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domingo, 16 de julho de 2017

BIS135.10 A Justiça é o triunfo da Vida

O tribunal instalara-se num espaçoso compartimento do armazém de Malden, o advogado de defesa. Era um homem de estatura mediana, rosto redondo e corado, bigodinho preto e olhos pequenos, azuis, brilhantes de bom humor.
Arranjou-se um estrado para o júri, e Morice Bornac instalou-se atrás de uma grande mesa, com o martelo, um tinteiro e os seus livros de leis.
Ben Kunetzky tinha um aspeto patético, mais pálido do que na obscuridade da cela, com os olhos afundados nas órbitas, fugidios. Torcia as mãos e olhava, ansioso, o juiz.
Entre o público encontravam-se a irmã do acusado e os seus amigos. Aquela, em contraste com Ben, mostrava--se arrogante, cheia de vitalidade e formosura, como se desafiasse toda a gente.
Pouco antes de começar o julgamento falou com Bornac. Estava corada e percebia-se quanto lhe custava reconhecer o seu erro.
— Parece que, afinal, o senhor tinha razão. Não creio que o sucedido ontem à noite no «Chaparral» fosse parte de uma farsa. Por isso lhe peço perdão do que fiz... bem, quando o senhor vinha para cá...
O juiz contemplou-a com um indefinível sentimento de angústia. Estava certo de que aquela mulher seria a sua companheira ideal, de que eram dois seres feitos para se entenderem.
De súbito, sentiu a necessidade imperiosa de confessar-lhe o que se passava consigo, pois já não existia o obstáculo que até então o impedira de fazê-lo e o colocara numa encruzilhada trágica.
— Não se apresse a arrepender-se — murmurou. —Talvez tenha motivos para odiar-me.
— Porquê? Se não apoia Salinger, isso significa que tenciona proceder com honradez. Demonstrou-o ontem, também, quando me salvou de Tony e...
Ficou mais corada ainda e desviou a cabeça, pois queimava-a o olhar intenso e apaixonado do homem que tinha na frente.
— Era a isso que me referia — ouviu-o dizer. — Não foi o meu amor à justiça que ontem me levou a sua casa, mas o amor que lhe tenho a si. Estou apaixonado por si, apaixonado de uma maneira absorvente e feroz.
Sue ficou como que paralisada, sem saber que atitude tomar. Esperara ouvir aquilo, más não me modo tão brusco.
— Porém... — gaguejou, confusa.
— Não. «A Justiça não é, não pode ser nunca, aquilo que nos convém, a resposta ao que desejamos. A Justiça, a maior parte das vezes, faz de nós suas vítimas». E eu, ontem, não fui para si o anjo justiceiro, mas 'o homem apaixonado e ciumento.
— Não o compreendo.
Levantara a cabeça e fitava-o com os olhos cinzentos resplandecentes. Bornac não soube resistir, agarrou-a pelos ombros e puxou-a para si.
— Ao diabo tu! — exclamou. — Se um homem e uma mulher não podem amar-se, ainda que seja pelo preço das suas vidas, não vale a pena estar na terra.
Beijou-a. E foi beijado, pois a rapariga não lhe fugiu, cedeu ao seu abraço e fê-lo sentir toda a glória da vitória do homem sobre a mulher.
Ao separarem-se, Bornac disse, com voz triste:
— Aconteça o que acontecer, creia em mim, Sue.
Deixou-a intrigada e absorta e foi ocupar o seu lugar.
Salinger também se encontrava presente, assim como o homem que lhe impusera, no último instante, um julgamento imparcial: o pistoleiro «Seis Dedos». Não faltavam igualmente o xerife e os seus ajudantes.
Ao olhá-los a todos, de boa vontade Bornac teria desatado a rir, pois não era Ben Kunetzky que ia ser julgado, mas ele. Os seus juízes eram todos aqueles homens que lhe fariam pagar o seu comportamento, acabado o espetáculo. Quando pronunciasse as palavras que absolveriam ou condenariam o réu, seria a sua própria sentença que ditaria.
O delegado, que era o merceeiro gordo que fora visitá-lo em Winslow, começou a sua atuação com um ataque tão duro que, ao contrário do que desejava o ambiente se tornou mais favorável ao rapaz. Descreveu a sua infância, os seus roubos de fruta e todas as travessuras próprias dos garotos, e logo a seguir falou do dinheiro que roubara a seu pai e da vida aventurosa que levara nos Estados da costa, desde São Diego ao Cabo Flattery.
— ... tinha o crime no sangue — perorava com tanto ardor, que a camisa se lhe empapava de suor. — Ben Kunetzky é um preguiçoso, um vagabundo sem profissão nem préstimo para a comunidade. Nunca gastou um dólar na... Bem, quero dizer, nunca se comportou como um cidadão decente.
Claro que, para o merceeiro, cidadão decente era aquele que comprava na sua tenda.
Em seguida passou aos factos que iam debater-se em julgado. Descreveu o «espantoso» quadro oferecido pela cabana de Potter quando encontraram o cadáver do velho, e perdeu-se em considerações acerca da sorte que podia ter sido a da «terna criaturinha» que vivia naquele lugar escondido, Rosy, a desaparecida.
Quando terminou, a impressão geral era a de que Ben podia considerar-se livre. Nada provava que cometera o assassínio, e o desaparecimento de Rosa era, precisamente, o melhor argumento em seu favor.
— Como é possível que — clamou Malden, o defensor —, se estava ébrio — só assim poderia justificar-se o seu ato —, tivesse conseguido realizar a proeza incrível de fazer desaparecer uma pessoa? Mas ainda há mais...
Malden apontou para o juiz, que estremeceu. Que iria dizer?
— Na visita que o senhor juiz ontem fez à cabana de Potter, notou-se um facto extraordinário, que ao princípio não se teve em conta. Com exceção do morto, evidentemente, o interior da cabana estava em perfeita obra. Será isso coerente com um ébrio, com um homem enlouquecido pela paixão amorosa?
Bornac ficou perplexo e olhou para o júri. Sem dúvida tratava-se de uma prova de peso. Certamente fora o maldito anão quem facultara a informação ao advogado defensor, depois de ver a impressão que o caso causara ao juiz.
Salinger deixara pender a cabeça para o peito e Bornac compadeceu-se dele. Sabia o que sente um homem quando vê ruir aquilo por que lutou, quando no fim da vida se vê a braços com o opróbrio e a inutilidade da sua obra.
Sue e os amigos, pelo contrário, não cabiam em si de contentes. Bornac experimentou uma sensação de pânico e aniquilamento. Ia deitar tudo a perder, arruinar-se para sempre. E quando a felicidade estava tão perto, quando lhe ia ser fácil refazer a sua vida e esquecer o passado. Poderia até escapar ao perigo da vingança que o aguardava na pessoa do hercúleo pistoleiro.
Mas era inútil tentar fugir ao inevitável, encontrava-se só naquele transe e tinha de enfrentá-lo. Só como apenas o pode estar o homem que se coloca acima dos demais e julga as suas paixões e os seus erros.
O júri esperava, com impaciência, que o mandasse retirar-se para deliberar. Eram amigos de Salinger, mas o seu veredito seria «inocente». Bastava ver-lhes o rosto resoluto.
Bornac inclinou-se para a frente e falou, com voz fria e dura:
— Este Tribunal, fazendo uso das atribuições que lhe conferem as leis do Estado, deseja tornar conhecidos certos factos que não foram tomados em consideração pelas partes declarantes, talvez por não possuírem os elementos necessários.
O ambiente pareceu arrefecer subitamente e as feições da assistência endureceram. O xerife engoliu em seco, Sue pareceu petrificada e Salinger levantou vivamente a cabeça.
