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sábado, 3 de dezembro de 2016

PAS681. A vingança da formiga

Quase como entre sonhos, Carlota sentiu que chegavam ao rancho e Wade dava algumas ordens. Depois, ele arrastou-a para uma das dependências do rés-do-chão e fechou a porta por dentro. Brutalmente, empurrou-a, até a atirar sobre um cadeirão.
— Escuta-me agora, Carlota Drillman! O teu respeitável pai nunca te disse a causa do meu ódio?
Carlota encolheu-se a um canto do assento, tremendo dos pés à cabeça. Na luta, um dos ombros do vestido havia-se rasgado e um pedaço de pele ficava a descoberto por entre o tecido azul.
— Wade, eu... — gemia como uma criança assustada. — Juro-te que não...
— Claro que não! Tu és apenas uma vítima das ordens do teu pai! Só fizeste o que te mandou! Não foi assim? Vamos! Responde!
— Eu... Wade, eu amo-te!
O pistoleiro soltou uma gargalhada brutal.
—Nunca mais poderás enganar-me com as tuas manhas, raposa matreira! Nem nada poderá livrar o teu pai da morte que lhe está destinada!
Carlota parecia um animal encurralado pelos cães de caça. Enrolou-se sobre o destroçado cadeirão, último vestígio do «Rancho Morgan» de dez anos atrás. Mas, não tentou dizer nada e deixou que Wade falasse.
— Há dez anos, o teu pai tentou expulsar-nos das nossas terras. Sim, expulsar-nos a tiros, ajudado por essa equipa de pistoleiros que tem ao seu serviço! E, como o meu pai não quisesse sair, uma noite assaltou o nosso rancho, matou os meus pai e entregou a minha irmã como diversão para os seus homens! Depois, mataram-na também! — Os olhos de Wade pareciam naquele momento dois pedaços de aço reluzente. — Consegui fugir nem sei bem como. Mas, jurei vingar-me e aqui estou. Tu vais ser o instrumento da minha vingança, Carlota Drillman! Por teu pai e por ti!
Avançou para ela e agarrou-a pela cintura violentamente. A rapariga resistiu debilmente, chorando de terror.
— Wade... eu não tenho a culpa do que se passou...! Juro-te que não sabia...!
Wade riu-se de novo daquela forma que era pior' do que uma bofetada.
— Oh! Claro, tu não sabias! Mas, isso não evitou que te prestasses a fingir uma coisa que não sentias! Intrujona!
— Wade, é verdade... é verdade que te amo...! Cris era apenas uma diversão para mim...! Por meu pai, te juro que é verdade...!
— Compreendeste-o demasiado tarde, Carlota Drillman !
E beijou-a com violência, da mesma maneira que ela havia qualificado de selvagem. Depois, a jovem sentiu que as mãos dele a apertavam até fazer-lhe mal e deixar--lhe a pele marcada. De repente, Wade inclinou a cabeça para trás e observou-lhe o rosto por instantes.
Carlota não se defendia. Sabia que de nada lhe serviria. Tinha os olhos muito abertos, aterrorizados, fixos num ponto indefinido da parede, esperando o castigo da sua audácia imprudente. Wade sentiu um estremecimento estranho dentro de si e pensou em Stella e em que talvez tivesse tido no seu rosto a mesma expressão enquanto os homens de Drillman a dominavam.
Afastou-a de si, com brusquidão, sentindo a boca amarga pelo seu comportamento.
— Podes estar descansada. Não te farei mal. — E voltou-se para ela com o rosto tão tenso de furor que Carlota sentiu medo. Mas, o teu pai julgará o contrário. E nada poderá convencê-lo do seu erro, porque não viverá o suficiente para saber a verdade!
Agarrou-a novamente e de um esticão rasgou-lhe parte da saia do vestido. Ela soltou um grito.
— Wade, por misericórdia!
— Cala-te.
