sexta-feira, 15 de março de 2019

COL024.07 Comoção em Virgínia City / A chegada da artista

A cidade ia esquecendo a guerra. Um ano era muito tempo na fronteira, um tempo que se perdia no esquecimento quando cada dia surgiam novos problemas.
Apenas alguns grupos de veteranos se reuniam de vez em quando para relembrar as sangrentas batalhas em que tinham participado. A causa da riqueza e os diversos acidentes daquele ano, a cidade tinha crescido e tinha já diligência direta com Carson City, a capital do Estado.
Isto dava-lhe uma grande sensação de importância, e cedo outras linhas de diligências enlaçá-la-iam com diversas povoações do interior. A casa de postas constituía, como em todas as terras do Oeste, um centro de reunião a certas horas de certos dias, quando o veículo chegava da capital.
Os forasteiros e aqueles que não tinham trabalho agrupavam-se ali para esperar a diligência, que bem poderia oferecer-lhes alguma surpresa. Além disso, os condutores sabiam qualquer coisa de interesse geral.
Naquela manhã, os desocupados aproximaram-se ao ver avançar o veículo aos tombos pela estrada cheia de pó. Esperaram que parasse e contemplaram o coche.
De repente um murmúrio de assombro estendeu-se por entre o público, e os detrás empurraram os da frente para se aproximarem ainda mais.


