terça-feira, 15 de novembro de 2016

CLF074. CAP VI. Primeiro embate com índios selvagens

Sem gastar palavras, o tenente Semple fez uma rápida descrição das coisas a Duncan, e conduziu-o até à parte superior do acampamento. Enquanto o cruzava notou que o posto, ainda que pitoresco, tinha um ar pouco militar, com as suas tendas distribuídas caprichosamente e o solo cheio de utensílios e armas.
Seguindo o tenente entrou numa tenda um pouco maior que as demais. No seu interior, em frente de uma rústica mesa, estava sentado um homem excessivamente magro, de rosto chupado e coberto por uma barba ríspida e enegrecida; os seus olhos eram cinzem-tos de um tom pouco comum, mas de certa maneira cautelosos.
-- Capitão Henely — disse Semple — aqui tem Rudger.
Durante um instante o olhar do capitão pousou em Duncan com certa expressão de resignação, como se a chegada do novo explorador fosse um peso.
— O tenente Semple já me falou de você. Porque se alistou nos exploradores?
Duncan precisou de uns momentos para dominar a sua irritação. Não estava acostumado a que o tratassem daquele modo, e evidentemente era injusto que o julgasse arbitrariamente um sujeito que não sabia nada dele.
— Digamos que necessitava da hospitalidade e simpatia com que me acolheram para levantar o meu descaído espírito — respondeu desabrido.
O capitão não se alterou.
— O peculiar sentido de humor de cada um não é bastante para ser digno de ingressa] neste corpo, senhor — manifestou-se friamente.
— Não o duvido. E evidentemente não sãs tão pouco qualidades indispensáveis a educação e a cortesia. Já notei isso, «monsieur».
Henely pareceu passar por alto a observação sem o mais ligeiro franzir de sobrancelhas.
— «Monsieur»... desde este momento em diante, Rudger, deixará de chamar-me «mon sieur». Você forma parte dos «Exploradores dl Kansas» e deverá dizer «senhor» ao dirigir-se aos seus superiores. Entendido? Se tem outros costumes afrancezados renuncie a eles. Lembre-se que já não está em Nova Orleans. Não tolero melindres nem ressentimentos em nenhum homem. Tomamo-nos a sério, senhor; você fará o necessário para colocar-se ao nossa nível. Está claro isto?
— Devo entender que tenho de renunciar ao asseio e à educação... senhor? — perguntou secamente o jovem.
As espessas sobrancelhas do capitão uniram-se numa linha tormentosa.
— Você é difícil, Rudger — grunhiu.
Mas o jovem estava irritado e farto de toda aquela gente que se permitia desprezá-lo só porque ele pertencia à fronteira.
— Porque se não é isso que entendo por me colocar ao vosso nível — prosseguiu friamente — estou disposto a enfrentar-me com qualquer homem ao revólver, espingarda, espada, sabre ou punhal. A medir-me com quem quiser como cavaleiro. A realizar qualquer exercício. Em poucas palavras... senhor, estou disposto a demonstrar que a minha capacidade e valor equivale pelo menos a qualquer dos seus homens.
O capitão aguardou com rosto grave que Duncan acabasse de falar.
— Essas são grandes palavras, Rudger — disse então. — Terá ocasião de as demonstrar.
— Não é outra coisa o que desejo.
— Bem. Tudo o que pedimos aos exploradores é lealdade, coragem e integridade absoluta. Pagar-lhe-emos quarenta dólares mensais... quando o podermos conseguir. Por esse soldo esperamos que cumpra os seus deveres, pondo de lado qualquer questão pessoal. Em troca disto, além do soldo miserável e problemático, receberá você muito pouca gratidão. Se morre Pagar-lhe-emos dois metros de terra em qualquer lugar ignorado, sem nenhuma pedra nem nenhuma classe de monumento; a única lembrança de você será um breve apontamento nos nossos registos.
Henely fez uma pausa como esperando que o recruta tivesse algum comentário a fazer, mas não foi assim, e continuou:
— Esta companhia perdeu quinze homens nos últimos dois meses. Isto lhe dará uma ideia do que o espera. E finalmente, se acha que este modo de vida dos «exploradores» é demasiado duro para você, poderá apresentar a sua demissão... ao cumprir um ano, se é que continua com vida ainda.
Rudger ficou inexpressivo. Compreendia que começar a sua vida como explorador desfrutando a inimizade do tenente e tendo provado a cólera do capitão era uma grande coisa, mas já nada o podia evitar. Tudo muito agradável de qualquer ponto que se visse.
Mas continuava furioso. Se até àquele momento se tinha deixado levar pelas adversas circunstâncias que o conduziram até àquele situação em que se encontrava, tudo ia mudar Tinha que demonstrar àqueles ursos que um homem da cidade podia adaptar-se perfeitamente ao seu ambiente, e incluso superá-la em qualquer missão.
— Nada mais, Rudger. Pode retirar-se.
— As suas ordens, senhor.
*
Os dias que se sucederam não foram muito agradáveis para Duncan Rudger, se bem que o adestramento de explorador era mais fácil do que ao princípio julgou.
Uma coisa foi admitida desde o primeiro momento; que o novo homem era o melhor atirador do destacamento. Além disso, a vida distava muito de ser agradável para ele.
A comida era pobre e má, as tendas velhas e incómodas e a disciplina não se mantinha mais do que por vontade pessoal e incompreensível de cada explorador. O posto contava com cinquenta homens de aspeto rude e inculto, a maioria deles com barbas, queimados pelo sol e magros. Pouco cuidado no seu asseio pessoal.
O facto de Duncan se barbear todos os dias e tomar banho no rio cada vez que tinha ocasião, era motivo de troça e pesadas brincadeiras, e o jovem descobriu bem depressa que os seus companheiros tinham um sentido de humor deplorável.
Desagradáveis experiências se seguiram para o novato, mas aceitou-as sem protestar, apertando os dentes cada vez, com a firme disposição de resistir quanto fosse preciso.
Pouco se falava no posto do perigo; no entanto, o perigo era constante e a morte considerada como uma eventualidade próxima e provável. E andar a cavalo até ao esgotamento era coisa aceitável como muito natural.
Isto serviu a Duncan para descobrir que o seu baio tinha sido uma magnífica compra. Era dócil, veloz e extraordinariamente resistente e o seu aspeto também melhorou consideravelmente quando lhe proporcionou enormes cuidados. Bem ferrado, alimentado adequadamente, limpo e' tendo recebido os cuidados do tosquiador, tinha muito boa estampa e parecia orgulhoso dele, pois já não inclinava a cabeça da maneira que o fazia quando no curral de Fort Wallace.
O único amigo que tinha era Travis. Os demais pareciam divertir-se achincalhando-o e fazendo mais difícil a sua convivência com eles, talvez por solidariedade com o tenente Semple, que não ocultava a sua inimizade pelo novato.
Duncan surpreendia-se por vezes sorrindo amargamente ao imaginar o que pensariam os seus amigos dos cafés de Nova Orleans se o vissem a ele, o entendido em comidas e vinhos finos, o homem da vida refinada, de elegantes modas, a maioria das vezes sujo apesar dos seus esforços, com o rosto enegrecido pelo sol e intempéries, com o seu aspeto grosseiro e descuidado de um verdadeiro selvagem.
E não obtinha nenhuma satisfação na nova vida. Adaptou-se a ela, mas só graças a um fúria e a uma exasperada tenacidade. E entretanto foi-se desenrolando nele um crescente desdém e desgosto por aqueles homens da fronteira e tudo quanto se relacionava com a mesma. Especialmente pelo seu costume de cantarem baladas de grandeza, de formosura, ao futuro, à riqueza e tudo mais da sua nova terra. Pessoalmente só desejava a chegada do momento que pudesse escapar do Kansas.
Mas entretanto aplicou-se com fervor aprendendo tudo o que ignorava. E Travis o ajudou em tudo quanto pôde. Levou-o com ele quantas vezes saiu de patrulha, corrigiu as suas asneiras e mais de uma vez o salvou de alguma calamidade. Reiteradamente explicou ao seu aluno como encontrar um vau em lugar de se arriscar teimosamente por sítios onde seria arrastado para a morte. Deu-lhe com paciência pequenas lições como ler o terreno, como seguir uma pista, caçar, fazer comida no acampamento, acomodar a carga sobre o cavalo e coisas do estilo. E Duncan pôs tanto interesse, apesar do desgosto com que fazia aquilo, que um mês depois podia patrulhar sozinho.
Então no Verão de 1868, deu-se a ofensiva índia, que foi a mais sangrenta de toda a história daquele território. Em sessenta dias foram sacrificados cento e dezassete colonos brancos, e raptadas sete mulheres e levadas para o cativeiro. As incursões índias foram mais de vinte e cinco, e converteram o Oeste de Kansas num deserto.
Ao entardecer de um caloroso dia dos finais de junho, suado, cansado, coberto de pó e sedento, cavalgava entre nuvens de pó que levantava à sua passagem, pois havia semanas que não caia uma gota de chuva naquela região, quando descobriu uns montículos baixos que pareciam indicar a proximidade de um terreno húmido.
Duncan não precisou de dar esporas ao baio, pois, como o animal tivesse pressentido a água, avivou o passo por ele próprio.
O jovem tinha sorte. Assim o afirmavam quantos o conheciam, e ele estava de acordo. Inclusive, quando uma série de desfortuna das circunstâncias o converteram num proscrito, não duvidou dela, que o tirou com assombrosa facilidade do mortal perigo em que se encontrava. E agora uma vez mais, se lhe mostrou fiel.
Efetivamente, foi só por sorte que se salvou da emboscada. Ao chegar aos pequenos montes ia a passo entre eles, quando o seu cavalo fez um movimento estranho.
Duncan deteve-o imediatamente. Encontrava-se em terreno índio, longe do acampamento e de todo o «lugar habitado», pois o primeiro colono encontrava-se na mesma direção, mas quinze milhas mais longe, pelo que se o baio ficasse coxo ou sofresse qualquer acidente, a sua situação estaria muito comprometida.  
Saltando em terra, levantou a pata esquerda dianteira do animal, e uma olhadela bastou-lhe para ver que uma pedra afiada se tinha introduzido no casco do cavalo.
— Vá! — grunhiu. — Cadela de sorte esta! Precisamente agora, que ao que parece estávamos perto de água!
Com um relincho o animal tentou soltar a pata.
— Quieto! —  disse Duncan, tirando o seu punhal. — Doí-te?
O baio insistiu nos seus relinchos.
— Não te mexas agora.
Inclinando-se sobre o casco, tentou aflorar a pedra com a ponta do punhal. Era um trabalho delicado, pois ao menor descuido, podia ferir profundamente o animal.
Ainda que cuidadoso, os esforços de Rudger não foram suficientes para evitar ferir o cavalo, que soltou um relincho doloroso.
— Já está a sair disse, com carinho.
A pedra estava quase a sair, empurrada pela ponta afiada do punhal, quando Duncan ouviu um alarido que o fez levantar a cabeça rapidamente. Notou, então, que três cavaleiros selvagens, em desenfreada galopada, desciam de um dos montes, dirigindo-se ao seu encontro, levantando os rifles acima das suas emplumadas cabeças, em atitude bélica.
Duncan sofreu um sobressalto. Era a primeira vez que via índios selvagens, e isso impressionou-o grandemente. Tanto mais que cavalgavam gritando como demónios, no momento em que o seu cavalo estava praticamente inutilizado e para cúmulo, ao seu redor não existia sequer uma pedra ou árvore que lhe servisse de refúgio.
Largou a pata do baio e erguendo-se, quedou-se sem saber que atitude tomar, olhando em todas as direções procurando algo que lhe permitisse fazer frente, para se salvar. Mas infelizmente, nada havia.
Ali estava, no meio da pradaria, completamente plana sem mais vegetação que alguns arbustos e erva rasteira e seca.
Uns segundos mais e teria tido tempo de arrancar a pedra do casco do cavalo, mas já não tinha tempo para o fazer e, montar naquelas condições era o mesmo que inutilizar o pobre animal sem qualquer resultado.
