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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

BRV014.11 O último encontro do «cavaleiro de negro»


A verdade também penetrou no peito do cavaleiro de negro, que cavalgava inclinado sobre o pescoço do animal, ao atravessar o tapete de ardósia quebradiça.

Depressa amanheceria, mas não queria descansar. O corpo nunca mais poderia descansar. Necessitava de outra espécie de repouso; pesava-lhe a alma. Era a primeira vez, desde há muitos anos, desde que julgara extirpá-la do peito, que a sentia palpitar unida ao coração.

E agora sentia a necessidade imperiosa de a fazer reviver, de a salvar da sua agonia.

Havia fracassado; havia sido ferido. Era uma derrota que lhe abria os olhos de uma maneira dolorosa. Uma mulher qualquer, e, contudo, uma extraordinária mulher, havia-lhe dado uma dura lição.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

BRV014.10 Duelo à porta da igreja traz a dor do verdadeiro amor


Embora naquela noite mal tivesse conseguido dormir, na manhã seguinte acordou cedo. Recordou-se imediatamente do que havia sucedido no bosque e, como uma sonâmbula, saiu da cama e aproximou-se da janela.

Se esperava ver alguma luta, teve um desengano. A rua estava tranquila, o sol já havia surgido no horizonte e começava a subir no céu, ameaçador como sempre.

Naquele dia, Main Street tinha um ar domingueiro. Nos passeios viam-se crianças de calças compridas e estreitas e altos chapéus, lenços de cores ao pescoço, laços ou gravatas, casacos de desenhos berrantes ou de pano negro, apesar do calor.

As mulheres, muito diferentes, abriam as suas sombrinhas até mesmo à sombra, ralhavam com as crianças que se deitavam ao chão ou faziam gritaria falando todos ao mesmo tempo.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

BRV014.09 Ataque falhado ao cavaleiro de negro


Beatriz Block não se enganava. Não era já uma criança e, aos vinte e seis anos tinha vivido mais que qualquer outra mulher aos quarenta. Sabia que, tudo quanto dizia respeito a Roger Novack era fictício, tão fictício como ele.

Mas também não podia negar que, junto do «diabo negro», se sentira mais mulher e experimentava uns sentimentos jamais vividos. Houve momentos em que, inclusivamente, acreditou e caiu, deixando-se arrastar pela eloquência do cavaleiro, fechando os olhos sem os poder abrir e, às vezes, sem os querer abrir. Junto dele conheceu instantes maravilhosos ao mesmo tempo que, diante dela, se abria um mundo novo.

Recordava a noite anterior, os minutos vividos junto da pequena cascata, ouvindo o seu murmúrio e contemplando as suas águas prateadas ao caírem sobre as rochas brancas para se despenharem em seguida pelo terreno verde até encontrarem o seu leito e seguirem docemente, murmurando uma canção.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

BRV014.08 Planos contra o homem de negro


Nas pequenas povoações não existe a palavra segredo. Quando se procura ou há necessidade de ocultar um facto, e se pronuncia esta palavra, é como se se ateasse fogo a um rastilho de pólvora, pois a chama corre, alonga-se, retorce-se, avança em ziguezague ou em linha recta, mas não se detém enquanto não esgota o combustível. O falatório só para quando não há mais ouvidos.

Assim se soube que Erdman se havia enamorado de Beatriz. Assim se soube que a queria tornar sua esposa. Alguém suspeitou que Beatriz era uma simples artista, embora possuísse uma voz maravilhosa e isso se soubesse também.

Soube-se, finalmente, que Roger Novack a havia cortejado. O rei de Wichita não podia aceitar semelhante insulto. Era desafiar a sua honra, ridicularizá-lo... Era feri-lo porque ele amava Beatriz. Era ofendê-lo porque ele era rei. Roubar a noiva a um homem era um claro desafio.

