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domingo, 11 de junho de 2017

PAS761. O sacrifício de Caroina

Os homens de «A Encantada», tinham colocado grinaldas de flores e lanternas japonesas no alpendre da casa. Aqueles homens, que na sua maior parte conheciam Jarvis Hamilton desde criança, adoravam o seu chefe e estavam muito contentes com a sua felicidade.
— Viram-no esta manhã? Parece outro, sorri como não o víamos sorrir desde a morte de Stuart F. Jones. A pequena é muito linda e parece boa. Oxalá o patrão tenha sorte com ela.
— Sim, oxalá. Mas eu não me fio nas mulheres. O meu pai dizia sempre que a melhor companhia é a de um homem só, e isso se se entende bem consigo mesmo...
Preparou-se tudo para a cerimónia no vestíbulo da casa. Ao fundo, colocou-se o pastor, com as principais personagens. A gente do rancho enchia tudo o resto e alguns ficaram fora, a assistir através da porta aberta.
Jarvis Hamilton tinha a seu lado Margie, que estava impante de formosura. Todos os presentes olhavam a linda noiva e, claro, ninguém reparava em Louis Farrell, que ficara junto da entrada, encostado à ombreira.
— Silêncio — gritou o xerife, convidado para a cerimónia. — Se não se calam, não se poderá escutar nada e muito menos o «sim» da noiva.
Houve risos e, pouco a pouco, foi-se estabelecendo o silêncio. O pastor decidiu-se a começar, para o que abriu o seu livro. Margie deitou uma olhadela a Farrell, que assentiu, sorrindo ao de leve. Ninguém deu por isso, exceto Carolina. A mais nova das irmãs Donovan empalideceu, ao ver Farrell retroceder, afastando as pessoas que estavam atrás dele, até ficar sem ninguém que o separasse do cavalo, que esperava, selado, junto da escadaria.
— Não — murmurou a rapariga.
Louis Farrell tinha o rosto crispado e mostrava os dentes numa careta que o assemelhava a um lobo. Ouvia os risos nervosos de Margie e as palavras monótonas do pastor. Ela só via Farrell, como se os outros tivessem desaparecido, todos, exceto Farrell e Hamilton, que sorria, muito senhor de si mesmo, muito elegante.
Louis Farrell meteu a mão direita debaixo da sobrecasaca. Antes de continuar, virou a cabeça, para ter a certeza de que o cavalo estava pronto para a fuga.
«Desta vez, Jarvis Hamilton descuidou-se», pensou. «Até retirou os guardas dos limites do rancho. Desta vez acabou-se, Hamilton».
Lentamente, tirou a navalha. Tinha Hamilton diante dele. O pastor estava defronte de Margie, mas ninguém se interpunha entre Farrell e Hamilton. A gente do rancho aproximara-se mais dos noivos e, para não pisarem a carpete do centro, tinham deixado um espaço livre à volta dela. Assim, Louis Farrell encontrou mais facilidades do que esperava.
— Menina, repita as minhas palavras — pedia o pastor, naquele momento.
Farrell tirou a mão com rapidez e segurou a navalha
pela ponta da lâmina. Era um excelente atirador de navalha, que lhe inspirava mais confiança do que o revólver, àquela distância.
Ergueu-se um pouco ao lançar a navalha, para lhe dar maior impulso. Carolina Donovan não deixara de o observar. Soltou um grito instintivo:
— Senhor Hamilton!
A rapariga afastou Leonora e correu para Jarvis Hamilton. Abriu os braços, como para o proteger, no momento em que a navalha ia ferir Hamilton. O dono de «A Encantada» viu o rosto da jovem muito perto do seu, teve de a segurar para que não caísse e então reparou no cabo da navalha, cravada nas costas de Carolina.
O xerife murmurou qualquer coisa, mas perdeu muito tempo. Parecia que o espanto o imobilizara. Jarvis Hamilton, olhando por cima da cabeça de Carolina, viu Louis Farrell e leu a verdade no seu olhar espantado. O homem que atirara a navalha retrocedeu dois passos e o sol do pátio envolveu-o.
— Meu Deus! = dizia Leonora. — Mataram a Carolina!
Jarvis Hamilton deixou-a nos braços de Leonora e correu por entre as duas fileiras de homens, que o fitavam espantados.
Louis Farrell já estava junto do cavalo. Raivoso por ter falhado, tirou o revólver da algibeira e disparou contra a porta pela qual Jarvis acabava de sair. O rancheiro não tinha armas, pois não havia lugar para elas, no seu casamento.
— Farrell! — gritou. — Não conseguirás fugir!
— Procura deter-me, se podes! — replicou Farrell, disparando de novo.