O medo sacudiu-lhe os nervos como uma chicotada, estremecendo dos pés à cabeça, e por instantes dominou-o uma vontade enorme de voltar as costas e fugir aos peles-vermelhas. Mas isso seria um suicídio. Só podia fazer uma coisa, e essa era a de empunhar as armas e tentar conter a carga dos índios, mediante uma cortina de fogo. E não havia tempo a perder porque estavam quase em cima de si.
Desafundou o pesado rifle «Sharp» e metendo-o à cara com incrível rapidez, fez fogo.
Apesar de ser um grande atirador e o alvo grande e próximo, falhou!
Os índios aumentaram os seus gritos e as suas sujas cabeleiras esvoaçaram ainda mais ao vento, aproximando-se perigosamente do rosto-pálido. A espingarda automática, era todavia, muito pouco conhecida na fronteira e aqueles guerreiros não tinham tido nenhum contacto com ela.
Fazendo o possível por serenar, Duncan voltou de novo a disparar, apontando desta vez a um dos cavaleiros, ainda que lhe parecesse que tinha acertado nos três ao mesmo tempo. Embora soubesse que os índios se deixavam cair dos cavalos, ficando estirados no solo, jamais o tinha verificado, ainda que Travis lhe tivesse feito ver, que este era um dos seus truques preferidos.
A ação começava a sossegá-lo, e sem se deixar impressionar pelos peles-vermelhas. Nesse mesmo instante, um deles disparou o seu rifle tentando acertar-lhe. De pé firme e de peito descoberto, derrubou-o com um tiro na cabeça e, num alarde de soberbo atirador, quase sem fazer pontaria, fez saltar de forma fulminante o último dos seus inimigos, no momento em que este se descobria para atirar. O guerreiro caiu a alguns metros de distância, passando o cavalo, assustado, rente a Duncan.
O explorador baixou a arma, e contemplou os obscuros corpos caídos sobre a raquítica erva. Estava atordoado e por instantes pareceu não saber o que fazer. Começava a dar conta que acabava de sair triunfante do seu primeiro encontro com os índios, mas não estava convencido. Tudo tinha sido muito rápido.
Como o cavalo, assustado pelos disparos se tivesse afastado para um sítio além daquele onde os corpos estavam caídos, decidiu fazer um reconhecimento e avançou a pé, para eles, com o rifle pronto a disparar.
O último pele-vermelha que abatera estava muito próximo, caído de bruços, imóvel, e não se notava qualquer movimento, nem sequer a respiração. Devia estar morto.
Rudger para se certificar volteou-o com o pé, mas de repente, aquele corpo pesado e hirto, converteu-se num torvelinho de agilidade. Com a cabeça do índio encaixada no seu estômago, o inexperiente explorador caiu pesadamente de costas, batendo violentamente contra o solo sem poder fazer nada para amortecer a queda, que foi tão violenta que perdeu o rifle.
Enevoadamente, viu que o índio vinha sobre ele levantando algo metálico e ficando livre das pernas, num gesto de puro instinto, atirou para o lado com o seu inimigo dando--lhe um pontapé nas costelas.
Com um grito rouco, o selvagem voltou de novo à carga como se fosse de borracha, mas apesar de toda a sua rapidez, Duncan teve o tempo suficiente de sacar o revólver e disparar, apanhando o índio em cheio na cara, que caiu para trás dobrando-se pela cintura.
Muito a custo, soergueu-se sobre o cotovelo, contemplando as últimas convulsões do guerreiro índio.
Mas mais uma vez a Providência interveio a seu favor, pois se o índio tivesse caído noutra direção, ser-lhe-ia impossível constatar a silenciosa destreza de agilidade humana que lhe caía em cima.
Mais por instinto do que por vontade, Duncan levantou o revólver e disparou freneticamente, até esgotar as munições. Levado pelo impulso adquirido e possuído por uma fúria superior à agonia da morte, o bravo esteve lançando pontapés e golpes, saltando sobre a terra como um víbora sem cabeça, para depois ter um enorme estremecimento e ficar imóvel.
Rudger levantou-se olhando em volta para ver se havia mais inimigos, e depois carregou rapidamente o seu revólver, antes de examinar os índios para ver se estavam efetivamente mortos.
Impressionou-o o aspeto feroz e selvagem daqueles cadáveres seminus, e ainda que já tivesse visto as pinturas que cobriam o seu rosto, sofreu um sobressalto ao lembrar-se do que tinha ouvido dizer que significavam. Eram pinturas de guerra, e não podiam significar mais do que uma incursão dos índios.
Por momentos permaneceu imóvel, apanhado pela certeza de um ataque índio, mas seguidamente entrou numa febril pressa de se afastar dali. Tinha que voltar ao acampamento a toda a velocidade e dar o alarme.
A lembrança da pouca simpatia do capitão Henely e a decidida inimizade do tenente Semple, fê-lo parar uns minutos mais, para recolher os rifles dos índios e despojá-los dos seus mocassins, para que não pudessem duvidar da autenticidade de seu relato, e em seguida foi em busca do cavalo.
— Lamento muito, companheiro — disse ao animal enquanto usava o encerado para fazer um embrulho com os seus troféus e os amarrava atrás da sela, — mas terás de suportar um pouco mais sem beber.
Levantou a pata do animal e teve uma grata surpresa ao ver que a afiada pedra tinha acabado por sair.
De um salto subiu para a sela e sem perder um momento partiu a todo o galope em direção do acampamento sentindo-se muito satisfeito porque o animal parecia não acusar a ferida na pata.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

CLF074. CAP V. Os exploradores de Forsyth

A sala era simples e vazia, mas o comandante George A. Forsyth não precisava de decorações. Rudger já o tinha visto na noite anterior no baile, mas agora observou-o mais detalhadamente, enquanto o comandante lia a carta do capitão Wilson. Havia algo de majestoso na figura do militar, nas marcas do seu rosto que expressavam inteligência e força.
Finalmente Forsyth levantou a vista do papel elevando-o para os olhos pardos do jogador.
-- Aprecio sinceramente o capitão Wilson — disse gravemente, mas temo não poder satisfazê-lo neste momento.
Rudger ficou atónito. Na realidade não tinha o menor desejo de ingressar nos «Exploradores», e não estava muito certo de proceder com cabeça, alistando-se. Talvez por isso mesmo, não lhe tivesse passado pela cabeça que não o alistassem.
— Na realidade — disse muito aprumado —creio que mereço uma explicação, «monsieur».
Um riso cínico fê-lo voltar a cabeça para o homem alto e magro que tinha entrado no gabinete do comandante. A primeira vista, não achou simpático o tenente John Semple, mas a sua intervenção tornou-o odioso. Tinha uma grande cabeça e cabelo encaracolado que já começava a tornar-se ralo e muito emaranhado. Era forte e usava enormes patilhas.
O comandante não pareceu ouvir o insultante riso do oficial.
— Não tenho nada contra você, senhor Rudger, e repito-lhe que gostaria de atender o capitão Wilson; mas há mais voluntários que lugares vagos. Homens que conhecem as planícies, excelentes caçadores, competentes em seguir uma pista emaranhada, gente azeda e má, tostada pelos raios solares e desejosos de se vingarem nos índios, que mataram as suas famílias e arrasaram as suas casas. Dá conta? Se se considera capacitado para substituir um desses veteranos?...
— Há certa diferença entre entender-se com um guerreiro Cheyenne ou uma jovem crioula. — voltou a sorrir Semple, desagradavelmente.
Rudger dirigiu-lhe um duro olhar.
— Não lhe ocorreu nunca pensar — disse com voz clara e reprimida— que eu possa fazer alguma coisa que você faz... e fazê-lo melhor?
Semple fez uma careta.
— Se por acaso se tratar de uma figura elegante...
— Trata-se de disparar. Contra você ou contra o alvo. Como prefere?
— Advirto-o — sorriu Forsyth — que é um dos nossos melhores atiradores.
— É um desafio, «monsieur». Se este... cavalheiro — fez uma pausa bastante prolongada para que resultasse insultante — é um bom atirador, dos melhores como acaba de dizer, julgo que se o vencer terei ganho o lugar que solicito.
Forsyth olhou para o ruivo.
— Que dizes a isto, John?
Semple fez uma careta depreciativa.
— Este pássaro não serve para explorador; carece de qualidades necessárias — disse sem rodeios.
Mas acrescentou depois de uma breve pausa:
— Ainda que de todos os modos nos possamos arriscar. Se o seu desafio não passa de uma fanfarronada...
— Bem. Forsyth pôs-se de pé e saiu detrás da secretária.
— Vamos lá para fora, cavalheiros.
 Saíram juntos da cabana, dirigindo-se para o terreno de provas, situado fora da paliçada. Era ali também onde se faziam os exercícios de tiro, e onde se encontravam uns postes cravados no solo, alguns dos quais tinham tábuas a fazer cruz para segurar os alvos.
— Que te parece, John? — perguntou o comandante.
O alto, magro e ruivo tenente apanhou umas pedras do solo e chegando até um dos postes colocou três em cada um dos braços da cruz, medindo depois a distância de quinze passos.
— Venha aqui, Rudger.
O jovem aproximou-se sem pressas.
-- Ponha-se aqui a meu lado e saque o revólver. A ordem do comandante dispararemos cada um contra as pedras do braço que lhe corresponde. Vamos a ver quem emprega menos tempo e menos disparos para fazer desaparecer as pedrinhas. O que atingir a madeira, para as fazer cair, perde.
Ante aquela classe de prova, Duncan sorriu divertido. Tinha experimentado no dia anterior o revólver, verificando ser uma excelente arma, e acertar naquele alvo significava para ele um jogo de crianças. Pondo-se em posição desfundou a arma.
— Muito bem — disse. -- Quando queira. Comece, meu comandante. Dê a ordem.
Forsyth olhou os dois homens, e depois o alvo.
-- Prontos? — perguntou.
Os dois atiradores levantaram as armas, apontando., Todos aqueles preparativos tinham chamado a atenção e começaram a aparecer alguns homens.
— Sim -- disse Semple.
— Pronto — respondeu Rudger.
— Fogo!
Duncan disparou abafando a voz com aquela rapidez que o fizera adiantar-se a Tempest, e a pedra mais próxima do poste voou feita em bocados. Depois atirou duas vezes mais, sem pressas, com segurança, surdo ao estrondo das 'explosões que davam. Ao acertar na última pedra, olhou para o outro lado da cruz e chegou a tempo de ver como desaparecia a última. Uma cerrada ovação premiou a pontaria daqueles soberbos atiradores. A concorrência era agora maior, e continuavam a chegar homens de todos os lados.
— Três alvos cada um e outros tantos disparos, ainda que o senhor Rudger tenha obtido alguma vantagem por atirar mais rapidamente — disse Forsyth.—Parece-me demasiado pequena para decidir a questão. Querem provar outra vez? Alguma coisa mais longe, talvez?
 -- Perdão — interveio Duncan — mas isto parece-me um jogo de crianças. É demasiado simples.
Tal afirmação produziu excitados comentários entre os espectadores. O comandante olhou para Rudger franzindo as sobrancelhas.
— Que propõe você? — perguntou secamente, aborrecido sem dúvida por aquela fanfarronada.
O jovem não se intimidou.
— «Monsieur» Semple escolheu o seu alvo. Permite-me que escolha eu agora o meu?
— Muito bem. É justo.
Rudger voltou-se para os espectadores.
— Alguém tem um cordel? — perguntou.
Ofereceram-lhe vários tendo escolhido entre todos o mais fino. Em seguida tirou do seu cinturão um cartucho e extraiu com os dentes a bala de chumbo. Notava a expectativa com que era observado por quantos ali estavam, mas sem se intimidar com isso.
Com um punhal de caça que também tinha comprado dois dias antes, fez um pequeno vinco para segurar o cordel, que amarrou também com os dentes de modo que não fugisse. Atou então a outra extremidade a um dos braços do poste, e deu à bala um pequeno balanço.