Durante os minutos seguintes, Carlota sentiu as mãos dele a bater-lhe na cara e nos braços, a desfazer-lhe o' penteado e acabando de lhe rasgar as roupas que vestia. Depois, arrastou-a até à 'porta da rua, obrigando-a a subir para o cavalo, perante o assombro dos seus seis vaqueiros. Bastou apenas um toque das esporas para que o negro puro-sangue de Wade partisse como um bólide para o «Rancho Drillman».
Como num pesadelo, Carlota notou que o cavalo devorava a distância num galope infernal. Wade levava-a atravessada na sela, como se fosse um saco, e o movimento do cavalo havia-a feito perder os sapatos. Pensou no aspeto que devia apresentar, com o vestido feito cm farrapos, despenteada e os braços cheios de manchas negras. Um rouco soluço subiu-lhe até à garganta, porque já nada podia remediar-se e ela tinha grande parte de culpa no que iria acontecer.
Frente à casa do rancho, Wade deteve o cavalo e obrigou Carlota a descer. Depois de ter desmontado também, agarrou-lhe numa das mãos e arrastou-a pelo corredor até ao escritório de Arthur Drillman, onde entraram como um furacão.
— Drillman!
O rancheiro encontrava-se atrás da sua mesa de trabalho. Levantou-se de um salto, ao vê-los chegar, e, então, Wade atirou a rapariga contra a mesa, deixando-a quase estendida. Os olhos de Drillman foram de sua filha para o rapaz, que estava um pouco afastado, bem firme nas pernas, com o olhar cintilante e a espingarda na mão direita.
— Agora, pertence-me, Arthur Drillman, rato de esgoto!
— Não é verdade! — gritou Carlota, com todas as suas forças. — Está a mentir! Não é verdade! Não é verdade!
Mas, os olhos do pai resvalaram de forma inconfundível sobre ela, observando-lhe o aspeto com as pupilas contraídas, do tamanho de cabeças de alfinete.
— Maldito sejas, Morgan!
Wade desatou a rir da mesma' maneira que Carlota já lhe tinha ouvido, um riso amargo e seco, que soava como um trovão ou um tiro.
— Esperei dez anos que chegasse este momento, Drillman! Agora, começas a compreender o que eu devia ter sentido naquela noite quando assassinaste a minha família! Não é verdade que o sentes, Arthur Drillman? Mas, nem sequer és homem para matar o indivíduo que ultrajou a tua filha! O mesmo que está a arruinar-te, deixando o teu gado sem água. Por que fica bem ciente disto, Drillman: nem vou casar-me com Carlota nem deixarei que as tuas reses entrem nas minhas pastagens! Nem mesmo agora desejas matar-me, cobarde?
De um salto, Drillman saiu de detrás da mesa para afastar Carlota 'da linha de tiro. Wade deixou que sacasse o revólver, que o engatilhasse e o pusesse em posição de disparar, tudo em frações de segundo.
Depois, a «Winchester» do pistoleiro entrou em ação.
A primeira bala alcançou Drillman no braço esquerdo e não o impediu de disparar. Mas, Wade já não se encontrava onde tinha estado um segundo antes, mas sim à direita. A bala do «45» perdeu-se, inofensiva.
Um novo projétil da espingarda cravou-se no estômago do rancheiro. Drillman soltou o revólver e levou as duas mãos à parte ferida. Uma terceira bala atravessou--lhe um joelho, fazendo-o cair. A quarta entrou-lhe nos pulmões, enchendo-lhe a boca de sangue. A quinta penetrou-lhe no cérebro, deixando-o definitivamente imóvel.
Como um felino, Wade voltou-se para a porta e disparou duas vezes. Os dois pistoleiros de Drillman que acudiam com os revólveres e a postos ficaram atravessados na entrada.
Ouviu atrás de si a reação de Carlota, sob a forma de um tremendo grito, e pelo canto do olho viu-a cair sobre a alcatifa do escritório, feita num farrapo e com o rosto tão branco como o de um cadáver. Sentiu apertar-se-lhe a garganta, mas não se deteve. Saiu para o corredor e um novo tiro abateu outro pistoleiro que corria para ele.
Já ninguém lhe dificultou a saída. Passados dois segundos, Wade cavalgava à rédea solta para o seu rancho.