Jarvis Hamilton desviou-se para um lado e protegeu-se com a ombreira da porta. Estendeu o braço direito e tateou a parede, até encontrar a carabina que habitualmente ali estava pendurada. Louis Farrell já se encontrava a cavalo e segurava as rédeas. Naquele momento, Hamilton saiu para o alpendre. O ruído dos seus passos advertiu Farrell, que se virou e levantou de novo o revólver.
Desta vez, porém, não foi a sua pequena arma que disparou, mas sim a carabina de Jarvis Hamilton. A queda de Farrell do cavalo coincidiu com o aparecimento do xerife e de um grupo de homens do rancho, que por fim tinham conseguido reagir. O xerife disse:
— Já vejo que não sou preciso, Jarvis. Nunca imaginei que Farrell fosse teu inimigo, rapaz. Nunca imaginei...
— Nem eu. Nem o acredito agora. Era outro pistoleiro mais a soldo de alguém, Terry.
O xerife pestanejou e olhou de soslaio para Hamilton.
— Achas? possível que seja assim, mas parece-me que já nada nos poderá contar de interesse. Tens demasiado boa pontaria, Hamilton. Nunca podemos interrogar nenhum dos tipos que tentaram assassinar-te.
—O que é uma sorte para quem os manda. Mas é o mesmo; mais cedo ou mais tarde saberemos quem é.
O xerife Terry assentiu e aproximou-se de Farrell, para verificar que estava morto. Jarvis Hamilton entrou em casa. No extremo oposto do vestíbulo, um grupo de pessoas rodeava Carolina Donovan, que estava caída no solo. Leonora arrancara-lhe a navalha e procurava conter o sangue que brotava da ferida.
— Vive? preguntou Hamilton.
— Sim, vive respondeu Leonora —, mas não sabemos por quanto tempo. Salvou-lhe a vida, Jarvis.
Margie dizia, enquanto arranjava o penteado:
— Foi horrível! Que aconteceu a esse pobre Farrell?
— Está morto — respondeu Hamilton.
— Pediu-nos que o trouxéssemos, Jarvis, disse-nos que tinha muito interesse em assistir ao casamento. Nós mal o conhecíamos. Quem havia de pensar que era um assassino! Não supões que conhecíamos as suas intenções, não é verdade, Jarvis?
Jarvis Hamilton não sorria agora a Margie. Parecia que a esquecera um pouco. Continuava a olhar o rosto pálido de Carolina, a recordar como ela se interpusera no caminho da navalha destinada ao seu coração.
— Claro que não suponho isso. Farrell enganou-nos a todos, mais nada. Temos de levar Carolina ao médico, quanto antes. Preparem um carro e ponham um colchão nele! — ordenou ao capataz. — Creio que é melhor adiar o casamento por ora, pastor.
— Sim, filho, é lógico. Eu acompanhá-la-ei no carro. Foi uma tragédia absurda.
O xerife Terry estava de novo ali e aventurou uma opinião:
— Farrell visitava muito estas meninas, Jarvis. possível que estivesse apaixonado por Margie. Talvez por isso tenha vindo ao casamento, para o impedir.
Margie abriu muito os olhos. Embora soubesse perfeitamente que não era esse o caso, que Farrell era um assassino frio e que jamais lhe prestara grande atenção, deixou-se enganar, porque isso satisfazia a sua tremenda vaidade.
— Que romântico! É muito possível, sim. Agora me lembro que o pobre empalidecia quando eu o olhava! —disse, entusiasmada.
Jarvis Hamilton estava a levantar o corpo de Carolina. Ela abriu os olhos e sorriu palidamente. Pesava muito pouco e Jarvis Hamilton surpreendeu-se com isso. Levava-a para fora, porque o carro estava pronto. Jarvis depositou-a no colchão com o maior cuidado. As irmãs de Carolina instalaram-se a seu lado.
— Eu mesmo conduzirei — disse Jarvis.
O velho capataz olhou para uns quantos dos seus homens e estes apressaram-se a trazer os cavalos e a procurar as armas, que colocaram por cima das roupas domingueiras, que vestiam. O capataz disse ao xerife:
— Vamos com o patrão e com essa pobre criança, porque não acredito que tenha sido um caso de ciúmes. Farrell era o homem mais frio que jamais conheci. Foi outra tentativa falhada de assassinar Jarvis.
O xerife murmurou:
— Sim, olhem por ele, rapazes. Não há dúvida que tem algum inimigo. Olha que tentar matá-lo no dia do seu casamento!...
— Não é de esperar correção num assassino — resmungou o capataz. — Que dia de festal...
Jarvis já pusera o veículo em andamento. Os homens do rancho depressa o alcançaram. O xerife Terry ia muito pensativo, demasiado pensativo.

