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domingo, 5 de fevereiro de 2017

PAS722. No dia do cortejo fúnebre

O relógio da morte continuava a martelar o seu tiquetaque sinistro.
Quatro homens levavam o caixão que continha o corpo do velho caçador Parkings Hawks. O xerife acompanhava-o. Caminhava como um sonâmbulo, olhando as ponteiras das botas, de cabeça baixa, lutando para conter as lágrimas, enfurecido contra o destino.
Outras pessoas seguiam o cortejo fúnebre. Hawks tinha muitos amigos e, no caminho para o cemitério, o silêncio que todos mantinham era a mais sentida e expressiva homenagem que podiam dedicar àquele que desaparecera, o velhote corajoso e alegre.
O campo santo estava cheio de sepulturas encimadas por cruzes, e alguns epitáfios recordavam o que tinham sido alguns daqueles mortos.
Uma cerimónia simples e cristã foi o último ato consagrado a Hawks. Depois o coveiro, um tal Danvers, começou a desempenhar a sua macabra tarefa, com a indiferença que é consequente do hábito. Terminada a cerimónia, todos os acompanhantes partiram; mas Joe ficou no cemitério. E, no silêncio apenas perturbado pela brisa da tarde, pensou na fragilidade esquiva da vida; e pensou nos xerifes que tinham passado por ali antes dele, e agora apodreciam na terra.
Invadia-o uma tristeza que pesava no seu espírito como uma enorme lousa. Sentia remorsos por ter deixado que o velho Hawks ficasse com ele, em vez de o obrigar a partir pelos seus caminhos de caçador. E um sentimento novo, alheio ao seu ânimo sereno e justo, se apoderou dele. Jurou a si mesmo destruir Gregory Sand, embora a tarefa o obrigasse a voltar ali, àquele cemitério cuja terra guardava os restos de homens tão valentes como ele, fechado numa caixa de madeira tosca, como a que encerrava o corpo do pobre Hawks.
Quando Joe saiu finalmente do cemitério, tinha as feições contraídas e os punhos crispados. Nada, nele, fazia recordar o sorridente rapaz de dias antes. Chegou rapidamente a Lighty — a última e definitiva morada dos seus habitantes ficava perto da povoação — e sentiu o desejo imperioso de beber um «whisky».
No «Globe», junto do balcão, pensou com funda saudade na ausência do velho que um dia se lhe tinha dirigido sem cerimónias, aconselhando-o a mudar de ares. Como poderia ele supor, então, que seria o primeiro a partir? A ironia da vida e da morte...
Joe pediu uma garrafa e, em silêncio, bebeu à memória do bom companheiro que desaparecera para sempre. Antes de sair olhou em volta, como para lembrar a noite da sua luta, a noite da vitória que partilhara com Hawks.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

PAS721. O jogral de Nevada

Quando, naquela noite, Joe English entrou no «Globe Saloon», todos os olhares convergiram sobre ele. Joe dirigiu-se ao balcão, no seu andar despreocupado, e, sem abandonar o seu habitual sorriso, pediu um «whisky». Enquanto o bebia, ouviu uma voz a seu lado:
—Muito cuidado hoje, amigo xerife.
Voltou a cabeça para o lado de onde vinha a voz, e a primeira coisa que viu foi o olhar penetrante de Parkings Hawks.
— Olá!... — disse Joe. — O que significa a sua amigável advertência?
— Significa que Gregory Sand e os seus homens estão aqui, e não tiram os olhos de cima de ti.
—Não vejo porquê, amigo Hawks... Não venho prendê-lo... ainda.
—É a melhor ideia que podias ter tido.
Naquele momento entrou no «saloon» o homenzinho do banjo, o mesmo que se tinha permitido acusar Sand, na presença do xerife. Levava o instrumento debaixo do braço e, logo que se encontrou no centro da casa, começou a tanger as cordas e a cantar:
Nevada
país selvagem. Nevada
terra sonhada.
Os vaqueiros, sobre os velozes cavalos, desafiam o vento, em doida galopada.
E o seu destino é lutar contra a morte
que quer ceifá-los, cruel,
num instante.
E entre o fumo da pólvora
e secas detonações
morre aquele que não soube antes
empunhar o seu «Colt»...
 
