quarta-feira, 12 de julho de 2017

BIS135.6 Justiça, a coisa mais solitária deste Mundo

Salinger contemplou o seu hospede corn extraordinária atenção. Estava habituado a tratar corn Coda a espécie de homens e sabia que do estudo das diferentes naturezas e caracteres dependia o êxito da sua empresa.
Mas não conseguia classificar o juiz Bornac. Ou a sua ideia acerca da venalidade estava errada ou o alto sujeito •que tinha diante de si representava um tipo de homem totalmente oposto.
— Deve compreender, juiz, que não pretendo um julgamento falso. Apenas procuro defender o meu filho da imputação desse crime.
Bornac arqueou ligeiramente as sobrancelhas.
— Macacos me mordam se o entendo — confessou. — Prenderam Ben Kunetzky como autor da morte do velho Potter e do rapto da filha; as provas parecem concludentes. Porque, então, esse medo?
Salinger corou, não de perturbação, mas de raiva.
— Se falar corn a gente desta cidade, compreendera o que temo. 0 meu filho é...
Hesitou, e o juiz simpatizou corn aquele rude vaqueiro, cujo descendente tao pouco se parecia corn ele.
Porque também o juiz se equivocara a respeito do individuo que o mandara buscar. Bastava ver aqueles traços enérgicos, marcados pelo constante batalhar contra a natureza e os homens, para afastar a hipótese de tratar-se de um embusteiro profissional, de um trampolineiro capaz de valer-se de intermediário para conseguir os seus fins.
— Tony gosta muito de raparigas e as vezes excede--se — acabou por revelar Salinger. — Isso criou-lhe ma reputação. Por outro lado, dedicou as suas atenções a Rosa Potter... Compreende? Se não se provar, com toda a espécie de pronunciamentos favoráveis, que foi Ben quem assassinou o velho, o povo acreditara ter sido Tony o autor da façanha.
Bornac ficou um tanto perplexo.
— E pensa que um julgamento realizado em tais condições poderá mudar essa opinião?
0 rancheiro meneou vigorosamente a sua quadrada cabeça.
— Não me entendeu, juiz. As razoes morais não me interessam para nada; o que pretendo é que Tony não possa ser acusado «oficialmente» desse crime. E para isso preciso que Ben Kunetzky seja pendurado na ponta de uma corda.
Bornac estremeceu perante a brutal franqueza do set interlocutor.
— E se se demonstra que ele não cometeu o crime, também quer que o pendurem numa corda?
Os olhos dos dois homens chocaram-se como espada no ar. Salinger comprimiu os lábios ate formarem uma linha quase invisível.
— Exatamente, se não houver outro remedio. Essa a razão por que o mandei vir.
O juiz sabia-o; mas ouvi-lo corn tamanha clareza causou-lhe o efeito de uma purga. 0 sabor acido, sulfuroso, daquelas palavras levou-o a outra conclusão, que alias • já imaginara ter descoberto na noite anterior.
Nao estava disposto a secundar os pianos de Salinger; faria justiça. Uma justiça que o levaria adiante de si, confundido num monte de lixo. Mas isso já não lhe interessava.
Levantou-se corn calma, corn o rosto tenso e as pálpebras semicerradas.
— Vai apanhar uma desilusão, Salinger — declarou, sublinhando as palavras. — Presidirei ao tribunal, e far-se-á justiça. não contra Ben Kunetzky, mas sim contra o assassino de Potter.
Salinger ficou uns segundos imóvel. Depois, exalou um suspiro e sorriu.
— já esperava isso — disse o que só demonstra que é mau jogar corn as cartas marcadas. Pensou bem, juiz?
— Sim.
O rancheiro pôs-se em pe. Chegava-lhe ao ombro corn a cabeça, mas era ele quem dominava no gabinete onde se encontravam. A sua maciça figura, o seu queixo proeminente, os olhos castanhos rodeados de pálpebras duras, quase sem pestanas, e o cabelo grisalho, liso, completavam a estampa mais genuína do Oeste legendário, do homem forte que domina a terra e a vontade dos outros.
Mas ali estava procurando subornar a Justiça para que um produto do seu próprio sangue não sofresse o castigo a que, seguramente, fizera jus.
— Tenho muito poder, juiz — declarou corn voz rouca e o senhor não é pessoa por quem qualquer se sacrifique.
— Bem sei. Cada um conhece as suas fraquezas. Apesar de tudo, por mais que lhe pese, eu julgarei Ben Kunetzky. E se verificar que não cometeu o crime, essa será a sentença que ditarei.
Dito isto, deu meia-volta e encaminhou-se para a porta. Atravessou um salão sem encontrar mais ninguém alem de um negro que procedia a limpeza e, ao transpor a varanda alpendrada, a luz viva do sol feriu-lhe as retinas.
Olhou a sua volta e reparou num homem que prendia o cavalo a um poste e dirigia a seguir os seus passos para a casa. Qualquer coisa no seu porte e na sua maneira de andar obrigou a mem6ria do juiz a passar as fichas do seu arquivo mental.
Juraria que o homem não lhe era desconhecido, mas não conseguia recordar-se onde já o vira. Encolheu os ombros e partiu.
A sua ideia era interrogar o prisioneiro. Aquele contacto parecia-lhe indispensável.
Percorreu a rua principal sem pressa, pelo meio da calçada, corn a vista cravada no horizonte, embora na realidade perfeitamente atento ao que se passava a sua volta.
Sentia-se meio alegre e meio triste. A decisão que tomara ia pôr à prova todos os seus recursos. Não queria enganar-se. A partir daquele momento seria a peça cobiçada de ambos os bandos.
Salinger tentaria por todos os meios forçar-lhe a mão no caso do julgamento, e não seria inimigo de desprezar. Quanto a Sue Kunetzky e aos seus amigos, também não lhe dariam quartel.
Deteve o seu passeio em frente do escritório do xerife e entrou.
Danielson ergueu a cabeçorra, coroada de cabelos brancos, e perscrutou corn os seus claros olhos azuis o visitante.
— Juiz Bornac, não é verdade?
Soergueu-se do cadeirão e estendeu a destra. Bornac apertou-lha corn força. Logo à primeira vista se sentiu atraído por aquela cara franca, sem malicia.
— Um cigarro? — ofereceu o xerife, que retomou o seu lugar atrás da secretaria.
0 juiz recusou corn um gesto e registou ligeiramente corn o olhar o interior do aposento. Uma sala ampla, corn um par de armários onde se viam carabinas corn meio seculo e uma bailarina exibindo as pernas numa versão americana do «can-can».
— Xerife, quero que me fale deste caso. Você encontrou Ben Kunetzky depois de descobrir o velho Potter assassinado?
— Não foi exatamente assim. Ben foi encontrado primeiro. Quase sempre, depois de uma bebedeira, aparecia nos sítios mais inesperados e sem se lembrar de nada do que fizera. Naquele dia, um vaqueiro chamado John Forbes, que passeava nas imediações da cabana de Potter, viu aparecer Ben, cujo aspeto lhe chamou a atenção. Tinha manchas de sangue na camisa e o ar de quem foge de qualquer coisa.
— Compreendo. Dizem que foi encontrado em seu poder um lengo de Rosy. não sabem nada desta?
— Nao. Desapareceu sem deixar rasto. E isso é o mais estranho.
— Bern. Posso ver o detido?
Danielson recostou-se e chupou corn forca o cigarro.
— Naturalmente. Tem o direito disso. Depois conhecerá o delegado e o defensor.
Levantou-se e guiou o juiz por um comprido corredor em cujo extremo ficavam as celas. Deteve-se diante das grades de uma.
— Aqui o tem.
Mas não esboçou o gesto de franquear-lhe a entrada. No seu semblante refletia-se a indecisão.
— Que tem, xerife?
— Juiz — decidiu-se Danielson —, é meu dever preveni-lo de que tudo quanto se relacione com este julgamento não esta claro. Existem pessoas, que o senhor deve conhecer, muito interessadas em que Ben seja pendurado pelo pescoço. Outras, pelo contrario, trabalham para liberta-lo.
— Estou informado, xerife.
— Sim, mas também ignora, decerto, que Salinger recusou o juiz Hamilton. Depois, foi ele quem mencionou o seu nome... E isso não me agrada.
Os músculos de Bornac converteram-se em barras de aço. Suportou o olhar investigador de Danielson e indagou:
— Porquê?
— Correm muitos rumores a respeito de si, juiz, não quero mentir-lhe. Talvez sejam infundados; mas repito que não me agradam. 0 delegado a amigo de Salinger, facto que não tem nada de estranho, porque é o dono de quase toda a cidade e raros são os habitantes daqui que não te devem alguma coisa. Quanto ao advogado, Melden, é o dono do armazém e das cavalariças do fim da rua, não é mau homem, mas tem miolos de mosquito.
Imprimiu ao resto da sua informação um tom pouco habitual.
— Resta o senhor, juiz, para ser imparcial, visto o júri dançar ao som da música que lhe tocarem. Confio que o senhor seja imparcial.
Bornac esteve tentado a manda-lo... a qualquer parte, mas conteve-se. Corn os seus antecedentes, era logico que não se fiassem no seu procedimento.
Danielson meteu uma grande chave na fechadura e deu-lhe volta. 0 juiz examinou corn curiosidade o detido que jazia deitado no catre e fumava um cigarro. não se moveu quando os dois homens entraram no recinto engradado.
— Este é o juiz Bornac, Ben. Quer falar contigo.
— Olá, juiz.
Era um jovem de mediana estatura, esbelto, de ombros talvez um pouco estreitos, rosto afilado, pálido, no qual brilhavam uns grandes olhos negros. Parecia-se vagamente com a irmã, se bem que diferisse dela em tudo o mais.
Era difícil catalogá-lo no primeiro momento. No entanto, o seu queixo frágil, o seu corpo franzino, assim como toda a sua aparência nervosa, sensível, não eram próprios de um meio como aquele do Mogollon.
Bornac puxou um banco redondo que se encontrava a um canto e sentou-se. 0 xerife colocou-se junto da porta.
— Rapaz — começou o juiz estas em maus lençóis. Dentro de poucos dias realiza-se o teu julgamento e o mais certo é que tenhas de dar uma grande salto... Tudo parece indicar que assassinaste Potter. Foste tu?
Ben não se dignou responder. Continuou de olhos postos no tecto, expelindo fumo e corn a intenção de formar argolas perfeitas. Bornac endireitou a sua alta estatura e afastou o banco corn um pontapé.
— Está bem. Talvez não te apercebas cabalmente da tua situação, ou penes que vai acontecer qualquer coisa que te restitua a liberdade. Lamento desenganar-te, Ben. Se não se descobrirem novas elementos, não restar outro remedio senão condenar-te. Por que não dizes a verdade?
0 rapaz ergueu-se e cravou os olhos ardentes em Bornac.
— Que verdade? Se soubesse quem matou Potter di-lo-ia; mas não sei. Entende? não me lembro de nada do que se passou naquela noite, exceto que vi o corpo de Potter corn a cabeça desfeita. Nisso terminam todas as minhas recordações.
Retorcia as mãos corn desespero.
— Alguém podia saber que me encontrava embriagado e aproveitar a conjuntura para cometer o crime.
— E de Rosa, que sabes?
As faces delicadas de Ben crisparam-se.
— Que quer dizer? 0 inferno me trague se fago ideia de onde possa encontrar-se ou do que lhe aconteceu.
Bornac permaneceu uns instantes em atitude reflexiva.
— Bern, o facto de, depois de uma borracheira, perderes a memoria, talvez não seja um bom truque. Podias cometer o crime e escudares-te nisso...
— Bom, pois se o cometi não me lembro. Juro-lhe que não me lembro, juiz! não faço outra coisa senão pensar nisso. Como diabo quer que o saiba o que sucedeu? E horrível perder assim a memoria das coisas...
O irmão de Sue exprimia-se corn autentica angustia. Bornac virou a cabeça para captar a reação do xerife.
O representante da Lei em Marte tinha claramente refletido no semblante o que pensava daquilo.
— Está bem, rapaz — disse. — Acalma-te. Faremos o possível por preencher as lacunas da tua memoria.
Ben ficou-se a olha-los corn uma luz nas pupilas, de animal encurralado.
— Obrigado, xerife — murmurou. — Por favor,. diga a minha irmã que não se esqueça de mandar-me uma camisa limpa.
— Descansa.
Saíram corn a penosa impressão de serem cúmplices de uma iniquidade.
De novo no escritório, Danielson encarou Bornac e disparou-lhe:
— Poria a minha mão direita no fogo se esse rapaz fosse culpado. Que pensa o senhor, juiz?
O interpelado respondeu cautelosamente:
— Nunca aposto nem sequer os botões do meu fato por um delinquente... ou presumível delinquente. Contudo, o jovem Kunetzky parecia ser sincero. Mas não nos disse que não praticou o crime; apenas que não se recorda...
Danielsen bufou como se um pele-vermelha lhe tivesse cravado em certo sitio uma flecha incendiada.
— Juiz, lembro-lhe que o julgamento terá uma testemunha excecional — declarou de dentes cerrados.
— Penso assistir e seguir passo a passo quanto acontecer. E se verificar que o senhor aceita o veredicto de um júri composto por homens amigos de Salinger e que Ben Kunetzky é um condenado a forca, pode levar os seus revólveres para o tribunal porque Id lhe serão precisos.
0 olhar frio de Bornac pareceu trespassa-lo.
— Isso é muito razoável, xerife — declarou. — Mas, se pensar bem, compreendera que o senhor também tenta subornar-me a seu modo.
Deixou Danielson corn um ar de assombro no seu rosto corado e saiu para a rua.
Um ácido sorriso arrepanhava-lhe os lábios. A sua situação não podia ser menos brilhante. Em cerca de doze horas conseguira virar contra si todos os cidadãos, daquela terra.
Quer condenasse, quer absolvesse Ben Kunetzky, a sua própria causa estava perdida. Nem um amigo.
Decididamente, «a Justiça era a coisa mais solitária deste mundo».