— Em primeiro lugar — prosseguiu o juiz —, apontou-se como motivo do crime a paixão amorosa, o que é absurdo, seja Ben Kenetzky culpado ou inocente, pois não se encontraram os mais leves vestígios de luta, como aconteceria se alguém houvesse intentado ultrajar a filha de Potter. O assassínio de Poter foi premeditado friamente. Quanto à rapariga, o seu desaparecimento explica-se facilmente: ninguém a sequestrou ou lhe fez mal, partiu por sua própria vontade e de acordo com o assassino.
Levantou-se um murmúrio, fraco ao princípio, mas que, a pouco e pouco, se transformou em algazarra.
— Dá-se conta, senhor juiz, de que...? — articulou, trémulo, o delegado Sanders.
— É um mentiroso, juiz! — gritou Sue, que se pusera em pé. — Um sujo mentiroso!
Bornac esperou um momento que a calma se restabelecesse, mas foi «Seis Dedos» quem impôs a ordem:
— Silêncio! — gritou com a sua voz aguda, metálica.
— Potter foi assassinado para ser roubado -- acrescentou o juiz, imperturbável. — Encontrava-se só na cabana, pois Rosy partira antecipadamente, para não estar presente quando o crime ocorresse. Foi ela quem facilitou ao assassino todos os pormenores acerca do esconderijo onde o velho guardava a sua fortuna, uma fortuna em pepitas de ouro acumulada nos seus tempos de mineiro. Compreendo os sentimentos que durante muito tempo agitaram a jovem, confinada num sítio selvagem e sabendo que o pai era rico e poderia proporcionar-lhe outro modo de vida. Foi isso que a levou a aceitar o plano do companheiro, naturalmente alguém em quem depositava grande confiança.
Bornac dirigiu-se ao xerife e ordenou-lhe, com voz forte:
— Xerife Danielson, mande trazer Rosa Potter a este tribunal!
Nova algazarra, mas de natureza diferente. Sue deixou--se cair lentamente na cadeira e os seus amigos imitaram--na. O testemunho mais convincente era, porém, o rosto branco, descomposto, de Ben Kunetzky, que voltou rapidamente a cabeça para assistir à chegada da pessoa anunciada.
Rosy era uma jovem morena, de feições finas, cujos olhos denunciavam uma natureza apaixonada 'e violenta: eram negros, grandes, rasgados e sombreados por enormes pestanas.
Dirigiu-se com passo firme para a teia das testemunhas, ladeada por «Knap» Jim e Slocum, e fitou Ben.
— Lamento, Ben — disse-lhe. — Estenderam-me uma asquerosa ratoeira e eu caí nela.
— Não o lamente, Rosa — cortou o juiz, que assumira o papel principal. — Agradeça antes que, na minha visita à cabana do bosque, me houvesse apercebido de certo pormenor que provava encontrar-se viva. Não resistiu à tentação de voltar para levar os seus frascos de perfume, e não viu, ou não considerou importante, que deixava pegadas no quarto. Para atraí-la bastou fingir que havia fogo em sua casa.
E continuou, num tom mais forte, mais cortante:
— Mas não passa de uma pateta, acreditou de boa fé na promessa do assassino. Ele estava convencido de que nenhum tribunal o condenaria com as provas que existiam e sem encontrar-se o seu cadáver; estudara bem a sua cartada.
Fitou Ben, que parecia prestes a desmaiar, e perguntou-lhe:
— Foi esta a sua brilhante ideia, não é verdade, Ben Kunetzky? Sabido como é que nunca se recorda de nada depois de uma bebedeira, não negaria a sua culpabilidade, limitar-se-ia a escudar-se atrás da afirmação de que ignorava o que se passara. Eram muitas as contradições existentes e tinha esperança de que a opinião dos seus concidadãos se voltasse contra Tony Salinger, mulherengo, fanfarrão c malcriado devido à brandura de um pai que lhe desculpava todas as malfeitorias. Claro que se expunha a ser linchado, mas nesse caso lá estaria sua irmã Sue, o xerife e muitos outros para o defenderem.
As suas palavras, como machadadas firmes, derrubavam infalivelmente a farsa inventada por Ben.
— Rosy contou-lhe o segredo da fortuna do velho mineiro, e você viu aí uma oportunidade para escapar à sua vida de falhado. Convenceu a rapariga de que o melhor seria tirar o tesouro ao velho e fugirem juntos, para qualquer sítio longínquo, mas não lhe disse que para isso o mataria. Claro que, depois, procurou-a e contou-lhe o que acontecera, como se fosse um acidente.
— E foi! E foi! Foi um acidente! — gritou Ben, levantando-se.
— Mente! Sempre pensou acabar com ele... e depois com Rosy. Se a deixou viva, ao princípio, foi porque isso convinha à sua defesa, pois uma vez solto procurá-la-ia e assassiná-la-ia de facto, enterrando-a em qualquer ponto da montanha onde ninguém a encontraria nunca. Ninguém saberia nunca, também, que tinha uma fortuna nas mãos. Não é verdade? Ela devia manter-se oculta até você se lhe juntar, sem saber que esperava um assassino.
Ben caiu para o chão. Soltou uma espécie de uivo, agitou-se como se mãos potentes lhe apertassem o pescoço, enquanto da boca lhe escorria uma espuma esverdeada e os olhos se lhe reviravam.
Bornac soltou um suspiro de alívio. Fora melhor assim, o rapaz era epilético e talvez o mandassem para um manicómio.
Tudo terminara. Os esbirros levaram o preso, que continuava a espernear e a contorcer-se, e a assistência foi saindo. Salinger ficou uns segundos parado, a fitá-lo, e depois saiu também.
Na sala ficaram apenas «Seis Dedos» e ele próprio. O pistoleiro fitava-o com fixidez.
Bornac levantou-se, saiu de detrás da mesa e deu alguns passos na direção do gigante.
— Pronto, «Seis Dedos», é justo que pague agora as minhas dívidas. Não tenciono fugir ao encontro.
— Eu sei, juiz. Mas diabos me levem se tenho a mínima intenção de o defrontar! É preciso muito mais coragem para fazer o que o senhor fez do que para defrontar outro homem com um revólver na mão.
Sorriu e continuou:
— Vi o que lhe custou cada palavra que pronunciou, era como se se abrisse a si próprio e dilacerasse as entranhas, para delas extrair um tumor. Garanto-lhe que eu não seria capaz de fazê-lo. Adeus, juiz, felicidades.
Deu meia volta e afastou-se. Bornac ficou só e encolheu os ombros, num movimento instintivo de defesa, percorrido por um frio estranho.
Pegou nos livros, como um autómato, a pensar que noutras partes do mundo homens como ele deviam experimentar aquela desagradável sensação de serem os únicos sobreviventes de uma grande catástrofe.
Sim, porque era uma grande catástrofe arrancar um ser humano da sociedade, por muito criminoso que ele fosse, e anulá-lo, fazê-lo desaparecer de entre os demais.
Sempre que se via obrigado a proceder de modo semelhante, o juiz sentia um choque, uma comoção, e identificava-se com o condenado, sentia-se desamparado ante o poder absoluto da Justiça.
«Porque a Justiça é uma grande consciência coletiva, a suprema consciência que rege o Universo.»
 Saiu para a rua, com passo largo e seguro, e a luz violenta do sol ofuscou-o, por instantes.
Iria buscar o cavalo e depois sairia da cidade, do próprio Oeste. Deixaria de ser juiz, de realizar aquele esforço sobre-humano de estar acima dos seus semelhantes, à custa de desumanizar-se...
De súbito, viu-a. Caminhava de cabeça pendida, caídos os braços ao longo do corpo, enquanto Rosy, a seu lado, tentava consolá-la.
Bornac sentiu que qualquer coisa se quebrava dentro de si. E, afinal, por que não? Por que evitar a verdade das coisas? Nem deixaria de ser juiz, nem sairia do Oeste, nem sequer abandonaria aquela cidade.
Lutaria para que Sue o compreendesse, embora isso não fosse questão de um dia ou de um mês. Talvez passassem anos, mas no fim alcançaria a vitória, conseguiria que Sue Kunetzky esquecesse o que se passara.
«Porque a Justiça é também da vida o triunfo».

