segunda-feira, 2 de agosto de 2021

BIS245.13 Frente a frente

— Então... há novidade? — perguntou Adams, acabando por arranjar coragem para quebrar o silêncio que reinava entre os três homens, depois da salda do empregado do armazém.

A pergunta era fruto natural da curiosidade que tanto ele como Hoskins sentiam. O xerife, habitualmente, não gostava de dar explicações dos seus actos, mas fê-lo desta vez, porque tinha uma necessidade especial: a de pensar em voz alta.

— Voltei à cabana das «Colinas Pardas» porque...

— Mas, chefe — interrompeu Hoskins — era de noite…

— Porque — insistiu Craig Larson, desprezando a intervenção do comissário — tinha visto alguma coisa, quando lá estivemos com Adams e o doutor Martinez, que me chamou a atenção e não havia maneira de me lembrar o que fosse.

Os dois comissários escutavam-no atentamente, presos de curiosidade. Larson fez uma pausa. Depois, com gesto triunfal, exclamou:

— Era isto!

Tirou do bolso dois objetos, que pôs em cima da mesa.

— Um cachimbo... — murmurou Adams.

— Sim, um cachimbo. E um maço de tabaco Bull Durham.

— Mas...

— Repara bem no cachimbo — disse Larson, passando-lho para a mão.

Hoskins curvou-se também para o ver mais de perto. Adams assobiou, corno surpreendido.

— Tem umas iniciais... M. A. Meu Deus! — exclamou. — São... as de Marcos Alcântara.

— Sim. Coincidem. Mas não são dele. Marcos Alcântara não fuma. E menos ainda de cachimbo. Só se for algum cigarro oferecido e que aceite por brincadeira. Mas nem mesmo isso vi nunca.

— Então?...

— Então, temos de descobrir alguém que também as tenha. E talvez esteja encontrado o assassino. Parece mais que muito estúpido. Tendo sido ele, não seria tão idiota que fosse deixar uma pista evidente e muito à vista. Sempre a achei posta ali de propósito.

— Mas quem será o homem a quem essas iniciais correspondem? — interrogou Hoskins.

— Amanhã, isto é, hoje, depois de termos descansado umas horitas, seguiremos um rasto que nos pode conduzir a ele.

— Que rasto? — perguntou agora Adams.

— As rodas de um carro.

— As rodas de um carro? — admirou-se o mesmo Adams, boquiaberto. — Mas, Craig, podem ter passado muitos por lá.

— Não muitos, não, amigo — murmurou Larson, a crescer de entusiasmo. — Não se lembram de que anteontem choveu muito?

— Sim, mas que tem isso?

— Ouve, Adams. Esse carro, o que devemos procurar, só pode ter passado ontem ou já hoje. De outro modo, as marcas que deixasse já teriam desaparecido, anuladas pela chuva. Se foi ontem, talvez tenhamos perdido o tempo, mas se foi hoje... talvez saibamos de onde veio e para onde foi alguém que poderá ser o assassino de Jorge Palácios. Se a esse alguém competirem as iniciais M. A...

— Isso é fantástico, chefe! — elogiou-o Hoskins.

Larson sorriu com orgulho. Ia acrescentar qualquer coisa, mas a porta da delegacia abriu-se para dar passagem a um homem que mostrava extraordinária excitação.

— Xerife! — quase gritou o recém-chegado. — Desculpe se o incomodo, mas do lado norte da rua vêm muitos cavaleiros. Suponho que sejam os Palácios e os seus homens. Pensei que teria interesse em sabê-lo...

— Obrigado, Judson. Muito lho agradeço, pode crer.

— Não tem de quê, xerife. Poderá vir a acontecer alguma coisa?

— Não! — respondeu firmemente Craig Larson. — Pelo menos enquanto eu viver... para o evitar. Pode retirar-se, Judson, e mais uma vez obrigado.

O homem retirou-se prontamente.

— Vamos, rapazes, mexam-se. As espingardas em punho! E cartuchos em abundância! Tu, Adams, vem comigo. Ficamos os dois à porta. Tu, Hoskins, fecha-te por dentro. E fecha também a porta do corredor das celas. Vê se a das traseiras está bem trancada. Se ouvires tiros e alguém tentar abrir esta porta, abre a cela de Quintana e sai com ele pela de trás, como puderes. Nem devem lembrar-se da existência dessa porta. Percebes? Quero evitar um linchamento.