terça-feira, 11 de julho de 2017

BIS135.5 No reino do percevejo

Bornac fez parar o alazão ao chegar ao cimo da rua. Um letreiro iluminado por uma lanternita atraiu a sua atenção: «Chaparral». Era um restaurante e o cheiro a molhos e especiarias que se escapava através da porta denunciava a sua condição mexicana.
À direita, havia outra casa de teto mais baixo e com toda a aparência de ser um anexo. Com um pouco de sorte, talvez lhe alugassem um quarto para dormir.
Por todos as razões, preferia a companhia dos mexicanos à de qualquer outro cidadão de Marte. Sem dúvida os descendentes dos astecas e dos toltecas manter-se-iam alheios ao conflito que agitava a cidade.
Desceu, pois, da sela e entrou no estabelecimento. Havia um salão em forma de L, e na parte interior da letra erguia-se o balcão e, atrás dele, a cozinha e demais dependências.
Várias mesas com toalhinhas aos quadrados, luz pobre que mal disfarçava as marcas das moscas, e gordura e pó nos interstícios em quantidade suficiente para construir uma pirâmide.
Cerca de uma dezena de pessoas se encontravam ali naquele momento. Mexicanos e alguns amarelos.
Bornac encaminhou-se para um canto, ocupou um banco e estendeu as compridas pernas por baixo da mesa. Tirou o chapéu, que colocou atrás de si, no chão, e transmitiu com a vista uma mensagem ao moço.
Este era um tipo taciturno, de faces chupadas, grandes bigodes e olhos encovados, de expressão triste. Contemplou sem nenhum entusiasmo o juiz, que lhe encomendou uma omeleta de feijão e um guisado de carne com batatas.
Notava-se imediatamente a diferença entre aquela gente e os naturais do país. Os comensais do «Chaparral» não perdiam de vista o novo cliente e seguiam todos o seus gestos com descarada atenção.
Bornac acabou de jantar e recostou-se contra a parede a enrolar um cigarro. Através das volutas de fumo examinou o salão e os homens e as mulheres que o observavam com ar de papalvos.
Um sentimento de amargura o foi invadindo. Apercebia-se de que para eles representava, com o seu severo trajo negro, o seu aspeto duro e ascético, o mais genuína símbolo da Justiça.
E tinha de ser-lhe muito desagradável pensar que escarnecia da sua nobre função, que alugava a sua consciência a quem mais desse. Com brusca decisão, pôs-se em pé e abordou o moço que teve um sobressalto ao vê-lo tão perto.
— Preciso de um quarto para mim e que me tratar do cavalo.
— Há percevejos.
— Tenho revólveres.
— Bom. Dois dólares.
O negócio concluíra-se com fulminante rapidez. Bornac esperou que o empregado lhe entregasse a chave do quarto, enquanto um pensamento lhe brincava na cabeça. Recordava a soberba figura de Sue Kunetzky. Não seria mau oferecer-lhe a
salvação do irmão. Talvez ela lha agradecesse...
Ao reparar na vilania daquele pensamento, Bornac sentiu revolverem-se-lhe as entranhas. Era o ponto mais baixo a que podia chegar e quis saborear até ao fim a sua degradação.
Sim, sem dúvida a valente rapariga não hesitaria em arriscar também aquilo, para que o irmãozinho furtasse o pescoço ao nó corrediço. E ele podia fazê-lo. Um ardor intolerável entreabriu-lhe todos os poros da pele. Sentiu o corpo tenso e uma corrente elétrica percorrer-lhe os cabelos.
— Aqui tem a chave, senhor.
A voz do criado despertou-o do transe e obrigou-o a olhar desvairado à sua volta. Notou que uma morena, de olhos grandes e aveludadamente negros, lhe sorria. Talvez tivesse descoberto o seu segredo.
— Suba pela escada do fundo. IÉ o quarto número dezoito. Se lhe morderem os percevejos, não se esqueça de que o preveni.
O juiz pegou na peça de metal. Acalmara-se e de novo conservava o domínio dos sentidos. Depois de atirar uma moeda ao homem, dirigiu-se para a esquina do salão.
Logo, porém, se deteve porque alguém acabava de pronunciar o seu nome. Girou lentamente sobre os pés, com as mãos prontas a pegarem nas coronhas dos «Colts».
Três homens haviam transposto a entrada. Três inconfundíveis tipos de pistoleiros, de bandidos do Oeste, embora entre eles se notassem algumas subtis diferenças. Por exemplo, o primeiro, aquele que gritara, era um garoto, galo que ainda não estreara os esporões, com as penas demasiado compostas para não inspirar o desejo de dar-lhe uma lição.
Os seus acompanhantes tinham a aparência de fanfarrões a soldo, tratantes por dever de ofício, mas mais experientes, mais homens. Camisas desbotadas pelo uso, chapéus amolgados e calças reluzentes nas entrepernas, à força de roçarem nas selas de montar.
O franganito, alto, esbelto, de traços finos, envergava camisa verde, jaleco de camurça, calças cinzentas de fina lã, botas de meio cano e chapéu também cinzento, de copa baixa. E trazia uns revólveres de museu, com incrustações de madrepérola nas coronhas.
— Eh, juiz! — repetiu e deu uns passos na sua direção — Sou Tony Salinger e meu pai mandou-me para que o leve à sua presença.
Tinha uma voz sonora, um tanto modulada. Possivelmente, devia ter jeito para o canto. Bornac tirou-lhe as medidas de lutador e julgou-o mais perigoso do que o seu aspeto denotava.
— Não quero ver seu pai esta noite — declarou pausadamente. — Já o disse a Curly, o seu capataz, segundo, creio. Estou cansado e apenas quero dormir.
— Mas meu pai deseja saber o que se passou hoje. Como sabe ,a irmã de Ben Kunetzky chegou à cidade dizendo que o senhor não presidiria ao tribunal que julgará a causa.
— Ela tem o direito de dizer o que quiser. Mas o caso é que estou aqui, não? Verei o seu pai amanhã, Tony.
Naquele momento um dos guarda-costas adiantou-se com passo de gorila. Possuía cara larga, lisa, na qual o tempo, os punhos dos seus inimigos e duas ou três doenças infeciosas se tinham conjugado para formar um quadro muito desagradável.
— Deixa-nos este pássaro rapaz — arrotou.
Tony fez um gesto, recomendando-lhe que se abstivesse de intervir, mas era evidente que não lhe tinham respeito.
— O senhor Salinger quer vê-lo, juiz — insistiu o pistoleiro, empestando o ar com o cheiro do seu bafo — e o senhor virá comigo como um bom menino, hem?
— Os bons meninos não gostam de ser mandados, imbecil — admoestou-o Bornac.
— Armando em valentão, hem?
Estendeu a manápula direita para pegar o juiz pela gola, mas no seu lugar encontrou o vácuo. Girou então, para deter o avanço de lado que realizara Bornac. Mas no seu maxilar, por baixo da orelha, incrustou-se um punho granítico, com a virulência de uma cornada, que o sacudiu da nuca aos porcos dedos dos pés. Por sorte, não teve tempo de queixar-se da perfurante dor; outro murro no esterno produziu-lhe o efeito , de o partirem em dois.
O seu companheiro inclinou-se para diante e aqueceu com as mãos os extremos salientes das armas. Mas conteve-se ao ver-se vigiado pelo acerado olho -do revólver direito do juiz.
Tony deixou ouvir uma gargalhada que soou tão bem quanto o desgosto do rapaz pôde conseguir. –
— Bravo, juiz! Não fazíamos ideia de que manejasse desse modo os punhos e revólveres.
— Regozijo-me então por lhes ter dado oportunidade de verificarem. Alguns idiotas não tiveram ocasião...
Devolveu o «Colt» ao seu coldre. O tipo que surrara estava sentado no solo e sacudia a cabeça para afastar os besouros do aturdimento.
— Amanhã irei ver o seu pai, Tony. Agora, retire-se com as suas amas-secas.
Tony, que continuava a manter os dentes à mostra num heroico sorriso, quis resistir à acerada navalhada dos olhos do juiz, mas havia neles tal expressão de desprezo pela sua integridade física que q jovem se encolheu como uma nota entre os dedos de um avarento. Deu
meia-volta e afastou-se.
— Vamos — ordenou aos dois pesos-pesados. --- Levanta-te do chão, Bill.
Ajudou a pôr-se em pé o colosso derrubado e entre ele e o outro arrastaram-no para a saída.
O juiz apoiou o pé no primeiro degrau, a fim de subir para seu quarto, mas voltou-se ao sentir passos precipitados atrás de si.
Desta vez tratava-se do moço.
— Ouça, juiz articulou com ansiedade —, estaria melhor no hotel «Marte». Já lhe disse que...
— Sim, que há percevejos. Bom, não se preocupe tenho a pele curtida e os percevejos que mais me, incomodam são os que caminham sobre duas pernas.
O homem tossiu e retirou-se com celeridade.
Bornac pôde, por fim, subir ao andar de cima e procurar, depois, o quarto que lhe tinham destinado.
Confessou a si mesmo que o encarregado do restaurante não o enganara. Existia uma enorme sujidade nos móveis — um pequeno armário, um lavatório e um catre com enxergão de palha — e se aquele não era o reino da percevejelândia os seus conhecimentos geográficos do reino animal mereciam ser revistos.
Mas a picada de um bichito carecia de importância, comparada com a perspetiva de ter de receber a visita de um amigo de Sue Kunetzky, disposto a impedir o julgamento do seu amigo à custa de abrir-lhe uns tantos buracos na testa.
Trancou a porta com urna cadeira, fechou a janela que dava para os currais e tirou apenas o casaco. A seguir atirou-se sobre a cama.
Mas logo se levantou e arrastou a armação de madeira que constituía a cama para o canto existente entre o lavatório e a janela, a fim de pôr-se a coberto de que o alvejassem de fora.
Acometeu-o um sono profundo que, apesar dos seus esforços para manter-se meio acordado, o arrastou para o poço da inconsciência mais completa. Poderiam deitar a casa abaixo que não daria por nada.
Mas, por ironia do destino, os seus anjos da guarda foram os mesmos que escorraçara com tanta violência quando o convidaram a visitar Salinger.
Bill e a sua alma gémea montaram a vigilância nas imediações do restaurante. O velho rancheiro fora claro e preciso:
— Tragam-mo amanhã são e salvo. Se lhe acontecer alguma coisa, agarrem-se ao rabo de uma serpente voadora para escaparem ao meu castigo.
E Mosy Salinger tinha defeitos, mas entre eles não se contava o hábito de faltar ao cumprimento da palavra dada.
Na verdade, houve também outra pessoa que se preocupou com a segurança do juiz. O xerife Bob Danielson suspeitava que aquele homem concitava sobre a sua tétrica figura os maiores ódios.
Informou-se da sua chegada e de que, pela segunda vez no espaço de poucos dias, se evitara o linchamento do seu prisioneiro. Também o informaram do procedimento de Sue Kunetzky.
Foi visitar a rapariga à cabana que habitava nos arredores. Antes de alcançar a quebrada, paralisou-o um tiro. A bala incrustou-se no tronco de um abeto, a escassas polegadas da sua cabeça.
Dominando o cavalo que se encabritara, Danielson rompeu o ar com o seu vozeirão:
— Eh, Roy, diz a Sue que desejo falar-lhe!
— Deixe cair os revólveres e desça do cavalo.
— Não sejas idiota, rapaz. Sue conhece-me e sabe que não sou capaz de pregar-lhe uma partida.
Voltou a reinar o ambiente sonoro normal rumor de folhagem, os gritos dos mochos e as correrias dos esquilos, em combinação com a fragor da torrente próxima. Ao fim de alguns minutos, a voz de cana rachada do anão ouviu-se a menor distância:
— Está bem, xerife. Mas avance com as mãos sobre o arção.
Rindo-se entre dentes de tantas precauções, Danielson bateu na garupa do seu baio. A pouco e pouco, distinguiu as figuras de Roy e de outro homem que lhe apontava uma carabina.
Sem dizerem palavra acompanharam-no até à habitação dos Kunetzky, uma construção habitual naquelas paragens, com um só telhado para duas casas, entre as quais se abria uma varanda coberta.
Os troncos velhos ameaçavam ruína nalguns pontos, apesar de protegidos por grossas trepadeiras. O luar emprestava à paisagem um encanto especial, fantástico. Sue esperava o xerife à entrada. Os seus claros olhos cinzentos pareciam dois lagos que tivessem aprisionado o mistério, a magia da noite.
— Que deseja, Danielson?
O representante da Lei desmontou e aproximou-se da jovem.
— Sue — a sua voz era severa, mas deixava transparecer uma inevitável simpatia —, estás a portar-te como uma garota. Não te censuro que queiras defender o teu irmão — nisso nos empenhamos todos —, mas não tolero que te batas com esse velho canalha do Salinger e com a sua quadrilha de pistoleiros.
— Nesse caso, que devemos fazer, xerife? Aguardar o julgamento... comprado?
Realmente pusera o dedo na chaga.
— Eu acredito na Justiça, Sue.
— Sim, mas não quando a representa esse juiz.
— Falarei com ele, Sue — prometeu. -- E vou fazer--te uma jura: se o julgamento não for conforme o direito; se Morice Bornac ofender o seu cargo com uma sentença injusta, ou se se demonstrar ter havido parcialidade na forma de apreciar as provas e os depoimentos das testemunhas... tirarei o teu irmão da cadeia e farei frente ao juiz e a Salinger.
Estabeleceu-se uma densa pausa. O xerife acrescentou:
— Mas se atentas contra o juiz ou cometes qualquer ato irreparável, tudo será inútil, Sue. Dar-lhe-ás razão para que procedam como lhes pareça e eu terei, inclusivamente, de ser contra ti. Compreendes?
Aguardou, esperançado. Conhecia bem, a rapariga c sabia que procedia de acordo corn os seus impulsos, de certo modo elementares, mas que, apesar disco, procurava sempre o melhor caminho, o mais recto.
— Compreendo-o, xerife — falou ela, por fim. — E prometo-lhe abster-me de lutar... ate que se, comprove a falsidade desse julgamento. Então, apesar de ser mulher, empregarei todos os meios para devolver a procedência esse maldito representante de Satanás.
E o xerife não apostaria um cabelo do lado contrário.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