sábado, 10 de junho de 2017

PAS760. Planos para uma vingança

No sábado, ao amanhecer, Louis Farrell chegou a casa das irmãs Donovan. Trazia botas limpas, roupa lavada e um aparatoso revólver do lado direito, que avultava muito debaixo da sobrecasaca demasiado folgada.
Leonora mandou-o entrar e disse-lhe:
— Margie está a acabar de se arranjar. A gente de «A Encantada» não deve tardar aí.
Carolina colocava chávenas para o café, em cima da mesa de costura. Farrell cumprimentou-a amavelmente. Ela olhou-o com medo, com repugnância, que o homem não notou. Leonora indicou o volume que fazia o revólver debaixo da sobrecasaca.
— Não é demasiado evidente esse revólver?
— É. Assim que chegarmos, com certeza tiram-mo. Por isso trago o maior que arranjei e não repararão neste...
Afastou um pouco a sobrecasaca. Na parte de cima via-se um pequeno revólver de algibeira e uma navalha curta, de lâmina larga. Carolina deixou cair uma chávena no chão.
— Carolina! — repreendeu-a Leonora.
— Desculpa. Vou buscar outra — disse a rapariga.
Farrell seguiu a jovem com a vista. Depois voltou ao que mais lhe interessava.
— Tem a certeza de que me aceitarão em «A Encantada»?
— Sim. Disse a Jarvis que você era a pessoa mais amiga que tínhamos em Green. River e que queria que fosse testemunha de Margie. Achou bem. Portanto, conta consigo...
Margie entrou, para pedir à irmã que lhe abotoasse as costas do vestido. Sorriu a Farrell.
— Está pronto, Farrell?
— Sim — respondeu o homem.
— Obrigada, Leonora. Gosta do meu vestido, Farrell?
— Encantador. Jarvis Hamilton perderá a respiração quando a vir, Margie.
— Você é muito galante, Farrell. Ouça, quero pedir-lhe urna coisa. procure... matá-lo antes da cerimónia; isto é, antes de o pastor nos casar. Não gostaria de ser viúva tão nova. Os rapazes têm preconceitos contra as viúvas...
— Procurarei ser-lhe agradável, menina; sobretudo, tendo em conta que herdaria pouco, pois dizem que Jarvis gasta tudo o que produz «A Encantada» a melhorar o rancho e a adquirir gado e novos pastos.
— Obrigada, Farrell. Você é um homem encantador.
Farrell sorriu com ironia. Margie notou que ele era imune aos seus encantos e fez uma careta de despeito. Carolina veio com outra chávena de café e a cafeteira. Enquanto servia o café, disse.:
— Eu não vou a «A Encantada».
— Que dizes? — perguntou Leonora.
— Não vou ver assassinarem esse homem do modo mais cobarde e sujo.
Leonora levantou a mão e esbofeteou com força a rapariga. Por duas vezes, antes de Farrell lhe segurar o braço.
— Não bata à pequena. Tem razão, pois vamos matar Jarvis Hamilton de um modo cobarde e sujo — exclamou Farrell.
Leonora desprendeu-se da mão do homem e gritou:
— Não se ocupe tanto com Carolina, Farrell Já notei como a olha. Vai matar Hamilton, sim ou não?
— Sim, vou matá-lo. Ê o combinado e eu cumpro sempre a minha palavra. Mas você e eu somos más peças, Leonora. Por isso, não quero que maltrate Carolina. Ela é um caso à parte.
— Ela irá a «A Encantada» ver como é vingado o seu pobre irmão. Irá de sua vontade ou amarrada. Vai buscar a tua capa, Carolina E você tome o café, Farrell. E prepare-se, pois, desta vez, não podemos falhar.
— Desta vez não falharemos — redarguiu Farrell, começando a beber o café. — Todos estarão atentos à cerimónia e eu poderei agir com liberdade. Depois fugirei, aproveitando a surpresa. O meu cavalo vai ficar selado no pátio. Recomendarei que não lhe tirem a sela, pois, assim que assinar a ata, terei de voltar a galope para o trabalho. Desta vez não falharemos, Leonora.
Ela riu e o seu riso contagiou Louis Farrell.
— Conte-me qual é o motivo do seu ódio a Hamilton.
— Contar-lhe-ei outro dia, menina. Outro dia...
Leonora disse a Margie:
— Vai buscar Carolina, para que não faça tolices. Trá-la.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

