sexta-feira, 7 de outubro de 2022

BIS207.02 A tragédia chega a Telluride e ceifa a vida de duas crianças


No dia em que Lena Coleman cumpriu sete anos, quando havia quase dois que vivia com os Andella, chegou a Telluride um grupo de vaqueiros conduzindo gado, um grupo que imediatamente se assenhoreou das ruas, fazendo escândalo. 

Benjamim, o ferreiro, que os viu da sua oficina, subiu a casa para avisar a mulher. 

— Margaret, não deixes as crianças saírem de casa. Hoje vai ser um dia movimentado. Chegaram vaqueiros com dinheiro fresco e vão acabar aos tiros. 

Margaret Andelia tinha emagrecido, pois um ano antes tinham tido mais duas filhas, gémeas, e o trabalho da casa era muito duro para ela. Apesar das filhas maiores a ajudarem. 

— A Maria e a Virgínia estão na cozinha, Benjamin. Elas obedecerão. Mas essa endiabrada criatura, essa Lena dos demónios…! 

— Não fales assim da Lena. É apenas uma criança. 

— É um demónio, Benjamin. A loucura que nós fizemos no dia em que a aceitámos! 

— O pai dela é um patife! Não enviou um só centavo desde que que partiu daqui! Onde está o dinheiro que ia enviar-te todos os meses? 

Benjamin, o bondoso Benjamin, ia responder à mulher, mas da porta do quarto, alguém respondeu por ele. 

— O meu pai não é nenhum patife! Virá buscar-me em breve e eu dir-lhe-ei como tu falas dele. 

Lena Coleman tinha crescido muito. Os seus olhos brilhavam agressivos. Benjamin aproximou-se dela. 

— Bom, as meninas não devem andar a escutar o que dizem as pessoas crescidas. Não quero que saias hoje à rua: chegaram vaqueiros que em breve se embebedarão. Compreendes? 

Lena apertou as mãos e exclamou: 

— Não estou presa, irei à rua quando quiser! E qualquer dia fugirei daqui para ir ter com o meu pai! 

— Ninguém sabe onde está o teu pai, menina! Anda, vai para a cozinha ajudar a Maria e a Virgínia! 

Lena levantou a cabeça e replicou: 

— Eu não sou tua criada! Não sou obrigada a trabalhar! A Virgínia e a Maria são umas tontas, aborreço-me com elas! 

Margaret agarrou a rebelde criança pela roupa e abanou-a. Benjamin interveio. 

— Acalma-te, mulher. A criança é rebelde como um gato montês. Mas é porque lamenta a ausência do pai. 

— O pai abandonou-a para sempre! — disse Margaret. 

Lena começou a gritar, dizendo que não era verdade, quis bater na senhora Andella. Benjamin teve de a sujeitar com as suas fortes mãos e levá-la para a cozinha, onde estavam as outras duas raparigas. 

— Fica com elas, Lena. O teu pai não te abandonou, virá qualquer dia, vais ver. De qualquer modo, esta é a tua casa, todos gostamos de ti. 

— Só tu gostas de mim — disse a criança. 

Benjamin beijou-a. Depois regressou ao seu trabalho. Ao longo do dia, os vaqueiros, que tinham terminado o seu trabalho entregando as reses em Telluride, andavam pelas lojas e pelas ruas, mas ao entardecer, quando os «saloons» se animaram, começaram a soar alguns tiros e iniciaram-se as lutas. 

Benjamin acabava de arranjar um eixo de carroção, que alguém esperava para iniciar uma viagem ao amanhecer. A mulher tratava das crianças mais pequenas, ajudada por Maria. Virgínia e Lena estavam na cozinha. Lena ouvia o barulho da rua. Agitava-se, inquieta, até que por fim, disse: 

— Virgínia. Vamos à rua! 

— A mamã não deixa. 

— Bah, nem precisa de saber! Hoje é o melhor dia do ano em Telluride. Está cheia de gente que se diverte! Vamos vê-los, voltaremos depressa. Há muita animação. 

Virgínia, que era tímida, não foi capaz de resistir. Saíram pela porta da cozinha, sem fazer ruído, e pouco depois estavam numa esquina da rua principal, olhando com olhos muito abertos para todos os que lá passavam. 

Os peões iam de um lado para o outro, em grupos, entravam nas tabernas empurrando as portas, saíam rindo às gargalhadas, discutindo, empurrando-se, lutando. 

As duas raparigas sentaram-se num banco. Lena estava muito excitada. 

— Repara, esses vão lutar, vão empunhar os revólveres e disparar! O meu pai dispara os revólveres melhor que ninguém! 

Virgínia olhava para ela com enorme respeito. 

— O teu pai já matou alguém? 

—Pois claro que sim, os que se atreviam a incomodá-lo! Quando ele não conseguia que chovesse, zangavam--se muito; por vezes, o meu pai tinha de disparar! Se estivesse aqui, venceria todos esses homens... 

Virgínia dizia que o pai tinha muita força, que era o homem mais forte de Telluride. As duas raparigas continuavam a contemplar o animado espetáculo da rua. Em frente delas, erguia-se um «saloon». 

De súbito, o ruído das vozes no interior cessou. O silêncio surpreendeu as duas crianças. As portas abriram-se para dar passagem a três homens que caminhavam de costas e com as mãos apoiadas nos cinturões. Atravessaram a rua, detendo-se perto das duas garotas. Lena murmurou: 

— Olha, têm as mãos perto das coronhas! As portas voltaram a abrir-se, aparecendo um homem alto, que olhava fixamente para a rua. 

