domingo, 19 de dezembro de 2021

BIS067.01 Dois irmãos chegam a Dodge City

De muito longe podia notar-se a presença da manada no caminho; porque a nuvem de poeira que levantava ao avançar a denunciava. 

Não era urna manada muito grande, umas cento e poucas cabeças; também não era muito valiosa, pois compunha-se de alguns «herefords» sendo a maioria dos cornúpetos constituída pelas chamadas «vacas de Sonora», uns animais semisselvagens, nervosos, magros, em contraste com as magníficas reses castanho-douradas de hastes curtas e sólidas, que naquela época começavam já a entrar nas últimas e mais atrasadas explorações ganadeiras do Sudoeste. 

Dois cavaleiros conduziam a manada. Tinham feito longa viagem; dias e dias em constante alerta, cavalgando sem descanso, de olhos e ouvidos vigilantes e, sobretudo, comendo e respirando poeira. 

O pó era o maior martírio. Aquele ano fora extremamente seco e a estação outonal acabava de decorrer sem chuva, de que as terras tanto precisavam. Embora isto não se verificasse nos vales selváticos donde procediam os dois cavaleiros, era um grave inconveniente para atravessar a deserta planície que os separava de Dodge City. Os poucos rios e riachos do caminho estavam secos, os mananciais eram apenas negros charcos de lodo e o calor apertava mais que nunca. 

Além disso, havia a poeira, cinzenta, impalpável, espalhada em centenas de quilómetros quadrados. Qualquer pequeno animal podia levantar nuvens de pó. 

Os dois condutores e as suas montadas eram também cinzentos, pela quantidade de pó que os cobria. O suor traçava curiosos sulcos e arabescos negros no rosto dos dois homens. Os seus lábios, secos pelo calor, estavam cobertos por uma crosta de pó. 

Sofriam muita sede, mas as terríveis jornadas habituaram-nos aos sofrimentos físicos, à fadiga e a tudo; mesmo que assim não fosse, a proximidade de Dodge City e do termo da sua viagem dava-lhes novas forças. Porque, de facto, Dodge estava já muito perto e a deserta planície podia considerar-se vencida, o que significava a conquista de algumas coisas boas como dinheiro, descanso e divertimentos. Dodge, para estas coisas, era uma boa cidade. 

Os dois cavaleiros eram irmãos. Chamavam-se Johnny e Link Martin. Johnny tinha vinte anos, o cabelo castanho, olhos cinzentos e um ar pensativo e sonhador; Link tinha dezoito, cabelo ruivo, a cara cheia de sardas e nos lábios delgados um sorriso tímido. O mais notável em ambos talvez fosse que nem a dureza da viagem, nem o agreste e solitário lugar onde viviam desde crianças, nem o rude trabalho, nada disso apagara no seu aspeto um vago timbre de distinção, um ar desportivo, como se estivessem acima de misérias e fadigas, como se estas não passassem de simples brincadeiras. 

Nas proximidades do rio Canadian, nos vales do limite setentrional do território comanche, onde os irmãos Martin tinham estabelecido o seu rancho, os homens acanalhavam-se, embruteciam-se, tornavam-se duros como a rocha, ou morriam vencidos pela Natureza. Os irmãos Martin, não. 

Ninguém sabia, nem a ninguém interessara saber que estranho acaso os levara àquele país selvagem. Fosse qual fosse, eles haviam vencido, dominado o país. Adivinhava-se neles, à simples vista, que descendiam duma estirpe de dominadores. 

A noite surpreendeu-os sem avistarem Dodge City. Contavam chegar à cidade antes do crepúsculo, mas as trevas adensaram-se, obrigando-os a acampar. Johnny procurou local próprio e encontrou-o. Ia ser o último acampamento, a última noite sob as estrelas. No dia seguinte, a cama dum hotel. 

O próprio Johnny se encarregou de acomodar as reses, enquanto seu irmão preparava o jantar. Esgotaram a sua última reserva de água fazendo uma grande cafeteira de café para remolharem o pão seco que levavam nos alforges. 

Depois, para tranquilizar os animais, sedentos e enervados pelo longo e poeirento caminho, Link pegou no seu banjo e cantou. Era o costume nas viagens ganadeiras, desde que os «cowboys» descobriram que a música acalmava as reses e reduzia o perigo dos ruídos noturnos. Quando terminou a sua canção, Link voltou-se lentamente para o irmão. O cricri dos grilos, o mugido duma vitela e o surdo resfolegar das vacas rumorejavam na noite. 

