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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CLF074. CAP IX. A menina da cidade torna-se pioneira

Como ainda empunhasse o rifle com a mão direita e com a esquerda os alforges de Travis, Duncan limitou-se a pestanejar, tentando desvanecer o que julgava miragem. Mas não se tratava disso. Kitty estava ali, até muito mais real que o resto das pessoas que a rodeavam, nem sequer se preocupando em as identificar.
De repente, ela avançou para ele em passo incerto e deu conta de que o corpanzil do velho Brown se encontrava a seu lado, empurrando-a para a frente.
— Vamos, menina Kitty — disse o velho rancheiro. — Aí o tem! Que espera para correr para os seus braços? Demonstre-lhe como estamos contentes em o ver. Você pode fazê-lo melhor que ninguém.
E ela correu a deitar-lhe os braços ao pescoço.
Então, ao senti-la pôr-se nos bicos dos pés para o beijar nos lábios, deu conta de que não a tinha esquecido nem um só momento, desde a última vez que a vira. E, ainda, que aquele beijo teve o sabor do pó alcalino que lhe chegava dolorosamente aos olhos e ao nariz, à garganta e aos pulmões. Tudo isto levou-o a compreender que a amava, como jamais qualquer amara outra mulher.
Deixando cair os alforges e lançando o rifle para o rancheiro, apanhou a jovem pelos redondos ombros, afastando-a para a mirar.
Pequena! — murmurou, roucamente. — Não vez que estou horrivelmente sujo!
Ela sacudiu a cabeça, incapaz de falar, e duas grossas lágrimas lhe rolaram pelas faces.
Duncan recreou-se a contemplá-la. Era, como já o pensara uma vez, muito bonita. A um homem doía-lhe o coração só de a olhar, sobretudo se havia uma eternidade que não via nada de feminino.
— Como... como estás aqui? — murmurou. E tentou convencer-se: — Devo estar sonhan-do, concerteza!
— Vamos, rapazes, será melhor que entreis. Nas margens do rio pode ter ficado algum índio e a cena é demasiado bonita para ser interrompida por um balázio.
As palavras do rancheiro fizeram Duncan voltar à realidade e, desprendendo-se suavemente dos braços que o aprisionavam, conduziu Kitty para o interior da cabana.
A cabana grande era, em parte, casa de habitação e de comércio. Atravessaram-na para chegar ao lugar destinado à residência, uma habitação feita de grandes paredes de troncos, com uma chaminé, móveis rústicos e um divã. Havia adjacentes, outros quartos peque-nos para dormir, e sala-de-estar.
O corpulento rancheiro, cujas barbas brancas não precisavam da ajuda do pó para lhe darem o aspeto de profeta do «Velho Testamento», não deu tempo aos jovens para dizer urna só palavra.
— Vá à cozinha e lave a cara, rapaz — disse ele a Duncan. — Não economize água porque tivemos tempo de nos abastecer e a ocasião bem o merece. E dar-lhe-ei uma camisa lavada. Tal como se apresenta agora, perece mas é um espanta-pardais.
Duncan não o deixou repetir, e quando voltou à sala grande, encontrou-se com os olhos sorridentes de quantos ali se encontravam, mas não viu Kitty.
— Em cima, sorriu Brown, fazendo um gesto com a sua grande cabeça, para a escada. — Mandei-a subir porque ali, não os estorvarão nenhum desses diabos. Devem ter muitas coisas para dizer, e também nós estamos ansioso por notícias, que Travis ou os outros nos darão sem nos afogarmos em suspiros. E não te preocupes com os índios. Tenho homens de sentinela que darão o alarme quando eles se aproximarem.
Rindo, Duncan, subiu rapidamente as escadas. Topou com uma sala ampla de tetos baixos e inclinados, de modo que só no meio era possível permanecer direito, de pé. Ali o esperava Kitty.
-- Duncan! — murmurou ela, receosa.
O jovem avançou devagar para a jovem, e agarrando-a pela cintura, olhou-a nos olhos.
— Devo estar sonhando — repetiu.
Ela rodeou-lhe o pescoço com os braços e apertou-o contra o peito.
Duncan com o dedo debaixo do queixo, obrigou-a a levantar a cara cheia de lágrimas.
— Sim, é um sonho disse muito a medo, — Um sonho maravilhoso.
Inclinando-se, beijou aqueles lábios que responderam à carícia com desespero.
— Como é possível estares aqui? — perguntou, bastante tempo depois.
Catherine, com a loira cabeça apoiada no ombro, demorou um momento a responder:
— Meu irmão não morreu — disse por fim, — pelo que nunca deixei de dar graças a Deus. Esteve bastante mal, isso sim, mas decorridos que foram quinze dias, o perigo havia passado. Compreendi, então, que seria eu quem morreria se tivesse de renunciar a ti para sempre. Amei-te toda a minha vida, Duncan! Desde que vivias com os teus avós e eras o rapaz mais bonito e mais arrogante de toda a cidade. Quando nem sequer davas conta da minha existência, porque tinhas já quinze anos e eu não completara ainda os oito.
Duncan apertou-a ainda mais.
— Querida! — murmurou.
— Desde que partiste que vivia como uma sonâmbula — continuou ela, muito lentamente, — sem responder muitas vezes quando me falavam. Até que não pude resistir mais.
— Fugiste de tua casa? — perguntou Duncan, alarmado.
— Não foi necessário — respondeu ela, baixando a dourada cabeça e desviando o olhar.
— Queres dizer que o teu pai te deixou?...
Duncan não saía do seu assombro.
— Disse-lhe que tu... que eu... Que ia ter um filho — terminou a voz de Kitty, apressadamente.
Os olhos parados de Duncan abriram-se de espanto. Ela levantou a cabeça e os seus enormes olhos cor de violeta olharam-no de uma maneira tímida e divertida.
— Naturalmente, não é verdade. É surpreendente a facilidade com que todos acreditaram nessa mentira quando jamais aceitariam a verdade do que se passou realmente na casa dos Sompayrac. Quando lhes disse que queria reunir-me a ti, deram-me uma grande quantidade de dinheiro e puseram-me no barco, muito contentes de se verem livres de mim tão facilmente. Tinham que salvar a honra da família — terminou lenta e amargamente. — Isso era o importante.
Mas Duncan não a ouvia. Estava rindo às gargalhadas. Depois, inclinando-se para ela, beijou-a apaixonadamente.
— O que não compreendo, é como conseguiste dar comigo.
Catherine levantou a cabeça e um brilho travesso bailava-lhe nos olhos.
— Foi o capitão Wilson quem mo disse! De princípio não queria fazê-lo, mas a história do menino!...
Rudger voltou a rir-se.
— Pequena mentirosa — disse baixinho, carinhosamente.
Mas de repente pôs-se sério. Acabava de compreender, que com aquilo, a jovem tinha fechado as portas de sua casa.
— Que tens, Duncan? — murmurou Kitty, que tinha notado a súbita mudança de expressão. Será que já não me amas, ou... que nunca pensaste casares-te comigo?
— Isso não! — disse franzindo o cenho, —mas terá que passar um ano, antes que nos possamos casar, visto só nessa altura poder apresentar a minha demissão nos rurais. Estás a compreender? Entretanto, que farás?
As mãos de Catherine acariciaram os cabe-los húmidos, e recostou-se no seu peito com um suspiro de alívio.
— Temi... Temi... Oh, Duncan! Que susto me pregaste! — murmurou.
— Eu tinha pensado ficar nestas terras quando terminasse o meu compromisso. Mas, compreendeste já, que isto não é sítio para ti? Demasiado selvagem. De qualquer modo...
— Mas se me encanta! — interrompeu ela. -- Os Brown são umas pessoas encantadoras e já combinámos que ficarei com eles enquanto cumprires o teu compromisso. Depois o senhor Brown tem um pedaço de terra maravilhoso, e no-lo venderá por pouco dinheiro! Todos nos ajudarão a construir a casa e quanto necessitemos! Compraremos algum gado e seremos rancheiros! Não é magnífico?
Duncan afastou-a um pouco para podê-la mirar com gravidade.
— Estás a falar a sério?
Ela dirigiu-lhe um sorriso luminoso.
— Claro que sim! Se é isso que desejas!
— Queres dizer que não te assustam os índios, o ar selvagem desta região e a sua solidão?
— O senhor Brown diz que o Exército acabará por empurrar os índios para longe daqui e que esta é a melhor região ganadeira do mundo. Gosto do exótico destas paragens, e tu és a única companhia de que necessito! Sem contar com os Brown que são uns vizinhos encantadores.
Rudger voltou-se, dando uns passos enquanto esfregava a nuca com as mãos. Tudo o que Kitty acabava de dizer era a realização do sonho que tinha começado a acariciar desde há algum tempo, mas não lhe parecia que a sua realização fosse possível! Estava muito confuso.
— Dás conta de que tudo isto é muito diferente daquilo a que estás acostumada? A vida é rude na fronteira, especialmente para uma mulher.
Ela aproximou-se e levantando as mãos até aos ombros começou a mexer no colarinho da camisa!
— Tenho quase um ano para aprender, Duncan — murmurou. — Comecei-o já. A senhora Brown é muito amável e deixa-me que a ajude na cozinha! Diz que aprenderei depressa e, além disso, eu gosto!
Os olhos de Duncan adquiriram um tom mais claro.
— Estás ciente de que é isso que queres? — perguntou, enlaçando-a de novo.
— Sim — murmurou ela com os olhos violeta rasos de lágrimas, que significavam a felicidade que lhe ia na alma.
Contemplando a esbelta mulher que tinha nos seus braços, Duncan sentiu de repente uma imensa alegria! As esgotantes cavalgadas, o cansaço, a dor... tudo desaparecera! Puxou-a carinhosamente para si, e o seu musculoso corpo relaxou-se numa sensação de ternura. Inclinou-se sobre ela e beijando-a longamente.
*
Inclinado como estava para não bater com a cabeça no teto, e apalpando os objetos para evitar bater nos móveis velhos, Duncan dirigiu-se para a claraboia, cuja estreita abertura deixava entrar a luz, graças ao brilhante luar que fazia.
Ao aproximar-se mais, viu uma sombra que vigiava e foi notado ao mesmo tempo, porque se ouviu mexer.
— Dunc? — perguntou lentamente a voz grossa do rancheiro.
— Sim. — disse Dunc.
— Despertou de um bom sonho, hein? Não há dúvida de que o necessitava.
— Com efeito. Agora estou completamente descansado. Que se passa?
— Índios! Creio que se propõem fazer-nos uma visita.
— Tinha ouvido dizer que os peles-vermelhas não atacavam de noite.
— E assim é, regra geral! Não gostam de morrer depois do pôr-do-sol. Segundo as suas crenças, o espírito do homem perde-se na escuridão. Mas fazem muitas exceções, de modo que não se pode admitir urna regra fixa.
— Onde estão?
— Ali. Perto do rio.
— Entre as árvores?
— Alguns estão muito mais próximos! Se fixares, ao fim da cerca do curral, onde faz esquina, verás uns vultos escuros que se movem muito lentamente. Esses diabos arrastam-se corno répteis, mas neste terreno plano e com esta lua, as suas manhas não lhe servem de grande coisa! Tive sempre a precaução de ter um amplo espaço descampado em volta da casa, e agora verifico o acerto desta medida, ainda que umas árvores sejam muito decorativas para tão desoladora paisagem. Nunca o esqueças, Aduncam, se é que aqui te queres instalar.
Mas Aduncam já não o ouvia. Ao olhar na direção que o rancheiro lhe havia indicado, pareceu-lhe ver fazer lume, e agora tinha-se repetido essa luminosidade. Estava bem certo do que vira.
— Há urna luz ali — disse. — Vi-a brilhar duas vezes. É como se alguém levasse um archote ou coisa parecida, oculta de alguma maneira!
— Quê!
A explosiva exclamação de Brown produziu-lhe um sobressalto.
— Vi muito bem — afirmou. — Está ali, até...
— Atenção, rapazes! — ouviu-se o vozeirão do rancheiro, interrompendo-o. — Vão atacar-nos com flechas incendiárias. Disparem contra todo o vulto suspeito. Rápido, não os deixem aproximar-se, ou assam-nos a todos aqui dentro.
Duncan sentiu que o coração lhe saltava do peito e começava a bater loucamente. Iam atacá-los com fogo. Se conseguissem incendiar a casa, a sorte de quantos ali estavam era bem definida. Ninguém escaparia. Nem as mulheres, nem as crianças, nem... Kitty!