Michael Erdman era valente e hábil com as armas... Mas Roger Novack havia demonstrado uma habilidade portentosa e era de supor que estava acostumado a tais lutas. Talvez tivesse dedicado toda a sua vida a isso, enquanto Erdman aprendia a conduzir gado e a domar cavalos.

domingo, 30 de outubro de 2022

BRV014.07 Dissertação sobre os prazeres da pradaria


A sala de jantar do hotel, que também era restaurante público, era uma sala agradável onde havia umas quinze mesas servidas por duas raparigas louras que se viam e desejavam para atender todos os clientes, conseguindo, mercê da sua eficiência, dar por vezes a impressão de que seis raparigas absolutamente iguais serviam em mesas diferentes.

— A menina que toma? — perguntou uma delas inclinando-se diante de Beatriz.

— Qualquer coisa, tenho bastante apetite e tudo me agradará. Especialidade da casa... se tem alguma especialidade.

A rapariga afastou-se com um suave frufru do seu vestido comprido e Beatriz dirigiu um olhar aborrecido ao resto dos comensais.

sábado, 29 de outubro de 2022

BRV014.06 O primeiro beijo de Beatriz… em Wichita



O «Starlight Saloon» era, como Beatriz supunha, de escassas dimensões e humildes intenções. Ainda assim, por ser o mais antigo de Wichita e por estar no Oeste, podia considerar-se como um local de luxo onde nem toda a gente podia entrar.

Ali iam os homens mais ou menos importantes, fazendeiros, agricultores, granjeiros, caçadores, comerciantes e algum mineiro que naturalmente, houvesse feito fortuna. Um letreiro na própria porta e outro no balcão, colado um grande espelho diziam: «Proibido usar armas» e, pelos vistos, parecia que todos obedeciam, pois nem só um dos homens que estavam no estabelecimento tinha arma e, à entrada, numa espécie de bengaleiro, alinhava-se quase meia centena de cinturões-cartucheiras com as suas mortíferas cargas. O ar não estava ainda muito carregado pois era cedo e, embora houvesse muita gente, não se gritava.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

BRV014.05 Duelo à moda do Oeste traz anjo da guarda ao cavaleiro de negro


Beatriz Block despertou quando o dia já ia alto. Não tinha relógio e, pela altura do sol, calculou que passava das dez da manhã.

Saltou da cama e vestiu um roupão de seda azul e aproximou-se da janela, afastou a cortina e deu uma olhadela à rua. Estava absolutamente solitária, como quando chegara.

Havia dormido mais de doze horas e por isso não se tinha informado sobre o quer que fosse que tornava tão solitária a famosa Main Street de Wichita. Agora o sol havia pousado sobre o tecto azul da cidade e envolvia-a no seu manto de fogo, obrigando as pessoas a refugiarem-se em casa esperando a noite, única altura em que, embora se respirasse um ar quente, pelo menos não se introduzia nos pulmões fogo puro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

BRV014.04 Encontro romântico e armadilhado com o homem de negro


Archibald Carr estava sentado a uma mesa situada a um canto dos mais escuros do «saloon». Os seus dedos brincavam nervosamente com o copo por onde se servia de uísque de dois em dois minutos, aproximadamente. Quem o estivesse a observar teria pensado que esperava impacientemente que decorresse aquele espaço de tempo para o poder encher e beber com a mesma ansiedade de sempre. Contudo, não era isso que ele esperava. Dois jovens aproximaram-se da sua mesa e sentaram-se após um breve cumprimento.

— Porque nos mandaste chamar, Carr?

— Roger Novack regressou. Sabiam?

— Toda a gente sabe em Wichita.

— Temos de o matar — murmurou Carr, deitando bebida no copo e bebendo-a de um trago. — Vem por causa de minha irmã, outra vez.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

BRV014.03 Viagem para Oeste e encontro com um cavaleiro de negro


O comboio avançava lastimosamente, soprando, ou melhor resfolegando. A subida não era muito íngreme nem o peso muito excessivo; contudo, ameaçava parar, incapaz de manter o esforço que vinha realizando desde há três dias.

