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terça-feira, 7 de julho de 2015

PAS496. O homem para quem morrer era um bálsamo

Alex engatilhou o revólver enquanto caminhava... e parou com a arma encostada ao corpo do homem que sorria tranquilo, sem que lhe tremesse um único músculo.
— Não tem medo de morrer, Edison?— matraqueou as palavras, irritado.
— Não. Talvez um pouco por causa deles. Mas, aos meus filhos ninguém ensinará a viver odiando. Eles não procurarão, amanhã, aquele que matou seu pai. Têm uma mãe que sabe o que vai acontecer... e, todavia, foi-se embora, para me deixar expiar as minhas culpas. Ela compreendeu, melhor que ninguém, a minha tortura. Soube que só terminando hoje serei, finalmente, livre. A sua vingança, Brampton, é para mim um bálsamo. E saiba uma coisa: seu irmão era um bom rapaz. Faltou-lhe experiência para adivinhar a traição de Marsh e Clipton, mas teve um belo gesto ao fazer-lhes frente e jogar tudo por tudo. Foi pena que não vencesse.
Brampton dispôs-se a premir o gatilho e disparar sobre o homem que não se defendia. Viu-o, de pé, na, sua frente, sorrindo com serenidade. Como nenhum dos outros que matara. Sinclair Edison, o último do seu «poker» .
 «Parecia arrependido», tinha dito Sheylander a seu respeito. «Rezarei por ti... para que voltes a encontrar a razão e afastes as sombras negras do teu coração», dissera-lhe, depois, uma mulher de olhos cor-de-âmbar, os quais vira à luz das estrelas da Califórnia...
A sua mão direita largou o revólver, que caiu por terra, pesado e barulhento. Com um, ar estupeficado fixou os seus olhos azuis em Sinclair Edison, que continuava a sorrir, ainda que um pouco surpreendido.
— Não sei porquê.... — ciciou Alex. — Não sei como aconteceu, mas... não posso... não posso matá-lo, Edison. Nem mesmo que tratasse de se defender... Não consigo apertar o gatilho...
Invadiu-o uma sensação de bem-estar. Sentiu um alívio intenso, que ia do coração à cabeça, que adoçou o olhar das suas pupilas cor-do-céu. Era como que uma libertação, o quebrar de pesadas cadeias.
— Brampton... porquê? -- perguntou-lhe Edison. — Não pedi clemência, não a espero, nem, tão-pouco, a desejo.
— Já o sei. Você é o único verdadeiro homem que encontrei até agora. Quem sabe, se nos tivéssemos encontrado antes, se não teria impedido a minha vingança. Ou talvez não... Não sei...
— Brampton, você renuncia a...
— Sim — a sua mão tirou, do bolso da camisa, um ás de espadas. A carta da morte. Lançou-a por terra. — No fim de contas, fiz «poker». Afastou a morte de mim., Edison... Um dia poderá dizer a seus filhos que se livrou de morrer quando tinha já um pé no vale das sombras. Adeus, Edison... e queime esse dinheiro ou dê-o para obras de caridade. Garry ficará satisfeito.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

PAS495. Tiros em Madalena

Madalena.
 Sheila Brice saltou do comboio para a gare da pequena estação banhada de sol, o claro e forte sol mexicano. Olhou de novo o letreiro branco, em que os raios de luz se refletiam: Madalena. Era um nome de expiação, do arrependimento e boa vontade de regresso ao bom caminho... Talvez algo superior à vontade de Sinclair Edison elegesse aquele lugar para o epílogo da tragédia de tantos anos. Teria regressado Edison ao bom caminho? Ou seria Alex Brampton quem teria de fazê-lo, precisamente ali?
Sheila não tinha esperança alguma. Alex crescera em ambiente de ódio, do qual ninguém seguiria arranca-lo enquanto existisse a razão desse ódio. Pelo menos, esperava chegar antes de Alex. Se ela dera com o esconderijo de Edison... quanto tempo demoraria Brampton a fazê-lo? E se ele tivesse terminado?
Um calafrio percorreu a espinha dorsal de Sheila Brice. Os seus grandes olhos cor-de-âmbar estudaram minuciosamente o local. Viu a estação de caminho de ferro, um edifício de adobe, escalavrado, e só, no meio da planície calcinada pelo sol.
***

