terça-feira, 6 de dezembro de 2016

PAS683. Assalto que degenera em violação e morte

Bruce passou a tarde inteira no sítio onde a linha terminava. Além do irlandês da mão esmagada, havia mais feridos. Os capatazes davam gritos e ordens para acelerar o trabalho e tinham-se produzido alguns acidentes.
Ao anoitecer, Bruce regressou acompanhado de Powers, o engenheiro, e dois capatazes. Quando entrou no seu vagão; já Lotte estava a fazer o jantar.
Bruce deixou a maleta negra sobre uma cadeira e dispunha-se a lavar-se quando a porta se abriu bruscamente e dois homens, com os rostos cobertos com lenços, entraram, empunhando um revólver cada um.
— Não faça disparates, doutor, e nada acontecerá — advertiu secamente um deles.
Lotte encontrava-se junto da mesa e ficou imóvel ao ver as armas. Bruce tão-pouco fez qualquer movimento. De repente, não compreendeu o que procuravam ali aqueles homens, mas depois lembrou-se da pasta de couro que Luther Brenton lhe tinha entregado e estremeceu.
Mais quatro homens, todos com os rostos tapados e empunhando pesados revólveres, foram entrando no vagão. O último fechou a porta e encostou-se a ela.
Três deles apressaram-se a fechar as janelas para que do exterior não pudessem observar o que se passava. Bruce foi empurrado até ao extremo do vagão pelo cano do revólver que se lhe apoiava no peito.
— Onde está o dinheiro dos salários? — perguntou o homem que o empunhava.
Bruce conhecia aquela voz, muito embora o indivíduo fizesse grandes esforços para a disfarçar. Tinha-a ouvido em qualquer parte, mas não podia recordar-se de onde havia sido.
— Não tenho dinheiro nenhum. Não sei nada dos salários. Passei o dia na linha e eu não sou o pagador — respondeu lançando um olhar para a sua esposa.
Também Lotte estava sob a ameaça de um revólver e a angústia refletia-se nos seus grandes olhos azuis. Estava pálida, mas conservava a serenidade.
— Não diga asneiras, doutor. Sabemos que Brenton o deixou aqui e não sairemos do vagão enquanto não o tivermos encontrado — disse outro dos assaltantes.
— É melhor que o diga a bem... ou terá de o dizer obrigado — acrescentou outro.
O médico fazia desesperados esforços para poder reconhecer aquelas vozes. Tinham de ser empregados das obras da via férreas porque nenhum dos homens e mulheres que se arrastavam pelos «saloons» podiam saber que Luther estivera ali por volta do meio-dia.
— Fale de uma vez, doutor disse o quinto assaltante.
Aquelas vozes... Cinco homens tinham falado e apenas a voz do que lhe apontava o revólver lhe fazia lembrar vagamente a de uma pessoa conhecida. O sexto assaltante não pronunciara ainda uma só palavra.
Continuava com as costas apoiadas na porta para impedir que alguém entrasse. Os seus olhos deram uma ordem a outro dos assaltantes para que não falassem mais e atuassem.
22
Três homens começaram a voltar frascos, a abrir gavetas e a forçar as portas dos pequenos armários. Bruce não se atrevia a fixar a vista no que continha a pasta do pagador porque receava que os ladrões adivinhassem o esconderijo pelo, brilho do seu olhar.
Lotte fitava fascinada o cano do revólver que apontava ao seu peito. Ergueu a cabeça e descobriu o frio olhar do ladrão fixo no seu pronunciado busto. Estremeceu ao perceber que nele brilhava uma chama de desejo. Instintivamente, retrocedeu um passo, tropeçou numa pequena mesa, sobre a qual ardia uma candeia de azeite, e deixou escapar um pequeno grito de dor quando queimou a mão ao roçar no vidro quente.
Um dos ladrões deu uma pancada no frasco da gaze e atirou-o ao chão, onde se fez em estilhaços. Descobriu a chave que Bruce guardara e apanhou-a. Com ela na mão, dirigiu-se para o médico e perguntou-lhe:
— De ande é esta chave?
Bruce compreendeu que era uma estupidez dizer que não sabia. Encolheu os ombros, decidido a não responder coisa nenhuma. Os ladrões não tinham reparado no armário dos medicamentos porque se encontrava na parte superior do vagão e parecia fazer parte do teto. Além disso, não podiam perder muito tempo porque se expunham a ser descobertos por alguém que necessitasse dos serviços do médico.