— Isto é um desafio a todo aquele que queira tentar — disse sorrindo trocista.
Depois contou oito passos.
— Vamos?— perguntou ao ruivo oficial dos exploradores.
Semple olhou-o fixamente.
— Você é mais que um fanfarrão — grunhiu.
-- Não quer tentar? — troçou o jovem. — Não vai mais além que aquele joguinho das pedras?
— Que asneira é esta? Não se pode acertar nessa bala em movimento.
— Não se trata de acertar na bala — replicou Duncan com calma. — Têm que cortar o cordel.
— Impossível!
Duncan deixou de lhe prestar atenção e voltou-se para o comandante Forsyth. — Você disse que os seus exploradores eram todos excelentes atiradores, «Monsieur» Forsyth. Não há nenhum capaz de aceitar este desafio?
O calmeirão do Travis destacou-se então de entre a multidão, e olhou para Duncan com os seus olhos azuis sempre sorridentes.
— Pelo menos farei a prova sorriu.
Rudger tinha feito com a bota um traço no poeirento solo, e o seu amigo foi colocar-se ali, desafundou o revólver e depois de fazer a pontaria seguindo a oscilação da bala, fez fogo, O chumbo continuou o seu movimento de pêndulo sem a mais leve alteração. De novo Cameron fez fogo. De novo errou. E três vezes mais, até gastar as munições.
— Abanei um pouco — riu.
— Basta de palermices! — gritou Semple mal humorado. — Agora toca-lhe a você fazer de bobo, Rudger.
Ao cortar o fio de um só e certeiro disparo, Duncan pensou no que teria dito René Tempest se o tivesse presenciado. Insistiria ainda em que não era mais do que sorte?
— Diabos! — grunhiu Travis. — E eu que duvidava que soubesse disparar!
Os homens da fronteira, para quem disparar bem era uma qualidade essencial, acolheram a façanha em silêncio, que depois se converteu num surdo rumor de excitados comentários.
— Vamos — disse Forsyth. — Regressemos ao gabinete...
Quando entraram na desmantelada sala a que o comandante chamava o seu gabinete, este voltou a sentar-se e encarou o forasteiro.
— Está bem, senhor Rudger — disse. — Se persiste em ingressar nos «exploradores» admitirei o seu pedido. Não posso perder um homem que atira como você.
Duncan vacilou. Não tinha o menor desejo de converter-se em explorador. A vida desta gente era dura e perigosa e ele tinha outras aspirações. Mas agora já não podia voltar atrás. Muito menos vendo o sorriso de desprezo de Semple.
— Há mais alguma formalidade que deva cumprir? — perguntou.
— O tenente se encarregará disso.
— Imediatamente! — concordou este sorrindo de um modo pouco tranquilizador.
Duncan olhou-o durante um momento e perguntou a si próprio se não estaria fazendo asneira, mas acabou por encolher ligeiramente os ombros. Não se ia deixar assustar por um sujeito como aquele.
— Obrigado, comandante — disse.
— Não tem que agradecer. Teria preferido não o ter admitido.
*
Enquanto cavalgava até Smoky Hill River, distante corrente de água que corria a noroeste donde estava estabelecido o acampamento de exploradores para vigiar os índios, Duncan maldizia amargamente a sua sorte.
Uma assombrosa imensidade de circunstâncias o tinham feito vítima. Evocou com nostalgia Nova Orleans, os cafés, os combates de galos, as mesas de jogo, as pistas de corridas, o Teatro da ópera Francês, o «Saloon Carraud»...
E pensou nos alegres companheiros e encantadoras damas que tinha conhecido lá. Era quase incrível que em poucos dias um membro da sociedade elegante como ele se tivesse transformado num nómada vestido de pele na fronteira e condenado a uma servidão que começava a ser-lhe terrivelmente odiosa.
A paisagem que se estendia diante dos três cavaleiros era da mais monótona; muito breve deixaram para trás todo o sinal da vida humana e só viam a imensa pradaria.
— Que se passa, companheiro? Tem uma cara que parece uma múmia.
Duncan olhou para Travis que cavalgava a seu lado e fez uma careta.
— Um pouco de receio — sorriu.
Semple que ia à frente, deve ter ouvido porque no momento voltou-se na sela mostrando a sua cínica cara.
— Medo, Rudger? Julgou ver alguma pluma detrás de qualquer arbusto?
O jovem sentiu os nervos crisparem-se. Aquele tipo tornava-se cada vez mais insuportável.
— Pareceu-me que lhe saía do bolso — replicou secamente. — Afinal era uma galinha.
O sorriso cínico do oficial converteu-se num gesto duro, e os opalinos olhos adquiriram uma feroz expressão ao mesmo tempo que as suas pupilas adquiriam o brilho de punhais.
— Que quer dizer?
Semple aproximou o cavalo.
— Diga-o claramente — grunhiu.— Diga-o, se tem coragem.
— Estou de serviço e você é meu superior — replicou Duncan de forma respeitosa e tensa.— Não lhe darei a oportunidade que está procurando; mas algum dia vou cuspir-lhe na cara e dizer-lhe claramente tudo o que penso de você.
— Esperarei — concordou Semple roucamente. — Esperarei com impaciência.
Picou esporas e manteve-se afastado durante todo o resto da jornada.
— Que diabos se passa contigo e com ele? — perguntou Travis quando o tenente já estava bastante afastado.
— Devias era perguntar-lhe a ele, o que tem contra mim. Já o viste. Ao que me parece não lhe sou simpático.
Cameron permaneceu em silêncio durante bastante tempo, como refletindo sobre o que lhe tinha dito o companheiro.
— A sua mulher fugiu com um tipo da cidade — disse de repente. — Talvez seja por isso.
Duncan olhou-o um pouco surpreendido.
— E que tenho eu a ver com isso?
Cameron encolheu os ombros.
— Não sei. É possível que tu, por seres também da cidade, lhe desagrades. Ou talvez as tuas maneiras e forma de falar lhe lembrem o tipo.
— Pois está bem! — disse Duncan.
 Aquela noite passaram-na numa cabana de troncos de um índio chamado Long Ear (Orelha Comprida).
Duncan tinha esperado com ansiedade o momento do seu primeiro encontro com um pele-vermelha; mas este exemplar constituiu uma completa deceção. Era civilizado. Vestia uma camisa velha sem botões; a fralda de fora, e uma espécie de calças que não se conhecia a cor, e o sujo chapéu com algumas penas.
Enquanto a sua gorda e pingona «squaw» cozinhava a comida, o homem permanecia sentado no alpendre olhando distraído com expressão de estúpido. Naquele asqueroso indivíduo não havia nada de nobreza e dignidade de que tinha ouvido falar, nem sequer a feroz pintura.
A ceia consistiu de carne, e o seu aspeto bastou para fazer esquecer a Rudger que estava faminto; ao descobrir uma mosca no seu prato acabou por ficar sem comer. Mas havia café. No entanto também esta esperança se desvaneceu quando o índio, numa amostra de deferência procedeu à limpeza dos copos com o sujo trapo que tinha no meio das pernas.
Duncan não bebeu o café e sentiu-se contente por continuar a viagem no dia seguinte quando desceram até ao vale com árvores raquíticas, em cujo fundo se via uma desgarrada neve.
— O rio Smoky Hill — disse Travis. — Está gelado?
Em breve distinguiram entre as árvores uma mancha cinzenta que não era neve nem fumo, mas sim a lona manchada de várias tendas juntas. O acampamento dos exploradores.

domingo, 13 de novembro de 2016

CLF074. CAP IV. Tanta fealdade

Ao descer do carro das provisões, onde fizera a última etapa da sua viagem, cansado e alagado em suor e coberto de pó, Duncan Rudger estava moído de dar tombos, pelo que os indígenas chamavam pradaria e a ele mais parecera um enorme deserto. Sentiu-se feliz de ter chegado ao que pomposamente chamavam Forte Wallace, e que na realidade não passava de um aglomerado de sujas cabanas, rodeadas por tosca paliçada de troncos mal tratados e por desbastar.
Apressadamente, dirigiu-se para um alpendre de madeira em frente de uma loja e que era sustentado por alguns postes de madeira. Não é que ali estivesse mais fresco, mas pelo menos, estava a coberto dos ardentes raios solares.
Deteve-se ali, com um suspiro de alívio, e espantando algumas moscas com uma sapatada, contemplou o seu fato todo enrugado e coberto de pó.
Estava abatido, e isto não contribuía para levantar o seu estado moral, especialmente, ao contemplar o deplorável conjunto de baixas cabanas e choças de tábuas, que dentro e fora da paliçada formavam o que se chamava Forte Wallace. Jamais tinha visto tamanho desamparo, tanto primitivismo e tanta fealdade!
Nos palanques, viam-se cavalos fracos, cobertos de pó e, igualmente, pareciam andrajosos os homens que vagueavam a vista, prodigiosamente cobertos de cabelos e mascando tabaco sem cessar.
Todos aqueles homens o olhavam de um modo descarado, fixo e sem a menor dissimulação.
Um tipo muito alto e delgado, de compridas pernas, levou a sua desfaçatez ao ponto de se aproximar até poucas jardas, apoiando--se num dos postes que sustinham o alpendre, contemplando-o de cima abaixo.
Rudger sentiu-se aborrecido. Inevitavelmente a viagem de carro não tinha contribuído para melhorar o seu aspeto, mas de todos os modos, o daquele sujeito, era muito pior. Umas enormes botas com esporas, um pesado revólver sobre a perna, tão baixo como nunca tinha visto, talvez porque o cinturão repleto de balas era demasiado grande; uma suja camisa de flanela azul, e um amplo chapéu que caracterizava os homens daquela região. Todo ele coberto de pó.
Aborrecido, ainda mais, por esta observação descarada, de que estava ser alvo, Rudger deitou o chapéu agressivamente para trás e enfrentou decididamente o agreste indivíduo.
Este era jovem, certamente tinha menos de trinta anos, e ao contrário do que parecia mais corrente, a sua fraca cara aparecia completamente barbeada e de tez bronzeada pela ação do sol, e um par de olhos claros, intensamente azuis, brilhavam formando curioso contraste.
— Quer que dê a volta, «monsieur», para que possa contemplar-me melhor? — perguntou asperamente.
Os olhos azul pálido do outro interromperam a minuciosa inspeção sobre o vestuário afrancesado de Duncan, e os olhares dos dois homens encontraram-se. Um momento depois, o rosto bronzeado do homem da fronteira iluminou-se, e mostrou a sua magnífica dentadura num amplo sorriso.
— Agradecia-lhe muito, «M'siú» disse de forma desconcertante, com voz lenta e arrastada, imitando grotescamente o «monsieur» de Rudger.
Não havia agressividade ou troça no tom nem na expressão do desconhecido, o qual, com a sua inesperada resposta deixou desconcertado o jogador.
— Porque me olha dessa maneira? — perguntou por fim, menos agressivo.
— Não é a você, mas sim ao seu trajo — replicou o outro calmamente. — Não há por aqui nada que se lhe compare.
Duncan encontrou-se mais desconcertado do que nunca.
— Sim! — grunhiu, porque na realidade não sabia o que dizer.
— Você e eu somos pouco mais ou menos da mesma estatura continuou o outro com a sua voz arrastada e calma, — e se quisesse vender-me o seu fato ou ao menos emprestar--mo, a fim de amanhã assistir ao baile do batalhão, estou certo de que Abby não deixaria de dizer-me sim desta vez. Diabos! Creio que ao ver-me, caía de costas.
Duncan olhou o calmeirão com mais receio ainda, mas apesar de toda a sua desconfiança, não conseguiu descobrir a mais leve indicação de que estivesse troçando dele.
— De acordo -- disse, todavia ainda receoso. — Vendo-lho.
Os olhos azuis pareceram dilatar-se, e o brilho deles refletiam uma satisfação e júbilo completamente infantis.
— Quanto? — perguntou ao mesmo tempo que metia a mão no bolso, donde tirou um pequeno maço de notas.
