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sábado, 7 de janeiro de 2017

PAS703. Nunca peças perdão por este beijo

Conversaram muito pouco até atingirem a cascata de águas espumantes, no ponto em que se convertia num re-manso cristalino povoado de trutas.
-- Não gosta de pescar ? perguntou-lhe Cathy.
— Muito — assentiu ele. — Quer que nos detenhamos um momento aqui ?
Como ela não fizesse qualquer objeção, Gen desmontou rapidamente e, tomando-a pela cintura, colocou-a também em terra.
Logo, tomando-lhe a mão, levou-a para uma rocha que penetrava na água, passando sob a ramagem de um enorme cedro.
— Está-se bem aqui, não lhe parece?
Ela parecia absorta contemplando a água.
— Há aqui trutas enormes — disse.
Mas Gen estava disposto a iniciar a sua ofensiva e não sentia nesse momento o menor interesse pelas trutas.
— Que lhe pareceu o meu rancho?
Ela olhou-o então, começando a rir.
-- Um desastre — disse. — Refiro-me à casa, evidentemente. Sem adornos de espécie alguma e com alguns escassos móveis, pelo que me foi dado ver. Os homens não têm jeito algum para essas coisas.
Gen disfarçou um sorriso, pois a jovem tinha mordido a isca muito mais depressa do que ele podia esperar.
— A casa é ampla, solidamente construída e bem situada disse como se a quisesse defender. Só lá falta uma mulher que a arranje.
Cathy olhou-o com uma expressão ingénua, perguntando seguidamente:
— Você não é casado?
Ele riu, sacudindo a cabeça negativamente:
-- Ainda não — retorquiu.
— Que tola que eu sou! Devia supô-lo, pois de outro modo você não faria a corte a Sally.
-- A corte a Sally? — perguntou o californiano, divertido com aquele ataque inesperado, deixando-se cair sobre o rochedo a seu lado.
Ela atirou o busto para trás a fim de o olhar melhor, exprimindo todo o seu assombro. Um assombro demasiado para ser sincero.
— Não? Mas eu julguei que... inclusivamente chegou a lutar por ela.
— Não lutei por ela, mas sim por causa dela, o que não é a mesma coisa. Esse brutamontes de Dave está enamoradíssimo, mas é tão tímido que não se atreve a confessá-lo à interessada. E como o coquetismo de Sally lhe dá para se divertir comigo... aí tem.
As suas razões não me parecem muito sinceras —replicou Cathy secamente, pondo novamente os olhos na água cristalina, onde a sua encantadora imagem se refletia. — Deu-me a impressão de que o coquetismo de Sally não lhe desagradava em absoluto.
Gen riu, inclinando-se para a jovem.
— Tratava-se do mesmo jogo — disse alegremente, com os lábios quase a roçarem as douradas madeixas que ocultavam as lindas orelhas da rapariga. — Eu também pretendia fazer ciúmes a certa e deliciosa criaturinha.
— Mas como...? Oh!
Cathy voltara-se vivamente, ficando no mesmo instante amordaçada pelos lábios do californiano.
Era para ser uma carícia suave e breve, como casual e inocente. Mas Gen confiara excessivamente nas suas forças e, antes de poder notar que já não era o mesmo, que estava irremediavelmente enamorado, perdia a cabeça e abraçava apaixonadamente a sua amada, beijando-a vorazmente.
O desejo martelava-lhe as fontes, mas conseguiu dominar-se e largou-a, ainda as palpitações do seu sangue pareciam ensurdecê-lo. Contemplou-a consternado.
Começara já a aperceber-se da gravidade da sua situação. Uma verdade tornava-se-lhe bem patente: estava em risco de perder aquela mulher e precisava tanto dela como do ar que respirava. Era indispensável ganhá-la naquele mesmo instante, antes que ela pudesse reagir.
Mas ofegava, hesitante, sentindo-se impotente pela primeira vez na sua vida. Não obstante, não parecia que a urgência fosse tão acutilante como imaginara.
Ela olhava-o altivamente, mas nem sequer fizera um gesto para se levantar.
— Costuma fazer sempre estas experiências, senhor Keller? — perguntou com frio desprezo, se bem- que o tremor da voz a traísse.