 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PAS680. O tigre renasce erante a traição

«— A felicidade é efémera como a gota do orvalho sobre a flor de lótus.»
Wade riu, com uma expressão feliz nos seus olhos azuis.
— Oh! Chang, deixa-te de ser passarão. Digo-te que nos amamos e vamos casar-nos dentro em pouco!
— Cuidado, Wade. Há qualquer coisa que não consigo ver claro neste assunto.
— Tu és sempre tão desconfiado...
— Tu, em contrapartida, confiaste demasiado nessa rapariga.
Fez-se um grande silêncio entre ambos.
Ao longe, a luz do novo dia inundava docemente a planície. Eram nove da manhã e as pastagens requeimadas pela seca começavam a dar sinais de vida. Dentro de muito pouco tempo, a primeira manada de gado de Drillman atravessaria a cerca de «Rancho Morgan» paro beber nas suas águas, o que Wade nunca pensara que chegaria a suceder. Que espécie de perturbação era aquela que Carlota Drillman lhe havia causado?
Mas, não se arrependia. Em troca desse facto, a paz renascia em Winslow. Carlota seria sua mulher e os dois partiriam para longe, a fim de esquecer todo aquele passado que só podia servir de amargura na vida de um homem.
Chang falou de novo:
— Julgas-te duro e forte, Wade Morgan, mas estes dez anos não te serviram de nada. Continuas a ser um rapaz que se rende perante a primeira palavra de amor de uma mulher bonita e astuta.
— Chang, se não fosses meu amigo, far-te-ia engolir essas palavras e alguns dentes à mistura.
— Duvido de que o pudesses fazer.
Nunca, até então, tinha visto tão sério o oriental e Wade começou a pensar nas suas palavras. Mas, bem depressa a recordação de Carlota o fez esquecer tudo. Era impossível que uma mulher pudesse beijar daquela forma e estivesse a mentir.
Pôs o chapéu na cabeça e levantou-se.
— Até logo, Chang. Não quero discutir contigo.
Saiu do «saloon» e montou no seu cavalo. O prado em breve o acolheu com a monotonia árida e poeirenta. O caminho serpenteava por entre uns altos matagais de espinhos e mais ao longe atravessava o leito seco de um riacho, que no Inverno costumava levar um pouco de água. O sol começava a transmitir já o seu calor às coisas, cada vez mais alto sobre o horizonte.
De repente, uma gargalhada feriu-lhe os ouvidos como um tiro. «Ela».
E em seguida uma voz masculina.
Qualquer coisa pareceu apertar-se em volta do coração de Wade Morgan. Desmontou, procurando fazer o menor ruído possível, e deixou o cavalo preso a um dos arbustos espinhosos. Depois, começou a deslizar para o leito do arroio, sem fazer o mínimo rumor. Um índio não o teria realizado melhor.
Deteve-se, escondido atrás de umas silvas. Frente a ele, somente separados das suas mãos pelos matagais, Carlota e o jovem elegante do Este, Cris, riam-se às gargalhadas.
— Foi muito divertido, Cris! O pobre acreditou em tudo o que lhe disse!
Wade não podia saber de quem estavam a falar, mas irritou-o aquele riso e a intimidade que parecia haver entre eles. Estavam de mãos dadas e o olhar do indivíduo chamado Cris não oferecia lugar a dúvidas.
Um vago mal-estar começou a apoderar-se de Wade, enquanto recordava as palavras de Chang: «Confiaste demasiado nessa rapariga».
Com mil diabos! Porque havia de duvidar da sua felicidade? Cris podia ser um parente ou um amigo de infância, ou...
Tal como um trovão, chegou-lhe ao ouvido a voz daquele homem:
— Parece-me que Wade Morgan não é tão perigoso, como diziam.
As pupilas do pistoleiro tiveram um reflexo prateado e isso só lhe acontecia quando sentia ânsias de matar.
— Oh! Foi muito fácil! No fundo, é demasiado inocente e crédulo! E riu-se como se achasse muita graça àquela ideia. --- Convencer-se de que eu podia apaixonar-me por um vulgar pistoleiro como ele, sem educação nenhuma!