Quando chegaram em frente da delegacia, Juan Palácios levantou o braço e os homens que o seguiam detiveram-se prontamente.

Apesar da hora tardia, continuavam os grupos em toda a rua principal. Dava a impressão de que toda Corrales tinha recebido convite para uma assembleia magna ao ar livre. Muitos, no entanto, retiraram-se para novas posições, procurando não ficar à retaguarda dos cavaleiros recém-chegados.

A porta do edifício abriu-se e Craig Larson e Adams saíram com espingardas na mão, como deitadas nos braços.

— Larson! Onde está Martin? — soou, mais enérgica do que seria de prever, a voz de Juan Palácios. — Vimos buscá-lo.

— Pois chega tarde, Palácios. Martin saiu há momentos com Lloyd Cormon. Pensei que fossem para o rancho.

— E o corpo de Jorge? — murmurou Palácios, com uma prisão de voz que não conseguiu evitar.

— Está na agência funerária de Carson. Eu só queria avisá-los de manhã, para ver então o que resolviam. Como sei que você tem passado mal de saúde, ia permitir-lhe que ao menos ainda tivesse esta noite com relativo descanso. Já nada podia fazer-se em favor do infeliz Jorge.

— Pode. Vingá-lo! — interveio o irmão da vítima, Enrique Palácios, que não desmontara.

— A Justiça encarregar-se-á de o fazer, Enrique. Não admitirei que ninguém use a violência para substituir a lei.

— Vendeu-se aos Quintanas, Larson?

Os olhos do xerife coruscaram com fúria. Crispou as mãos na espingarda.

— Volta a proferir outra imbecilidade ofensiva como essa, Enrique, e serão dois os Palácios a serem enterrados amanhã.

— Está nervoso, Larson — disse Juan Palácios, a dominar-se quanto podia. — Todos o estamos afinal. Enrique não quis dizer bem isso. Onde está Luis Quintana?

— Numa cela. Aí se manterá até que o julgue o juiz do condado. Há uma prova que o acusa. Mas é tão inconsistente e forçada que não posso acreditar na sua culpa. O seu filho, Martin, também não acreditou.

— Posso vê-lo?

— Não é muito regular que se fale com um detido nestas circunstâncias e menos ainda a horas tardias, quando falta relativamente pouco para amanhecer. Deve estar... Mas seja, venha comigo. Tu, Enrique, fica aí com os teus vaqueiros, mas não cometam nenhuma imprudência. Adams tem ordem para disparar, seja contra quem for.

— Nada disso haverá na minha ausência, Larson —declarou Juan Palácios, encarando no filho com um olhar significativo.

Os dois homens entraram na delegacia.

— Desculpe, Palácios, mas tenho de lhe pedir que deixe as armas em cima da minha mesa. Não posso consentir que vá armado à cela de Quintana.

Juan Palácios obedeceu em silêncio. Uma vez que se despojou do cinturão dos revólveres e das balas, olhou interrogativamente para Craig Larson.

— Vamos — disse o xerife, encaminhando-se para a porta do fundo, na qual deu umas pancadinhas com os nós dos dedos.

— Hoskins! — chamou, ao mesmo tempo, pelo seu comissário. — Abre, que sou eu.

— Vem sozinho?

— Não. Com Juan Palácios. Mas está desarmado.

— Sim, senhor, já abro.

Ouviu-se o ruído característico de ferrolhos. A porta abriu-se por fim. Luís Quintana pôs-se em pé ao vê-los entrar. Ergueu a cabeça com altivez. Estava tenso, mas sereno quanto possível, cônscio de que não tinha motivos para se portar de outro modo.

— Luis Quintana, matou o meu filho? — perguntou abruptamente Juan Palácios, sem qualquer preâmbulo.

— Não — foi a seca, mas enérgica resposta do preso.

— Mas durante a tarde, com o seu cunhado e os seus homens, atacou Enrique e os vaqueiros que iam com ele.

— Isso é verdade. Fizemo-lo, cara a cara. Os Quintanas não são assassinos.