PAS759. Pedido de casamento

Sanchez, o velho capataz de «A Encantada», viu-se no grande espelho do quarto de Jarvis Hamilton, enquanto resmungava:
— Isto é ridículo! Sinto-me como encolhido dentro destas roupas. Não me obrigues a vestir isto, Jarvis, pelo que mais queiras!...
O velho estava metido num fato severo, preto, um pouco usado, mas muito solene. Em especial o colete parecia sufocá-lo. Jarvis Hamilton ria, ao 'vê-lo resfolegar e puxar as roupas.
— Vamos, não sejas assim. Tens de fazer isso por mim, Não dizes sempre que a minha felicidade é a única coisa que te interessa?
— Mas não estou muito certo de que isto seja pela tua felicidade, Jarvis. Não estou! Lembra-te de que me prometeste consultar o xerife Terry. Ele era muito amigo de Stuart F. Jones. Bem vês, toda a gente julgava que lhe deixaria alguma coisa e Terry não se ralou quando viu que tu herdavas tudo. Terry é bom homem, tem experiência e estima-te, Jarvis.
— Sim, bem sei. Falaremos com ele, descansa. Anda, manda arranjar os cavalos.
O capataz saiu a resmungar. Pela sua parte, Jarvis vestia a sua roupa habitual. Pegou no grande chapéu branco e sacudiu as abas. Depois, pô-lo. Um sorriso alegre iluminava o rosto anguloso de Jarvis Hamilton.
«Margie acabará depressa com os receios do velho. Assim que lhe sorria duas vezes, conquistá-lo-á, como me conquistou a mim».
Fora esperavam dez homens a cavalo. O moço da cavalariça segurava o nervoso pigarço do patrão, ao pé da escadaria. Jarvis saltou para a sela e colocou-se ao lado do capataz, que estava muito sufocado pelos risos dos homens, que gracejavam acerca do seu elegante trajo.
O xerife Terry escutou o velho, quando este lhe explicou, em Green River, as pretensões de Hamilton.
—De modo que quer casar com essa menina Margie, a modista? Para que há-de dissimular, se todos sabem, na povoação, que está apaixonado por ela? Portanto, o mais natural é que se casem. Ela parece boa pequena, as três irmãs tão trabalhadoras e sérias...
Jarvis bateu nas costas do capataz.
— Vês, velho? Terry dá-me razão, não há outro motivo para hesitar. Vai representar a família que não tenho — explicou ao xerife nessa história do pedido de mão.
—Por isso se vestiu tão elegantemente!... — riu o xerife. — Espero que tenhas sorte, meu velho, e que ta concedam.
— Era o que faltava recusarem-na! O homem mais rico de Green River pretende casar com uma dessas pobres raparigas e você põe em dúvida que o aceitem? A sorte é para ela!
O capataz saiu do gabinete do xerife e Jarvis Hamilton também se despediu de Terry. Os seus homens esperavam e não perdiam de vista as casas e a rua, pois um deles dissera:
— Cuidado, não disparem contra o patrão de algum telhado.
Jarvis parecia ter esquecido que a sua vida corria perigo, que poucos dias antes se salvara de um ataque traiçoeiro. Esquecera-se de tudo e os seus homens tiveram de se apressar a rodeá-lo, quando começou a andar pelo passeio, a caminho da oficina das irmãs Cooper. Quando chegou diante da porta, disse ao capataz:
— São meninas, não te esqueças. Modera a linguagem. Tens de te dirigir à mais velha.
O velho bateu com força. Leonora Donovan, que os vira chegar, abriu imediatamente. Por um instante, o seu olhar cintilou com violência, ao contemplar Jarvis, mas logo sorriu.
— Bons dias! muito amável em visitar-nos, senhor Hamilton!...
Jarvis Hamilton endireitou-se e pôs-se sério. Por fim, entrou na oficina, onde Margie e Carolina estavam a coser. Margie soltou um gritinho de alegria.
— Oh, Jarvis, devias ter avisado que vinhas! Surpreendes-me por arranjar, sem graça nenhuma...
Carolina corara. O capataz pigarreou várias vezes; depois, começou a dizer, como se estivesse a recitar uma lição:
— Menina Leonora, o senhor Hamilton não tem família e, portanto, compete-me a mim, que cuidei dele desde que, em criança, o senhor Stuart F. Jones o levou para «A Encantada», fazer as vezes dos pais que...
Jarvis Hamilton adiantou-se um passo e, segurando Margie pelos ombros, com força, interrompeu o velho:
— Está bem, Sanchez, tinhas razão: estas cerimónias não são para nós. Leonora; amo Margie e desejo casar com ela. Providenciei para que a cerimónia se celebre no próximo sábado, às onze da manhã. O pastor irá a «A Encantada». Pronto, está tudo dito.
Puxou Margie para si e beijou-a com força nos lábios. Margie ria quando os braços do homem a largaram. Carolina encostara-se à parede. Primeiro, ficara sufocada; mas, de súbito, o seu rosto adquiriu terrível palidez.
—És extraordinário, Jarvis, querido! — dizia Margie. -- Leonora, tens de dizer que sim, tens de aceitar!
Leonora sorriu friamente.
— Claro que sim, Margie. Bem sei que o amas muito.
Jarvis Hamilton virou-se para Leonora e explicou:
— Devem saber uma coisa. Não sou o verdadeiro dono de «A Encantada», mas apenas o seu usufrutuário. Os nossos filhos não a herdarão, pois por minha morte a propriedade passará à posse da comunidade. Se me acontecesse alguma coisa, o que não é improvável, porque tenho alguns inimigos bastante obstinados, Margie não herdaria a propriedade.
— Nada disso interessa, senhor Hamilton. Nós somos pobres, sempre vivemos do nosso trabalho. Margie casa com o senhor e não com «A Encantada». Ela ama-o; o resto não importa.
— São excelentes raparigas, bem te disse. Agora retiro-me, porque tenho de comprar algumas coisas e de preparar tudo. Margie deitou-lhe os braços ao pescoço e beijou-o com entusiasmo.
— Não te arrependerás, Jarvis, não te arrependerás!... -- murmurou apaixonadamente.
Os dois homens saíram e Leonora, enquanto fechava a porta disse:
— Não, não se arrependerá, porque não terá tempo.
Carolina suplicou:
— Leonora, não podem fazer isso; não o podem enganar assim. É indigno, é...
— Cala-te, irmãzinha; faremos o que Leonora disser — atalhou Margie.
Carolina fitava-a com olhos espantados.
— Serás capaz de casar com ele para o assassinar enquanto durma, Margie?
— Oh, espero que não seja preciso chegar a isso! Leonora disporá as coisas de modo a evitar-me esse trabalho. Ela fá-lo-á desaparecer mais discretamente, não é verdade?
— Margie é uma boa irmã; pensa em Francis, o que tu não fazes, Carolina. Casando com Jarvis Hamilton, teremos uma boa oportunidade.
Margie ria.
— É um louco, um louco!...
— E tu um monstro, Margie. Se o odeias tanto, se vais ajudar a matá-lo, como o podes beijar desse modo?
— É um bonito rapaz. Tu confundes as coisas, Carolina. Vou casar com ele; portanto, devo beijá-lo. tão simpático! Na verdade, vou sentir que me dure tão pouco o marido. Mas com certeza encontrarei outro, pois sou a rapariga mais bonita que há por aqui. Não será difícil...
Carolina correu para a cozinha e bateu com a porta. Margie encolheu os ombros, enquanto perguntava à irmã:
— Que tem a Carolina?
— Nada. Não ligues importância. Não tem nada.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