No dia seguinte, Sheila acordou, com pena, no seu amplo leito: cómodo e fofo. Gostaria de ter dormido mais, mas o sol ia já muito alto e queria estar alerta o mais tempo possível, não fossem precipitar-se os acontecimentos. De um momento para o outro podia chegar Alex e, com ele, a tempestade que acabaria com a paz cordial de Madalena.
Arranjou-se em' escassos minutos., saiu para a rua e pôs-se a observar as nuvens escuras que enegreciam o céu, para as bandas de Oeste, como que numa ameaça contra o fone sol que dardejava de Sul. Sheila sentiu um arrepio, à medida que subia a íngreme ladeira que dava para a casa dos Edison. Era como que um presságio...
Nesse mesmo instante, um tiro de revólver quebrou a calma manhã da pequena povoação mexicana. Seguiu-se um outro, quase ao mesmo tempo.
Sheila Brice soltou um gemido, o seu rosto ficou branco como a cal e começou a correr, rua acima, sentindo fraquejarem-lhe as pernas. Ouviu-se um novo tiro, mas este disparado por um «rifle».
— Meu Deus. Não! Não, Alex, não podes tê-lo; feito... ou odiar-te-ei toda a vida! — gemeu, sem parar de correr em direcção à casinha branca de portas e janelas verdes.

domingo, 5 de julho de 2015

PAS494. O homem que não fugiu ao destino

Num gesto de desalento, Sinclair Edison pôs de lado o jornal. Aquela edição de «El Paso», como as de todos os jornais ao Norte da fronteira, falava do caso: «Poker Negro» era uma personagem célebre nas crónicas sensacionalistas. Alcançara já três dos seus objectivos: Randolph Adams, David Marsh, Eli Cripton... Apenas faltava um: ele próprio.
— Queres que te sirva já o pequeno !almoço, meu querido Sinclair — perguntou Cara, com a sua voz sedosa e calma.
— Não, Cora minha vida. Hoje não tenho apetite.
-- Pode saber-se o que se passa contigo? — disse ela, aparecendo à porta. Pequena, grácil, tão forte como ele e muito mais enérgica. — Há uns dias que andas muito enfastiado.
— Ora, não é nada. Nada, querida. Talvez ande um pouco deprimido.
Cora Edison olhou de soslaio para a mesa. Notou a presença do jornal norte-americano e os seus olhos nublaram-se imediatamente, e, sem dizer nada, voltou para a cozinha.
Edison ficou de novo só, na modesta sala, pintada de cores claras: Pela janela aberta, o sol do México entrava em catadupas.
Estava um dia alegre, calmo e apetecível. Mas não para ele. Aquela notícia turvara-lhe toda a alegria. Também Cripton... Três já estavam... Faltava um só ás no jogo... para se completar o «poker» fúnebre. Esse ás que faltava era o seu. Edison sorriu com amargura. Alex Brampton parecia ter-lhe reservado o pior de todos eles: o de espadas, negro e sinistro, símbolo de morte para todos os jogadores supersticiosos. O naipe trágico da negra sorte.
Sentiu um calafrio, apesar do calor do dia. Pôs-se de pé, avançou coxeando ligeiramente até à janela e cerrou as vidraças, deixando-as encostadas. Não queria que sua mulher ouvisse correr os trincos. Alarmar-se-ia.
— E as crianças, Cora? — perguntou, já depois de se ter sentado novamente.
--- Foram para o colégio há mais de uma hora, querido — respondeu-lhe a esposa. Ainda estavas a dormir quando te beijaram à saída.
Edison sorriu. Os seus filhos! Cora e Mike..: Por eles era capaz de tudo. Até de matar Alex Brampton se fosse preciso. Mas não, por esse preço não compraria a sua felicidade, nem a deles. Matar era algo horrível... Sabia-o bem desde havia onze anos. Desde que manipulara um baralho de cartas, com a sua antiga peculiar habilidade, dispondo uma jogada falsa, quatro ases nas mãos de Garry Brampton.
Isso provocara primeiro, uma morte... e, muitos anos depois, várias outras. Um destino, sangrento, ligodo àquela partida funesta, ia acumulando jogadas de sangue e ódio, sem se preocupar com as distâncias, nem com o tempo. Sabia perfeitamente que já não estava em segurança, nem sequer ali, a Sul da fronteira mexicana, em Madalena, um pacífico lugarejo sem conflitos nem violências.
Tal como antes, em Cheyenne, Canyonville ou São Francisco, a morte chegaria também a Madalena, estado de Sonora. Isso aconteceria mais tarde ou mais cedo.
Sinclair Edison nada fazia para o impedir. Absolutamente nada. Não voltaria a fugir, não tornaria a esconder-se do destino. Esperaria ali. Aguardaria o final, que acabaria por chegar um dia.