sábado, 15 de julho de 2017

BIS135.9 A Justiça perfeita é a morte

O juiz esteve a conversar com o xerife durante muito tempo, e o representante da Lei na cidade de Marte não se cansou de acenar com cabeça, em sinal de assentimento.
No fim da entrevista a sua expressão traduzia grande preocupação.
— Amanhã se decidirá — concluiu Bornac —, mas não deixe de fazer o que lhe disse.
— Fique descansado.
— Procurarei o delegado e o defensor e pôr-me-ei de acordo com eles.
Saiu. Entardecia e um ventinho agradável afagou-lhe o rosto. No seu caminhar lento e seguro, o juiz dirigiu-se para casa. Não sabia porquê, mas parecia-lhe notar uma tensão estranha no ambiente, talvez por se encontrarem na rua poucas pessoas e de essas andarem com passos rápidos, como se também aguardassem algum acontecimento importante.
Parou diante do restaurante mexicano e observou os arredores. Tinha a certeza de que Salinger não se daria por vencido apenas por estar fora de combate o seu principal pistoleiro. Receava, até, ter de haver-se com «Seis Dedos».
Estranhou, portanto, não receber as «boas-vindas» de ninguém, para as quais se preparara.
Ao entrar no salão do «Chaparral» compreendeu que a tensão, ali, atingira o auge. Todos os olhos se fixaram nele, negros e brilhantes, com uma espécie de religioso temor.
Não tardou a compreender porquê. A um canto, sentado junto de uma mesita, encontrava-se um homem que logo reconheceu: o mesmo indivíduo magro e' desgracioso que cruzara consigo no hotel de Winslow e defronte da casa de Salinger.
Mal o viu, o homem levantou-se e ficou um pouco de lado, com a mão direita perto da anca e um sorriso velhaco no rosto de cavalo.
— Viva, juiz — saudou. — O senhor não me conhece, mas há algum tempo já que somos amigos.
Bornac refletia. Talvez fosse, outro pistoleiro contratado por Salinger, como parecia confirmar o pormenor da sua presença perto da casa do rancheiro... Mas, sendo assim, por que estivera também em Winslow?
Como se lhe adivinhasse os pensamentos, o desconhecido desatou a rir, com um riso agudo e sem alegria.
-- Sim, juiz, Salinger tem-me ao seu serviço... desde hoje. A verdade, porém, é que o senhor e eu somos sócios há já algum tempo, e eu vim precisamente. recordar-lhe que essa sociedade não deve acabar.
De súbito, Bornac soube quem era aquele homem, e um fogo estranho queimou-lhe as entranhas.
Como que a confirmar as suas suspeitas, May, a antiga bailarina agora sua esposa, desceu a escada com o olhar febril cravado nele. Era aquele, sem dúvida, o indivíduo que os explorava, o causador de Bornac se haver convertido num miserável vendedor de sentenças, o homem que tinha em seu poder o filho de May e seu.
— Já disse a May que essa sociedade deixara de existir -- declarou o juiz, serenamente. — E não ressuscitará,
— Não? Julga que não cumprirei... o que o senhor sabe?
Bornac sorriu. Sentia-se forte, poderoso, desde que tomara a decisão de cumprir o seu dever. Por outro lado, o fantasma que tanto tempo o atormentara deixara de o ser. ,
— Você não fará coisa nenhuma — afirmou, sem hesitar. — Primeiro, porque não tem coragem, e segundo, porque terá de enfrentar-se comigo diretamente, sem se escudar nas saias de uma mulher.
O chantagista não modificou nem a expressão nem a posição.
May desceu o resto da escada e foi ao seu encontro. –
— Não, por favor! Não consintas, Mo, que faça mal ao nosso filho! Não tens o direito de o consentir!
A singularidade da situação alertou o juiz, cujo cérebro funcionava ativamente.
— Fica onde estás! — ordenou, com voz severa.
Mas, sem fazer caso, May tapou com o corpo o esganiçado chantagista.
— Mo, por que não queres ajudar-me?
De súbito, sem saber como, pareceu-lhe que as suas feições se modificavam, que as orelhas lhe cresciam e tomavam a forma de poços escuros. Era uma nova May que se lhe revelava, desconhecida, uma nova May em cujas feições trémulas se viam as marcas, não do sofrimento, mas da devassidão, do vício. Até a sua voz soava diferente:
— Julgas que não sei o que fizeste esta tarde? — gritou fora de si. — Deste uma sova a um homem por causa de uma mulher qualquer, que anda por ai à frente de uma quadrilha de bandidos, e vais absolver o irmão só porque ela te subiu à cabeça... A mim deixavas-me, mas não terás sorte nenhuma, não levarás a tua avante!
Deu um salto para o lado e o juiz compreendeu a razão do seu comportamento. O seu cúmplice, pois agora já não duvidava de que o era, apontava-lhe o revólver, com um sorriso ainda mais perverso.
— Como vê, juiz, não vale a pena armar-se agora em santo. Ou atua de acordo com o combinado, ou o faremos em polpa.
 — Não te livrarás de mim com essa facilidade! — continuava a berrar a mulher. — Tira-lhe os revólveres, Dunley, é perigoso como uma cobra. E depois... o que merece! Perder a cabeça por um desavergonhada e querer tratar-me, a mim, como um trapo velho! Quebra-lhe os ossos, Dunley, desfaz-lhe a odiosa cara!
Dunley avançou alguns passos na direção de Bornac.
— Ela está um pouco excitada, juiz, mas eu não sou assim tão mau... Vamos, solte o cinto. Aconselho-o a não tentar qualquer tolice, a partir deste momento, pois estarei sempre ao seu lado, mesmo quando dormir.
Bornac compreendeu que a sua situação era perigosa Não duvidava de que Dunley fosse capaz de converter-se em seu cão de guarda, até ao julgamento. Claro que não poderia impedi-lo de ditar a sentença que lhe parecesse justa, mas mal o fizesse mandá-lo-ia para o outro mundo.
Confiariam na sua missão depois de desarmá-lo e de lhe darem, talvez, uma sova. Salinger era homem astuto e não hesitara em associar-se com aquela criatura repugnante.
Com gestos lentos, desapertou o cinto. A assistência procurou imediatamente pontos estratégicos de onde pudesse assistir ao que ia passar-se sem arriscar a preciosa pele.
— Não conseguirá nada — declarou o juiz, sempre sereno. — O melhor será acabar comigo de uma vez, pois se não o fizer não descansarei enquanto não o apanhar. Mandá-lo-ei perseguir em todos os Estados, por sequestrador e chantagista. Não é esperto, amigo, devia ter avaliado melhor a espécie de adversário que escolheu.
— Maldito rábula! — berrou o outro, de feições contraídas. — A dar-se ares de homem forte, hem?
Em duas passadas colocou-se diante de Bornac, levantou o braço comprido e esmurrou-o no queixo. O juiz recuou, a cambalear, e Dunley seguiu-o e levantou de novo o punho.
Mas uma voz aguda e incisiva conteve-o:
— Larga o revólver, Dunley!
O juiz, que recuperara o equilíbrio, observou a nova personagem do drama: «Seis Dedos» erguia-se como um gigante e cobria quase todo o vão da porta.
Não empunhava armas, mas todos sabiam que não era preciso — inclusivamente o chantagista, que girou nos calcanhares com o repelente sorriso a arrepanhar-lhe os lábios, falso como Judas.
— Por que te metes nisto, «Seis Dedos»? — indagou. — Sabes que Salinger...
— Para o diabo com o Salinger! — replicou, irritado, o outro. — Serviste-te de um truque nojento para apanhares esse homem, e não o tolerarei. Se queres acertar contas com ele, hás-de fazê-lo segundo o código do Oeste.
O chantagista encolheu os ombros e replicou:
— Mas eu... cumpria ordens de Salinger.
— Já te disse que quero que o Salinger vá para o diabo. Apanhe os seus revólveres, juiz.
Bornac quase não acreditava na sua sorte — uma sorte, aliás, muito discutível, pois percebia que Ç<Seis Dedos» lhe facilitava a defesa para ter a oportunidade de defrontá-lo ele. .
Isso, porém, não lhe metia medo. Apressou-se, pois, a cingir o cinturão.
— Obrigado, «Seis Dedos». Agora, Dunley, tens apenas .um minuto para decidir: ou te entregas voluntariamente à prisão, como sequestrador e chantagista, ou disparas contra mim.
Deu uns passos para o fundo da sala, e o outro torceu o pescoço e fitou May, que recuara para a escada, a tremer.
— Se optares pela segunda alternativa, Dunley — disse o gigantesco pistoleiro mete o revólver no coldre e afasta-te até ao balcão. Terão de cumprir-se as regras do jogo.
Se o bandido tinha outras ideias, aquela advertência tirou-lhas. Suava. Por fim, sem apanhar a arma que deixara cair por ordem de «Seis Dedos», gritou:
— Ao diabo com tudo isto, juiz! Não sou sequestrador. E quanto a ir-lhe às massas, isso era ideia dela.
— Que queres dizer?
Bornac começava a compreender, mas nem se atrevia a pensar que durante tanto tempo fora vítima de tal conjura.
— O seu filho... Bem, é mentira que o tenha, morreu pouco depois de nascer. Porém, quando do incêndio de Flagstaff...
May soltou um grito estridente e precipitou-se para Dunley:
— Mentira! Mentira!
Agarrou-o pelo pescoço e arranhou-lhe a cara com as unhas. O bandido bateu-lhe com punhos na cabeça, mas ela não o largou. Assistiu-se, então, a uma estranha dança: a bailarina agarrada a ele com todas as forças, a proferir palavrões, e Dunley a praguejar e a tentar soltar-se.
Por fim o pistoleiro tomou uma medida radical: tirou o revólver esquerdo e, sem que Bornac ou «Seis Dedos» tivessem tempo de intervir, disparou várias vezes contra a mulher.
Esta, no entanto, manteve-se ainda alguns segundos com as mãos presas à cara do cúmplice, e depois, com um estremecimento incrível, deixou cair a cabeça para trás e deslizou suavemente para o chão.
Bornac correu para o seu lado, ajoelhou-se, amparou--lhe a cabeça, mas logo a largou, com cuidado. Nada podia fazer, May Zender deixara de existir.
Com ela morrera um triste passado, uma época negra da vida do juiz. Tentou desculpá-la, compreender as atrozes circunstâncias em que se vira. Quando a encontrara em Flagstaff, acusada de um crime, talvez não fosse verdade que Dunley a ameaçasse de matar-lhe o filho; mas era certo que se servia dela para os seus negócios, que exercera sobre a sua vontade e um poder demoníaco.
May não mentira ao pedir-lhe que não a deixasse. Obrigada a enganá-lo, devia pensar que a sua salvação estava com o seu antigo amor, com o homem que a desposara e lutara por ela.
Mas Bornac, após o segundo encontro, não lhe demonstrara mais do que piedade.
Levantou-se e voltou-se lentamente para o bandido. Este continuava a tremer e a arquejar, com o sangue a escorrer da cara arranhada.
— Maldito assassino! — gritou o juiz, com voz rouca. — Vamos, empunha a arma!
Dunley fitou-o com desespero. Não tinha fuga possível e o medo arranhava-lhe a garganta, como um gato assanhado.
— Foi ela! Foi ela! — gemeu. — Juro que foi tudo urdido por essa maldita. Pensou que, se lhe fizesse crer que o seu filho vivia e estava sob a minha ameaça, o senhor a livraria de apuros. Como percebeu que era fácil explorá-lo...
— Pega na arma, cão tinhoso!
Talvez fosse verdade o que dizia, mas isso não importava ao juiz. Estava convencido de que, se May chegara a tais extremos, fora por se haver corrompido na companhia daquele canalha.
Encurralado, sem vislumbrar salvação possível, Dunley tirou o revólver que metera no coldre direito. Era rápido e ágil no domínio das armas.
Mas sofreu a tortura de o juiz o deixar tirar o «Colt» e de quase o apontar. Em seguida viu incendiar-se o olhar de ferro do antagonista e viu ainda, por três vezes, o fulgor vermelho das detonações. Só então mergulhou no nada.
Consumada a sumaríssima justiça, o juiz sentiu como que um desfalecimento. Guardou lentamente a arma e voltou-se para «Seis Dedos». Era a sua vez.
— Suponho que Salinger não quererá, agora, que eu seja o juiz, não é verdade? — perguntou. — Estou à sua disposição, «Seis Dedos».
O outro não se moveu. Vigiava Bornac e quantos se encontravam na sala, sem se atreverem a mexer-se, com os olhos dilatados.
— A minha conta pode esperar, juiz — declarou. Julgará Ben Kunetzky e garanto-lhe que não se lhe levantarão obstáculos. Mas quando acabar de ditar a sentença, juro-lhe que não haverá força humana capaz de impedir-me de matá-lo. Ponha-se, pois, de bem com a consciência e proceda como melhor lhe parecer.
Quando saiu do vão da porta todos respiraram, mais aliviados. O juiz foi sentar-se a uma mesa, invadido por uma calma gelada. Estava certo de que «Seis Dedos» não falava por falar, de que aquele seria, sem dúvida, o seu último julgamento.
Esperava-o um juiz superior, que o julgaria por seu turno. Eram poucas as probabilidades que tinha de es-capar com vida. Claro que lhe restava o recurso de abandonar, de fugir, mas isso era urna coisa que não fazia sentido, assemelhava-se a subir ao alto de urna montanha e pretender que era imortal.
«A justiça perfeita é a morte, e o melhor juiz é aquele que não a teme e a serve até ao fim.»

