sexta-feira, 3 de julho de 2015

PAS490. Caminhada para a vingança

O velho Gordon Brampton morreu no fim do Verão seguinte. Pouco mais de um ano sobrevivera ao fim violento do seu filho, em Dodge. Depois disso, o seu vigor físico foi desaparecendo, ruíram todos os interesses que o ligavam à vida, e tornou-se uma pálida sombra dum ser humano, até que, com os primeiros frios do Inverno de 1860, foi reunir-se com seu filho, ao reino das sombras ou da luz, como ele dizia sempre.
Duas campas juntas, no cemitério da colina de Sam Ângelo, marcavam os lugares onde os Brampton dormiam o seu eterno sono, deixando só, na Mundo, Alexis Brampton, com Jessie Latham, para  tratar dele tomo uma irmã mais velha.
Uma irmã prematuramente amargurada, obstinada em viver no afã da vingança, que a sua condição de mulher não podia levar a cabo, e sob cuja tutela ia desenvolver-se a primeira juventude de Alexis Brampton, educado nesse mesmo ambiente de ódio e vingança, espicaçado, dia a dia, pela voz fria de Jessie, pelas palavras, evocando o fim de Garry, através daquelas quatro cartas ensanguentadas e amarrotadas, que eram como a chama acesa que mantinha vivo o sentimento de vingança.
— Olha para estes quatro ases do baralho. Alexis, meu irmão — dizia-lhe ela, às vezes, com o seu tom de sofrimento e dor, que pareciam agradar-lhe morbidamente, como se nelas encontrasse alívio para a sua angústia de mulher ensimesmada e fechada no seu ódio, contra verdadeiras sombras, cujos nomes ou existência nem sequer sabia... — Olha para estes quatro ases. Dois vermelhos e dois pretos. É uma jogada de «poker», precisamente a que lhe dá o nome. É uma grande jogada, mas não a melhor. Há sempre jogadas melhores. Na vida, Alex, não te fies nunca nas tuas cartas. A vida é como uma partida de «poker». Cruel, desesperada, feroz... Não encontrarás nunca abrigo nem piedade. Por isso não deves nunca dar qualquer deles. E tem em conta que tudo pode terminar como para Garry. Como o pior destes quatro ases.
E o seu dedo apontava para o ás de espadas, a carta negra da Morte...
Alexis concordava com tudo, desejoso por chegar ao dia em que as suas mãos não fossem as de uma criança, inexperiente e ingénua, para devolver o golpe sofrido...
Os anos seguintes trouxeram urna série de dramáticos acontecimentos, transcendentes para a História do país e dos seus homens: A Guerra Civil, que começou em 1861, para não terminar senão passados quatro anos. E, com ela, a alistamento de voluntários texanos para defender a Confederação.
Assim começou Alexis Brampton o seu contacto com as armas.
Urna guerra civil é um bom campo de experiência para um homem que ambicione ser rápido e perigoso com as armas. Alistou-se com os texanos, combateu contra os unionistas, vestiu o uniforme cinzento do seu partido, que lhe parecia tão bom como o outro, porque o importante, para ele, era lutar, matar, aprender o feroz jogo da vida, o «poker» negro da morte, nos campos de batalha coalhados de cadáveres, de sangue e fumo, de cheiro a pólvora e a podridão humana...
Alexis Brampton foi crescendo, fazendo-se homem, enquanto o seu país se desagregava numa trágica luta fratricida, que acabaria um dia em Appornatox, entre Grant e Lee, marcando o cinzento crepúsculo dos confederados, vencidos pelo grande Lincoln e as suas ideias de liberdade humana.
Desde então, Alexis Brampton deixou de ser o adolescente que chorava a morte de seu irmão, para se transformar no tenente Alexis Brampton, do exército Confederado, prisioneiro de guerra, juntamente com outros, nas campanhas finais de Georgia, até aonde chegara nas suas incursões bélicas pelos campos de batalha.
O período de prisão terminou em breve. O tenente Brampton fora um bom militar. No dizer de alguns, demasiado duro nas suas decisões, implacável até à crueldade, mas nobre, e dando sempre a cara, sem evitar o embate. Os vencedores, sem guardar ressentimento para com os vencidos, soltaram muitos prisioneiros que quiseram alistar-se sob a bandeira azul dos unionistas.
Alex recusou o oferecimento. Expôs o seu desejo de deixar para sempre o Exército, e voltar à vida civil. Atenderam-no e Alexis Brampton, numa manhã nublosa e fria, foi libertado de todos os compromissos e do rigor da disciplina.
