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sábado, 6 de fevereiro de 2016

PAS580. O sonho de ter um rancho

Os Robinson viviam em Nova Orleães, onde possuíam urna pequena casa de vendas a retalho que ia dando para comer e para, devido à organização de Susy e ao seu método, juntarem um pequeno pé-de-meia.
O sonho de ambos era possuírem um rancho, mas o seu pequeno pecúlio ainda não chegava.
Teriam de comprar o terreno e só para ele iriam todas as economias que, mesmo assim, não chegavam, devido a gente sem escrúpulos que especulava pedindo por terrenos de pouca valia dez ou vinte vezes o seu valor real.
Apesar disso, pai e filha não perdiam as esperanças e moeda a moeda o pequeno pecúlio ia aumentando dia a dia.
Os meses foram passando e quando julgaram ter o suficiente, Robert Robinson dirigiu-se a Lou Carpenter, um vendedor de terrenos, a fim de finalmente comprar um que já estava falado e com preço estipulado. Porém Carpenter era velhaco e cobiçava Susy.
Quando Robinson se apresentara para fazer o negócio, o bandido atendeu-o cheio de falsos sorrisos:
— Ora viva o nosso Robinson. Então que o traz por cá?
— Bom dia, Carpenter — cumprimentou o velho pioneiro. -- Finalmente consegui o dinheiro suficiente para comprar a terreno de que já falámos. Trago-lhe os dez mil dólares, conforme o combinado e pode já começar a passar-me a declaração de venda.
O sorriso desapareceu da boca de Carpenter. Lentamente sentou-se e a sua, voz tomou um tom de lamentação.
— Sinto ter de lhe dizer, Robinson, que lhe não posso vender o terreno por esse preço. É que...
— Mas foi assim que combinámos e você não pode voltar com a palavra atrás — interrompeu-o o velho Robinson.
— Custa-me imenso fazê-lo, Robinson, mas não tenho outra alternativa. O preço dos terrenos subiu devido à linha dos caminhos de ferro e já me ofereceram por ele o dobro e não o vendi. Isto é falar-lhe com franqueza.
— Mas...
— Lamento, meu amigo.
O especulador apertava os lábios entre o indicador e o polegar da sua mão direita e estava pensativo o que deixou o pai de Susy em suspenso.
Ao fim de alguns minutos Carpenter falou:
— Há uma maneira de chegarmos a um acordo caro Robinson.
— Diga lá. Sabe bem que tudo farei para adquirir aquele vale. É a paixão da minha Susy.
— Isso ainda vem ao encontro dos meus planos. Vamos fazer a seguinte combinação: como sabe eu gosto de Susy e tudo, farei para a conquistar, embora, sem saber porquê, ela me não...
— Alto, Carpenter — gritou o pai da rapariga cheio de indignação. Pare de falar e feche essa parca bocarra de sapo antes que eu a desfaça a murros.
— Mas, senhor Robinson...
— Cale-se, filho de uma cadela.
Agarrando o bandido pelas bandas da labita levantou-o da cadeira, demonstrando uma força invulgar para a sua idade.
Carpenter, vendo o caso mal parado, estava pálido como um cadáver e tremia como varas verdes.
Com a cara muito junta da do bandido, o velho disse com voz rouca:
— Fica sabendo, cão imundo, que Robert Robinson é um homem honesto e não negoceia a sua filha. Preferia pedir esmola a vê-la casada com um cobarde como tu.
— Senhor Robinson, tenha calma — pediu Carpenter.
— Calma, estando um réptil asqueroso como tu tão perto? Eu devia matar-te, cão, mas nem o custo de uma bala mereces. Livra-te de eu te ver tentando falar com a minha filha. Hoje só te faço isto.
Robinson escarrou-lhe na cara e atirou-o sobre a cadeira que se estilhaçou em mil bocados.
Virando-se para sair do gabinete parou boquiaberto.
À entrada da porta estava Susy que assistira à discussão sem os dois homens terem dado pela sua presença.
Dirigindo-se à filha, Robinson disse:
— Vamos, minha filha. Abandonemos este covil infecto.
— Sim, pai, vamos embora, mas antes deixe-me dizer, duas palavras a esse parco cobarde. — E voltando-se para o aturdido Carpenter continuou: — Se até agora sentia por ti somente simpatia, a partir de hoje nem ódio sinto, tanto valor tens para mim. — Voltando-se para seu pai prosseguiu: — Vamos, paizinho?
Ambos abandonaram o escritório do bandido.
Este levantou-se do chão e com os olhos fixos na porta sacudiu maquinalmente o pó do fato. Sentindo a cara húmida, levou a mão, ao sítio e verificou repugnado que um escarro lhe vinha agarrado aos dedos.
Sacudiu-os vigorosamente e com um lenço limpou a face.
Acabava de cometer o maior erro, da sua vida. Devido à sua ganância, perdera um bom amigo, unia mulherzinha adorável e dez mil dólares por um terreno que lhe custara cem.
Isso tudo aliado ao facto de ter sido humilhado até às últimas por um velho de cinquenta e dois anos. Irra, que era demais.