Este pensava que, se' conseguisse fazê-los perder tempo à procura do dinheiro, acabariam por se cansar e fugiriam para não serem apanhados. Havia muitos operários e empregados pelas proximidades e algum deles podia descobrir que se passava qualquer anormalidade no vagão.
O homem que estava à porta fez um novo gesto e outro dos ladrões agrediu o médico com duas violentíssimas bofetadas. A cabeça de Bruce embateu na madeira que formava a parede e, antes que se pudesse refazer dos golpes recebidos, mais duas bofetadas estalaram contra o seu rosto.
— Fala, maldito estúpido! -- ordenou o indivíduo que lhe batia.
O pobre tentou defender-se, mas um revólver enterrou-se-lhe brutalmente na boca do estômago e a dor forte que sentiu obrigou-o a contrair-se.
Um soco tremendo no queixo lançou-o novamente contra a parede e fê-lo cair de joelhos, enquanto o sangue lhe brotava dos lábios rebentados e gotejava sobre o pavimento.
Lotte soltou um grito de angústia e, esquecendo-se do revólver que estava apontado para ela, lançou-se para a frente, a fim de ajudar o marido.
O homem que a vigiava tentou detê-la e estendeu a sua mão suja. Os fortes dedos cravaram-se-lhe sobre o ombro e a fina blusa que vestia rasgou-se, deixando a descoberto o corpo de Lotte.
Bruce, ao ver a sua mulher seminua, levantou-se e, dominado pela ira e pelo ódio, bateu com quanta força tinha no rosto do indivíduo que estava à frente dele; mas, antes que pudesse correr em defesa da mulher, uns potentes braços imobilizaram-no e um novo soco deixou-o à beira da inconsciência.
Lotte tentou cobrir a sua carne nua e, desesperadamente, lançou-se em direção à porta, no desejo de fugir e pedir socorro; mas o homem que permanecia encostado a ela impediu-lhe a saída.
Rodeou-a com os braços e uma das suas mãos subiu até ao ombro e cerrou-se com força sobre ele. Lotte foi quem primeiro pressentiu o que ia acontecer.
Viu o intenso olhar daquele homem e também viu toda a vileza que havia na sua alma. Cheia de aflição e desespero, olhou em redor, procurando a ajuda do marido, mas este encontrava-se imobilizado e nada podia fazer.
Nos olhos dos outros ladrões havia a mesmo expressão que no olhar do homem que ainda não tinha falado. As mulheres eram muito poucas nas obras do caminho-de-ferro; apenas se podiam encontrar as raparigas dos «saloons».
 A sua intuição feminina descobriu-lhe a identidade do homem que dava as ordens aos outros ladrões. A verdade chegou até ao seu cérebro como se fosse a folha cortante de uma faca «sioux»..
— Tu! — exclamou.
Antes que pudesse soltar um grito, a mão do homem fechou-lhe a boca e deitou-lhe a cabeça para trás até que a nuca lhe doeu. Sentiu corno uma mão ardente lhe rasgava a roupa e, felizmente para ela, o próprio horror do que ia sofrer fê-la perder os sentidos.
O marido contemplou toda a cena através de um véu avermelhado que se lhe havia estendido sobre os olhos. Um sabor adocicado enchia-lhe a boca e mal podia mover os lábios, mas, ao ver como a sua esposa era empurrada brutalmente, soltou um rugido de fera ferida e logrou desprender-se da tenaz que o mantinha imóvel.
Não deu um só passo. O homem que se encontrava atrás de si disse-lhe:
— É o melhor que posso fazer por ti.
E com o cano do revólver golpeou fortemente a cabeça do médico. Este tombou como se tivesse sido ferido por um raio. Ouvira as palavras pronunciadas pelo seu inimigo, mas a mais completa escuridão apoderara-se dele enquanto caía.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

PAS682. Uma mala cheia de dinheiro

Três meses depois do casamento, Bruce Dawson e sua esposa Lotte encontravam-se no interior do vagão que lhes servia de alojamento. A linha do caminho-de-ferro avançava rapidamente para Promontory, o ponto que o Senado havia marcado para o encontro das vias férreas que avançavam de Este e Oeste.