Wade sentiu que qualquer coisa se desmoronava dentro dele e uma onda rubra invadiu-o.
Cris disse:
— Deves perdoar-me, Lottie. Por um momento, estive furioso, pois os ciúmes não me deixavam viver pensando que... esse assassino e tu podiam chegar a...
Ela tapou-lhe a boca, com uma gargalhada e um olhar cintilante.
— Não sejas tonto, Cris. A princípio, esse homem fascinou-me. Era qualquer coisa de novo para mim. Mas, depois, chegaste tu e pude reconhecer a diferença que existe entre vocês. Ele não passa de um pistoleiro sem educação nem delicadeza. Ontem, fui ao seu rancho porque assim convinha aos planos de meu pai para nos salvar da ruína. Mas, isso não quer dizer nada. Wade Morgan é um bruto e um grosseiro. Nunca poderia ser feliz com um homem como ele. Torna-se demasiado... rude. Beija como um selvagem. Continuarei a fingir até que a epidemia tenha terminado e, então... — Soltou um riso cristalino, enquanto se refugiava entre os braços do rapaz. — Oh! Cris, que jogada mestra! O golpe será tão forte que se deixará matar sem resistência! Mas, isso a mim não me importa. Quando tudo terminar, Cris, casar-nos-emos.
E ofereceu-lhe os seus lábios com toda a naturalidade.
Wade sentiu por uns momentos que tudo se tornava vermelho à sua volta. Mil relâmpagos estalaram à frente dos seus olhos e envolveram-no com a força de um furacão. Carlota havia troçado dele! Nas suas mãos, tinha sido apenas um fantoche, movimentando-se ao ritmo que a ela lhe apetecera! Uma fúria espantosa percorreu-o de cima abaixo, sacudindo-o interiormente. Viu-se ludibriado pela mulher em quem havia depositado o melhor de si mesmo e imaginou a expressão de Arthur Drillman quando a filha lhe relatara a cena do rancho.
Sentiu que os olhos se lhe arrasavam de lágrimas. Por uns momentos, havia sonhado em reconstruir a sua vida e esquecer a vingança, vendo em Drillman uma simples formiga. Afinal, os papéis voltavam a inverter-se, a formiga voltava a ser tigre e ele, Wade Morgan, o pistoleiro, convertia-se de novo em inofensiva formiga pelas artes de uma mulher astuta.
Mas, ainda não estava dita a última palavra. E a última palavra não a diria Drillman.
Cego de raiva, afastou as silvas atrás das quais se escondia e colocou-se em frente do par. Os dois jovens beijavam-se apaixonadamente, sem verem nada do que se passava à sua volta. Wade estendeu as mãos e separou--os violentamente. Antes que nenhum dos dois pudesse sequer reconhecê-lo, o seu punho embateu no rosto de Cris Cassel, derrubando-o sem sentidos.
Carlota soltou um grito de terror.
— Wade!
Agarrou-a pelos braços, fincando-lhe brutalmente os dedos. Os seus lábios apertados davam a impressão de uma lâmina de aço.
— Maldita...!
E uma bofetada terrível atravessou o rosto feminino, deixando-lhe quatro sulcos negros na face. Ela debateu--se entre aqueles braços de ferro, tentando soltar-se. Mas, Wade não lho permitia. Descarregou-lhe mais dois bofetões na cara, enquanto gritava:
— Vais saber a verdade de tudo, Carlota Drillman! Saberás porque nos odiamos teu pai e eu! E, quando tiver feito contigo o que os seus homens fizeram com minha irmã, matá-lo-ei diante de ti!