BIS135.4 Uma sentença inapelável

Deixaram-no preso à parede por meio de um laço que lhe passava através das mãos, ligadas atrás das costas, e com um raio de cinco jardas para mover-se. O calmeirão, que se chamava Zac, e o quarto em discórdia, que respondia pelo mimoso nome de Puss, ficaram a vigiá-lo.
Bornac argumentara com Sue no sentido de que a sua ação não impediria a celebração do julgamento, e talvez precipitasse outro género de acontecimentos, mas ela mostrara-se inflexível.
Não se fiava nele, como era evidente, e isso incomodava-o de modo especialíssimo, coisa que o deixava atónito. No entanto, admitia que ela contava com boas razões para a sua desconfiança.
Adivinhava, por outro lado, que a jovem tinha em mente levar por diante mais qualquer coisa, secundada pelo incondicional Roy e pelo resto da quadrilha.
Decorreu todo aquele dia. Deram-lhe de comer e, em certas ocasiões, levaram-no lá fora, a fim de cumprir as inexoráveis leis da natureza.
Bornac refletia a todo o vapor. Em qualquer outra circunstância, a sua situação ter-lhe-ia provocado a maior das indignações, mas resignar-se-ia a esperar; naquele caso, porém, urna combustão estranha, desconhecida, originada no seu organismo,' compelia-o a fugir.
Passou revista a todos os procedimentos possíveis desde fingir-se doente a tentar convencer os seus guardas de que era proprietário de um tesouro e que o dividiria com eles. Mas automaticamente afastava-os por inconvenientes. Até que uma ideia lhe fulgurou no cérebro.
Fez sinal para que o levassem lá fora. Zac fitou-o com desconfiança.
— Qual é a sua ideia? — rezingou. — Tenciona passai o dia a entrar e sair?
Ante o gesto expressivo que lhe dirigiu o juiz, resolveu-se a desatar o laço da argola da parede. Segurava firmemente a carabina debaixo do braço e o seu camarada Puss colocou-se de forma que cobria o prisioneiro fosse qual fosse a posição que este tomasse.
Realizada a função para que pedira o soltassem Bornac regressou à furna. O crepúsculo operava a sua prodigiosa transformação em vermelhos e violetas e escuridão invadia rapidamente o buraco. E, justamente no momento de pisar o solo da cova, o juiz deu um salto e puxou o laço com todas as suas forças. Zac qui; retê-lo e foi atrás, ao mesmo tempo que apertava o gatilho, mas sem resultado.
Retumbou a detonação despertando multíplices eco: no interior da montanha. O extremo do laço, solto, açoitou o ar e bateu no candeeiro que espalhava o set resplendor desde o nicho natural em que se encontrava
A sucessão de movimentos que o prisioneiro efetuou seguidamente tê-lo-iam creditado como um consumado acrobata.
Fez-se totalmente escuro, mas sabia onde estava o calmeirão no momento em que se atirou a ele e lhe meteu o joelho por entre as pernas. Com um grito, o homem tombou de costas.
Ao mesmo tempo, o juiz ordenou:
— Quieto, Puss! Farei fogo se te aproximares da porta.
Calculava que o outro não tentaria verificar se aquilo era verdade. Não podia estar certo de que não tivesse soltado as mãos e de que não se encontrasse com a carabina do companheiro nelas. E assim aconteceu. Puss permaneceu no exterior, indeciso sobre se devia ou não servir-se da arma que empunhava, visto poder ferir Zac, e receoso de entrar, não fosse verdade que o fizessem num crivo mal pisasse o risco divisório.
Dominar um homem com as pernas não era empresa fácil, embora o golpe que recebera deixasse Zac muito perto da inconsciência.
Bornac retorceu-se e manejou novamente a corda, que enrolou à volta do pescoço do maltratado sujeito. Sentara-se-lhe sobre o peito e apertava-lhe os costados com os seus ossudos joelhos.
— Ouve, meio homem e meio cão das pradarias — disse em voz baixa, mas tão ameaçadora como o rugido de uma pantera —, garrotar-te-ei até deitares a língua de fora como um trapo sujo, se não fizeres o que vou dizer-te.
Zac agitou-se e arqueou o espinhaço, mas um enérgico esticão dado pelo juiz, que esteve a ponto de sufocá-lo, devolveu-lhe o sentido da realidade, pois a corda que se lhe enrolava ao pescoço era argumento bastante convincente.
Bornac assim lho deu a entender um décimo de segundo mais tarde. Deitou-se para trás e esticou o laço. A cabeça de Zac levantou-se como se fosse impulsionada por uma mola e, por um momento, ele vislumbrou o abismo que se lhe abria diante dos olhos.
Com igual brusquidão foi afrouxada a pressão e ele bateu com a nuca contra a dura capa rochosa.
— Agora vou fazer o seguinte: — declarou Bornac, com o mesmo acento — dobrar-me-ei de forma que possas desatar-me as mãos. Não procures fazer outra coisa, porque te juro que viverias apenas segundos.
Apertou os flancos do infeliz e realizou o difícil exercício. Possivelmente, apenas a escuridão e o aturdimento impediram Zac de notar que era absurdo submeter-se.
Era verdade que existia o perigo de que o estrangulassem, e que não era nenhuma brincadeira sentir os ossos do outro cravados nos seus flancos e com a ameaça de fazer-lhe rebentar os pulmões; mas mesmo assim a sua vantagem era indiscutível.
O facto foi que soltou Bornac, que, ao sentir os braços livres, os estendeu e fletiu um par de vezes. Depois, tirou dos coldres os revólveres da sua vítima c. passou-os para os seus. Afastou-se dele, embora deixando-lhe a corda ao pescoço.
— Vamos, levanta-te! — ordenou.
Em pouco menos de um minuto converteu-o num pacote que arrastou para o fundo da cova. Quanto ao vigilante de fora, pouco cuidado lhe dava. Reconhecia que, de certo modo, os seus inimigos eram uns idiotas sem malícia, praticamente indefesos perante um cão velho como ele.
Imaginou-o postado a um dos lados da porta, com os músculos doridos pelo afã de não ser surpreendido. Para comprová-lo, utilizou a sua sela de montar que tinham depositado a um canto. Isso lhe serviu também para recuperar os seus próprios «Colts».
A sela atravessou sem dificuldade a abertura e foi recebida com um par de disparos que demonstraram a excelente pontaria do inefável Puss e a sua rapidez de reflexos. Mas não evitaram que o juiz se colocasse a seu lado e lhe deixasse cair sobre a cabeça, sem a menor benevolência, a coronha de um dos seus pesados seis tiros.
Bornac recolheu-o nos braços e conduziu-o para junto do camarada. Depois, empenhou-se em romper as trevas, restituindo o. candeeiro ao seu piso.
— Amiguinhos discursou diante dos dois manie-tados vigilantes que o contemplavam com fúria —, para guardar um prisioneiro, o melhor é deixá-lo à solta dentro de um quarto e limitarmo-nos a vigiar a porta e as janelas... de longe.
Não fizeram comentários à sua recomendação, embora os seus olhos transmitissem uma mensagem que bastaria para acender a guerra entre duas nações ligadas pelos tratados de amizade mais estreitos.
As estrelas refulgiam no horizonte, insinuava-se um clarão que pressagiava o aparecimento da Lua, quando o juiz Bornac retomou a sua interrompida viagem para Marte.
Ao fim de algumas horas divisou as luzes da cidade. Deteve «Narcissus» e imobilizou-se em atitude reflexiva. A Lua surgiu naquele momento e recortou a sua figura contra a clara atmosfera.