— Dormes? 

Johnny estava estendido de costas, completamente imóvel, com a cabeça apoiada na sua sela de montar. 

— Não. 

Link levantou-se para guardar o banjo e ir buscar a sua manta. 

—Johnny. 

— Que foi? 

— Não é bom que penses tanto nela... 

Link gemeu mim esforço para tirar as botas. Depois recostou-se com os pés na direção da fogueira e acrescentou: 

— Já passaram dois anos. 

— Bem sei. 

— Johnny… 

— Cala-te. Não penso, sonho. E sonhar não faz mal a ninguém. 

— Está bem — murmurou Link. 

E enrolou-se na manta. 

A meia da manhã do dia seguinte, chegaram à chamada capital mundial dos «cowboys»: Dodge City. O sol ardia num céu avermelhado. Via-se pouco gado nos currais. Os habitantes, abrigados da sombra, viram--nos passar. A cidade estava como que adormecida sob o violento calor. Ninguém a imaginaria como realmente era: um foco de vício, de violência, de crime e corrupção. 

A seca matara muitas reses por falta dos pastos, queimados durante aquele Verão terrível que parecia nunca mais acabar, os negócios eram muito reduzidos. 

Johnny e Link Martin sabiam que, para eles, o momento era bom. O preço das reses subia na proporção da sua escassez. 

Criar gado nas terras de Panhandle, onde os irmãos Martin o criavam, constituía uma temeridade, não só pela proximidade dos comanches que percorriam o Norte, pela frequência dos fora da Lei que se refugiavam nas margens do Canadian, do despovoado da região, como pelo acidentado e agreste do terreno, que não permitia reunir e vigiar grandes manadas e fazia que estas tendessem frequentemente a dispersar-se e a transformar os animais em selvagens. 

Quase todos os «cowboys», acostumados às pradarias do Texas ou às imensas planícies da Meseta Central não serviam para trabalhar ali. Nas pradarias ou nas planícies ninguém os podia igualar; não tinham rival a guardar manadas, perseguir e laçar vitelas e bezerros, derrubá-los e marcá-los; mas não era a mesma coisa realizar estas tarefas em campo aberto, ou numa região cheia de gargantas, bosques e colinas. Muitos que o tentaram fracassaram e viram-se forçados a regressar às suas origens, vencidos por aquela terra sem compaixão, quando não ficavam ali sepultados. Só os vaqueiros mexicanos, mestiços e índios, desprezados na planície, tinham naquelas terras alguma possibilidade, habituados como estavam a trabalhar em condições ainda piores; mas quase todos se estabeleceram ao sul do Texas, entre Pecos e o Rio Grande, nas regiões montanhosas. que rodeavam o Passo. Raramente alcançaram Panhandle. 

Os irmãos Martin tinham realizado, todavia essa temeridade e agora recolhiam os frutos. Meia hora depois de entrarem em Dodge, somente meia hora, a manada já não lhes pertencia e receberam por ela um grosso maço de notas. Tal como esperavam, a seca causava sérios prejuízos nos gados do Texas do sul do Rio Vermelho e, especialmente, prejudicara a regularidade e o volume do seu transporte, razão por que havia no mercado grande falta de reses e os preços estavam pelas nuvens. 

Foi assim que aos Martin lhe foram materialmente arrebatados os animais das mãos. Nunca tinham visto tanto dinheiro junto. Logo que o receberam, precipitaram-se numa taberna e ali satisfizeram toda a sede acumulada ao longo de quilómetros e quilómetros a comer poeira. Saciaram-na com «whisky» do melhor. Aquele maço de notas que tinham nos mãos representava o lucro de dois anos de duríssimo trabalho e era preciso para ocorrer a infinitas necessidades do seu rancho, perdido nas margens do Canadian. Mas eram livres e ricos e ninguém os impedia de destinar uma parte desse dinheiro à boa vida, ao repouso, à diversão, e a quanto Dodge lhes pudesse oferecer. E Dodge estava organizada para oferecer muita coisa. 

