segunda-feira, 29 de julho de 2019

FBV035.03 Como se fosse um ladrão

Quinze dias mais tarde, Evans já se pôde levantar, e disse para Bolton:
— Quando me feriram, mataram, também, o meu cavalo. Tive de andar muito tempo, antes que encontrasse esta cabana. Quer dizer-me onde poderei comprar um animal?
— Irei a Turner e comprar-lhe-ei um cavalo—respondeu Bolton —. Hoje mesmo o farei.
— Avô!
A paixão que Sigrid pôs nesta palavra surpreendeu os dois homens.
— Creio que Larry não deve partir tão cedo — continuou ela —. Não pode ainda montar. Compra o cavalo, se o desejas, mas não consentirei que nos abandone, sem que passe mais alguns dias...Não o fará, não é verdade, Larry?
Clark Evans tardou uns momentos a responder, e quando o fez foi com os olhos fixos no rosto inexpressivo de Bolton.
— Não, Sigrid, não o farei, por agora. Antes preciso de consultar-me a mim próprio, sobre algo de que necessito saber a verdade.
Deu meia volta e afastou-se lentamente, sem nada mais pronunciar, nem explicar o que queriam dizer as suas estranhas palavras. Por sua vez, Bolton selou o cavalo, montou, e seguiu para Turner, donde voltou ao anoitecer, com um cavalo pela rédea. A neta viu-o chegar e Bolton perguntou-lhe:
— E Larry, Sigrid?
— Saiu logo a seguir ao avô, e ainda não voltou.
— Prepara alguma coisa de comer e não te preocupes. Regressará mais tarde.