Com a sua perícia de jogador, Duncan calculou, numa pequena olhadela, o dinheiro que poderia ter, e disse uma quantia um pouco superior.
Viu como a alegria saía dos olhos azuis.
— Pois... tanto? — murmurou o calmeirão.
— Não tem o suficiente?
— Não.
Duncan pareceu refletir durante uns momentos, se bem que fosse pura comédia, pois já tinha traçado completamente o seu plano de ação.
— Chamo-me Duncan Rudger — disse. — E você como se chama?
— Travis Cameron.
— Pois bem, «monsieur» Cameron; talvez haja outra forma de fazermos negócio.
Os olhos claros de Travis olharam-no com novo interesse e esperança.
— Qual?
— Quero alistar-me em... «Os Exploradores de Forsyth». Creio que é assim que se chamam. Pode você ajudar-me a consegui-lo?
Travis Cameron abriu a boca e os olhos com assombro.
— Tenho uma carta para o comandante Forsyth, e julgo que me admitirá — continuou Duncan, — mas não queria dar-lhe a impressão de que sou um novato inútil. Compreende a minha ideia? Desejaria apresentar-me a ele com a roupa própria e o equipamento necessário, assim como que tendo uma ideia do que me espera. Em troca da sua ajuda, ofereço--lhe o meu fato. Que me diz?
Cameron recostou-se no poste e puxando por uma bolsa de tabaco, ofereceu-a ao forasteiro, antes de habilmente fazer o seu cigarro.
— Creio que prefiro ficar sem o fato — disse, por fim. — Quando mato um homem, gosto de o fazer de frente e dando-lhe uma oportunidade.
Rudger olhou-o sem compreender.
— Sabe o que duraria você nos voluntários? — perguntou Cameron, ao mesmo tempo que fazia um gesto e dava um estalinho com os dedos de forma expressiva.
— Ainda que assim fosse, não seria sua a culpa. Não lhe peço que me ajude a alistar--me, mas sim, a adquirir as coisas que me são úteis. Qualquer comerciante se poria imediatamente à minha disposição, mas temo que me fizesse comprar mais coisas do que preciso, e ainda estou certo de que me cobraria tudo como do melhor, embora não o fosse. Já vê que não tem que sentir escrúpulos.
Travis sacudiu a cabeça, mas cedeu.
— De acordo — disse. — Tem dinheiro?
— Não se preocupe com isso.
— Muito bem. Começamos agora?
— Porquê, esperar?
Estava-se só a meio da manhã, pelo que havia tempo para tudo. Cameron guiou Duncan aos lugares adequados, onde comprou uma pele de anta, um amplo chapéu, botas com enormes esporas, um fuzil «Sharp» de sete tiros, e um enorme revólver «Colt» do máximo calibre, com coldre e respetivo cinturão.
Ao cingir o cinturão, Duncan notou que este estava muito largo. Pelos vistos era a razão por que toda a gente levava a arma caída de lado. Só faziam cinturões para homens gordos.
«De qualquer modo pensou — um sapateiro pode arranjá-lo».
— Aperte-o um par de furos mais largo. Assim, o revólver está muito alto e se tivesse necessidade de sacá-lo rapidamente perderia um tempo precioso.
Duncan olhou com assombro o seu companheiro. Estava-lhe dizendo que alargasse ainda mais o cinturão? Olhou-o incrédulo.
— Sim, mais baixo — insistiu Cameron. — Essas correias deve atá-las aos músculos das pernas, e já vê, como o tem posto agora, não é possível fazê-lo.
Em silêncio, Duncan fez o que lhe diziam.
— Espero que, pelo menos, saberá disparar — grunhiu Travis.
Abandonaram o armazém, mas as surpresas ainda não tinham terminado para Rudger. Considerava-se um cavaleiro excelente e estava certo de reconhecer um puro-sangue ao primeiro golpe de vista. Por outro lado, tinha lido e ouvido inúmeros relatos sobre os corcéis da pradaria; mas no curral onde Cameron o levou, só havia cavalos fracos e vencidos, todos desferrados, marcados nas ancas e nas patas com caprichosos enfeites alfabéticos, e tão ignorantes da água e sabão, como a maioria dos homens da fronteira, que tinha visto até ali.
Cameron sem dúvida, pareceu considerar aqueles cavalos como normais. Meneou a cabeça quando Duncan escolheu o de melhor aspeto: um alazão tostado.
— Que defeito tem? — perguntou Rudger cada vez mais desgostoso.
— Veja-lhe os cascos.
Escolheu outro, com o mesmo resultado e, ainda um terceiro.
— Muito bem — resmungou, contendo dificilmente o seu mau humor quando Cameron lhe fez ver o defeito do último dos cavalos, que ele considerava o mais aceitável entre a meia centena que havia no curral. — Porque não o escolhe você mesmo?
Travis devia já tê-lo feito, pois, sem a menor vacilação, se dirigiu a um baio que estava ao fundo e deu-lhe umas palmadas.
— Este — disse.
O animal não era nenhuma estampa, nem tão-pouco parecia prometer muito.
Duncan abria já a boca para protestar, quando se fixou no gesto de desgosto do dono do curral.
— De acordo. Quanto?
— Cento e cinquenta dólares — grunhiu o dono. — Leva um bom cavalo, amigo!
Mas Cameron não se mostrou de acordo com o preço, até que, finalmente, foram incluídos a sela e as rédeas.
— Se vai permanecer muito tempo por aqui, não traga mais ninguém a comprar-me cavalos.
— Pensarei nisso — replicou Travis
— Agora, alojamento e comida — disse o seu companheiro, depois de saírem do curral.
                                                                              *
Duncan não tinha querido ir ao baile, mas Travis insistiu de tal maneira que não teve outro remédio senão aceitar. E com as suas botas, traje de pele, grossa camisa de flanela e revólver no cinto, acompanhou o elegante Cameron até ao enorme barracão donde brotava luz por todos os seus buracos e rendilhados, assim como um enorme bulício.
Apenas acabavam de entrar quando se ouviu um enorme alarido e caiu-lhes em cima um grupo de homens que riam ruidosamente.
— Abby, Abby! Anda cá — começaram a gritar. — Travis vem casar-se.
Abrindo caminho entre aqueles homens toscos e ruidosos, apareceu uma linda rapariga morena, de roliças curvas e formas, que ficou parada a olhar com assombro para o elegante Cameron.
— Tray! — exclamou.
Duncan recordou-se então do que lhe dissera o seu amigo ao pedir-lhe o seu traje, e pareceu-lhe efetivamente, que a jovem Ia cair de costas. Mas em lugar disso, lançou-se nos seus braços com um grito, beijando-o na presença de toda aquela gente, que rompeu em gritos e aplausos.
Quando por fim cessou todo aquele ensurdecedor alarido, o suficiente para que se pudesse ouvir alguma coisa dita em berros, Duncan Rudger teve outra surpresa ao ouvir Travis pedir naquele mesmo tom, à jovem, que casasse com ele.
— Mas... Claro! — disse ela. — Como vo eu negar-me? Em toda fronteira não haver outro noivo tão atraente e elegante como t-t
Novos gritos e aplausos, até que de repente como um terramoto, começaram a dar palma e a bater com os pés, seguindo o ritmo qu marcava um violino e uma concertina.
De súbito, Duncan sentiu-se agarrado pelos ombros e obrigado a dar uma volta.
— És um cavalheiro --- gritou alguém, antes que pudesse protestar. — Os cavalheiros para aquele lado; as damas para este. Escolham os pares para a valsa.
Houve grande movimento de um lado par: o outro, em preparação. Os homens faziam vénias a uns e a outros, brincando, troçando dos formalismos dos bailes, ofereciam o braço ou aceitavam com divertida timidez.
Rudger ficou atordoado, sem saber o que fazer, até que Travis veio em seu auxílio con Abby, de braço dado.
— Vamos, ponha-se deste lado — gritou deixando a jovem e levando-o para a frente
— Porquê? — perguntou Duncan, sem perceber nada daquilo.
— Somos cavalheiros. As damas são todos aqueles que têm um remendo nas calças.
Como em todas as reuniões da sociedade, Rudger comprovou que ali também se encontrava o sexo fraco em minoria. Ainda que, verdadeiras mulheres, nem sequer meia dúzia houvesse.
Toda gente dançava vigorosamente, pisando a saltando com toda a sua alma. Tornava-se fatigante e surpreendente, mas Duncan acabou por se divertir apesar da «dama» que lhe coube em sorte, ser um sujeito corpulento e barbudo que cheirava a suor e a «whisky».
A buliçosa e sã alegria que ali reinava, contagiou-o. Vendo Travis e Abby girar loucamente, rindo e olhando-se nos olhos, Duncan surpreendeu-se, com dolorosa nostalgia, a lembrar-se de Kitty. Estava certo de que ela, apesar do luxo e preconceitos sociais de que estava rodeada desde o seu nascimento, teria desfrutado ali, um certo bem-estar, tanto ou mais como o que estava experimentando a jovem e morena noiva de Travis.
Era curioso, que de tantas mulheres a quem tinha feito namoro, apenas se recordasse de Kitty. Ainda que, pensando nisso, dava conta que de todas as que tinha conhecido, só ela era suficientemente jovem, alegre e simples, para se destacar entre aquela gente humilde da fronteira.
Os pares eram ruidosos, de bom humor e dados a troças pesadas. Nem sequer faltava o «mau» que passeava de um lado para o outro, com o cinto cheio de armas. Mas ninguém lhe ligava importância.
Numa das raras pausas feitas pelo violino e concertina, que faziam parar os pares, para tomarem um trago, e quando Rudger se aproximava de urna espécie de balcão, feito com urna comprida mesa, junto do qual, Cameron gritava, agitando urna garrafa de «whisky», viu como um desses «maus» lhe dava deliberadamente um empurrão, e o olhava fixamente.
Duncan parou alarmado, perguntando a si próprio o que ia acontecer então, pois tinha lido alguns relatos sobre a facilidade com que se matavam os homens da fronteira a troco de qualquer ninharia.
Travis, que tinha um cigarro ao canto da boca e os fósforos na mão, pelos vistos, disposto a acendê-lo, inesperadamente despejou o «whisky» por cima do valentão e, sem a menor pressa ou emoção, sempre com o mesmo sorriso nos lábios, acendeu o fósforo pegando o fogo ao «whisky» derramado.
Ora, o «whisky» não é mais do que álcool, de modo que as roupas do indivíduo começaram a arder imediatamente.
— Cuidado! Um homem a arder! — gritou Travis. — Apagai essas chamas! Apagai!
Os homens não só acudiram ao grito de Travis com regozijo, como apagaram o fogo com muito mais violência do que a necessária, expulsando do barracão o quezilento indivíduo que não voltou a ser visto.

sábado, 12 de novembro de 2016

CLF074. CAP III. Duelo e fuga a Nova Orleans

Duncan saltou como um gato. Rápido, sem ter feito o menor gesto ou movimento que denunciasse a sua intenção até ao momento em que se lançou felinamente contra o desprevenido Etienne, que estava muito longe de supor o que se passava na mente de Duncan.
O jovem sofreu um sobressalto, mas antes que se desse conta do sucedido, e, que além disso, tinha uma arma na mão, já Rudger o alcançara com um soco nos queixos, desviando-o e prostrando-o no chão, de bruços, ao mesmo tempo que arrancava a arma da mão do seu agressor.
Sem se preocupar mais com Etienne, Duncan girou rapidamente ao mesmo tempo que volteava a arma para a empunhar devidamente, no momento exato em que André, de «Colt» em ação, saía a correr, em socorro do irmão.
Com a precipitada angústia de quem sabe que um segundo pode ser a diferença entre a vida e a morte, e, sem perda de tempo para apontar, Duncan disparou sobre André, que atingido, girou como um peão e em seguida se estatelou no chão, como um saco.
No meio dos disparos, o jogador ouviu um grito que saía do interior da casa, e pouco depois viu aparecer Catherine.
Ela olhou-o por momentos com pavor e, soluçando, caiu de joelhos junto do irmão.