Terminou a canção. Depois, com um gesto particular, insinuou que estava disposto a receber qualquer prova de aplauso, se possível em dinheiro, ou então num par de bebidas que lhe oferecessem.
— Quem é esse tipo?... — perguntou Joe, recordando a cena de horas antes.
—O jogral de Nevada. É conhecido em todas as casas do género desta. Tem uma balada para cada Estado e parece que as cantigas lhe rendem, porque lá vai vivendo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

PAS720. Um sorriso para o xerife

Enquanto se encaminhava para o sítio onde tinha deixado «Snow Flake», Joe pensava na curta converso que tivera com os três poderosos ganadeiros. Não lhe agradara. Aqueles homens pareciam querer, com boas palavras desligarem-se do assunto.
Já vinha agarrado as rédeas do cavalo e dispunha-se a partir, quando alguma coisa o obrigou a deter-se. Acabava de ver aparecer uma rapariga de singular beleza. Teria talvez vinte anos. Tinha o cabelo loiro penteado em duas tranças, que pareciam feitas de raios de sol; os olhos em amêndoa, quase da cor dos cabelos, tinham o brilho lânguido e inocente dos olhoS das gazelas; narizito pequeno e levemente arrebitado dava-lhe uma graça especial à cara muito bonita, cujos lábios, vermelhos como morangos, se entreabriam num sorriso.
Joe ficou imóvel, absorto pela maravilhosa visão. Não sabia quem era ela; não tinha qualquer motivo para a deter; mas olhava-a, pasmado, possuído por uma estranha fascinação. Era a primeira vez que uma mulher lhe causava uma impressão tão profunda.
A rapariga, sem deixar de sorrir, caminhava para ele, com uma tal graça de movimentos que Joe pensou se não estaria a ser vítima de uma alucinação.
—Olá!
Só faltava a música da sua voz, para que ele se convencesse realmente de que era uma aparição fantástica.
— Olá... — respondeu, com dificuldade.
— Creio que é o novo xerife... — disse ela, em voz tranquila.
— Sou, realmente...
— Eu chamo-me Diana... Diana Chambers.
— Ah!... — a surpresa quase fez com que Joe perdesse a voz. — É portanto a filha de...
— Sou... — atalhou ela, sorridente.
Não era possível continuar a pensar nela como num sonho. Aquela lindíssima rapariga era de carne e osso, como as outras, e filha de Guy Chambers, o dono da casa, com quem Joe acabava de falar.
— Muito prazer em conhecê-la... — respondeu ele. — Eu chamo-me Joe English.
— Já sabia... — volveu a jovem. — Interessei-me por si, logo que chegou. Os xerifes que se atrevem a vir ,para aqui são sempre interessantes. Parece que a vida não tem grandes atrativos para eles; além disso, no que se refere a si, há quem diga que... — interrompeu-se, titubeando.
— Peço-lhe que conclua o que ia dizer.
— Afirmam que você é o mais provável candidato que a morte teve alguma vez. E desculpe o meu tom de melodrama... Quis que eu terminasse a frase que me arrependi de ter principiado...
— Talvez tenham razão.
Ela olhou-o atentamente e não respondeu. Realmente o aspeto de Joe English fazia pensar num rapazinho ingénuo.
— É-me simpático por uma coisa...
— Sou-lhe simpático? Oh! Obrigado!
— É-me simpático... — repetiu ela — ... porque parece desconhecer a fanfarronada, um vício que tem muitas raízes por aí. Além disso... como poderia ser cobarde quem teve a coragem suficiente para se meter neste vespeiro? Suponho que o tinham informado antes...
— Obrigado pelas suas palavras. Prometo-lhe mostrar-me digno delas.
Ela sorriu mais, e aquele sorriso cravou-se na alma de Joe, como um dardo luminoso. No caminho de regresso, a recordação daquele sorriso fê-lo esquecer as preocupações que a reunião com os três ganadeiros lhe tinha causado.
Era difícil, no entanto, era difícil e perigoso, lutar contra a rotina.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