Voltando-se, correu como um louco para a escada, sem preocupar-se com a possibilidade de tropeçar com alguma coisa ou cair pela escada abaixo, e, se isto não aconteceu, foi porque a luz produzida pelo tiroteio a iluminou, ainda que fugazmente, nesse mesmo precioso momento.
De um salto, desceu as escadas para se lançar pela janela mais próxima aberta para o rio.
Ali estavam postados dois homens, disparando contra as escuras sombras que corriam em ziguezague com incrível rapidez e agilidade, tentando aproximarem-se o suficiente da casa, para lançar as flechas.
Aduncam ficou de pé, claramente iluminado pela luz da lua que entrava, o qual, em lugar de o preocupar, pelo risco a que se expunha, lhe causava grande satisfação. Deste modo, banhado pelo luar, via perfeitamente o ponto de mira e assegurava-lhe em caso de necessidade uma pontaria como se fosse dia claro.
Mas não fez fogo. A sua atenção n ao estava concentrada nas fugazes sombras que se aproximavam da casa correndo como gamos, mas sim, no céu, com uma febril ansiedade.
De repente aconteceu o que estava temendo. Algo como um fogo ou estrela fugaz se elevou em círculo, no céu, descrevendo uma ampla e lenta curva.
Aduncam deitou a arma à cara, seguindo a trajetória da luz, e fez fogo.
No momento sentiu que o coração lhe paralisava. Tinha falhado e não tinha tempo de repetir o tiro.
Com efeito a flecha incendiária ia deixando um rasto de chispas, e desapareceu do alcance do seu campo visual.
Rudger afastou os dois homens colocados em frente da janela, e saltou para fora, sentindo a esperança voltar.
Um golpe de vista lhe bastou para ver a chama cravar-se em baixo, na parede, e no mesmo instante estava lá. Com um golpe da coronha da espingarda, descravou a flecha e afastou-a a pontapé. Feito isto, voltou novamente a preparar a arma.
Uma linha de faúlhas nas margens do rio indicou aos atiradores a sua localização e uma chuva de balas caiu sobre gele, cravando-se na parede.
Os índios estavam longe e eram francamente maus atiradores, mas ainda assim, o risco era grande devido à quantidade de disparos que fizeram.
E de repente, uma nova luz cruzou o ex-paço. Como se fosse um sinal, os tiros cessaram instantaneamente do lado do rio, como se a totalidade dos peles-vermelhas seguissem o voo da seta.
Mas Duncan nem sequer o notou. Balanceava ligeiramente, mas deitando a arma à cara, seguiu a enorme curva feita pelo fogo, e contendo a respiração, no instante preciso, fez fogo.
Desta vez produziu-se uma labareda, pequenos estilhaços de fogo saltaram em todas as direcções e a curva chamejante foi num ápice interrompida.
Um agudo clamor se elevou do lado do rio, e nesse momento pareceu acender-se uma linha de lume em toda a margem do rio, quando uma série de rifles começaram a disparar sobre Duncan, claramente iluminado pela luz do luar.
O jovem não tentou voltar pela janela. Tinha uma esquina muito mais próxima e com um salto escondeu-se nela, já que parecia que os índios estavam todos concentrados junto ao rio e a totalidade dos tiros partiam dali. •
Outra janela aberta lhe serviu para voltar ao interior e na sala encontrou Kitty que lhe deitou os braços ao pescoço, apertando-o contra ela.
— Não... não estás ferido? — perguntou-lhe com ansiedade.
Ele afastou-a carinhosamente.
— Nem um arranhão — sorriu.
A jovem começou a soluçar.
-- Oh, Dunc! Por um momento julguei que...!
— Vamos, que é isso? — disse ele acariciando-lhe o cabelo ternamente. — És tu que queres ser a mulher de um pioneiro?
Kitty levantou o choroso rosto para ele, debilmente iluminado pela luz da lua que entrava através das janelas, e fez um patético esforço para sorrir.
— Assim estás melhor — disse.
— Serei valente.
— Uma coluna dirige-se para aqui ouviu de repente o vozeirão do velho Brown, vindo de um canto... — São os exploradores que vêm em nosso auxílio!
Depois de um momento de paralisação e assombro, os defensores da cabana começaram aos gritos e hurras de alegria, saltando abraçados uns aos outros.
— Dunc! Dunc! — gritou Kitty, agarrando-se-lhe ao pescoço. — Estamos salvos!
O jovem não disse que a coluna tinha que perseguir os índios depois de um breve descanço, e que ele formava parte desse coluna. Não quis, também, desvanecer a sua alegria, e devolveu-lhe o abraço, contente por vê-la tão feliz.
De qualquer modo, tinha esperança no futuro. Sem dar conta, militava já definitivamente nas filas daqueles homens da fronteira, e comungava com eles nas suas ideias sobre a riqueza, formosura e futura grandeza daquela terra.
Sabia que expulsar os índios seria uma tarefa árdua, que custaria muito sangue e dinheiro, mas o resultado final não podia ser mais do que uma desproporção de forças existentes entre ambos os adversários. O exército acabaria com a brava e inútil resistência dos índios, e então, toda a fronteira ficaria aberta à colonização. As possibilidades que isto dava eram enormes. E tanto Kitty como ele estariam na vanguarda, contribuindo com o seu esforço para a prosperidade e riqueza do novo território.
Rodeando a jovem pela cintura, num comprido amplexo, apertou-a com paixão contra o másculo corpo de atleta, ao mesmo tempo que beijava os ternos lábios que se lhe ofereciam no mesmo tom apaixonado numa amorosa e mútua correspondência.
FIM

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

CLF074. CAP VIII. Reencontro inesperado

— Não o entendo — terminou, pondo ponto final no relato que tinha feito ao seu amigo enquanto cavalgavam.
— Porque não sabes que foram os sioux que mataram o único filho de Semple — disse Travis pensativo. Essa foi possivelmente a razão por que a mulher fugiu com o outro. Odiava esta terra e os índios e creio que também o Exército. Pediu ao tenente que deixasse tudo e se fossem daqui, mas ele não quis. Ao chegares tu, com os teus ares da cidade, odiou-te por representares o que ele não será nunca. Mas agora, ao matares os sioux, todos te aceitaram como um igual, e Semple também. Compreendes agora?
— Sim.
Não é que o entendesse muito bem, mas havia demasiado calor para prolongar a conversa. Era a hora da sesta e os homens cavalgavam inclinados sobre as montadas, que tinham chegado quase ao limite das suas forças.
Rudger pensou que tinha conhecido muitas fadigas anteriormente, mas nada se comparava à de agora, que o fazia baixar os ombros como que ao peso de uma carga insuportável.
Existe o cansaço da carne e é suportável; há o cansaço dos ossos, mais cruel, mas pode ser sofrido; mas o cansaço final, o dos nervos e do cérebro, quando se sente que em qualquer momento se pode cair inconsciente da montada, essa tortura é pior, a menos suportável. Aquela fase do cansaço era a que estava sofrendo Duncan, a cavalo desde a madrugada do dia anterior quase sem interrupção. O rasto continuava firme como no primeiro instante e em breve fez uma pronunciada curva para Este. Rudger tratou de sacudir a fadiga e a sonolência, quando Travis o advertiu.
— Que pode significar isto? — perguntou.
— Não estou muito seguro, mas não gosto nada — grunhiu o seu amigo com um gesto preocupado. — Se seguirmos assim, iremos diretamente ao posto de Brown.
Duncan concordou alarmado.
— Julgas que tentaram enganar-nos para atacar o posto?
— Pode ser. Não te parece que devíamos enviar alguém buscar a companhia?
O jovem não duvidou. Não podia correr o risco se havia a mais ligeira possibilidade de que os índios se propunham atacar o posto comercial de Brown. Um rancheiro que se tinha estabelecido naquela formosa paragem onde o rio Smoky Hill descia das pradarias altas até ao enorme vale do Missouri, tendo com ele dois irmãos e quatro filhos, sua esposa, a esposa de um dos seus irmãos e dois filhos, além de sete netos, de seis anos o mais velho. Tinha também quatro vaqueiros contratados, e seguramente tinham-se lá refugiado alguns dos colonos das imediações, mas n5,0 bastavam eles para conter mais de uma centena de índios que calculavam que tinham nela frente.
Voltando-se sobre a sela olhou o explorador mais próximo. Um homem magro e barbudo, cujo rosto era urna máscara de pó amassado pelo suor e com cicatrizes húmidas que indicavam a boca e os olhos. Deu conta de que todos estavam nas mesmas condições e compreendeu que pior aspeto devia ele ter.
-- Queres voltar e tentar alcançar o capitão, Linus? — perguntou-lhe.
O homem mostrou os dentes, também sujos de pó.
— Claro! — disse. — Trá-lo-ei, companheiro; confia em mim.
— Bem vês que parecem querer atacar o posto de Brown. Diz-lhe assim.
— Fica descansado.
O homem fez voltar o cavalo e agitando o chapéu como despedida, afastou-se, rápido.
A proximidade de uma das granjas espalhadas pelo território, viram o fumo de muito longe, e ao chegar perto dela viram que tanto a casa corno o curral, eram outras tantas fogueiras imensas.
O pelotão fez alto, os homens baixaram das suas montadas e estes afastaram-se com as cabeças baixas; e o suor corria-lhes pelos flancos como pequenos riachos de água salpicada de pó.
Os exploradores examinaram detidamente os arredores e reuniram-se para trocar impressões, enquanto um deles segurava os cavalos.
— Não havia ninguém e os diabos vermelhos apenas pararam para pegar fogo às construções — resumiu Travis.— Deve haver umas duas horas que isto aconteceu.
— Julgas que deram conta de que são seguidos? — perguntou Duncan.
— Não. Não o creio. Ainda que suponha que não tardarão em descobri-lo.
— Parece ser certo que se dirigem para o posto, não?
— Disso, não tenho a menor dúvida.
— Então, que lhes parece se abandonássemos a pista que estamos a seguir e nos dirigíssemos para lá, diretamente?
Todos estiveram de acordo e, montando os cavalos, recomeçaram a marcha, desviando-se agora das marcas que estavam seguindo.
Três horas mais tarde, subiram uma pequena encosta que dominava o vale no meio do qual corria um fio prateado do Smoky Hill, e em frente deles e do rio apareciam umas sólidas construções. Era o posto de Brown! Ou o que restava dele.
Havia já algum tempo que ouviam os tiros e viam o fumo. Agora distinguiam com toda a clareza o círculo móvel que rodeava a maior das casas, e de todos os buracos saíam nuvenzinhas de fumo, enquanto as chamas consumiam as restantes habitações.
Os dez homens observavam o espetáculo, mantendo o brusco silêncio.
Duncan voltou-se para os seus companheiros e deu conta, com dolorosa clareza da sua completa impotência. Que podiam fazer eles, sozinhos, contra uma centena de arrojados e bem armados guerreiros vermelhos.
— E agora, que fazemos?— perguntou roucamente, com a absurda esperança de que aqueles veteranos lhe pudessem sugerir um plano de ação que permitisse afugentar os índios.
Mas todos se mantiveram em silêncio.
— Nada! Maldita sorte! Nada! — resmungou raivosamente Travis, ao fim de uma interminável pausa. — Só esperar. Esperar e rezar para que os nossos cheguem a tempo.
— Se ao menos pudéssemos estar lá, — murmurou em voz sumida um dos homens.
Aquilo fez conceber a Duncan alguma esperança. Efetivamente, se eles pudessem lá chegar, todos bem armados como estavam, e magníficos atiradores, aumentariam consideravelmente as possibilidades de resistir até à, chegada da coluna, de socorros.
Então fixou-se na curva do rio e no arvoredo que o marginava. Atuando com cuidado, ocultos pelo arvoredo, podiam chegar muito próximo da casa, e então...
— Porque não tentamos chegar lá? — perguntou. — Pelo rio poderíamos chegar sem sermos vistos.
As suas palavras não pareceram despertar muito interesse, e os outros exploradores nem sequer o olharam.
— Os índios não são parvos, Duncan — explicou Cameron, passada uma eternidade. Esperam-nos ali e devem ter o rio vigiado.
Mas Duncan não se resignava. Recordava o corpulento Brown, um homem ruidoso e alegre que estava sempre a rir. Os outros que viviam com ele e especialmente as mulheres e as crianças. Só lá tinha estado uma vez, mas agora podia evocar com clareza, o rosto de cada uma das pessoas. E também os corpos ensanguentados dos Milier.