— Nunca senti nada semelhante a isto -- afirmou Gen com sinceridade.
—Devo pedir-lhe que se vá embora? Devo-lhe muito, mas nenhuma dívida me pode obrigar a suportar a sua presença depois de me ter ferido duas vezes com o mesmo insulto.
Mas havia lágrimas na sua voz e Gen sentiu que algo se quebrava no mais íntimo do seu ser, como um dique que rebentasse e desse passagem a uma onda avassaladora de sentimentos nunca antes experimentados por ele, pelo menos com tanta intensidade.
— Amo-te — proferiu, tomando-a de novo nos braços para reclamar faminto os seus doces lábios.
Quando a soltou novamente, fê-lo com temor, desvanecida essa onda avassaladora que lhe dominara os sentidos, pois ela não correspondera aos seus beijos, permanecendo imóvel nos seus braços.
E olhá-la em nada o esclareceu, pois Cathy mantinha-se de olhos baixos, enquanto as lágrimas lhe deslizavam silenciosamente pelas acetinadas faces.
Seria verdade o que ela lhe dissera? Perdera ele inclusivamente a sua gratidão?
— Servir-te-á de alguma coisa dizer-te que sinto muito o que sucedeu? — perguntou roucamente, sentindo um frio mortal na alma.
Um momento depois abria a boca assombrado, olhando incrédulo os olhos brilhantes que sorriam picarescos.
--- Faças o que fizeres no futuro — proferiu Cathy —, nunca peças perdão por este beijo.
Ele conteve a tempo o novo e selvático impulso que o impelia a apertá-la junto ao coração. Precisava de demonstrar a Cathy e a si mesmo que era capaz de se dominar e colocar-se ao seu nível, e rir quando a emoção e o anseio lhe esmagassem o coração, pondo-lhe um nó na garganta.
— Que se deve fazer, pois, num caso como este? —perguntou num acento que pretendia ser jovial e soava a choco.
— Deve-se dizer à outra pessoa que não te pudeste conter. Isso fará que ela se sinta melhor.
— E depois?
-- Depois voltar a beijá-la... se a conseguires apanhar.
Mas ela não fez nada para escapar quando Gen voltou a tomá-la nos braços e a resposta dos seus lábios nessa ocasião fez estremecer os sentidos do jovem californiano.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

PAS702. A arte de domar uma égua selvagem

Cathy dormiu bem naquela noite, o que não era muito de estranhar, pois sofria nos últimos tempos de insónias com muita frequência. Desde o seu encontro com os bandidos, precisando melhor, embora não em consequência dele.
Mas os seus propósitos de vingança contra o culpado estavam ameaçados de morrer por extinção, pois Gentry Keller parecia haver desaparecido tragado pelas montanhas e ninguém voltara a vê-lo em Sheridan nem em Akron.
E ela precisava de o humilhar, fazê-lo pagar o ultraje que lhe infligira ao roubar-lhe aquele beijo, cujo fogo sentia ainda a queimar-lhe os lábios, enrubescendo-a de vergonha cada vez que o recordava.
Mas se durante toda a semana, após a festa de Sally, dominara a sua impaciência com a esperança de que no domingo o poderia ver na cidade, essa esperança desvanecera-se por completo. Por isso, depois de uma noite inteira sem dormir, resolveu ir visitá-lo ao seu rancho.
Entre as terras da fazenda Garfield e a que fora de Kerr havia apenas uma franja montanhosa de escassa importância e que não era ponto de passagem para parte alguma, pelo que as possibilidades de ter um encontro desagradável eram tão escassas que não valia a pena toma-las em consideração.
Contudo, Cathy não estava muito certa de que os seus pais pensassem da mesma maneira, e muito menos que estivessem de acordo com a sua iniciativa de visitar sozinha um homem jovem e solteiro, pelo que resolveu não comunicar a ninguém o seu propósito, dizendo apenas que tencionava dar um passeio matinal.
Que o foi, realmente, e delicioso, certamente.
Ao transpor a área montanhosa que separava os dois ranchos, esquilos e gralhas escondiam-se na espessura.