Cerca do meio-dia procuraram alojamento num hotel, reservaram quartos e dirigiram-se a um armazém para adquirir roupas com que substituir os seus atavios de trabalho. Compraram cada um uma equipa completa, desde o chapéu às botas. Depois foram ao barbeiro. Cortaram o cabelo à moda e fizeram a barba. Quando entraram no restaurante e se sentaram à mesa para saciar o seu formidável apetite, ninguém diria, vendo-os com os seus fatos novos, que acabavam de realizar uma penosíssima. viagem na companhia de cento e tantas vacas. O seu aspeto era impecável e irradiavam juventude, bem-estar e otimismo. 

Acabada a refeição, Link acendeu um charuto e respirou fundo. Tinha o rosto radiante de prazer, corado sob as sardas. Sorria tomo uma criança ante um brinquedo novo. 

— Voltaremos brevemente, não é verdade Johnny? — perguntou. — Fomos idiotas estando dois anos sem vir à cidade. Isto, sim, que é viver! Faria esta viagem dez vezes, só para estar aqui uma semana! 

Johnny concordou em silêncio. Era tão grande a sua satisfação que não podia falar. Projetava uma infinidade de coisas ao mesmo tempo, todas agradáveis, todas ao alcance da sua mão, protegido por aquele maço de notas. 

— Poderíamos repetir a visita na Primavera — acrescentou Link. — Se puséssemos a manada mais para o norte, empurrando-a para a saída dos vales, separaríamos mais facilmente as reses para a venda e atravessaríamos o deserto num abrir e fechar de olhos. A estação é melhor, há chuvas, mais erva, tempo fresco. E voltaríamos no Outono4 como agora. 

Johnny escutou-o sem replicar, mas pensando que o entusiasmo do seu irmão era excessivo. Ele sabia que não podiam vender nem uma vaca na Primavera, recém-acabado o rude Inverno e com os bezerros novos ainda precisados das mães. O seu rancho não era bastante produtivo. Não lhes permitira sequer virem no Outono passado ao mercado. Não era negócio dizimar prematuramente a manada. Era preciso acumular os lucros e o capital, durante algum tempo, para que os lucros seguintes se multiplicassem. 

Johnny não esquecia quais tinham sido os seus princípios como rancheiro: uma choupana de ramagens pouco melhor. que a choça de um índio, uma cerca construída estaca a estaca, as primeiras perseguições às reses bravas, através dos bosques, os contínuos fracassos; por fim, as primeiras vacas apresadas e marcadas toscamente com o sinal de dois «MM». Assim se converteram ele e Link em proprietários. 

Eram ainda duas crianças quando levaram a Dodge o primeiro rebanho, registaram a marca na Associação dos Ganadeiros e efetuaram a sua primeira venda. Aqueles lucros iniciais serviram-lhes de muito. Construíram uma casa mais cómoda, compraram bons cavalos e contrataram um «cowboy» mestiço. 

A época seguinte foi quase de prosperidade. As manadas cresceram e a marca «MM» alargou-se. Venderam sessenta cabeças na sua segunda visita e empregaram quase todo o dinheiro na compra dos bois «herefords» que ambicionavam. Passaram dois anos sobre aquela época. Mas com os «herefords» recomeçaram as 'dificuldades. Os famosos castanhos-doura-dos reproduziram-se pouco e morreram em alarmante percentagem. Era preciso esperar que se aclimatassem nos vales. Impossível voltar a Dodge na Primavera e quem sabia se até no Outono seguinte. 

Johnny fez um esforço para falar.

— Receio que tenhamos de nos encher de paciência disse. 

Link olhou para ele, tentando ler-lhe o pensamento. 

— Outros dois anos? 

— Talvez. 

— Tu também? 

— Porquê eu? 

Link acentuou o sorriso. Não era a cidade, nem o bom «whisky», nem. as diversões, a limpeza ou a boa cama dum hotel, o que atraía a Dodge o seu irmão mais velho. Também não era aquilo o motivo da sua intranquilidade no rancho, o que estimulara a sua ambição, o que o mantivera sobre brasas durante os dois anos últimos. Não era aquilo que o impedia de dormir durante as noites. Era outra coisa. Link sabia-o. Disse para o irmão: 

— Não sejas tonto, Johnny. 

— Deixa-me em paz! 

O rapaz riu-se. 

— Não seria deixar-te em paz, mas em guerra contigo mesmo. Que diabo esperas? Que fazes aqui? 

Johnny fugiu ao olhar do irmão. 

