quinta-feira, 11 de abril de 2019

BUF004.06 Encontro com o pessoal do «Doble Z»

O cavalo de Barry obedeceu imediatamente ao assobio do seu dono, e juntos, os três cavaleiros encaminharam-se para o rancho «Doble Z».
— Porque disse aquilo o homenzinho? — perguntou a jovem, que parecia intrigada e pensativa.
— O quê?
— De que ele não estaria seguro de que sejas meu irmão.
— Ah, isso! Crê ter motivos para explicar outra coisa, mas está enganado. Já lhes explicarei, assim que chegarmos ao rancho.
Tex Glendin dirigiu-lhe um olhar desconfiado. Permanecera silencioso e carrancudo desde a partida de «Grand Fox». Evelyn notou-o.
— Porque estás com essa cara, Tex? — perguntou-lhe —. Ainda não disseste a Milo que te alegras com a sua chegada.
Glendin teve um súbito gesto de ira, imediatamente dominado. Encolheu os ombros.
— Essas coisas supõem-se — alegou —. Alegro-me com a tua chegada, Milo, se é necessário exprimi-lo com palavras.
— Obrigado. Não fiz bem em vir? Aparte o que te possa alegrar.
O jovem rancheiro tornou a encolher os ombros.
— O tempo o dirá. Já tínhamos bastantes dificuldades.
— Oh, agora tudo será diferente! — protestou Evelyn — Milo se encarregará de as resolver. A única coisa que me preocupa são as ameaças desse homem. Precisarás de te enfrentar com ele?
— Depois veremos. Até lá podem ocorrer muitas coisas. Não penses nisso.
À porta do rancho, encontravam-se um homem e uma mulher.


— É Florence — disse Evelyn —. Tu já a conheces, Milo.
— Sim. Perfeitamente.
— Não deves... Bom, quero que saibas que ela lamentou sempre muito que tu abandonasses o rancho. Esquece tudo.
— Já está esquecido. Quem é o homem que está junto dela? ~
— Don Crater. Trabalha para nós há uns meses... Foi preciso aumentar o pessoal do rancho, e Tex contratou-o juntamente com outros homens. São… talvez um pouco rebeldes, mas Crater consegue impor-lhe autoridade. É muito forte.
— Que aconteceu? — gritou Florence —. Ouvi-mos alguns tiros... ou pareceu-nos, pelo menos.
Barry esteve a ponto de perguntar que diabo fazia Don Crater sem acorrer a investigar o que poderia ter acontecido. Num rápido olhar, pôde apreciar a classe de homem que tinha na sua frente. Media mais de um metro e oitenta, e o seu peso excederia seguramente os cem quilos. O seu corpo era maciço e musculoso, o rosto coberto de cicatrizes. Uma das suas orelhas parecia um pequeno repolho e o seu nariz estava esmagado e retorcido. Don Crater era um pugilista profissional.
Mas o interesse de Barry polarizava-se principalmente em Florence Kerigan, mulher jovem ainda e cheia de atrativos. Alta, esbelta como um junco, de feições talvez não muito corretas, mais cheias de expressão: nos seus olhos brilhantes pareciam brilhar dois diabinhos travessos, por mais que agora quisessem mostrar-se preocupados e ansiosos olhando os três cavaleiros, que desmontaram rapidamente ao chegarem.
Evelyn tomou Barry por um braço e conduziu-o impulsivamente até junto da mulher que estava esperando.
— Olha, sabes quem é?... É Milo!
— Milo!... Nunca te reconheceria! Como estás, Milo? Não cumprimentas a tua madrasta?
Os diabinhos dos seus olhos não estavam quietos. Talvez se rissem dele.
— Que tal, Florence? — murmurou —. Sinto muito...
—O quê?
— Ter sido tão garoto.
— E perdoas-me?
— Não há nada a perdoar. O garoto já deixou de o ser e agora compreende o que dantes era incapaz de entender. É preciso ser homem para compreender os homens.
— E as mulheres?
— As mulheres não se entendem, mas obrigam-nos a fazer muitas coisas sem que o possamos evitar.
— Por exemplo, casar-se, como teu pai fez comigo.
— Sim, talvez. Meu pai era homem e viu-te. Isso explica tudo.
Ela franziu o sobrolho, fingindo-se maravilhada.
— Milo, que cumprimento tão agradável! —exclamou.