sexta-feira, 14 de julho de 2017

BIS135.8 A Justiça é a mais formosa das amantes

Tony abraçara Sue pela cintura e procurava-lhe afanosamente os lábios para beijar-lhos. Ela propinou-lhe um encontrão e afastou-o.
— Maldito sejas, Tony Salinger! — gritou com ira, os olhos cinzentos flamejantes. — Como te atreves? Tu, asqueroso assassino?
O jovem corara, facto a que não era alheio, tirando a paixão amorosa, o uísque que ingerira, e atirou-se a rapariga.
— Vou domar-te, ferazinha! — silvou. — Quem pensas que és? O teu pai foi um borracho e o teu irmão um assassino de velhos. Por que te dás tantos ares?
Sue retrocedia, mas ficou aprisionada num canto. Tony soltou uma gargalhada.
— Já viste? Sempre se chega a um ponto em que já não é possível retroceder.
— Matar-te-ei, Tony; farei com que te arranquem a pele a chicotada.
— Vamos, vamos. Eu só quero que repares no que sinto por ti, Sue. E serás uma idiota se não aproveitares a oportunidade. Ouve...
Tocava-lhe. Ela podia ver o diabo da luxúria retorcendo-se no fundo dos negros olhos do rapaz. O seu bafo era ardente, como o de um animal com cio.
— Posso fazer um pacto contigo, Sue. Quando forem pendurar o teu irmãozinho, impedirei isso com os meus homens e fá-lo-ei sair da região. Hem? Ninguém te dará mais pela pele dele. Mas tu...
Apertou-a nos braços. Sue levantou uma perna e incrustou o joelho entre as virilhas de Tony, que deixou fugir um berro e se inclinou para trás, momento que a jovem aproveitou para escapulir-se.
Lívido, fora de si, o dom-joão foi-se recompondo. Gotas de suor escorriam-lhe pela testa.
— Vou-te... Juro que te vou...
Correu atras dela e apertou-a contra a mesa. Sue esbofeteou-o e deu-lho pontapés nas pernas, mas Ton não afrouxou a sua pressão. Por fim a rapariga mordeu-lhe com ferocidade uma das mãos.
Salinger Júnior soltou novo grito. A sua cólera subiu ao rubro branco. E bateu com sanha na sua vitima, se se importar já que fosse mulher e estivesse indefesa.
Foi esse o momento escolhido pelo juiz para fazer a sua entrada.
O apaixonado moço não se apercebera do anormal silêncio que reinava la fora, quando seria natural que aparecessem os seus homens ao ouvir a luta que sustentava.
Roy arrastara consigo vários amigos e conduziu-os, juntamente com o juiz, de modo a cercarem a quebrada e a tomarem de surpresa a cabana.
E ali estavam. Bornac, uma vez dominados os bandidos de Salinger, após meterem-lhes os canos das carabinas nas costelas e porem em liberdade os companheiros de Roy, precipitou-se para dentro de casa.
O quadro que se ofereceu a seus olhos revoltou-o a ponto de converte-lo numa fera.
Fosse outra a jovem maltratada e sentiria o mesmo, porque o espetáculo mais repugnante aos olhos de um verdadeiro homem é ofender as mulheres.
Caiu sobre Tony e agarrou-o por um ombro, obrigando-o a voltar-se. Durante instantes, o jovem, não o reconheceu. Depois tornou-se intensamente branco.
— Porco! — cuspiu o juiz.
E assestou-lhe um violento murro no meio da cara, como se quisesse esborrachar-lha, converter-lha em polpa.
Mas Tony desviou a cabeça rapidamente e o golpe alcançou-o apenas de raspão, embora o fizesse girar como um pião e voar ate um canto do aposento.
O seu corpo chocou com o armário e as tigelas que este continha dançaram e algumas partiram-se. Mas conseguiu segurar-se a tuna das esquinas e sacudiu a cabeça para recompor-se.
Quando já começava a ver claro, o seu inimigo deu um salto e aproximou-se.
— Vou partir-te um a um todos os ossos!
A mulher retirara-se para, um canto e contemplava a cena com um misto de espanto e de ansiedade. Viu o juiz embeber os punhos uma e outra vez no corpo de Tony e sacudi-lo como uma pela.
Largou-o e parou de bater. Parecia espiar as suas reações, esperar que se refizesse para fazer-lhe sentir de novo o castigo. Tony baqueava e os braços pendiam--lhe, flácidos, inertes.
Mas, de repente, precipitou-se contra o outro homem e desfechou-lhe uma cabeada no peito, obrigando-o a retroceder. Depois pulou com agilidade por cima de uma cadeira derrubada em direção a porta.
O juiz atirou-se-lhe as pernas e deitou-o ao chão. A cabeça de Tony embateu na porta com fragor. Mas tinha o crânio duro.
Mal tocou o solo, saltou sobre o adversário e deitou--lhe as mãos ao pescoço. Mas foi projetado pelo poderoso   arqueamento do espinhaço que cavalgava e deu duas voltas sobre as suas contas, no afã de fugir.
Pôs-se de joelhos e olhou com louco terror as pontas das botas de Bornac que se lhe pusera diante e o esperava.
Carregou polo meio, com desespero, disposto a destruir a implacável figura. Mas encontrou-se com uma joelhada que lhe esborrachou o nariz, do qual o sangue começou a jorrar.
Aquilo acabou definitivamente com a sua razão. Como as belezas oficiais, o peralvilho tremia pela conservação do seu físico. A descoberta de que pretendiam desfigura-lo punha-o fora de si.
Com um grito penetrante, infra-humano, pôs-se em pé e atirou-se para a frente, descarregando murros no ar, sem ver, cego de dor e de raiva.
— Por favor... — gemeu Sue.
Mas Bornac encontrava-se também dominado por uma febre que o tornava implacável, brutal.
Com um soco direto deteve-lhe o avanço e deixou ir o seu outro braço em curva, num gancho esmagador, que acertou cm cheio no queixo de Tony.
Este ergueu-se a um palmo do solo. Antes que o tocasse de novo, recebeu um terceiro murro em que Bornac enviou todo o seu peso e que lhe meteu dentro o epigastro, dobrando-o e quase lhe arrancando as tripas pela boca.
Se não aconteceu isso, pelo menos Tony começou a vomitar como uma mulher gravida, encolhido, esticando--se a cada arranco e comprimindo-se seguidamente.
Oferecia o espetáculo mais desagradável que se possa imaginar, com a tez amarelenta e os olhos fora das Orbitas, o cabelo revolto e sujo de porcaria.
O juiz agarrou-o então pelo pescoço e esfregou-lhe o rosto nas suas pr6prias fezes.
— Deixe-o, deixe-o agora! — gritou Sue, que se aproximou para agarrar Bornac.
Pouco a pouco este foi-se recompondo da sua vertigem e virou-se para olhar a rapariga. Notou então que o fitavam com espanto Roy e os seus companheiros, que havia um bocado se encontravam dentro da sala.
— Levem-no daqui — ordenou com voz sibilante que a si mesmo surpreendeu. — Ponham-no a caminho e que vá para a cidade a pé. Talvez lhe faca bem que o vejam nesse estado.
Entre Zac e um peludo, de potentes ombros e braços compridos, carregaram o arruinado Tony Salinger e tiraram-no de casa.
Sue disse:
— Foi muito oportuna a sua chegada, juiz. Mas talvez não fosse necessário tanto alarde. No fim de contas, também sei defender-me.
Havia tal incongruência na sua afirmação que Bornac esteve tentado a imitar o derrotado Tony e a propinar uns acoites a cabeçuda criatura. No entanto dominou-se e um sorriso distendeu-lhe os lábios finos.
— Bem vi.
Ela observava-o de modo especial, que teve o condão de pô-lo um pouco nervoso. Parecia ter descoberto o sentimento que lhe inspirava.
Por um momento, pela imaginação do juiz atravessou a ideia de que, se Ben fosse absolvido, talvez ela desistisse do seu ódio. Mas quase imediatamente o invadiram em aluvião as suas recordações.
Nao tinha sequer o direito de pensar naquilo. A simpatia que a formosa mulher despertara no seu corarão estava tao fora de propósito como o incómodo que pudesse causar-lhe um sapato apertado durante a apreciarão de uma causa.
«A Justiça e a mais formosa das amantes, mas não admite rivais. Quem se consagra a ela, tem de morrer abraçado a sua perfeição, como uma espada de luz que atrai e fere ao mesmo tempo».
Roy murmurava qualquer coisa ao ouvido da rapariga e ambos tinham os olhos cravados nele. Sue foi ao seu encontro.
— Roy disse-me que o senhor atacou e venceu «Seis Dedos». Porque? Que espécie de farsa traz entre mãos? Todos sabemos que Salinger o mandou vir e que esta decidido a tudo desde que o seu precioso rebento não sofra dissabores.
O juiz abriu a boca para explicar o que sucedera e em que ela fora parte importante, mas fechou-a sem articular palavra. Acaso tinha aquilo sentido em semelhantes circunstancias?
— E se experimentasse acreditar em mini? — foi o que disse.
— Como? Pensa que não estamos informados das suas tram6ias, da serie de criminosos que livrou da forca ou dos infelizes que mandou para ela, a troco de dinheiro? Salinger pagou-lhe, juiz, não nos resta duvida. E Salinger quer que o senhor lhe garanta que meu irmão será enforcado.
— Tem razão... até certo ponto. Mas imagine que eu... não concordei com o prego, ou que resolvi portar--me bem...
Sue sacudiu os dourados cabelos num gesto de impaciente irresolução.
— Bem. Pois sinto ter de dizer-lhe, juiz, que não podemos competir em preço com Salinger... se é isso que procura.
Bornac sentiu apoderar-se de si um desespero sem limites. Notava que eram inúteis os seus argumentos. Mais do que eles contava o seu historial e o facto de ter sido mandar chamar por Salinger.
Encolheu os ombros, resignado a não discutir.
— Está bem. Mas lembre-se de que, seja como seja, hei-de julgar seu irmão. E o melhor é que me preste toda a sua ajuda.
— Em quê?
— Essa historia do desaparecimento de Rosy, a filha de Potter, parece-me cada vez mais estranha. Quero visitar o local, ou seja, a cabana onde se praticou o crime, e também o ponto onde viram o seu irmão pela primeira vez.
Sue, que se notava visivelmente não entender a atitude do juiz, deitou uma olhadela a Roy e, em seguida, ergueu-se desafiante.
— Se pensa que...
Mas Bornac interrompeu-a bruscamente: — Deixe-se de parvoíces! — berrou. — Terá de confiar em mim, por mais que lhe pese. E a sua única probabilidade. Essa ou o linchamento.
— Mas eu não quero que...
Bornac aproximou-se dela e inclinou-se para dizer--lhe:
— Ainda não compreendeu? Ben, seu irmão, já está condenado. Qualquer juiz o absolveria, de acordo, talvez por falta de provas. Mas Salinger é quem dita a sentença e, de uma forma ou de outra, será pendurado de uma corda. Para que Salinger tenha as mãos atadas, é necessário que se demonstre com toda a espécie de provas a inocência de Ben e, evidentemente, a culpabilidade de Tony. Compreende agora?
Ela não respondeu. Por força a sua intuição feninhinha lhe descobriria a poderosa atracão que exercia sobre o juiz, mas não conseguia perceber com clareza as suas intenções, visto ele nada lhe pedir.
Roy interveio naquele momento.
— Juiz, estou pronto a acompanha-lo a cabana de Potter. não fica muito longe daqui.
Em silencio, a jovem viu-os sair. La fora encontravam-se ainda os homens de Salinger que tinham ido a quebrada na companhia de Tony. Entre eles, viam-se os dois gorilas da noite anterior.
— Que fazemos deles, Roy? — perguntou o jovem do cabelo cortado as tesouradas.
Roy olhou para Bornac e este respondeu:
— Atem-nos em cadeia e dois de vocês conduzam--nos a pé até a cidade. O passeio acalma-los-á durante uma temporada.
— Ouviram, rapazes? — indagou o anão com petulância. — Em marcha!
Por seu turno, uma vez que o juiz e ele já se encontravam a cavalo — um dos quais emprestado para o efeito por um dos companheiros apontou para o fundo da quebrada, e os dois animais trotaram durante meia hora.
Atalharam por um desfiladeiro coberto de altos pinheiros e de abetos, em cujo centro se divisava o serpentear de um arroio.
Subiram por uma das encostas, desceram um grupo de rochas, com moitas de mimosas entre elas, e empreenderam a descida da encosta de outro desfiladeiro ainda maior do que o primeiro.
— Aquela é a cabana de Potter — apontou Roy para um lugar coberto de arvores. — Era um tipo esquisito o velho. Contava-se que foi mineiro em Nevada.
— E vivia aqui sozinho com a filha?
— Sim. Na realidade, Rosy, como acontece com Sue, podia fazer as mesmas coisas que qualquer homem, ou ainda melhor. Sabia manejar todo o género de armas, montar a cavalo e seguir uma pista. Em pequenos, elas duas e Ben eram inseparáveis, e conheciam estas paragens como as palmas das suas mãos.
Aproximaram-se do sitio indicado pelo baixote. Assemelhava-se a uma plataforma rochosa, muito ampla, ao fundo da qual se erguia a cabana, feita de troncos por aparelhar.
Sem dúvida, tratava-se de um lugar agreste, de selvagem beleza. O juiz e Roy atravessaram o pequeno terreiro que se estendia diante da tosca vivenda e penetraram nesta.
— Potter estava estendido aqui dentro, com a cabeça desfeita.
Os olhos do juiz percorreram todos os cantos do aposento. Os objetos e os móveis que continha encontravam--se em ordem.
— Isto achava-se assim ou arranjaram-no depois? —interessou-se.
— Não. Ninguém lhe tocou.
— E o quarto de Rosa?
Passaram a ele. Era uma divisão mais reduzida, onde se combinavam certos elementos modernos com os da mais pura vida selvagem. Peles de animais, castores e lontras, cobriam o leito e as paredes; como cabides, viam-se penduradas cabeças de veados, iguais às existentes na sala principal. E tudo como se acabasse de ser arrumado, embora houvesse pó sobre as coisas, o que provava a ausência dos moradores.
— A ideia acerca de como se praticou o crime —comentou Roy, que assumira o papel de informador —, é que Ben entrou bêbado na cabana e se meteu pela certa com Rosy, que encontrou sozinha. Então, a rapariga fugiu de casa. Foi nesse momento que chegou o velho e que Ben o golpeou, matando-o. Depois, saiu à procura dela e suspeita-se que deve tê-la encontrado e assassinado também. Por isso tinha o seu lenço. Deixou o corpo em qualquer parte do monte e os abutres e os corvos devoraram-no.
— Sim, talvez. Mas é surpreendente que um bêbado não tenha atirado ao chão nem um tacho. Quanto a Rosa...
O juiz cravou os olhos num ponto do quarto, no toucador. Havia um pormenor ali que lhe parecia incongruente, embora não soubesse qual. De repente caiu em si.
Aquele móvel, o tabuleiro superior especialmente, tinha pó como os demais, mas nalguns pontos notavam-se espaços limpos, redondos.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BIS135.7 A Justiça é dura e não pode abrandar com prantos