Assomada à janela, desejando sentir no rosto a carícia do ar, mas recebendo apenas lategadas de sal, Beatriz Block orava para que a máquina não parasse.

A paisagem era desoladora e tornava difícil imaginar a tragédia com um mínimo de filosofia. A paisagem resumia-se à extensa pradaria limitada pelo azul do céu no horizonte; a pradaria, a Leste limitada pelo próprio horizonte; deserto o Sul e desconhecido o Norte.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

BRV014.02 O marido traído morre ao limpar a sua honra


O ginete desmontou lentamente do cavalo junto das arcadas que rodeavam o pátio do pequeno convento, banhado profundamente pela luz da lua. As coronhas de nácar dos seus revólveres e as partes metálicas lançaram reflexos acerados que chegaram a relampejar nas paredes brancas cheias de sombras.

Vestia completamente de negro, roupas caras e sedosas; e lenço que lhe rodeava o pescoço era também negro, tal como o chapéu de abas largas. Negras eram as luvas que trazia e negras as botas brilhantes com esporas de prata.

Com um gesto atou as rédeas do cavalo num poste de madeira e, inclinando para cima a aba do chapéu, olhou lentamente à sua volta. Apoiou a mão direita na coronha branca do revólver e começou a andar procurando fazer o menor ruído possível.

O cavalo quis segui-lo, mas, ao sentir as rédeas presas, parou conformando-se, mas soltou um ruidoso relincho que fez sorrir o homem mostrando, à luz da lua, uma dentadura extraordinariamente branca, perfeita.

— Está quieto e cala-te, «Quick». Vais acordar os reverendos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

BRV014.01 Uma mulher quer partir para o Oeste



Beatriz Block libertou-se do ébrio que tentava abraçá-la e afastou-se do balcão. Parou, sem dar por isso e sem qualquer intenção definida, junto de uma mesa onde se jogava póquer.

As paradas eram baixas e por isso, sobre a mesa, havia pouco dinheiro embora, à volta dela, houvesse muitos jogadores. Dos feitos nunca passavam de três a um mesmo jogo e nunca faziam «blufs».

Um dos jogadores — que perdia desde que Beatriz observava o jogo — quis fazê-la afastar-se usando maus modos, mas a rapariga continuou ali recalcitrantemente. Os ânimos sossegaram e tudo voltou à normalidade.

Afastou-se por fim aborrecida, por entre as cadeiras, olhando provocantemente para os clientes do Starling Night Club que, na realidade, não prestavam demasiada atenção à sua formosura. Agitou preguiçosamente o ar com o seu leque de plumas e voltou para junto do balcão, aproveitando o facto de o ébrio lá não estar.

domingo, 23 de outubro de 2022

BRV014.00 Uma fórmula para nos livrarmos de «Veneno no sangue»

A jovem Beatriz estava farta duma vida de tédio a ser assediada por ébrios num bar de Columbia e decidiu partir para Oeste, terra de homens bravos, galanteadores e aventureiros. Mal sabia que iria encontrar-se com um indivíduo, um cavaleiro todo vestido de negro, que não hesitava em atirar-se a qualquer rabo de saia e enfrentar os seus maridos se estes tentassem defender a sua honra.

Mas o seu destino iria também cruzar-se com o de um rico rancheiro a quem a sua voz e o seu canto encantaram num dia em que fez uma visita ao bar de Wichita. Em pouco tempo, o rancheiro Erdman desfez-se em amabilidades com ela e acabou por lhe propor casamento.

Mais uma vez, o destino levou-a a encontrar-se com o cavaleiro de negro e a traição ensombrou de novo a sua vida. Parecia que transportava «Veneno no sangue»… Será que algo iria fazer com que alguma vez se livrasse desse estigma?

Este é talvez o melhor livro de Fred Dennis, um livro que vale a pena ler apesar do tom jocoso com que por vezes nos brinda nas palavras proferidas pelo «cavaleiro de negro». Por esse motivo, vamos publicá-lo a partir dos próximos dias.