O homem voltou-se de costas para dizer qualquer coisa aos que estavam no interior do «saloon». Lena Coleman, muito nervosa, pôs-se de pé e disse a Virgínia: 

—E melhor sairmos daqui, Virgínia. Vão começar a disparar. 

Virgínia assustou-se, levantando-se de um salto. Tinha num bolso algumas bolas de aço com que brincava e, ao levantar-se tão rapidamente, as bolas saltaram e caíram ao solo, chocando entre si. 

O som metálico foi muito semelhante ao de revólveres a serem armados. O homem, que estava à porta do «saloon» e que já tinha visto os outros três no passeio oposto, voltou-se com um salto e, ao fazê-lo, empunhou os seus dois revólveres. 

A luz era incerta e o homem da porta do «saloon» viu duas sombras que se moviam rapidamente em frente dele. Sem pensar mais, apertou os gatilhos das suas armas, e voltou a disparar quando os ecos das primeiras detonações ainda não se tinham extinguido. Alguém gritou: 

—Não dispare, não dispare, são duas crianças! 

O homem atravessava a rua a correr, com as armas fumegantes e os indicadores nos gatilhos. Então viu os seus três adversários, os homens com quem tinha lutado na taberna, que lhe apontavam as suas armas. Deteve-se, sem compreender o que acontecia. 

— Maldita besta, disparaste sobre duas crianças. Enlouqueceste de medo, não tínhamos tocado nas nossas armas! 

— Mas... eu ouvi o ruído de gatilhos, eu... 

Lena e Virgínia tinham caído perto do passeio, sobre o pó; não se mexiam e sob elas o sangue espalhava-se suavemente. O homem que disparara olhava para elas, imobilizado pelo espanto. 

— Avisem um médico, eu disparei porque ouvi armarem armas atrás de mim, eu...! — balbuciou. 

Um homem, que se tinha inclinado sobre as duas crianças, ergueu-se, olhando selvaticamente para o que tinha disparado, ao mesmo tempo que gritava: 

—Estão mortas! Matou-as você, maldito assassino de crianças! Disparou contra elas como se fossem pombas! Tem de estar louco ou bêbedo! 

Todos os vaqueiros que tinham chegado a Telluride e muita gente da cidade, rodearam o homem. De súbito, como se alguém tivesse dado uma ordem, muitas mãos agarraram-no pela roupa. Alguém gritou: 

— Para a prisão, vamos com ele para a prisão! 

— Nada de prisão, assassinou duas crianças, para a força! 

Uma enorme massa de homens debatia-se no meio da rua, lutando por apoderar-se do homicida. Entretanto os três homens, causadores involuntários da desgraça, tinham desaparecido. 

Alguém avisou Benjamin Andella, que continuava a trabalhar na sua forja. O ferreiro chegou a correr, com o seu avental de couro. Ao ver os cadáveres da filha e de Lena, que alguém tinha colocado sobre o passeio, cobrindo-os depois com uma manta, Benjamin esteve a ponto de desmaiar. Depois, rugiu: 

— Onde está esse monstro, onde está o miserável que o fez? 

— Levaram-no para a prisão, Benjamin. Acalma-te, é melhor que... 

Benjamin correu pela rua, alcançando rapidamente o grupo que arrastava o homicida. Afastou-os aos empurrões, aos socos, às cotoveladas. Os agredidos, ao reconhecerem-no e, ao serem informados de quem era, afastavam--se sem responder às pancadas. Por fim, Benjamin chegou ao centro da multidão, rugindo: 

— Onde está? Quero que mo entreguem! Onde está? 

— Aí, Benjamin, está. aí. 

Apontaram-lhe uma massa ensanguentada estendida por terra. Era o que restava do homicida, do homem que, por excesso de rapidez, tinha morto duas crianças. Já não iria nem para a prisão nem para a forca. 

Margaret, a mulher do ferreiro, adoeceu ao saber o que acontecera. Como os seus nervos não eram muito fortes, teve um ataque e perdeu o conhecimento. Esteve dois dias sem fala, e quando a recuperou foi para culpar o marido do que acontecera. A dor tornava-a cruel para o bom Benjamin, que suportava tudo sem se defender, pois compreendia o estado da mulher. 

— Tu trouxeste para nossa casa essa criança endiabrada, e ela provocou a morte da minha pobre Virgínia! Essa criança, a filha de um bandido, só podia trazer-nos desgraça! Por causa dela morreu a Virgínia! 

— Acalma-te, Margaret. A pobre Lena pagou com a vida a sua rebeldia. Não é justo que falemos mal dela. Temos outras filhas; em contrapartida, o pobre do Matt perdeu a única que tinha. 

— O pobre do Matt, que não voltou a lembrar-se dela! Oh, Benjamin, a nossa Virgínia, a criança mais doce, mais bonita... nunca devíamos ter dado entrada em nossa casa a essa pequena loba! Nunca! 

Margaret Andella, pouco a pouco, foi-se acalmando e resignando. O marido tinha razão: restavam-lhes três filhas, e dedicou-se a elas com mais paixão que nunca. Benjamin, que pensava sempre mais nos outros que em si mesmo, disse. 

— Temos de procurar o Matt. É preciso que ele saiba que a filha morreu. 

Mas todos os seus esforços fracassaram. Matt Coleman parecia ter desaparecido por completo. 


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