Colocou-a ao ombro como um saco, montou no cavalo e partiu para o «Rancho Morgan», como uma flecha.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PAS679. O tigre fraqueja perante uma mulher bonita

Contexto da passagem: Wade escapou e voltou dez anos depois, pistoleiro famoso, com o objetivo de vingar os seus e reaver o que lhe pertencia. Secundado por alguns amigos, apoderou-se do rancho da família e obrigou Drillman a devolver-lhe o gado que lhe pertencera. Entretanto, a filha deste transformara-se numa linda mulher e chegara do Este onde tivera esmerada educação. A pequena ignorava a história da família e sentia uma certa atração por Wade, visitando-o por vezes…


 
Wade estava sentado nos degraus do barracão, como todas as tardes. Fumava o seu inseparável cachimbo e olhava ao longe, onde o gado punha uma nota de vida e movimento. A seu lado, fumando também paulatinamente, Walter trauteava entre dentes uma cançoneta em voga.
De repente qualquer coisa perturbou a monotonia da paisagem, a mancha escura das reses que pastavam e a linha uniforme do horizonte.
Sobre o seu inconfundível cavalo baio, Stacy chegava ao rancho, escoltando uma pequena carruagem. No banco do veículo, via-se uma mulher vestida de azul vivo.
O coração de Wade começou a pulsar muito mais depressa do que devia. Era «ela».
Pôs-se em pé e esvaziou o cachimbo contra a parede do barracão. O cavaleiro e o pequeno carro haviam-se detido a uns seis metros.
Stacy disse:
— A menina quer ver-te, patrão.
— Obrigado por a teres escoltado, Stacy.
O rapaz piscou um olho significativamente.
— Como sabes, Wade, nós temos o bom costume de não confiarmos nas mulheres por muito bonitas que sejam.
E, sem fazer caso do olhar furibundo que ela lhe deitou, voltou o cavalo e afastou-se no meio de uma nuvem de poeira.
Walter também se esfumou misteriosamente, mordendo o seu charuto com expressão de intenso regozijo.
Carlota e Wade permaneceram uns momentos olhando-se fixamente nos olhos. Depois, o pistoleiro aproximou-se, tomou-a pela cintura e pô-la no chão com delicadeza. A cabeça de Lottie mal chegava ao ombro dele.
— Obrigada — disse a jovem, imprimindo à palavra a sua mais perigosa doçura.
Depois, começou a caminhar para o barracão, enquanto desatava as fitas do chapéu. Sentou-se no degrau mais elevado e olhou para as pastagens.
— Pelo que vejo, você é um homem de iniciativa.
Wade ocupou o degrau mais baixo. As cabeças de ambos ficaram ao mesmo nível.
— Por que diz isso?
— Garantiu-me que dentro em pouco teria gado e cumpriu. Aonde o foi buscar?
— Deu-mo seu pai. Foi muito amável.
Mas, as palavras saíram-lhe como urna dentada. Evitou olhá-la, porque os olhos azuis da jovem tinham a virtude de desvanecer todas as ânsias de vingança e convertê-las em água que se lhe escapasse entre os dedos sem que a pudesse reter.
Ela sorriu.
— Não disse isso muito convencido. Há entre meu pai e você mais do que uma simples rivalidade de rancheiros. Que é, Wade?
O olhar masculino perdeu-se na distância. Houve um instante em que sentiu vontade de lhe contar tudo, mas, como sempre acontecia, calou-se. Era como se á presença de Lottie o fizesse esquecer tudo.
— Talvez algum dia lho conte. Mas, não é nada que valha a pena.
Houve um silêncio. Carlota inclinou-se para ele, sabendo de antemão a que se arriscava. A sua voz tornou--se tão meiga e suave que o sangue de Wade começou a circular a tremenda velocidade pelas suas veias.
— Porque não esquecem de uma vez todos esses assuntos absurdos? No vale de Winslow há lugar para todos.
Lugar para todos!
Uma sombra de sorriso passou pelos olhos de Wade. Aquele rapariga nada sabia das patifarias do seu pai. Estava à vista que o poderoso Arthur Drillman não a tinha a par da sua vida e ela julgava que toda aquela fortuna era limpa e legal.
Mas, ainda não foi daquela vez que a desiludiu e limitou-se a murmurar:
— Você desejá-lo-ia?
Lottie fechou os olhos e respondeu:
-- Sim.
— Porquê?