Vendo o número de selvagens que atacavam a cabana, cujos gritos chegavam até eles bastante nítidos, Duncan compreendeu perfeitamente que os defensores não poderiam resistir a uma acometida séria. Por muitos colonos que lá se encontrassem refugiados, não podiam ser mais que uma vintena de homens, e tinham pela frente, mais de cento e vinte selvagens dos mais ferozes de todo o Noroeste.
— São sioux? — perguntou, distraído.
— Sioux, araphoes e cheyennes do Norte e do Sul — replicou também distraído, um dos veteranos colonizadores que sabia distinguir umas tribos das outras, pelos seus adornos e pinturas.
— O capitão Henely e o resto da companhia não podem chegar antes de amanhã — continuou, dando voz aos seus pensamentos.
— Ou talvez mais tarde — disse Travis.
-- Julgas que podem resistir, até lá?
— Não. Não o creio.
— E vamos permanecer aqui, de braços cruzados, vendo como degolam toda essa pobre gente?
Cameron voltou-se para ele com rosto desfigurado.
— E depois! Que podemos fazer? — gritou, fazendo gestos de uma forma desordenada. — Vamo-nos lançar os dez contra essa horda de selvagens e cuspir-lhes na cara?
Duncan nunca o tinha visto daquela maneira, mas não se surpreendeu. Havia motivos para que aquele homem ou o mais calmo perdesse as estribeiras. Sabia que teria sorrido tranquilamente e seria um dos primeiros a defender a cabana se tivesse possibilidades. Era o não poder fazer nada que lhe fazia proceder daquela maneira.
— Alguma coisa poderíamos tentar — insistiu de novo Duncan.
Travis olhou-o com os olhos injetados de raiva. Era difícil reconhecer o habitualmente calmo rapagão, naquele rosto transfigurado pela angústia e pela ira, e coberto por urna máscara de terra. Sobre a sua camisa empa-pada de suor, tinha-se aderido o pó, que se convertera em barro, desde as botas ao cha-péu. Mais parecia que se tinha rebolado na terra vermelha do caminho.
— Tu diriges esta expedição, Duncan — disse com voz enrouquecida, realizando um poderoso esforço para conter a cólera e a im-paciência. Dá as ordens.
— Isso é um disparate, Travis. Qualquer de vocês é muito mais capacitado. Precisamente , por isso, lhes peço conselho. Mas alguma coisa, temos que fazer.
Cameron estava fora de si e os seus nervos estalaram.
— Sim? Tu és muito esperto, muito valente e o melhor de todos. Não foi isso o que disseste ao capitão? E mataste três sioux; não? Com certeza que podes espantar esses cento e trinta. Não tens mais do que aparecer e gritar que estás aqui.
Duncan também estava alterado, e o seu melhor amigo carregava na velha ferida que acabou com a sua revolta, se é que a havia.
— Não sou nada disso que dizes, mas tão-pouco tenho água nas veias e não posso permanecer aqui cruzando os braços, vendo como assassinam essa pobre gente — gritou. — Se ninguém quer vir comigo, irei sozinho...
— Muito bem. Talvez te sintas mais feliz quando a tua linda cabeleira estiver colocada à cintura de um desses demónios.
— Um momento! — interveio um maduro e veterano colono.
— Todos estamos dispostos a tentar ajudar os Brown, se isso for possível. mas não permitiremos disparates. A tua aparição denunciar-nos-ia a todos, e não queremos ser caçados como coelhos, sem proveito para ninguém.
Duncan olhou-os a todos desesperadamente e o seu cérebro procurava um plano que os convencesse, e de repente, assaltou-o uma ideia fantástica, tão fantástica e descabida corno a sua mente.
— Multo bem! — disse. — Creio que poderemos espantar esses selvagens, pelo menos pelo tempo necessário até chegarmos à casa. Estão dispostos a ajudar-me?
Os nove exploradores olharam-no entre incrédulos, receosos e irritados.
— Que nos propões? — perguntou um.
— Que se passaria se os pele-vermelhas vissem levantar-se por estas colinas uma grande poeirada, e começassem a aparecer cavaleiros lançados a todo o galope sobre eles, gritando e disparando? — perguntou excitado.
As suas palavras vincaram nas faces dos exploradores urna expressão de incredulidade.
— Recuariam sem dúvida, velo menos até saberem o que é que lhes caía em cima — prosseguiu Rudger, já que todos ficaram calados.
— E essa poeirada? — perguntou Travis passada a sua perplexidade.
— Todos temos laços. Podemos retrocede: e arrancar arbustos que amarraremos e depois arrastaremos atrás de nós; levantarão muita poeira. Enquanto cavalgamos ir-nos-emos escalonando de modo que os índios nos vejam aparecer um a um, como se nos tivéssemos adiantado ao grosso da coluna. Abandonaremos os arbustos antes que possam ser vistos depois gritando e agitando os rifles, iremos direitos ao inimigo vermelho.
O mais completo silêncio se seguiu à explicação de Duncan, e durante ela, ouviram-se claramente os gritos e o tiroteio que continuavam a vir do rancho.
— Os índios verão a poeirada, a qual o alarmará — continuou Rudger, acaloradamente no seu esforço de comunicar aos companheiros o seu entusiasmo — e a seguir, verão aparecer o homem que se lançara direito eles. Atrás deste continuará a poeirada e surgirá outro, e outro e outro... somos dez. Um a um e com intervalos certos, o primeiro pode ter coberto o percurso antes que apareça o último, mas já então os índios terão deitado a fugir.
— E se não fugirem? — perguntou um sujeito de grande barba coberta de pó, tão coberta que parecia um profeta.
Duncan encolheu os ombros num gesto expressivo.
Pode dar resultado — disse Travis.
— Podemos tentá-lo! — concordou outro explorador.
— Ali há muitas mulheres e crianças. Para, mim, isso decide tudo — afirmou um terceiro.
Os homens olharam-se uns aos outros, e de repente Travis recuperou a sua alegria.
— Somos uma pandilha de loucos, dirigidos por um lunático — disse. — Que esperamos?
Os exploradores retrocederam até onde tinham deixado os cavalos. Levando-os pelas rédeas, afastaram-se um bocado.
— Bom; creio que já é bastante disse Travis.
-- Mãos à obra — disse Duncan.
Em toda aquela zona e nas proximidades do rio cresciam arbustos e mato em abundância, ainda que secos pela prolongada seca, de modo que os exploradores dispuseram de quantos precisavam e ataram-nos com os seus laços em grandes fardos.
— Prontos? — perguntou Rudger, quando todos já estavam sobre a cela.
Os homens responderam afirmativamente.
Todos estavam graves e nervosos naquele momento, e o jovem hesitou um momento em dar a ordem. Toda a responsabilidade do que pudesse acontecer, seria sua, e talvez não conseguisse mais do que levar aqueles valentes para a morte. Até eles chegava o estrondo do tiroteio e os gritos dos índios, e este facto fê-lo decidir-se. Tinha que o tentar pelo menos, pois do resultado dependia a vida de muitas mulheres e crianças. Então, subitamente, assaltou-o a segurança de que teriam êxito. Deus não podia abandoná-los.
— Em frente! — gritou, picando esporas.
Arrancaram a trote. A distância não era muita, mas as suas montadas estavam esgotadas e convinha reservar as forças que lhes restavam para o galope final.
Passados instantes voltou-se, comprovando, com alívio, que os arrastos levantavam tanto pó como se pela pradaria cavalgasse um esquadrão. Talvez mais.
Os homens tinham-se escalonado a uma distância de trinta a trinta e cinco metros uns dos outros.
Erguido sobre a sela e segurando na mão esquerda as rédeas e na direita o laço onde prendia o grande fardo, Duncan iniciou a ascensão da pequena colina e foi-se aproximando rapidamente.
Ao avistar a casa, soltou o laço, e desafundando o rifle, agitou-o sobre a cabeça lançando um grande alarido.
Como um meteoro, lançou-se pela ladeira oposta, gritando e volteando-se na sela como se desse alento ao resto dos homens que o seguiam.
O alarido e o tiroteio dos índios tinha cessado, agrupando-se estes em frente da casa.
Estavam a uns quinhentos metros e era um tiro demasiado longo para podê-lo fazer com pontaria sobre ele montando um cavalo lançado a todo o galope, mas mesmo assim, Rudger não duvidou um momento, e levando a «Sharp» à cara fez fogo contra as filas de índios.
Aqueles momentos eram decisivos. Se os peles-vermelhas permanecessem firmes um pouco mais...
Os defensores da casa tinham cessado o fogo também, como que paralisados pela surpresa e pela alegria, mas, como aqueles tiros os despertasse, começaram a fazer fogo das janelas e de todos os buracos.
Duncan olhou para trás e viu três companheiros, cavalgando e gritando. Logo a seguir, aparecia outro.
Naquele momento, um alarido agudo e prolongado saiu da enorme coluna índia, para voltarem as garupas e escapar a todo o galope.
Rudger tinha coberto então, metade do percurso que os separava dos inimigos, mas continuava a ser muito longe para disparar com êxito, preferindo assim, poupar as munições que mais tarde lhe podiam vir a fazer falta.
Momentos depois detinha o cavalo diante da porta da casa no mesmo instante que esta se abria. Desmontando de um salto, passou o rifle para a mão, e descarregou os alforges que passou para o homem da porta, recolhendo também os grandes cantis de que dispunha.
A diferença de luz ao entrar na casa, fez com que não visse mais que simples silhuetas.
— Pronto! — disse, avançando até ao balcão, onde depositou os cantis. — Cada um ao seu posto! SOMOS muito poucos e quando os índios derem pelo engano, voltarão à carga corno vespas enfurecidas.
Livre da sua carga, voltou a sair, no preciso momento em que chegava o primeiro dos seus companheiros, e, com o rifle empunhado, correu até à esquina do edifício.
Dali, pôde ver os índios que continuavam fugindo, mais do que aquilo que esperava. Ao que parece, não se tinham voltado ainda para verem se aparecia a coluna que causava toda aquela poeirada.
Ao voltar-se constatou que Travis, o último dos seus companheiros, estava já muito próximo, e sentiu um alívio tal, que as pernas lhe tremeram e teve de se encostar à parede de troncos para não cair.
O das barbas de profeta deixou-se cair da sela, ao mesmo tempo que dava um suspiro de alívio e alegria.
— Conseguiste, rapaz! — gritou. — És um tipo com mais barba do que eu, ainda que não se veja. Nem me importa já que não masques tabaco.
E cuspindo, como para comprovar a sua afirmação, entrou por sua vez na cabana.
Travis ao chegar, foi ao seu encontro.
— Duncan, rapaz! És genial!
O calmeirão saltou da sela e levantou uma poeirada ao bater nas costas do seu amigo.
— Diabos! — tossiu, sem poder respirar.
Sem fazer caso dele, Duncan pegou nos alforges e dirigiu-se para o rio com os cavalos!
Momentos depois estava de volta.
— Vamos, para dentro! — disse. — Os selvagens não tardarão em voltar.
Travis apanhou os cantis e foi com ele para a cabana.
— Todavia, ainda não deixaram de correr. — Riu-se. — Creio que tardarão em convencer-se de que lhe cortámos as penas.
Duncan pareceu tropeçar e parou, como se tivesse chocado com um muro invisível. Não é possível! — murmurou, no cúmulo de incredulidade e assombro.
Travis voltou-se surpreendido.
— Que tens, rapaz? — perguntou.
Mas Rudger nem sequer o ouviu. Ali, no alpendre, ante a porta da cabana, entre outras pessoas, ainda que não visse mais ninguém, e olhando-o com os olhos rasos de lágrimas, sorrindo ao mesmo tempo, de um modo curiosamente tímido e corno que atemorizado, encontrava-se Catherine Marigny.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

CLF074. CAP VII. Mocassins de massacre

Desde muito longe, antes que outra coisa, descobriu uma débil coluna de fumo que se elevava em linha reta para o céu, e ainda cavalgou um bom bocado antes de ver a pequena cabana situada num vale pouco profundo, junto a uma linha irregular de álamos e arbustos que indicavam com segurança a proximidade de uma corrente de água.
Duncan já conhecia a granja, pois tinha lá passado algumas vezes, mas ainda assim não deixou de sentir tristeza à medida que se aproximava ao apreciar a pobreza de tudo aquilo.
A cabana era pequena e tosca, feita de troncos verdes, pois os Miller tinham-se instalado ali há pouco tempo; havia outra instalação destinada ao estábulo, um curral reduzido já terminado e outro meio construído. Alguns animais pastavam junto ao riacho.
Viu sair o granjeiro da cabana, um homem forte de mediana estatura, empunhando um rifle, que deixou apoiado à parede ao reconhecê-lo.
