segunda-feira, 11 de março de 2019

COL024.03 Um homem importante

Virgínia City não tinha perdido com a guerra civil. Pelo contrário, parecia que tinha adquirido maior riqueza. Então, finda a campanha, com os caminhos abertos aos correios, um núcleo muito maior de emigrantes se lançaria sobre as minas de prata.
Um grande número de antigos soldados de ambos os bandos acudiam à cidade enquanto mudavam o uniforme pelas roupas civis. E alguns nem sequer tinha podido desprender-se por completo dos uniformes militares.
Assim, viam-se mineiros com chapéus cinzentos, outros com capas azuis, alguns com altas botas de montar, e cavaleiros com calças do exército dos Estados Unidos do Norte.
A maior parte tinha ainda no cinto o emblema da sua unidade, do qual pendia o revólver.
Cidade rica, cheia de surpresas e de mudanças de fortuna, tinha um número extraordinário de bares que permitiam aos mineiros gastar os seus ganhos em troca duma boa diversão.
Ninguém prestou demasiada atenção aos dois cavaleiros que entraram em Virgínia City naquela noite, avançando ao passo das suas montadas. E verdade que pareciam cansados e que tanto os cavalos como a roupa dos viajantes vinham cobertas de pó, mas isso não constituía nenhuma novidade. Pelo contrário, cada dia chegavam homens como eles.
As suas roupas não ofereciam tão-pouco nada de particular, com a exceção de que não usavam uma única prenda militar.


E ambos iam bem armados.
Continuaram para a frente, e de repente um deles perguntou em tom inquieto:
— Achas que esta cidade resultará segura para nós, Leroy?
— Tão segura como outra qualquer, mas devemos arriscar-nos — respondeu o aludido.
Palmer Leroy, com mais cinco anos, avançava através das populosas ruas de Virgínia City, entre a nuvem de veteranos dos exércitos, de mineiros, de aventureiros, emigrantes de todos os países do mundo, soldados, exploradores, índios e trabalhadores chineses.
As suas roupas eram como as de um emigrante qualquer e o seu cavalo não teria enobrecido ninguém. Mas conservava a sua presença, o seu sorriso audaz e a sua expressão de desafio. Tão-pouco tinha perdido o seu ar suave e a sua voz educada.
O seu companheiro, que aparentava a mesma idade que ele, era um homem alto, corpulento e duro, mas de olhar de esperto e inteligente e ar decidido.
Chamava-se Boyd McPherson, e na guerra, na qual foi oficial, demonstrou as suas qualidades de combatente às ordens de Leroy.
Detiveram-se em frente dum dos hotéis e desceram da sela. McPherson contemplou o edifício e depois comentou:
— Não será caro demais?
—Não; é precisamente aquilo que necessitamos. O melhor da cidade. Assim pensarão que somos ricos.
Fez um aceno para o criado negro, que ostentava com orgulho o quépi unionista, e entrou no edifício, fazendo soar as esporas. McPherson, pouco seguro de si mesmo, seguiu-o olhando para ambos os lados.
A clientela estava composta pelo mais seleto da povoação. Mineiros enriquecidos e proprietários de jazigos, negociantes acomodados e comerciantes estabelecidos em Virgínia City. As suas levitas e os seus chapéus altos contrastavam com as roupas campestres dos dois amigos.
Palmer, lentamente, de modo que todos pudessem reparar que estava lá, aproximou-se do «comptoir» e solicitou, no tom de quem está acostumado a que lhe obedeçam:
—Dois quartos, por favor.
O empregado olhou-os, algo inquieto. Embora suspeitasse que não pudessem pagar, resultava um tanto difícil dizê-lo assim àquele tipo de clientes. Costumavam responder aos tiros.
— Se tem medo que não paguemos — disse Leroy, —engana-se. Aqui tem o aluguer dum mês.
O encarregado, mais tranquilo, apressou-se a dizer:
— Por favor, acreditamos na honorabilidade dos nossos clientes. Tenho aquilo que precisam. Já os acompanharão.
Naquele momento entrou no hotel um rico mineiro, orgulhoso de si mesmo, seguido de três pistoleiros que o custodiavam. Avançou sem ligar importância a ninguém, desdenhando a toda a gente. Palmer ouviu que alguém dizia com reverência: Kain Baldwin. De repente, um dos pistoleiros estacou e contemplou o jovem com expressão furiosa.
—Viva, viva; cá estamos os dois um frente ao outro. Esperei anos para poder vingar-me.
MaPherson estremeceu, temendo que se tratasse daquilo que suspeitava que podia custar-lhes caro. Leroy, sem alterar-se, examinou o outro da cabeça aos pés e respondeu:
— Não o conheço, amigo. Continue o seu caminho e fica perdoado. E fácil enganar-se.
— Não me enganei. Tenho a sua cara gravada no coração e na memória, e não duvido de quem é você. Passei anos esperando para poder dizer-lhe que...
—Um momento — interrompeu Palmer. — Não diga nada de que depois se possa arrepender.
O pistoleiro ergueu-se furioso.
— Quem julga você que é? Não lhe vou tolerar esses modos.
—Nem eu tão-pouco — respondeu Palmer. — Cale-se e peça perdão, ou responda daquilo que disse.
O pistoleiro sorriu, triunfalmente.
—Você o disse. Vou responder daquilo que acabo de dizer: da única maneira que conhecemos os homens da fronteira.
McPherson observava, entretanto, atentamente os guarda-costas de Baldwin, temendo que interviessem na luta. Por uns instantes acreditou que ia ser assim, visto que dois deles mostraram intenção de se adiantarem, mas Kain deteve-os com um aceno, para permitir que a luta se desenvolvesse sem a intervenção dos outros.
O pistoleiro encolheu-se sobre si mesmo, aproximando a mão da coronha do revólver. Um sorriso cruel brilhava no seu rosto, como a certeza de que cedo ia vingar a sede que durante tanto tempo tinha guardado.
Palmer permanecia inalterável, com as mãos caídas junto do corpo, esperando o ataque daquele homem. E de repente este empunhou o revólver e apontou para o seu inimigo, certo do seu triunfo. Porém, para surpresa de todos, ressoou um disparo e o pistoleiro caiu no chão sem vida. Palmer soprou o cano da arma e depois tornou a enfiá-lo no coldre, sem ligar ao caso maior importância.
— Acho que, ao estilo da fronteira, já solucionámos o assunto. — Fez uma pausa e depois perguntou amavelmente: — Há alguém que tenha qualquer coisa a opor?
McPherson não se mexeu, decidido a cobri-lo se alguém intentasse um ataque de surpresa. Naquele instante Kain avançou em direção ao jovem, sorrindo amistosamente.
— Amigo, foi uma magnífica exibição de pontaria e de habilidade com o revólver. Posso conhecer o seu nome?
Não é aconselhável no Oeste fazer uma pergunta como esta de um modo tão direto, pois apesar dos guarda-costas o jovem era digno de ser tido em conta.
— Chamo-me Palmer Leroy. Com quem tenho a honra de falar?
Baldwin sorriu, ao mesmo tempo que movia a cabeça.
—Esta maneira de se expressar é aquilo que mais graça me faz. Chamo-me Kain Baldwin. Todo o mundo me conhece. Sou proprietário dumas minas. Não se ofenda pela pergunta, mas vem também à procura de prata?
O jovem, seguro já do terreno que pisava, puxou um charuto do bolso da camisa, acendeu-o ao tempo que explicava, com ar repousado:
—Vim tentar fortuna. Não tenho ainda projetos concretos, mas acredito que esta cidade oferece grandes possibilidades àqueles que estão dispostos a lutar e se esforçar.
—Assim é—reconheceu Baldwin. Fez uma pausa e continuou, tentando imitar o tom do seu interlocutor: — Teria muito prazer que jantasse comigo, se me quer dar essa honra.
— Será um prazer, mas eu vim com um amigo.
— Que venha ele também. Esta é uma cidade acolhedora.
— Então, vamos limpar-nos do pó do caminho e estaremos com o senhor dentro duns minutos.
Quando subiam para os seus quartos, cujas chaves lhes tinham sido entregues, pelo assustado empregado, os dois amigos sorriam com alívio.
— Parece que entrámos com bom pé — disse McPherson.
—Já te disse que em Virgínia City íamos encontrar a nossa boa estrela. Isto não é mais do que o começo.
McPherson assentiu. De repente, quis saber:
— Ouve, que é que tinha aquele tipo e quem era?
--Não te lembras dele? Chamava-se Hobbs. Esteve connosco e tivemos de expulsá-lo por ladrão.
— Sim, agora me lembro. Era um mau tipo, mas teria sido grave, tal como estão os ânimos, que explicasse quem somos nós.
Leroy sorriu.
— Isso mesmo opinei eu também. 