Pouco depois, chegava Evans, e os olhos dela brilharam de modo especial.
— Estávamos falando de si, Larry.
Ele não respondeu, mas Bolton não se deixou enganar. Agora estava seguro de que aquele pistoleiro o vinha perseguindo, desde tempos atrás, para arrebatar-lhe a vida. Mas, ainda que sabendo tudo isto, Bolton, jamais levantaria a sua arma contra ele...
Comeram todos em silêncio, após o que se deitaram.
A partir de então, começando pela manhã do dia seguinte, Evans trabalhou na horta e, quando se tratava de caçar com armadilha "Era como um mais, em família".
Precisou de um mês para tomar uma decisão. Trinta dias, durante os quais procurou afastar Sigrid, quanto podia, até que, naquela manhã, procurou Bolton, que trabalhava na horta, enquanto, no bosque, as armadilhas; bem ensebadas, aguardavam as presas.
Ao ouvir os seus passos, Bolton largou a pequena enxada e ergueu-se em toda a sua estatura. Sem saber como nem por quê, ao olhar para o rosto de Evans, Bolton compreendeu que se acercava o momento crucial. Finalmente, este perguntou:
— Onde está Sigrid?
Bolton surpreendeu-se com a pergunta, que não esperava de modo algum.
— Foi a Turner, comprar provisões. Vai lá uma vez por mês. E o único contacto que lhe p e r -mito com a povoação. Porquê?
Evans hesitou em responder, concretamente. Sabia, com absoluta certeza, quem era o homem que tinha na sua frente, e o que este esperava que ocorresse. Era... algo como que brincar ao gato e ao rato, e Bolton era o rato... Sentiu tentação de rir, mas reprimiu-se.
— Ainda bem que Sigrid não está aqui. Desejo falar consigo, Bolton, sem testemunhas.
Bolton empalideceu.
— Pode fazê-lo, tranquilamente, Larry. Penso que a sua conversa se relacionará com Sigrid, não é verdade?
— Só em parte. — Fez-se uma pausa e Evans continuou: — A primeira coisa, é que me vou embora. Compreende?
Uma multidão de pensamentos cruzou a sua mente, em poucos segundos, até que respondeu, perguntando algo contrário ao que desejava dizer:
— Trata-se de Sigrid, Larry?
— Sim, efetivamente, trata-se de Sigrid.
— Quere-a, não? — perguntou num tom de voz suave, sem olhá-lo. — Que pensa fazer?
— Ir-me embora. — As suas palavras pareciam gelo.
— Já o disse a Sigrid?
— Não, nem nunca o farei. Não devo nem posso —. Fez uma pausa e acrescentou: — Você sabe quem eu sou, não é verdade?
Bolton desviou os olhos e tardou pouco a responder.
— Sim, creio que sim, Larry — disse com marcada intenção... — Você... você é Clark Evans, um pistoleiro do Texas.
— Como o adivinhou?
— Vi-o uma vez...
Aquilo podia ser ou não verdade. Evans hesitou, de novo, até que, finalmente, rompeu o silêncio com uma pergunta:
— Compreende porque não posso, Bolton?
Este sorriu, amargamente:
— Não sou eu quem deve dizê-lo, mas sim ela, não é verdade?
Evans olhou para o velho, momentaneamente desconcertado, até que julgou compreender. Mas limitou-se a perguntar:
— Permitiria que ela fosse minha esposa, Bolton?
— Porque não, Evans, se ela o amasse? Eu só desejo a sua felicidade. Não compreende? Repito: que pensa fazer, Evans?
— Ir-me embora esta noite.
Ao entardecer, os dois homens continuavam a trabalhar na horta, mas Evans não deixara, frequentemente, de olhar para o caminho que conduzia à cabana, até que não se conteve que dissesse:
— Sigrid está tardando muito.
Bolton apurou o ouvido e disse:
— Ela aí vem.
Pouco depois viram, numa curva do caminho, a carrinha das mulas. Momentos após, estava junto deles.
— Foi horrível, avô — disse repentinamente, olhando para Evans. — Quando estava no armazém, entraram dois pistoleiros. Perguntaram se tinha por ali passado um tal Clark Evans. Recordas esse nome, avô? Tu e eu temo-lo ouvido nomear muitas vezes, não verdade?
Nem um só músculo da face de Bolton se moveu. Não respondeu. Esperava a continuação da história se assim se lhe podia chamar. Entretanto, sem tirar os olhos do semblante de Evans, Sigrid continuou:
— Ninguém o tinha visto em Turner. Quando eles saíram, perguntei a Pobl quem eram e ele disse-me que tinham chegado a Turner há cinco dias e que, nesse período, já tinham assassinado três rancheiros, dentro do "saloon". Atemorizaram parte da população e agora procuram Evans para matá-lo, também.
Foi então que Evans se voltou para ela demonstrando a maior indiferença pelo que estavam dizendo.
— Você não diz nada, Larry? — perguntou Sigrid, enfrentando-o com os olhos mais brilhantes, formosos e... mais inquietos também, que ele jamais vira.
— Eu? — inquiriu, procurando demonstrar uma estranheza, que estava longe de sentir — Crê que me ocupa o que se passa em Turner, Sigrid?
Ela aproximou-se dele.
— Pensei que podia interessá-lo. Por isso lhe dei a notícia.
— A mim...? Por que razão?
— Oh! Por favor... Faça qualquer coisa, Clark. Porque você é Clark Evans, não é verdade?
Evans voltou-se e foi até à janela, pensando que tudo estava descoberto, mas que, daquela forma, tudo iria ser mais fácil, a partir daquele momento.  Sem a olhar, perguntou:
— Quando o soube, Sigrid?
Ela não hesitou.
— Agora, Clark. Neste preciso momento. Não me pergunte como, porque não o sei —. Calou-se por uns segundos e, por fim, perguntou, angustiada: — Que vai fazer?
Evans voltou-se, enfrentando-a.
— Confesso que ainda não sei, Sigrid.
E, dando a entender que não desejava mais falar daquilo, deu meia volta e abandonou a cabana.
Quando voltou, Sigrid e Bolton já se tinham deitado. Recolheu o pouco que tinha, silenciosamente, como se fora um ladrão, abandonou a cabana e foi selar o cavalo.

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