sábado, 23 de janeiro de 2016

PAS570. Uma vingança implacável

Mal se viu na rua, «Faro» Robinson correu para o estábulo publico, montou num dos cavalos e obrigou-o com as esporas a galopar rapidamente, dirigindo-se com desespero para os Termos.
A ideia do jovem foragido era a de apanhar o oiro que guardava no refúgio e sair precipitadamente para outro Estado. Ali, em Dakota, a vida no futuro ser-lhe-ia impossível.
Já, não se lembrava da bela Eleonor, nem de Martha, nem do homem da cara de furão, o ultimo que havia caído as mãos da Lei. Um grande pânico espicaçava-o e só desejava pôr a maior quantidade possível de terreno entre ele e Rapid City.
Chegado ao refúgio, começou a disparar contra as aves de rapina que enchiam as galerias; mas quando conseguiu chegar ao sítio onde havia escondido todo o produto das inúmeras pilhagens, carregar com ele e sair de novo para o exterior descobriu, aos primeiros alvores do dia, um cavaleiro que, decidido, avançava na sua direção. Semicerrou as pupilas amareladas, langou uma maldição ao reconhecer Tony Mitchell no cavaleiro, empunhou os revólveres quase maquinalmente e meteu-se numa das cavernas para esperar o seu inimigo e disparar sobre ele à traição.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

PAS569. Por que se morre por um foragido

— Já acabaste, filha...?
Martha entrou no quarto de Eleonor. Esta, desde que seu pai morrera, mal saia dos seus aposentos. O golpe havia sido demasiado rude, e por mais que Richard Maloney, Tony Mitchell e a própria Minetake tivessem tentado convencê-la a distrair-se, a fazer a sua vida normal, não o haviam conseguido.
— Ouvi abrir-se a porta da rua. Era Dick?
— Sim, era ele... Esta no gabinete de teu pai... que descanse em paz. Quer que vás ali. Disse-me qualquer coisa acerca de mandar fechar o estabelecimento.
— Por que razão não me veio ver primeiro? Não achas a sua atitude esquisita?
— Eu... não... Sabes que a sua opinião é a de que salas desta clausura... Uma filosofia um pouco estranha, mas... Creio que deves ir... Pode ser que seja importante o que tem a dizer-te.
— Insisto em que devia ter vindo ver-me primeiro...
— Vamos, vamos, não sejas criança...
Sobre uma mesinha, o jantar de Eleonor estava intacto.
— Direi a Susan que retire isso... Quanto a Richard Maloney, que decides...?
Sobre o roupão, Eleonor O'Brien langou um ligeiro casaco de meia estação e dispôs-se a acompanhar a tia. Desceram ambas as escadas e entraram no «saloon» pela porta que Maloney utilizara minutos antes.
Uns segundos depois, as duas mulheres penetravam no gabinete.
A surpresa e o terror deixaram a jovem paralisada. Viu Maloney amarrado a cadeira, recém-recobrado o conhecimento, com claros sinais de haver sido maltratado, e sentiu que o mundo cedia sob os seus pés... Refez-se com grande esforço e olhou fixamente a tia.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