— Que tal? — gritou-lhe Miller antes de te desmontado. Chega a tempo de comer.
Duncan desmontou e deu uma palmada n anca do cavalo para ir beber ao arroio.
— Agradeço-lhe, amigo — disse — mas não posso perder tempo. E creio que você também não.
Viu como se desvanecia o sorriso do granjeiro.
— Que quer dizer?
— Índios! Tive um encontro com três deles, que pelos vistos tinham todo o interesse em conseguir a minha cabeleira. Levavam pinturas de guerra e atacaram-me subitamente, sem a menor provocação da minha parte. Temo que se trate de uma incursão, e creio que deveria abandonar isto e dirigir-se ao acampamento do posto Brown.
Uma mulher apareceu no umbral da cabana, levando nos braços uma criança de peito e agarrada às saias uma linda menina dos seus três ou quatro anos.
Rudger tirou o chapéu e dedicou-lhe uma galante inclinação.
Ela continuava quieta, com o corpo rígido e gordo, envolto num claro vestido de musselina. Não é que fosse exatamente bonita, mas para Duncan, que levava bastantes dias sem ter qualquer contacto com mulher alguma, o seu aspeto era muito agradável.
Quando voltou a olhar o granjeiro, este sacudiu a cabeça lentamente.
— Não iremos — disse. — Se algum sarnoso «injun» (1) aparecer por aqui, dispomos de bastantes munições, o rifle e o revólver, de modo que os manteremos à distância. Assim o espero, pelo menos.
— É uma loucura — protestou Duncan acaloradamente. — Não sabemos o número de peles-vermelhas que podem andar por aqui, e ficando põe em perigo a vida de sua mulher e dos seus filhos.
— Que vida seria esta, se deitássemos a correr cada vez que alguém visse um índio por estas proximidades? — disse então a senhora Miller. — Trabalhamos muito aqui, e não vamos abandonar isto ao primeiro sinal de alarme. Eu também sei disparar e estamos bem armados. Saberemos rechaçar qualquer ataque.
Duncan olhou-a e viu que estava decidida a ficar. Não tinha medo e confiava no seu marido.
— Depois poderia voltar — insistiu, ainda que sabendo que seria inútil. — Isto está muito longe de tudo e...
— Que julga que encontraríamos ao voltar? — interrompeu o granjeiro. — Um só «injun» que aqui passasse, não deixaria mais do que cinzas.
(') No calão do Oeste utilizava-se muito a palavra «iniun», que não é mais do que a pronúncia figurada da palavra indiana, que significa índio.
Compreendendo que estava perdendo tempo, Rudger encolheu resignadamente os ombros.
— Está bem — grunhiu com certa irritação. -- Não posso obrigá-los. Desejo-lhes muita sorte.
Ia furioso ao dirigir-se para o cavalo, mas pela primeira vez sentiu respeito e admiração pela gente da fronteira. Inclusive, pensou que seria agradável criar alguma coisa com o seu próprio esforço e ter uma mulher como a senhora Miller, honrada e animosa, disposta a compartilhar os tempos de paz e de guerra, tristezas e alegrias. De repente imaginou Kitty esperando-o à porta de uma rústica cabana com um filho nos braços e outro agarrado à saia do vestido.
Fez uma careta e só não soltou uma gargalhada porque os Miller estavam próximos.
— Devo estar louco — murmurou. — Só a ideia de arrancar Catherine do seu palácio em Nova Orleans e transladá-la para esta pradaria selvagem e pô-la a amassar o pão, é prova de que o sol me derreteu os miolos.
Olhou para trás quando se afastava, e viu como a senhora Miller dizia ao pequeno que agitasse a mãozinha em sinal de despedida.
A cena deixou-lhe uma estranha sensação de angústia. Se pudesse ficar tê-lo-ia feito. Era como se visse uma nuvem vermelha, ameaçadora e sangrenta que se aproximava daquela família.
Era muito mais de meia-noite, quando Duncan chegou ao acampamento do Rio Smoky Hill e transmitiu as suas notícias na escuridão da noite, que em breve se foi tornando iluminada e cheia de gritos.
Chamados pelas vozes dos seus chefes, os homens abandonaram rapidamente as tendas e num momento o acampamento fervia de atividade.
Os exploradores, todos eles veteranos da fronteira, sem mais exceção que Rudger, não precisavam de muito tempo para se prepararem.
Entretanto, na tenda do capitão Henely, este estendeu um mapa sobre a secretária, e tanto ele como Semple, outro oficial e dois sargentos além de Rudger, inclinaram-se sobre o mesmo.
— Vamos a ver — disse ao novato explorador. — Situe esses montes onde foi atacado.
Duncan olhou o mapa e viu imediatamente tratar-se de um trabalho dos cartógrafos militares, e não era necessário o dedo de Henely, indicando um pequeno agrupamento de tendas situado junto ao rio, para situar a sua posição. Imediatamente viu também uma pequena mancha de tinta esboçando habilmente uma cabana, sem dúvida a granja de Miller, e estavam também ali assinalados os agrupamentos de outros colonos. Com todos estes detalhes não lhe foi difícil precisar o lugar do seu encontro com os selvagens.
— Aqui — disse, assinalando com o lápis, que o capitão lhe oferecia.
— Está seguro disso? — inquiriu Henely. O jovem repetiu as suas comprovações antes de responder. Não queria enganar-se.
— Sim, meu capitão — disse por fim.
— Ouviste, John — Henely levantou a cabeça para olhar para o tenente. E continuou: — Que tens?
John Semple tinha na mão um dos mocassins levados por Rudger, e o seu rosto estava muito pálido. Nem parecia ter ouvido o seu chefe e amigo.
— John!
O tenente levantou a cabeça com evidente sobressalto.
— Que tens? — repetiu Henely.
— Que Deus nos ajude! — murmurou Semple. — Estes mocassins não pertencem a nenhum cheyenne. São sioux!
Henely pareceu perturbado.
— Mas então... não é uma simples incursão! Os índios lançaram-se para a guerra!
Semple guardou silêncio, como se aquilo fosse óbvio, que não merecesse resposta. Efetivamente, não tinha sido uma pergunta.
Henely saiu imediatamente do seu momentâneo abatimento.
— Envie imediatamente um correio a Fort Wallace, e destaque homens para avisar os colonos. Que o resto da companhia se prepare para partir. Saímos já.
Semple saudou e saiu da tenda acompanhado por outro oficial e dos sargentos. Henely olhou então para Duncan.
— Foi um bom trabalho, rapaz — disse com clareza, olhando-o nos olhos. — Vá arranjar um cavalo fresco, para partirmos dentro de dez minutos.
Nada mais. Intimamente, Duncan sentiu-se satisfeito. Ainda que não tivesse dito nada, o repto que lançara a ele próprio, pouco mais de um mês atrás, pairava no ar, e com as suas secas palavras, o capitão acabava de reconhecer que não se tratava de uma simples bravata.
— Diabos! Que se passa? — perguntou-lhe Travis, quando se encontrou com ele.
Duncan explicou-lho rapidamente.
— Raios, companheiro! — exclamou o calmeirão, admirado, quando o seu amigo terminou o seu relato. — Tu sozinho despachaste três sioux?
O jovem sentiu-se um pouco perturbado.
— Bom... Não sabia que o eram, e além disso, não tinha outra alternativa. Pelos vistos, a pedra caiu ao soltar a pata do meu cavalo, mas eu não o sabia, e com o cavalo coxo, sem lugar onde refugiar-me, não tive outro remédio que vencer o meu medo e acabar com aqueles diabos.
— Claro! Assim é fácil.
Duncan olhou o grupo de homens que se haviam juntado à sua volta, e calou-se, com os nervos crispados. Depois de cavalgar todo o dia, cansado, cheio de pó, com fome e sede, que ainda não tivera tempo de saciar, não estava de humor para troças, se alguém soltasse algumas das do costume.
Um dos homens estendeu-lhe um cantil.
— Bebe um trago, companheiro. Bem o necessitas. Isto reanimar-te-á.
Duncan agarrou no recipiente com certo receio, mas o olfato disse-lhe que desta vez não se tratava de nenhuma partida. Aquilo era bom «whisky», e ele entendia disso.
Precisava de ser cordial, e bebeu um longo trago.
— Obrigado — disse, devolvendo o cantil, e puxando de um lenço para limpara a cara
Uma mão estendeu-se-lhe para lhe oferecer um comprido e fino cigarro.
— Já sabemos que não mascas tabaco, de modo que fuma esta cigarrilha. É boa. Comprei umas quantas quando andava de patrulha no posto Brown.
Rudger aceitou e logo lhe estenderam um fósforo aceso.
— Atenção! Formar! — gritou a voz do tenente Semple.
Os homens levando os seus cavalos pelas rédeas, ocuparam os seus lugares.
O capitão saiu da sua tenda e um explorador levou-lhe o cavalo.
— Montem! — ordenou.
Enquanto fazia tudo isto maquinalmente, Duncan tentou aborrecer-se consigo próprio, porque tinha os olhos enevoados e sentia-se ridiculamente emocionado. Acabava de descobrir que gostava da opinião dos companheiros, e que o enchia de orgulho e alegria terem--no aceitado na sua camaradagem, como o demonstrava as atenções que acabavam de lhe prodigalizar.
A companhia inteira pôs-se em marcha na escuridão. Só as estrelas, que em breve se apagariam com o tom acinzentado da manhã, lhes fornecia alguma luz.
Quatro horas mais tarde, já bem entrada a manhã, avistaram uma negra coluna de fumo que se elevava do vale pouco profundo.
O capitão Henely levantou um braço e deu ordem de passar do trote para o galope, que toda a companhia executou com bom acerto.
— O rancho de Miller — murmurou Rudger, com o coração oprimido.
Dificilmente o podia ter ouvido Travis, no meio do barulho dos cavalos, mas o mesmo pensamento estava na mente de todos, e pôde responder sem ter ouvido as suas palavras.
— O que resta do rancho.
Só cadáveres e cinzas. O único sinal de vida no local provinha de um par de corvos que se moviam com terrível frenesim em torno dos restos meio devorados pelas chamas da pequena cabana que havia junto ao riacho.
A aproximação dos cavaleiros fez fugir em debandada as aves, que se colocaram em círculo de guerra. Mas os exploradores já não; podiam servir de nenhuma ajuda aos Miller.
Os corpos estavam completamente nus, pois haviam sido profanados e mutilados.
Rudger evocou o quadro da senhora Miller com o pequeno nos braços e fazendo-o dizer adeus com a mãozita, enquanto o outro, com a cabecita loira, permanecia agarrado à sua saia, e olhou incrédulo os sangrentos despojos em que tinham ficado convertidos. Os corvos tinham completado a sua obra arrancando tiras de carne e parte das entranhas. O espetáculo que ofereciam aqueles corpos mutilados era qualquer coisa de espantoso.
Duncan não se lembrou então do que lhe contara o capitão Wilson, acerca das atrozes matanças realizadas anos atrás por Chivington. Nem o tinha visto nem o sentiu a sua carne. Só via quatro cadáveres sem cabeleira, horrivelmente destroçados, e sentiu um ódio intenso e profundo que parecia queimar-lhe as entranhas.
— Tenente! — ouviu-se a voz do capitão Henely, enrouquecida pela ira, — deixe alguns homens para enterrarem os corpos, e que nos sigam, logo que tenham terminado. Não nos podemos deter. Os índios levam-nos mais de três horas de vantagem e talvez cheguemos a temo de impedir a sua próxima tropelia.
Rudger moveu-se na sela fazendo ranger o couro. Estava seguro de que Semple o elegeria a ele, pois a tarefa não podia ser mais desagradável e não desaproveitaria a oportunidade para o amesquinhar, o que agora conseguiria duplamente, já, que estava tão ansioso de se encontrar de novo com os índios.
O tenente voltou-se e começou a gritar nomes. Cinco no total.
Duncan ficou quieto na sela, como uma estátua. Semple tinha-se calado, mas ainda esperava ouvir o seu nome. Seguramente que se havia esquecido, ou deixado para último a fim de o aborrecer ainda mais.
Henely levantou o braço.
— Em marcha! — gritou.
«Esqueceu-se!» — pensou Rudger, estupefacto de assombro.
Uma hora mais tarde, as marcas deixadas pelos índios dividiam-se subitamente em duas. Henely levantou o braço e a tropa estacou.