PAS757. Embocada traiçoeira

O bosque era extenso e estava suficientemente afastado de «A Encantada» para que os tiros não se ouvissem no rancho. Jarvis Hamilton perguntou à. rapariga:
— É por aqui?
— Sim, Jarvis, mas não lutes com esse homem terrível. É melhor que...
Emudeceu, porque se ouvia claramente o barulho produzido por um machado a cortar lenha. Jarvis parou o carro. Atrás de umas moitas, um homem alto e forte estava a partir um tronco. Junto dele encontrava-se um carro.
Jarvis Hamilton saltou para o solo. O lenhador, que se virara para ele, sorria abertamente.
— Olá! A linda lourinha outra vez! Mudaste de ideias e vens procurar-me?
Soltou uma gargalhada grosseira, enquanto se endireitava, sem largar o machado. Jarvis Hamilton parara na clareira formada pelo caminho. Atrás ficava o tílburi e, nele, Margie Donovan, agora deveras assustada, nervosa, a morder com os dentes a beira do leque.
— Venha cá, para lhe ensinar como se deve tratar uma dama, amigo — disse Jarvis.
O lenhador voltou a rir e, depois de afastar uns arbustos, saiu para a clareira. Era corpulento e de aspeto brutal. A sua única arma era o machado, que ainda empunhava.
— Não vem muito elegante para dar lições dessa espécie, senhor Hamilton...
— Conhece-me?
— Sim, sei quem é. Um tipo rico que se esconde atrás dos seus homens e a quem uma bonita rapariga tem de visitar, porque tem medo de deitar o nariz fora de casa!
Hamilton empalideceu um pouco. A sua voz enrouqueceu mais.
— Bem, agora não me protege ninguém...
— Não? O seu revólver! Eu não tenho armas.
— Tem o machado. Deite-o para longe e eu deixarei o revólver.
— Quer lutar com os punhos, hem?... Acho bem. Gosto de amachucar um pouco a gente rica, sou invejoso. Fora com o machado!
Atirou-o com força e foi cravar-se numa árvore. O cabo ficou um instante a vibrar. Jarvis Hamilton desapertou a fivela do cinturão e deixou-o cair no chão, a seus pés. Depois, avançou dois passos para o lenhador.
— Agora estamos iguais — disse.
O lenhador retrocedeu os mesmos passos que Jarvis avançara. Ria sem cessar.
— Você é um pobre imbecil, Hamilton — disse de súbito. — Olhe para os lados!
Jarvis Hamilton olhou com rapidez, e parou e apertou as mãos até cravar as unhas nas palmas.
Três homens haviam saído pelo lado direito e dois pelo esquerdo. As árvores grossas tinham-nos mantido ocultos até àquele momento. Os cinco empunhavam revólveres e avançavam devagar, com as armas firmemente apontadas.
O lenhador continuava a rir. Parecia que aquela emboscada o divertia muito.
— E diziam que era um tipo difícil de caçar!
— Cala-te! — gritou um dos pistoleiros. — Sentimos muito, senhor Hamilton, mas vamos matá-lo imediatamente. }"J um encargo e nós somos gente séria. Espero que compreenda... Menina, vire a cabeça!
Margie parecia convertida em pedra e molhava os lábios com a ponta da língua. Hamilton não a podia ver, pois estava de costas para ela.
— Espero que lhes reste um pouco de decência —disse Hamilton, sem a menor comoção na voz. — Deixem retirar-se esta menina.
— O encargo que temos é de o matar. Ela não tem nada a ver com isto; pode-se ir embora quando quiser. Não se mexa, Hamilton. Se nos faz falhar a pontaria, será pior para si, sofrerá mais... para morrer na mesma. Esteja bem quieto e facilitar-nos-á a tarefa, em seu próprio benefício.
Os cinco homens aproximaram-se mais. Rodeavam a sua vítima. Os cinco revólveres apontavam a Hamilton.
Margie observava a cena, como fascinada. Começou a pôr-se em pé, enquanto tapava a boca com as mãos. Olhava fixamente para Hamilton. Murmurou:
— Tão alto e simpático... é pena que o derrubem a tiro. Uma verdadeira pena...
Jarvis Hamilton deu uma volta sobre si mesmo, para examinar friamente os cinco assassinos que continuavam a aproximar-se devagar. Sorriu ao de leve ao fitar Margie. A rapariga repetiu:
—Que penal...
O dono de «A Encantada» ficou quieto, rígido, diante do homem que falara e que parecia comandar o grupo de assassinos. Olhava-o fixamente e o homem pestanejou, inquieto. Fitaram-se uns instantes.
De repente, o assassino gritou:
— Fogo!
Cinco revólveres troaram ao mesmo tempo. Jarvis Hamilton caiu de chofre no solo. Apenas um dos homens que tinham disparado notou que caíra um instante antes de eles apertarem os gatilhos. Os outros riam, enquanto Jarvis rolava pelo chão. O homem que adivinhara que nenhuma bala se alojara no corpo de Hamilton, gritou:
— Atirem outra vez! Não lhe acertámos!
Jarvis Hamilton deixou de rebolar. Em milésimos de segundo, pôs-se de joelhos, velozmente. Já, de novo, os cinco revólveres o procuravam, mas era um pouco tarde. Jarvis conseguira recuperar o seu, o que atirara ao solo para enfrentar o lenhador, e disparou enquanto acabava de se levantar e saltava para diante.