*

Baldwin riu estrepitosamente.
—A verdade, que me enforquem se nunca tinha acreditado que se podia encontrar um homem que falasse como você e que mexesse tão bem o revólver. Mas agrada-me.
McPherson contemplava os guarda-costas, que eram perigosos. Leroy, sem se alterar, comentou:
— O modo de mexer na pistola é qualquer coisa que está relacionado com o valor espiritual do homem. Não com o seu modo de falar.
Kai indagou então:
— De onde vem, Leroy?
— De Nova Orleãs.
— E você, McPherson?
— De Kentucky.
Kain fez uma pausa, enquanto sorria.
—Sulistas, hem? — Antes de que os dois jovens pudessem responder, o mineiro prosseguiu: — Enfim, a guerra acabou e devemos esquecer o passado. Pensemos no futuro.
Leroy concordou.
— Isso é aquilo que pensei eu desde o momento em que soube do acontecido em Appomattox. Quando voltei a Nova Orleãs e vi que nada restava lá do meu antigo mundo, decidi emigrar para o Oeste. Uma vida nova, numa terra nova.
—Sim; compreendo que para vocês a derrota haja significado muito. É o fim de todo o mundo. Nova Orleãs não será mais a cidade que você tinha conhecido.
McPherson conteve um sorriso, mas Leroy respondeu em desafio:
—Isso mesmo.
— Bem; pois aqui têm vocês uma nova cidade que lhes abre as portas, e da qual eu me orgulho a ser o primeiro a estender a mão e desejar boa sorte.
Mais tarde, antes de se retirarem a descansar, McPherson perguntou ao seu amigo.
— Que pretendia Baldwin com a sua conversa?
Leroy sorriu.
— Realmente reparaste também que efetivamente pretendia converter-nos em seus aliados?
O outro encolheu os ombros.
— Corri já muito mundo e acho que conheço a gente. Mas o que pretende... Não acho que lhe interessem os nossos revólveres. Os seus guarda-costas bastam-lhe para eliminar qualquer inimigo.
Palmer negou com a cabeça.
—Talvez nem sequer ele próprio o saiba. Mas pretende ter-nos como aliados, para quando se apresente a ocasião. E se realmente chegar, querer-se-á aproveitar da nossa amizade. Mas nós somos jogadores independentes.

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