O moço do «Chaparral» foi ao seu encontro com maior pesar do que no dia anterior.
— Espera-o uma senhora no seu quarto, juiz — informou.
Bornac vibrou como se fosse submetido a uma descarga. Esperava ver-se por algum tempo livre daquele pesadelo.
No entanto, era preciso enfrentar também isso, pois estava convencido de que a mulher não podia ser outra senão May Zender; que soubera do seu paradeiro e voltava a carga.
Com efeito, era ela.
Vestia como sempre, de escuro, e as suas olheiras tinham aumentado. O seu aspeto patético perturbou o juiz.
— Não me censures por ter vindo — declarou. -- Tinha de vir.
— Disse-te que...
— Bem sei, bem sei. Mas não quer deixar-nos. Está aqui, Mo.
— Aqui? Na cidade?
— Sim. Quer estar certo de que não falaras, de que cumprirás o teu compromisso como ate agora. não sei quem o informou de que isto pode ser um assunto de muito dinheiro.
— Sim…
Bornac mergulhou em profundo mutismo. Sabia que ela espiava os seus gestos e converteu o rosto numa mascara de impassibilidade.
Tinham-no bem preso. Durante alguns minutos, o juiz experimentou a tortura mais espantosa. Compreendia que a sua atitude acarretaria a desgraça mais irreparável para algumas pessoas, inclusivamente para si.
— May, lamento. Desta vez chegámos ao fim.
Bornac contemplou-a em silencio durante segundos e confrangeu-se ao verificar a mudança que se operara nela. Quando a conhecera, era uma mulher formosa, atraente, cheia de vitalidade. Mas a vida tratara-a com muita dureza e por fim amarrara-a a um monstruoso cepo que lhe mordia a came e a desagregava pouco a pouco.
— Neste caso não atuarei como sempre, May — declarou o seu pesar. — Não posso. Não haverá dinheiro. Nem sequer posso garantir-te que consiga salvar a minha pele.
May retrocedeu ate chocar com o lavatório. Tinha os olhos muito abertos e os lábios trémulos.
— Mas, Mo, isso é... Tu sabes o que isso significa!
— Sim, mas não me importo. Procurarei esse homem, May. Falarei com ele e dar-lhe-ei a entender que não pode esperar mais nada, E quase certo que então...
A bailarina correu para o seu lado, com o rosto branco e convulso.
— Nao, não facas isso! Não tens o direito de fazê-lo!
— Porquê? Já o devia ter feito há muito tempo, May. Sempre me impediste. Esta situação é intolerável.
Estava furioso e afastou os braços que a mulher lhe tinha deitado ao pescoço.
— Não compreendes? Somos vitimas de uma fraude
May continuava desvairada e tremia dos pés à cabeça.
— Uma fraude?
Bornac parou diante dela.
— Assim mesmo. Ameaça-nos com uma coisa que não se atreveria a realizar, porque não haveria recanto da terra onde pudesse esconder-se para escapar as consequências do seu ato.
— E meu filho, Mo! E teu também.
Sempre aquele grito que o paralisava, que o levara a prostituir a sua função e a converter-se na personagem mais miserável do Oeste; num juiz subornável.
Conhecera May ao concluir os seus estudos e casara com ela. Mas durou pouco tempo a sua felicidade. A bailarina não estava habituada a uma vida tranquila e um belo dia levantou voo e partiu.
Procurou-a inutilmente, ate que a encontrou anos depois em Flagstaff. Soube que era pai de um menino; mas também soube outras coisas. Aquele fruto da sua came estava em poder do companheiro de May, um tipo repugnante que a obrigava dessa forma a servi-lo nas suas malfeitorias.
 O juiz pôde verificar a veracidade de quanto ela lhe disse, pois falou mesmo com os proprietários da granja onde tivera lugar o nascimento. E começou a sangria. O encontro com a mulher foi um golpe doloroso, mas não o maior. Esse vibraram-lho a seguir, ao considerarem-no a presa ideal para o chantagista
Deu-se o incendio. E a sua primeira concessão vergonhosa a injustiça. Hesitou muito, mas acabou por ceder, para não correr o risco de lhe matarem o filho. A seguir, começou a descer a encosta: cada julgamento uma venda. E a presença da mulher que o seguia para toda a parte, com as suas lagrimas, as suas suplicas.
— Repito que lamento, May. Mas não posso faze nada. Fui cobarde naquela ocasião, não medi bem alcance do que ia realizar, mas não estou disposto prosseguir.
— Matá-lo-á, bem sabes que o matará. O juiz contraiu os maxilares com força e cerrou os punhos.
— Talvez tenhas razão. Mas quem nos garante que algum dia o deixara livre? Juro-te, porem, que pensara muito antes de cometer semelhante crime. Falarei com ele, May. Esta decidido.
Não tinha outro remédio senão o de ser cruel. Bern percebia que o caso era diferente para os dois. Ela não atendia as suas razões, não lhe importavam, apenas queria, considerar o facto de que o filho ia sofrer.
«Mas a Justiça é dura e não pode abrandar-se com prantos».
Viu-a sair, rígida, pálida, com as feições alteradas. Então, Bornac procedeu a um rápido exame dos seus revolveres. Pressentia que teria de utiliza-los dentro em pouco.
Encheu as algibeiras de balas e desceu ao salão, onde comeu um ligeiro almoço.
Terminava-o quando ouviu vozes a porta do estabelecimento. A menção do seu nome pô-lo alerta. Seguido pelo desolado olhar do mogo e pelos comentários de vários comensais, atravessou a sala e transpôs a porta.
Confirmou a sua impressão auditiva. O individuo que gritava era o seu velho conhecido Roy, o pequeno amigo de Sue. Atras dele encontrava-se um homem com o dobro do seu tamanho em comprimento e largura.
— É assim que vocês sabem proceder, malditos cães piolhosos! — vociferava o anão. Estou certo de que foi o juiz quem os mandou deter Sue.
— Cala a boca, Roy — ameaçou-o o seu antagonista, com voz aguda, quase infantil. — E põe-te ao fresco se não queres que...
Mas Roy retesava com temeridade a sua fraca figura. Pulou como se lhe tivessem rebentado aos pés uns petardos e puxou dos revolveres. Mas não pôde tirá-los de todo; o seu corpulento inimigo apontava-lhe já o enorme «Colt» negro que sacara do seu flanco direito.
— Afasta-te, Roy — insistiu. E dá graças por eu não gostar de devorar homenzinhos de manhã cedo.
Roy não parecia resolvido a largar as armas. O juiz deu duas passadas e aproximou-se do alto.
— Que hist6ria é essa de terem prendido Sue? — perguntou.
Roy descontraiu-se e renunciou a servir-se dos revólveres. O seu rosto de macaco arrepanhou-se até agrupar as sardas numa só. O pistoleiro também meteu a arma no coldre e voltou-se para olhar o juiz.
— Não se meta nisto, Bornac.
— Quem é você para decidir essa questão?
— Não finja, juiz! — berrou Roy, que, apesar de tudo, não se dispunha a renunciar a sua belicosidade. — Você está alugado pelo porco do Salinger e sabe muito bem o que fizeram. E quanto a esse monte de esterco que tem ao lado, o seu nome é Durry Bolh, mas conhecem-no mais por «Seis Dedos». Não reparou na sua mão direita?
Com que então «Seis Dedos»! Desde os tempos de Billy o «Miúdo» que não se falava de um «gun-man» que tivesse a seu crédito tantos encontros resolvidos sempre a seu favor.
O juiz observou o singular defeito que lhe valera o apodo.
— Vejo que Salinger adquire para o seu serviço o melhor que existe — comentou. — Mas quem lhe disse que não sou parte na questão?
Durry efetuou um movimento de rotação e plantou--se diante dele, com as pernas ligeiramente entreabertas.
— O senhor é o juiz. Nada mais. E atuará no tribunal.
— Engana-se. Parece-me que o mais digno representante da Justiça popular não tem muito interesse em esclarecer os factos. Eu assumo essa responsabilidade. Ouvi falar, «Seis Dedos», que você não se presta a turvos manejos. Por que procede assim nesta ocasião?
O calmo rosto do «gun-man» não mudou de expressão. Era uma cara lisa, sem barba, onde a única cor provinha dos olhos negros, redondos, de pássaro...
— Eu não entro no assunto. Mas essa garota dos Kunetzky já tentou uma vez impedir que o senhor viesse aqui e que o julgamento se realizasse. Salinger não quer que isso tome a suceder.
— E mandou os seus homens prende-la, hem? Roy interveio de novo. Entretanto, tinham-se aproximado algumas pessoas e do restaurante saíram outras.
No grupo, Bornac distinguiu vários indivíduos que lhe pareceram assalariados de Salinger.
— Esta manhã apresentou-se na quebrada esse porco do Tony Salinger com meia dezena dos seus! E toda a gente sabe de que é capaz esse marrão quando tem uma mulher ao seu alcance.
— Falas demasiado, Roy! E eu não gostaria de obrigar-te a calar.
Apoderara-se do juiz enorme excitação ao ouvir as palavras do pequenote. Sue Kunetzky à mercê de Tony Salinger! Pelo menos, podia estar certo de que a incomodaria, se não tentasse algo pior.
— Isso é verdade, «Seis Dedos»? Tony Salinger está com Sue Kunetzky? E você consentiu semelhante coisa?
O pistoleiro fez um gesto de desgosto. Notava-se que não estava contente com o seu papel, mas que desejava ser fiel ao homem que o contratara.
— Por que pensa que tem de ser necessariamente mau? Se Tony Salinger...
— Isso não serve. Qualquer homem pode castigar uma ofensa, mas é mais importante impedi-la.
Deu um passo para afastar-se. «Seis Dedos» gritou:
— Não se mexa, juiz! Tenho ordem de obriga-lo a esperar que se realize o julgamento.
Aquela era a resposta de Salinger ao seu repto. Bornac fez um gesto que parecia de renúncia.
— Nesse caso...
Mas de súbito girou como um planeta louco e descarregou um furioso murro no queixo do «gun-man». Sentiu tremer o solo. O monólito humano que se lhe opunha separou-se da terra e foi cair algumas jardas mais além, levantando uma nuvem de pó.
Por efeito da pancada, o chapéu e os revólveres caíram-lhe, mas apesar disso logo ergueu a cabeça e dispôs-se a repelir a agressão. Contudo, Bornac não lhe permitiu que fizesse brilhar as suas habilidades.
Assestou-lhe um pontapé com a bota direita e estendeu-o definitivamente no solo.
— Vamos! — ordenou, dirigindo-se a Roy, que presenciara tudo de boca aberta. — Tem o seu cavalo aqui perto?
O pequeno saiu da sua imobilidade e correu por entre, a assistência.
— Siga-me, juiz.
Bornac foi atrás dele. Naquele momento reparou em May que o fitava com curiosidade, confundida entre a, multidão.
Isso esfriou-lhe o entusiasmo, recordando-lhe o problema que tinha de resolver. não podia exteriorizar os:' sentimentos que o tinham feito arder ao imaginar Sue em poder do galanteador rebento dos Salinger.
Porque se procedesse assim, não seria justo. E ele propusera-se sê-lo ate ao limite das suas forças.
— Aqui está «Raw», juiz. não faça caso do nome; pode com os dois.
— Terá de prova-lo.
Saltou para a sela com agilidade e Roy sentou-se na garupa. O cavalo, bicho nervoso como um aspirante à mão de uma princesa, fez uma cabriola e arremeteu contra os que enchiam a calçada.
— Que me esfolem se o entendo, juiz — declarou. Roy. — Sabe que «Seis Dedos» atira uma moeda ao ar, atravessa-a com um tiro e ainda lhe sobra tempo para repor a bala e meter a arma no coldre?
— E você também não sabia isso?
— Bom, sim...
Calou-se porque vertiginosamente produziram-se vários acontecimentos. A uma indicação sua, tinham tomado o caminho do norte. Os homens e as mulheres dispersaram.
Mas houve quem não se conformasse. Um vaqueiro do rancho «Campana» colocou-se no meio da rua e puxou da arma com velocidade extraordinária.
— Quieto, juiz! — preveniu. — Pare!
Bornac esticou as rédeas e o cavalo empinou-se. Ao mesmo tempo, uma cuspidela vermelha partiu do flanco do juiz. O vaqueiro levou a mão ao ombro direito, girou como um pião, acabou por chocar contra um poste e ficou sentado em terra.
— Demónios! Parece que nunca mais se vê livre de sarilhos, juiz.
Bornac não respondeu. Esporeou a montada e esta empreendeu um brioso galope.
Mas ainda não estava livre; ainda lhe seria necessário lutar muito. Todavia, o juiz estava decidido a dar batalha pela Justiça. O seu principal inimigo, sem dúvida, era ele mesmo. Porque ainda que o cérebro quisesse impor-se-lhe, não era a razão que o guiava para a cabana dos Kunetzky, mas outro sentimento que já era inútil negar que se apoderara de si. Estava apaixonado pela loura Sue; tao apaixonado como um doente pode estar pela vida.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