Ouviu-se uma tosse forte. Tex Glendin parecia mal-humorado. Evelyn, pelo contrário, mostrava-se satisfeita.
— Olha, Milo — disse —. Este é Don Crater. Don, apresento-te o meu irmão Milo.
O gigantesco indivíduo apertou a mão de Milo com a sua poderosa garra.
— Alegro-me — disse estupidamente — de que tenha podido chegar até aqui.
— E porque não havia de chegar? — perguntou Barry.
Florence rompeu a rir.
— Crater está sempre imaginando dificuldades. Concebe a vida como uma luta em que é preciso estar sempre em guarda.
— Assim é — murmurou o gigante, mordendo os lábios.
Maldizia-se talvez por ter deixado escapar aquelas palavras imprudentes. Evelyn havia perdido, subitamente, toda a sua alegria.
— Neste caso, Crater podia muito bem ter acertado — disse —. Milo esteve a ponto de não poder chegar. Saíram-lhe três homens ao caminho.
— Sim?... Como foi isso? — interpôs-se Florence —. Quem eram?
— Um homenzinho horroroso que é conhecido por «Grand Fox» e outros dois.
— Agora compreendo os tiros que se ouviram. Que se passou, Milo? Conta-me.
— Pois foi isso. Saíram-me três homens ao caminho apontando-me as suas armas... e tive de me defender.
— Contra os três?
— Pois... Sim. Não tive outro remédio.
Don Crater olhava-o como se olha um fenómeno que não tem explicação dentro das leis naturais. Os diabinhos que havia nos olhos de Florence bailavam a sua dança com mais frenesi do que nunca.
— Conta, homem — animou-o —. Deve ter sido uma façanha de que se falará durante muito tempo em todo o território. Andarás ao colo dentro de pouco tempo.
Foi Evelyn quem contou o ocorrido.
— Os homens que acompanhavam «Grand Fox» ficaram mortos.
— Os dois?
— Sim, os dois.
— Que desajeitados! — disse Florence com uma ingenuidade suspeitosa —. E que se passou com «Grand Fox»?
— Milo deixou-o desmaiado.
— Como?
— Sim. E tirou-lhe o revólver. Nós vimo-lo sem sentidos, não é verdade, Tex?
— Ajudou-me o cavalo, como disse. Atirei-lho para cima — disse Barry, como se tivesse necessidade de se desculpar.
Era desta classe de homens que se sentem perturbados quando deviam sentir-se orgulhosos.
Florence 'Kerigan começou subitamente a rir--se, e o seu riso aumentou rapidamente de volume, alimentado por um regozijo interior que os demais não compreendiam.
— Maldita seja, Florence — explodiu Tex Glendin —. De que se ri assim?... Não vejo o lado cómico do assunto.
Ela tardou um pouco a sufocar o riso, que de vez em quando se escapava como a água fervente numa panela.
— Pois eu vejo-o… o mais cómico do mundo. «Grand Fox» desmaiado... como uma doninha. O terrível «Grand Fox»! Ah! Ah! Ah!... Rio-me pensando em como ele se sentirá... Pobre raposinha! Deve estar como um animal que quer morder... e que se encontra sem dentes. «Grand Fox» ... Daria qualquer coisa por tê-lo visto!
Havia qualquer coisa de malicioso e perverso nas risadas de Florence, algo que Barry notou.
— Conhece-o? — perguntou.
—A quem? A «Grand Fox»?... Sim, conheço-o... de há muitos anos. Não é a primeira vez que tenho ocasião de rir-me com as suas desgraças.
— Não?... Pois poucas são as pessoas que poderão dizer o mesmo.
Tex Glendin deu um violento pontapé numa pedra lançando-a a distância. Evelyn olhou-o, e depois voltou-se para o irmão. Parecia temerosa de que este se apercebesse da surda cólera que dominava o seu marido.
Depois, num movimento instintivo, aproximou-se de Barry até tocar o seu peito com o ombro. Dir-se-ia que procurava apoio nele.
— Bem. Vou mostrar-te a casa que o pai mandou construir para Tex e para mim.
Os demais não mostraram tenções de os acompanhar, com grande satisfação de Barry. A jovem guiou-o até ao interior do edifício e, sós, abraçou-se novamente a ele.
— Milo, Milo!... Que contente estou! Ela tinha os olhos coalhados de lágrimas.