Como uma enorme pedra, caiu sobre Duncan a certeza de a ter perdido. Vivesse ou não André, ao disparar contra ele tinha posto um ponto final nas suas tão pouco fáceis relações com Kitty, que de futuro, seriam impossíveis.
Com os braços caídos, e a cabeça inclinada para o peito, dirigiu-se para o curral, onde ficara recolhido o seu cavalo. Ninguém tentou impedir a sua fuga. Os dois irmãos debruçados sobre o irmão mais velho, tentavam reanimá-lo. Assim os viu Rudger, já, sobre a sela, voltando a cabeça para eles, ao mesmo tempo que esporeando o cavalo, se afastava em direção de Nova Orleans.
Deixando-se levar pelos nervos, o único gesto de protesto que fez, foi lançar para longe a pistola que empunhava.
Compreendia que permanecer em Nova Orleans, seria já completamente impossível. Teria que fugir como um criminoso, pois o dinheiro dos Marigny era uma força muito poderosa, e se isso não bastasse, o juiz Tempest, um político, que ditava as leis do Estado e cujas decisões na Câmara ninguém se atrevia a desafiar, era íntimo amigo dos Marigny.
Para mais, tinha que contar com René, seu filho, que o influenciaria quanto possível para ver destroçado o seu rival. Por outro lado, pensou na sua reputação, que não o ajudava nada.
Armas, cartas e mulheres. Eram estes os três elementos principais da vida de Duncan Rudger. As três coisas que lhe haviam proporcionado êxitos, mas que lhe haviam criado uma reputação, se bem que nunca o houvessem preocupado, como é frequente nos jovens, mas que de futuro teriam imensa influência na opinião pública se se deixasse apanhar nas engrenagens da Lei, que o juiz Tempest representava.
Com o rosto sério e pensativo, atravessou a névoa que se levantara nas margens do rio. A sua cara, impassível, parecia de gelo, perfeitamente controlável como uma mesa de jogo; mas também podia perder a rigidez e aparecer cálida e encantadora, com os olhos pardos, alegres e um sorriso brilhante. As suas maneiras eram agradáveis e a sua educação bastante esmerada; de modo que muitos homens e mulheres estariam dispostos a perdoar-lhe os seus erros. Porém, desta vez, compreendia que não podia confiar nisso.
Enquanto conduzia o seu cavalo a trote, até à cidade, a névoa começou a dissipar-se, permitindo-lhe distinguir as ruas e as casas. Toda a sua vida tinha decorrido ali, os seus antepassados tinham chegado a Nova Orleans com Bienville, numa época em que a sua família chegou a ser rica, até que seu pai se arruinou com o pânico bancário de 37, quando ele acabava de nascer.
Desde o primeiro momento teve, pois, contra si, o pertencer a uma família distinta mas que não tinha um centavo, e que subsistia graças Unicamente à pensão de sua mãe.
Tinha somente dezassete anos quando ela morreu, mas já então, era suficientemente orgulhoso para não viver da quase caridade, com uma família que só sentia desprezo pela memória do autor dos seus dias, e que não o recordavam a não ser para o escarnecer.
Soube defender-se bem na existência alegre, irresponsável e dedicada ao jogo de um jovem da moda. O vício, a libertinagem e as mulheres, constituíam para ele as únicas coisas importantes. Mas nada disto, nem sequer a recordação da deliciosa e doce Catherine, o impedia de considerar a situação com um frio realismo. Toda a família Marigny e o próprio juiz Tempest eram agora seus inimigos mortais. A polícia e a justiça estavam ao serviço dos poderosos. Pensava que Nova Orleans era a mais agradável das cidades e compreendia com tristeza que tinha de a abandonar.
Nem sequer podia voltar ao seu apartamento. Era muito possível que algum dos Marigny ali estivesse à sua espera, e preferiu não correr esse risco. Afortunadamente, levava sempre consigo grandes quantidades de dinheiro, como a maioria dos jogadores e, naquela ocasião, havia a acrescentar os quinhentos dólares que ganhara na tonta aposta a que o arrastara René Tempest, mas mesmo assim, não seria fácil escapar.
A forma de o fazer era o que mais o preocupava de momento. Sabia que os seus inimigos não desprezariam meios nem dinheiro para se vingarem, e que o fio telegráfico levaria a ordem de prisão muito mais rapidamente do que ele poderia deslocar-se, ainda que fosse a cavalo, de diligência ou por via fluvial.
Foi ao lembrar-se do barco como meio de transporte que se recordou do capitão Wilson, e, imediatamente as suas esperanças renasceram.
Entretanto, chegara a Nova Orleans onde foi devolver o cavalo ao estábulo que o alugara.
Ainda não havia dado meia dúzia de passos, quando deu de caras com René Tempest.
— Pensei que ao saíres do «Carraud» irias ao estábulo mais próximo e não me enganei — disse simplesmente, por cumprimento.
Duncan olhou-o com surpresa. Estava certo de que os Marigny não lhe tinham participado a escapadela com Kitty, mas não encontrava outra explicação para a presença do jovem ali, esperando-o, sem dúvida, durante toda a noite, a julgar pelo seu aspeto.
— E posso saber porque me procuras? — perguntou friamente.
— Para te matar replicou René.
Duncan fez uma careta e sorriu.
— É uma mania que mais ou menos sempre tens tido observou. — Porque te deram tão de repente essas pressas?
À claridade cinzenta daquele amanhecer, Duncan viu perfeitamente como escureciam os olhos do jovem.
— Sabe-lo bem grunhiu Tempest.
-- Se o soubesse, não to perguntaria.
— Não vou dar-te explicações, Duncan. Tenho ali o carro, esperando. Não percamos mais tempo. Os Marigny estão procurando-te e podem aparecer de um momento para o outro.
De modo que René já o sabia. Não podia compreender como, mas sabia. Fez um gesto de resignação e impaciência.
-- E que pensas fazer?
— Já te disse. Matar-te!
— Muito dramático, como sempre. Queres matar-me. Mas de que modo? Estou desarmado.
— Jacques Fabre espera no outro carro, e trouxemos as pistolas de meu pai.
— Um duelo?
— Estás um pouco fraco de compreensão esta manhã. Um duelo, com efeito.
— Tudo me parece ridículo. Ao desafiares--me para um duelo, com toda a cerimónia própria destes casos, era coisa da época dos nossos pais. Isso já não se usa. Não sei porque me hei-de prestar a essa fantochada, que te tem obcecado desde não sei quando, e sem que da minha parte houvesse qualquer provocação.
Tempest ficou a olhá-lo, muito sério.
— Não tem porquê — disse claramente. — Nem porque aguentar isto, tão-pouco... — e ato contínuo, deu-lhe uma bofetada.
Duncan crispou os punhos, mas o seu rosto manteve-se frio e sereno.
— Muito bem, René — disse pausadamente. - Acabas de me convencer.
— Vamos?
— Quando o queiras.
Encaminharam-se para o local onde os dois caros estacionavam.
*
Fazia frio, mas Duncan até àquele momento ainda o não havia sentido. O nevoeiro parecia ali mais espesso e tudo carecia de claridade, como as figuras de uma paisagem de sonho.
O jogador aceitou a pistola que lhe dava Jacques Fabre e experimentou-a, estudando-a com atenção.
— Uma boa peça — admitiu. — Atirará bem?
— Evitarei atirar-te à cabeça, para que as tuas admiradoras possam dar-te o beijo de despedida sem sentir horror disse Tempest com os dentes cerrados, demonstrando, assim, o rancor que o consumia.
— 33
— Obrigado! — disse Duncan, secamente. Seguidamente, dirigiu-se com lentidão para o lugar marcado.
— Vocês conhecem as condições, cavalheiros disse Fabre bastante nervoso e assustado, para não citar o ridículo da tragédia de toda aquela cerimónia. Ao contar até três, dispararão um só tiro. Se nenhum ficar ferido, podem voltar a carregar as pistolas e disparar de novo, ou seguem o caminho mais razoável, considerando-se satisfeitos. Estão prontos, cavalheiros?
— Sim! — disse René. — Sim! — repetiu.
— Sim! — concordou Duncan, com serenidade e sangue-frio.
— Um! — gritou Fabre.
Os dois duelistas levantaram as suas pisto-lhas, apontando cuidadosamente.
Duncan apontou alto ao ombro direito do seu inimigo. Não tinha nenhum desejo de o matar, mas conhecia a determinação de René, não podia disparar para o ar nem feri-lo demasiado leve. Se um disparo não bastasse, o jovem Tempest não pararia até acabar com ele ou ficar fora de combate.
— Dois!
Os dois engatilharam as suas armas que produziram um seco ruído perfeitamente audível no meio do silêncio que se seguiu, à voz' do juiz do duelo.
— Tr...! — começou Fabre, mas o resto da palavra foi abafada pelo ruído das detonações.
34 —
Empurrado pela bala, René fez um estranho e violento giro, deu uns passos vacilantes, e caiu de bruços, sustendo-se com o braço esquerdo.
Com uma exclamação, Jacques Fabre correu para o ferido, inclinando-se sobre ele.
Rudger também se aproximou, embora mais lentamente.
— Como está? — perguntou.
O juiz do duelo levantou a cabeça e volveu para ele a sua cara pálida como a de um morto.
— Agradeço-lhe que não tenha atirado a matar — disse. — Foi muito generoso, de contrário, ter-me-ia arranjado uma situação deveras difícil.
— Porque se prestou então a esta fantochada? — ripostou Duncan.
— Não podia negar-me. Devia a... Mas isto não faz sentido. Deve escapar a toda a pressa. Leve o meu carro e parta. Eu ocupar-me-ei de René.
Duncan concordou em silêncio, e voltando para junto dos coches, deixou a pistola no carro de Tempest, antes de subir para o outro.
— Para a cidade — ordenou ao cocheiro.
Endireitou as bandas da jaqueta preta que tinha voltado para não oferecer a René a brancura da sua camisa como alvo, e recostou-se no assento.
Agora o juiz Tempest não precisava que os Marigny o instigassem nem tão-pouco a pressão do filho. Quando soubesse cio ocorrido, lançaria atrás dele toda a polícia de Nova Orleans, e se caísse em seu poder, acabaria irremediavelmente por ser enforcado.
Os seus pensamentos foram fazendo o resumo da causa da sua incómoda situação e criticou-se por não ter acabado aquela aventura há mais tempo. Na verdade, Kitty era muito bonita; sempre o tinha dito. Perigosamente bonita. Mas até ao extremo de que merecesse a pena converter-se num proscrito, e para mais a troco, realmente, de nada... Ele, um homem experimentado, tinha-se portado como um estúpido colegial.
— Pára aqui! -- disse ao cocheiro, ao dar conta de que já tinha entrado na cidade.
Saltou do carro despedindo-se com um gesto, e tão rápido o perdeu de vista, dirigiu-se para as docas, a pé. Era uma caminhada comprida, mas se tomava um carro, a polícia não tardaria em averiguá-lo, e conhecer o meio que tinha empregado para escapar, sendo-lhes fácil localizá-lo, desse modo.
Atravessou em passos ligeiros uma série de ruas mal pavimentadas. A água caída na noite anterior tinha-as convertido num lamaçal. Ao passar por uma, o cheiro daquelas ruas porcas chegou-lhe ao nariz. Ao voltar a cabeça, viu um cão morto pelo menos há três dias.
Não se surpreendeu, pois já estava acostumado. O sol ía alto e a neblina da manhã já se havia desvanecido. As ruas eram estreitas que mais pareciam carreiros, e ia sendo pior conforme avançava para a parte baixa da cidade. Aqui e ali havia enormes buracos.
As casas chegavam até à, beira da rua, e careciam de umbrais, e até de qualquer forma de fachada. Não obstante, já muitas delas tinham janelas corridas que sobressaíam do alto, chamadas galerias, ricamente adornadas com ferros forjados. Podia-se passar facilmente da intimidade da vivenda para o bulício da rua.