Todo negro, salientando-se com um fulgor sombrio o seu rosto debaixo do chapéu, representava qualquer coisa de sinistro que se aproximava da povoação.
Ao fim de algum tempo retomou a marcha. Desceu da colina e o cavalo trotou por um caminho pedregoso, mas plano, perfeito para o trânsito de carruagens.
Em breve chegou junto dos primeiros edifícios, uns compridos barracões. Ao passar por diante de um portão, leu uma placa que os declarava «Cavalariças de Melden».
A rua principal era ampla e ladeada de árvores. Apesar de perdido nas montanhas, notava-se ser Marte um lugar próspero. Havia várias casas de dois andares, de sólida construção, e o banco era de pedra, o que não deixava de ser um símbolo. A rua ampliava-se a meio e formava uma espécie de praça, com dois olmos centenários no centro.
Uma multidão comprimia-se então ali. A experimentada vista do juiz em breve descobriu a condição da maioria dos presentes e o motivo que os reunira. Não era para uma festa, estava certo. Alguns dos homens tinham tirado os revólveres e apontavam com eles para urna casa.
Bornac seguiu a direção dos seus gestos e descobriu a fachada do escritório do xerife.
Aos seus ouvidos chegaram as vozes dos iracundos oradores que se distribuíam por entre os grupos.
— ...O juiz foi raptado por Danielson e por essa maldita rapariga dos Kunetzky... — gritava um. A todo o custo querem livrar Ben de converter-se no badalo da «que sempre dá a hora final».
O pitoresco da frase fez com que o juiz examinasse com atenção o indivíduo que a pronunciara. Era um ruivo muito magro, cavernoso, de cara comprida como o focinho de um cavalo e olhos redondos, salientes.
— ...Não esperemos mais — reclamava outro. — Obriguemos o xerife a entregar-nos Ben e façamo-lo dançar na ponta de uma corda.
Sem dúvida procediam por encomenda. De quando em quando, cinco ou seis indivíduos afastavam-se do conjunto e faziam incursões no interior do «saloon» que se abria a um lado da esplanada, regressando pouco depois com maiores mostras de excitação.
Os preparativos do linchamento eram evidentes e a técnica empregada pelos indutores não deixava de ser curiosa.
Mas, de súbito, mudou o ambiente. Por um extremo da praça fizeram a sua aparição vários homens que se confundiam com as sombras daquele lado.
Bornac esforçou-se por identificá-los, mas não o conseguiu. No entanto, quase imediatamente soube quem eram, visto que, dominando o tumulto que faziam os demais debaixo das árvores, se elevou uma rouca, mas cálida voz:
— Eh, Curly, acaba com a brincadeira de uma vez!
Estabeleceu-se o silêncio na massa dos linchadores, e o clarim paralisador insistiu:
— Se algum de vocês der um passo para a prisão, far-lhe-ei voar os miolos.
A advertência foi desobedecida por um tipo de pernas curtas, tórax em quilha e crânio redondo, coberto de cabelos grisalhos. Saltou para diante, brandindo um pistolão, e com a ideia de que ia mudar o curso da história.
Urna descarga do ponto onde Sue e os seus amigos se tinham entrincheirado e aquela insensata partícula do género humano escorregou sobre a resvaladiça soleira da porta do Além, deu um par de voltas no ar, caiu encolhido e distendeu-se ato contínuo para correr de gatas como uma lebre coxa.
O acontecimento produziu uma corrida geral do resto dos cidadãos, que procuraram refúgio nos portais e atrás das árvores. A seguir verificou-se um intercâmbio de tiros e de rápido tombar de corpos.
Do abrigo que lhe ofereciam uns cascos colocados em frente dos uma janela do «saloon», o ruivo que arengava aos marcianos gritou em direção aos contrários:
— És uma louca, Sue! Não poderás impedir que se faça justiça.
E Sue replicou:
— Nem o tento, Curly. Tu e o teu maldito amo é que não quereis que se faça justiça. Ou é Hamilton o juiz... ou será o vosso corpo que penderá de umas cordas.
Um tiro sublinhou o efeito das suas palavras, e o chapéu de Curly voou contra a parede do estabelecimento.
Curly fez então o gosto ao dedo e o seu revólver vomitou toda uma volta de tambor contra as sombras que se lhe opunham. Mas a tal distância as suas balas eram perfeitamente inúteis. O mesmo não acontecia com os fortes estampidos das carabinas que tomavam parte no concerto.
Bornac fustigou o alazão para que avançasse por entre a peleja. E se lhe tivessem perguntado por que praticava semelhante estupidez que poderia custar-lhe a pele por engano, não poderia responder coerentemente.
Mas queria impedir que acertassem na mulher que ousara o mau passo de raptá-lo, pois era tão certo como a noite seguir-se ao dia que a animosa irmã de Ben Kunetzky duraria quando muito um par de horas se continuasse a lutar contra os energúmenos que a enfrentavam.
Os primeiros a vê-lo foram os do bando de Salinger. Um vaqueiro velho começou a gritar:
— É o juiz Bornac, rapazes! Chegou o juiz...!
Ainda atravessaram o espaço alguns pedaços de chumbo, mas a paz acabou por restabelecer-se.
Da sua zona de ocupação emergiram Sue e os seus acólitos. A rapariga, desprezando o perigo, avançou até chegar perto de «Narcissus» e do seu cavaleiro, e os seus grandes olhos cravaram-se com avidez no rosto do homem que julgava fechado num buraco das montanhas.
— Como... como conseguiu...?
Começaram a aproximar-se os fugitivos, e no sector iluminado pelo resplendor procedente do «saloon» surgiram também Roy e vários amigos dos Kunetzky.
— Preveni-a de que não praticasse semelhante tolice — declarou Bornac com secura, olhando para Sue. — Bem vê que tinha razão. Assim, não só não salvará o seu irmão, como ainda exporá o seu próprio pescoço e o daqueles que a ajudam.
— Prefiro isso a que seja o senhor a sentenciar o meu irmão!
Havia um tal desprezo nas suas palavras que Bornac teve de cerrar os dentes para não descer do cavalo e esbofeteá-la... ainda que depois a cobrisse de beijos.
Curly, que se aproximara, perguntou então:
— Que lhe aconteceu, juiz? Esperávamo-lo esta manhã.
Já toda a gente se reunira à sua volta. Isso agradou ao juiz, que sentia irreprimível desejo de cometer uma loucura.
— Vim quando me pareceu melhor — disse. — Que têm com isso?
Curly retrocedeu uns passos e o seu comprido rosto contraiu-se numa careta difícil de interpretar.
— Esta mulher — e apontou com o polegar para Sue — garantiu que você nunca julgaria o seu irmão.
— Bom. Pois bem vê que não acertou.
Então o ruivo mudou de expressão. Deitou uma olhadela aos que se o circundavam e declarou:
— O senhor Salinger quer falar-lhe e espera-o no ser rancho.
Bornac soltou uma gargalhada que teve a virtude de fazer levantar a cabeça do seu cavalo.
— Pois vá dizer a esse Salinger — proferiu com ironia — que procure outro jogador de xadrez para esta noite. Eu vou jantar e dormir.
Deu de esporas e obrigou «Narcissus» a trotar, enquanto Curly saltava para o seu lado, a fim de não ser pisado. E muitos outros seguiram o seu exemplo.
À medida que se afastava deles, Bornac teve a consciência de que ditara a sua própria sentença. Inapelável.

domingo, 9 de julho de 2017

BIS135.3 Será que alguns obstáculos podem deter o juiz?

