sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

PAS224. Encontro na noite

Afastou-se da cabana, procurando dar uma volta e passou a duas milhas e meia do edifício do «Estrela Mary». A Lua, em quarto minguante, ainda não surgira e as estrelas iluminavam suavemente os caminhos, os desfiladeiros e as colinas.
Numa destas apareceu, de improviso, recortando-se no horizonte, um cavaleiro que fez caracolear a sua montada. Kennedy levou a mão ao cabo do revólver. Mas retirou-a imediatamente. Uma voz feminina pedia-lhe que se aproximasse. Reconheceu, pela entoação, a misteriosa e bela dama da carruagem.
Lançou o cavalo na sua direção e alcançou-a rapidamente.
- Olá, rapaz! Que fazes por aqui, a estas horas da madrugada?
Tratava-o por tu, com uma descarada familiaridade.
- É essa precisamente a pergunta que eu lhe ia fazer, minha senhora – replicou o rapaz, vivamente.
A mulher aproximou-se mais.
- Passeio. Gosto da noite. Adoro ver o céu cheio de estrelas. Fico embevecida quando vejo uma estrela cadente.~
O rapaz interpelou-a, irónico:
- E dormir? Não gosta de dormir? Estas horas deviam ser dedicadas ao sono, em vez de andar a passear pelo campo.
- Empatados! – exclamou ela, com regozijo. – Por que não estás tu na caminha, a sonhar com anjos da guarda, em lugar de cavalgares por estas zonas?
- Tenho um motivo grave para o fazer.
A mulher distinguia-se, agora, plenamente. Kennedy voltou a maravilhar-se com aquela estampa viva.
- Eu também tenho um motivo grave.., Uma voz interior dizia-me que tu andavas por aqui e que podia encontrar-te se saísse de casa. Não acreditas em pressentimentos?
O rapaz replicou em tom agastado:
- Eu só creio que está a entrar comigo, senhora.
- Seria lá capaz de fazer pouco de ti! Não o poderia fazer, mesmo que quisesse. Lembra-te que te devo a vida e que até já te provei que… gosto de falar contigo.
Kennedy não conseguiu vencer a sua desconfiança.
- Até ao ponto de abandonar o seu domicílio e se deixar guiar por essa sua inteligente voz interior?
- Tal e qual!
A brisa trouxe às narinas dilatadas do rapaz aquele estonteante perfume que já o enfeitiçara.
- E não tem medo de mim?
Estalou uma gargalhada.
- Oh! Não. Sei que tu és um homem honrado. De resto, não estou só… Desde o incidente do trem, não voltei a sair sem companhia. Olha para ali…
Kennedy olhou. Em baixo, na base da colina, um cavaleiro esperava pacientemente que a mulher se dignasse regressar. O vulto do homem e do cavalo distinguiam-se perfeitamente, embora as feições daquele fossem irreconhecíveis, `distância.
(Coleção Búfalo, nº 57)

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