Lottie voltou o rosto para o outro lado, como se quisesse ocultar um súbito rubor, e a sua voz foi débil, quase inaudível, por detrás do chapéu:
— É necessário que o diga?
Um relâmpago pareceu estalar em frente dos olhos do pistoleiro. Tudo desapareceu da sua mente apagado por aquela frase. «É necessário que o diga?» E, sem medir o que fazia, porque os impulsos não podem medir-se, tomou Carlota pelos ombros e fê-la virar-se para ele, ao mesmo tempo que lhe procurava a boca e a beijava.
Um beijo longo, forte, quase selvagem.
«É um bruto. Um primitivo filho da pradaria.»
Ao separarem-se, era Carlota quem estava vermelha como uma papoila, enquanto os olhos de Wade continuavam a ser dois bocados de aço brilhante.
— Será melhor que vá para casa.
Ela concordou, aturdida. Não opôs qualquer resistência quando as mãos do rapaz a ergueram até ao banco do pequeno veículo nem quando Wade incitou o cavalo com uma palmada nas ancas. A carruagem minúscula arrancou como uma flecha e afastou-se.
Wade permaneceu imóvel, vendo como a imagem da jovem se ia tornando cada vez mais pequena na distância. Depois, voltou a ocupar os degraus do alpendre e acendeu o cachimbo.
Permaneceu imóvel até que o céu se coalhou de estrelas. Depois, durante o jantar, não disse uma palavra. E tão-pouco pôde dormir naquela noite.
Na manhã seguinte, sentado a uma mesa de «Chang», sem que introduzisse nenhuma explicação preliminar entre eles, disse para o oriental, em tom firme e seguro:
— Chang, apaixonei-me como um idiota pela filha do meu pior inimigo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

PAS678. Um ninho de formigas é destroçado

Wade Morgan estava no alpendre e foi o primeiro a ouvir o rumor dos cascos dos cavalos. Voltou-se para o interior da habitação e informou:
— Aproximam-se cavaleiros!
Ben Morgan correu para o exterior, seguido por Susan e Stella. Os quatro permaneceram um momento a escutar o surdo ruído que se tornava cada vez mais nítido. Depois, Ben e seu filho cruzaram um olhar significativo.
— As mulheres que se metam em casa — ordenou Ben, secamente.
Obedeceram, em silêncio, um tanto assustadas. Wade entrou e foi buscar a sua espingarda. Ben verificou que o seu revólver funcionava perfeitamente.
Esperaram uns minutos. Depressa o grupo se tornou visível entre as sombras da noite. Cavalgavam em pelotão, quase roçando os estribos uns nos outros. Todos os cavalos do rancho de Drillman eram de sangue índio, exceto os que montava o próprio Drillman. E à cabeça do grupo ia um homem sobre um cavalo branco, de estampa diferente.
Chegaram ao pé do alpendre e pararam ali. Os dois Morgan, com as pernas abertas, separados entre si por uns três metros, cerravam a passagem.
— Nada perdeste em minha casa, Drillman. Desaparece e leva a tua gente.
Aquelas palavras provocaram um acesso de riso ao aludido. Voltou-se para os seus homens é soltou uma gargalhada que não lhe saiu muito sonora, devido ao uísque ingerido.
— Que lhes parece, rapazes?
— Está embriagado — disse, então, Wade, com os dentes cerrados.
Drillman sorriu de novo.
— Oh! Oh! O galo da índia dos Morgan! Sabes que Thal quer ajustar umas contas contigo?
 — Não tenho interesse nenhum em falar com os seus pistoleiros. Já ouviu o que o meu pai disse: desapareçam.
Drillman solto.0 uma praga e depois riu-se outra vez. Cambaleava na sela.
— Isso não são maneiras de tratar o senhor de Winslow. Não é verdade? — perguntou, dirigindo-se aos seus homens. — Não são, pois não?
Todos se apressaram a responder que não. Drillman sorriu estupidamente.
— Já ouviste a opinião dos meus homens, Morgan. Não se trata assim o senhor de Winslow. Pede-me desculpa ou arrepender-te-ás.