PAS568. Procurar bandidos e encontrar formoosas meninas

A cada saraivada de chumbo que enviavam para a caverna, respondia-lhes um novo e agónico alarido.
Ao fim de algum tempo, ao verificarem que do lado de dentro já ninguém respondia ao fogo, Richard Maloney e o companheiro deixaram de disparar, embora mantivessem os revólveres em posição de recomeçar a luta ao primeiro sinal de perigo.
— Não disparem... entrego-me...
— Estás sozinho? — perguntou Mitchell. — E os teus companheiros? — Mortos... Estão todos mortos... Não disparem, por favor! — Sai com as mãos atrás da cabeça — ordenou Maloney —e muito cuidado com o que fazes.
O foragido apareceu na abertura da caverna e deteve-se. Tony Mitchell pôs-se em pé, para ordenar que o outro avançasse até eles. Nesse momento, o bandido moveu uma das mãos que trazia atrás da cabeça e nela apareceu uma arma de fogo.
Não chegou a disparar. O próprio Mitchell levantou o revólver e apertou o gatilho duas vezes consecutivas. Um dos projéteis alcançou-o no coração e o outro no estômago.
Embora tudo tivesse acontecido com grande rapidez, ambos os jovens se admiraram de que o resto da quadrilha não houvesse acudido em seguida ao ponto onde se havia desenrolado a fugaz e sangrenta peleja. Mas nem por isso perderam tempo. Saíram do seu refúgio com grandes precauções e aproximaram-se do caído.
Depois de comprovarem que estava morto, apuraram o ouvido para verificar se na caverna ainda restava alguém com vida. Ouviram uns gemidos e Richard Maloney decidiu acender a pequena lanterna que normalmente usava suspensa no cinto, como um instrumento de ajuda no seu trabalho.
Voltou para o interior da caverna e avistou quatro vultos imóveis.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