Bruce acabara de comer e dispunha-se a sair para o fim da linha, onde um operário irlandês havia esmagado urna das mãos, quando Lotte abriu a porta e entrou Luther Brenton, o pagador da Companhia.
— Se me derem uma chávena de café, tê-los-ei presentes nas minhas orações — disse, deixando uma pasta de couro sobre a mesa.
— Dá-lha lá, Lotte. Estes solteirões fazem-me muita pena. Nunca sabem o que é uma refeição bem-feita nem um excelente café. Olha para mim, Luther; desde que me casei, engordei uma quantidade de quilos. Por este andar, terei de começar a fazer ginástica — comentou Bruce, alegremente.
— Tenho de te pedir um favor, além do café, Bruce. Preciso de sair imediatamente para Fort Long a fim de me encontrar com o meu chefe. Não sei que diabo se passa para me mandar chamar urgentemente. Dentro de meia hora, sairá Collins com uma máquina de experiências e eu irei com ele. Queria pedir-te que me guardasses a pasta porque dentro dela estão cerca de cinquenta mil dólares. São os salários dos oper6rios e tenho de lhos pagar no sábado. Não me atrevo a deixar tão grande quantia no meu escritório e muito menos levá-la comigo para Fort Long. Tens algum inconveniente em fazer-me este favor? — perguntou Luther.
— Nenhum. Guardá-la-ei num armário e quando regressares poderás dispor dela — respondeu Bruce, feliz por ser útil a alguém mais uma vez.
— Conto estar de regresso amanhã por volta do anoitecer.
— Toma o teu café, Luther — disse Lotte.
— Nunca cheguei a perceber por que razão as mulheres fazem melhor café... com menos café — observou o pagador.
— Nem eu, mas limito-me a bebê-lo sem fazer perguntas — respondeu o médico, pegando na pasta de couro e metendo-a no interior de um armário destinado a guardar medicamentos.
Fechou-a com a chave e depois meteu esta num frasco que continha gaze. Tapou-o e, agarrando na sua maleta dos instrumentos, dispôs-se a sair. Luther acabou de beber a chávena de café e disse:
— Vamos, irei contigo até à vagoneta.
Depois de beijar a esposa, Bruce saiu do vagão acompanhado de Luther. Passaram entre montes de travessas e carris, prontos para serem empregues rapidamente, e o médico subiu à vagoneta que o tinha de levar aonde terminava a via-férrea.
— Até à volta, Bruce — disse o pagador.
— Boa sorte, Luther... e não te demores. Não me agrada ter tanto dinheiro em meu poder.
A vagoneta pôs-se em marcha e o pagador dirigiu-se a uma máquina que estava preparada para empreender a marcha para Este.

domingo, 4 de dezembro de 2016

BUF123. Caminho de vingança

 
(Coleção Búfalo, nº 123)
 
Bruce Dawson era médico da Union Pacific uma empresa que procedia à construção da linha de caminho de ferro entre Nova York e San Francisco. Era dotado de grande honestidade e bondade e todos os que careciam dos seus cuidados encontravam nele a maior atenção e competência. Casou com Lotte, filha de um engenheiro da companhia e, na própria noite de casamento, teve de prescindir das delícias do momento para ir tratar de um pistoleiro que tinha sido baleado.
Um dia, o pagador de salários da companhia deixou à sua guarda um valor elevado pois tinha de deslocar-se a uma terra distante. Bruce prestou-se para esse favor e foi o pior que fez na vida. O seu local de pernoita foi assaltado, Lotte violada e abatida… Bruce partiu para a vingança que veio a consumar de uma forma um tanto confusa de acordo com o relato de Keystone. Mas nesse processo viria de novo a encontrar uma jovem que lhe traria a felicidade.
A capa, excelente, representa Bruce a prestar assistência à esposa, no momento da morte, e ouvindo dos seus lábios as últimas palavras, referentes a quem executara tão vil acto.

sábado, 3 de dezembro de 2016

PAS681. A vingança da formiga

Quase como entre sonhos, Carlota sentiu que chegavam ao rancho e Wade dava algumas ordens. Depois, ele arrastou-a para uma das dependências do rés-do-chão e fechou a porta por dentro. Brutalmente, empurrou-a, até a atirar sobre um cadeirão.