PAS493. Um sorriso de gelar o sangue

Lentamente, virou o olhar para o homem alto, moreno e estranhamente vestido, que tinha surgido junto da roleta, no salão de jogo. A rapariga vestida de cor-de-morango chegava agora ao seu lado, falava com ele, implorando alguma coisa, ao que parecia. Paul Brighton sorria. Um sorriso insultante, cruel, daninho...
Alex Brampton apertou o copo do refresco entre os seus dedos. O vidro estilhaçou-se, ferindo-lhe a mão e derramando o frio conteúdo por cima da sua manga e do blusão.
— Cuidado, senhor, vai-se ferir! — exclamou um empregado do «bar». Algumas pessoas o olharam surpreendidas.
— Não é nada. — Brampton atou a mão ferida com um lenço de seda. Voltou os olhos, mais gelados do que nunca, para o par. David Marsh, aquele suposto Paul Brighton, conduzia Sheila Brice pelo braço, na direcção de uma porta lateral, coberta por espessas cortinas de veludo vermelho.
Faziam um bonito par. Mas era só na aparência. Alex lembrou-se duma fábula «A bela e o monstro».
O sorriso que assomou aos lábios de Alexis Brampton quando se afastou do «bar», abrindo passagem entre a multidão, teria gelado o sangue nas veias de Marsh, de Dawson e talvez da própria Sheila. Mas ninguém o viu...
 