PAS567. Razões para duas meninas não passearem sozinhas pelos campos

Mais propriamente para distrair a sua nova amiga, Eleonor O'Brien propôs a Minetake dar um passeio a cavalo e visitar, de passagem, a cabana que Maloney lhes havia oferecido. A manhã, soalheira e alegre, apesar de uma ligeira aragem que soprava do Norte, era propícia para a projetada excursão. Tony Mitchell tê-las-ia acompanhado de boa vontade, mas não o fez para não deixar o posto abandonado.
Montadas em magníficos animais, propriedade de Eleonor, as duas raparigas afastaram-se de Rapid City, prometendo estar de volta antes do meio-dia.
Eleonor O'Brien falou a Minetake da sua vida, dos seus amores com Richard Maloney e da leve oposição que o pai fazia às suas relações com o «rural». Segundo a sua opinião, o motivo de tal oposição residia no facto de Maloney não possuir outros meios de fortuna senão os braços e o coração.
Não contou, porém, a Minetake a absurda paixão que «Faro» Robinson nutria por ela e a insistência de sua tia Martha em favor do bandido. Sobre essas coisas tão íntimas e aborrecidas, preferiu guardar um prudente silêncio.
— Não te importes com o facto de Richard ser pobre — disse-lhe Minetake. — Se o amas como dizes, luta denodadamente pela tua felicidade e faz ver a teu pai que o dinheiro não conta em assuntos amorosos. Eu, no teu caso, não faria disso um problema.
Cavalgaram uns segundos em silêncio, contemplando a maravilhosa paisagem.
— Compreendo que sou uma tonta, Minetake — murmurou, por fim, a filha de O'Brien. — Mas é que me sei incapaz de dar o menor desgosto a meu pai... Se não fosse pelo grande amor que lhe tenho, já me teria casado com Dick. Já atingi a maioridade e posso fazê-lo se assim o entender.
— E o que pensa o teu noivo?
— Richard é bom e sumamente compreensivo. Deixou o assunto nas minhas mãos, convencido de que, por fim, o papá consentirá. Eu também penso o mesmo. Ele espera falar-lhe um destes dias... Mas... conta-me alguma coisa acerca de ti, Minetake. De ti e de Tony. Como vos conhecestes? Porque vieste até tão longe?
A filha de «Urso Prateado» explicou à sua amiga tudo quanto esta desejava saber, concluindo com a odisseia da fuga e lamentando a partida que haviam pregado a seu pai. Não obstante, afirmou:
— Mas amo Tony sobre todas as coisas e casar-me-ei com ele.
— Mas, Minetake, eu também quero muito a Dick. Daria a minha vida por ele. No entanto, falta-me a tua força de vontade. Esperemos até ver o que acontece quando ele falar com meu pai.
— Oxalá tenhais sorte. Desejo-vo-la sinceramente. No pouco tempo que te conheço, dei-me conta de que és digna de encontrar a verdadeira felicidade.
Haviam chegado à cabana. Desmontaram à porta, prenderam os cavalos e penetraram no interior da humilde construção.
— Isto está bastante bom, hem? — disse Eleonor. — De princípio não tereis grandes comodidades, mas sei que Tony é habilidoso e com o tempo porá a casa em condições. Além disso, a paisagem é magnífica.
— Agrada-te?
— Muito, Minetake. Não encontro palavras para te exprimir a minha admiração. Pena que o pobre «Pecos» Burt não possa estar convosco!
