abandonar o campo, mister Durgan. Que lhe parece a minha oferta? — levantou a mão para que não falasse e acrescentou: — Não peço que responda já. Que lhe parece se amanhã ao meio-dia nos encontrássemos em Fowler e tratássemos do assunto?

Durgan negou com a cabeça. Depois fechando um pouco os olhos, respondeu.

—Há pouco, dois dos seus pistoleiros ofereceram-me quinze mil dólares pelo mesmo. Ao que parece, o senhor compra tudo em dólares, até as consciências. Quanto pensa que custaria a minha? Muito. Tanto que não teria o suficiente para pagar. Esta é a minha resposta, Holland, e não há outra. Portanto, não torne a perguntar-me mais nada. Ah, e outra coisa! Procure não me estender mais emboscadas. Podia aborrecer-me de verdade, e não seria só a vida dos seus pistoleiros que perigaria. A sua também.

Nem um só músculo do rosto de Holland se mexeu. Mas a sua voz soou alterada, quando respondeu:

— Quer dizer que não pensa abandonar o emprego, mister Durgan?

— Pensa obrigar-me a isso, Holland?

—Não sei. Tenho que pensar. Esse dique causará grandes perdas e destroços nas minhas terras. Quero que pense seriamente no que lhe disse.

— Já está pensado, Holland. Não gosto de homens que mandam primeiro os seus pistoleiros, e depois, quando fracassam, apresentam-se eles a ameaçar. Por outro lado, foi miss Sadie Farrow que me contratou. Por que não a vai visitar e não lhe explica o assunto?

Holland não respondeu. Deu meia-volta e encaminhou-se para a porta do barracão. Quando lá chegou voltou-se para o olhar.

— Tornaremos a ver-nos, mister Durgan — disse.

Desapareceu antes que este tivesse tempo de dar uma resposta, se o tentasse fazer. Durgan ficou parado no centro do barracão, com o olhar fixo na porta, durante vários minutos. Depois voltou-se e sentou-se num dos bancos. Minutos mais tarde, embrenhado nos seus planos, a estudá-los, esqueceu a visita.

Algum tempo depois, Malcom veio refrescar-lhe a memória.

Entrou tão silencioso como um puma e deteve-se junto da tosca mesa. Permaneceu em silêncio um bom bocado e depois perguntou:

—Bem, Jack, que queria aquele porco?

Durgan levantou os olhos do papel e fixou-os nele, firmes e escuros.

—Que saiamos daqui. Pelo que parece está interessado em miss Farrow. Ofereceu-me o dobro do que ela me paga, se tirasse o barro e pusesse terra.

Malcom olhou-o duvidando durante algum tempo e depois perguntou:

— Que pensas fazer, Jack?

— Continuar — replicou Durgan friamente. — Pensava que já sabias.

—Tinha a certeza disso. Mas agora tens que ter muito cuidado. Uma emboscada...

—Custar-lhe-ia cara, como lhe têm custado até agora —e ao ver a admiração no rosto do seu ajudante, acrescentou: — Holland já se atravessou no meu caminho duas vezes. Custou-lhe homens e por isso, agora veio, se não foi para me intimidar, foi para qualquer coisa muito parecida.

Durante mais de uma hora estiveram a falar do mesmo, e, depois, mudaram a conversa para os trabalhos que se estavam a realizar, até que chegou ao meio-dia.

Durgan abandonou o barracão e despediu-se do seu ajudante até à tarde. Empreendeu o galope na direção do rancho. Depois de deixar o cavalo no curral, Durgan encaminhou-se para o edifício principal. Lupe, a mexicana, estava à sua espera à porta. Adiantou-se, quando o viu.

—A menina Sadie deu-me isto para si mister Durgan — disse.

Entregou-lhe um envelope fechado. Sem afastar os olhos la mexicana, sem o abrir, perguntou:

— Onde está?

— Não sei. A menina Sadie abandonou o rancho pouco depois do senhor ter ido para o rio. Não disse onde ia. Apenas disse para entregar-lhe isto.

— Podes retirar-te, obrigada, Lupe. Entrou, indo diretamente para o refeitório, onde o almoço já o esperava. Ali, completamente só, abriu o envelope. Havia ironia naquelas poucas palavras. Ironia e uma grande parte de veneno.

 

«Amor: Quando esta manhã te levantaste com tanto cuidado, eu estava acordada. Esperava isso mesmo, já que queria sair do rancho sem dar explicações ao meu marido de ocasião. Voltarei dentro de três ou quarto dias. Portanto, não te incomodes.»

Nada mais. Nem uma palavra a dizer para onde tinha ido. Pensativo, Durgan começou a comer. Quando acabou, acendeu um cigarro e com ele nos lábios saiu para o alpendre. Esteve ali bastante tempo, embrenhado nos seus pensamentos, até que repentinamente tomou uma decisão.

Foi ao estábulo, selou o cavalo e partiu a galope para Fowler. Encaminhou-se diretamente para o saloon, e foi Mona que lhe disse que tinha ouvido comentar que Sadie partira na diligência da manhã.

Durgan, para não levantar comentários no povoado, não fez mais investigações e regressou ao rancho.

A primeira notícia do que Sadie estava a fazer chegou dois dias mais tarde, quando nas obras se apresentou um homem alto, simpático, moreno, de olhos negros e vestindo uma casaca de corte irrepreensível. Pediu para falar com ele e Durgan concedeu-lhe uma entrevista. Um engenheiro. Um engenheiro que vinha tomar conta dos trabalhos do dique.

Tinha um contrato assinado por ele e por Sadie. Um contrato que podia deixar sem efeito a anterior escolha daquele homem que estava na sua frente, mas Durgan não respondeu, não disse nada em sua defesa. Limitou-se a entregar-lhe o cargo, a acompanhá-lo de um lado para outro, até que lhe entregou tudo.

Depois, subiu para a sela e galopou.

Mas não foi para o rancho. Encaminhou-se diretamente para Fowler e logo que chegou procurou Mona. No dia seguinte, regressou ao rancho. Sadie estava lá, rodeada dos seus vaqueiros, aos quais estava a dar instruções. Durgan desmontou e foi-se aproximando lentamente.

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