A sua bala traspassou a cabeça de um dos homens, e com tal força que o atirou contra uma árvore. Jarvis Hamilton movia-se como uma centelha. O impulso levou-o até fora da clareira. Soaram quatro tiros e as balas assobiaram por entre as moitas e perderam-se ao longe. Nenhum dos pistoleiros, pois todos estavam preparados para disparar contra um homem desarmado e quieto, teve serenidade para apontar com cuidado. Jarvis Hamilton caiu dentro de uma moita, revolveu-se entre os ramos e disparou duas vezes, acionando o percutor da arma
com o polegar. Dois disparos quase seguidos e dois dos pistoleiros caíram no centro da clareira.
Os dois que restavam em pé entreolharam-se e, sem dizer nada, correram para as árvores, a fim de se protegerem. O falso lenhador, que deixara de rir havia um bocado, agarrou o machado, ainda cravado num tronco, e puxou-o para o arrancar. Depois virou-se com rapidez e atirou-o contra a moita.
Não foi dali, porém, mas sim de um lado, junto do tronco de um grosso carvalho, que brotou o disparo. O lenhador inclinou-se, devagar, com urna mancha verem-lha na camisa, no sítio do coração. O pequeno orifício pareceu alargar, à medida que o sangue se espalhava. Jarvis Hamilton transformara-se no homem cruel e tremendamente perigoso, com um revólver na mão, que ele não queria ser. Os seus olhos não exprimiam nada. Os seus lábios tinham-se convertido numa linha fina, enquanto a sua mão direita acionava o revólver com precisão espantosa, como se fosse uma máquina.
Margie deixara-se cair no banco do carro. Dali viu Jarvis Hamilton, 'depois de derrubar o lenhador, correr pela clareira para atrair os dois homens que restavam. Os pistoleiros espreitaram dos seus esconderijos, apenas o indispensável para dispararem contra o homem que corria para eles e se oferecia como alvo aos seus disparos.
Járvis disparou, sem parar, e um deles rugiu quando a bala, roçando a árvore que o protegia, lhe esfacelou a cabeça. O outro atirou doidamente e depois começou a correr desesperado. Jarvis Hamilton tinha uma única bala no revólver, sabia-o, mas não hesitou em o chamar.
— Esqueces-te de uma coisa!
O homem parou e virou-se de frente. Fitou Jarvis com ódio e com medo, ao mesmo tempo. Proferiu um insulto soez. A seguir, tentou disparar, mas nem sequer chegou a acabar de premir o gatilho, porque a última bala de Jarvis Hamilton atravessou-lhe o coração e derrubou-o de costas.
O dono de «A Encantada» ficou uns instantes quieto, a olhar a última das suas vítimas. Depois começou a recarregar o revólver, que ainda fumegava. Margie saltou então para o solo e correu para ele.
— Jarvis! Oh, Jarvis, foi por minha culpa, pois fui eu que te fiz vir aqui! Podiam ter-te matado, e com certeza o teriam feito se não fosses o homem mais extraordinário que jamais conheci! Estás... estás zangado comigo, Jarvis?
A rapariga esperou, a tremer. Teria adivinhado que fora ela quem o conduzira àquela ratoeira?
Mas Jarvis sorriu, com as feições menos tensas.
— Pequena, tu não tens a culpa de nada. Esses tipos utilizaram-te para que me trouxesses, mas tu não tens culpa. Mandaram primeiro essa besta, para que te incomodasse, apenas para conseguirem que eu saísse do rancho e me pudessem ter à sua disposição.
Margie lançou-se-lhe nos braços. Enquanto Jarvis a abraçava, comovido, ela sorria e pensava:
«Leonora não se poderá queixar de mim, pois nem sequer ela teria feito melhor. Ela, coitada, nunca poderia dominar deste modo um homem como Jarvis...»
Ao longe, ouvia-se tropel de cascos de cavalos. Margie estremeceu, mas Jarvis apressou-se a sossegá-la.
— Não há perigo. Devem ser os meus homens, que ouviram o tiroteio. Acalma-te. Já passou tudo.
Conduziu-a para o carro. Quando os dois estavam já no banco e Jarvis pegava nas rédeas, Sanchez, com vários homens de «A Encantada», apareceu no caminho. Sanchez soltou um grito.
— Graças a Deus, Jarvis! Ouvimos os tiros e receámos que...
— Eh, vejam isto! — disse um dos cavaleiros.
Vários galoparam até à clareira e contaram os cadáveres caídos entre as árvores.
— Seis tipos!
— Uma boa emboscada, ao que parece observou o velho capataz. — Como te meteste nela, chefe?
— Isso não importa agora. Manda um homem à povoação dizer ao xerife que venha tomar conta deles — respondeu Jarvis. — E deixa de olhar desse modo a menina Cooper; ela nada tem a ver com isto.
— É possível — murmurou o velho. — Os tipos que mataste eram forasteiros; agora parece que os trazem de fora... Demónio, se ao menos um deles tivesse ficado vivo, arrancar-lhe-ia à pancada o nome do canalha que os contratou!
— Sossega, agora isso não interessa. Bem vês que a sorte está do meu lado.
— Mas desta vez tiveste de te esforçar muito para te salvares, Jarvis. Seis pistoleiros num sitio, como este! Ainda não consigo compreender como pudeste vencê-los.