— É verdade. Acredita que lamentei a sua morte como se se tratasse de um verdadeiro irmão.
Saíram e sentaram-se sobre a erva fresca, à sombra da construção. Do bosque vizinho chegava até elas um agradável sussurro, e alguns pássaros, aninhados no beiral do telhado, lançavam para o ar os seus alegres trinados. Tudo estava impregnado de uma grande paz e serenidade. No entanto, a paz e a serenidade eram enganosas. Um perigo espreitava as duas jovens.
Eleonor O'Brien foi a primeira a dar fé dele. Havia voltado a cabeça para arrancar uma margarida e viu os homens que se aproximavam. Ao seu grito, Minetake voltou também a cabeça e levantou-se disposta a apanhar uma pedra para se defender. Mas os bandidos caíram-lhe em cima e prenderam-lhe os braços.
— Miseráveis! — arquejou a jovem índia. — Que procurais aqui? Vós sois os que fugiram da prisão!
— Como o adivinhaste, pequena? — perguntou um dos foragidos com ironia.
«Faro» Robinson adiantou-se, ignorando Minetake. Todo o seu interesse ia para a pessoa de Eleonor O'Brien.
— Voltamo-nos a ver, Eleonor, e desta vez no meu terreno.
— O que te propões fazer?
— Cansei-me de esperar, querida. Tenho a tua imagem gravada no cérebro com os contornos desenhados a fogo, e é-me impossível arrancá-la. Tu e a tua amiga virão comigo.
Fez um gesto aos restantes bandoleiros. Tratava-se, efetivamente, do grupo de fugitivos. «Faro» Robinson havia-os libertado e todos, sem exceção, haviam decidido fazer parte da nova quadrilha criada por ele. Amarraram os cavalos junto aos das raparigas e penetraram na cabana, levando Minetake.
— É um atropelo de que, apesar de tudo, o julgava incapaz — sussurrou a filha de O'Brien.
«Faro» Robinson cravou de novo as pupilas amareladas no rosto ligeiramente sufocado da jovem.
— Tu és obstinada, mas eu não o sou menos. Veremos por fim quem vence. Que viste em Richard Maloney que eu não tenha?
— Ele é um homem honrado!
O foragido levantou a mão e deixou-a cair com força sobre a face de Eleonor. Naquele momento, dentro da cabana, soou o alarido de um dos homens de Robinson, seguido por um grito de Minetake.
— Que aconteceu, rapazes? -- inquiriu o cabecilha em voz alta.
— Esta ferazinha morena mordeu-me — explicou um deles. — Eu, para me defender, vi-me obrigado a dar-lhe uma bofetada.
O homem que falara havia entretanto surgido à janela.
— Estão uns para os outros! — murmurou a filha de O'Brien, com os olhos húmidos.
«Faro» Robinson ignorou o comentário da jovem.
— Deixai-vos de brincadeiras e amordaçai-a convenientemente ordenou. Sairemos em seguida para o esconderijo.
— Vocês são infames — prosseguiu Eleonor, compreendendo o que havia acontecido com a amiga.
O cabecilha não replicou. Agarrou a jovem pela mão, arrastou-a para o cavalo e em menos de um minuto manietou-a de tal forma que não pudesse escapar. Os restantes bandidos fizeram o mesmo com Minetake, e, pouco depois, com ambas as mulheres prisioneiras, galopavam rumo ao Sul, para o esconderijo que os foragidos tinham nos Termos...