Sob uma espumante cascata, da qual subia um poético e maravilhoso cântico murmulhante, grandes trutas nadavam no fundo cristalino da água, cheio de brancos seixos. Um lagarto de bom tamanho fugiu assustado, internando-se na verde penumbra da vegetação. Nos pontos mais soalheiros, os fetos, os lírios e uma gama variada de plantas multicores inclinavam-se ou balanceavam suavemente ao sopro preguiçoso da brisa.
Em dado momento, de um parapeito assomado sobre a pradaria, pôde dominar o conjunto de instalações do rancho que fora de Kerr, que dali se viam muito bem, não obstante a distância.
Advertiu-se de alguns movimentos que atraíram a sua atenção para um pequeno curral com uma alta vedação, no alto da qual se viam dois homens encarrapitados, enquanto mais três, no seu interior, sujeitavam e selavam o único animal ali encerrado e que se debatia furiosamente.
— Oh! meu Deus!
Cathy levou as mãos ao peito, incrédula e consternada, pois aquela labareda dourada que reluzia ao sol era inconfundível e já a vira antes, na inolvidável ocasião em que fugira à armadilha preparada junto do lago, no Choked Cannyon.
Como era possível que aquele formoso animal estivesse cativo?
A jovem ficou aturdida. Haviam-na impressionado extraordinariamente tanto a inteligência como a beleza do baio e experimentara uma grande alegria ao vê-lo escapar. Mas agora, não obstante, não sabia se a impressionava mais a deceção de ver aprisionado o indómito bruto, ou a sua admiração pelo homem capaz de o caçar vivo e incólume, não obstante a sua extraordinária rapidez e apurado instinto.
Porque nem por um momento duvidou que fora Gentry Keller quem o tinha caçado.
A contemplação do baio e a certeza de que se estavam a fazer os necessários preparativos para o montar, fizeram que a rapariga esquecesse completamente os absurdos propósitos de vingança que a tinham levado ali e, metendo as esporas nos flancos da sua montada, empreendeu a descida com uma rapidez desaconselhada pela prudência.
A ondulante linha do mal traçado caminho terminava no sopé da montanha, onde uma tosca ponte de grossos troncos ligava esta com a planura, através de um largo arroio que descia serpenteando das alturas, em remansos ou saltos espume jantes.
A ponte era estreita e não muito segura, mas Cathy atravessou-a a todo o galope, pois uma nuvem de poeira elevava-se do pequeno curral, tornando-lhe difícil distinguir o cavaleiro que pugnava por se manter na sela do serril cavalo e dominá-lo.
Cathy nunca estivera ali, pois o antigo proprietário jamais fora amigo de seu pai, mas tinha ouvido dizer que Kerr era um homem pouco cuidadoso em questões de ordem e asseio, e, renunciando a lutar havia algum tempo, tinha a sua fazenda completamente abandonada, pelo que se admirou dos arranjos e reparações, alguns deles bastante visíveis, que notava por toda a parte, e que não podiam deixar de se dever ao novo proprietário, não obstante o pouco tempo decorrido desde que adquirira o rancho.
No entanto, não se fixou em todos os pormenores, de tal maneira a sua atenção se concentrava no pequeno curral, onde os homens, parecendo advertir-se da sua aproximação, se voltavam para olhar curiosamente, enquanto um deles parecia destacar-se dos restantes para caminhar ao seu encontro.
Cathy deteve a sua montada e o homem aproximou-se, tomando as rédeas do animal junto ao freio. A rapariga verificou tratar-se de um homem já idoso, de magro e apergaminhado rosto no qual brilhavam estranhamente uns amarelados olhos de falcão que a examinavam penetrantemente.
— É a menina Garfield, não?
— Sim. Lamentaria muito havê-los interrompido. Eu queria apenas...
— Chamo-me Sad e sou o capataz. Quer desmontar? Deve ter sido um bom passeio e é natural que esteja cansada.
— Obrigada.
Ao aceitar a ajuda do capataz e saltar em terra, Cathy sorriu timidamente sem saber que dizer.
Mas não teve de se esforçar.
— Gen está a domar aquela égua dourada. Quer assistir?