PAS719. Lobos de dentes afiados

Os lobos não se tinham disfarçado de cordeiros, mas descansavam nos seus covis.
O lobo que tinha os dentes mais afiados era Gregory Sand, um tipo tão novo como patife.
É difícil encontrar um homem que seja totalmente bom, ou totalmente mau. Os piores sentem por vezes cravar-se o espinho do remorso nas suas consciências pervertidas; os melhores, num momento de obcecação, quando o sangue enlouquece o cérebro, como uma torrente de lava, são capazes de destruir o que mais amam. Mas Gregory Sand era apenas mau, autenticamente mau, sem honra e sem sentimentos, como se todos os diabos do inferno se tivessem alojado no seu corpo robusto.
Os seus olhos eram espelhos fiéis, onde se refletiam os seus instintos criminosos. Não podia dissimular as suas intenções perversas, que praticamente se resumiam numa só: matar. Matar pelo prazer sádico de matar. E disso se encarregava o seu «Colt» certeiro, implacável, e o bando de pistoleiros a soldo, que o serviam.
A Gregory Sand podia atribuir-se, sem receio de enganar, a morte de dois xerifes, um deles o imediato antecessor de Joe. Depois do assassínio, ele e o seu bando tinham, partido. Sem dúvida aproveitaram o intervalo para se dedicarem a saquear todas as presas que passaram ao alcance das suas garras de aves de rapina. Depois apresentaram-se de novo em Lighty, como vencedores que se sabem em segurança no seu quartel-general.
— Já cá temos um novo xerife... — encarregou-se de avisá-lo um dos homens ao seu serviço, que continuara na cidade.
— Calculava isso... — respondeu o bandido, sorrindo. — Que tal é?
— Um melro branco. Uma criança. Teremos de mandar-lhe flores brancas, no dia do seu enterro.
— Queres crer que gostaria de conservar esse querubim? Vale mais um xerife subornado do que um xerife morto; sempre é uma ajuda.
— Este não vai servir-nos para nada. É como um passarinho que a mãe tivesse abandonado no ninho.
— Tenho de vê-lo... — declarou Sand, seguro de si mesmo. — Rapazes... — no compartimento estava parte do seu bando. Os homens conversavam e fumavam— ...vão indo. Muito cuidado, e nada de lutas em que não haja lucro.
Ao ficar só, Gregory Sand sorriu. Estava a converter-se rapidamente num homem rico. Não era inteligente, mas era de uma eficiência notável — com um revólver na mão. Era tão forte que poderia lutar com um urso, se isso lhe apetecesse. Tinha a certeza de triunfar e de se proclamar, como um senhor feudal de outros tempos, dono de Lighty. Os obstáculos que se interpusessem no seu caminho seriam varridos com uma rajada de chumbo quente. Via próximo o triunfo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PAS718. Um aviso ao xerife