Em volta do capitão reuniram-se uns quatro exploradores mais veteranos, e estudaram as pegadas, enquanto o resto da companhia desmontava e se protegia com a sombra dos próprios cavalos, pois o sol caía como uma corrente de fogo, abrasando o céu e a terra e fazendo nuvens de calor quase tão nítidas, como o fumo que se eleva das paisagens.
— Rudger, chegue cá!
O jovem entregou as rédeas do seu cavalo a Travis e acudiu à chamada do tenente, perguntando a si próprio que classe de missão desagradável o iria agora encarregar.
Semple estava com outros exploradores no sítio onde os rastos se dividiam.
— Vamos a ver, Rudger — disse o tenente, — fixe-se bem e diga-me o que lhe parece isto.
Cada vez mais surpreendido, Duncan pensou qual seria o objetivo daquilo. Para ninguém, era segredo que as suas habilidades de rastejador eram demasiado recentes e qualquer homem do grupo podia dar-lhe lições. Acaso pretendia rir-se da sua ignorância?
Examinou cuidadosamente o terreno tentando fixar todos os detalhes.
— Diria que os índios pensaram que vamos atrás deles, e realizaram esta manobra para nos despistar — disse por fim.
Semple cabeceou concordando.
— Isso é evidente. Bem, agora, uma destas pistas é falsa. Mas qual?
Pese a todo o seu afã de aprender, Rudger só levava um mês como explorador, e sen-tiu-se perplexo.
— O rasto que se dirige para o Norte, é firme e muito claro, enquanto o outro parece apagado — começou receoso. — Parece lógico, que se pretendessem enganar-nos, teriam marcado claramente o rasto falso e apagado completamente o outro. Claro, isto teoricamente. Não sei se é possível apagar as marcas de um enorme pelotão neste terreno plano e poeirento.
Semple fez uma careta que parecia um sorriso.
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— Os índios são verdadeiros diabos nisto. É possível — assegurou.
Os outros exploradores veteranos na guerra contra os índios ouviram atentamente o que o seu jovem companheiro dizia, e isto era tão fora do vulgar, que Duncan pensou se não estaria a sonhar.
— Isso é precisamente o que eu penso — disse um deles. E apontando para o Sul, acrescentou convencido: — Esta é a verdadeira pista.
A certeza daquele homem levou a dúvida ao espírito de Rudger, por surpreendente que pareça. Tinha ouvido muitas histórias sobre a astúcia dos índios, e perguntou a si mesmo se seria tão fácil descobrir o engano. Era possível que confiassem enganá-los com tão evidente pista, porque até ele próprio com uma simples olhadela o tinha visto.
— Que o preocupa?
Semple deve ter estado a observá-lo, pois ao levantar os olhos com certo sobressalto, encontrou o seu olhar atento.
— Não tenha dúvida em dizer o que pensa. Precisamente para isso é que o chamei.
Duncan não acabava de sair do seu assombro. Seria possível que só por ele ter morto três índios, tivesse granjeado a consideração e respeito de uns homens que no dia anterior se riam da sua inexperiência?
— Calculo que os índios sabem que é um destacamento e não um exército que vai no seu encalço, e precisamente por esse facto e até porque conhecemos muito bem as suas manhas, pretendam enganar-nos.
— Ou seja, que tentam dar-nos gato por lebre, como vulgarmente se diz.
— Isso é o que penso, senhor.
— Pode estar ou não enganado, mas você é esperto, Rudger. Bem, a ideia é sua. Leve dez homens e siga a pista do Norte. Se ao cabo de algumas milhas ela continuar tão marcada como agora, e sem tendência alguma para se desvanecer, envie alguém atrás de nós. Vamos, não perca tempo.
Dominando dificilmente o seu assombro, Rudger saudou-o militarmente e voltou para junto de Travis.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

CLF074. CAP VI. Primeiro embate com índios selvagens

Sem gastar palavras, o tenente Semple fez uma rápida descrição das coisas a Duncan, e conduziu-o até à parte superior do acampamento. Enquanto o cruzava notou que o posto, ainda que pitoresco, tinha um ar pouco militar, com as suas tendas distribuídas caprichosamente e o solo cheio de utensílios e armas.
Seguindo o tenente entrou numa tenda um pouco maior que as demais. No seu interior, em frente de uma rústica mesa, estava sentado um homem excessivamente magro, de rosto chupado e coberto por uma barba ríspida e enegrecida; os seus olhos eram cinzem-tos de um tom pouco comum, mas de certa maneira cautelosos.
-- Capitão Henely — disse Semple — aqui tem Rudger.
Durante um instante o olhar do capitão pousou em Duncan com certa expressão de resignação, como se a chegada do novo explorador fosse um peso.
— O tenente Semple já me falou de você. Porque se alistou nos exploradores?
Duncan precisou de uns momentos para dominar a sua irritação. Não estava acostumado a que o tratassem daquele modo, e evidentemente era injusto que o julgasse arbitrariamente um sujeito que não sabia nada dele.
— Digamos que necessitava da hospitalidade e simpatia com que me acolheram para levantar o meu descaído espírito — respondeu desabrido.
O capitão não se alterou.
— O peculiar sentido de humor de cada um não é bastante para ser digno de ingressa] neste corpo, senhor — manifestou-se friamente.
— Não o duvido. E evidentemente não sãs tão pouco qualidades indispensáveis a educação e a cortesia. Já notei isso, «monsieur».
Henely pareceu passar por alto a observação sem o mais ligeiro franzir de sobrancelhas.
— «Monsieur»... desde este momento em diante, Rudger, deixará de chamar-me «mon sieur». Você forma parte dos «Exploradores dl Kansas» e deverá dizer «senhor» ao dirigir-se aos seus superiores. Entendido? Se tem outros costumes afrancezados renuncie a eles. Lembre-se que já não está em Nova Orleans. Não tolero melindres nem ressentimentos em nenhum homem. Tomamo-nos a sério, senhor; você fará o necessário para colocar-se ao nossa nível. Está claro isto?
— Devo entender que tenho de renunciar ao asseio e à educação... senhor? — perguntou secamente o jovem.
As espessas sobrancelhas do capitão uniram-se numa linha tormentosa.
— Você é difícil, Rudger — grunhiu.
Mas o jovem estava irritado e farto de toda aquela gente que se permitia desprezá-lo só porque ele pertencia à fronteira.
— Porque se não é isso que entendo por me colocar ao vosso nível — prosseguiu friamente — estou disposto a enfrentar-me com qualquer homem ao revólver, espingarda, espada, sabre ou punhal. A medir-me com quem quiser como cavaleiro. A realizar qualquer exercício. Em poucas palavras... senhor, estou disposto a demonstrar que a minha capacidade e valor equivale pelo menos a qualquer dos seus homens.
O capitão aguardou com rosto grave que Duncan acabasse de falar.
— Essas são grandes palavras, Rudger — disse então. — Terá ocasião de as demonstrar.
— Não é outra coisa o que desejo.
— Bem. Tudo o que pedimos aos exploradores é lealdade, coragem e integridade absoluta. Pagar-lhe-emos quarenta dólares mensais... quando o podermos conseguir. Por esse soldo esperamos que cumpra os seus deveres, pondo de lado qualquer questão pessoal. Em troca disto, além do soldo miserável e problemático, receberá você muito pouca gratidão. Se morre Pagar-lhe-emos dois metros de terra em qualquer lugar ignorado, sem nenhuma pedra nem nenhuma classe de monumento; a única lembrança de você será um breve apontamento nos nossos registos.
Henely fez uma pausa como esperando que o recruta tivesse algum comentário a fazer, mas não foi assim, e continuou:
— Esta companhia perdeu quinze homens nos últimos dois meses. Isto lhe dará uma ideia do que o espera. E finalmente, se acha que este modo de vida dos «exploradores» é demasiado duro para você, poderá apresentar a sua demissão... ao cumprir um ano, se é que continua com vida ainda.
Rudger ficou inexpressivo. Compreendia que começar a sua vida como explorador desfrutando a inimizade do tenente e tendo provado a cólera do capitão era uma grande coisa, mas já nada o podia evitar. Tudo muito agradável de qualquer ponto que se visse.
Mas continuava furioso. Se até àquele momento se tinha deixado levar pelas adversas circunstâncias que o conduziram até àquele situação em que se encontrava, tudo ia mudar Tinha que demonstrar àqueles ursos que um homem da cidade podia adaptar-se perfeitamente ao seu ambiente, e incluso superá-la em qualquer missão.
— Nada mais, Rudger. Pode retirar-se.
— As suas ordens, senhor.
*
Os dias que se sucederam não foram muito agradáveis para Duncan Rudger, se bem que o adestramento de explorador era mais fácil do que ao princípio julgou.
Uma coisa foi admitida desde o primeiro momento; que o novo homem era o melhor atirador do destacamento. Além disso, a vida distava muito de ser agradável para ele.
A comida era pobre e má, as tendas velhas e incómodas e a disciplina não se mantinha mais do que por vontade pessoal e incompreensível de cada explorador. O posto contava com cinquenta homens de aspeto rude e inculto, a maioria deles com barbas, queimados pelo sol e magros. Pouco cuidado no seu asseio pessoal.
O facto de Duncan se barbear todos os dias e tomar banho no rio cada vez que tinha ocasião, era motivo de troça e pesadas brincadeiras, e o jovem descobriu bem depressa que os seus companheiros tinham um sentido de humor deplorável.
Desagradáveis experiências se seguiram para o novato, mas aceitou-as sem protestar, apertando os dentes cada vez, com a firme disposição de resistir quanto fosse preciso.
Pouco se falava no posto do perigo; no entanto, o perigo era constante e a morte considerada como uma eventualidade próxima e provável. E andar a cavalo até ao esgotamento era coisa aceitável como muito natural.
Isto serviu a Duncan para descobrir que o seu baio tinha sido uma magnífica compra. Era dócil, veloz e extraordinariamente resistente e o seu aspeto também melhorou consideravelmente quando lhe proporcionou enormes cuidados. Bem ferrado, alimentado adequadamente, limpo e' tendo recebido os cuidados do tosquiador, tinha muito boa estampa e parecia orgulhoso dele, pois já não inclinava a cabeça da maneira que o fazia quando no curral de Fort Wallace.
O único amigo que tinha era Travis. Os demais pareciam divertir-se achincalhando-o e fazendo mais difícil a sua convivência com eles, talvez por solidariedade com o tenente Semple, que não ocultava a sua inimizade pelo novato.
Duncan surpreendia-se por vezes sorrindo amargamente ao imaginar o que pensariam os seus amigos dos cafés de Nova Orleans se o vissem a ele, o entendido em comidas e vinhos finos, o homem da vida refinada, de elegantes modas, a maioria das vezes sujo apesar dos seus esforços, com o rosto enegrecido pelo sol e intempéries, com o seu aspeto grosseiro e descuidado de um verdadeiro selvagem.
E não obtinha nenhuma satisfação na nova vida. Adaptou-se a ela, mas só graças a um fúria e a uma exasperada tenacidade. E entretanto foi-se desenrolando nele um crescente desdém e desgosto por aqueles homens da fronteira e tudo quanto se relacionava com a mesma. Especialmente pelo seu costume de cantarem baladas de grandeza, de formosura, ao futuro, à riqueza e tudo mais da sua nova terra. Pessoalmente só desejava a chegada do momento que pudesse escapar do Kansas.
Mas entretanto aplicou-se com fervor aprendendo tudo o que ignorava. E Travis o ajudou em tudo quanto pôde. Levou-o com ele quantas vezes saiu de patrulha, corrigiu as suas asneiras e mais de uma vez o salvou de alguma calamidade. Reiteradamente explicou ao seu aluno como encontrar um vau em lugar de se arriscar teimosamente por sítios onde seria arrastado para a morte. Deu-lhe com paciência pequenas lições como ler o terreno, como seguir uma pista, caçar, fazer comida no acampamento, acomodar a carga sobre o cavalo e coisas do estilo. E Duncan pôs tanto interesse, apesar do desgosto com que fazia aquilo, que um mês depois podia patrulhar sozinho.
Então no Verão de 1868, deu-se a ofensiva índia, que foi a mais sangrenta de toda a história daquele território. Em sessenta dias foram sacrificados cento e dezassete colonos brancos, e raptadas sete mulheres e levadas para o cativeiro. As incursões índias foram mais de vinte e cinco, e converteram o Oeste de Kansas num deserto.
Ao entardecer de um caloroso dia dos finais de junho, suado, cansado, coberto de pó e sedento, cavalgava entre nuvens de pó que levantava à sua passagem, pois havia semanas que não caia uma gota de chuva naquela região, quando descobriu uns montículos baixos que pareciam indicar a proximidade de um terreno húmido.