Seguira rio abaixo. Aquela parte da paisagem, com o Pequeno Colorado despenhando-se por entre as rochas, oferecia, sem dúvida, um espetáculo impressionante.
Notava-se o despontar da Primavera nas primeiras flores, margaridas e campainhas, e os lírios cresciam debaixo dos pinheiros.
«Narcissus», o alazão do juiz, soltava de vez em quando bufidos e curtos relinchos, com os quais demonstrava o seu entusiasmo.
Perto das grandes cataratas desviou-se para o interior das montanhas. Ao cabo de um par de horas a subir, bordejando os precipícios, atravessando bosques e vadeando arroios, descobriu o colorido pico do Sunset Crater.
Meteu por um estreito carreiro. A cidade de Marte não estava já muito longe.
Contornava um bosquezinho de abetos quando à frente lhe saíram quatro cavaleiros. Não existia qualquer dúvida acerca das suas intenções, visto lhe apontarem as carabinas.
— Quieto, juiz! — grunhiu o que ocupava posição mais avançada.
Bornac puxou as rédeas do cavalo e observou os desconhecidos com atenção. Tinham os rostos descoberto, coisa que não parecia preocupá-los muito.
-- Se é um assalto, amigos — a sua voz conservava o tom suave, irónico —, creio que desta vez não souberam escolher a caça.
— Não queremos o seu dinheiro... maldito seja, mas queremo-lo a si.
O homem não estava com meias medidas. Era de estatura menos que mediana, o que dissimulava muito bem sobre a montada, graças ao seu amplo tórax e aos compridos braços. Cabeça pequena, rosto quadrado e cheio de rugas como o de um macaco, sardento e cabelo cor de milho.
— Sabes quem sou?
— Satanás! Nem sequer se poderia confundi-lo com o seu compadre, o diabo. Você é Morice Bornac e vem a Marte realizar um julgamento.
— De acordo, rapazes. Estou às ordens.
Dois deles manobraram de modo a colocarem-se atrás. O que falara e um calmeirão, de pele acastanhada, grui& queixada e ar melancólico, puseram-se à frente.
Não lhe deram explicações, nem Bornac as pediu, tão-pouco. Calculava que poderiam ser do rancho do tal Salinger que o mandara chamar e que o rancheiro o quisera impressionar assim.
Ou melhor, amigos do homem que seria julgado, que se lhe tornava menos agradável.
Deixaram o tortuoso caminho e conduziram-no através do arvoredo e das rochas. Veados, linces e esquilo, fugiram diante deles. Os cavalos calcavam o matagal e os perus bravos ofereciam-se quase à mão.
Subiram e desceram. Por duas vezes atravessaram a corrente de água sobre pontes improvisadas com troncos de árvores, que se moviam perigosamente debaixo dos cascos.
Por último, desembocaram num círculo natural rodeado de montes e onde a vegetação crescia luxuriante, com as raízes alimentadas por uma infinidade de regatos. Atravessaram-no a sesgo e detiveram-se diante da entrada de uma caverna, na encosta de um daqueles montes.
— Vamos, desça — instou o que parecia o chefe dos captores.
O juiz encolheu os ombros e deslizou para o chão, após o que examinou com curiosidade o local.
— Que número se segue agora? — interessou-se.
«Cabelo Cor de Milho» também desmontara, revelando a sua condição anã, para o que contribuía o arqueamento das pernas, e plantou-se a dois passos, com os olhinhos semicerrados e uma abjeta careta.
— Um muito divertido, juiz. — Sem razão aparente, deixou ouvir uma gargalhada. Você vai passar uma temporadita neste lugar. Que lhe parece?
— Nada tenho a objetar contra o sítio... desde que você deixe de comer cebola respondeu Bornac.
— Engraçado, hem? Ouviram, rapazes?
Voltou-se para receber o assentimento dos companheiros, que o haviam imitado e adquiriram a posição ereta.
— Não te deixes intrujar, Roy — preveniu um rapazola, de cara redonda e pouco simpática, com os olhos como duas bolas de alumínio e o cabelo louro cortado tesouradas irregulares. — Este tipo julga que está no tribunal.
O chamado Roy olhou de novo para o juiz.
— Sim — declarou. — Mas aqui não pode ditar sentenças... e muito menos que lhe deem dinheiro por elas. Não é verdade, juiz?
— Você é que ia ser enforcado em Marte?
A pergunta de Bornac fez ferver o pequenote. Soltou um grito e atirou-se contra a alta figura do outro. Menos prezou o comprimento dos braços do seu antagonista e deteve-se fulminado por um direto que ressoou como se • quebrasse um osso de elefante.
Houve um momento de hesitação dos restantes, enquanto Roy se desprendia do gancho da sua consciência e se abatia sobre a relva.
Bornac aproveitou a surpresa. Puxou dos seus «Colts», que deslizaram com suavidade e precisão para fora dos coldres.
— Asseguro-lhes que estes brinquedos abrem uns buracos muito bonitos na pele advertiu com ar sorna até mesmo no couro de vocês, rapazes. Vamos, desapertem os cinturões!
Uma vez mais de deu o fenómeno que obrigava o, juiz a brilhar as suas habilidades de «gun-man». A reação dos seus inimigos, em casos como aquele, era similar...
Custaria a crer que um funcionário, cuja ocupação contínua deveria ser o manejo de papéis, pudesse fazer uso das armas com a eficácia deles.
E foi o rapazola antipático quem tomou a seu cargo a demonstração.
— Vá para o inferno, juiz! — berrou.
A seguir procurou fornecer o veículo para a habitual viagem sem retorno: inclinou-se ligeiramente para uni lado e disparou com a mão no quadril, sem tirar do coldre o seis tiros.
Mas o seu pedaço de chumbo foi cravar-se a algumas polegadas da ponta da sua bota direita, ao mesmo tempo que a bala enviada pelo juiz lhe extraía de todo o revólver do coldre e lhe desconjuntava a mão.
— Façam o que lhes disse, rapazes — insistiu Bornac, com voz surda, como se a questão o aborrecesse.
Os cintos foram caindo por terra.
— Agora encaminhem-se para essa parede e sentem--se com as costas apoiadas contra ela.
Roy punha-se em pé pelo sistema das vacas, posição que permitiu a Bornac dar-lhe o impulso para que se reunisse aos seus companheiros mediante uma patada estratégica.
— Você — recordou — tire essa coisa inútil que lhe segura as calças.
Colocaram-se na posição indicada: alinhadinhos, cotovelo com cotovelo, e com uma expressão comum de aborrecimento. Bornac olhou-os com certo regozijo.
— Não gosto .de ser indiscreto, mas também não aprecio que me caiam em cima quatro rufiões da vossa categoria e não me deem as explicações precisas. Por que tinham tanto interesse na minha pessoa?
Não obteve resposta.
— Que galhardo procedimento! Mas ouçam, rapazes: não sei se notaram que dentro de meia hora o sol lhes dará em creio, e que assim estará durante todo o dia. Bom; se resistirem um par de horas a cozer debaixo dos seus raios, estou certo de que já não terei nada que perguntar-lhes. Não! Dos miolos derretidos não se extraem respostas.
— Maldito seja, juiz! — berrou Roy. — Julga que nos mete medo?
— Não conto com a sua cara para isso, amigo, mas...
Passeou um bocado diante dos prisioneiros. E, com efeito, como predissera, os raios de sol incidiram sobre aquele ângulo. Ainda não tinham força suficiente, mas mesmo assim incomodavam como lâminas de luz.
Em semelhante altura a exposição podia até ser mortal. E todos o sabiam.
