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sábado, 9 de janeiro de 2016

PAS563. O sacrifício de uma mulher

— Essa mulher salvou-te a vida, Ken, tal como eu te fiz na prisão...
— Agora, Dinah, não me fales nisso.
— Não, Ken. Não me posso calar. Ela e eu, de certo modo, estamos em paz. Deves o mesmo a ambas, mas o gesto dela tem mais mérito.
-- Quando deixarás de te torturar com essas ideias absurdas?
— Não posso. Ela acreditou em ti, sabendo que eras um fugitivo. Acreditou nas tuas palavras; eu não. Eu pensei sempre que roubarias o dinheiro e acreditei que o tinhas roubado. Ajudei-te a fugir, sabendo quem eras e o que podia esperar de ti. Porque acreditará ela que podes ser diferente, que podes viver como um homem honrado?
— Confiou em mim, simplesmente. Acreditou quando todos não acreditavam. Assim são as mulhe-res. E quando me receberam como um herói, ela, pelo contrário, sentiu aversão por mim. Nunca se pode entender as mulheres, Dinah...
Estavam ali, na pequena lomba nas cercanias das Tumbas. Umas rochas formavam uma defesa natural, ocultando-os de possíveis curiosos. Meteram o cavalo num pequeno vale, acocorando-se eles nas sombras, suportando o frio da madrugada.
— Oh Ken, tenho medo de te perder -- ciciou ela, aconchegando-se a ele, — Essa rapariga é bonita... e ama-te.
---- Não digas tolices. O nosso mundo é diferente. Tu e eu, em troca, pertencemos ao mesmo.
— Sim, Ken, e é o que me assusta. Que comeces a deixar esse nosso mundo...
Millard não respondeu. Fingiu adormecer e ela respeitou o seu silêncio. Pouco depois, dormiam ambos. A luz do amanhecer despertou Millard, bem como um rumor próximo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

PAS562. O pacificador desmascarado parte em busca do assassino

Tudo se havia perdido. Num só instante o castelo de cartas desmoronava-se. Tinha de acontecer mais dia menos dia. E acontecera precisamente agora, na sua noite decisiva, quando Ken Millard conseguiu vencer a tentação e iniciar o caminho da sua reabilitação...
Subitamente, a sua mão direita apareceu armada do temível «Colt» negro. No silêncio da cela a arma produziu um ruído estranho ao cair.
— Abram caminho! — rugiu Ken Millard. — Abram caminho, senhores, ou disparo sem piedade!
— Bartok! — Exclamou Morrow, atónito, olhando-o com deceção.
— Não sou Bartok, já o ouviram! Sou Ken Millard, um fugitivo da Lei, um desertor do presídio onde cumpria pena por ter vivido sem honra nem dignidade! Agora quando dominei o meu instinto, quando começava a ser decente é quando ninguém me acredita e me atiram de novo para o cárcere! Pois seja, já que assim o querem! Ken Millard, devolve--lhes a sua estrela de comissário de opereta! -- E arrancando-a do peito com violência, atirou-a ao chão. — Dêem-me passagem ou abri-la-ei a tiro!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

PAS560. Encontro com o pacificador que levou as botas para o Além

Estendido no chão, de ventre virado para cima, e com os olhos já vidrados fitos no céu, viu-o por fim. Ainda estava vivo, apesar do sangue que copiosamente corria empapando a sua camisa, brotando de dois orifícios. Em frente dele, um pouco mais longe, um homem armado com um largo e afiado cutelo, jazia 'de bruços, com as costas cobertas de pó. Fácil era supor que teria sido outro dos atacantes do homem solitário e que fora este quem, antes de chegar a sua vez de ser banido da luta, devido à superioridade numérica dos adversários, aniquilara aquele homem.
Era loiro, talvez mais até do que Ken. De olhos também claros mas com um matiz esverdeado. Sem dúvida tinham sido sagazes, duros, penetrantes. Agora, porém, pouco a pouco, ficavam velados, privados de toda a expressão e vivacidade.
Ken saltou algumas rochas e inclinou-se sobre ele. Estudou as suas afiladas feições, muito lívidas pela aproximação do fim. A mão crispada., estendia-se ainda segurando a culatra de um revólver preto, de cano comprido.