Duncan não precisou de dar esporas ao baio, pois, como o animal tivesse pressentido a água, avivou o passo por ele próprio.
O jovem tinha sorte. Assim o afirmavam quantos o conheciam, e ele estava de acordo. Inclusive, quando uma série de desfortuna das circunstâncias o converteram num proscrito, não duvidou dela, que o tirou com assombrosa facilidade do mortal perigo em que se encontrava. E agora uma vez mais, se lhe mostrou fiel.
Efetivamente, foi só por sorte que se salvou da emboscada. Ao chegar aos pequenos montes ia a passo entre eles, quando o seu cavalo fez um movimento estranho.
Duncan deteve-o imediatamente. Encontrava-se em terreno índio, longe do acampamento e de todo o «lugar habitado», pois o primeiro colono encontrava-se na mesma direção, mas quinze milhas mais longe, pelo que se o baio ficasse coxo ou sofresse qualquer acidente, a sua situação estaria muito comprometida.  
Saltando em terra, levantou a pata esquerda dianteira do animal, e uma olhadela bastou-lhe para ver que uma pedra afiada se tinha introduzido no casco do cavalo.
— Vá! — grunhiu. — Cadela de sorte esta! Precisamente agora, que ao que parece estávamos perto de água!
Com um relincho o animal tentou soltar a pata.
— Quieto! —  disse Duncan, tirando o seu punhal. — Doí-te?
O baio insistiu nos seus relinchos.
— Não te mexas agora.
Inclinando-se sobre o casco, tentou aflorar a pedra com a ponta do punhal. Era um trabalho delicado, pois ao menor descuido, podia ferir profundamente o animal.
Ainda que cuidadoso, os esforços de Rudger não foram suficientes para evitar ferir o cavalo, que soltou um relincho doloroso.
— Já está a sair disse, com carinho.
A pedra estava quase a sair, empurrada pela ponta afiada do punhal, quando Duncan ouviu um alarido que o fez levantar a cabeça rapidamente. Notou, então, que três cavaleiros selvagens, em desenfreada galopada, desciam de um dos montes, dirigindo-se ao seu encontro, levantando os rifles acima das suas emplumadas cabeças, em atitude bélica.
Duncan sofreu um sobressalto. Era a primeira vez que via índios selvagens, e isso impressionou-o grandemente. Tanto mais que cavalgavam gritando como demónios, no momento em que o seu cavalo estava praticamente inutilizado e para cúmulo, ao seu redor não existia sequer uma pedra ou árvore que lhe servisse de refúgio.
Largou a pata do baio e erguendo-se, quedou-se sem saber que atitude tomar, olhando em todas as direções procurando algo que lhe permitisse fazer frente, para se salvar. Mas infelizmente, nada havia.
Ali estava, no meio da pradaria, completamente plana sem mais vegetação que alguns arbustos e erva rasteira e seca.
Uns segundos mais e teria tido tempo de arrancar a pedra do casco do cavalo, mas já não tinha tempo para o fazer e, montar naquelas condições era o mesmo que inutilizar o pobre animal sem qualquer resultado.
O medo sacudiu-lhe os nervos como uma chicotada, estremecendo dos pés à cabeça, e por instantes dominou-o uma vontade enorme de voltar as costas e fugir aos peles-vermelhas. Mas isso seria um suicídio. Só podia fazer uma coisa, e essa era a de empunhar as armas e tentar conter a carga dos índios, mediante uma cortina de fogo. E não havia tempo a perder porque estavam quase em cima de si.
Desafundou o pesado rifle «Sharp» e metendo-o à cara com incrível rapidez, fez fogo.
Apesar de ser um grande atirador e o alvo grande e próximo, falhou!
Os índios aumentaram os seus gritos e as suas sujas cabeleiras esvoaçaram ainda mais ao vento, aproximando-se perigosamente do rosto-pálido. A espingarda automática, era todavia, muito pouco conhecida na fronteira e aqueles guerreiros não tinham tido nenhum contacto com ela.
Fazendo o possível por serenar, Duncan voltou de novo a disparar, apontando desta vez a um dos cavaleiros, ainda que lhe parecesse que tinha acertado nos três ao mesmo tempo. Embora soubesse que os índios se deixavam cair dos cavalos, ficando estirados no solo, jamais o tinha verificado, ainda que Travis lhe tivesse feito ver, que este era um dos seus truques preferidos.
A ação começava a sossegá-lo, e sem se deixar impressionar pelos peles-vermelhas. Nesse mesmo instante, um deles disparou o seu rifle tentando acertar-lhe. De pé firme e de peito descoberto, derrubou-o com um tiro na cabeça e, num alarde de soberbo atirador, quase sem fazer pontaria, fez saltar de forma fulminante o último dos seus inimigos, no momento em que este se descobria para atirar. O guerreiro caiu a alguns metros de distância, passando o cavalo, assustado, rente a Duncan.
O explorador baixou a arma, e contemplou os obscuros corpos caídos sobre a raquítica erva. Estava atordoado e por instantes pareceu não saber o que fazer. Começava a dar conta que acabava de sair triunfante do seu primeiro encontro com os índios, mas não estava convencido. Tudo tinha sido muito rápido.
Como o cavalo, assustado pelos disparos se tivesse afastado para um sítio além daquele onde os corpos estavam caídos, decidiu fazer um reconhecimento e avançou a pé, para eles, com o rifle pronto a disparar.
O último pele-vermelha que abatera estava muito próximo, caído de bruços, imóvel, e não se notava qualquer movimento, nem sequer a respiração. Devia estar morto.
Rudger para se certificar volteou-o com o pé, mas de repente, aquele corpo pesado e hirto, converteu-se num torvelinho de agilidade. Com a cabeça do índio encaixada no seu estômago, o inexperiente explorador caiu pesadamente de costas, batendo violentamente contra o solo sem poder fazer nada para amortecer a queda, que foi tão violenta que perdeu o rifle.
Enevoadamente, viu que o índio vinha sobre ele levantando algo metálico e ficando livre das pernas, num gesto de puro instinto, atirou para o lado com o seu inimigo dando--lhe um pontapé nas costelas.
Com um grito rouco, o selvagem voltou de novo à carga como se fosse de borracha, mas apesar de toda a sua rapidez, Duncan teve o tempo suficiente de sacar o revólver e disparar, apanhando o índio em cheio na cara, que caiu para trás dobrando-se pela cintura.
Muito a custo, soergueu-se sobre o cotovelo, contemplando as últimas convulsões do guerreiro índio.
Mas mais uma vez a Providência interveio a seu favor, pois se o índio tivesse caído noutra direção, ser-lhe-ia impossível constatar a silenciosa destreza de agilidade humana que lhe caía em cima.
Mais por instinto do que por vontade, Duncan levantou o revólver e disparou freneticamente, até esgotar as munições. Levado pelo impulso adquirido e possuído por uma fúria superior à agonia da morte, o bravo esteve lançando pontapés e golpes, saltando sobre a terra como um víbora sem cabeça, para depois ter um enorme estremecimento e ficar imóvel.
Rudger levantou-se olhando em volta para ver se havia mais inimigos, e depois carregou rapidamente o seu revólver, antes de examinar os índios para ver se estavam efetivamente mortos.
Impressionou-o o aspeto feroz e selvagem daqueles cadáveres seminus, e ainda que já tivesse visto as pinturas que cobriam o seu rosto, sofreu um sobressalto ao lembrar-se do que tinha ouvido dizer que significavam. Eram pinturas de guerra, e não podiam significar mais do que uma incursão dos índios.
Por momentos permaneceu imóvel, apanhado pela certeza de um ataque índio, mas seguidamente entrou numa febril pressa de se afastar dali. Tinha que voltar ao acampamento a toda a velocidade e dar o alarme.
A lembrança da pouca simpatia do capitão Henely e a decidida inimizade do tenente Semple, fê-lo parar uns minutos mais, para recolher os rifles dos índios e despojá-los dos seus mocassins, para que não pudessem duvidar da autenticidade de seu relato, e em seguida foi em busca do cavalo.
— Lamento muito, companheiro — disse ao animal enquanto usava o encerado para fazer um embrulho com os seus troféus e os amarrava atrás da sela, — mas terás de suportar um pouco mais sem beber.
Levantou a pata do animal e teve uma grata surpresa ao ver que a afiada pedra tinha acabado por sair.
De um salto subiu para a sela e sem perder um momento partiu a todo o galope em direção do acampamento sentindo-se muito satisfeito porque o animal parecia não acusar a ferida na pata.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

CLF074. CAP V. Os exploradores de Forsyth

A sala era simples e vazia, mas o comandante George A. Forsyth não precisava de decorações. Rudger já o tinha visto na noite anterior no baile, mas agora observou-o mais detalhadamente, enquanto o comandante lia a carta do capitão Wilson. Havia algo de majestoso na figura do militar, nas marcas do seu rosto que expressavam inteligência e força.
Finalmente Forsyth levantou a vista do papel elevando-o para os olhos pardos do jogador.
-- Aprecio sinceramente o capitão Wilson — disse gravemente, mas temo não poder satisfazê-lo neste momento.
Rudger ficou atónito. Na realidade não tinha o menor desejo de ingressar nos «Exploradores», e não estava muito certo de proceder com cabeça, alistando-se. Talvez por isso mesmo, não lhe tivesse passado pela cabeça que não o alistassem.
— Na realidade — disse muito aprumado —creio que mereço uma explicação, «monsieur».
Um riso cínico fê-lo voltar a cabeça para o homem alto e magro que tinha entrado no gabinete do comandante. A primeira vista, não achou simpático o tenente John Semple, mas a sua intervenção tornou-o odioso. Tinha uma grande cabeça e cabelo encaracolado que já começava a tornar-se ralo e muito emaranhado. Era forte e usava enormes patilhas.
O comandante não pareceu ouvir o insultante riso do oficial.
— Não tenho nada contra você, senhor Rudger, e repito-lhe que gostaria de atender o capitão Wilson; mas há mais voluntários que lugares vagos. Homens que conhecem as planícies, excelentes caçadores, competentes em seguir uma pista emaranhada, gente azeda e má, tostada pelos raios solares e desejosos de se vingarem nos índios, que mataram as suas famílias e arrasaram as suas casas. Dá conta? Se se considera capacitado para substituir um desses veteranos?...
— Há certa diferença entre entender-se com um guerreiro Cheyenne ou uma jovem crioula. — voltou a sorrir Semple, desagradavelmente.
Rudger dirigiu-lhe um duro olhar.
— Não lhe ocorreu nunca pensar — disse com voz clara e reprimida— que eu possa fazer alguma coisa que você faz... e fazê-lo melhor?
Semple fez uma careta.
— Se por acaso se tratar de uma figura elegante...
— Trata-se de disparar. Contra você ou contra o alvo. Como prefere?
— Advirto-o — sorriu Forsyth — que é um dos nossos melhores atiradores.
— É um desafio, «monsieur». Se este... cavalheiro — fez uma pausa bastante prolongada para que resultasse insultante — é um bom atirador, dos melhores como acaba de dizer, julgo que se o vencer terei ganho o lugar que solicito.
Forsyth olhou para o ruivo.
— Que dizes a isto, John?
Semple fez uma careta depreciativa.
— Este pássaro não serve para explorador; carece de qualidades necessárias — disse sem rodeios.
Mas acrescentou depois de uma breve pausa:
— Ainda que de todos os modos nos possamos arriscar. Se o seu desafio não passa de uma fanfarronada...
— Bem. Forsyth pôs-se de pé e saiu detrás da secretária.
— Vamos lá para fora, cavalheiros.
 Saíram juntos da cabana, dirigindo-se para o terreno de provas, situado fora da paliçada. Era ali também onde se faziam os exercícios de tiro, e onde se encontravam uns postes cravados no solo, alguns dos quais tinham tábuas a fazer cruz para segurar os alvos.
— Que te parece, John? — perguntou o comandante.
O alto, magro e ruivo tenente apanhou umas pedras do solo e chegando até um dos postes colocou três em cada um dos braços da cruz, medindo depois a distância de quinze passos.
— Venha aqui, Rudger.
O jovem aproximou-se sem pressas.
-- Ponha-se aqui a meu lado e saque o revólver. A ordem do comandante dispararemos cada um contra as pedras do braço que lhe corresponde. Vamos a ver quem emprega menos tempo e menos disparos para fazer desaparecer as pedrinhas. O que atingir a madeira, para as fazer cair, perde.