***

— Não se admire. Os meus empregados informam-me, prontamente, de tudo quanto se passa, de anormal, na minha casa e sei que você ganhou dezassete mil dólares. Se Dawson, o meu sócio, não interviesse, você levaria a banca à glória... e já os dois não poderíamos negociar a salvação de seu irmão.
Sentada à frente dele, na solidão do seu escritório, Sheila sentiu uma aversão profunda, um ódio mortal àquele réptil humano que insinuava a brutal realidade com aquele sadismo. A lembrança do seu irmão em perigo deu-lhe ânimo e força para prosseguir.
— Este dinheiro não me serve para nada, e você sabe-o muito bem, Brighton — disse, em tom agressivo. — Queria ganhar mais, muito mais, mas não foi possível.
Paul Brighton esfregou os compridos e pálidos dedos rejubilando com o fácil triunfo que se lhe oferecia. Sheila Brice... Tinha-a desejado tanto... Os seus olhos brilharam doentiamente.
— Os vales serão seus... dentro dum momento. — Pôs-se de pé, aproximou-se dum cofre e rebuscou nele, tirando um maço de documentos. Dedos nervosos passaram folhas após folhas, até tirar três papéis. Mesmo àquela distância, Sheila reconheceu a assinatura de Dick. — São estes, menina Brice... Bem, melhor será chamar-te Sheila, querida. É mais íntimo...
A infeliz rapariga sentiu náuseas... Aquilo era superior às suas forças. Mas os vales estavam ali, ao alcance da sua mão... Ele mostrou-os, a distância, prudentemente.
— São estes. Um de dez mil, outro de vinte mil e outro de quinze mil. Com os cinco mil de juros, perfaz os cinquenta mil, querida Sheila...
— Canalha! — ciciou ela, incapaz de suportar mais.
— Cuidadinho, cuidadinho. Isso não são maneiras. — O sorriso infame de Marsh alargou-se.
Avançou uns passos. As suas mãos tremiam codiciosas. Era um monstro repulsivo, odioso. Sheila fechou os olhos. Sentiu o contacto repugnante das suas mãos ardentes sobre os seus braços, subindo para os ombros, puxando-a para ele...
 -- Que importuno sou, «não é verdade, David Marsh?».
A surpresa foi demasiado inesperada e brutal. Aquela voz fria, trocista, áspera, rude... Sheila gritou e afastou-se rapidamente enquanto as mãos vibráteis de Paul Brighton a largavam como se, de súbito, fosse um carvão em brasa viva.
— Eh! Quem é você? Como se atreve... a vir até aqui? — rugiu, raivoso, o jogador. Subitamente, pareceu entrar no seu cérebro a ideia de que lhe tinha chamado «David Marsh». — Corno... me chamou?
— David Marsh. — O intruso estava ali, de pé, junto da porta, com uma expressão dura, quase feroz, que assustava Sheila, refugiada num canto. O seu amigo da sala de jogo já não parecia tão jovem, nem tão atractivo. Era demasiado... violento o seu parecer. E o brilho dos seus olhos metia-lhe medo. — David Marsh, não, Paul Brighton. Não é aquele o seu verdadeiro nome?
Marsh recuou dois passos. Estava inquieto, mas conservou o sangue-frio.
— Saia daqui. Não sei como entrou, mas ordenarei que o espanquem como a um cão, se...
-- Se quê? Se continuar a impedir que manche de lama uma flor? — Sheila pensou que parecia impossível que aquele homem, todo dureza e frialdade, pudesse, em tais circunstâncias, ter urna frase bela para comentar o seu sacrifício.
— Basta! Vai sair a bem ou terei de expulsá-lo a tiro?
— Da mesma forma que a Garry Brampton, em Dodge City, Marsh?
Uma palidez mortal cobriu o rosto de Marsh, até o fazer parecer um grotesco palhaço enfarinhado. Recuou, como se fosse ferido no peito. Uns olhos negros, aumentados pelo terror, fixaram-se naquele homem, perigoso, ameaçador, impávido e rude.
-- Quê... que disse? — balbuciou.
— Procurei-te durante muito tempo, Marsh. Venho de Nova Orleães. Já lá não estavas, como julgava Randolph Adams. Mas disseram-me onde te podia encontrar, assassino.
--Randolph Adarns! Você... você matou-o?
-- Eu fiz justiça. Foi o primeiro dos quatro. Tu completarás o par de ases. Ases do crime, do mal, Marsh. Estareis melhor mortos, expulsos do mundo. Mas a conta não termina em ti, não. Ficam outros dois. É um «poker». Tu eras jogador, tu sabes disso. Um «poker» de morte... negro.
— Isso é absurdo -- rugiu Marsh, recuando mais dois passos. — Não pode continuar assim, anos e anos, à procura dos que mataram Garry, vingando-se dessa forma! Por que o há-de fazer, porquê?
— Eu era seu irmão, Marsh. Seu irmão. Tens uma dívida para comigo. Quarenta mil dólares e a vida... O dinheiro pode entregá-lo a esta menina. Perdoo-te os dez mil que sobram. Rasgue você esses vales, menina Brice. Não tenha escrúpulos. É o pagamento duma dívida, não é verdade, Marsh?