Brampton contava então vinte e três anos de idade,
*
Todos os regressos são maus e aquele foi o pior de todos, para muitos americanos, nortistas ou confede-rados.
Sem distinção de causa ou de cor, todos voltaram a um mundo do qual tinham saído havia muitos anos, e que sofrera profundas alterações durante esse período turbulento e feroz da guerra civil.
Para Alexis Brampton, o regresso a Sam Angelo, ao seu amado Texas, foi duro e doloroso. O destino não quisera ser piedoso para com o homem educado a lutar sem piedade contra os seus adversários.
Da fazenda não restava nada. A guerra, as aves de rapina que a ela se reunem pelo lucro do saque, tinham passado por ali. As suas garras eram terríveis, ponteagudas, tal como os dentes cortantes dos animais ferozes da selva.
Ruínas humilhantes, campos arrasados, onde mesmo a erva daninha levaria anos a crescer de novo. Uma tabuleta caída e meio chamuscada indicava, incompleta: «Fazenda Bram...» O resto tinha sido levado pelas cinzas, pelo furacão selvagem da guerra.
Alexis permaneceu uns minutos diante daquela cicatriz dantesca, semelhante a uma dentadura cariada, observando o céu azul e límpido do Texas. Já não era o mesmo moço adolescente, frágil e de olhar ingénuo. A guerra e o ódio latente que Jessie Latham semeara na sua alma tinham dado àqueles olhos azuis uma expressão fria, distante, impenetrável. Os lábios finos quase nunca sorriam e os cabelos louros, por sob o chapéu, assomavam, em revoltas madeixas, fazendo sombra na sua testa alta. A figura alta, esbelta, de ombros largos e fina cintura, permanecia de pé, de pernas muito abertas, com os olhos glaciais cravados naquelas ruínas.
Saltou a cerca carcomida, que oscilou à sua passagem, a ponto de ruir. Entrou na casa sem tecto nem muros. Muitos móveis não eram senão madeira queimada, outras montes de estilhaços ou formas incompletas. Percorreu tudo, evocando o passado. Chegou, assim, diante da secretária de Jessie, milagrosamente de pé, apenas tocada, num dos lados, pelas dizimadoras labaredas. As gavetas estavam vazias ou cheias de papéis sem valor. Alexis procurou numa das gavetas superiores. Encontrou-as.
Ali estavam as quatro, como ele as vira tantas vezes. Quatro cartolinas amarrotadas e descoloridas, quatro cartas manchadas dum líquido ressequido, de cor cinzento-escuro, que outrora fora vermelho.
Sem saber bem o que fazia guardou-as no bolso. Depois saiu das ruínas, abandonou o passado para avançar para o futuro incerto e desconhecido. Mas, antes, tinha de fazer a sua última visita em Sam Angelo. ..A única coisa que o retinha na terra amada que um dia fora sua e de seu pai, agora sem valor.
Quemi podia desejar aquelas extensões peladas, aquelas ruínas de madeira queimada que um dia foram um lugar feliz?
Subiu a colina, chegou ao cemitério... Encontrou o que esperava. Não constituiu surpresa para ele ver uma terceira cruz, junto às dos sepulcros de seu irmão Garry e de seu pai. Aquela cruz tinha uma breve inscrição:
«Descansa em paz, JESSIE LATIAM. Teus parentes e amigos».
Pobre Jessie! Tinha criado um culto de vingança e de ódio. Tinha preferido viver encerrada no isolamento da sua amargura e dor, sem mitigá-las em absoluto. Alexis era obra sua. Ele tinha na alma a semente que ela lançara.
— Não te preocupes, Jessie — disse, depois duma breve oração diante do montículo de terra que marcava o seu leito eterno. — Vou fazer o que tu desejavas. Repousa em paz, como diz esta inscrição sobre a tua cruz. Julgo que tu e Garry se sentirão satisfeitos quando virem o que Alexis Bramptom vai fazer. Adeus, boa irmã. Que Deus te conceda a Sua graça e descanses como nunca pudeste fazê-lo...
Abandonou o cemitério. Anoitecia já.
Na cerração da noite, um comboio apitou, saindo da estação de Sam Angelo para o Norte. Nele ia um passageiro louro e sombrio, um homem pensativo, que não conversava com ninguém, nem parecia prestar atenção a nenhum dos que o rodeavam.
Alexis Brampton caminhava para a sua vingança
 

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