Ante aquela classe de prova, Duncan sorriu divertido. Tinha experimentado no dia anterior o revólver, verificando ser uma excelente arma, e acertar naquele alvo significava para ele um jogo de crianças. Pondo-se em posição desfundou a arma.
— Muito bem — disse. -- Quando queira. Comece, meu comandante. Dê a ordem.
Forsyth olhou os dois homens, e depois o alvo.
-- Prontos? — perguntou.
Os dois atiradores levantaram as armas, apontando., Todos aqueles preparativos tinham chamado a atenção e começaram a aparecer alguns homens.
— Sim -- disse Semple.
— Pronto — respondeu Rudger.
— Fogo!
Duncan disparou abafando a voz com aquela rapidez que o fizera adiantar-se a Tempest, e a pedra mais próxima do poste voou feita em bocados. Depois atirou duas vezes mais, sem pressas, com segurança, surdo ao estrondo das 'explosões que davam. Ao acertar na última pedra, olhou para o outro lado da cruz e chegou a tempo de ver como desaparecia a última. Uma cerrada ovação premiou a pontaria daqueles soberbos atiradores. A concorrência era agora maior, e continuavam a chegar homens de todos os lados.
— Três alvos cada um e outros tantos disparos, ainda que o senhor Rudger tenha obtido alguma vantagem por atirar mais rapidamente — disse Forsyth.—Parece-me demasiado pequena para decidir a questão. Querem provar outra vez? Alguma coisa mais longe, talvez?
 -- Perdão — interveio Duncan — mas isto parece-me um jogo de crianças. É demasiado simples.
Tal afirmação produziu excitados comentários entre os espectadores. O comandante olhou para Rudger franzindo as sobrancelhas.
— Que propõe você? — perguntou secamente, aborrecido sem dúvida por aquela fanfarronada.
O jovem não se intimidou.
— «Monsieur» Semple escolheu o seu alvo. Permite-me que escolha eu agora o meu?
— Muito bem. É justo.
Rudger voltou-se para os espectadores.
— Alguém tem um cordel? — perguntou.
Ofereceram-lhe vários tendo escolhido entre todos o mais fino. Em seguida tirou do seu cinturão um cartucho e extraiu com os dentes a bala de chumbo. Notava a expectativa com que era observado por quantos ali estavam, mas sem se intimidar com isso.
Com um punhal de caça que também tinha comprado dois dias antes, fez um pequeno vinco para segurar o cordel, que amarrou também com os dentes de modo que não fugisse. Atou então a outra extremidade a um dos braços do poste, e deu à bala um pequeno balanço.
— Isto é um desafio a todo aquele que queira tentar — disse sorrindo trocista.
Depois contou oito passos.
— Vamos?— perguntou ao ruivo oficial dos exploradores.
Semple olhou-o fixamente.
— Você é mais que um fanfarrão — grunhiu.
-- Não quer tentar? — troçou o jovem. — Não vai mais além que aquele joguinho das pedras?
— Que asneira é esta? Não se pode acertar nessa bala em movimento.
— Não se trata de acertar na bala — replicou Duncan com calma. — Têm que cortar o cordel.
— Impossível!
Duncan deixou de lhe prestar atenção e voltou-se para o comandante Forsyth. — Você disse que os seus exploradores eram todos excelentes atiradores, «Monsieur» Forsyth. Não há nenhum capaz de aceitar este desafio?
O calmeirão do Travis destacou-se então de entre a multidão, e olhou para Duncan com os seus olhos azuis sempre sorridentes.
— Pelo menos farei a prova sorriu.
Rudger tinha feito com a bota um traço no poeirento solo, e o seu amigo foi colocar-se ali, desafundou o revólver e depois de fazer a pontaria seguindo a oscilação da bala, fez fogo, O chumbo continuou o seu movimento de pêndulo sem a mais leve alteração. De novo Cameron fez fogo. De novo errou. E três vezes mais, até gastar as munições.
— Abanei um pouco — riu.
— Basta de palermices! — gritou Semple mal humorado. — Agora toca-lhe a você fazer de bobo, Rudger.
Ao cortar o fio de um só e certeiro disparo, Duncan pensou no que teria dito René Tempest se o tivesse presenciado. Insistiria ainda em que não era mais do que sorte?
— Diabos! — grunhiu Travis. — E eu que duvidava que soubesse disparar!
Os homens da fronteira, para quem disparar bem era uma qualidade essencial, acolheram a façanha em silêncio, que depois se converteu num surdo rumor de excitados comentários.
— Vamos — disse Forsyth. — Regressemos ao gabinete...
Quando entraram na desmantelada sala a que o comandante chamava o seu gabinete, este voltou a sentar-se e encarou o forasteiro.
— Está bem, senhor Rudger — disse. — Se persiste em ingressar nos «exploradores» admitirei o seu pedido. Não posso perder um homem que atira como você.
Duncan vacilou. Não tinha o menor desejo de converter-se em explorador. A vida desta gente era dura e perigosa e ele tinha outras aspirações. Mas agora já não podia voltar atrás. Muito menos vendo o sorriso de desprezo de Semple.
— Há mais alguma formalidade que deva cumprir? — perguntou.
— O tenente se encarregará disso.
— Imediatamente! — concordou este sorrindo de um modo pouco tranquilizador.
Duncan olhou-o durante um momento e perguntou a si próprio se não estaria fazendo asneira, mas acabou por encolher ligeiramente os ombros. Não se ia deixar assustar por um sujeito como aquele.
— Obrigado, comandante — disse.
— Não tem que agradecer. Teria preferido não o ter admitido.
*
Enquanto cavalgava até Smoky Hill River, distante corrente de água que corria a noroeste donde estava estabelecido o acampamento de exploradores para vigiar os índios, Duncan maldizia amargamente a sua sorte.
Uma assombrosa imensidade de circunstâncias o tinham feito vítima. Evocou com nostalgia Nova Orleans, os cafés, os combates de galos, as mesas de jogo, as pistas de corridas, o Teatro da ópera Francês, o «Saloon Carraud»...
E pensou nos alegres companheiros e encantadoras damas que tinha conhecido lá. Era quase incrível que em poucos dias um membro da sociedade elegante como ele se tivesse transformado num nómada vestido de pele na fronteira e condenado a uma servidão que começava a ser-lhe terrivelmente odiosa.
A paisagem que se estendia diante dos três cavaleiros era da mais monótona; muito breve deixaram para trás todo o sinal da vida humana e só viam a imensa pradaria.
— Que se passa, companheiro? Tem uma cara que parece uma múmia.
Duncan olhou para Travis que cavalgava a seu lado e fez uma careta.
— Um pouco de receio — sorriu.
Semple que ia à frente, deve ter ouvido porque no momento voltou-se na sela mostrando a sua cínica cara.
— Medo, Rudger? Julgou ver alguma pluma detrás de qualquer arbusto?
O jovem sentiu os nervos crisparem-se. Aquele tipo tornava-se cada vez mais insuportável.
— Pareceu-me que lhe saía do bolso — replicou secamente. — Afinal era uma galinha.
O sorriso cínico do oficial converteu-se num gesto duro, e os opalinos olhos adquiriram uma feroz expressão ao mesmo tempo que as suas pupilas adquiriam o brilho de punhais.
— Que quer dizer?
Semple aproximou o cavalo.
— Diga-o claramente — grunhiu.— Diga-o, se tem coragem.
— Estou de serviço e você é meu superior — replicou Duncan de forma respeitosa e tensa.— Não lhe darei a oportunidade que está procurando; mas algum dia vou cuspir-lhe na cara e dizer-lhe claramente tudo o que penso de você.
— Esperarei — concordou Semple roucamente. — Esperarei com impaciência.
Picou esporas e manteve-se afastado durante todo o resto da jornada.
— Que diabos se passa contigo e com ele? — perguntou Travis quando o tenente já estava bastante afastado.
— Devias era perguntar-lhe a ele, o que tem contra mim. Já o viste. Ao que me parece não lhe sou simpático.
Cameron permaneceu em silêncio durante bastante tempo, como refletindo sobre o que lhe tinha dito o companheiro.
— A sua mulher fugiu com um tipo da cidade — disse de repente. — Talvez seja por isso.
Duncan olhou-o um pouco surpreendido.
— E que tenho eu a ver com isso?
Cameron encolheu os ombros.
— Não sei. É possível que tu, por seres também da cidade, lhe desagrades. Ou talvez as tuas maneiras e forma de falar lhe lembrem o tipo.
— Pois está bem! — disse Duncan.
 Aquela noite passaram-na numa cabana de troncos de um índio chamado Long Ear (Orelha Comprida).
Duncan tinha esperado com ansiedade o momento do seu primeiro encontro com um pele-vermelha; mas este exemplar constituiu uma completa deceção. Era civilizado. Vestia uma camisa velha sem botões; a fralda de fora, e uma espécie de calças que não se conhecia a cor, e o sujo chapéu com algumas penas.
Enquanto a sua gorda e pingona «squaw» cozinhava a comida, o homem permanecia sentado no alpendre olhando distraído com expressão de estúpido. Naquele asqueroso indivíduo não havia nada de nobreza e dignidade de que tinha ouvido falar, nem sequer a feroz pintura.
A ceia consistiu de carne, e o seu aspeto bastou para fazer esquecer a Rudger que estava faminto; ao descobrir uma mosca no seu prato acabou por ficar sem comer. Mas havia café. No entanto também esta esperança se desvaneceu quando o índio, numa amostra de deferência procedeu à limpeza dos copos com o sujo trapo que tinha no meio das pernas.
Duncan não bebeu o café e sentiu-se contente por continuar a viagem no dia seguinte quando desceram até ao vale com árvores raquíticas, em cujo fundo se via uma desgarrada neve.
— O rio Smoky Hill — disse Travis. — Está gelado?
Em breve distinguiram entre as árvores uma mancha cinzenta que não era neve nem fumo, mas sim a lona manchada de várias tendas juntas. O acampamento dos exploradores.

domingo, 13 de novembro de 2016

CLF074. CAP IV. Tanta fealdade

Ao descer do carro das provisões, onde fizera a última etapa da sua viagem, cansado e alagado em suor e coberto de pó, Duncan Rudger estava moído de dar tombos, pelo que os indígenas chamavam pradaria e a ele mais parecera um enorme deserto. Sentiu-se feliz de ter chegado ao que pomposamente chamavam Forte Wallace, e que na realidade não passava de um aglomerado de sujas cabanas, rodeadas por tosca paliçada de troncos mal tratados e por desbastar.
Apressadamente, dirigiu-se para um alpendre de madeira em frente de uma loja e que era sustentado por alguns postes de madeira. Não é que ali estivesse mais fresco, mas pelo menos, estava a coberto dos ardentes raios solares.
Deteve-se ali, com um suspiro de alívio, e espantando algumas moscas com uma sapatada, contemplou o seu fato todo enrugado e coberto de pó.
Estava abatido, e isto não contribuía para levantar o seu estado moral, especialmente, ao contemplar o deplorável conjunto de baixas cabanas e choças de tábuas, que dentro e fora da paliçada formavam o que se chamava Forte Wallace. Jamais tinha visto tamanho desamparo, tanto primitivismo e tanta fealdade!
Nos palanques, viam-se cavalos fracos, cobertos de pó e, igualmente, pareciam andrajosos os homens que vagueavam a vista, prodigiosamente cobertos de cabelos e mascando tabaco sem cessar.
Todos aqueles homens o olhavam de um modo descarado, fixo e sem a menor dissimulação.
Um tipo muito alto e delgado, de compridas pernas, levou a sua desfaçatez ao ponto de se aproximar até poucas jardas, apoiando--se num dos postes que sustinham o alpendre, contemplando-o de cima abaixo.
Rudger sentiu-se aborrecido. Inevitavelmente a viagem de carro não tinha contribuído para melhorar o seu aspeto, mas de todos os modos, o daquele sujeito, era muito pior. Umas enormes botas com esporas, um pesado revólver sobre a perna, tão baixo como nunca tinha visto, talvez porque o cinturão repleto de balas era demasiado grande; uma suja camisa de flanela azul, e um amplo chapéu que caracterizava os homens daquela região. Todo ele coberto de pó.
Aborrecido, ainda mais, por esta observação descarada, de que estava ser alvo, Rudger deitou o chapéu agressivamente para trás e enfrentou decididamente o agreste indivíduo.
Este era jovem, certamente tinha menos de trinta anos, e ao contrário do que parecia mais corrente, a sua fraca cara aparecia completamente barbeada e de tez bronzeada pela ação do sol, e um par de olhos claros, intensamente azuis, brilhavam formando curioso contraste.