PAS758. Encontro sinistro

Bateram suavemente à porta e Leonora Donovan murmurou:
— Carolina, vai abrir.
A rapariguinha obedeceu. Tinha os olhos vermelhos de chorar e nenhuma das irmãs se incomodara a confortá-la. Carolina abriu a porta e não se surpreendeu ao ver o homem, por que o esperavam. Louis Farrell disse:
— Olá, lindeza.
— Entre, Farrell -- convidou-o Leonora, de dentro.
Farrell entrou e sentou-se junto de um manequim que exibia um vestido com muitos laços. A primeira coisa que disse foi:
— Estive a vê-los no gabinete do xerife. Alinharam-nos no chão. Espantoso! Seis tiros mortais! Não compreendo; tinham todas as vantagens, eram seis e estavam escondidos... 7
— O senhor Hamilton é um assassino muito eficaz — disse Leonora, secamente. -- Não lhe devemos regatear méritos. Eu cumpri a minha parte, Farrell. Prometi-lhe que Margie o levaria aonde você quisesse. Você escolheu o sítio e os seus homens falharam. Começo a crer que a sua colaboração não vai ser muito interessante. Talvez nos arranjemos melhor sozinhas, embora agora seja mais difícil surpreendê-lo.
— Não se impaciente, menina, que mais perdi eu. Seis pistoleiros como aqueles custam caro. Claro que, se os matam... saem mais baratos.
— Por que não é preciso pagar-lhes nada, não é assim?
— Deixemos isso. Como ficou a menina Margie? Imagino que já não poderemos contar com ela...
Margie riu, muito satisfeita.
— Não me avalia pelo que valho, senhor Farrell! Jarvis não suspeitou de nada. Julga que os seus pistoleiros se serviram de mim, mas sem eu saber, claro. Fez-me acompanhar até aqui por uma escolta dos seus melhores homens e... pediu-me que casasse com ele. Quanto antes! Que lhe parece?
— Não o julgava tão idiota — murmurou Farrell.
— Ouça, casar comigo não é nenhuma idiotice! —protestou Margie. — Jarvis é um homem encantador!
— Espero que se não apaixone por ele nesta altura...
Margie riu com alegria. Realmente, era muito bonita e, quando ria, tornava-se irresistível.
— Não há perigo. Margie está apaixonada há muitos anos — disse Carolina.
— Por quem, sabes?
— Por si mesma.
Margie riu de novo.
— A pequena Carolina é muito engenhosa! E muito diferente de mim... Estou certa de que, coitada, enlouquecerá pelo primeiro homem que lhe sorria e diga que é bonita! — exclamou.
— Eu já lho disse e ainda não me caiu nos braços —observou Farrell.
Carolina corou e virou-lhes as costas. Margie afirmou:
— O que importa agora é Jarvis Hamilton. Posso garantir-lhes que não me rendi aos seus encantos. Vocês pensem no modo de o apanhar, de uma vez, pois ele fará o que eu lhe pedir.
Leonora Donovan murmurou:
— Pensaremos... Não renuncio à minha vingança!
— Nem eu — disse Farrell, embora jamais tivesse explicado quais eram os motivos por que se queria vingar de Jarvis Hamilton embora, depois disto, seja mais difícil conseguir chegar até Jarvis: A sua gente vai vigiá-lo muito, agora...
— Tanto cuidado com um maldito assassino! — exclamou Leonora Donovan. -- Vim de Denver para o mandar para o cemitério e consegui-lo-ei! Custe o que custar! Nada me deterá.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