No interior da diligência encontrava-se uma formosíssima rapariga que se dispunha a descer. Aquele que estava mais próximo abriu a porta para ajudá-la, mas a desconhecida, com um encantador sorriso, inclinou a cabeça a modo de cumprimento e apoiou a sombrinha na cara. Depois, recolhendo ligeiramente a saia, desceu da carruagem e dispôs-se a seguir para a frente.
Era mais alta do que média, fina cintura e suave silhueta feminina. Vestia um vestido de viagem, fechado até ao pescoço, e luvas que lhe ocultavam as mãos. Deveria ter à roda de vinte anos, e tanto a sua figura como as suas roupas e o seu modo de andar revelavam a mulher do mundo, distinta e acostumada a relacionar-se com pessoas de importância.
O cabelo, muito louro e sedoso, cobria-o com um chapéu cujo véu lhe ocultava ligeiramente o semblante, de rasgos finos, delicados, e ao mesmo tempo cheios de vida. O mais atraente era o seu sorriso aberto, que deixava a descoberto a sua franca dentadura. Destacavam-se os seus olhos grandes, rasgados, que longas pestanas velavam um pouco.
Continuou o seu caminho em direção do saloon de «Hanrahan's», que então se chamava Leroy. O condutor tinha advertido os curiosos que rodeavam o carro:
— Acho que se trata duma artista.
Todos, ainda que a distância respeitável, dispuseram--se a segui-la, dizendo para si próprios que nenhum ia faltar ao dia da estreia da rapariga. De repente os primeiros estacaram. A desconhecida dirigia-se para a porta do saloon de Leroy e entrava. Era melhor não a molestar, tendo em conta a pessoa que naquela tarde ou aquela noite poderiam aplaudir no palco. A jovem deteve-se no interior do local e olhou em redor de si. Os clientes que se encontravam no mostrador viraram-se por sua vez muito surpreendidos, perguntando-se que espécie de mulher poderia ser aquela. Um empregado aproximou-se:
—Em que posso servi-la, menina?
Ela Sorriu.
—Desejaria ver o senhor Leroy.
O criado fez um sinal.
— Venha comigo.
Guiou-a através de todo o local, até um quarto que estava fechado. Bateu com as mãos e entrou. Pouco depois abriu de novo a porta para permitir a entrada da desconhecida. Palmer pôs-se em pé, inclinando-se amavelmente.
—Faça o favor de dizer aquilo em que a posso servir, menina.
Ela examinou-o com atenção. Sorriu comprazida e ao mesmo tempo divertida. Levantou o véu e exclamou:
—Pelos vistos é o senhor quem precisa de mim.
Leroy arqueou as sobrancelhas num gesto interrogativo.
—Não me atreveria a exigir nada de você, menina. Mas talvez possa explicar-me o sentido da sua frase. —Fez uma pausa, mas antes que ela falasse juntou: —Desculpe-me. Queira sentar-se.
A jovem obedeceu e depois disse:
—Talvez fique tudo aclarado quando lhe disser que me chamo Belinda!
Palmer mexeu a cabeça.
— Compreendo, compreendo. A grande artista Belinda. Na realidade sou eu quem precisa dos seus serviços, e fico-lhe muito grato de que tenha abandonado o seu público elegante de Nova Orleãs, de Boston e de Nova Iorque para vir a Virgínia City.
— Decidi fazer uma viagem pelo Oeste, e pareceu-me interessante conhecer Virgínia City além de São Francisco e de Santa Fé.
Palmer sorriu.
— Vou ser o mais sincero possível. Quando soube que a senhora estava na costa e pedi ao seu empresário que a convencesse a vir até aqui, imaginei que isso não ia ser possível. Nunca acreditei que a menina decidisse a vir a estas terras.
Belinda, sem deixar de examinar com atenção o proprietário do local, continuou:
—Estas terras também são interessantes.
Palmer perguntou de repente:
—Já tem alojamento? Não, nem tão-pouco a equipagem. Adiantei-me dois dias às minhas malas e ao meu pianista. Mas não podia aguardar mais. Desejava conhecer Virgínia City.
— Farei com que a instalem no melhor hotel da cidade. Quanto ao seu pianista e às suas malas, desconfio que demorarão ainda uns dois ou três dias. Infelizmente, o serviço de diligências não é tão frequente como desejaríamos. Imagino que aqueles que a viram sentir-se-ão muito defraudados ao verificar que não podem aplaudi-la esta mesma noite.
— Por isso não se preocupe — disse a rapariga. — Falarei com os músicos de cá e arranjar-me-ei. Parte da minha equipagem estará, desde logo, na casa de postas.
Palmer contemplou-a e exclamou de repente:
— Ignoro as circunstâncias, mas tenho a certeza que já a vi noutra ocasião.
Belinda enterneceu os olhos.
—É possível. Trabalhei em muitas partes, sobretudo em Nova Orleãs. E o senhor é crioulo. O seu acento e o seu aspeto denunciam-no.
— Há muito tempo que saí de lá, e não me lembro de tê-la aplaudido nunca. E tenho a certeza de que isso não poderia tê-lo esquecido.
— Talvez noutro lugar.
Quando Palmer regressou ao seu escritório, McPherson estava à espera dele.
— Quem era essa garota?
Leroy sorriu.
—Pelos vistos, já não há possibilidades de ocultar a sua existência. Em Virgínia City devem estar todos muito interessados por ela.
— Assim é. Imaginaram que tu tinhas algum interesse especial quando a acompanhavas à rua.
—É a nossa nova artista: Belinda—correspondeu Leroy.
McPherson arqueou as sobrancelhas.
— Conseguiste que aceitasse o contrato? — sorriu ao assentir o outro. — Estupendo. Será um bom negócio.
— Isso espero. É uma mulher única.
McPherson continuou então:
— Acabo de saber uma coisa muito importante — fez uma pausa e disse: — Darnell voltou.
Palmer olhou-o surpreendido.
— E o que é que isso nos pode importar a nós?
— Não te sintas tão seguro. Reuniu dinheiro e vem com alguns amigos. Darnell não é daqueles que se deixam esquecer com facilidade, nem tão-pouco daqueles que esquecem.
— Eu venci-o limpamente.
—Mas venceste-o e fizeste com que abandonasse a cidade, coisa de que ele não deve ter gostado muito. Odeia-te desde então.
— Ainda que assim seja, estou preparado para recebê-lo. Acho que a minha posição é muito diferente agora. O nosso saloon é importante, e eu estou em boas relações com Baldwin. Por outro lado, gozo de estima entre a gente de Virgínia City, e ia-lhe ser muito difícil enfrentar-se comigo.
—Pode desafiar-te.
— Não o fará. Sabe que eu sou o mais rápido. Pode preparar-te uma armadilha.
Leroy assentiu.
— Isso é mais fácil. E terei cuidado. Não temas.
McPherson sorriu.
— Há um ano que chegámos a esta cidade, com pouco dinheiro, fugitivos. Ascendemos, graças a ele. Pensas ficar nesta cidade para sempre?
—Talvez, mas gostaria de voltar a Nova Orleãs. E voltarei lá algum dia.

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