— Está bem... — sorriu forçadamente o jogador. Sabia muito bem quando perdia uma partida. Aquele não era como Garry. Não era possível enganá-lo. E ali estava só. Tinha medo. Medo do assassino de Adams, de Sheylander... — Você ganhou a partida, Brampton. Pegue nesses vales e parta de São Francisco, antes que faça seguir o mesmo caminho do seu irmãozinho...
— Não, Marsh, não me compreendeste. — O sorriso arrepiante daquele vingador louro gelou as veias de Sheila. E um medo horrível penetrou na cabeça e no coração de David. — Com isso não sie extingue a dívida. Deixa-te de fanfarronices. Sabes bem que estás perdido. Sabes que não poderás alcançar essa arma que tens aí, na gaveta da secretária. Porque eu puxarei antes pela minha e morrerás no mesmo instante. Vamos, não sejas palerma. Soou a tua hora. Vou cobrar, duma só vez... toda a dívida.
— Não! — interveio Sheila, angustiada. — Não o mate, Brampton. Você... você não tem estofo de assassino. Não é um pistoleiro. Leio-o nos seus olhos, na sua cara, apesar de toda a sua amargura e de toda a sua dor...
— Não pode compreender, menina Brice. — Alex pareceu não dar conta de que Marsh se aproximava cada vez mais da sua secretária. — Criei-me no ódio, cresci com a ideia fixa da vingança, no meu espírito e na minha alma. São três defuntos que me pedem que con clua a minha obra. Até então, eles não descansarão em paz.
— Não diga isso, Brampton! — A rapariga de cabelo cor-de-âmbar falou, apaixonada, influída estranhamente por aquele homem singular e desconhecido que a atraía, a quem não queria ver matar os seus semelhantes como se fosse um pistoleiro vulgar... — Eles descansarão em paz, onde estão, uma vez que desapareceram. Somos nós quem não descansará, julgando que eles pedem coisas tão monstruosas como matar. Matar é uma coisa horrível, Brampton. Não continue a fazê-lo. Deixe a sua vingança, deixe o seu «poker» sangrento incompleto... Os que estão mortos não desejam que continue a matar. Não nos compete a nós vingar ofensas; nem ditar sentenças. Deus está acima de tudo e de todos. Ele disse que devíamos perdoar, para que um dia... Cuidado, . Brampton! Meu Deus, não!
De sua boca partiu primeiro o aviso. Depois a exclamaçáo, perante o inevitável. Tinha querido impedir aquilo, mas... David Marsh aproveitou as suas palavras apaixonadas para alcançar a secretária, para agarrar na arma com uma rapidez de profissional e apontá-la velocissimamente para Alex Brampton. O jovem, arrebatado pelos argumentos daquela rapariga, que lhe falava rumo na vida jamais alguém lhe falara, estivera a ponto de ser vítima fácil. A advertência espontânea, rápida, da rapariga, salvou-o.
Brampton saltou para o lado, evitando a bala disparada por David Marsh, diabólicamente risonho, ao apertar o gatilho, saboreando ferozmente uma tão fácil vitória. Mas o seu chumbo encontrou o vazio e não o coração de Brampton, inclinado sobre a secretária, muito à esquerda da sua posição inicial. Dali, enquanto Sheila tapava os olhos, lançando um grito de terror, fez fogo uma só vez.
Alex Brampton não precisava nunca de repetir o disparo sobre um alvo humano. A bala abriu um orifício negro entre os olhos de Marsh, tão negros como o vácuo da morte. As pupilas vidradas abriram-se-lhe desmesuradamente. Não pôde compreender a razão da sua derrota, no momento em que abraçava o triunfo; Inclinou a cabeça, como a querer rezar uma oração impossível, e que jamais soube, resvalando lentamente para o soalho alcatifado, onde ficou, de joelhos, absolutamente apoiado na secretária.
Sheila, com um gemido, de nervos tensos, correu para os braços do jovem louro, refugiando-se neles da terrível realidade e da emoção vivida.
— Lamento, menina, — murmurou Alex, em, tom duro, largando a arma. — Não tive outro remédio. Você viu... Embora, na realidade, não merecesse outra coisa;
— Meu Deu... Meu Deus!. — gemeu ela, chorando encostada ao forte peito de Brampton. —É a primeira vez que vejo um homem morrer... assim. Mas seria mais horrível... vê-lo morrer a si...
Alex levantou a cara de Sheila com a mão, pegando--lhe pelo fino queixo. Emocionava-o aquele pranto de mulher. Era a primeira vez que uma rapariga como Sheila procurava os seus braços e sentia algo que não sabia explicar.
— Vamos, acalme-se. Já passou tudo — pediu ele. Depois viu-se nos dois redondos olhos cor-de-âmbar, reluzentes e muito abertos, que pareciam convidá-lo a olhá-los mais de perto.
Os seus lábios encontraram-se colocados aos lábios vermelhos e húmidos da rapariga, sem ter bem a noção exacta do que fazia.
 