Finalmente, chegou lá abaixo, e dali passou aos molhes. O barulho e a animação neles era extraordinária, mas foi-lhe fácil distinguir entre os cargueiros de negras chaminés, um barco de pás, o qual estava pronto a sair, a julgar pela quantidade de fumo que lançava.
Era o «Sea Gull» e ao verificá-lo, sentiu um grande alívio, ainda que fosse de curta duração, pois que imediatamente se lembrou de que algum dos Marigny estaria à, sua espera. A sua amizade com o capitão Wilson era bastante conhecida, e por outra parte, era bastante lógico acreditarem que tentasse escapar com a jovem, e para isso nenhum meio melhor do que o barco.
Havia muita gente no cais despedindo-se dos que partiam, o que tornava difícil localizar alguém determinado, pelo que não se quis arriscar. De todos os modos, ali tinha que haver alguém conhecido, e se o viam subir para o «Sea Guil», haveria um destacamento da polícia onde o barco fizesse a próxima escala.
O problema estava em como embarcar sem ser notado. E tinha que o fazer quanto antes, pois o barco estava a ponto de largar.
Todo o mundo, passageiros, amigos e familiares dos que partiam, simples curiosos e inclusive, boa parte da tripulação, gritava, movia-se ou formava grupos junto ao cais e, compreendendo que dificilmente haveria alguém do outro lado, Duncan decidiu tentar a sua sorte.
Meio dólar bastou para que um carregador negro o levasse por entre os barcos atracados ou esperando vez, até ao costado do «Sea Gull».
Um oficial estava gritando para que se afastassem as embarcações que rodeavam o vapor.
Duncan notou com toda a clareza como se erguia subitamente, e no mesmo instante lhe fazia sinais para se aproximar. Quase imediatamente, inclinou-se, lançando-lhe um cabo.
Com a ajuda da corda, encontrou-se rapidamente na coberta.
— Vem só? — perguntou o oficial.
Duncan conhecia-o muito bem, pois era o segundo-oficial de bordo, mas nem sequer viu a mão que se lhe oferecia, completamente desconcertado pela pergunta. É que aquele também já conhecia a sua aventura com Catherine Marigny?
— Sim — respondeu, simplesmente.
-- Venha comigo.
Levou-o rapidamente para a coberta superior, tendo o evidente cuidado de o conduzir por onde não havia pessoas, e fê-lo entrar na câmara do capitão.
— Faça o favor de esperar aqui — disse. — O capitão virá imediatamente. Não saia nem chegue à porta, nem se deixe ver, poderia alguém conhecê-lo.
Ao ficar só, Rudger moveu-se impaciente pela pequena câmara. Se era do domínio público que tinha passado a noite com Kitty, a reputação da jovem estava completamente destroçada.
Assim, bastou-lhe um momento de reflexão para ver que deste modo não resolveria nada em ficar. Se André Marigny tivesse morrido ou sucumbisse ao ferimento — e a forma corno o vira cair fazia-lhe prever o pior — nem sequer poderia oferecer o seu nome como única reparação possível, e a forca premiaria um gesto tão inútil como imbecil, pois Duncan estava seguro de que os Marigny jamais o aceitariam de forma alguma.
Os seus negros pensamentos foram interrompidos pela entrada na pequena câmara de um homem que pareceu enchê-la com o seu corpo.
— Duncan! -- exclamou com a sua grossa voz. Maldito rapaz! Em que raio de enredos te meteste agora?
Apesar dos seus pensamentos, o jovem não foi capaz de deixar de sorrir.
— Nova Orleans pôs-se demasiado quente para mim — disse. — Tenho que ir-me embora. E de modo que ninguém saiba como, nem para onde.
— Sim. Já imaginava alguma coisa assim. Marigny esteve aqui com um dos seus filhos e tive que dar-lhe a minha palavra de honra de que não estavas a bordo. Não sei se me acreditou ou não, mas deixou o rapaz junto ã passarela. Ainda ali está agora.
— Parece que tive uma grande ideia em entrar pela porta de trás. — resmungou Duncan Rudger.
— Muito acertada, por certo. Alguém te viu subir?
— Que eu saiba, não.
— Até onde queres ir?
— O mais longe que me possas levar. Dei um tiro no jovem Tempest, e não creio que o pai me agradeça.
— Já me admirava que só fugisses desses cães aduladores dos Marigny. Têm muito dinheiro, mas pouco mais. Com exceção da filha, claro. Ela, sim, é alguém. Por certo, que ao ver o pai, julguei que tinhas tido o sentido suficiente para a levar.
Rudger preferiu não falar naquilo.
-- Até onde me poderás levar, Wilson? — perguntou.
O capitão olhou-o, deu um grunhido e encolheu os ombros.
— Até Kansas City. Convém-te?
-- Serve! Nem esperava ser tão afortunado.
— Afortunado? É um corno! Kansas é um inferno. As matanças feitas por esse carniceiro de Chivington, pôs em pé de guerra todos os Cheyennes, que desde há três anos correm toda a fronteira em loucas andanças.
— Recordo-me de ter lido alguma coisa sobre esse tal Chivington, mas muito vagamente.
— Um maldito cão raivoso, coronel do 2.° de Cavalaria do Colorado, durante a Guerra da Secessão, e pregador metodista na vida civil. Em Novembro de 64, atacou a aldeia cheyenne de Moketavata, que se tinha mostrado sempre amigo do homem branco. Foi uma matança onde morreram quase trezentos índios, mulheres e crianças, nuns dois terços. As atrocidades cometidas por Chivington e os seus homens, não têm nada a invejar às cometidas pelos selvagens. Entre outras coisas ouvi contar o seguinte...
Fez uma pausa para se lembrar, antes de acrescentar:
— Segundo testemunha o comandante Anthony, entre outras cenas vergonhosas, teve lugar a seguinte: Viu sair de uma cabana um pequenino índio que não teria mais de três anos e que, chorando, ia seguir o caminho, inteiramente nu e com passitos vacilantes, porque tinham fugido os seus. Era um espetáculo capaz de comover até um lobo, mas não inspirou a menor compaixão aos soldados que se dedicavam a saquear a aldeia. Um deles disparou contra o diminuto fugitivo sem lhe acertar. Depois outro fez o mesmo, com o mesmo resultado, até que um terceiro, fazendo mofa da má pontaria dos seus companheiros lhe acertou. A inocente criatura caiu moribunda.
— Mal posso acreditar — murmurou Duncan, boquiaberto.
— Todavia, os Cheyennes não nos perdoaram aquilo, e tem-nos custado muito sangue. Uma infinidade de homens, mulheres e crianças estão pagando com as suas vidas aquela inclassificável matança.
— E Chivington?
— O Governo repudiou-o, depois de examinar aquela ação, indemnizando, no ano seguinte a tribo de Moketavata, Brack Kette (Caldeira Negra) em inglês. Segundo determinou a comissão examinadora, esse ato apenas teve rival comparado com as atrocidades cometidas depois pelos índios. Mulheres fugitivas, levando as mãos ao céu pedindo compaixão, crianças indefesas, foram assassinadas, e depois entre francas gargalhadas, foram escalpela dos, fora mutilados homens, a tal ponto, que os selvagens do interior da Africa, teriam corado de vergonha.
— Creio que não respondeu à minha pergunta. Será que esse Chivington não foi castigado pelo seu crime?
— Não. Regressou a Ohio ao terminar a guerra civil, fundou um jornal e, há pouco tempo, apresentou-se às eleições como deputado; mas a Oposição fez vir a lume o seu maligno proceder contra os Cheyennes e teve que retirar a sua candidatura, coberto ridículo. Não se voltou a saber mais nada a seu respeito.
— Incrível.
— De todos os modos, não te vai mal que as coisas estejam mexidas na fronteira. O juiz Tempest tem o braço comprido e é possível que chegue até ao mais afastado recanto da nação.
— Sim, é verdade. Mas se as coisas estão tão mal, talvez ninguém pense numa reclamação feita de tão longe.
O barbudo capitão Wilson grunhiu.
— Conheço o capitão George A. Forsyth —disse — e sei que está formando um batalhão de voluntários para combater os índios. Talvez fosse conveniente afastares-te durante algum tempo do mundo civilizado. Para mais, não creio que te fizessem regressar, se te alistasses. Que te parece? Se quiseres, posso dar-te uma carta de recomendação, para o comandante.
— Pensarei nisso — disse, preocupado.
— Há tempo — riu o capitão. — Que toma-mos entretanto? «Whisky» de centeio ou escocês, «brandy», aguardente, Porto, Xerez?...
— Havendo «brandy»... — disse Duncan. Wilson desatou a rir. — Saiu à luz do dia o orgulho pátrio.
O jovem não fez caso.
— Brindemos por essa dama bela e inconstante que é Nova Orleans.
Wilson encheu os copos, levando por sua vez, o seu à boca.
— Por Nova Orleans — suspirou. — A velha e boa Nova Orleans.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

CLF074. CAP II. Convite ao pecado

Antes de sentirem o vento ouviram-no agitar as folhas das árvores, e imediatamente Duncan fez descrever ao cavalo um amplo círculo, voltando o coche em direção de Nova Orleans. Mas antes de o ter conseguido, começaram a cair as primeiras gotas, grandes corno moedas, que golpearam sonoramente contra a capota do carro.
— Maldição! — resmungou Duncan, sem poder conter-se. — Já a temos aqui.
Fustigou o cavalo. As primeiras gotas converteram-se em seguida em chuva torrencial que caía em líquidas cortinas.
O vento que aumentava também, de segundo para segundo, impulsionava a água para debaixo da alta capota do carro e em poucos minutos os seus ocupantes ficaram todos molhados até aos ossos.
Uma árvore caiu uns segundos depois de o carro ter passado. Escureceu de repente, fazendo-se prematuramente noite. Uma noite infernal que os trovões faziam estremecer e os relâmpagos cegavam.
Continuaram a correr. As rodas do carro levantavam grossas folhas amarelas. Davam loucos tombos, endireitavam-se e continuavam em frente. A chuva caia sobre eles impiedosamente.
«Não chegaremos nunca», pensou Duncan. De repente, à luz de um relâmpago viu a casa dos Sompayrac. A casa da peste, como era chamada. Mas não havia outra solução senão refugiarem-se ali.
Rudger meteu o carro pelo caminho particular com uma rápida volta, e conduziu-o até ao curral.
— Vamos! Temos que nos meter ali! — gritou Duncan saltando do carro e estendendo os braços para a jovem.
Kitty lançou-se para eles, e correram para o alpendre. Pela forma como o vento empurrava a chuva, o telhado do alpendre não lhes servia de nenhuma proteção.
Duncan experimentou a porta. Estava fechada, mas isso não o conteve. Era impossível ficarem ali fora.
Deu um pontapé na porta junto à fechadura com todo o impulso do seu peso. A porta cedeu com um estalo, que foi abafado pelo ruído de um trovão.
Dentro tudo estava seco, menos num canto onde havia uma goteira. Quando Duncan procurou os fósforos, viu que estavam tão molhados como ele. Mas tinha a certeza de que na cozinha os havia de encontrar, pois que nem os ladrões tinham a coragem de ali entrar.
— Temos de acender urna luz, Kitty —disse. -- Aguarda aqui enquanto vou ver se encontro com quê.
— Não, Dunc! — gritou ela no mesmo instante. — Não me deixes aqui sozinha! Tenho medo! Um medo espantoso!
— Vamos, mulher — tratou de tranquilizá-la. — Aqui não há perigo. •
— Deixa-me ir contigo suplicou ela com voz abafada.
— Está bem.
Procurou a sua mão na quase escuridão total que os envolvia, e juntos avançaram no meio das sombras até à cozinha.
Encontrou os fósforos e depois de acender um, descobriu um candeeiro.
Duncan levantou a torcida e acendeu-o. Ao colocar o vidro, a luz encheu toda a cozinha da velha casa.
Ao endireitar-se, olhou para Kitty. A jovem oferecia um aspeto deplorável; tremia como varas verdes e tinha os lábios arroxeados.
— Terás que tirar essa roupa molhada — disse. — Vou procurar outro candeeiro e ao mesmo tempo, verei se no andar de cima haverá alguma coisa que possas vestir.