PAS561. O pacificador apresenta-se em Las Tumbas

A face de Gene Morrow tornou-se lívida.
— Irving Dooleyl — exclamou roucamente.— Que lhe aconteceu?
Ninguém respondeu. E vendo bem, nem era preciso. Do que Dooley se podia ter lembrado, era demasiado evidente para que fosse preciso referi-lo em palavras.
Ali estava o próprio Dooley, perguntando-o em silêncio. Estava só, rígido, inanimado, sem vida. Várias balas tinham-lhe perfurado o peito e todas tinham entrado pelas costas.
Os homens que o fizeram deixaram-no cair sobre uma mesa. O seu corpo inanimado ressoou sobre as tábuas mal unidas. Alguém suspirou naquele silêncio, de forma a ser ouvido.
— Mataram-no -- disse friamente Shentall, avançando uns passos. Outra vítima dos nossos inimigos!
— Cuidado! — avisou outro. -- Não há provas contra o autor disto. Dooley apareceu morto nas suas fazendas. O seu rancho ardeu e as reses foram dispersas. Isto são os factos. Mas ninguém pode apontar um culpado.
— Eu aponto! — rugiu Morrow, fora de si, e avançando. Todos sabemos que ultimamente, Irving Dooley se revoltou contra a tirania dos Roderick! Sabemos pois todos quem moveu a arma homicida!
— Um momento, senhores, -- disse alguém dum extremo da sala. — Não estarão a precipitar-se temerariamente em seus juízos?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

PAS559. Um homem e uma mulher combinam reencontro em Las Tumbas

— Assim, não iremos longe, Dinah.
— Porque não? Já fizemos muito, Ken. Fugiste da prisão, iludimos os teus perseguidores. Há horas que cavalgamos e não vemos o mais leve rasto deles. Já passámos a divisória do Condado. Que mais podes querer? Aonde quererás tu chegar?
Millard não respondeu logo. Sentado em pedras junto do riacho rumoroso, orlado de canaviais e juncos, atrás dos quais eles se protegiam de qualquer pessoa que andasse pelas cercanias, começou a mover a terra com a ponta da sua pesada bota e franziu o sobreolho.
Depois, ergueu os olhos, claros e duros, para ela, dizendo pausadamente:
— Isto ainda é o princípio, Dinah. Eu peço mais alguma coisa. Não quero gozar de liberdade três dias e voltar para aquela prisão por dez anos, pendurado numa árvore, em qualquer lugarejo onde eu venha a ser reconhecido, depois de decidirem fazer justiça por suas próprias mãos.
— Mas quem te vai reconhecer? Estamos noutro Condado. Nunca estiveste aqui...

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PAS558. Um homem e uma mulher fogem à prisão