***

— Vai-se já embora de São Francisco?
— Sim. Amanhã. A minha estadia foi muito curta. Mas não tenho outra solução, Sheila. Você mesmo viu esta noite. Não merecem viver...
— Deixe, então, que Deus os afaste do mundo. Não é tarefa sua.
— E era tarefa sua tirar a vida a meu irmão, quando começava a vivê-la?
— Você quer igualar-se a eles, Brampton, matando com uma simples máquina, vivendo escravo do seu revólver? Quanto tempo durará isso? Um dia compreenderá que o revólver, a violência, a vingança e o ódio não são nada no mundo. Que há outras coisas mais belas da nossa vida. O perdão, a compreensão, o amor...
— O amor... Há tanto tempo que não o conheço, Sheila — suspirou Alex, olhando a jovem. — Creio que meu pai me amou, e meu irmão também... e ela, Jessie...
— A sua noiva? -- O tom de Sheila foi estranhamente amargurado.
 

sábado, 4 de julho de 2015

PAS492. Rosas para a formosa Sheila

— Rosas! Rosas de Paul Brighton! Oh! Dick, isto é horrível!
— Mas, querida Sheila, já viste o que diz o seu cartão? «Tenho o prazer de comunicar-lhe que a data de pagamento das suas dívidas foi prorrogada mais uma semana». Não é estupendo, Sheila?
— Estupendo? Porquê?
— Poderemos pagar-lhe os seus malditos cinquenta mil dólares — alegrou-se Dick Brice.
— Não penses em fantasias. Daqui a sete dias teremos as mesmas possibilidades de lhe pagar que hoje. E, quanto a esse adiamento, por certo que traz água no bico. Vi esse homem, Brighton, e sei do que pode ser capaz. É sinuoso, obscuro, de ideias sujas; olha para uma pessoa como poderia olhar para um objecto capaz de se comprar por baixo preço e gozá-lo toda a vida... Esse homem, Dick, mete-me medo e... repugnância.
— Brighton não é um anjo, — assentiu Dick. — Mas, deves reconhecer que é muito generoso em adiar o pagamento da nossa dívida. Acaso o abrandou a tua visita?
— Sim, talvez --lembrou-se do olhar de réptil do jogador e estremeceu. — Mas tenho medo, Dick. Oh! Deus! Por que te havias de meter, tão estupidamente, neste beco sem saída?
— Já te disse mil vezes, querida — protestou o jovem, com expressão aturdida, olhando para sua irmã. — Tinha bebido, via tudo confuso e convenci-me de que podia ganhar... Tive uns momentos de sorte, mas depois perdi muito... Esperei poder recuperar. O azar não dura toda a noite.
— O teu durou.
— Bem, não sei como pôde suceder, Mas encontrei-me, já dia claro, quando fechavam o casino, sem ter ganho uma única vaza de valor. Perdi cinquenta mil dólares a crédito, além do meu dinheiro. Não me deixaram sair sem assinar os vales. Por favor, Sheila, não me tortures mais, já to contei mil vezes.
— E ainda não cheguei a compreender como pudeste ser tão louco e estúpido, Dick — reprovou ela, severamente. — Sabes bem quais são as nossas posses, desde que o pai morreu. Apenas uma renda miserável, para viver decentemente na aparência e passar fome às vezes. Bem procuro um marido rico, mas não o encontro.
— Não digas isso. Tens uma centena de pretendentes ricos...
— Uni gordo, outro velho, outro feio e horrível; outro, ainda, falta-lhe a respiração; Nugent é jovem bem parecido, mas está bêbado a todas as horas do dia e, quanto a Forrester... Bem, esse é dum puritanismo e hipocrisia que me irritam...
-- Em suma, não gostas de nenhum. Mas isso não é razão, Sheila. Qualquer deles pode salvar-nos. Se prometeres a tua mão a um desses homens... dar-te-ão o dinheiro de que necessitamos.
— E com a minha felicidade e o meu coração destroçado pagarei o teu imprudente erro, não é assim?
Dick inclinou a cabeça sobre o peito. Não podia exigir tanto de sua irmã, mas ela sabia tão bem como ele que o contrário seria o caminho da cadeia.
— Está bem, Dick, vou, retirar-te desta embrulhada — disse Sheila, levantando a cabeça. — Direi que sim a Nugent. É o melhor de todos eles, ainda que beba como uma cuba.
— Oh! Sheila, obrigado. É tão generoso da tua parte sacrificares-te assim por mim...
Sheila olhou, friamente, o seu irmão, deu meia volta e saiu da sala sem sequer despegar os lábios. Dick, envergonhado de si mesmo, inclinou a cabeça, permanecendo enterrado nas suas reflexões.