— Escuta-me agora, Carlota Drillman! O teu respeitável pai nunca te disse a causa do meu ódio?
Carlota encolheu-se a um canto do assento, tremendo dos pés à cabeça. Na luta, um dos ombros do vestido havia-se rasgado e um pedaço de pele ficava a descoberto por entre o tecido azul.
— Wade, eu... — gemia como uma criança assustada. — Juro-te que não...
— Claro que não! Tu és apenas uma vítima das ordens do teu pai! Só fizeste o que te mandou! Não foi assim? Vamos! Responde!
— Eu... Wade, eu amo-te!
O pistoleiro soltou uma gargalhada brutal.
—Nunca mais poderás enganar-me com as tuas manhas, raposa matreira! Nem nada poderá livrar o teu pai da morte que lhe está destinada!
Carlota parecia um animal encurralado pelos cães de caça. Enrolou-se sobre o destroçado cadeirão, último vestígio do «Rancho Morgan» de dez anos atrás. Mas, não tentou dizer nada e deixou que Wade falasse.
— Há dez anos, o teu pai tentou expulsar-nos das nossas terras. Sim, expulsar-nos a tiros, ajudado por essa equipa de pistoleiros que tem ao seu serviço! E, como o meu pai não quisesse sair, uma noite assaltou o nosso rancho, matou os meus pai e entregou a minha irmã como diversão para os seus homens! Depois, mataram-na também! — Os olhos de Wade pareciam naquele momento dois pedaços de aço reluzente. — Consegui fugir nem sei bem como. Mas, jurei vingar-me e aqui estou. Tu vais ser o instrumento da minha vingança, Carlota Drillman! Por teu pai e por ti!
Avançou para ela e agarrou-a pela cintura violentamente. A rapariga resistiu debilmente, chorando de terror.
— Wade... eu não tenho a culpa do que se passou...! Juro-te que não sabia...!
Wade riu-se de novo daquela forma que era pior' do que uma bofetada.
— Oh! Claro, tu não sabias! Mas, isso não evitou que te prestasses a fingir uma coisa que não sentias! Intrujona!
— Wade, é verdade... é verdade que te amo...! Cris era apenas uma diversão para mim...! Por meu pai, te juro que é verdade...!
— Compreendeste-o demasiado tarde, Carlota Drillman !
E beijou-a com violência, da mesma maneira que ela havia qualificado de selvagem. Depois, a jovem sentiu que as mãos dele a apertavam até fazer-lhe mal e deixar--lhe a pele marcada. De repente, Wade inclinou a cabeça para trás e observou-lhe o rosto por instantes.
Carlota não se defendia. Sabia que de nada lhe serviria. Tinha os olhos muito abertos, aterrorizados, fixos num ponto indefinido da parede, esperando o castigo da sua audácia imprudente. Wade sentiu um estremecimento estranho dentro de si e pensou em Stella e em que talvez tivesse tido no seu rosto a mesma expressão enquanto os homens de Drillman a dominavam.
Afastou-a de si, com brusquidão, sentindo a boca amarga pelo seu comportamento.
— Podes estar descansada. Não te farei mal. — E voltou-se para ela com o rosto tão tenso de furor que Carlota sentiu medo. Mas, o teu pai julgará o contrário. E nada poderá convencê-lo do seu erro, porque não viverá o suficiente para saber a verdade!
Agarrou-a novamente e de um esticão rasgou-lhe parte da saia do vestido. Ela soltou um grito.
— Wade, por misericórdia!
— Cala-te.
Durante os minutos seguintes, Carlota sentiu as mãos dele a bater-lhe na cara e nos braços, a desfazer-lhe o' penteado e acabando de lhe rasgar as roupas que vestia. Depois, arrastou-a até à 'porta da rua, obrigando-a a subir para o cavalo, perante o assombro dos seus seis vaqueiros. Bastou apenas um toque das esporas para que o negro puro-sangue de Wade partisse como um bólide para o «Rancho Drillman».
Como num pesadelo, Carlota notou que o cavalo devorava a distância num galope infernal. Wade levava-a atravessada na sela, como se fosse um saco, e o movimento do cavalo havia-a feito perder os sapatos. Pensou no aspeto que devia apresentar, com o vestido feito cm farrapos, despenteada e os braços cheios de manchas negras. Um rouco soluço subiu-lhe até à garganta, porque já nada podia remediar-se e ela tinha grande parte de culpa no que iria acontecer.