Quando Joe English chegou a Lighty, Nevada, exibindo no peito uma estrela de xerife, ninguém o tomou a sério. Joe era um rapaz muito novo, parecia muito tímido e a cidade, pequena mas sempre cheirando a pólvora, já vira cavar uma porção de sepulturas para receber os corpos inanimados de vários servidores da lei que tinham sido fortes, audazes e experientes. Que diabo ia ali fazer aquele rapazito imberbe? Essa primeira pergunta refletia-se em todos os espíritos. Joe tinha apenas vinte e três anos, cabelos loiros e olhos cinzentos com uma expressão tão ingénua que davam a ideia de que ele havia saído pouco tempo antes do colégio. Não teria ainda sido suficiente o número de vítimas? Seria possível que os seus superiores tivessem apenas serradura na cabeça?
Joe pareceu não reparar na impressão que causava. Ocupou as instalações destinadas aos xerifes, visitou as pessoas que, pelo seu prestígio, significavam alguma coisa na cidade — e que o receberam com um ar protetor e vagamente compadecido — e começou a exercer as suas funções.
Tinha decorrido menos de um ano depois do fim da guerra que opusera o Norte contra o Sul. A tragédia, longa e sangrenta, começava a esquecer pouco a co. Os aventureiros proliferavam em todos os Estados da União. Homens enriquecidos à custa do sangue dos seus compatriotas continuavam a troçar da Lei; pistoleiros atrevidos impunham, com as suas armas, as suas próprias leis. Lighty, como tantas outras cidades, tinha chegado ao ponto de se familiarizar com o detonar dos «Colts», e o menos destro, ou menos ousado, por qualquer questão sem importância era abatido para nunca mais se erguer. Aqueles que, pela sua situação privilegiada, teriam podido deter aquele alastrar de crimes que tomava cada vez maiores proporções, estavam por seu lado mergulhados na maré turva da corrupção, em cujas profundidades todos pretendiam ser pescadores de lucros. Se por acaso e exceção se erguia uma voz justiceira, se um coração honesto se indignava, breve esse coração deixava de palpitar e a indignação era afogada pelo troar das armas.
Por isso a chegada de Joe English á cidade tinha provocado o riso, um riso trágico, embora. A alguns poderia perdoar-se-lhes que não chorassem de raiva ou de deceção — porque não seriam capazes disso, estavam demasiadamente empedernidos; a vida perigosa tinha há muito calejado a sua sensibilidade.
Joe sorria sempre, e isso fazia com que ele aparecesse ainda mais infantil. Mostrava os dentes, irregulares mas muito brancos, e parecia não compreender a realidade. Era nesses momentos que nascia a compaixão em algumas almas generosas. «Tão novo... e já podemos considerá-lo morto...», era o que diziam.
Joe usava dois revólveres pendentes de um largo cinturão que lhe cingia a cintura delgada. Dava voltas e mais voltas pela cidade, sempre risonhos, visitava a todas as horas os numerosos «saloons» e tabernas, ninhos de desordens.
Havia já duas semanas que ele tinha chegado a Lighty, e nada ocorrera de anormal, ainda. «Menos mal... — diziam alguns — ... viverá enquanto o deixarem». A única coisa que Joe tinha conseguido, até então, era tornar-se enormemente simpático.
Todos — ou quase todos — os habitantes da cidade estavam encantados com ele, especialmente Parkings Hawks, um caçador que, quando tinha dinheiro, não descansava até gastar o seu último cêntimo, esquecido da sua espingarda e do seu ofício.
— Quem te enganou, rapaz?... — perguntou Hawks ao novo xerife, na primeira vez que o encontrou a seu lado, apoiados ambos ao balcão de um «saloon».
Joe olhou para o velho e respondeu, divertido:
— A minha avó passou a vida a dar-me bons conselhos.
— Ah! Ah!... — riu Hawks. — Tens o atrevimento da inocência. E és divertido. Desde este momento ficas a fazer parte dos bons amigos de Parkings Hawks.
— Obrigado.
— Podes agradecer, rapaz. Não conheces o terreno que pisas, e vais escorregar. Um amigo como o velho Hawks, nestas condições, é um tesouro. Pagas-lhe um copo e ele converte-se num irmão, pagas-lhe uma garrafa inteira e ele passa a ser como uma mãe...
-- Podes beber a garrafa, Hawks. Uma mãe com barbas foi sempre a aspiração da minha vida.
— Rapaz, falas melhor do que um candidato em véspera de eleições.
—És sempre assim adulador, antes de beber? Deus me livre dos teus elogios, quando chegares ao fundo da garrafa!
— Não te esqueças de que o papel de mãe começa no momento dá oferta... — volveu Hawks, com uma sonora gargalhada. — E agora... — o criado, a um sinal de Joe, pusera a garrafa em cima do balcão — ... vou beber à tua saúde.
— Obrigado... — Joe tocou com o copo no do novo amigo, e bebeu. — À tua saúde! E agora dá-me licença para ir andando. Já visitei todos os recantos e já vi todas as caras.
— Está bem, amigo. Se queres cozinhar o frango e comê-lo, isso é lá contigo. Mas não te esqueças de que o velho Hawks te avisou.
O rapaz sorriu. Depois, despediu-se, com um aceno da mão, e saiu.
Entrou ainda noutro «saloon»; e noutro. Depois encaminhou-se para casa.
— Joe... — disse ele consigo mesmo, depois de se ter estendido confortavelmente em cima da cama. —Está-me a parecer que exageram muito. A não ser que os lobos, se tenham disfarçado de cordeiros...