PAS491. Encontro com a traição

Alex ouviu toda a história. Era uma história breve, mas horrenda. A história dum crime repugnante, de uma ferocidade animal, selvagem. Na implacável selva do Oeste, um homem inexperiente, jovem e confiante, tinha sido vítima dessa ferocidade sem limites. O seu dinheiro e a sua vida, esterilmente perdidos numa noite de loucura. Vigarice evidente, mas por sua vez diabólica.
— Os seus nomes, Sheylander — exigiu, sem se mover da rocha em que estava sentado, naquele lugar escuro, rodeado de vegetação e onde não era fácil que alguém os encontrasse.
August Sheylander lívido, e tremendo de medo, soluçava diante dele, terminado o relato da noite inolvidável, trágica.
Alex voltou a perguntar:
— Os seus nomes, Sheylander. Esses quatro nomes... a troco da tua vida.
— Meu Deus, matar-me-ão por isso...

sexta-feira, 3 de julho de 2015

PAS490. Caminhada para a vingança

O velho Gordon Brampton morreu no fim do Verão seguinte. Pouco mais de um ano sobrevivera ao fim violento do seu filho, em Dodge. Depois disso, o seu vigor físico foi desaparecendo, ruíram todos os interesses que o ligavam à vida, e tornou-se uma pálida sombra dum ser humano, até que, com os primeiros frios do Inverno de 1860, foi reunir-se com seu filho, ao reino das sombras ou da luz, como ele dizia sempre.
Duas campas juntas, no cemitério da colina de Sam Ângelo, marcavam os lugares onde os Brampton dormiam o seu eterno sono, deixando só, na Mundo, Alexis Brampton, com Jessie Latham, para  tratar dele tomo uma irmã mais velha.
Uma irmã prematuramente amargurada, obstinada em viver no afã da vingança, que a sua condição de mulher não podia levar a cabo, e sob cuja tutela ia desenvolver-se a primeira juventude de Alexis Brampton, educado nesse mesmo ambiente de ódio e vingança, espicaçado, dia a dia, pela voz fria de Jessie, pelas palavras, evocando o fim de Garry, através daquelas quatro cartas ensanguentadas e amarrotadas, que eram como a chama acesa que mantinha vivo o sentimento de vingança.
— Olha para estes quatro ases do baralho. Alexis, meu irmão — dizia-lhe ela, às vezes, com o seu tom de sofrimento e dor, que pareciam agradar-lhe morbidamente, como se nelas encontrasse alívio para a sua angústia de mulher ensimesmada e fechada no seu ódio, contra verdadeiras sombras, cujos nomes ou existência nem sequer sabia... — Olha para estes quatro ases. Dois vermelhos e dois pretos. É uma jogada de «poker», precisamente a que lhe dá o nome. É uma grande jogada, mas não a melhor. Há sempre jogadas melhores. Na vida, Alex, não te fies nunca nas tuas cartas. A vida é como uma partida de «poker». Cruel, desesperada, feroz... Não encontrarás nunca abrigo nem piedade. Por isso não deves nunca dar qualquer deles. E tem em conta que tudo pode terminar como para Garry. Como o pior destes quatro ases.
E o seu dedo apontava para o ás de espadas, a carta negra da Morte...
Alexis concordava com tudo, desejoso por chegar ao dia em que as suas mãos não fossem as de uma criança, inexperiente e ingénua, para devolver o golpe sofrido...
Os anos seguintes trouxeram urna série de dramáticos acontecimentos, transcendentes para a História do país e dos seus homens: A Guerra Civil, que começou em 1861, para não terminar senão passados quatro anos. E, com ela, a alistamento de voluntários texanos para defender a Confederação.
Assim começou Alexis Brampton o seu contacto com as armas.
Urna guerra civil é um bom campo de experiência para um homem que ambicione ser rápido e perigoso com as armas. Alistou-se com os texanos, combateu contra os unionistas, vestiu o uniforme cinzento do seu partido, que lhe parecia tão bom como o outro, porque o importante, para ele, era lutar, matar, aprender o feroz jogo da vida, o «poker» negro da morte, nos campos de batalha coalhados de cadáveres, de sangue e fumo, de cheiro a pólvora e a podridão humana...
Alexis Brampton foi crescendo, fazendo-se homem, enquanto o seu país se desagregava numa trágica luta fratricida, que acabaria um dia em Appornatox, entre Grant e Lee, marcando o cinzento crepúsculo dos confederados, vencidos pelo grande Lincoln e as suas ideias de liberdade humana.
Desde então, Alexis Brampton deixou de ser o adolescente que chorava a morte de seu irmão, para se transformar no tenente Alexis Brampton, do exército Confederado, prisioneiro de guerra, juntamente com outros, nas campanhas finais de Georgia, até aonde chegara nas suas incursões bélicas pelos campos de batalha.
O período de prisão terminou em breve. O tenente Brampton fora um bom militar. No dizer de alguns, demasiado duro nas suas decisões, implacável até à crueldade, mas nobre, e dando sempre a cara, sem evitar o embate. Os vencedores, sem guardar ressentimento para com os vencidos, soltaram muitos prisioneiros que quiseram alistar-se sob a bandeira azul dos unionistas.
Alex recusou o oferecimento. Expôs o seu desejo de deixar para sempre o Exército, e voltar à vida civil. Atenderam-no e Alexis Brampton, numa manhã nublosa e fria, foi libertado de todos os compromissos e do rigor da disciplina.
Brampton contava então vinte e três anos de idade,
*
Todos os regressos são maus e aquele foi o pior de todos, para muitos americanos, nortistas ou confede-rados.
Sem distinção de causa ou de cor, todos voltaram a um mundo do qual tinham saído havia muitos anos, e que sofrera profundas alterações durante esse período turbulento e feroz da guerra civil.
Para Alexis Brampton, o regresso a Sam Angelo, ao seu amado Texas, foi duro e doloroso. O destino não quisera ser piedoso para com o homem educado a lutar sem piedade contra os seus adversários.
Da fazenda não restava nada. A guerra, as aves de rapina que a ela se reunem pelo lucro do saque, tinham passado por ali. As suas garras eram terríveis, ponteagudas, tal como os dentes cortantes dos animais ferozes da selva.
Ruínas humilhantes, campos arrasados, onde mesmo a erva daninha levaria anos a crescer de novo. Uma tabuleta caída e meio chamuscada indicava, incompleta: «Fazenda Bram...» O resto tinha sido levado pelas cinzas, pelo furacão selvagem da guerra.
Alexis permaneceu uns minutos diante daquela cicatriz dantesca, semelhante a uma dentadura cariada, observando o céu azul e límpido do Texas. Já não era o mesmo moço adolescente, frágil e de olhar ingénuo. A guerra e o ódio latente que Jessie Latham semeara na sua alma tinham dado àqueles olhos azuis uma expressão fria, distante, impenetrável. Os lábios finos quase nunca sorriam e os cabelos louros, por sob o chapéu, assomavam, em revoltas madeixas, fazendo sombra na sua testa alta. A figura alta, esbelta, de ombros largos e fina cintura, permanecia de pé, de pernas muito abertas, com os olhos glaciais cravados naquelas ruínas.
Saltou a cerca carcomida, que oscilou à sua passagem, a ponto de ruir. Entrou na casa sem tecto nem muros. Muitos móveis não eram senão madeira queimada, outras montes de estilhaços ou formas incompletas. Percorreu tudo, evocando o passado. Chegou, assim, diante da secretária de Jessie, milagrosamente de pé, apenas tocada, num dos lados, pelas dizimadoras labaredas. As gavetas estavam vazias ou cheias de papéis sem valor. Alexis procurou numa das gavetas superiores. Encontrou-as.
Ali estavam as quatro, como ele as vira tantas vezes. Quatro cartolinas amarrotadas e descoloridas, quatro cartas manchadas dum líquido ressequido, de cor cinzento-escuro, que outrora fora vermelho.
Sem saber bem o que fazia guardou-as no bolso. Depois saiu das ruínas, abandonou o passado para avançar para o futuro incerto e desconhecido. Mas, antes, tinha de fazer a sua última visita em Sam Angelo. ..A única coisa que o retinha na terra amada que um dia fora sua e de seu pai, agora sem valor.
Quemi podia desejar aquelas extensões peladas, aquelas ruínas de madeira queimada que um dia foram um lugar feliz?
Subiu a colina, chegou ao cemitério... Encontrou o que esperava. Não constituiu surpresa para ele ver uma terceira cruz, junto às dos sepulcros de seu irmão Garry e de seu pai. Aquela cruz tinha uma breve inscrição:
«Descansa em paz, JESSIE LATIAM. Teus parentes e amigos».
Pobre Jessie! Tinha criado um culto de vingança e de ódio. Tinha preferido viver encerrada no isolamento da sua amargura e dor, sem mitigá-las em absoluto. Alexis era obra sua. Ele tinha na alma a semente que ela lançara.
— Não te preocupes, Jessie — disse, depois duma breve oração diante do montículo de terra que marcava o seu leito eterno. — Vou fazer o que tu desejavas. Repousa em paz, como diz esta inscrição sobre a tua cruz. Julgo que tu e Garry se sentirão satisfeitos quando virem o que Alexis Bramptom vai fazer. Adeus, boa irmã. Que Deus te conceda a Sua graça e descanses como nunca pudeste fazê-lo...
Abandonou o cemitério. Anoitecia já.
Na cerração da noite, um comboio apitou, saindo da estação de Sam Angelo para o Norte. Nele ia um passageiro louro e sombrio, um homem pensativo, que não conversava com ninguém, nem parecia prestar atenção a nenhum dos que o rodeavam.
Alexis Brampton caminhava para a sua vingança
 