O mais difícil estava feito.
Mas nem todos se tinham decidido e Ken sabia-o bem. Também ela se apercebera de tudo quanto ainda faltava fazer. Lia-se na sua expressão inquieta, na dilatação das suas pupilas e na tremura das suas mãos.
Tinham escapado, sim. Os muros cinzentos, tal como as roupas de Ken Millard, tinham finalmente ficado para trás. Era um pesadelo bem escuro suportado durante anos. Poucos anos, sem dúvida. Mas tinham que ser mais, muito mais...
Os cavalos eram resistentes. Mas os dos cavaleiros e soldados também o eram. E com a vantagem de serem muitos mais. Se algum desfalecesse, outros continuariam a sua perseguição, aquela caçada humana. Se um dos seus falhasse... tudo estaria perdido.
— Depressa, Ken! — exclamou, esporeando a sua montada desesperadamente. — Já ali vêm no alto da montanha! São pelo menos vinte!
— Não percas a serenidade, Dinah — recomendou Ken secamente. — Se espicaças muito o animal, corres o risco de rebentá-lo ou de o esgotar, na melhor das hipóteses. Então não poderás contar mais com ele. É preferível manter o mesmo ritmo. Estes animais são a nossa única esperança. A divisória não pode estar longe. Pelo menos cruzaremos a do Condado. Aí estaremos um pouco mais seguros. Parece-me que não conhecerão bem a localização do Condado vizinho.
— E tu conhece-la bem?
— Também não. Mas estou habituado a esquivar-me aos meus perseguidores — riu-se Ken, duramente.
Continuaram o caminho. O cavaleiro vestido de cinzento, com as suas roupas grosseiras e o número de presidiário ainda posto no peito, corria desenfreadamente, sem no entanto acossar a montada. Sabia quanto um cavalo dá de si, quase tal como pode dar um homem. Um cavalo, muitas vezes, significa a salvação do seu cavaleiro, se este o conhecer bem.
O caminho agora era plano e seco, o que era um inconveniente para a fuga. Além disso, o vento impetuoso, soprava contra eles, levantando nuvens de areia, que molestavam os cavalos, ao introduzir-se--lhes nos olhos e na boca tanto dos animais como dos cavaleiros.
Ken sentia a irritante areia entre os dentes, cuspindo com frequência. Fazia frio e o ar cortava a pele. O céu estava coberto de grossas nuvens negras e tristes. Tristes como as paredes impenetráveis da Prisão Territorial, sujas como a própria prisão. Mas, mesmo assim, Ken preferia isto. Desejava cavalgar sob nuvens assim nem que fosse toda a vida, a estar encarcerado. Não se sentir emparedado por altas muralhas de pedra e com a sua liberdade circunscrita a um pátio retangular, de pedra, gélido, ou então na velha cela número trinta e sete. Não se sentir junto com outros infelizes que não tinham tido a sua sorte e audácia, continuando pois lá. De resto, também não tinham uma Dinah, trabalhando cativa e febrilmente, cá por fora, para o tirar de lá.
Olhou de soslaio para Dinah. Armas, cavalos, a oportunidade de fugir, tudo fora obra dela. Ninguém tinha suspeitado duma mulher. E ainda menos que ninguém, a própria sentinela de serviço naquela noite. Quando ela se apercebeu, já Dinah lhe ia vibrar o golpe certeiro na cabeça. Após isto, não lhe foi difícil entrar na prisão deserta, silenciosa. Escolhera bem o ponto de acesso. Próximo do pátio para onde davam as portinholas das celas. Uma delas era a de Ken. Uma arma rapidamente passada por uma corda através das grades. E logo ela se foi embora.
Ken queixou-se em voz alta. O carcereiro acudiu. Era um preso dócil pelo que de nada podia desconfiar. Quando o guarda entrou, Ken subjugou-o. Apoderou-se das suas chaves e da arma. Os restantes não quiseram fugir. As suas penas eram pequenas, e a sua fuga podia significar a morte. Não se arriscaram, mas desejaram-lhe boa sorte.
Logrou alcançar a plataforma exterior, depois de derrubar inesperadamente outro guarda. Quando deram conta do que se passava, na torre de controle, e começaram a disparar sobre ele, já, tinha saltado o muro e pulava para um cavalo, junto de Dinah, que o aguardava mesmo junto da cerca de pedra.
Depois disto, a perseguição... E aí vinham eles. Cavaleiros, guardas e soldados da guarnição do presídio, no seu encalce.
Desciam já um monte, a galope. Os tiros ressoavam naquela manhã. As suas fardas de cor avermelhada eram como que coisas sem cor naquela luz do amanhecer escuro e frio.
As balas sibilavam bem perto dos cavalos em fuga, Ken voltou-se sem afrouxar a marcha. Disparou também sobre eles. Não sobre os homens. Não queria mortes na consciência.
Atingiu um cavalo que tombou espetacularmente monte abaixo, arrastando o cavaleiro e fazendo cair mais três ou quatro cavaleiros, que vinham bem lançados após esse.
Ken riu-se inclinando-se sobre a garupa da sua montada e fazendo-a correr velozmente aos ziguezagues para evitar que lhe acertassem. Dinah, sempre astuta, adotou igual tácita sem precisar de avisos,
Resultou, pois, que os tiros, agora, eram mais e disparados nervosamente, procurando atingir qualquer uma das presas. A mudança constante dos dóis alvos, porém, impedia que eles fizessem pontaria certeira.
A isto juntou-se a nuvem de pó levantado pelo vento, e que pouco a pouco constituiu uma cortina protetora dos perseguidos.
Ken pensou ser este o momento propício para desnortear os seus perseguidores e ganhar uns minutos preciosos. Com sorte, podiam até atingir uma hora de vantagem.
A areia no ar, batendo nós seus rostos, parecia alfinetes, mas Ken Millard não se preocupava com dores físicas. Através da poeirada muito densa, mas conveniente, vislumbrava umas estreitas rochas à sua esquerda. A seguir era a planície, lisa e deserta até ao limite do Condado. A planície era agora totalmente invisível devido à poeirada.
— Vira para a esquerda, Dinah! -- disse com rapidez.— Para esses estreitos!
Ela pareceu perceber. Assentiu com a cabeça e lançou-se qual flecha até lá, imitando a rápida manobra de Ken, que não mostrou hesitação alguma.
Os cavalos vacilaram pressentindo a profundidade das brechas abertas no caminho. Ken, então esporeou a sua montada e Dinah fez o mesmo. Saltaram.
Eram fundos barrancos, autênticos fossos, onde os animais se precipitavam violentamente, mas a terra era macia lá em baixo, evitando assim um trágico desastre para os cavalos e suas montadas.
Sobre as suas cabeças, atrás de si, ficaram as rochas que formavam o despenhadeiro e Ken, ergueu a cabeça, hirto, empunhando o revólver com mão firme. Dinah, estendida junto do seu cavalo, tirou um. «Winchester» e aguardou, olhando para cima.
 Se algum rosto aparecesse lá em cima, significaria que a manobra fora descoberta. E isso seria então o fim, mas um fim que Ken estava disposto a vender por alto preço bem como o da mulher que o havia salvo.
Ouvia-se, distintamente, o galopar dos cavalos. Tremeu a terra à sua volta. As patas dos cavalos batiam no chão com tal ritmo que o estremeciam. Cada vez se aproximavam mais...
O dedo indicador de Ken Millard curvou-se no gatilho. Sob o tecido cinzento do fato de presidiário, vibraram músculos e nervos.
Foi nesse momento que os cavalos passaram em grande velocidade, bem perto do despenhadeiro. Parecia um trovão que rebentava sobre eles. A pouco e pouco ia-se perdendo na distância, até deixar de se ouvir completamente, levado pelo soprar impetuoso do vento.
Um ruído que, agora, parecia ser a Ken, verdadeira música angelical...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