— Põe-te a andar com o teu pessoal, Drillman. Tenho muito pouca paciência.
Então, Drillman desmontou e todos os seus homens o imitaram. No chão, Arthur Drillman demonstrava não estar tão ébrio como parecia à primeira vista. Aguentava-se bem em pé e não via as coisas a dobrar. Aproximam-se das escadas do alpendre. A sua voz brotou como momentos antes, ligeiramente presa; no entanto, não era a mesma: havia fida um tom de verdadeira ameaça, qualquer coisa que fez estremecer Wade.
— Ben Morgan, ou sais agora mesmo das tuas terras ou lamentá-lo-ás.
— Estas terras são minhas. De aqui não sairei.
Wade sentiu a boca seca. Recordou as palavras de Drillman quatro noites antes: «Será minha, Wade Morgan! E quando me cansar dela terá deixado de ser quem é!»
Adiantou-se um passo.
— Pai, deveríamos...
Ben interrompeu-o com um gesto.
— Não.- Este rancho é nosso...
— Mas, elas...
— Tu e eu bastamos para as defender.
Wade sorriu um pouco amargamente. Seu pai sempre havia sido assim, um texano dos pés à cabeça. Nada era capaz de o demover das suas decisões uma vez que as tomasse. E contra os homens de Drillman nada poderia fazer, nem que se produzisse um milagre.
Drillman estava já no alpendre.
— Deverias ouvir o teu filho, Ben Morgan. Oh! Sim! Wade é pacífico... e sensato!
Recalcou os dois adjetivos com ironia. Wade avançou um passo para ele, apertando a espingarda.
— Cala-te ou...!
Arthur Drillman soltou uma enorme gargalhada e gritou:
— Para a frente, rapazes!
Wade e Ben saltaram ao mesmo tempo para cobrir a porta. Ben erguia já na mão direita o seu «Colt 45».
Fizeram fogo ao mesmo tempo. Dois dos pistoleiros caíram sem vida nos degraus do alpendre.
Mas, os outros entraram em ação quase no segundo seguinte.
Dois tiros alcançaram Wade Morgan, atirando-o para trás com a camisa cheia de sangue. Outros quatro ou cinco incrustaram-se em 'Ben, dobrando-o sobre o varandim do alpendre.
No solo, Wade voltou-se, com a espingarda em riste, disparando, raivoso. Viu que o cano de um revólver era apontado para ele e em seguida ouviu a voz de Thal:
— Não! A esse quero enforcá-lo eu!
Levantou-se de um salto, sem deixar de disparar. Viu cair três ou quatro pistoleiros num confuso montão. Em seguida, alguém o agrediu na nuca e sentiu uma dor fortíssima que o percorria de cima abaixo, tolhendo-o. Pouco depois, nuvens negras envolveram-lhe o cérebro e sumiram-no na inconsciência.
Os pistoleiros, com Drillman à frente, irromperam no interior do rancho. Susan tinha uma espingarda nas mãos e começou a disparar mal os viu entrar. Uma bala penetrou num braço de Drillman e mais quatro cortaram o caminho a um dos seus homens. A quinta saiu muito desviada. Com uma bala em pleno coração, Susan tombou, sem haver soltado a «Winchester».
Stella lançou-se para sua mãe, tentando apoderar-se da arma. Um dos criminosos foi mais rápido e agarrou-a pela blusa. A rapariga deu um safanão, enlouquecida pelo medo, e o homem ficou com quase todo o tecido entre os dedos.
A sua fuga foi cortada por outro dos pistoleiros e sentiu-se entre uns braços masculinos que a apertavam com terrível força. Desesperada, arranhou o rosto do homem, bateu-lhe com todas as suas energias e cravou-lhe as unhas nas faces, até que brotou sangue e o indivíduo a largou, proferindo uma obscenidade.
Contudo, nem lhe foi possível alcançar a porta. Embora Drillman estivesse demasiado embriagado para poder atentar alguma coisa contra ela, os seus homens só estavam ébrios de sangue. Quando uma bala piedosa pôs fim à vida de Stella Morgan, o aspeto que oferecia era terrível.