— Quer que dê a volta, «monsieur», para que possa contemplar-me melhor? — perguntou asperamente.
Os olhos azul pálido do outro interromperam a minuciosa inspeção sobre o vestuário afrancesado de Duncan, e os olhares dos dois homens encontraram-se. Um momento depois, o rosto bronzeado do homem da fronteira iluminou-se, e mostrou a sua magnífica dentadura num amplo sorriso.
— Agradecia-lhe muito, «M'siú» disse de forma desconcertante, com voz lenta e arrastada, imitando grotescamente o «monsieur» de Rudger.
Não havia agressividade ou troça no tom nem na expressão do desconhecido, o qual, com a sua inesperada resposta deixou desconcertado o jogador.
— Porque me olha dessa maneira? — perguntou por fim, menos agressivo.
— Não é a você, mas sim ao seu trajo — replicou o outro calmamente. — Não há por aqui nada que se lhe compare.
Duncan encontrou-se mais desconcertado do que nunca.
— Sim! — grunhiu, porque na realidade não sabia o que dizer.
— Você e eu somos pouco mais ou menos da mesma estatura continuou o outro com a sua voz arrastada e calma, — e se quisesse vender-me o seu fato ou ao menos emprestar--mo, a fim de amanhã assistir ao baile do batalhão, estou certo de que Abby não deixaria de dizer-me sim desta vez. Diabos! Creio que ao ver-me, caía de costas.
Duncan olhou o calmeirão com mais receio ainda, mas apesar de toda a sua desconfiança, não conseguiu descobrir a mais leve indicação de que estivesse troçando dele.
— De acordo -- disse, todavia ainda receoso. — Vendo-lho.
Os olhos azuis pareceram dilatar-se, e o brilho deles refletiam uma satisfação e júbilo completamente infantis.
— Quanto? — perguntou ao mesmo tempo que metia a mão no bolso, donde tirou um pequeno maço de notas.
Com a sua perícia de jogador, Duncan calculou, numa pequena olhadela, o dinheiro que poderia ter, e disse uma quantia um pouco superior.
Viu como a alegria saía dos olhos azuis.
— Pois... tanto? — murmurou o calmeirão.
— Não tem o suficiente?
— Não.
Duncan pareceu refletir durante uns momentos, se bem que fosse pura comédia, pois já tinha traçado completamente o seu plano de ação.
— Chamo-me Duncan Rudger — disse. — E você como se chama?
— Travis Cameron.
— Pois bem, «monsieur» Cameron; talvez haja outra forma de fazermos negócio.
Os olhos claros de Travis olharam-no com novo interesse e esperança.
— Qual?
— Quero alistar-me em... «Os Exploradores de Forsyth». Creio que é assim que se chamam. Pode você ajudar-me a consegui-lo?
Travis Cameron abriu a boca e os olhos com assombro.
— Tenho uma carta para o comandante Forsyth, e julgo que me admitirá — continuou Duncan, — mas não queria dar-lhe a impressão de que sou um novato inútil. Compreende a minha ideia? Desejaria apresentar-me a ele com a roupa própria e o equipamento necessário, assim como que tendo uma ideia do que me espera. Em troca da sua ajuda, ofereço--lhe o meu fato. Que me diz?
Cameron recostou-se no poste e puxando por uma bolsa de tabaco, ofereceu-a ao forasteiro, antes de habilmente fazer o seu cigarro.
— Creio que prefiro ficar sem o fato — disse, por fim. — Quando mato um homem, gosto de o fazer de frente e dando-lhe uma oportunidade.
Rudger olhou-o sem compreender.
— Sabe o que duraria você nos voluntários? — perguntou Cameron, ao mesmo tempo que fazia um gesto e dava um estalinho com os dedos de forma expressiva.
— Ainda que assim fosse, não seria sua a culpa. Não lhe peço que me ajude a alistar--me, mas sim, a adquirir as coisas que me são úteis. Qualquer comerciante se poria imediatamente à minha disposição, mas temo que me fizesse comprar mais coisas do que preciso, e ainda estou certo de que me cobraria tudo como do melhor, embora não o fosse. Já vê que não tem que sentir escrúpulos.
Travis sacudiu a cabeça, mas cedeu.
— De acordo — disse. — Tem dinheiro?
— Não se preocupe com isso.
— Muito bem. Começamos agora?
— Porquê, esperar?
Estava-se só a meio da manhã, pelo que havia tempo para tudo. Cameron guiou Duncan aos lugares adequados, onde comprou uma pele de anta, um amplo chapéu, botas com enormes esporas, um fuzil «Sharp» de sete tiros, e um enorme revólver «Colt» do máximo calibre, com coldre e respetivo cinturão.
Ao cingir o cinturão, Duncan notou que este estava muito largo. Pelos vistos era a razão por que toda a gente levava a arma caída de lado. Só faziam cinturões para homens gordos.
«De qualquer modo pensou — um sapateiro pode arranjá-lo».
— Aperte-o um par de furos mais largo. Assim, o revólver está muito alto e se tivesse necessidade de sacá-lo rapidamente perderia um tempo precioso.
Duncan olhou com assombro o seu companheiro. Estava-lhe dizendo que alargasse ainda mais o cinturão? Olhou-o incrédulo.
— Sim, mais baixo — insistiu Cameron. — Essas correias deve atá-las aos músculos das pernas, e já vê, como o tem posto agora, não é possível fazê-lo.
Em silêncio, Duncan fez o que lhe diziam.
— Espero que, pelo menos, saberá disparar — grunhiu Travis.
Abandonaram o armazém, mas as surpresas ainda não tinham terminado para Rudger. Considerava-se um cavaleiro excelente e estava certo de reconhecer um puro-sangue ao primeiro golpe de vista. Por outro lado, tinha lido e ouvido inúmeros relatos sobre os corcéis da pradaria; mas no curral onde Cameron o levou, só havia cavalos fracos e vencidos, todos desferrados, marcados nas ancas e nas patas com caprichosos enfeites alfabéticos, e tão ignorantes da água e sabão, como a maioria dos homens da fronteira, que tinha visto até ali.
Cameron sem dúvida, pareceu considerar aqueles cavalos como normais. Meneou a cabeça quando Duncan escolheu o de melhor aspeto: um alazão tostado.
— Que defeito tem? — perguntou Rudger cada vez mais desgostoso.
— Veja-lhe os cascos.
Escolheu outro, com o mesmo resultado e, ainda um terceiro.
— Muito bem — resmungou, contendo dificilmente o seu mau humor quando Cameron lhe fez ver o defeito do último dos cavalos, que ele considerava o mais aceitável entre a meia centena que havia no curral. — Porque não o escolhe você mesmo?
Travis devia já tê-lo feito, pois, sem a menor vacilação, se dirigiu a um baio que estava ao fundo e deu-lhe umas palmadas.
— Este — disse.
O animal não era nenhuma estampa, nem tão-pouco parecia prometer muito.
Duncan abria já a boca para protestar, quando se fixou no gesto de desgosto do dono do curral.
— De acordo. Quanto?
— Cento e cinquenta dólares — grunhiu o dono. — Leva um bom cavalo, amigo!
Mas Cameron não se mostrou de acordo com o preço, até que, finalmente, foram incluídos a sela e as rédeas.
— Se vai permanecer muito tempo por aqui, não traga mais ninguém a comprar-me cavalos.
— Pensarei nisso — replicou Travis
— Agora, alojamento e comida — disse o seu companheiro, depois de saírem do curral.
                                                                              *
Duncan não tinha querido ir ao baile, mas Travis insistiu de tal maneira que não teve outro remédio senão aceitar. E com as suas botas, traje de pele, grossa camisa de flanela e revólver no cinto, acompanhou o elegante Cameron até ao enorme barracão donde brotava luz por todos os seus buracos e rendilhados, assim como um enorme bulício.
Apenas acabavam de entrar quando se ouviu um enorme alarido e caiu-lhes em cima um grupo de homens que riam ruidosamente.
— Abby, Abby! Anda cá — começaram a gritar. — Travis vem casar-se.
Abrindo caminho entre aqueles homens toscos e ruidosos, apareceu uma linda rapariga morena, de roliças curvas e formas, que ficou parada a olhar com assombro para o elegante Cameron.
— Tray! — exclamou.
Duncan recordou-se então do que lhe dissera o seu amigo ao pedir-lhe o seu traje, e pareceu-lhe efetivamente, que a jovem Ia cair de costas. Mas em lugar disso, lançou-se nos seus braços com um grito, beijando-o na presença de toda aquela gente, que rompeu em gritos e aplausos.
Quando por fim cessou todo aquele ensurdecedor alarido, o suficiente para que se pudesse ouvir alguma coisa dita em berros, Duncan Rudger teve outra surpresa ao ouvir Travis pedir naquele mesmo tom, à jovem, que casasse com ele.
— Mas... Claro! — disse ela. — Como vo eu negar-me? Em toda fronteira não haver outro noivo tão atraente e elegante como t-t
Novos gritos e aplausos, até que de repente como um terramoto, começaram a dar palma e a bater com os pés, seguindo o ritmo qu marcava um violino e uma concertina.
De súbito, Duncan sentiu-se agarrado pelos ombros e obrigado a dar uma volta.
— És um cavalheiro --- gritou alguém, antes que pudesse protestar. — Os cavalheiros para aquele lado; as damas para este. Escolham os pares para a valsa.
Houve grande movimento de um lado par: o outro, em preparação. Os homens faziam vénias a uns e a outros, brincando, troçando dos formalismos dos bailes, ofereciam o braço ou aceitavam com divertida timidez.
Rudger ficou atordoado, sem saber o que fazer, até que Travis veio em seu auxílio con Abby, de braço dado.
— Vamos, ponha-se deste lado — gritou deixando a jovem e levando-o para a frente
— Porquê? — perguntou Duncan, sem perceber nada daquilo.
— Somos cavalheiros. As damas são todos aqueles que têm um remendo nas calças.
Como em todas as reuniões da sociedade, Rudger comprovou que ali também se encontrava o sexo fraco em minoria. Ainda que, verdadeiras mulheres, nem sequer meia dúzia houvesse.
Toda gente dançava vigorosamente, pisando a saltando com toda a sua alma. Tornava-se fatigante e surpreendente, mas Duncan acabou por se divertir apesar da «dama» que lhe coube em sorte, ser um sujeito corpulento e barbudo que cheirava a suor e a «whisky».
A buliçosa e sã alegria que ali reinava, contagiou-o. Vendo Travis e Abby girar loucamente, rindo e olhando-se nos olhos, Duncan surpreendeu-se, com dolorosa nostalgia, a lembrar-se de Kitty. Estava certo de que ela, apesar do luxo e preconceitos sociais de que estava rodeada desde o seu nascimento, teria desfrutado ali, um certo bem-estar, tanto ou mais como o que estava experimentando a jovem e morena noiva de Travis.
Era curioso, que de tantas mulheres a quem tinha feito namoro, apenas se recordasse de Kitty. Ainda que, pensando nisso, dava conta que de todas as que tinha conhecido, só ela era suficientemente jovem, alegre e simples, para se destacar entre aquela gente humilde da fronteira.
Os pares eram ruidosos, de bom humor e dados a troças pesadas. Nem sequer faltava o «mau» que passeava de um lado para o outro, com o cinto cheio de armas. Mas ninguém lhe ligava importância.
Numa das raras pausas feitas pelo violino e concertina, que faziam parar os pares, para tomarem um trago, e quando Rudger se aproximava de urna espécie de balcão, feito com urna comprida mesa, junto do qual, Cameron gritava, agitando urna garrafa de «whisky», viu como um desses «maus» lhe dava deliberadamente um empurrão, e o olhava fixamente.
Duncan parou alarmado, perguntando a si próprio o que ia acontecer então, pois tinha lido alguns relatos sobre a facilidade com que se matavam os homens da fronteira a troco de qualquer ninharia.
Travis, que tinha um cigarro ao canto da boca e os fósforos na mão, pelos vistos, disposto a acendê-lo, inesperadamente despejou o «whisky» por cima do valentão e, sem a menor pressa ou emoção, sempre com o mesmo sorriso nos lábios, acendeu o fósforo pegando o fogo ao «whisky» derramado.
Ora, o «whisky» não é mais do que álcool, de modo que as roupas do indivíduo começaram a arder imediatamente.
— Cuidado! Um homem a arder! — gritou Travis. — Apagai essas chamas! Apagai!
Os homens não só acudiram ao grito de Travis com regozijo, como apagaram o fogo com muito mais violência do que a necessária, expulsando do barracão o quezilento indivíduo que não voltou a ser visto.