BIS135.6 Justiça, a coisa mais solitária deste Mundo

Salinger contemplou o seu hospede corn extraordinária atenção. Estava habituado a tratar corn Coda a espécie de homens e sabia que do estudo das diferentes naturezas e caracteres dependia o êxito da sua empresa.
Mas não conseguia classificar o juiz Bornac. Ou a sua ideia acerca da venalidade estava errada ou o alto sujeito •que tinha diante de si representava um tipo de homem totalmente oposto.
— Deve compreender, juiz, que não pretendo um julgamento falso. Apenas procuro defender o meu filho da imputação desse crime.
Bornac arqueou ligeiramente as sobrancelhas.
— Macacos me mordam se o entendo — confessou. — Prenderam Ben Kunetzky como autor da morte do velho Potter e do rapto da filha; as provas parecem concludentes. Porque, então, esse medo?
Salinger corou, não de perturbação, mas de raiva.
— Se falar corn a gente desta cidade, compreendera o que temo. 0 meu filho é...
Hesitou, e o juiz simpatizou corn aquele rude vaqueiro, cujo descendente tao pouco se parecia corn ele.
Porque também o juiz se equivocara a respeito do individuo que o mandara buscar. Bastava ver aqueles traços enérgicos, marcados pelo constante batalhar contra a natureza e os homens, para afastar a hipótese de tratar-se de um embusteiro profissional, de um trampolineiro capaz de valer-se de intermediário para conseguir os seus fins.
— Tony gosta muito de raparigas e as vezes excede--se — acabou por revelar Salinger. — Isso criou-lhe ma reputação. Por outro lado, dedicou as suas atenções a Rosa Potter... Compreende? Se não se provar, com toda a espécie de pronunciamentos favoráveis, que foi Ben quem assassinou o velho, o povo acreditara ter sido Tony o autor da façanha.
Bornac ficou um tanto perplexo.
— E pensa que um julgamento realizado em tais condições poderá mudar essa opinião?
0 rancheiro meneou vigorosamente a sua quadrada cabeça.
— Não me entendeu, juiz. As razoes morais não me interessam para nada; o que pretendo é que Tony não possa ser acusado «oficialmente» desse crime. E para isso preciso que Ben Kunetzky seja pendurado na ponta de uma corda.
Bornac estremeceu perante a brutal franqueza do set interlocutor.
— E se se demonstra que ele não cometeu o crime, também quer que o pendurem numa corda?
Os olhos dos dois homens chocaram-se como espada no ar. Salinger comprimiu os lábios ate formarem uma linha quase invisível.
— Exatamente, se não houver outro remedio. Essa a razão por que o mandei vir.
O juiz sabia-o; mas ouvi-lo corn tamanha clareza causou-lhe o efeito de uma purga. 0 sabor acido, sulfuroso, daquelas palavras levou-o a outra conclusão, que alias • já imaginara ter descoberto na noite anterior.
Nao estava disposto a secundar os pianos de Salinger; faria justiça. Uma justiça que o levaria adiante de si, confundido num monte de lixo. Mas isso já não lhe interessava.
Levantou-se corn calma, corn o rosto tenso e as pálpebras semicerradas.
— Vai apanhar uma desilusão, Salinger — declarou, sublinhando as palavras. — Presidirei ao tribunal, e far-se-á justiça. não contra Ben Kunetzky, mas sim contra o assassino de Potter.
Salinger ficou uns segundos imóvel. Depois, exalou um suspiro e sorriu.
— já esperava isso — disse o que só demonstra que é mau jogar corn as cartas marcadas. Pensou bem, juiz?
— Sim.
O rancheiro pôs-se em pe. Chegava-lhe ao ombro corn a cabeça, mas era ele quem dominava no gabinete onde se encontravam. A sua maciça figura, o seu queixo proeminente, os olhos castanhos rodeados de pálpebras duras, quase sem pestanas, e o cabelo grisalho, liso, completavam a estampa mais genuína do Oeste legendário, do homem forte que domina a terra e a vontade dos outros.
Mas ali estava procurando subornar a Justiça para que um produto do seu próprio sangue não sofresse o castigo a que, seguramente, fizera jus.
— Tenho muito poder, juiz — declarou corn voz rouca e o senhor não é pessoa por quem qualquer se sacrifique.
— Bem sei. Cada um conhece as suas fraquezas. Apesar de tudo, por mais que lhe pese, eu julgarei Ben Kunetzky. E se verificar que não cometeu o crime, essa será a sentença que ditarei.
Dito isto, deu meia-volta e encaminhou-se para a porta. Atravessou um salão sem encontrar mais ninguém alem de um negro que procedia a limpeza e, ao transpor a varanda alpendrada, a luz viva do sol feriu-lhe as retinas.
Olhou a sua volta e reparou num homem que prendia o cavalo a um poste e dirigia a seguir os seus passos para a casa. Qualquer coisa no seu porte e na sua maneira de andar obrigou a mem6ria do juiz a passar as fichas do seu arquivo mental.
Juraria que o homem não lhe era desconhecido, mas não conseguia recordar-se onde já o vira. Encolheu os ombros e partiu.
A sua ideia era interrogar o prisioneiro. Aquele contacto parecia-lhe indispensável.
Percorreu a rua principal sem pressa, pelo meio da calçada, corn a vista cravada no horizonte, embora na realidade perfeitamente atento ao que se passava a sua volta.
Sentia-se meio alegre e meio triste. A decisão que tomara ia pôr à prova todos os seus recursos. Não queria enganar-se. A partir daquele momento seria a peça cobiçada de ambos os bandos.
Salinger tentaria por todos os meios forçar-lhe a mão no caso do julgamento, e não seria inimigo de desprezar. Quanto a Sue Kunetzky e aos seus amigos, também não lhe dariam quartel.
Deteve o seu passeio em frente do escritório do xerife e entrou.
Danielson ergueu a cabeçorra, coroada de cabelos brancos, e perscrutou corn os seus claros olhos azuis o visitante.
— Juiz Bornac, não é verdade?
Soergueu-se do cadeirão e estendeu a destra. Bornac apertou-lha corn força. Logo à primeira vista se sentiu atraído por aquela cara franca, sem malicia.
— Um cigarro? — ofereceu o xerife, que retomou o seu lugar atrás da secretaria.
0 juiz recusou corn um gesto e registou ligeiramente corn o olhar o interior do aposento. Uma sala ampla, corn um par de armários onde se viam carabinas corn meio seculo e uma bailarina exibindo as pernas numa versão americana do «can-can».
— Xerife, quero que me fale deste caso. Você encontrou Ben Kunetzky depois de descobrir o velho Potter assassinado?
— Não foi exatamente assim. Ben foi encontrado primeiro. Quase sempre, depois de uma bebedeira, aparecia nos sítios mais inesperados e sem se lembrar de nada do que fizera. Naquele dia, um vaqueiro chamado John Forbes, que passeava nas imediações da cabana de Potter, viu aparecer Ben, cujo aspeto lhe chamou a atenção. Tinha manchas de sangue na camisa e o ar de quem foge de qualquer coisa.
— Compreendo. Dizem que foi encontrado em seu poder um lengo de Rosy. não sabem nada desta?
— Nao. Desapareceu sem deixar rasto. E isso é o mais estranho.
— Bern. Posso ver o detido?
Danielson recostou-se e chupou corn forca o cigarro.
— Naturalmente. Tem o direito disso. Depois conhecerá o delegado e o defensor.
Levantou-se e guiou o juiz por um comprido corredor em cujo extremo ficavam as celas. Deteve-se diante das grades de uma.
— Aqui o tem.
Mas não esboçou o gesto de franquear-lhe a entrada. No seu semblante refletia-se a indecisão.
— Que tem, xerife?
— Juiz — decidiu-se Danielson —, é meu dever preveni-lo de que tudo quanto se relacione com este julgamento não esta claro. Existem pessoas, que o senhor deve conhecer, muito interessadas em que Ben seja pendurado pelo pescoço. Outras, pelo contrario, trabalham para liberta-lo.
— Estou informado, xerife.
— Sim, mas também ignora, decerto, que Salinger recusou o juiz Hamilton. Depois, foi ele quem mencionou o seu nome... E isso não me agrada.
Os músculos de Bornac converteram-se em barras de aço. Suportou o olhar investigador de Danielson e indagou:
— Porquê?
— Correm muitos rumores a respeito de si, juiz, não quero mentir-lhe. Talvez sejam infundados; mas repito que não me agradam. 0 delegado a amigo de Salinger, facto que não tem nada de estranho, porque é o dono de quase toda a cidade e raros são os habitantes daqui que não te devem alguma coisa. Quanto ao advogado, Melden, é o dono do armazém e das cavalariças do fim da rua, não é mau homem, mas tem miolos de mosquito.
Imprimiu ao resto da sua informação um tom pouco habitual.
— Resta o senhor, juiz, para ser imparcial, visto o júri dançar ao som da música que lhe tocarem. Confio que o senhor seja imparcial.
Bornac esteve tentado a manda-lo... a qualquer parte, mas conteve-se. Corn os seus antecedentes, era logico que não se fiassem no seu procedimento.
Danielson meteu uma grande chave na fechadura e deu-lhe volta. 0 juiz examinou corn curiosidade o detido que jazia deitado no catre e fumava um cigarro. não se moveu quando os dois homens entraram no recinto engradado.
— Este é o juiz Bornac, Ben. Quer falar contigo.
— Olá, juiz.
Era um jovem de mediana estatura, esbelto, de ombros talvez um pouco estreitos, rosto afilado, pálido, no qual brilhavam uns grandes olhos negros. Parecia-se vagamente com a irmã, se bem que diferisse dela em tudo o mais.
Era difícil catalogá-lo no primeiro momento. No entanto, o seu queixo frágil, o seu corpo franzino, assim como toda a sua aparência nervosa, sensível, não eram próprios de um meio como aquele do Mogollon.
Bornac puxou um banco redondo que se encontrava a um canto e sentou-se. 0 xerife colocou-se junto da porta.
— Rapaz — começou o juiz estas em maus lençóis. Dentro de poucos dias realiza-se o teu julgamento e o mais certo é que tenhas de dar uma grande salto... Tudo parece indicar que assassinaste Potter. Foste tu?
Ben não se dignou responder. Continuou de olhos postos no tecto, expelindo fumo e corn a intenção de formar argolas perfeitas. Bornac endireitou a sua alta estatura e afastou o banco corn um pontapé.
— Está bem. Talvez não te apercebas cabalmente da tua situação, ou penes que vai acontecer qualquer coisa que te restitua a liberdade. Lamento desenganar-te, Ben. Se não se descobrirem novas elementos, não restar outro remedio senão condenar-te. Por que não dizes a verdade?
0 rapaz ergueu-se e cravou os olhos ardentes em Bornac.
— Que verdade? Se soubesse quem matou Potter di-lo-ia; mas não sei. Entende? não me lembro de nada do que se passou naquela noite, exceto que vi o corpo de Potter corn a cabeça desfeita. Nisso terminam todas as minhas recordações.
Retorcia as mãos corn desespero.
— Alguém podia saber que me encontrava embriagado e aproveitar a conjuntura para cometer o crime.
— E de Rosa, que sabes?
As faces delicadas de Ben crisparam-se.
— Que quer dizer? 0 inferno me trague se fago ideia de onde possa encontrar-se ou do que lhe aconteceu.
Bornac permaneceu uns instantes em atitude reflexiva.
— Bern, o facto de, depois de uma borracheira, perderes a memoria, talvez não seja um bom truque. Podias cometer o crime e escudares-te nisso...
— Bom, pois se o cometi não me lembro. Juro-lhe que não me lembro, juiz! não faço outra coisa senão pensar nisso. Como diabo quer que o saiba o que sucedeu? E horrível perder assim a memoria das coisas...
O irmão de Sue exprimia-se corn autentica angustia. Bornac virou a cabeça para captar a reação do xerife.
O representante da Lei em Marte tinha claramente refletido no semblante o que pensava daquilo.
— Está bem, rapaz — disse. — Acalma-te. Faremos o possível por preencher as lacunas da tua memoria.
Ben ficou-se a olha-los corn uma luz nas pupilas, de animal encurralado.
— Obrigado, xerife — murmurou. — Por favor,. diga a minha irmã que não se esqueça de mandar-me uma camisa limpa.
— Descansa.
Saíram corn a penosa impressão de serem cúmplices de uma iniquidade.
De novo no escritório, Danielson encarou Bornac e disparou-lhe:
— Poria a minha mão direita no fogo se esse rapaz fosse culpado. Que pensa o senhor, juiz?
O interpelado respondeu cautelosamente:
— Nunca aposto nem sequer os botões do meu fato por um delinquente... ou presumível delinquente. Contudo, o jovem Kunetzky parecia ser sincero. Mas não nos disse que não praticou o crime; apenas que não se recorda...
Danielsen bufou como se um pele-vermelha lhe tivesse cravado em certo sitio uma flecha incendiada.
— Juiz, lembro-lhe que o julgamento terá uma testemunha excecional — declarou de dentes cerrados.
— Penso assistir e seguir passo a passo quanto acontecer. E se verificar que o senhor aceita o veredicto de um júri composto por homens amigos de Salinger e que Ben Kunetzky é um condenado a forca, pode levar os seus revólveres para o tribunal porque Id lhe serão precisos.
0 olhar frio de Bornac pareceu trespassa-lo.
— Isso é muito razoável, xerife — declarou. — Mas, se pensar bem, compreendera que o senhor também tenta subornar-me a seu modo.
Deixou Danielson corn um ar de assombro no seu rosto corado e saiu para a rua.
Um ácido sorriso arrepanhava-lhe os lábios. A sua situação não podia ser menos brilhante. Em cerca de doze horas conseguira virar contra si todos os cidadãos, daquela terra.
Quer condenasse, quer absolvesse Ben Kunetzky, a sua própria causa estava perdida. Nem um amigo.
Decididamente, «a Justiça era a coisa mais solitária deste mundo».