CLF055. O "Colt" dita a sentença

 
(Coleção Califórnia, nº 55)
Ken Millard foi ajudado a fugir da Prisão Territorial por uma mulher apaixonada, Dinah. Durante a fuga e com planos para novos assaltos em busca de dinheiro, resolveram separar-se para se reencontrar em Las Tumbas, acreditando que assim teriam maiores hipóteses de escapar aos perseguidores.
Las Tumbas vivia uma situação dramática com roubos e assaltos pelo que alguns dos seus habitantes se reuniram para contratar um pacificador que os levasse a desfrutar de novo de uma cidade pacífica.
O pacificador foi atacado enquanto se dirigia para a cidade e o acaso quis que um dos fugitivos se encontrasse com ele e com os seus atacantes, levando-o a desfazer-se deles, não conseguindo no entanto salvar-lhe a vida. Recolheu os seus bens e a carta de apresentação em Las Tumbas. Iniciava-se assim um novo capítulo na vida de Ken Millard que, de fugitivo, se veio a converter em representante da lei.
Mas a situação em breve derivou para um possível desmascarar de Ken. E, um dia, Dinah chegou a Las Tumbas e pô-lo perante a sua promessa de arranjar mais dinheiro. No entanto, esta fabulosa mulher acabou por dar a sua vida para o salvar.
Magnífico livro de que vamos deixar algumas passagens, acompanhando a relação de Ken e Dinah, e de que disponibilizamos ficheiro para download.