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

PAS566. Nunca faças perguntas a um homem escondido

Passados vários dias, a ferida de «Faro» Robinson estava suficientemente cicatrizada para permitir ao cabecilha dos bandidos descer a Rapid City, a fim de visitar 'William O'Brien e combinar com este a melhor forma de libertar os presos.
Morto «Maneta» Abraham, o jovem foragido tinha a certeza absoluta de que, se os tirasse da prisão, todos os homens que haviam pertencido ao bando daquele se uniriam a ele de bom grado.
O problema estava, pois, no modo de os libertar. Sabia por experiência própria que nenhum dos batedores se deixaria subornar, pelo que pensava sinceramente que a solução tinha de ser encontrada noutro lado, com a ajuda do pai de Eleonor. Ele era bom para assaltar caravanas em grupo, mas não para idealizar um plano em que a inteligência predominasse sobre a força.
Pouco depois de anoitecer, selou o cavalo e partiu para o povoado. Sabia que não se podia apresentar ali despreocupadamente e, por isso, esperou que as sombras noturnas se apoderassem da terra.
Uma vez em Rapid, conduziu a sua montada a passo por algumas ruas pouco frequentadas. Estava quase a alcançar o seu objetivo — a porta traseira do «saloon» de O'Brien — quando algo lhe chamou a atenção.
Uma das janelas posteriores da residência do seu amigo estava iluminada e, através dos vidros, percebiam--se várias figuras, que se moviam no interior. Numa dê-las reconheceu Eleonor e não teve força de vontade para passar de largo.
Aproximou-se da vidraça e pôde comprovar que a jovem se encontrava acompanhada por uma rapariga morena, de visíveis traços índios, e por um homem de uns vinte e cinco anos, vestido como os caçadores.
«Faro» Robinson não podia adivinhar que os hóspedes de Eleonor eram Minetake e Tony Mitchell.
Os dois jovens haviam sido apresentados à rapariga naquela mesma tarde e a filha de O'Brien fizera questão em que o caçador e a rapariga pele-vermelha a acompanhassem a casa para tomarem todos um refresco. Nem Tony Mitchell nem Minetake haviam sabido recusar e ali estavam os três, percorrendo os salões, sob a admiração de Minetake e os elogios de Tony Mitchell ao muito e belo que a casa encerrava.
«Faro» Robinson sentiu-se invadido pelo ódio e pela inveja só pelo fato dos jovens serem convidados da rapariga que desejava de modo doentio. Apertou os punhos com raiva.
— Que faz aí, amigo? Que observa com tanta insistência?
A voz de «Pecos» Burt soou à retaguarda de «Faro» Robinson e este voltou-se com os revólveres nas mãos. Não respondeu nem articulou a menor palavra. Tinha visto a morte demasiado perto da última vez que estivera no povoado e o medo de cair de novo ferido fê-lo premir o gatilho sem permitir ao outro o menor movimento de defesa.
Na noite, os dois disparos ecoaram lugubremente e as balas acertaram em cheio no peito do mais velho dos Mitchell. Sob todos os prismas, foi um assassínio.
«Pecos» Burt cambaleou. Quis sacar as suas armas, mas, sem forças para isso, caiu de costas. O foragido, receoso, correu para o cavalo e perdeu-se na noite. Tony Mitchell saiu à rua, atraído pelos disparos, e encontrou-se com o corpo moribundo.
Quando se aproximou e viu que era seu irmão, algo como uma forte descarga elétrica sacudiu o seu corpo. O grito que proferiu pareceu mais o de uma estranha fera.
— Burt! Quem disparou sobre ti?
«Pecos» Burt sorriu tristemente. Pela comissura dos seus lábios começou a deslizar um fio de sangue.
— Agora... fui... eu... o caçado... — arquejou. — Não... o... conheço...
Minetake e Eleonor haviam acudido também e lágrimas de verdadeiro pesar corriam-lhes pelas faces. As de Minetake pareciam de fogo.
Tony Mitchell não permitiu a «Pecos» Burt continuar a falar. Levantou-se do chão e com ele nos braços dirigiu-se para o posto de «rurais». Maloney surpreendeu-se ao avistar Tony Mitchell carregado com o ferido. Aproximou-se dos recém-chegados e urna exclamação de surpresa e dor acudiu aos seus lábios ao verificar de quem se tratava. Colocaram Burt Mitchell numa cama e tentaram por todos os meios estancar-lhe a hemorragia.
— Vou... andando... Tony — falou «Pecos» Burt, entre estertores. — Acertaram-me... bem...
— Não fales, Burt -- recomendou o irmão, com lágrimas nos olhos. — inútil... Tony... O meu assassino é... um homem jovem... com pupilas... amarelas.
— «Faro» Robinson! — exclamou Richard Maloney. — Pelos sinais não pode ser outro.
Minetake e Eleonor O'Brien choravam em silêncio. Tony Mitchell tinha os dentes cerrados e os olhos fixos no descomposto rosto do moribundo.
— Que sejais... muito... felizes... Tu, Minetake... cuida... dele...
Não voltou a pronunciar qualquer palavra. Deu um suspiro, inclinou a cabeça e morreu. No rosto ficou a pairar-lhe um leve sorriso.
Tony Mitchell mostrou-se aniquilado. Burt e ele jamais se haviam separado desde que ficaram órfãos. Haviam crescido juntos e juntos percorreram a pradaria, dedicados à sua profissão de caçadores. Quantas vezes se haviam salvado a vida mutuamente, em luta contra os índios, contra os bandoleiros, contra as feras!... E agora, um maldito cocote havia-o privado do seu companheiro de sempre. Ergueu-se perante o cadáver de «Pecos» Burt e murmurou com voz rouca:
— Eu vingar-te-ei, irmão. O sangue desse assassino pagará o teu!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

PAS565. Encontro do bandido ferido com a filha do dono do «saloon»