terça-feira, 11 de julho de 2017

BIS135.5 No reino do percevejo

Bornac fez parar o alazão ao chegar ao cimo da rua. Um letreiro iluminado por uma lanternita atraiu a sua atenção: «Chaparral». Era um restaurante e o cheiro a molhos e especiarias que se escapava através da porta denunciava a sua condição mexicana.
À direita, havia outra casa de teto mais baixo e com toda a aparência de ser um anexo. Com um pouco de sorte, talvez lhe alugassem um quarto para dormir.
Por todos as razões, preferia a companhia dos mexicanos à de qualquer outro cidadão de Marte. Sem dúvida os descendentes dos astecas e dos toltecas manter-se-iam alheios ao conflito que agitava a cidade.
Desceu, pois, da sela e entrou no estabelecimento. Havia um salão em forma de L, e na parte interior da letra erguia-se o balcão e, atrás dele, a cozinha e demais dependências.
Várias mesas com toalhinhas aos quadrados, luz pobre que mal disfarçava as marcas das moscas, e gordura e pó nos interstícios em quantidade suficiente para construir uma pirâmide.
Cerca de uma dezena de pessoas se encontravam ali naquele momento. Mexicanos e alguns amarelos.
Bornac encaminhou-se para um canto, ocupou um banco e estendeu as compridas pernas por baixo da mesa. Tirou o chapéu, que colocou atrás de si, no chão, e transmitiu com a vista uma mensagem ao moço.
Este era um tipo taciturno, de faces chupadas, grandes bigodes e olhos encovados, de expressão triste. Contemplou sem nenhum entusiasmo o juiz, que lhe encomendou uma omeleta de feijão e um guisado de carne com batatas.
Notava-se imediatamente a diferença entre aquela gente e os naturais do país. Os comensais do «Chaparral» não perdiam de vista o novo cliente e seguiam todos o seus gestos com descarada atenção.
Bornac acabou de jantar e recostou-se contra a parede a enrolar um cigarro. Através das volutas de fumo examinou o salão e os homens e as mulheres que o observavam com ar de papalvos.
Um sentimento de amargura o foi invadindo. Apercebia-se de que para eles representava, com o seu severo trajo negro, o seu aspeto duro e ascético, o mais genuína símbolo da Justiça.
E tinha de ser-lhe muito desagradável pensar que escarnecia da sua nobre função, que alugava a sua consciência a quem mais desse. Com brusca decisão, pôs-se em pé e abordou o moço que teve um sobressalto ao vê-lo tão perto.
— Preciso de um quarto para mim e que me tratar do cavalo.
— Há percevejos.
— Tenho revólveres.
— Bom. Dois dólares.
O negócio concluíra-se com fulminante rapidez. Bornac esperou que o empregado lhe entregasse a chave do quarto, enquanto um pensamento lhe brincava na cabeça. Recordava a soberba figura de Sue Kunetzky. Não seria mau oferecer-lhe a
salvação do irmão. Talvez ela lha agradecesse...
Ao reparar na vilania daquele pensamento, Bornac sentiu revolverem-se-lhe as entranhas. Era o ponto mais baixo a que podia chegar e quis saborear até ao fim a sua degradação.
Sim, sem dúvida a valente rapariga não hesitaria em arriscar também aquilo, para que o irmãozinho furtasse o pescoço ao nó corrediço. E ele podia fazê-lo. Um ardor intolerável entreabriu-lhe todos os poros da pele. Sentiu o corpo tenso e uma corrente elétrica percorrer-lhe os cabelos.
— Aqui tem a chave, senhor.
A voz do criado despertou-o do transe e obrigou-o a olhar desvairado à sua volta. Notou que uma morena, de olhos grandes e aveludadamente negros, lhe sorria. Talvez tivesse descoberto o seu segredo.
— Suba pela escada do fundo. IÉ o quarto número dezoito. Se lhe morderem os percevejos, não se esqueça de que o preveni.
O juiz pegou na peça de metal. Acalmara-se e de novo conservava o domínio dos sentidos. Depois de atirar uma moeda ao homem, dirigiu-se para a esquina do salão.
Logo, porém, se deteve porque alguém acabava de pronunciar o seu nome. Girou lentamente sobre os pés, com as mãos prontas a pegarem nas coronhas dos «Colts».
Três homens haviam transposto a entrada. Três inconfundíveis tipos de pistoleiros, de bandidos do Oeste, embora entre eles se notassem algumas subtis diferenças. Por exemplo, o primeiro, aquele que gritara, era um garoto, galo que ainda não estreara os esporões, com as penas demasiado compostas para não inspirar o desejo de dar-lhe uma lição.
Os seus acompanhantes tinham a aparência de fanfarrões a soldo, tratantes por dever de ofício, mas mais experientes, mais homens. Camisas desbotadas pelo uso, chapéus amolgados e calças reluzentes nas entrepernas, à força de roçarem nas selas de montar.
O franganito, alto, esbelto, de traços finos, envergava camisa verde, jaleco de camurça, calças cinzentas de fina lã, botas de meio cano e chapéu também cinzento, de copa baixa. E trazia uns revólveres de museu, com incrustações de madrepérola nas coronhas.
— Eh, juiz! — repetiu e deu uns passos na sua direção — Sou Tony Salinger e meu pai mandou-me para que o leve à sua presença.
Tinha uma voz sonora, um tanto modulada. Possivelmente, devia ter jeito para o canto. Bornac tirou-lhe as medidas de lutador e julgou-o mais perigoso do que o seu aspeto denotava.
— Não quero ver seu pai esta noite — declarou pausadamente. — Já o disse a Curly, o seu capataz, segundo, creio. Estou cansado e apenas quero dormir.
— Mas meu pai deseja saber o que se passou hoje. Como sabe ,a irmã de Ben Kunetzky chegou à cidade dizendo que o senhor não presidiria ao tribunal que julgará a causa.
— Ela tem o direito de dizer o que quiser. Mas o caso é que estou aqui, não? Verei o seu pai amanhã, Tony.
Naquele momento um dos guarda-costas adiantou-se com passo de gorila. Possuía cara larga, lisa, na qual o tempo, os punhos dos seus inimigos e duas ou três doenças infeciosas se tinham conjugado para formar um quadro muito desagradável.
— Deixa-nos este pássaro rapaz — arrotou.
Tony fez um gesto, recomendando-lhe que se abstivesse de intervir, mas era evidente que não lhe tinham respeito.
— O senhor Salinger quer vê-lo, juiz — insistiu o pistoleiro, empestando o ar com o cheiro do seu bafo — e o senhor virá comigo como um bom menino, hem?
— Os bons meninos não gostam de ser mandados, imbecil — admoestou-o Bornac.
— Armando em valentão, hem?
Estendeu a manápula direita para pegar o juiz pela gola, mas no seu lugar encontrou o vácuo. Girou então, para deter o avanço de lado que realizara Bornac. Mas no seu maxilar, por baixo da orelha, incrustou-se um punho granítico, com a virulência de uma cornada, que o sacudiu da nuca aos porcos dedos dos pés. Por sorte, não teve tempo de queixar-se da perfurante dor; outro murro no esterno produziu-lhe o efeito , de o partirem em dois.
O seu companheiro inclinou-se para diante e aqueceu com as mãos os extremos salientes das armas. Mas conteve-se ao ver-se vigiado pelo acerado olho -do revólver direito do juiz.
Tony deixou ouvir uma gargalhada que soou tão bem quanto o desgosto do rapaz pôde conseguir. –
— Bravo, juiz! Não fazíamos ideia de que manejasse desse modo os punhos e revólveres.
— Regozijo-me então por lhes ter dado oportunidade de verificarem. Alguns idiotas não tiveram ocasião...
Devolveu o «Colt» ao seu coldre. O tipo que surrara estava sentado no solo e sacudia a cabeça para afastar os besouros do aturdimento.
— Amanhã irei ver o seu pai, Tony. Agora, retire-se com as suas amas-secas.
Tony, que continuava a manter os dentes à mostra num heroico sorriso, quis resistir à acerada navalhada dos olhos do juiz, mas havia neles tal expressão de desprezo pela sua integridade física que q jovem se encolheu como uma nota entre os dedos de um avarento. Deu
meia-volta e afastou-se.
— Vamos — ordenou aos dois pesos-pesados. --- Levanta-te do chão, Bill.
Ajudou a pôr-se em pé o colosso derrubado e entre ele e o outro arrastaram-no para a saída.
O juiz apoiou o pé no primeiro degrau, a fim de subir para seu quarto, mas voltou-se ao sentir passos precipitados atrás de si.
Desta vez tratava-se do moço.
— Ouça, juiz articulou com ansiedade —, estaria melhor no hotel «Marte». Já lhe disse que...
— Sim, que há percevejos. Bom, não se preocupe tenho a pele curtida e os percevejos que mais me, incomodam são os que caminham sobre duas pernas.
O homem tossiu e retirou-se com celeridade.
Bornac pôde, por fim, subir ao andar de cima e procurar, depois, o quarto que lhe tinham destinado.
Confessou a si mesmo que o encarregado do restaurante não o enganara. Existia uma enorme sujidade nos móveis — um pequeno armário, um lavatório e um catre com enxergão de palha — e se aquele não era o reino da percevejelândia os seus conhecimentos geográficos do reino animal mereciam ser revistos.
Mas a picada de um bichito carecia de importância, comparada com a perspetiva de ter de receber a visita de um amigo de Sue Kunetzky, disposto a impedir o julgamento do seu amigo à custa de abrir-lhe uns tantos buracos na testa.
Trancou a porta com urna cadeira, fechou a janela que dava para os currais e tirou apenas o casaco. A seguir atirou-se sobre a cama.
Mas logo se levantou e arrastou a armação de madeira que constituía a cama para o canto existente entre o lavatório e a janela, a fim de pôr-se a coberto de que o alvejassem de fora.
Acometeu-o um sono profundo que, apesar dos seus esforços para manter-se meio acordado, o arrastou para o poço da inconsciência mais completa. Poderiam deitar a casa abaixo que não daria por nada.
Mas, por ironia do destino, os seus anjos da guarda foram os mesmos que escorraçara com tanta violência quando o convidaram a visitar Salinger.
Bill e a sua alma gémea montaram a vigilância nas imediações do restaurante. O velho rancheiro fora claro e preciso:
— Tragam-mo amanhã são e salvo. Se lhe acontecer alguma coisa, agarrem-se ao rabo de uma serpente voadora para escaparem ao meu castigo.
E Mosy Salinger tinha defeitos, mas entre eles não se contava o hábito de faltar ao cumprimento da palavra dada.
Na verdade, houve também outra pessoa que se preocupou com a segurança do juiz. O xerife Bob Danielson suspeitava que aquele homem concitava sobre a sua tétrica figura os maiores ódios.
Informou-se da sua chegada e de que, pela segunda vez no espaço de poucos dias, se evitara o linchamento do seu prisioneiro. Também o informaram do procedimento de Sue Kunetzky.
Foi visitar a rapariga à cabana que habitava nos arredores. Antes de alcançar a quebrada, paralisou-o um tiro. A bala incrustou-se no tronco de um abeto, a escassas polegadas da sua cabeça.
Dominando o cavalo que se encabritara, Danielson rompeu o ar com o seu vozeirão:
— Eh, Roy, diz a Sue que desejo falar-lhe!
— Deixe cair os revólveres e desça do cavalo.
— Não sejas idiota, rapaz. Sue conhece-me e sabe que não sou capaz de pregar-lhe uma partida.
Voltou a reinar o ambiente sonoro normal rumor de folhagem, os gritos dos mochos e as correrias dos esquilos, em combinação com a fragor da torrente próxima. Ao fim de alguns minutos, a voz de cana rachada do anão ouviu-se a menor distância:
— Está bem, xerife. Mas avance com as mãos sobre o arção.
Rindo-se entre dentes de tantas precauções, Danielson bateu na garupa do seu baio. A pouco e pouco, distinguiu as figuras de Roy e de outro homem que lhe apontava uma carabina.
Sem dizerem palavra acompanharam-no até à habitação dos Kunetzky, uma construção habitual naquelas paragens, com um só telhado para duas casas, entre as quais se abria uma varanda coberta.
Os troncos velhos ameaçavam ruína nalguns pontos, apesar de protegidos por grossas trepadeiras. O luar emprestava à paisagem um encanto especial, fantástico. Sue esperava o xerife à entrada. Os seus claros olhos cinzentos pareciam dois lagos que tivessem aprisionado o mistério, a magia da noite.
— Que deseja, Danielson?
O representante da Lei desmontou e aproximou-se da jovem.
— Sue — a sua voz era severa, mas deixava transparecer uma inevitável simpatia —, estás a portar-te como uma garota. Não te censuro que queiras defender o teu irmão — nisso nos empenhamos todos —, mas não tolero que te batas com esse velho canalha do Salinger e com a sua quadrilha de pistoleiros.
— Nesse caso, que devemos fazer, xerife? Aguardar o julgamento... comprado?
Realmente pusera o dedo na chaga.
— Eu acredito na Justiça, Sue.
— Sim, mas não quando a representa esse juiz.
— Falarei com ele, Sue — prometeu. -- E vou fazer--te uma jura: se o julgamento não for conforme o direito; se Morice Bornac ofender o seu cargo com uma sentença injusta, ou se se demonstrar ter havido parcialidade na forma de apreciar as provas e os depoimentos das testemunhas... tirarei o teu irmão da cadeia e farei frente ao juiz e a Salinger.
Estabeleceu-se uma densa pausa. O xerife acrescentou:
— Mas se atentas contra o juiz ou cometes qualquer ato irreparável, tudo será inútil, Sue. Dar-lhe-ás razão para que procedam como lhes pareça e eu terei, inclusivamente, de ser contra ti. Compreendes?
Aguardou, esperançado. Conhecia bem, a rapariga c sabia que procedia de acordo corn os seus impulsos, de certo modo elementares, mas que, apesar disco, procurava sempre o melhor caminho, o mais recto.
— Compreendo-o, xerife — falou ela, por fim. — E prometo-lhe abster-me de lutar... ate que se, comprove a falsidade desse julgamento. Então, apesar de ser mulher, empregarei todos os meios para devolver a procedência esse maldito representante de Satanás.
E o xerife não apostaria um cabelo do lado contrário.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