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

PAS717. Massacre ao fim da tarde em dia de festa

Todos os anos se realizava em Carson City uma festa que não podia comparar-se a qualquer outra; era diferente, e extraordinária. Uma infinidade de forasteiros vinha de todas as cidades em redor. Durava/ três dias, a festa. Três dias de uma espécie de loucura coletiva e ao mesmo tempo ingénua, três dias de divertimentos.
Eram os rapazes que a gozavam mais intensamente. Eram eles os que esperavam a festa com maior impaciência. E, quando ela terminava, apoderava-se deles a nostalgia, durante algum tempo — e depois recomeçavam a sonhar com o ano próximo, para reviverem uma vez mais as proezas dos cavaleiros e a destreza ímpar dos que faziam alarde de espantosa pontaria, acertando em moedas atiradas ao ar.
Carson City vivia novamente a realidade dos seus dias grandes, e uma multidão pletórica de alegria buliçosa enchia as suas ruas. As mulheres exibiam as suas melhores galas; os vaqueiros, orgulhosos de si mesmos, andavam atrás delas; os «saloons» estavam cheios. E os garotos, comendo guloseimas, divertiam-se sem peias, esquecidos da escola ou da severidade, paterna.
De súbito, dominando o rumor das conversas e dos risos, ouviu-se o furioso tropel de uma galopada. Mais de uma dezena de cavaleiros passou, a toda a brida. Ao princípio toda a gente julgou que' se tratava de vaqueiros que vinham divertir-se.
Foi ao fim da tarde.
Não eram vaqueiros. Tinham um aspeto sombrio, desesperado, sinistro.
Alguém reparou nesse aspeto — e nasceu uma terrível suspeita, bruscamente.
Os cavaleiros desmontaram e espalharam-se rapidamente. Dois deles tinham corrido para a porta do Banco, onde colocaram qualquer coisa. O homem que desconfiava, ao ver o brilho de um fósforo não hesitou mais, e disparou um tiro para o ar; mas o tiro foi abafado por uma tremenda explosão.
As portas do Banco voaram em estilhas, e no mesmo instante os bandidos entraram. Os homens da povoação, apanhados de surpresa, tardaram em reagir; julgaram que se tratava de fogos de artifício, em relação com a festa. E, quando se espalhou o alarme, já os pistoleiros, bem colocados, espalhavam a morte à sua volta, enquanto alguns deles preparavam a fuga, carregados com a presa conquistada.
As espingardas e os «Colts» entoavam a sua canção sinistra. Caía a noite, e os jatos de lume das armas brilhavam lugubremente. O ambiente, saturado de pólvora, tornou-se angustiante. A Morte dominava a festa.
Os bandidos fugiram, uma vez conseguidos os seus fins criminosos, e nas ruas, onde pouco antes reinava a alegria, os corpos ensanguentados eram agora a nota trágica, que cobria de luto a cidade.
A um dos lados da rua, um garoto chorava, abraçado ao cadáver do seu irmão mais pequeno. As lágrimas corriam sobre a sua facezita transtornada, lívida. O tiroteio apanhara-os em cheio, e o mais novo dos dois pequenos tinha caído logo aos primeiros tiros, ao passo que o irmão, tendo-se lançado rapidamente para o chão, salvara a vida. A dor enlouquecia-o, mas um impulso viril crescia de súbito naquele corpo de criança. De lábios apertados, contraídos, jurou a si mesmo que quando fosse homem serviria a Lei, com todas as forças do seu coração, e que em cada bandido que abatesse vingaria o irmãozito morto.
Decorreram os anos...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

BIS127. Chumbo quente

(Coleção Bisonte, nº 127)
 
 A narrativa deste livro inicia-se em Carson City e prossegue alguns anos depois em Lighty sem se perceber muito bem a conexão entre prólogo e texto principal. Fica a sensação que o menino que escapou ao massacre é o xerife de Lighty, mas, em parte alguma, o autor o refere.
Aliás toda a sensação da obra é que as coisas acontecem sem se saber porquê. Os bandidos são bandidos porque são bandidos. O xerife, é…
Há, apesar de tudo, algumas passagens interessantes pela capacidade de narrativa de Fletcher. Vamos deixar essas passagens sem, avisamos desde já o leitor, sentirmos um fio condutor no que se apresenta.
O livro tem mais uma excelente capa de Longeron, não se sabe se inspirado nesta novela se noutra de Fletcher…