«Faro» Robinson meteu os revólveres nos coldres e reparou de súbito que o sangue lhe corria pelo braço esquerdo e lhe chegava aos dedos. Apalpou o lugar da ferida e pôde comprovar que não era grave, embora se tornasse necessário estancar a hemorragia o mais cedo possível. Voltar ao «saloon» era-lhe totalmente impossível, pois William O'Brien tinha a certeza, já deveria ter fechado a porta dos fundos e estaria agora no seu gabinete para fingir que não havia tomado parte cativa na contenda.
Ocorreu-lhe outra solução e um sorriso distendeu os seus lábios. Acabava de pensar em Eleonor.
Desde que a conhecera, o jovem foragido sentia urna certa inclinação amorosa pela filha do seu amigo O'Brien. Por casualidade, encontrara-a um dia na rua, falara um momento com ela e já não a pudera esquecer.
Quis vê-la outras vezes, falar-lhe do seu louco amor, mas a rapariga, amavelmente, fizera-lhe ver a distância moral que os separava.
No entanto, «Faro» Robinson sabia que tinha ali dentro uma aliada incondicional: Martha, a mulher de rosto e lábios murchos. Lembrava-se muito bem que esta o havia incitado sempre e que lhe havia servido de intermediária e testemunha das poucas entrevistas que Eleonor lhe concedera.
Deslizou silenciosamente para uma das janelas traseiras do edifício e tentou a sorte. Estava fechada. Ia a afastar-se para repetir a tentativa com outra janela quando a porta se abriu na escuridão, sem fazer outro ruído que não fosse o de um leve chiar de gonzos.
— Entra, Robinson — disse-lhe uma voz ligeiramente abafada e trémula. — Tenho acompanhado o desenrolar da luta e por momentos temi que te matassem.
— Ainda não se fundiu a bala que há-de acabar comigo.

domingo, 17 de janeiro de 2016

PAS564. Um branco foge com a filha do grande chefe índio

Os cascos dos cavalos, ao resvalarem pela rochosa pendente, levantavam miríades de chispas, que iam rebentar, raivosas, contra as paredes do estreito desfiladeiro. Ofegantes, os dois cavaleiros, homem e mulher, estimulavam freneticamente as montadas, exigindo-lhes o máximo esforço.
Tony Mitchell, o homem, sabia que se lograssem vencer a difícil passagem e atingissem a pradaria, o perigo de serem capturados diminuiria consideravelmente. Além disso, enquanto fugiam, havia concebido um plano, que esperava que lhes trouxesse bons resultados.
Atrás deles, a uma escassa centena de metros, os gritos dos «comanches» soavam de modo estridente. Não passavam de meia dúzia, mas faziam tão grande gritaria que quem não soubesse o seu número iria acreditar que se tratava de uma centena pelo menos.
O cavaleiro que precedia Mitchell, uma jovem índia de esplendorosa beleza, voltou o rosto para o seu companheiro e sorriu-lhe com certa traquinice.
— Haup! — gritou .— Um pouco mais e conseguiremos iludi-los.
— Creio que sim, Minetake. Para a frente!
A saída do desfiladeiro, ambos os cavaleiros, agora lado a lado, prosseguiram no seu frenético galope em direção a um grupo de rochas irisadas pelos raios do sol nascente.
Uma vez refugiados no granítico parapeito, Tony Mitchell lançou mão da sua carabina, procurou um lugar apropriado para disparar comodamente, e esperou pela aparição dos peles-vermelhas.

sábado, 16 de janeiro de 2016

BUF102. Com sangue também se paga


(Coleção Búfalo, nº 102)

A. G. Murphy. é um especialista em questões de caravanas que têm de atravessar território índio, deixando sempre uma porta aberta para o diálogo, e vencer batalhas com salteadores que gostem de se apropriar do alheio. Desta vez, a acção essencial não é no interior da caravana, mas, fora dela, com forças que combatem esses salteadores.
Para além disso, consegue introduzir nas suas novelas acções em que a paixão entre dois seres seja em geral contrariada. Neste caso, a personagem central apaixonou-se por uma linda princesa índia, Minetake, e resolveu raptá-la a fim de consumarem o seu amor.
Assim, em determinado momento, o herói desta novela vê-se acossado pelos índios que pretendem castigá-lo pelo seu atrevimento (e abuso de confiança, pois abriram-lhe as suas tendas e partilharam a sua comida) em se apoderar de Minetake e, por outro lado, em luta aguerrida contra salteadores muitas vezes traiçoeiros...
Já sabem quem ganhou no fim, mas as perípécias são bastante engraçadas.
A capa, não assinada, retrata-nos momentos dessa luta fantástica que a novela descreve.