PAS489. As quatro cartolinas da morte

— Meu pobre Garry... Meu pobre Garry...
— Lamento bastante, senhor Brampton — disse, em tom oficial, o comissário do xerife de Sam Angelo. — Venho informá-los de que o cadáver, de acordo com os vossos desejos, chegará, para ser enterrado, dentro dumas quarenta e oito horas. Assim, poderão enterrá-lo, como o desejam, no cemitério local. Tudo foi muito penoso, senhor Brampton, mas será pior daqui para diante. Não vai ser coisa agradável receber os restos mortais do seu filho e... bem, o senhor compreende-me. Se tivesse sido outra espécie de morte, mas esta...
Os olhos de Gordon Brampton estavam secos. Aparentemente, o homenzarrão de cabelos grisalhos e enorme estatura, de mãos rudes e calosas, devido aos trabalhos de ganadaria, era incapaz de expressar a sua dor pelo choro. Mas aquelas duas figuras enlutadas, que pareciam sombras, esguias e finas, por detrás do lugar onde se sentava o velho, sabiam muito bem que as nascentes da dor já tinham secado na existência de Gordon Brampton. Tanto a jovem mulher, delgada, loura e espiritual, de profundos olhos azuis rodeados por sombras violáceas, como o rapazito louro, de dezasseis anos apenas, mais pálidos pelo contraste com as suas roupas negras, tinham visto o velho chorar horas e horas seguidas, desde que tivera conhecimento, cinco dias antes, do trágico fim de seu filho Garry, numa suja e obscura ruela de Dodge City, a quase quatrocentas milhas de Sam Angelo, sua terra natal.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

BIS084. Jogo de morte

(Coleção Bisonte, nº 84)
 
 «August Sheylander, com as mãos nervosas, trementes, gordanchudas como almofadas de carne, endireitou tudo aquilo.
Nem sequer se apercebeu de que faltavam cartas no baralho com que os cinco homens tinham jogado. Como algumas estivessem manchadas de sangue, o dono do casino resolveu queimá-las.
Entretanto, na ruela solitária onde Garry Brampton dormia o seu último sono, olhando, sem ver, o céu de Kansas, os dedos da mão esquerda continuavam agarra-dos a alguma coisa que nenhum dos homens implicados no seu assassínio tinha notado, na excitação e pressa de se desfazerem do cadáver.»

Termina assim o prólogo de mais esta magnífica novela de Donald Curtis. Garry Brampton é assassinado na sequência da venda de gado que lhe rendeu duzentos mil dólares e de ter perdido esse dinheiro ao jogo, apercebendo-se então de que os jogadores tinham sido pouco sérios.
No momento da morte, a sua mão manteve as quatro cartas que constituíam o seu jogo: quatro ases, quatro ases que vão estar presentes na vingança insuflada pela sua noiva, Jessie, ao irmão mais novo Alex.
Após o prólogo, a novela desenvolve-se em cinco partes dedicadas à educação do irmão e a cada um dos que participaram ou colaboraram no assassinato. Aí materializa-se a vingança de Jessie e o reencontro de Alex com a felicidade.
Deixamos algumas passagens e um ficheiro para download.

 

Outras passagens

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