— É cedo. 

— Não é. Tu é que és um pobre tímido, é o que acontece. 

— Cala-te, Link! 

— Muito bem. Adiaremos para daqui a dois anos, se o preferes. Então, terão passado quatro. Será um milagre que ela ainda te espere. 

Houve um longo silêncio e, de repente, Johnny murmurou uma praga. 

— Será já um milagre que ela ainda me espere agora — replicou. 

— É isso o que te retém? É o medo de sofreres uma desilusão, que ela te tenha esquecido ou que tudo esteja diferente? 

— Claro que sim. 

— Se não fores falar-lhe, não sairás de dúvidas. Experimenta verificares. 

Johnny esfregou nervosamente as mãos. 

— Nunca te falei nisto, Link. 

— Não sou cego. Foi uma rapariga com quem dançaste uma noite, há dois anos. Era uma professora. 

Johnny baixou os olhos: e corou ligeiramente. 

— Sim, foi ela. Não pude esquecê-la. Em todo este tempo não consegui afastá-la do pensamento. É curioso. A sua imagem deu-me alento, forças... Creio que enche toda a minha vida. 

Link fumava sem deixar de sorrir. 

— Vai falar-lhe, Johnny. 

— Terei de ir — concordou o irmão. — Sei que não me enganou, que não era pessoa capaz de enganar-me. Apaixonámo-nos um pelo outro por acaso, no baile da Associação dos Ganadeiros. Não voltámos a ver-nos nem tive dela a menor notícia, mas jurou esperar-me e eu jurei que viria procurá-la. Tu não te lembras dela, pois não, Link? 

— Não — confessou Link. E acrescentou vagamente: — Era loura. 

— Era tão bonita! — exclamou Johnny, com ingénuo entusiasmo. 

Desvanecia-se toda a sua reserva. Guardara aquele segredo dentro do peito durante dois anos, mas agora não podia conter-se. 

— Hoje... pedir-lhe-ei que case comigo. Estou em situação de o fazer, não achas, Link? 

Link examinava o seu irmão de soslaio. Não queria mostrar-se trocista, mas gozava vendo o solene Johnny, o sisudo e circunspecto Johnny, tão perturbado. 

— Estás realmente. 

— Escuta, Link. 

— Continua, Johnny. 

— Link, importas-te de compartilhar a nossa casa com a senhora Johnny Martin? 

O rapaz deu uma gargalhada. E, todavia, de repente, deixara de sentir alegria. Subitamente, as coisas apareciam-lhe no seu aspeto real. Johnny casaria, haveria uma mulher no rancho. Haveria filhos, com o tempo. Tudo seria completamente diferente entre ambos. A luta lado a lado, a compenetração absoluta, aquela convivência tão perfeita que, durante dias e semanas, não exigia qualquer palavra para uma compreensão, acabaria para sempre. Uma etapa da sua vida. 

Mas Link não perdeu o seu sorriso infantil. Inclinou-se para a frente, estendeu a mão e apertou o antebraço de Johnny com afeto. 

— Não me importo. A senhora de Johnny Martin será bem-vinda. Vai procurá-la e boa sorte! 

Ficou no restaurante acabando de fumar o seu charuto, enquanto Johnny saltava para a sela do seu cavalo. Conservou-se imóvel durante muito tempo. Meditava. Procurava imaginar o que seria o rancho com a mulher de Johnny e os filhos de Johnny. Seria o lar de Johnny. Seria um lar onde ele representaria o papel de convidado perpétuo. O papel de intruso. O papel de quem está a mais. Uma etapa da sua vida terminara para sempre. Tarde ou cedo tinha de começar outra. Talvez quanto antes melhor. 

Entretanto, ao lento passo do seu cavalo, Johnny Martin avançava abstrato pelas ruas de Dodge. Pensava na professora loura a quem, dois anos antes, jurara voltar. Só nela concentrava todos os seus pensamentos. Não pensava que o dinheiro da venda do gado ficara em poder de Link. Não pensara no que acontecera havia já cinco anos, muito longe dali, em Richmond, na Virgínia. Não pensava na pessoa a quem aquilo acontecera. - Todavia, aquela pessoa era seu pai e Link herdara muitas coisas de seu pai. Uma delas era o seu sorriso infantil; outra, o estranho veneno que trazia na alma. Johnny Martin só pensava na professora... 


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