Frente à casa do rancho, Wade deteve o cavalo e obrigou Carlota a descer. Depois de ter desmontado também, agarrou-lhe numa das mãos e arrastou-a pelo corredor até ao escritório de Arthur Drillman, onde entraram como um furacão.
— Drillman!
O rancheiro encontrava-se atrás da sua mesa de trabalho. Levantou-se de um salto, ao vê-los chegar, e, então, Wade atirou a rapariga contra a mesa, deixando-a quase estendida. Os olhos de Drillman foram de sua filha para o rapaz, que estava um pouco afastado, bem firme nas pernas, com o olhar cintilante e a espingarda na mão direita.
— Agora, pertence-me, Arthur Drillman, rato de esgoto!
— Não é verdade! — gritou Carlota, com todas as suas forças. — Está a mentir! Não é verdade! Não é verdade!
Mas, os olhos do pai resvalaram de forma inconfundível sobre ela, observando-lhe o aspeto com as pupilas contraídas, do tamanho de cabeças de alfinete.
— Maldito sejas, Morgan!
Wade desatou a rir da mesma' maneira que Carlota já lhe tinha ouvido, um riso amargo e seco, que soava como um trovão ou um tiro.
— Esperei dez anos que chegasse este momento, Drillman! Agora, começas a compreender o que eu devia ter sentido naquela noite quando assassinaste a minha família! Não é verdade que o sentes, Arthur Drillman? Mas, nem sequer és homem para matar o indivíduo que ultrajou a tua filha! O mesmo que está a arruinar-te, deixando o teu gado sem água. Por que fica bem ciente disto, Drillman: nem vou casar-me com Carlota nem deixarei que as tuas reses entrem nas minhas pastagens! Nem mesmo agora desejas matar-me, cobarde?
De um salto, Drillman saiu de detrás da mesa para afastar Carlota 'da linha de tiro. Wade deixou que sacasse o revólver, que o engatilhasse e o pusesse em posição de disparar, tudo em frações de segundo.
Depois, a «Winchester» do pistoleiro entrou em ação.
A primeira bala alcançou Drillman no braço esquerdo e não o impediu de disparar. Mas, Wade já não se encontrava onde tinha estado um segundo antes, mas sim à direita. A bala do «45» perdeu-se, inofensiva.
Um novo projétil da espingarda cravou-se no estômago do rancheiro. Drillman soltou o revólver e levou as duas mãos à parte ferida. Uma terceira bala atravessou--lhe um joelho, fazendo-o cair. A quarta entrou-lhe nos pulmões, enchendo-lhe a boca de sangue. A quinta penetrou-lhe no cérebro, deixando-o definitivamente imóvel.
Como um felino, Wade voltou-se para a porta e disparou duas vezes. Os dois pistoleiros de Drillman que acudiam com os revólveres e a postos ficaram atravessados na entrada.
Ouviu atrás de si a reação de Carlota, sob a forma de um tremendo grito, e pelo canto do olho viu-a cair sobre a alcatifa do escritório, feita num farrapo e com o rosto tão branco como o de um cadáver. Sentiu apertar-se-lhe a garganta, mas não se deteve. Saiu para o corredor e um novo tiro abateu outro pistoleiro que corria para ele.
Já ninguém lhe dificultou a saída. Passados dois segundos, Wade cavalgava à rédea solta para o seu rancho.
 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PAS680. O tigre renasce erante a traição

«— A felicidade é efémera como a gota do orvalho sobre a flor de lótus.»
Wade riu, com uma expressão feliz nos seus olhos azuis.
— Oh! Chang, deixa-te de ser passarão. Digo-te que nos amamos e vamos casar-nos dentro em pouco!
— Cuidado, Wade. Há qualquer coisa que não consigo ver claro neste assunto.
— Tu és sempre tão desconfiado...
— Tu, em contrapartida, confiaste demasiado nessa rapariga.
Fez-se um grande silêncio entre ambos.
Ao longe, a luz do novo dia inundava docemente a planície. Eram nove da manhã e as pastagens requeimadas pela seca começavam a dar sinais de vida. Dentro de muito pouco tempo, a primeira manada de gado de Drillman atravessaria a cerca de «Rancho Morgan» paro beber nas suas águas, o que Wade nunca pensara que chegaria a suceder. Que espécie de perturbação era aquela que Carlota Drillman lhe havia causado?