Bornac foi sentar-se ao abrigo de uma rocha e enrolou um cigarro, que fumou pachorrentamente. Em breve os quatro mal-encarados sujeitos suavam copiosamente e tornavam-se corados como caranguejos numa panela.
O juiz colocou-se diante deles e intencionalmente procedeu de forma que a sua sombra caísse sobre cada uni durante alguns segundos.
— Por que desejavam encerrar-me nesse buraco? —inquiriu. — Quem lhes ordenou que o fizessem?
Esperou; mas a resposta não chegou do ponto que esperava, mas sim de outro situado atrás de si.
— Não se mexa, juiz — ordenou alguém, com aspereza.
Era difícil identificar aquela voz, que nada tinha de cristalina nem de harmoniosa, antes soava forte, com registos duros, apesar de agradável aos ouvidos.
Bornac deixou-se ficar quieto. Apenas desviou ligeiramente a cabeça para ver a nova personagem.
Verificou que os seus quatro prisioneiros se punham em pé e se atiravam para o monte dos cinturões. Em breve estavam armados e o ameaçavam com os revólveres.
O juiz reparou no elemento que mudara o curso dos acontecimentos. Uma mulher. Examinou-a em pormenor, com interesse.
Sem necessidade da carabina com que o dominava, teria impressionado. Tinha o porte de uma deusa. Vestia um conjunto de blusa azul e calças de vaqueiro cor de caqui, que condizia perfeitamente com os seus olhos cinzentos e o cabelo louro, queimado.
Na cidade talvez a considerassem rústica, comparada com as damizelas de talhe quebradiço; mas um júri habituado a folhear velhos livros de histórias dar-lhe-ia um primeiro prémio. A palavra que a definia melhor era: «esplêndida».
— Surpreendeu-nos, Sue — tentava explicar o envergonhado Roy. — Esse maldito sabe servir-se dos «Colts».
— Levem-no lá para dentro.
Bornac começava a inquietar-se e a não gostar de todo aquele enredo. A um convite feito sem qualquer espécie de delicadeza pelo calmeirão, encaminhou-se para o buraco e transpôs a entrada.
Dentro havia uma vasta sala, de teto muito alto, unicamente iluminada pelo difuso resplendor que penetrava pela porta.
Atrás dele, com o cano da arma encostado à sua coluna vertebral, entrou Roy. E, em magote, os demais: O tipo novo acendeu um candeeiro de petróleo.
— Tire o cinturão, juiz — aproveitou para ordenar por seu turno o anão.
Bornac obedeceu. Sabia quando lhe tocava perder. Mas Roy não se contentou com isso.
Assim que o viu desarmado, correu para ele e socou-o no peito, conseguindo derrubá-lo. Não pôde evitar, no entanto, que mesmo do solo o juiz lhe disparasse uma patada que o fez voar pelos ares.
Começou a saltar e a gritar, enquanto Bornac se apressava a levantar-se. E então os outros três companheiros de Roy solidarizaram-se com ele e caíram-lhe em cima.
Recebeu uma dezena de murros antes que a enérgica intervenção da rapariga contivesse a judiaria.
— Vamos, deixem-no! Querem estragar tudo, imbecis?
Afastaram-se lentamente de Bornac, que se recompôs pela segunda vez. Uma cólera cega, irracional, apoderava--se de si. Não gostava de ser tratado daquela maneira; e não gostava, sobretudo, porque no seu íntimo suspeitava que o merecera.
— Por que não os deixa? — perguntou com acento raivoso que a si mesmo causou surpresa. — No fim de contas as baratas têm direito de aproveitar as ocasiões que se lhes apresentam... antes que as esmaguem na sua própria imundície.
— Não o ouves, Sue? Não passa de um porco vendedor de sentenças, mas comporta-se como se, na verdade, fosse o juiz do Universo.
Sue, sem tomar em consideração as palavras de Roy aproximou-se de Bornac e contemplou-o com desapiedada dureza.
— Sabemos ao que vem, juiz — declarou. — Salinger comprou-o para que salve o seu filho Tony.
— Quem é esse Tony? Está louca, criatura. Chama-ram-m2 para presidir ao julgamento de um tal Ben Kunetzky, acusado de ter assassinado um velho e raptado uma jovem, da qual se não sabe o que foi feito, embora se suspeite que a assassinou também.
A jovem empalideceu. Apesar da sua ira, Bornac admirou a sua beleza. Notava-se a firmeza da sua carne, o aveludado da sua pele ligeiramente queimada.
— Sim, isso é o que existe oficialmente. Mas dá-se a casualidade de esse Ben Kunetzky ser meu irmão. E eu sei que ele não podia praticar semelhante vilania.
Havia uma nota de absoluta certeza na sua voz. O juiz acusou o impacto da revelação e compreendeu o motivo por que o tinham obrigado a entrar naquele buraco
— Bom — disse se as coisas se passaram assim, no julgamento tudo se esclarecerá.
— Não, isso nunca. O julgamento é uma farsa. No júri figuram, pelo menos, oito pessoas que devem as suas situações a Salinger. E conhecemos o seu historial, juiz. Por dinheiro absolveria o diabo de todos os seus pecados. Esse julgamento não se realizará.
A realidade era que Bornac não, conhecia exatamente para que o requerera Salinger, embora suspeitasse que deveria ser para algum negócio sujo. Pelos vistos, tratava-se de condenar um inocente com o fim de impedir que seu filho fosse acusado.
— E como está tão certa de que não foi o seu irmão? Acaso se encontrava presente?
Sue retrocedeu um passo e corou.
— Não. Mas Ben é meu irmão, compreende? Criámo-nos juntos e posso dizer-lhe o que pensa após a simples formalidade de fitá-lo nos olhos. Por outro lado, e maldito seja se esta informação lhe servir para alguma coisa, saiba que Tony Salinger é um asqueroso perseguidor de raparigas, um repugnante bicho cuja simples presença se torna ofensiva. Rosy, a filha de Potter, correu-o diversas vezes sem resultado. E não a perseguia apenas a ela...
O seu rubor aumentou, indicando que também suportara as investidas do encantador moço.
— E as provas? Segundo compreendi, seu irmão foi encontrado bêbado junto do local dos acontecimentos, tendo em seu poder um lenço de Rosy Potter. Como explica isso?
— Muito facilmente, senhor juiz. Na noite anterior, Ben esteve a beber com Tony Salinger. Por desgraça não posso defender meu irmão disso. Gosta de beber e em mais de uma ocasião o têm apanhado sem sentidos na rua. Toda a gente o sabe, e Tony mais que ninguém. Podia ter pensado que era uma boa cartada levá-lo consigo, visto que não se recordaria de nada que se passasse quando o interrogassem no dia seguinte. Está a compreender?
Apesar do evidente desprezo com que o considerava, na sua atitude havia ansiedade, como se desejasse convencê-lo.
Bornac teve de admitir no seu íntimo que a informação que lhe fornecia Sue mudava substancialmente o aspeto da acusação contra Ben Kunetzky. De qualquer modo, não podia estranhar que fosse assim.
Mas havia outros pontos que não estavam muito claros no assunto. E de repente descobriu que tinha um interesse extraordinário em esclarecer a verdade.
Tratava-se de qualquer coisa que não lhe acontecia desde aquele infeliz caso da bailarina. O pior foi que tomou nota, além disso, de uma nova descoberta. No seu interesse entrava em grande proporção o facto de Sue Kunetzky ter os olhos pousados na sua pessoa com aquela expressão meio reprovadora meio anelante.