BIS135.4 Uma sentença inapelável

Deixaram-no preso à parede por meio de um laço que lhe passava através das mãos, ligadas atrás das costas, e com um raio de cinco jardas para mover-se. O calmeirão, que se chamava Zac, e o quarto em discórdia, que respondia pelo mimoso nome de Puss, ficaram a vigiá-lo.
Bornac argumentara com Sue no sentido de que a sua ação não impediria a celebração do julgamento, e talvez precipitasse outro género de acontecimentos, mas ela mostrara-se inflexível.
Não se fiava nele, como era evidente, e isso incomodava-o de modo especialíssimo, coisa que o deixava atónito. No entanto, admitia que ela contava com boas razões para a sua desconfiança.
Adivinhava, por outro lado, que a jovem tinha em mente levar por diante mais qualquer coisa, secundada pelo incondicional Roy e pelo resto da quadrilha.
Decorreu todo aquele dia. Deram-lhe de comer e, em certas ocasiões, levaram-no lá fora, a fim de cumprir as inexoráveis leis da natureza.
Bornac refletia a todo o vapor. Em qualquer outra circunstância, a sua situação ter-lhe-ia provocado a maior das indignações, mas resignar-se-ia a esperar; naquele caso, porém, urna combustão estranha, desconhecida, originada no seu organismo,' compelia-o a fugir.
Passou revista a todos os procedimentos possíveis desde fingir-se doente a tentar convencer os seus guardas de que era proprietário de um tesouro e que o dividiria com eles. Mas automaticamente afastava-os por inconvenientes. Até que uma ideia lhe fulgurou no cérebro.
Fez sinal para que o levassem lá fora. Zac fitou-o com desconfiança.
— Qual é a sua ideia? — rezingou. — Tenciona passai o dia a entrar e sair?
Ante o gesto expressivo que lhe dirigiu o juiz, resolveu-se a desatar o laço da argola da parede. Segurava firmemente a carabina debaixo do braço e o seu camarada Puss colocou-se de forma que cobria o prisioneiro fosse qual fosse a posição que este tomasse.
Realizada a função para que pedira o soltassem Bornac regressou à furna. O crepúsculo operava a sua prodigiosa transformação em vermelhos e violetas e escuridão invadia rapidamente o buraco. E, justamente no momento de pisar o solo da cova, o juiz deu um salto e puxou o laço com todas as suas forças. Zac qui; retê-lo e foi atrás, ao mesmo tempo que apertava o gatilho, mas sem resultado.
Retumbou a detonação despertando multíplices eco: no interior da montanha. O extremo do laço, solto, açoitou o ar e bateu no candeeiro que espalhava o set resplendor desde o nicho natural em que se encontrava
A sucessão de movimentos que o prisioneiro efetuou seguidamente tê-lo-iam creditado como um consumado acrobata.
Fez-se totalmente escuro, mas sabia onde estava o calmeirão no momento em que se atirou a ele e lhe meteu o joelho por entre as pernas. Com um grito, o homem tombou de costas.
Ao mesmo tempo, o juiz ordenou:
— Quieto, Puss! Farei fogo se te aproximares da porta.
Calculava que o outro não tentaria verificar se aquilo era verdade. Não podia estar certo de que não tivesse soltado as mãos e de que não se encontrasse com a carabina do companheiro nelas. E assim aconteceu. Puss permaneceu no exterior, indeciso sobre se devia ou não servir-se da arma que empunhava, visto poder ferir Zac, e receoso de entrar, não fosse verdade que o fizessem num crivo mal pisasse o risco divisório.
Dominar um homem com as pernas não era empresa fácil, embora o golpe que recebera deixasse Zac muito perto da inconsciência.
Bornac retorceu-se e manejou novamente a corda, que enrolou à volta do pescoço do maltratado sujeito. Sentara-se-lhe sobre o peito e apertava-lhe os costados com os seus ossudos joelhos.
— Ouve, meio homem e meio cão das pradarias — disse em voz baixa, mas tão ameaçadora como o rugido de uma pantera —, garrotar-te-ei até deitares a língua de fora como um trapo sujo, se não fizeres o que vou dizer-te.
Zac agitou-se e arqueou o espinhaço, mas um enérgico esticão dado pelo juiz, que esteve a ponto de sufocá-lo, devolveu-lhe o sentido da realidade, pois a corda que se lhe enrolava ao pescoço era argumento bastante convincente.
Bornac assim lho deu a entender um décimo de segundo mais tarde. Deitou-se para trás e esticou o laço. A cabeça de Zac levantou-se como se fosse impulsionada por uma mola e, por um momento, ele vislumbrou o abismo que se lhe abria diante dos olhos.
Com igual brusquidão foi afrouxada a pressão e ele bateu com a nuca contra a dura capa rochosa.
— Agora vou fazer o seguinte: — declarou Bornac, com o mesmo acento — dobrar-me-ei de forma que possas desatar-me as mãos. Não procures fazer outra coisa, porque te juro que viverias apenas segundos.
Apertou os flancos do infeliz e realizou o difícil exercício. Possivelmente, apenas a escuridão e o aturdimento impediram Zac de notar que era absurdo submeter-se.
Era verdade que existia o perigo de que o estrangulassem, e que não era nenhuma brincadeira sentir os ossos do outro cravados nos seus flancos e com a ameaça de fazer-lhe rebentar os pulmões; mas mesmo assim a sua vantagem era indiscutível.
O facto foi que soltou Bornac, que, ao sentir os braços livres, os estendeu e fletiu um par de vezes. Depois, tirou dos coldres os revólveres da sua vítima c. passou-os para os seus. Afastou-se dele, embora deixando-lhe a corda ao pescoço.
— Vamos, levanta-te! — ordenou.
Em pouco menos de um minuto converteu-o num pacote que arrastou para o fundo da cova. Quanto ao vigilante de fora, pouco cuidado lhe dava. Reconhecia que, de certo modo, os seus inimigos eram uns idiotas sem malícia, praticamente indefesos perante um cão velho como ele.
Imaginou-o postado a um dos lados da porta, com os músculos doridos pelo afã de não ser surpreendido. Para comprová-lo, utilizou a sua sela de montar que tinham depositado a um canto. Isso lhe serviu também para recuperar os seus próprios «Colts».
A sela atravessou sem dificuldade a abertura e foi recebida com um par de disparos que demonstraram a excelente pontaria do inefável Puss e a sua rapidez de reflexos. Mas não evitaram que o juiz se colocasse a seu lado e lhe deixasse cair sobre a cabeça, sem a menor benevolência, a coronha de um dos seus pesados seis tiros.
Bornac recolheu-o nos braços e conduziu-o para junto do camarada. Depois, empenhou-se em romper as trevas, restituindo o. candeeiro ao seu piso.
— Amiguinhos discursou diante dos dois manie-tados vigilantes que o contemplavam com fúria —, para guardar um prisioneiro, o melhor é deixá-lo à solta dentro de um quarto e limitarmo-nos a vigiar a porta e as janelas... de longe.
Não fizeram comentários à sua recomendação, embora os seus olhos transmitissem uma mensagem que bastaria para acender a guerra entre duas nações ligadas pelos tratados de amizade mais estreitos.
As estrelas refulgiam no horizonte, insinuava-se um clarão que pressagiava o aparecimento da Lua, quando o juiz Bornac retomou a sua interrompida viagem para Marte.
Ao fim de algumas horas divisou as luzes da cidade. Deteve «Narcissus» e imobilizou-se em atitude reflexiva. A Lua surgiu naquele momento e recortou a sua figura contra a clara atmosfera.
Todo negro, salientando-se com um fulgor sombrio o seu rosto debaixo do chapéu, representava qualquer coisa de sinistro que se aproximava da povoação.
Ao fim de algum tempo retomou a marcha. Desceu da colina e o cavalo trotou por um caminho pedregoso, mas plano, perfeito para o trânsito de carruagens.
Em breve chegou junto dos primeiros edifícios, uns compridos barracões. Ao passar por diante de um portão, leu uma placa que os declarava «Cavalariças de Melden».
A rua principal era ampla e ladeada de árvores. Apesar de perdido nas montanhas, notava-se ser Marte um lugar próspero. Havia várias casas de dois andares, de sólida construção, e o banco era de pedra, o que não deixava de ser um símbolo. A rua ampliava-se a meio e formava uma espécie de praça, com dois olmos centenários no centro.
Uma multidão comprimia-se então ali. A experimentada vista do juiz em breve descobriu a condição da maioria dos presentes e o motivo que os reunira. Não era para uma festa, estava certo. Alguns dos homens tinham tirado os revólveres e apontavam com eles para urna casa.
Bornac seguiu a direção dos seus gestos e descobriu a fachada do escritório do xerife.
Aos seus ouvidos chegaram as vozes dos iracundos oradores que se distribuíam por entre os grupos.
— ...O juiz foi raptado por Danielson e por essa maldita rapariga dos Kunetzky... — gritava um. A todo o custo querem livrar Ben de converter-se no badalo da «que sempre dá a hora final».
O pitoresco da frase fez com que o juiz examinasse com atenção o indivíduo que a pronunciara. Era um ruivo muito magro, cavernoso, de cara comprida como o focinho de um cavalo e olhos redondos, salientes.
— ...Não esperemos mais — reclamava outro. — Obriguemos o xerife a entregar-nos Ben e façamo-lo dançar na ponta de uma corda.
Sem dúvida procediam por encomenda. De quando em quando, cinco ou seis indivíduos afastavam-se do conjunto e faziam incursões no interior do «saloon» que se abria a um lado da esplanada, regressando pouco depois com maiores mostras de excitação.
Os preparativos do linchamento eram evidentes e a técnica empregada pelos indutores não deixava de ser curiosa.
Mas, de súbito, mudou o ambiente. Por um extremo da praça fizeram a sua aparição vários homens que se confundiam com as sombras daquele lado.
Bornac esforçou-se por identificá-los, mas não o conseguiu. No entanto, quase imediatamente soube quem eram, visto que, dominando o tumulto que faziam os demais debaixo das árvores, se elevou uma rouca, mas cálida voz:
— Eh, Curly, acaba com a brincadeira de uma vez!
Estabeleceu-se o silêncio na massa dos linchadores, e o clarim paralisador insistiu:
— Se algum de vocês der um passo para a prisão, far-lhe-ei voar os miolos.
A advertência foi desobedecida por um tipo de pernas curtas, tórax em quilha e crânio redondo, coberto de cabelos grisalhos. Saltou para diante, brandindo um pistolão, e com a ideia de que ia mudar o curso da história.
Urna descarga do ponto onde Sue e os seus amigos se tinham entrincheirado e aquela insensata partícula do género humano escorregou sobre a resvaladiça soleira da porta do Além, deu um par de voltas no ar, caiu encolhido e distendeu-se ato contínuo para correr de gatas como uma lebre coxa.
O acontecimento produziu uma corrida geral do resto dos cidadãos, que procuraram refúgio nos portais e atrás das árvores. A seguir verificou-se um intercâmbio de tiros e de rápido tombar de corpos.
Do abrigo que lhe ofereciam uns cascos colocados em frente dos uma janela do «saloon», o ruivo que arengava aos marcianos gritou em direção aos contrários:
— És uma louca, Sue! Não poderás impedir que se faça justiça.
E Sue replicou:
— Nem o tento, Curly. Tu e o teu maldito amo é que não quereis que se faça justiça. Ou é Hamilton o juiz... ou será o vosso corpo que penderá de umas cordas.
Um tiro sublinhou o efeito das suas palavras, e o chapéu de Curly voou contra a parede do estabelecimento.
Curly fez então o gosto ao dedo e o seu revólver vomitou toda uma volta de tambor contra as sombras que se lhe opunham. Mas a tal distância as suas balas eram perfeitamente inúteis. O mesmo não acontecia com os fortes estampidos das carabinas que tomavam parte no concerto.
Bornac fustigou o alazão para que avançasse por entre a peleja. E se lhe tivessem perguntado por que praticava semelhante estupidez que poderia custar-lhe a pele por engano, não poderia responder coerentemente.
Mas queria impedir que acertassem na mulher que ousara o mau passo de raptá-lo, pois era tão certo como a noite seguir-se ao dia que a animosa irmã de Ben Kunetzky duraria quando muito um par de horas se continuasse a lutar contra os energúmenos que a enfrentavam.
Os primeiros a vê-lo foram os do bando de Salinger. Um vaqueiro velho começou a gritar:
— É o juiz Bornac, rapazes! Chegou o juiz...!
Ainda atravessaram o espaço alguns pedaços de chumbo, mas a paz acabou por restabelecer-se.
Da sua zona de ocupação emergiram Sue e os seus acólitos. A rapariga, desprezando o perigo, avançou até chegar perto de «Narcissus» e do seu cavaleiro, e os seus grandes olhos cravaram-se com avidez no rosto do homem que julgava fechado num buraco das montanhas.
— Como... como conseguiu...?
Começaram a aproximar-se os fugitivos, e no sector iluminado pelo resplendor procedente do «saloon» surgiram também Roy e vários amigos dos Kunetzky.
— Preveni-a de que não praticasse semelhante tolice — declarou Bornac com secura, olhando para Sue. — Bem vê que tinha razão. Assim, não só não salvará o seu irmão, como ainda exporá o seu próprio pescoço e o daqueles que a ajudam.
— Prefiro isso a que seja o senhor a sentenciar o meu irmão!
Havia um tal desprezo nas suas palavras que Bornac teve de cerrar os dentes para não descer do cavalo e esbofeteá-la... ainda que depois a cobrisse de beijos.
Curly, que se aproximara, perguntou então:
— Que lhe aconteceu, juiz? Esperávamo-lo esta manhã.
Já toda a gente se reunira à sua volta. Isso agradou ao juiz, que sentia irreprimível desejo de cometer uma loucura.
— Vim quando me pareceu melhor — disse. — Que têm com isso?
Curly retrocedeu uns passos e o seu comprido rosto contraiu-se numa careta difícil de interpretar.
— Esta mulher — e apontou com o polegar para Sue — garantiu que você nunca julgaria o seu irmão.
— Bom. Pois bem vê que não acertou.
Então o ruivo mudou de expressão. Deitou uma olhadela aos que se o circundavam e declarou:
— O senhor Salinger quer falar-lhe e espera-o no ser rancho.
Bornac soltou uma gargalhada que teve a virtude de fazer levantar a cabeça do seu cavalo.
— Pois vá dizer a esse Salinger — proferiu com ironia — que procure outro jogador de xadrez para esta noite. Eu vou jantar e dormir.
Deu de esporas e obrigou «Narcissus» a trotar, enquanto Curly saltava para o seu lado, a fim de não ser pisado. E muitos outros seguiram o seu exemplo.
À medida que se afastava deles, Bornac teve a consciência de que ditara a sua própria sentença. Inapelável.