Mas, não se arrependia. Em troca desse facto, a paz renascia em Winslow. Carlota seria sua mulher e os dois partiriam para longe, a fim de esquecer todo aquele passado que só podia servir de amargura na vida de um homem.
Chang falou de novo:
— Julgas-te duro e forte, Wade Morgan, mas estes dez anos não te serviram de nada. Continuas a ser um rapaz que se rende perante a primeira palavra de amor de uma mulher bonita e astuta.
— Chang, se não fosses meu amigo, far-te-ia engolir essas palavras e alguns dentes à mistura.
— Duvido de que o pudesses fazer.
Nunca, até então, tinha visto tão sério o oriental e Wade começou a pensar nas suas palavras. Mas, bem depressa a recordação de Carlota o fez esquecer tudo. Era impossível que uma mulher pudesse beijar daquela forma e estivesse a mentir.
Pôs o chapéu na cabeça e levantou-se.
— Até logo, Chang. Não quero discutir contigo.
Saiu do «saloon» e montou no seu cavalo. O prado em breve o acolheu com a monotonia árida e poeirenta. O caminho serpenteava por entre uns altos matagais de espinhos e mais ao longe atravessava o leito seco de um riacho, que no Inverno costumava levar um pouco de água. O sol começava a transmitir já o seu calor às coisas, cada vez mais alto sobre o horizonte.
De repente, uma gargalhada feriu-lhe os ouvidos como um tiro. «Ela».
E em seguida uma voz masculina.
Qualquer coisa pareceu apertar-se em volta do coração de Wade Morgan. Desmontou, procurando fazer o menor ruído possível, e deixou o cavalo preso a um dos arbustos espinhosos. Depois, começou a deslizar para o leito do arroio, sem fazer o mínimo rumor. Um índio não o teria realizado melhor.
Deteve-se, escondido atrás de umas silvas. Frente a ele, somente separados das suas mãos pelos matagais, Carlota e o jovem elegante do Este, Cris, riam-se às gargalhadas.
— Foi muito divertido, Cris! O pobre acreditou em tudo o que lhe disse!
Wade não podia saber de quem estavam a falar, mas irritou-o aquele riso e a intimidade que parecia haver entre eles. Estavam de mãos dadas e o olhar do indivíduo chamado Cris não oferecia lugar a dúvidas.
Um vago mal-estar começou a apoderar-se de Wade, enquanto recordava as palavras de Chang: «Confiaste demasiado nessa rapariga».
Com mil diabos! Porque havia de duvidar da sua felicidade? Cris podia ser um parente ou um amigo de infância, ou...
Tal como um trovão, chegou-lhe ao ouvido a voz daquele homem:
— Parece-me que Wade Morgan não é tão perigoso, como diziam.
As pupilas do pistoleiro tiveram um reflexo prateado e isso só lhe acontecia quando sentia ânsias de matar.
— Oh! Foi muito fácil! No fundo, é demasiado inocente e crédulo! E riu-se como se achasse muita graça àquela ideia. --- Convencer-se de que eu podia apaixonar-me por um vulgar pistoleiro como ele, sem educação nenhuma!
Wade sentiu que qualquer coisa se desmoronava dentro dele e uma onda rubra invadiu-o.
Cris disse:
— Deves perdoar-me, Lottie. Por um momento, estive furioso, pois os ciúmes não me deixavam viver pensando que... esse assassino e tu podiam chegar a...
Ela tapou-lhe a boca, com uma gargalhada e um olhar cintilante.
— Não sejas tonto, Cris. A princípio, esse homem fascinou-me. Era qualquer coisa de novo para mim. Mas, depois, chegaste tu e pude reconhecer a diferença que existe entre vocês. Ele não passa de um pistoleiro sem educação nem delicadeza. Ontem, fui ao seu rancho porque assim convinha aos planos de meu pai para nos salvar da ruína. Mas, isso não quer dizer nada. Wade Morgan é um bruto e um grosseiro. Nunca poderia ser feliz com um homem como ele. Torna-se demasiado... rude. Beija como um selvagem. Continuarei a fingir até que a epidemia tenha terminado e, então... — Soltou um riso cristalino, enquanto se refugiava entre os braços do rapaz. — Oh! Cris, que jogada mestra! O golpe será tão forte que se deixará matar sem resistência! Mas, isso a mim não me importa. Quando tudo terminar, Cris, casar-nos-emos.