Ela sacudiu a cabeça em sinal negativo.
— Não, querido — disse, ainda que os dentes batessem como castanholas. Creio que preferia morrer de frio que vestir qualquer coisa que pertencesse à pobre Magda Sompayrac.
-- Não pode ser. Assim é que morres efetivamente.
— Acende o lume.
— Fá-lo-ei imediatamente; pois de qualquer maneira tens de tirar essa roupa encharcada. Vou trazer-te uma manta para que te envolvas nela. Uma manta limpa, do armário. Estou certo de as encontrar, pois quando morreram os Sompayrac já o Inverno tinha passado e devem ter tirado da cama a roupa de agasalho. Parece-te bem?
— Tenho demasiado frio para manter excessivos escrúpulos — disse.
Com o candeeiro voltaram à sala de estar, onde Duncan acendeu o lume. Lá fora, a tormenta era como um dilúvio e não parecia dar sinais de abrandar tão depressa.
O jovem acendeu um artístico candeeiro.
— Fica aí, junto ao lume — disse.
— Não te demores — suplicou ela.
-- Voltarei de seguida — tranquilizou-a.
Atuou com rapidez, não só por medo de Kitty, mas também porque tremia de frio. Subiu, encontrando algumas mantas num armário, e tirou duas, apressando-se a regressar para junto da jovem.
— Tira a roupa enquanto eu o faço na cozinha. Chama-me quando tenhas acabado e apressa-te, pois eu também tenho grande necessidade de me aquecer ao fogo.
Uma vez despido, envolto na sua • manta, e com as roupas que acabava de tirar, a escorrer, e enquanto esperava a chamada de Kitty, deu uma vista de olhos ao aparador, encontrando com grande satisfação uma garrafa de «whisky» quase cheia. Apressou-se a beber um bom trago. O licor era excelente e no mesmo instante sentiu-se muito melhor. Então ouviu-se a voz da jovem que o chamava.
Voltou à sala segurando a manta o melhor que podia, com a garrafa de «whisky» numa mão e as roupas na outra, perfeitamente consciente de que o seu aspeto devia ser o mais grotesco, e com os olhos brilhantes de regozijo olhou para a jovem que por sua vez também o mirava. Sem se poder conter, desatou a rir. Depois, Duncan ficou sério
— Kitty — murmurou — se soubesses o que agora sinto, farias bem em fugir.
Ela olhou-o durante alguns momentos, sem medo algum, se bem que tivesse desaparecido dos seus olhos o regozijo que os fizera chispar durante os primeiros momentos.
— Não, Duncan. Não creio que agora, nem nunca, tenha de fugir de ti. Estou segura de que posso confiar no teu cavalheirismo. Sempre confiei em ti. Se não confiasse, nunca te teria amado tanto, como te amo.
— Sinto-me o menos cavalheiro que possas imaginar — disse.
Encolheu os ombros resignadamente, deixou a garrafa em cima da mesa e voltou-se de costas pondo-se a estender a sua roupa junto ao lume.
Uma vez acabada aquela operação, voltou--se de novo para a jovem, e fez uma careta. Via um pedaço • do ombro, um braço perfeitamente torneado e dobrado numa suave curva para segurar a manta cingida ao corpo, e o sangue ardeu-lhe nas veias.
— Está bem — disse pausadamente. — Se tu não queres, não terei outro remédio senão conformar-me.
Kitty ainda tinha frio. Os seus dentes batiam como castanholas.
Duncan apanhou de novo a garrafa e ofereceu-lha.
— Bebe um trago, que isto te reanimará.
Ela bebeu com certa precaução, mas mesmo assim o licor era forte e em circunstâncias normais tê-la-ia feito tossir e atrapalhar-se; mas nada disso aconteceu, se bem que ao devolver-lhe de novo a garrafa, sentisse as faces escaldarem-lhe e os olhos brilhantes.
— Encontras-te melhor? — perguntou ele.
— Oh, sim! — exclamou ela alegremente. -- Não sabe muito bem, mas reanima.
— Temos que nos acostumar a encontrar--lhe o sabor.
— De qualquer maneira isso não importa; a verdade é que me sinto melhor. Deixa-me beber mais um poucochinho.
Duncan, de novo lhe estendeu a garrafa e enquanto ela bebia outro trago, lançou ma vista de olhos para a roupa interior, estendida nas costas de uma cadeira junto da chaminé. Compreendia perfeitamente que debaixo da manta só estava... Kitty. Isto aumentou-lhe o fervor do seu sangue nas veias e dificultou--lhe a respiração. Lá fora, continuava a cair a chuva, torrencialmente.
— Parece-me que vai chover toda a noite — murmurou.
— Valha-me Deus! -- gemeu a jovem, ainda que com o rosto rosado e os olhos brilhantes. — O meu pai nos estará esperando pela manhã.
Duncan olhou-a nos olhos.
— E não servirá de nada tudo o que lhe dissermos — murmurou. — Não será?
— Não, Dunc.
— Porquê, Kitty? Aposto que de todos os modos vão pensar que...
— Porque não quero — interrompeu ao mesmo tempo que aumentava o rubor das suas faces, e desviou olhar. — Não; não está certo. Sim, quero-o. Mas não o farei.
— Porque não? — insistiu ele.
— Não é fácil explicar, querido, ainda que deverias compreendê-lo. Se não pudermos sair daqui em toda a noite, ninguém acreditará que realmente nada sucedeu; sei isso. Nem sequer o meu pai. Mas não importa. Eu sei que não minto.
Nervosa e agitada, a jovem agarrou de novo na garrafa de «whisky». Duncan fixou a garrafa e viu que havia sofrido um considerável desgaste. Sim, Kitty continuava a beber...
Mais de uma mulher havia dito que ele era um canalha sedutor. Mas não era verdade... Tinha os seus vícios e debilidades e como as mulheres lhe encontravam atrativos tinha angariado a sua fama de que não se sentia muito orgulhoso, mas jamais tomou alguma pela força; eram elas sempre, que se ofereciam.
— Então — murmurou, olhando para o lume — se é isso o que pensas, será melhor não beberes mais. Esse licor é muito forte e não estás acostumada.
Ela estava descalça e não a ouviu chegar, mas de repente, sentiu a sua aproximação. Dos cabelos molhados desprendia-se um suave perfume que lhe era característico.
— Obrigado, Duncan — murmurou ela, poisando uma mão no seu braço. — És encantador. Voltou-se com uma ponta de violência.
— Mais vale que te deites no sofá, Kitty —disse em voz suave. Estás mais cómoda e talvez possas dormir um pouco.
— Está bem, querido. Mas dá-me um beijo.
Duncan suspirou fundo, e depois mostrou os dentes muito brancos e brilhantes, num sorriso forçado.
— Já reparaste que sou um barril de pólvora e tu o rastilho? — disse tentando ser jovial, embora as suas palavras não obtivessem o desejado efeito. Mais vale que te mantenhas afastada se queres evitar a explosão.
— Sim, querido — concordou ela docilmente. — O que tu quiseres.
Foi até ao sofá e enquanto ele a olhava, deitou-se.
Durante um momento, e por mais cuidado que tivesse, a manta, ao levantar os pés abriu--se e deixou ver um bocado das pernas.
Duncan soltou um gemido e voltou-se apressadamente para o lume.
*
Amanhecia quando Duncan entrou na salita já completamente vestido, e indo até ao sofá, inclinou-se sobre a jovem, que ainda dormia e beijou-a nos lábios.
Ela abriu os olhos e sorriu.
— Bons-dias, querida! Já deixou de chover e está amanhecendo. São horas de marcharmos.
Ela voltou-se um pouco, e a manta que se havia soltado enquanto dormia, deixou a descoberto a deliciosa curva do seu pescoço, um ombro e parte dos seus seios juvenis.
Duncan beijou-a e levantou-se rapidamente. Havia passado o pior, mas não estava suficientemente seguro da sua vontade para resistir ao atrativo da jovem.
Então ouviu o ruído da porta, e voltando-se ficou a olhar para o revólver que lhe apontavam diretamente ao seu coração. Levantou os olhos e viu o rosto de André Marigny, onde se refletia a cólera assassina. Atrás dele aparecia também Etienne, o mais jovem dos irmãos de Kitty. Ninguém mais. Duncan teve a certeza de que o pai e o outro irmão estariam procurando por outro lado. Se os Margny pudessem evitar a divulgação do que pensavam ter sucedido, não hesitariam em matá-lo.
— Sabia que eras tu — disse André. — Mas desta vez enganaste-te, Rudger.
Kitty levantou-se de um salto, apertando a manta.
— Tu é que estás enganado, André gritou correndo para o irmão. — Duncan nem sequer me tocou. Surpreendeu-nos a tormenta quando... André, sem deixar de apontar ao peito do jogador, moveu a mão esquerda e deu de revés em Catherine em cheio na boca, com tal violência que a fez cair no chão.
Duncan apertou os punhos e os seus olhos pardos adquiriram a tonalidade granítica.
— Se não fosses seu irmão — murmurou sereno — matava-te por isto. Por isto, e pelo que estás pensando.
— Suponho que o farias — replicou André com um amargo sarcasmo, -- porque como todos os que se dedicam a roubar a honra dos outros, és muito hábil no uso de qualquer arma. Mas, ainda que não me possa comparar contigo, não falharei a esta distância, e és tu quem vai morrer.
Avançou uns passos e deu na irmã um pontapé nada suave com a biqueira da bota.
— Levanta-te, perdida — disse. -- Quantas vezes aconteceu isto?
Catherine, de um salto, pôs-se de pé, com os olhos chamejantes.
— Não sucedeu nada — gritou. — Nada do que estás a pensar. Mas és demasiado cretino e miserável para acreditar na decência e cavalheirismo dos demais.
André recuou até à cadeira onde estavam as suas roupas e agarrou-as com um safanão e lançou-lhas à cara.
— Veste-te — ordenou secamente. — És uma embusteira sem honra nem vergonha, mas não podes sair daqui como estás, porque toda a vergonha do teu ato cairia sobre o nosso nome. E quanto a ti acrescentou, cravando os seus enraivecidos olhos no jogador, — vais pagar caro o teu atrevimento. Um preço muito mais elevado do que te teriam pedido em casa de Madame Cloutier, ainda que duvide que tenhas recebido muito mais. Vamos!
Duncan não tinha a menor dúvida sobre os propósitos do irmão mais velho de Kitty. Por sua parte teria mostrado com toda a clareza as suas intensões, mas estava completamente desarmado e não podia tentar nada de momento. Sem dúvida tinha que o fazer.
Quando saíssem para o jardim, André crivá-lo-ia de chumbo. Estava certo disso.
Etienne continuava na porta, olhando tudo com olhos espantados. Tinha na mão uma pistola inglesa de dois canos, mas do modo pouco firme como a empunhava, se via que não tinha nenhum propósito de utilizá-la.
O jogador moveu-se para ele procurando não fitá-lo nem dar a menor impressão de se apressar. Ainda que as escassas possibilidades de salvação estivessem no jovem, não atuaria até estar a seu lado. Se pudesse apoderar-se daquela pistola...
Neste momento ajudou-o o domínio dos nervos adquirido nas mesas de jogo, já que se André percebesse os seus propósitos, não vacilaria em disparar pelas costas.
Mas estava a uns quatro passos de Etienne quando este recuou para lhe dar passagem, afastando-se para o lado.
Com os músculos tensos e os nervos a ponto de estalarem, Duncan sofreu um estremecimento que lhe percorreu toda a espinha e o deixou banhado em suor frio. Estava-se desvanecendo a sua derradeira esperança.
Ao sair, encontrou-se a dois passos de distância do jovem Marigny, e este ainda lhe apontava a pistola de dois canos. Não vacilou. Se tinha de morrer, ao menos que fosse a lutar. Mas nunca como uma rês que levam para o matadouro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

CLF074. CAP I. Encontro romântico atrasado por uma aposta

O «Saloon Carraud» estava tão concorrido com sempre, pois era ali que costumava praticar o manejo das armas a juventude elegante de Nova Orleans, se bem que naquele momento todos os assistentes estivessem quietos e encostados às paredes de tiro, olhando como fascinados o pequeno pêndulo que balanceava de um grosso painel.