Pouco depois, os pistoleiros saíram para o alpendre e Thal preparou um laço que deitou sobre a pernada de uma árvore próxima. Wade sentiu que qualquer coisa fria o arrancava da escuridão em que havia submergido e, ao mesmo tempo, sentiu o calor tépido do seu sangue, que lhe corria pelo peito. Levantou-se um pouco e viu um círculo de rostos escuros nos quais se divisava o quer que fosse que lhe pôs os cabelos em pé.
Arthur Drillman, com um brilho especial nos seus olhos de ébrio e um braço cheio de sangue, sorriu alarvemente.
— Vamos, Wade Morgan. Antes de morreres, poderás ver um espetáculo divertido.
 Sentiu que o levantavam com muito pouca consideração, empurrando-o para o interior do «rancho». A primeira coisa que viu, no alpendre, foi o cadáver de seu pai, com uma enorme poça de sangue debaixo dele. A garganta contraiu-se-lhe. Depois, aos empurrões, fizeram-no assomar-se para dentro de casa.
Sua mãe, igualmente com um charco de sangue junto dela, estava por terra sem vida. E Stella, com as roupas em farrapos e manchadas de vermelho, também fora aniquilada às mãos daqueles facínoras.
Wade nem podia engolir. Os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas de impotência. E sabia que os pistoleiros o enforcariam, depois de lhe terem mostrado o que haviam feito com a sua família.
Thal Jonson afastou-o da porta com um safanão.
— Gostaste?
E todos soltaram uma feroz gargalhada.
Wade sentiu que qualquer coisa de terrível o sacudia com a força de um ciclone. Da garganta, brotou-lhe um soluço, rouco como o uivo de uma fera, e nunca soube como arranjou energias para saltar sobre Thal com os braços para a frente. Mas, saltou e o pistoleiro de Drillman sentiu que umas mãos semelhantes a garras se cerravam em volta do seu pescoço, como um garrote. Os dois caíram por terra e rolaram pelos degraus do alpendre. Quando Wade se levantou, Thal estava estrangulado e na mão direita do rapaz brilhava, naquele momento, o «Colt 45» niquelado do morto.
Sem ver sequer os seus inimigos, Wade descarregou as seis balas do tambor contra o grupo que tinha à frente. Ouviu gritos de dor e frases obscenas e os passos dos que se lançavam contra ele.
A voz de Drillman troou na noite:
— Matem-no!
O percutor bateu em seco. Atirou para o lado o revólver inútil e saltou sobre o cavalo que tinha mais perto.
Compreendeu que, se voltassem a apanhá-lo, ninguém poderia livrá-lo da morte. E ele tinha de viver. Era preciso! Porque um dia voltaria ao vale de Winslow, quando fosse um homem experiente, um pistoleiro. Voltaria e faria pagar a Artur Drillman aquele crime.
Lançou-se para a escuridão da noite, sem ver o caminho, com a garganta apertada por um soluço que não se completava, sentindo o sangue correr-lhe pelo peito, milagrosamente respeitado pelas balas que começavam a zumbir à sua volta.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

BUF122. A formiga o tigre

(Coleção Búfalo, nº 122)
 
«Quando pisares uma formiga, assegura-te que ela está bem pisada, porque pode chegar o dia em que a formiga se converta em tigre e te esmague a ti».
Começa em tom proverbial este livro que nos mostra como, em Winslow, uma cidade do Oeste onde a Lei não tinha chegado, um rancheiro sem escrúpulos destruiu toda uma família para lhe ficar com os bens. Mas um dos membros dessa família conseguiu escapar ao massacre, regressando dez anos depois para exigir o que lhe pertencia e satisfazer o desejo de vingança. A formiga tinha-se convertido em tigre.
Esta narrativa de Ros Talbot é muito interessante e o livro é um bom exemplar desta fase da Coleção Búfalo. Na novela, a própria mulher não tem um papel secundário, ela tem uma efetiva participação na ação embora num sentido negativo.