sábado, 8 de julho de 2017

BIS135.2 Os enviados de Marte encontram-se com o juiz

Morice Bornac recebeu a visita dos dois emissários com o seu ar de irónica indiferença. — Sentem-se, cavalheiros.
 Indicou com o braço estendido o outro lado da mesa e continuou o gesto para reclamar a presença do moço que atendia aquela parte da sala.
— Cerveja ou uísque?
— Cerveja para mim.
— Bem. Cerveja e uísque, Pet.
A seguir, e durante quase meio minuto, dedicou-se a estudar os dois tipos. Tendeiros, catalogou-os em seguida. Um deles, baixo, maciço, com certa tendência para a esfericidade, talvez por expandir-se para o meio do corpo a energia de que dava mostras nos olhos pardos e no mento saliente. Uns cinquenta anos intensamente empregados.
O seu companheiro era jovem, nem sequer devia ter trinta anos, alto e esbelto, mas possuía elegância de figurino e todo o ar de tratar com senhoras em plano comercial quase continuamente.
— Vimos em representação dos habitantes de Marte — começou o mais velho, que se deitou para diante, bateu com a barriga e endireitou-se de novo.
— Ah! Marte. Isso não fica um pouco longe?
Era o gracejo obrigatório, e Bornac riu-se interiormente daquela alusão ao planeta do mesmo nome. O moço criado deixou escapar urna gargalhada de dentes postiços. Pela sua parte, os dois delegados de Marte examinaram o juiz com não dissimulado interesse.
Corriam numerosas histórias acerca da sua pessoa. E não muito boas. Na realidade, consideravam-no homem que vendera a alma ao diabo e, a partir desse memorável dia, não tinha outra missão neste mundo senão a de atormentar os pobres infelizes que lhe caíam nas mãos.
Especialmente, a que forjara a sua reputação referia--se a May Zender, a bailarina do «saloon» chamado de «As Três Coroas», em Flagstaff. Um triste caso que tornou célebre o seu nome no Arizona e nos Estados. limítrofes.
«As Três Coroas» incendiaram-se uma noite e pereceram o dono e duas raparigas do conjunto. Das declarações das restantes deduziu-se que May, que as capitaneava, saíra da sala uma meia hora antes de começar o fogo.
No julgamento, viu-se perfeitamente que a bailarina ocultava qualquer coisa e que se negava a explicar onde fora. Aquilo e outros pormenores que surgiram fizeram que a acusação adquirisse um dramático interesse.
Não havia dúvida a respeito da culpabilidade da jovem. Ela, fosse pelo que fosse, decidira queimar o estabelecimento. Num curral próximo descobriram-se várias latas--de petróleo, vazias, e o dono de um armazém revelou que as vendera semanas atrás. O que definitivamente estabeleceu a maldade do facto foi saber-se que urna importante quantia em dinheiro faltava no cofre do «saloon», e que se notara a presença, nos dias precedentes ao incêndio, de um indivíduo que falava amiúde com May.
Era claro o que ocorrera. May preparara as cortinas, que enchera de petróleo, no sítio escolhido, a sala de jogo, e abandonara o «saloon» com tempo, a fim de forjar um alibi.
Então, o seu cúmplice, o homem que desaparecera sem deixar rasto, entrara em cena, ateara o incêndio e, aproveitando o tumulto, deitara a mão a todo o dinheiro que havia em cima das mesas.
A seguir, introduzira-se no escritório e abrira o cofre, pormenor este que confirmara ainda mais a intervenção da bailarina, que conhecia o «segredo» por gozar da confiança do proprietário do estabelecimento.
Pois apesar de semelhante evidência e de o júri a declarar culpada, por unanimidade, Bornac condenou-a Unicamente a ser deportada. Rebentou o escândalo e os enraivecidos habitantes da cidade quiseram fazer justiça por suas mãos.
Mas Bornac levou ainda mais longe a sua equívoca atuação. Naquela mesma noite fugiu com May Zender, arrebatando-a assim às iras dos vingadores, e todos pensaram, com fundamento, que uma parte do dinheiro roubado fora engrossar os bolsos do sinistro juiz.
A partir daquilo, a sua carreira andou sempre ligada a subornos do mesmo estilo.. Deixava-se subornar, numa palavra, para que ditasse sentença, favorável ou adversa, segundo o desejo de quem lhe pagava.
A sua vida, noutros aspetos, não era mais recomendável. Não tinha família nem teto estável que cobiçasse, montava o seu escritório nas tabernas ou em qualquer espelunca de má nota e como as suas amizades, se algumas tinha, pertenciam ao mundo das sombras, em lugar de nos livros de leis apoiava a sua autoridade num par de «Colts» enferrujados, sem gatilhos nem pontos de mira.
Era alto, magro, de compridos membros, cabelo louro e olhos cinzentos; e como sinal distintivo do seu cargo, ou por se coadunar bem com o seu temperamento, vestia de negro desde o chapéu às botas.
— Pois os senhores dirão, cavalheiros — convidou-os, embora pelo seu aspeto se pudesse deduzir que não lhes ligava grande importância.
— Senhor Bornac, em Marte vai realizar-se um julgamento por homicídio, e pensou-se em si para juiz.
— Mas então não têm lá um?
— Sim, temos Nat Hamilton, mas não o consideramos suficientemente imparcial para este caso.
— Ah!
Bornac bebeu um gole de cerveja e passeou o olhar pelas sujas paredes do «saloon». O tendeiro de mais idade tossiu:
— O senhor Salinger Mosy Salinger, do rancho «Campana» — está muito interessado em que o julgamento decorra dentro da maior legalidade. E como pensa que para o senhor será um incómodo...
Puxara, entretanto, de uma carteira que, por estar excessivamente recheada, trazia presa com uma cinta de borracha, e limpou enervado os lábios com a mão. O jovem que o acompanhava mexeu-se, contrafeito, no assento.
— lembrou-se de...
— Não se esforce. Mil dólares parecem-me bem como sinal, e se arranjarem as coisas com as autoridades do condado, não terei dúvida em presidir ao tribunal nesse julgamento.
Depois perguntou quem era o acusado e quais eram os factos. Com a mesma indiferença com que recebera os dois comissionados, pegou nas notas que lhe ofereciam e guardou-as na algibeira das calças.
A seguir fez um displicente gesto com a mão direita, despedindo-os, e na mesma ocasião aproveitou para chamar Pet, que acudiu pressuroso.
Não se ocupou mais dos dois homens, que saíram apressados. Pelo espaço de uma hora dedicou-se a beber cerveja e a observar os clientes que apareciam e desapareciam com regularidade.
Por fim, ergueu-se do assento e tomou a direção da porta. Ninguém o cumprimentou nem ele tão-pouco parecia desejar que o fizessem. Atravessou a rua a largas passadas, balanceando os braços, e dirigiu-se para o centro de Winlow, onde se erguia o hotel «Universal».
A força do sol declinava. Diante da «Well Fargo» desciam os passageiros da diligência precedente de Holbrook. Grupos de vaqueiros e um ou outro caçador caminhavam pachorrentamente pela calçada ou detinham-se para enrolar um cigarro.
Um cão famélico revolvia um monte de lixo e, de tempos a tempos, retorcia-se para mordiscar o lombo junto do rabo, onde as pulgas deviam atormentá-lo.
Bornac atravessou o vestíbulo e subiu a pretensiosa e escavacada escadaria. No primeiro lanço encontrou-se com um indivíduo que descia, alto e magro, de cara fechada e queixo saliente.
O desconhecido ficou a olhar fixamente até que o juiz alcançou a porta do seu quarto, e só cessou a sua descarada inspeção quando aquele se virou para lançar-. -lhe uma fria e ponderativa olhadela.
Bornac encolheu os ombros e empurrou a porta. Em seguida, o rosto contraiu-se-lhe num tique irreprimível de desagrado. Alguém se encontrava no quarto. Uma mulher.
May Zender fora formosa e ainda, apesar das faces murchas e do círculo azulado que lhe rodeava os olhos, possuía grandes atrativos. Alta, cabelo ruivo e olhos azuis. Aparentava trinta anos, mas vista de perto notava--se ter mais idade.
— Olá, Mo — cumprimentou.
O juiz acabou de fechar a porta atrás de si e avançou até à janela, junto da qual se voltou.
— Que temos agora?
Não havia muita cordialidade na sua voz. A mulher pareceu encolher-se e tomou expressão compungida.
— Mo, preciso de dinheiro.
Havia uma nota lastimosa na sua petição, como latido de um cão esfomeado a quem se corre à paulada, mas que volta com a barriga colada à terra.
— Dei-to a semana passada — recordou-lhe ele, olhou para a rua.
— Preciso de mais. Por Deus, Mo, tu sabes que preciso de mais!
Arrastou os pés na sua direção.
— Mas deves escorraçar-me, Mo; escorraçar-me e não atenderes mais as minhas súplicas. Por que não o fazes? Por que continuas a suportar-me? Arruinei a tua carreira, contribui para que sentisses asco de ti mesmo, e tudo para nada, para que este maldito monstro continue a devorar os dois. Não posso mais, Mo; não posso mais.
De repente rompeu em frenéticos soluços que lhe agitavam o corpo como se lhe dessem chicotadas e deixou-se cair sobre a cama.
— Quero morrer, Mo, acabar de uma vez.
Bornac deu uns passos e colocou-se a seu lado. Inclinou-se ligeiramente e apertou-lhe o ombro com força.
— Vamos, May; tem coragem.
Sentou-se à beira da cama e contemplou-a com desespero.
— Se me tivesses deixado então... todas as tuas dificuldades teriam terminado.
A antiga bailarina endireitou-se e torceu o busto para observá-lo.
— Não digas isso, Mo — protestou e exalou um profundo suspiro. — Bem sabes que não tinha por onde escolher... — E continuou na mesma lamúria: — Que posso fazer? Chorei, ameacei, supliquei... mas sempre com o mesmo resultado.
Bornac ergueu então os seus seis pés de estatura.
— Está bem. Não te preocupes comigo, May. Aqui tens. Governa-te com isso durante uma temporada. Eu vou-me embora.
— Vais?
Bornac assentiu com um enérgico movimento de cabeça.
— Sim. Outro julgamento.
A mulher levantou-se também e colocou-se diante dele.
— Não vás, Mo. Acaba com isso de uma vez!
— Sim?
A pergunta envolvia todo um mundo de insinuações. Ela adotou a atitude do princípio, encolhida e suplicante. Bornac sorriu-lhe.
— Talvez seja a última vez, May — disse. — Planeei deixar esta parte do país, dirigir-me para o Leste. Imagino que, desaparecido eu, o problema cessará. É o qui' penso, pelo menos...
Meteu o dinheiro que lhe tinham dado os representantes do poderoso Salinger entre os dedos da mulher.
— Agora retira-te, May. Tenho de fazer alguns preparativos.
Com delicadeza, mas inexoravelmente, empurrou-a para fora do quarto, e permaneceu junto da porta até que a sua protegida desceu a escada e desapareceu da sua vista.
De novo fechado no quarto, Morice esteve uns momentos imóvel, com as pernas ligeiramente abertas, no meio do aposento, e os olhos cinzentos cravados num ponto indeterminado do espaço.
Com um encolher de ombros, arrancou-se aos seus pensamentos e dirigiu-se para um canto do quarto, onde se encontrava uma maleta negra. Abriu-a e à vista do seu conteúdo um riso abafado alterou-lhe as feições.
Ali estavam, com as páginas meio rasgadas e amarelecidas pelo uso, os símbolos da sua profissão — uma profissão que convertera numa coisa odiosa, trocando o signo da Justiça pelo dá corrupção e da fraude.
A sua decisão de fugir para o Leste não era repentina. Constava-lhe que os seus dias como juiz estavam contados, dado serem numerosas as queixas formuladas contra si.
Regozijava-se por ser assim. Devorava-o uma ânsia terrível de escapar da sua indignidade, de empreender novo caminho, ainda que tivesse de começar pelo pior dos ofícios.
Antes, porém, praticaria um delito mais, aquele para que o chamavam da cidade que ostentava um nome tão guerreiro. Calculava de que se tratava. Um miserável qualquer, convicto de alguma malfeitoria grossa, a quem se procurava livrar da forca.
Bom. Um mais não faria transbordar o copo da delinquência. O dinheiro que obtivesse entregá-lo-ia por completo a May Zender e desligar-se-ia dela também. Para o diabo, pois, as preocupações!
Meteu na maleta os seus pertences e fechou-a com uma pancada seca, que ressoou dentro dela como se fosse um pequeno ataúde onde ia o cadáver de todas as suas ilusões.
A seguir dedicou-se, à já muito débil luz que penetrava pela janela, a examinar os revólveres. Era um ato obrigatório. Devido às suas patifarias, eram muitos os que lhe exigiam contas.
Como o filho daquele rendeiro que o procurou em Phoenix e a quem teve de matar, apesar de ter sido o causador da ruína do pai. E o vaqueiro Dollen que viu livre o assassino da mulher e dos seus dois filhos peque-nos. Mas todos aqueles homens não sabiam que Bornac era um juiz convertido em «gun-man» pela força das circunstâncias.
Um singular juiz que rematava os julgamentos na via pública, a tiro descoberto.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