Juan Palácios fitou-o com ares de dúvida. Quintana suportou o olhar com firmeza e prosseguiu com tom de voz igual, como o de quem diz a verdade e só ela:

— Martin acredita em mim. Eu, pela minha parte, compreendi também esta tarde, falando com ele, que Martin não matou o meu pai. Alguém deseja pôr as nossas famílias em duelo de morte, para que se extingam uma à outra. Quem? Agora, passei eu a ser mais uma peça nesta diabólica partida, como há dez anos o foi Martin.

— Talvez tenhas razão. Não sei, não sei... estou confuso, desorientado. Primeiro, perco um filho por dez longos anos; agora perco outro, e esse... para sempre.

— Dom Juan, compreendo a sua dor e lamento-a deveras. Quanto ao que de mim depender, juro-lhe que não haverá mais violências entre Quintanas e Palácios. Assim o prometi a Martin. Assim o cumprirei, logo que saia daqui.

Juan Palácios estendeu a mão, em silêncio, através da porta gradeada. Luís Quintana correspondeu, apertando-lha vigorosamente e sentindo que as lágrimas lhe afloravam aos olhos, furtiva, mas irresistivelmente.

Larson, que assistira à cena em silêncio, compreendeu mais uma vez quanto era verdadeiro o ditado que diz: «Onde começa o amor acaba o ódio». A paz parecia aproximar-se de Corrales.

— Vamos, Larson — pediu cansadamente Juan Palácios, esgotado pela tensão em que vivia nas últimas horas.

— Adeus, Luís — despediu-se o xerife. — Fecha outra vez, Hoskins.

Também o comissário mal podia respirar. Enrique Palácios recebeu-os com um olhar interrogativo. O pai já vinha de novo com o cinto e as armas.

— Vamos, Enrique. Nada temos que fazer aqui. Luis não matou Jorge. — Mas...

— Vamos — limitou-se a repetir o pai, montando cavalo.

Não chegaram a partir como pensavam. Pelo extremo sul da rua principal avançava outro numeroso grupo de cavaleiros. Entravam em cena também Matias Quintana e a sua gente.

Larson ficou apreensivo. O caso não era para menos.

Quintana mandou fazer alto aos seus homens e, seguido de Alcântara, avançou a cavalo até aonde se encontravam os Palácios e o xerife.

— Que se passa com Luís? — gritou, que não perguntou, com expressão ameaçadora o velho Quintana dirigindo-se a Larson, mas sem perder de vista Juan Palácios. — Por que está detido? — Acusam-no da morte do meu filho — foi o pai de Martin quem respondeu.

— Luís matou Martin?

— Não, a Martin, não. Jorge. Encontraram-no assassinado junto da cabana das «Colinas Pardas». O relógio do seu sobrinho estava na mão de Jorge — esclareceu Craig Larson.

— E que resolveu v9cê, Larson? — tornou Quintana como em desafio.

— Que será julgado como lhe compete. Amanhã avisaremos o juiz do condado. Mas devo dizer que tanto eu como Martin e dom Juan, estamos convencidos da sua inocência.

— Isso é assim? — perguntou Quintana incrédulo.

— Sim, Matias — interveio Palácios. — Alguém procurou atribuir esse crime a Luis, como há dez anos fizeram o mesmo com Martin acusando-o de matar o teu irmão. Viemos a Corrales para nos vingarmos. Se Luís tivesse matado o meu filho, nada nos impediria de darmos cabo dele. Mesmo que nós morrêssemos também. A sensatez impôs-se ao ódio. Retiro-me. Guardarei o castigo para o verdadeiro culpado. Vamos, meu filho, nada nos resta a fazer aqui — acrescentou, dirigindo-se a Enrique.

Os Palácios e seus homens voltaram garupas aos cavalos, esporearam-nos e em breve se perderam na escuridão do extremo da rua. Tinha passado o perigo de um embate sangrento, com imprevisíveis consequências. Os grupos de curiosos começaram a dissolver-se, desiludidos os amadores de espetáculos fortes.

— Posso falar ao meu sobrinho? — solicitou Matias Quintana, encarando o xerife.

— Que remédio! Se há um, há dois. Siga-me. Está visto que não é noite para se dormir em Corrales. Entra também, se quiseres, Alcântara.

Seguido pelos dois homens, Craig Larson entrou novamente na sua delegacia.

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