E ofereceu-lhe os seus lábios com toda a naturalidade.
Wade sentiu por uns momentos que tudo se tornava vermelho à sua volta. Mil relâmpagos estalaram à frente dos seus olhos e envolveram-no com a força de um furacão. Carlota havia troçado dele! Nas suas mãos, tinha sido apenas um fantoche, movimentando-se ao ritmo que a ela lhe apetecera! Uma fúria espantosa percorreu-o de cima abaixo, sacudindo-o interiormente. Viu-se ludibriado pela mulher em quem havia depositado o melhor de si mesmo e imaginou a expressão de Arthur Drillman quando a filha lhe relatara a cena do rancho.
Sentiu que os olhos se lhe arrasavam de lágrimas. Por uns momentos, havia sonhado em reconstruir a sua vida e esquecer a vingança, vendo em Drillman uma simples formiga. Afinal, os papéis voltavam a inverter-se, a formiga voltava a ser tigre e ele, Wade Morgan, o pistoleiro, convertia-se de novo em inofensiva formiga pelas artes de uma mulher astuta.
Mas, ainda não estava dita a última palavra. E a última palavra não a diria Drillman.
Cego de raiva, afastou as silvas atrás das quais se escondia e colocou-se em frente do par. Os dois jovens beijavam-se apaixonadamente, sem verem nada do que se passava à sua volta. Wade estendeu as mãos e separou--os violentamente. Antes que nenhum dos dois pudesse sequer reconhecê-lo, o seu punho embateu no rosto de Cris Cassel, derrubando-o sem sentidos.
Carlota soltou um grito de terror.
— Wade!
Agarrou-a pelos braços, fincando-lhe brutalmente os dedos. Os seus lábios apertados davam a impressão de uma lâmina de aço.
— Maldita...!
E uma bofetada terrível atravessou o rosto feminino, deixando-lhe quatro sulcos negros na face. Ela debateu--se entre aqueles braços de ferro, tentando soltar-se. Mas, Wade não lho permitia. Descarregou-lhe mais dois bofetões na cara, enquanto gritava:
— Vais saber a verdade de tudo, Carlota Drillman! Saberás porque nos odiamos teu pai e eu! E, quando tiver feito contigo o que os seus homens fizeram com minha irmã, matá-lo-ei diante de ti!
Colocou-a ao ombro como um saco, montou no cavalo e partiu para o «Rancho Morgan», como uma flecha.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PAS679. O tigre fraqueja perante uma mulher bonita

Contexto da passagem: Wade escapou e voltou dez anos depois, pistoleiro famoso, com o objetivo de vingar os seus e reaver o que lhe pertencia. Secundado por alguns amigos, apoderou-se do rancho da família e obrigou Drillman a devolver-lhe o gado que lhe pertencera. Entretanto, a filha deste transformara-se numa linda mulher e chegara do Este onde tivera esmerada educação. A pequena ignorava a história da família e sentia uma certa atração por Wade, visitando-o por vezes…


 
Wade estava sentado nos degraus do barracão, como todas as tardes. Fumava o seu inseparável cachimbo e olhava ao longe, onde o gado punha uma nota de vida e movimento. A seu lado, fumando também paulatinamente, Walter trauteava entre dentes uma cançoneta em voga.
De repente qualquer coisa perturbou a monotonia da paisagem, a mancha escura das reses que pastavam e a linha uniforme do horizonte.
Sobre o seu inconfundível cavalo baio, Stacy chegava ao rancho, escoltando uma pequena carruagem. No banco do veículo, via-se uma mulher vestida de azul vivo.
O coração de Wade começou a pulsar muito mais depressa do que devia. Era «ela».
Pôs-se em pé e esvaziou o cachimbo contra a parede do barracão. O cavaleiro e o pequeno carro haviam-se detido a uns seis metros.
Stacy disse:
— A menina quer ver-te, patrão.
— Obrigado por a teres escoltado, Stacy.
O rapaz piscou um olho significativamente.
— Como sabes, Wade, nós temos o bom costume de não confiarmos nas mulheres por muito bonitas que sejam.
