terça-feira, 6 de setembro de 2016

PAS672. Um «Ianque» que regressa ao Sul

Sem saber que fazer, aproximou-se dos jogadores de dados. Uns instantes depois estava absorvida pela partida. Cinco minutos mais tarde a figura dum homem recortou-se no umbral da porta e percorreu com o olhar gelado, como a folha duma navalha, as mesas de jogo. Depois avançou lentamente para onde vira a mulher. No centro da sala, porém, como se pensasse outra coisa, o desconhecido voltou-se, encaminhando-se para o balcão. A sua voz soou fria como a expressão dos seus olhos:
— «Whisky» — pediu.
O «barman» estava assombrado. Não vira aquele passageiro durante toda a viagem. Quem seria?
Enquanto lhe servia o que pedira, não deixou de observá-lo, disfarçadamente. O seu aspeto definia-o como o clássico pistoleiro ido Oeste.
Cobrindo-lhe o peito de titã, trazia uma espécie de samarra de couro. Na delgada cintura, um duplo cinturão-cartucheira repleto de balas «45». Nos coldres, colocados muito baixos, presos às coxas por delgadas e entrançados correias, assomavam as nacaradas coronhas de dois «familiares» do coronel Colt.
As calças, azuis, justas, voltadas em baixo, cobriam as botas texanas de salto alto. As esporas eram de prata, de grandes rosetas. O chapéu que trazia na cabeça, de cabelo louro e ondulado, era o clássico entre os jogadores ou batoteiros. A sua altura oscilava entre um metro e setenta, e um metro e oitenta e a idade entre vinte e oito e trinta anos. Sob as abas do chapéu via-se urna fronte alta, e espessas sobrancelhas sobre uns olhos cinzentos de brilho sem igual. Em toda a sua atitude havia uma segurança assombrosa, embora a indumentária destoasse fortemente da dos elegantes e encasacados cavalheiros.
— Já me examinou bastante?
O «barman» sobressaltou-se. Julgava ter dissimulado bem a sua observação, e afinal o desconhecido dera por isso. Não respondeu à pergunta. À cautela, voltou-se para a armação, demonstrando que se ocupava em atender outro dos clientes do balcão, os quais não perdiam de vista o para eles grosseiro desconhecido.
O recém-chegado não insistiu na pergunta. Limitou-se a beber lentamente o seu «whisky», segundo parecia com verdadeiro deleite. Depois deixou um dólar sobre o balcão.
— Guarde o troco. Eu pago sempre a curiosidade das pessoas.
Sem acrescentar uma única palavra, deu meia volta e encaminhou-se diretamente para a mesa na qual vira a mulher. Colocou-se atrás dela, observando a sua graciosa figura. O sete era o ponto com o qual jogava a casa. Admirou a mestria da mulher ao lançar os dados. Pensou, por um momento, se estariam viciados. Sorriu. Muitos dos presentes voltaram-se para ele. Viu de soslaio algumas caras que o fitavam, com curiosidade primeiro e com assombro depois.
Sorriu novamente ao supor o que pensavam. «O Ianque» voltava. Mas desta vez o seu sorriso não aflorou à superfície.

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