PAS756. Visita à lagoa

A meio da tarde, o tílburi conduzido por Margie entrava em «A Encantada». Um homem avisou Hamilton.
— Chefe, a menina Cooper.
Hamilton corou um pouco ao notar o sorriso do homem. Mas nem por isso se apressou menos a sair do seu gabinete. Margie, muito bonita, talvez naquele dia mais bonita do que nunca, sorriu-lhe, sem descer do veículo.
— Jarvis! — chamou, agitando a mão. — Não desço. Prometeste que hoje me levarias a ver a lagoa?...
Jarvis Hamilton assentiu.
— Eu cumpro sempre as minhas promessas. Iremos à lagoa.
Ao olhar de soslaio, viu que Sanchez falava rapidamente com dois homens, que correram para a cavalariça.
«O velho vai pôr dois homens na lagoa. Cuida de mim como uma galinha dos seus pintainhos...»
Aproximou-se do carro. Então, reparou que Margie estava só.
— A Carolina não veio contigo?
— Não. Tinha trabalho, um vestido para acabar. Ficou a ajudar Leonora. Eu vim, apesar de tudo... devia ter ficado com elas, bem sabes, mas.,.
— Tinhas de ver a lagoa — concluiu Hamilton, saltando para o banco e empunhando as rédeas.
Margie olhou-o com malícia e agitou o leque com ar ameaçador.
— Não sejas mau, Jarvis. Tinha de te ver a ti. E já que tu não vais muito a Green River, tenho eu de cá vir.
Hamilton sorriu e agitou as rédeas. O tílburi pôs-se em andamento. Quando se afastaram da casa, Margie começou a demonstrar certo nervosismo. Falava sem cessar, como sempre; mas, às vezes, parecia esconder uma das mãos, que procurava manter debaixo da capa que vestia. Por fim, Hamilton deu por isso.
— Que tens? Acho-te um pouco estranha... Que tens nessa mão?
— Na mão? Oh, nada, Jarvis, não tenho nada!
Mas escondeu-a mais. Hamilton esticou as rédeas e parou o veículo.
— Não gosto que me escondas nada, nem sequer uma das tuas lindas mãos. Vejamo-la! — exigiu.
Agarrou a rapariga pelo braço. Ela gritou, mas teve de tirar a mão.
Tinha no pulso uma marca avermelhada, como uma roçadura, e parte da manga do vestido estava rota, rasgada. De súbito, ela começou a chorar baixinho.
— Margie! Que te aconteceu? Fala, por favor... Que foi?
— Não é nada, não me fez nada, consegui fugir! Leonora tinha razão ao dizer-me que não devia vir sozinha, mas eu não podia adivinhar que esse horrível homem ia...
— Não divagues, diz-me de uma vez o que aconteceu! De que homem falas?
— Não quero que te preocupes, Jarvis, não quero que faças nada. Esquece isto!
Agora chorava com mais força. Jarvis Hamilton empalidecera, ao mesmo tempo que apertava as mãos.
— Não posso esquecer! Que aconteceu?
Margie engoliu as lágrimas. Estava muito bonita, com as suas belas faces molhadas de pranto.
— Bem... ele estava no bosque do caminho, pouco antes do teu rancho, a cortar lenha. Pôs-se diante do carro e obrigou-me a parar. Disse que havia dias que me via passar, que eu era muito bonita, que descesse para lhe fazer um bocado de companhia. Assustei-me e quis seguir, mas agarrou-me pelo braço e rasgou-me o vestido. Era um homem horrível! Parecia doido. Não sei como consegui soltar-me e...
Jarvis Hamilton semicerrou os olhos. As suas compridas mãos apertaram as rédeas e agitou-as com fúria por cima do cavalo.
— Jarvis, não vás lá! É um bandido!
— Pequena, todos sabem em Green River que és a minha namorada. Vou dar uma lição a esse canalha que se atreveu a incomodar-te.
Fez girar o carro com violência, soltou um grito que pareceu assustar muito o cavalo e este lançou-se a galope. Entretanto, os homens do rancho galopavam para a lagoa, a fim de protegerem o seu chefe. Margie Donovan, segurando o chapéu que o vento tentava arrancar-lhe da cabeça, sorria suavemente. Ia a pensar:
«É encantador! Bastou que lhe começasse a contar a história para imediatamente correr para lá!...»

terça-feira, 6 de junho de 2017

ARZ137. As irmãs do morto

(Coleção Arizona, nº 137)

Três irmãs saem de Denver para Green River com o objetivo de vingar a morte de um irmão às mãos de um rancheiro bem instalado. Aí chegadas, estabelecem-se como modistas e um apelido diferente e fazem várias diligências para abater aquele que viam como assassino do familiar. Uma delas chegou a usar os seus melhores encantos para o atrair a uma emboscada. Ação aliás infrutífera pois o rancheiro parecia ter sete vidas e frustrava todas as sua tentativas, inclusivamente o recurso a assassinos profissionais.
Eis uma novela de Cesar Torre, num tom um pouco brincalhão, mas onde o dramatismo das situações não deixa de ser bem caraterizado. Para o ilustrar deixamos algumas passagens.

Outras passagens

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