BIS135.1. É preciso um juiz para codenar um homem à forca

O rumor na praça cresceu de forma alarmante. Cris-per, que observava através da estreita janelinha, informou:
— Os homens de Salinger abandonaram o «saloon», xerife.
O corpulento Danielson fez um enérgico movimento e destravou o «Sharp». O seco estalido da mola obrigou a estremecer os seis ocupantes do gabinete.
— O demónio com chifres de vaca! — exclamou o velho Dan. — Não decorrerá muito tempo sem que se atirem contra essa porta.
Nenhum comentário acolheu a sua declaração.
Na sala penetrava ainda uma difusa claridade avermelhada, dentro da qual flutuavam os rostos dos defensores, tensos, vigilantes...
— Ainda tens tempo de sair, Sue — rompeu o silêncio a voz forte do xerife.
A interpelada olhou naquela direção. As pupilas, dilatadas pela escassa luz crepuscular, assemelhavam-se a dois poços negros, em contraste com o cinzento claro, quase prateado, da íris.
— Você sabe que não sairei, Danielson. — A sua voz rouca era, não obstante, agradável como o ronronar de um gato. — Não tenho mais ninguém além de meu irmão Ben e transporemos ambos a entrada do inferno, mas não sem que antes dele vão adiante de mim vários linchadores.
O grunhido do xerife mostrava que este aprovava aquela decisão. Conhecia a têmpera da rapariga, tão capaz de enfrentar um urso nas montanhas como de preparar comida para cem homens ou de conduzir uma manada de gado.
— Nesse caso, dançaremos todos ao som dessa música — disse.
Lá fora, o grupo de trabalhadores do rancho «Campana», os temíveis homens de Salinger, juntavam-se ao grupo de cidadãos de Marte, entre os quais se confundiam alguns vaqueiros de outros ranchos.
Um vento ligeiro levantava o pó e fazia remoinhar as folhas secas dos gigantescos olmos que adornavam o centro da praça. O horizonte, no extremo da ampla rua principal, onde se erguiam as cavalariças de Malden, dava a impressão de uma enorme caldeira de cobre posta sobre uma fogueira.
— O xerife quer arrebatar-nos esse porco do Ben Kunetzky — perorava o moço do hotel «Marte», um magricela de cabeça grande que parecia um pinto a sair da casca devido à forma como penteava o seu escasso cabelo negro sobre a calva. — Todos sabemos que foi ele quem matou o velho Potter e raptou sua filha Rosy. Não? Não o encontraram no dia seguinte a dormir no desfiladeiro perto da cabana de Potter, com manchas de sangue e um lenço de Rosy entre os dedos?
Tinha os olhos salientes, bulbosos, o que aumentava a sensação de ser constituído por duas metades.
— Mas Ben assegurou que ao entrar na cabana na noite anterior já encontrou Potter agonizante — ouviu-se protestar timidamente.
Rebentaram várias expressões duras, ferozes, na atmosfera.
— Rapazes! — galvanizou todos a voz aguda de Curly, capataz de Salinger. — Deixemo-nos de frioleiras. Kunetzky é culpado. Nem uma vaca doente de mormo duvidaria disso. O que temos de impedir é a sua transferência.
— Enforquemo-lo! — gritou um dos seus companheiros.
E do conjunto de gargantas, abafadas as consciências pelo álcool e pelo tabaco, brotou um imponente rugido. A reunião ganhara adeptos e já quase enchia por completo o espaço fronteiro ao edifício da cadeia e do escritório do xerife.
—  Isso! Acabemos de uma vez! Vamos buscar Kunetzky!
A estranha combinação de medo e crueldade que dá lugar aos linchamentos teve origem no centro da massa de povo enfurecido e propagou-se rapidamente em todas as direções.
Os componentes do «Campana» manobraram de modo que o aríete humano fosse parar diretamente sobre a porta defendida por Danielson e pelos seus. Partiram alguns tiros contra as janelas.
O criado do hotel viu-se erguido e atirado como que por uma onda e bateu com o rosto convulso contra a ombreira da porta. Fortes ombros de lenhadores, vaqueiros, ferreiros e seleiros, fizeram estalar a madeira.
De dentro do escritório chegou o aviso de Danielson:
— Dispararei contra qualquer que transpuser a porta!
Mas eram palavras inúteis, que serviram, contrariamente ao seu desejo, para ativar os atacantes.
Produziu-se um recuo para, em seguida, repetir-se a carga. A porta era forte, de carvalho, atravessada por barras de ferro, e resistiria a numerosos embates, ainda que no final acabasse por ceder.
— A ele! Queremos Kunetzky! Entregue-no-lo, xerife, ou enforcaremos todos!
Eram gritos roucos, mais próprios de feras do que de pessoas. A linha vermelha do horizonte parecia de sangue, e o vento aumentou de intensidade, envolvendo em remoinhos as figuras atacantes, que se enegreciam e perdiam os contornos.
— Rezem a última oração, filhos. — O xerife pronunciou estas palavras com certa melancolia. — Lamento-o por ti, Sue.
Lá dentro, a obscuridade era maior, até quase se não ver mais do que um débil fulgor onde estavam as caras.
— Acendemos a luz, xerife? — inquiriu, hesitante, «Knap» Jim, o primeiro ajudante, cujo sobrenome lhe provinha do enorme tumor que lhe deformava a cabeça.
— Para quê? Servirá unicamente para que nos vejam e não falhem os primeiros tiros. Pelo menos, conservaremos essa vantagem.
Ruim vantagem. Slocun, o outro ajudante, começou a rir, ao princípio baixinho, depois histericamente.
— Cala-te! — berrou Dan. — Escolheste mau momento para rir.
— E por que não... por que não? — ouviu-se o jovem dizer entre as gargalhadas. Haverá coisa mais divertida? Seis pessoas, uma das quais mulher, esperam aguentar a investida de duzentos loucos...
— Defendemos a Justiça — recordou Danielson.
Slocun calou-se subitamente. E continuou um profundo silêncio, no qual, por contraste, cresceu a gritaria exterior.
— Maldita seja! — Agora o acento do jovem tornara-se duro, mordente. — Que Justiça? Por que está tão certo de que Ben se encontra inocente?
— Eu não disse isso, Slocun. Mas há-de ser um juiz e um júri que ditarão a sentença. É isso que eu defendo.
De novo o silêncio. As pancadas sucediam-se da parte de fora e retumbavam nas paredes.
— Pois sabe o que lhe digo, Danielson? — rasgou as trevas a palavra do ajudante. — Ben. não merece que nos deixemos matar. Não, maldito seja, não merece!
Acrescentou com maior ferocidade:
— Você sabe, sabemo-lo todos, que não passa de um vagabundo, de um beberrão e de um zaragateiro. Quando tinha quinze anos, roubou o pai e deixou a família na miséria. E no regresso de gastar o dinheiro nas cidades da costa, não foi melhor...
Interrompeu-o a voz apaixonada de Sue:
— Estúpido patas compridas! — rebentou. — Que sabes a respeito do meu irmão? É melhor do que tu, como já o demonstrou mil vezes...
Mas teve de calar-se por seu turno, porque aumentavam as pancadas e um objeto duro, a ponta de uma viga, trespassou a folha de madeira. Crisper fez fogo contra aquela primeira aparição.
— Não desperdices as balas advertiu-o Danielson. — E tu, Slocun, fecha essa maldita boca. Devias ter pensado mais cedo, se não querias ficar connosco.
Sentiu-se o rápido movimento que fez Slocun ao saltar do sítio que ocupava.
— Não ficarei aqui, xerife! Quero sair! Entende? E se lhe resta alguma coisa de senso comum, deve...
Colocara-se no meio da casa. E possivelmente teria proferido um brilhante discurso se Danielson não lho tivesse impedido com um formidável direto que o atingiu em pleno queixo.
As duzentas libras de peso do ajudante estatelaram-se contra a mesa que empurrou até à parede do fundo.
O xerife não teve tempo de ocupar-se dele. Uma tremenda pancada fizera saltar uma tábua e partira a barra de ferro que a defendia. Um par de canos de carabina surgiram pelas brechas.
O «Sharp» do representante da Lei entrou em ação e os ameaçadores tubos de aço desapareceram.
Mas aquilo era o fim, sem dúvida nenhuma. Sue deslizou para junto de Danielson e apoiou-lhe uma das mãos no braço, que lhe pareceu forte como um tronco de carrasqueiro.
— Obrigada, xerife — sussurrou. — Ainda que não tenha servido para nada... obrigada.
Esperaram a acometida definitiva. Lá fora, dava a impressão de que se calavam os gritos, talvez por se aperceberem, também, de que estavam prestes a alcançar os seus propósitos.
— «Knap» — ressoou estranhamente lúgubre a voz de Danielson — vai à cela e liberta Ben Kunetzky.
— Mas, xerife...
— Faz o que te digo. Já que temos de cair todos para defendê-lo, dêmos-lhe o direito de participar na contenda.
«Knap» obedeceu com lentidão. E tropeçou no corpo tombado de Slocun que começava a mexer-se. Ajudou-o a aguentar-se nas pernas vacilantes e dispunha-se a enfiar pelo corredor que levava às celas quando um excitado grito de Crisper o deteve.
— Eh, xerife, passa-se qualquer coisa lá fora! Retiraram-se da porta.
Era incrível, mas, com efeito, assim sucedera. Danielson colocou-se junto de Crisper e espreitou.
Afastavam-se em direção aos olmos. No cinzento-azulado que saturava o ar, pareciam fantasmas. Justamente naquele momento acenderam-se as luzes do «saloon» e o seu resplendor afastou, em parte, as sombras.
A atenção dos aspirantes a linchadores concentrava-se em dois homens, um deles muito alto, quase uma cabeça mais do que o outro, e de contextura ciclópica.
— É Durry «Seis Dedos» — comentou Crisper.
— Sim. E se a vista não me falha, fala com o velho Salinger. Hum! Que diabo estarão a tramar?
Não levou muito tempo a descobrir. Durry e Salinger puseram-se a caminho do escritório. Os outros abriram-lhes passagem e seguiram-nos.
— Acende agora a luz, «Knap» — pediu Danielson. — Parece-me que vamos ter visitas.
— Não se fie nesse patife, xerife — preveniu-o Dan.
— Não, não me fio. Mas «Seis Dedos» não é homem que se preste a uma fraude.
«Knap» Jim pegou no candeeiro de petróleo e chegou-lhe um fósforo. A súbita iluminação fez pestanejar todos. Contemplaram Slocun, que se deixara cair sobre uma cadeira e olhava em frente, com sombria fixidez.
Igualmente se descobriu que Sue estivera a chorar... A jovem, alta, loura, imponente como uma valquíria, tinha os olhos vermelhos, mas a sua resolução não afrouxara.
O xerife levantou uma das mãos e estendeu a orelha para a porta.
— Bob! — ouviu-se através da madeira estilhaçada. — Sou Salinger. Durry «Seis Dedos» e eu desejamos falar-te.
— Diz o que queres daí, Mosy.
— Vamos, Bob; assim não. Queremos parlamentar. E dou-te a minha palavra de que ninguém tentará nada contra Kunetzky... se acederes ao que vou propor-te.
O xerife deitou um olhar circular aos seus companheiros. Crisper, Dan 'e «Knap» fizeram um gesto de assentimento. Sue parecia presa de grande ansiedade, mas não procurou opor-se.
— Bom — rezingou Danielson. — Que me leve o diabo... Eh, Durry! Que dizes tu? Garantes que não é uma esperteza para se apoderarem de Ben?
A voz curiosamente aguda, quase infantil, do homenzarrão, penetrou pelas frestas do carvalho estilhaçado.
— Podes abrir, xerife. Eu não te engano.
O xerife decidiu-se. Inclinou a carabina para o chão e com a mão esquerda açoitou, o ar para indicar a «Knap» que abrisse.
— Só deixarei entrar os dois — declarou. — E juro--lhes que os farei em picado se tentarem alguma suja jogada.
«Knap», com um tremor impossível de vencer nas mãos, retirou o ferrolho e deu volta à enorme. chave. A porta abriu-se e pôs a descoberto os dois visitantes.
Salinger deu um passo em frente, ao mesmo tempo que distendia os lábios num sorriso.
— Bob — articulou com o seu sonoro, claro timbre nortenho —, a minha opinião é que te portas como um néscio não permitindo que se faça justiça rápida, ao uso daqui. Mas seria monstruoso que alguém mais pagasse com a vida a tua obstinação.
— Um bonito discurso... para as próximas eleições — replicou o xerife. — Qual é a tua proposta?
O sorriso de Sallinger dissolveu-se tão rapidamente como um raio de sol no Inverno. O seu rosto enérgico fechou-se, proporcionando-lhe o inflexível e agressivo aspeto que constituía a sua divisa.
— Está bem, Bob. Não é por ti, mas sim por Durry, que me dou a este trabalho. Ele quer jogar limpo, como um cavalheiro. Assim, far-se-á o julgamento. Mas para que tudo seja imparcial, o júri será escolhido por uma comissão de cidadãos presidida por mim. E quanto ao juiz, para já não será Hamilton, que se baba quando vê passar essa rapariga, Sue.
— Quem, então?
— Pois... o mais indicado. Um homem sem prejuízos, independente e recto. Morice Bornac.
Um tique alterou a face do xerife, o qual não se admirou que Sue se adiantasse até colocar-se a seu lado e exclamasse:
— Você é um porco, Salinger!