Todos os ali presentes sabiam quão era difícil acertar, pois os melhores de entre eles praticavam o exercício com escasso êxito. Mas o que Duncan Rudger se propunha fazer era cortar o fio, que mal se via, e salvo alguma exceção, em opinião de todos, tal coisa entrava no campo dos impossíveis.
Claro que o podia tentar, e que alguém o conseguisse não era caso para tanta expectativa, mas por outro lado, Duncan era considerado como o melhor atirador que frequentava o «saloon», e por outro lado, tinha havido uma aposta de 500 dólares entre Duncan e o jovem Tempest, que lhe disputava a supremacia como atirador.
No meio do assombro geral, Duncan, voltou-se sorridente para o seu rival.
— De verdade, não queres tu experimentar primeiro? — perguntou.
A sua figura era alta e esbelta, e ainda que sem jaqueta, não alterava em nada a sua natural elegância.
— Não — disse Tempest, um jovem magro e distinto. Sei muito bem que só por sorte se pode cortar o fio com um só tiro a oito passos de distância. E não acredito na sorte.
— Talvez seja possível — concordou Duncan, jovialmente. — Mas pelo menos farei a prova.
— Tens fama de afortunado, Duncan. Vejamos o que há de verdadeiro nisso.
Como única profissão aceitável que restava em Nova Orleans a um jovem de elevada posição social cujo pai se tinha suicidado em plena ruína, era a de jogador, Rudger confiava na sorte, ainda que colocasse todo o seu saber para a ajudar.
Jamais fazia batota, mas valia-se de todas as vantagens que lhe proporcionava a sua inteligência, pelo que a breve pausa conseguida era um ardil para o balancear do pêndulo fosse mais lento. Não era muito, mas era alguma coisa.
— Muito bem — disse. — Vejamos.
Na volta do pêndulo, por um instante, o chumbo e o cordel permaneceram imóveis, no momento exato de iniciar o movimento na direção contrária. Ouviu-se o disparo, a bala cortou o fio e o peso caiu. No mesmo instante ouviu-se uma cerrada ovação, se bem que muitos dos presentes estivessem paralisados pelo assombro, como testemunhava a atónita expressão dos seus rostos.
Tempest não fez nem uma coisa nem outra, só apertou os lábios num gesto de despeito e contrariedade.
— Sorte! — exclamou. — Não poderia repeti-lo.
— Provavelmente não -- admitiu Duncan sorridente. — Mas tão-pouco tenho necessidade de o tentar. Perdeste, René.
— Algum dia grunhiu René Tempest enquanto tirava a carteira — encontrarei motivo para comprovar se és tão hábil disparando contra um homem, que te aponte um revólver.
— Um duelo, René?
— Exatamente.
— Isso já está muito em desuso brincou Duncan com toda a calma.
— É essa a tua resposta? — perguntou o outro jovem, enquanto lhe entregava a importância apostada, brilhando os olhos negros de excitação.
Duncan guardou o dinheiro, vestindo em seguida a jaqueta que outro jovem lhe estendia.
— Uma resposta a quê, meu querido amigo? — inquiriu então sossegadamente. Não vi que tivesse havido urna pergunta.
Rudger também estava certo de que mais tarde ou mais cedo teria que acabar por se enfrentar com aquele jovem, pois havia entre eles uma rivalidade muito mais profunda que um simples antagonismo de dois atiradores; mas se bem que não o temesse em absoluto, o resultado do encontro, sim, sabia muito bem que as consequências seriam funestas para ele em qualquer dos casos, e a prudência aconselhava-o a evitá-lo enquanto fosse possível.
René Tempest não soube que responder. Ainda que burlado, não tinha nenhum motivo que justificasse diante dos presentes um desafio, e se bem que todos sabiam perfeitamente porque o fazia, a versão oficial seria a de que não soube perder, o que não lhe convinha.
— Por agora és tu quem tem os triunfos — grunhiu. — Aproveita a sorte enquanto a tens, que talvez não dure muito.
— A sorte é caprichosa. Sempre se disse - concordou Duncan. — E agora, senhores, peço--lhes que me desculpem. Tenho que me ir.
Despedindo-se dos amigos, abandonou o «saloon» depois de recolher o seu chapéu e ao sair para a rua, viu que o tempo ameaçava tormenta. Há três dias que estava assim, mas se até agora não lhe importava, neste momento temeu que estalasse o temporal.
Com um gesto preocupado tirou o relógio de oiro e viu que eram sete horas, e imediatamente começou a andar depressa. Aquela estúpida aposta no «Carraud» lançada por Tempest, tinha-o atrasado e o tempo era pouco.
Poderia ter-se valido de um carro de aluguer, com o qual lhe bastariam uns minutos para chegar ao lugar do encontro, mas havia que contar com a possibilidade de que ela se tivesse adiantado, e em tal caso que o cocheiro a reconhecesse. A notícia correria por toda a cidade, o qual poria fim aos seus encontros o que seria uma fonte de desgostos para ela, e provocaria inevitavelmente um encontro com René Tempest. Por todas estas considerações preferiu alugar um cavalo, ainda que perdesse tempo a dirigir-se ao estábulo e esperar que lhe selassem o animal.
Havia um próximo do «Teatro d'Orleanês», em Orleanês Street, entre Bourbon e Roal. O empregado crioulo conhecia-o e arranjar-lhe-ia num momento o que desejava. Um magnífico alazão de fina estampa, bem alimentado, com o que levou muito pouco tempo a sair da cidade.
Ao internar-se num pequeno bosque, Dum-can viu imediatamente o coche e a esbelta silhueta que saiu dele para ir ao seu encontro.
— Duncam — ouviu-a lamentar-se ao mesmo tempo que ele desmontava. — Estou à uma eternidade esperando, e já, julgava que não
Sabia como acabar com as suas reprovações, e agarrando-a nos seus braços, beijou-a nos lábios com calor e paixão.
— Tempest entreteve-me no «Carraud» —explicou depois. E acrescentou sorrindo: --- Esse teu apaixonado está sedento do meu sangue.
-- Duncan! — alarmou-se ela.
— Oh, não te preocupes! O desafio desta vez ficou reduzido a um simples exercício de tiro ao alvo. Confiava que a exibição de pontaria esfriaria um pouco as suas ânsias de bater-se, mas não foi assim. Claro que não lhe reprovo isso. Trata-se de me roubar o teu carinho...
— Que farias? — sussurrou ela.
— Matava-o! — afirmou Duncan, convicto.
Os olhos da jovem brilharam de júbilo.
— Isso era o que eu esperava que dissesses! declarou ela.
Duncan olhou-a e o seu sorriso foi urna lástima apesar de todos os seus esforços.
— Sem dúvida — murmurou. — Julgo que procederias acertadamente casando-te com o René. É o que deseja a tua família; é o melhor de Nova Orleans e não me parece mau rapaz, e para mais está apaixonado por ti. Poderias amá-lo, se quisesses.
— Não. Não podia amá-lo e tu sabes --- calou-se e ele pôde ver grossas lágrimas atrás das suas pestanas. Depois prosseguiu em voz baixa e um pouco rouca por reprimida paixão: —Duncan, sim, sim, não me amas, foi somente um jogo mais para ti e já estás cansado, diz--mo claramente. Eu... — e rompeu em soluços.
Duncan estreitou-a contra si e fê-la descansar no seu peito.
— Kitty — murmurou. — Kitty.
De repente, com fúria, Catherine agarrou--lhe os braços.
— Não é possível — disse. — Eu não renunciarei a ti. Se de verdade me amas, caso-me contigo ainda que se oponha toda a minha família. Ainda que tenhamos que fugir...
Duncan moveu a cabeça como a tentar aclarar os seus pensamentos.
— Isso temos que pensar um pouco.
— Porquê? — perguntou Kitty, com a voz tensa e insistente. — Eu amo-te. Não existem leis contra o amor. Não é um crime. Permite-se que se casem as pessoas que se amam.
— Não basta só amarem-se, Kitty. Eu... Bem, a tua família tem razão ao considerar--me um indesejável. Não posso sustentar-te. Não já com as comodidades e luxos a que estás habituada, mas nem sequer decentemente.
— Duncan — murmurou a jovem com a voz tremendo pelas lágrimas, estás tentando dizer-me que me não amas?
— Isso não... — disse o jogador franzindo o cenho — mas
— Mas o quê, Duncan?
— Não posso arrastar-te para a vida que levo. Quanto tempo julgas que a sofrerias sem me odiar? Tu és como urna rica porcelana, formosa e frágil e que precisa do suporte apropriado. Uma grande casa com amplas janelas. Duas dezenas de negros que te sirvam. Um coche para te levar à igreja. Vestidos ricos, as melhores sedas, com a suavidade digna de acariciar a tua pele. Dinheiro para os teus caprichos, enfim, tudo o mais que pode desejar o teu coração.
Catherine passou os braços pelo seu pescoço, e levantando-se na ponta dos pés, beijou-o nos lábios.
— Tonto? -- murmurou. — O dinheiro não compra o amor. Vamos dar um passeio. Está-mos muito próximo e pode passar alguém. Duncan olhou para o céu ameaçador e franziu o nariz.
— Terno que não seja prudente. Está ameaçando tormenta e...
Ela agarrou-o por um braço e encaminhou--se para o coche.
— Disseram-me uma infinidade de vezes que eras um sem-vergonha e um oportunista — disse com um sorriso que desdizia a crueldade da frase, dita carinhosamente e com jovialidade.
Rudger apanhou as rédeas do alazão, e atou-o à parte detrás do carro. Depois voltou-se para a jovem e fez uma divertida reverência.
— Temo que tenham exagerado os meus pobres méritos perante ti, querida — disse enquanto a ajudava a subir para o carro.
Ela sorriu-lhe.
-- Oh, não — opôs-se. — Creio, antes pelo contrário, que os reduziram em grande parte. Quem me informou teve sempre muito em conta a castidade da minha inocência de donzela, e suavizou muito as tuas aventuras.
Havia riso na voz dela e Duncan fez uma careta. Depois apanhou as rédeas e fez trotar o garanhão.
— Não me parece que a minha reprovada vida te preocupe muito — comentou com certa surpresa.
— Para ser sincera encanta-me a tua malandrice... como coisa passada — lançou-lhe um olhar fulminante antes de acrescentar: - Mas arrancava-te os olhos se soubesse que atualizavas algumas dessas aventuras.
Agora foi Duncan quem riu e o fez de vontade. Conduziu pelo caminho junto ao rio, afastando-se para o norte de Nova Orleans. Um pouco mais adiante viram uma casa com especto de abandono.
— Não era esta a quinta de recreio dos Sompayrac? — perguntou Kitty.
— Era.
-- Morreram ali, não é verdade?
— Na Primavera passada. Febre-amarela.
--- Que espantoso!
Quando a casa ficou para trás, oculta entre as rochas, a jovem soltou um suspiro de alívio.
— Horroriza-me essa doença — murmurou.
— Tens muita razão. Mudemos de assunto.
Ela encostou-se ao seu ombro, e Duncan observou as harmoniosas linhas do seu rosto. O rebelde narizinho; a boca, grande e generosa como uma chama escarlate sobre o fogo, de tom levemente mais pálido do que o dos seus cabelos, e os olhos grandes de um escuro violeta, muito abertos corno alguns pensamentos, e adornados por compridíssimas pestanas. Kitty era muito bonita, mas os olhos constituíam o maior dos seus encantos. Eram únicos! Nunca vira outros tão belos.
Porque não me fazes mimos, Duncan! --- pediu mimada.
— Hum! — fez ele. -- Não tento.
— Tonto.
O jovem inclinou-se dando-lhe um rápido beijo.
— Espera só que encontre um lugar onde possa parar o carro fora do caminho e a coberto dos olhares indiscretos, e já verás.