quarta-feira, 4 de agosto de 2021

BIS245.15 E a verdade trágica veio ao de cima

Martin Palácios, inquieto com aquela demora do xerife, que era insuportável acrescento à sua longa espera de dez anos para verificar o que havia de certo na sua teoria, recorreu a uma argúcia para se afastar de Cormon e Adams, que não suspeitaram de nada.

Não lhe foi difícil introduzir-se num dos salões do rés-do-chão por uma janela que encontrou aberta. Sabia que a sua presença ali em tais condições não podia ser explicada com facilidade, pelo menos em princípio.

A fim de não o surpreenderem com perigo para a sua integridade, antes de conseguir falar, muniu-se de um dos revólveres.

Matias Quintana, de uma das janelas do primeiro andar, tinha visto Martin Palácios afastar-se dos seus dois companheiros e meter-se em casa, quase na vertical do quarto onde se encontrava. Passou revista ao revólver e, pondo o cinturão, desceu quase em bicos de pés, com o colt firmemente empunhado na mão direita. Aproximou-se silenciosamente do salão a que correspondia a janela utilizada por Martin e abriu a porta, que rangeu. Entrou com rapidez e fechou-a com a mão esquerda.

Martin Palácios voltou-se ao ouvir aquele ruído. E assim ficaram frente a frente os dois, contemplando-se com ódio e ambos de revólveres em punho

— Não matei o seu irmão, Quintana. E não quero agora disparar contra si. Desejo apenas falar consigo.

— Não acredito em ti, Martin Palácios. Não acredito agora, como não acreditei então. Empunhavas um revólver como neste momento e o meu irmão estava caído, morto, quando eu entrei. Mataste-o tu!

Abriu-se a porta violentamente. Apesar disso, os dois homens não desviaram o olhar um do outro. De revés, ambos viram a delgada figura vestida de negro: Flora, a governanta dos Quintanas.

— Tenho de te matar! Expiarás o teu crime no inferno! Não darás cabo de mim como fizeste com o meu irmão!

O revólver de Matias Quintana cuspiu uma língua de fogo. O projétil acertou no ventre de Martin Palácios, que, ao cair, apertou também o gatilho.

— Não! — gritou a mulher, saltando, a interpor-se, e recebendo em pleno feito a bala destinada a Matias.

— Flora! Minha Flora! Não quero que morras! —gemeu o velho Quintana, largando o revólver e correndo para ela.

O xerife Craig Larson, mal ouviu o primeiro tiro, correu para dentro de casa e entrou no salão. Horrorizado, viu a trágica cena, já no seu epílogo, e sem que estivesse na sua mão o poder remediá-la. Flora, amparada por Matias Quintana, fazia uma inesperada confissão, ao sentir a morte próxima:

— Fui eu que matei o teu irmão Rodrigo, Matias. Perdoa-me. Ambicionava que a fazenda viesse a pertencer ao nosso filho Marcos. Nada saiu como eu sonhei. Julgava que viesses a casar comigo e dar a Marcos o teu nome. Julguei também que o ódio de Luis o levasse a morrer em luta com os Palácios. Enganei-me. Agora, pago as minhas culpas. Fui eu que disparei naquela noite. Ainda estava a fechar a porta, quando os teus passos soaram no corredor. Escondida, vi-te entrar. Castiga-me o destino. Fiz tanto mal a Martin, e foi ele agora, mesmo involuntariamente, quem me feriu de morte. O meu irmão Miguel matou Jorge. Eu queria que acusassem Luís. Aquilo do relógio...

— Flora! Por favor! Cala-te! — murmurou Matias Quintana, com os olhos rasos de lágrimas.

Larson, pálido, contemplava-os, sustendo a respiração.

— Marcos... Matias... perdoem-me... Eu...

Subitamente, o corpo de Flora ficou exânime rios braços de Matias, após um estertor violento. A vida fugira dele, com o rubro sangue que lhe escorria do peito. O seu rosto severo adquirira um tom diferente, como a sorrir de felicidade. Os olhos abertos pareciam doces, fitos no Além.

Flora tinha feito uma confissão total dos monstruosos pecados. Matias Quintana fechou-lhe os olhos, piedosamente. Ergueu o corpo inerte de Flora e foi depositá-lo no sofá. Voltou-se depois para Martin Palácios que, em silêncio, comprimindo o ventre com ambas as mãos, escutara a confissão da que julgava ter sido apenas a governanta dos Quintanas. Por entre os dedos esgueiravam-se fios de sangue. Só então murmurou:

— Acabou-se ...é o fim...

— Perdoa-me se puderes, Martin. Estive cego e surdo. Não quis ouvir-te. Agora, também para mim se acabou tudo. Larson — olhando para o xerife, acrescentou: —veja o que pode fazer por Martin. Utilize-se de qualquer leito da casa. Espero-o depois no meu escritório para o acompanhar. Não fujo.

— Não, dom Matias — pôde falar Martin Palácios. —Deus reuniu-nos aqui para acabarmos de uma vez para sempre com o ódio que tantos males causou às nossas famílias. Ninguém sabe que Flora era a mãe de Marcos e você o pai. Deixe estar assim as coisas. Continue a renunciar a ele como até agora. Que Marcos nunca venha a saber a verdade. Para todos ficará só parte da confissão. Flora matou dom Rodrigo, sim, mas diga-se que por motivos ignorados. Terá sido ela quem disparou contra mim ao ver que a desmascarei. E eu, ao sentir-me ferido, apertei o gatilho, sem reparar que matava uma mulher.

— Martin tem razão, dom Matias. Será preferível assim. Mas temos de lutar os dois para que o sucedido aqui apague para sempre o ódio. Que o sangue lave o que o sangue sujou.

— Obrigado, Larson — murmurou Martin Palácios quase impercetivelmente. — Diz aos meus que consegui lavar a mancha do nosso nome. Um Palácios não foi nunca um assassino!

Larson desapertou o cinto de Martin, fez o mesmo às calças e à camisa, para ver o ferimento. Era de morte, sem dúvida.

— Sei no que estás a pensar, Larson. Não tenhas sequer receio de mo dizer. É o fim. De resto, sem Beatriz, nada me interessa.

Larson quis levantá-lo para o ir estender no outro sofá. Martin não o ajudou.

— É inútil, Craig — debilitava-se a voz acentuadamente. — Deixa-me morrer tranquilo... — um esgar de dor profunda contraiu-lhe o rosto. — É o fim, amigo... tinhas razão... Para minha segurança... eu não devia ter voltado. Mas devia fazê-lo... — Um estertor suspendeu-lhe a voz e só o xerife lhe pôde ouvir a última palavra: — Devia...

Apagou-se-lhe a chama da vida repentinamente. Larson tinha junto de si, nos seus braços, um cadáver. Mas para Craig Larson, o xerife de Corrales, Martin Palácios não morreria nunca — viveria como um símbolo, o da Justiça.

 

 

FIM 

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