E, sem fazer caso do olhar furibundo que ela lhe deitou, voltou o cavalo e afastou-se no meio de uma nuvem de poeira.
Walter também se esfumou misteriosamente, mordendo o seu charuto com expressão de intenso regozijo.
Carlota e Wade permaneceram uns momentos olhando-se fixamente nos olhos. Depois, o pistoleiro aproximou-se, tomou-a pela cintura e pô-la no chão com delicadeza. A cabeça de Lottie mal chegava ao ombro dele.
— Obrigada — disse a jovem, imprimindo à palavra a sua mais perigosa doçura.
Depois, começou a caminhar para o barracão, enquanto desatava as fitas do chapéu. Sentou-se no degrau mais elevado e olhou para as pastagens.
— Pelo que vejo, você é um homem de iniciativa.
Wade ocupou o degrau mais baixo. As cabeças de ambos ficaram ao mesmo nível.
— Por que diz isso?
— Garantiu-me que dentro em pouco teria gado e cumpriu. Aonde o foi buscar?
— Deu-mo seu pai. Foi muito amável.
Mas, as palavras saíram-lhe como urna dentada. Evitou olhá-la, porque os olhos azuis da jovem tinham a virtude de desvanecer todas as ânsias de vingança e convertê-las em água que se lhe escapasse entre os dedos sem que a pudesse reter.
Ela sorriu.
— Não disse isso muito convencido. Há entre meu pai e você mais do que uma simples rivalidade de rancheiros. Que é, Wade?
O olhar masculino perdeu-se na distância. Houve um instante em que sentiu vontade de lhe contar tudo, mas, como sempre acontecia, calou-se. Era como se á presença de Lottie o fizesse esquecer tudo.
— Talvez algum dia lho conte. Mas, não é nada que valha a pena.
Houve um silêncio. Carlota inclinou-se para ele, sabendo de antemão a que se arriscava. A sua voz tornou--se tão meiga e suave que o sangue de Wade começou a circular a tremenda velocidade pelas suas veias.
— Porque não esquecem de uma vez todos esses assuntos absurdos? No vale de Winslow há lugar para todos.
Lugar para todos!
Uma sombra de sorriso passou pelos olhos de Wade. Aquele rapariga nada sabia das patifarias do seu pai. Estava à vista que o poderoso Arthur Drillman não a tinha a par da sua vida e ela julgava que toda aquela fortuna era limpa e legal.
Mas, ainda não foi daquela vez que a desiludiu e limitou-se a murmurar:
— Você desejá-lo-ia?
Lottie fechou os olhos e respondeu:
-- Sim.
— Porquê?
Lottie voltou o rosto para o outro lado, como se quisesse ocultar um súbito rubor, e a sua voz foi débil, quase inaudível, por detrás do chapéu:
— É necessário que o diga?
Um relâmpago pareceu estalar em frente dos olhos do pistoleiro. Tudo desapareceu da sua mente apagado por aquela frase. «É necessário que o diga?» E, sem medir o que fazia, porque os impulsos não podem medir-se, tomou Carlota pelos ombros e fê-la virar-se para ele, ao mesmo tempo que lhe procurava a boca e a beijava.
Um beijo longo, forte, quase selvagem.
«É um bruto. Um primitivo filho da pradaria.»
Ao separarem-se, era Carlota quem estava vermelha como uma papoila, enquanto os olhos de Wade continuavam a ser dois bocados de aço brilhante.
— Será melhor que vá para casa.
Ela concordou, aturdida. Não opôs qualquer resistência quando as mãos do rapaz a ergueram até ao banco do pequeno veículo nem quando Wade incitou o cavalo com uma palmada nas ancas. A carruagem minúscula arrancou como uma flecha e afastou-se.
Wade permaneceu imóvel, vendo como a imagem da jovem se ia tornando cada vez mais pequena na distância. Depois, voltou a ocupar os degraus do alpendre e acendeu o cachimbo.
Permaneceu imóvel até que o céu se coalhou de estrelas. Depois, durante o jantar, não disse uma palavra. E tão-pouco pôde dormir naquela noite.
Na manhã seguinte, sentado a uma mesa de «Chang», sem que introduzisse nenhuma explicação preliminar entre eles, disse para o oriental, em tom firme e seguro:
— Chang, apaixonei-me como um idiota pela filha do meu pior inimigo.