Barry, ao seu doce contacto, experimentava a sensação de estar usurpando um céu que não havia sido feito para ele. Afastou suavemente a jovem.
— Não chores. Precisamos de falar muito e depressa — disse.
— Sim, Milo. O que tu quiseres.
— Explica-me o referente à tua carta. Alguém daqui sabe que a enviaste?
— Não.
— Nem sequer o teu marido?
— Tampouco. Temi... que não aprovasse a ideia.
— Porquê?
Ela hesitou antes de responder.
— Oh, não sei!... É talvez demasiado orgulhoso. Falei-lhe no assunto uma ocasião e ofendeu-se. Perguntou-me se eu não o julgava suficiente para defender os interesses do rancho.
— Pois não consigo compreender. Ninguém devia saber da minha vinda e, no entanto, têm estado esperando-me. A ninguém surpreendeu a minha presença de uma maneira convincente, nem a teu marido, nem a Florence. Nem sequer a Don Crater.
— Porquê?... Por que pensas isso?
— Ouve, há uma coisa que não convém que ignores durante mais tempo.
Barry contou resumidamente o ocorrido à sua chegada ao vale, com a morte do desditoso Milo Catesby. ~
— Não é claro? — disse para terminar —. Estavam à minha espera e tinham-me preparado uma bela receção. Liquidaram esse pobre rapaz confundindo-o comigo. Por isso «Grand Fox» te disse aquilo. Para ele e para os seus cúmplices, Milo Kerigan está morto há várias horas.
Evelyn estava completamente aterrorizada.
— Então... — balbuciou — se o seu propósito era acabar contigo e falharam o golpe... continuas estando em perigo. Tentarão novamente.
Ele deu-lhe umas pancadinhas tranquilizadoras nas costas.
— Não tenhas medo. Eu conto com isso e estarei prevenido.
— Mas... porquê? Porquê? Quem pode ter interesse na tua morte?
— A mesma pessoa que procurou várias vezes a tua.
O espanto tornou-se mais visível no atormentado rosto de Evelyn, afastando apaixonadamente tal suposição.
— Oh, não, não!... Quem te disse?... Tratam--se de acidentes casuais. Tens de o acreditar!
Ele olhou-a severamente.
— Porquê?... Porque razão devo acreditá-lo, quando tu própria não o crês?... Que se passa contigo, Evelyn? De que suspeitas? É tão terrível que nem a ti o queres confessar?
— Cala-te, cala-te!
—É Florence?
— Não, não, não é ninguém! Não pode ser!
— Tex?
— Oh, por favor, Milo!... Não consinto que insinues algo tão monstruoso! É meu marido, o homem escolhido por mim!
— Ainda o elegerias agora? Urna expressão de desvairo cruzou o rosto da jovem. Ficou parada, ofegante.
— Ainda o elegerias? — insistiu Barry —. Tens de ser corajosa ante as tuas próprias ideias e sentimentos, Evelyn! Nada há pior do que nos enganarmos a nós próprios!
— Agora... agora tenho-te a ti, Milo — respondeu ela —. Agora não escolheria nenhum porque os compararia contigo! Teria de esperar até que viesse um homem igual a ti!
— Creio que com isso já respondeste o suficiente à minha pergunta. Quanto ao resto, não pretendo atormentar-te. Descansa. Eu tratarei de tudo. Sim! Oh, sim!
— Como mandaste a carta?
— Levei-a eu própria aos Correios, aproveitando um dia em que fui à povoação.
— Bem. Vou dizer-te o que tens a fazer. Escreve outra, dirigida a... já te direi. Quando precisas de ir novamente à povoação?
— Amanhã. Preciso de comprar algumas coisas.
— A que horas?
— A meio da manhã.
— Belo. Levarás a carta e farás exatamente o mesmo que da outra vez. E não te preocupes com o resto. Eu irei à povoação antes de ti.
Ela protestou, alarmada:
— Não, não! Seria demasiado perigoso para ti! Esse homem deve lá estar!
— «Grand Fox»? Está ferido! Não devemos preocupar-nos com ele... durante algum tempo. Faze tudo como te disse.
— A quem dirijo a carta? — disse Evelyn, finalmente, com certa repugnância.
— Para Barry Meeker, na povoação de Loonkey.
— Quem é?
— Um bom amigo meu. Dize que escreves em meu nome e que necessitamos o seu auxílio.
— Virá?
— Certamente. Vem sempre que eu necessito dele.

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