A rapariga sorria agora mais abertamente, desvanecida a sua timidez. Sem saber porquê, sentia que o velho Sad era seu amigo.
— Oh, ficaria encantada!
— Será capaz de se atrever a encarrapitar-se ali em cima ... Na ópera é de onde melhor se vê ... Claro que me atrevo.
Cathy era «western» e rancheira de nascimento, pelo que sabia perfeitamente que os vaqueiros denominavam de «ópera» a última travessa da vedação.
— Nesse caso, venha. Eu ajudá-la-ei a subir.
Um momento depois a jovem estava também encavalitada no alto da cerca, junto do veterano vaqueiro, olhando com os olhos muito abertos a violenta luta que estava a desenrolar-se no recinto.
— Está quase terminado — ouviu o capataz dizer-lhe. -- Este bicho é de uma energia inesgotável. Já foi vencido, mas nega-se ainda a admiti-lo.
No entanto, Cathy não conseguiu advertir-se de qualquer indício que a levasse a supor que o animal estava dominado.
A égua, que sabia agora ser o magnífico baio, espinoteava como se fosse de borracha, a cabeça encolhida entre as patas, rígidas estas, o dorso violentamente arqueado, numa vertiginosa sucessão de saltos de natureza a parecer impossível que alguém pudesse manter-se sobre a sela.
Mas Gen permanecia ali e ali continuou, até que o animal se deteve para tomar fôlego, pausa que o cavaleiro aproveitou para o exasperar, metendo-lhe as esporas ao longo das ilhargas.
«Gold Dust» (1), como mentalmente havia já batizado a égua, elevou as mãos, batendo o espaço com os cascos e relinchando o seu protesto. Depois, num violento impulso, arrancou em desenfreada correria que cortou subitamente, cravando as patas dianteiras no solo e deixando-se cair de flanco contra a vedação.
Cathy soltou um grito de angústia, pois numa ocasião idêntica, sendo ainda muito criança, vira fazer aquilo mesmo a um cavalo selvagem e, a partir de então, o seu domador passou a ocupar-se da cozinha de campanha do rancho, coxo e inutilizado para montar.
No entanto, desta vez foi diferente. Gene soubera retirar a perna antes de se verificar o intento do bruto de lha esmagar, deixando-se ficar montado de lado até o animal se afastar da paliçada.
— Está assustada. É o final — gritou Sad.
Efetivamente, «Gold Dust» debatia-se cegamente e com tal violência que só a sua enorme resistência podia permitir. No entanto, tornava-se impossível prolongá-la por muito mais tempo.
De facto, começou a correr loucamente em redor do recinto, até que, pouco a pouco, foi obedecendo à vontade do cavaleiro, que lhe fez diminuir a marcha, reduzindo o furioso galope a trote moderado, dirigindo-o para um lado e para o outro até detê-lo completamente.
— Já está! — voltou Sad a exclamar, entusiasmado. Não há outro cavaleiro como Gen.
-- Oh!, com toda a certeza que não! — concordou a excitada Cathy com muito mais veemência do que convinha a uma senhora.
— Agora terei de lhe dar uma fricção e agasalhar bem esse animal para que não apanhe um resfriamento. Dá--me licença, menina Garfield?
— Naturalmente.
O capataz saltara já para o interior da cerca com uma agilidade perfeitamente juvenil, assim como os vaqueiros, que se agruparam em torno do baio e do seu cavaleiro.
— Bom trabalho! — ouviu Cathy dizer ao rapaz.
Com crescente inquietação viu Gen desmontar fatigadamente e, entregando as rédeas ao capataz, desapertar o lenço do pescoço e dirigir-se para ela, enxugando o bronzeado rosto brilhante de suor onde ressaltavam, cada vez mais intensamente à medida que se aproximava, o branco da sua impecável dentadura e o azul dos seus grandes olhos que a contemplavam com perturbante firmeza.
— Que alegria, Cathy! exclamou ele. — Estou contentíssimo de a ver.
Ela notou que o rosto masculino se avermelhara um tanto e sorriu, fazendo um esforço para dominar a timidez de que se sentia invadida.
— Custa a 'acreditar que assim seja — redarguiu a jovem, procurando mostrar-se jovial, mas sem estar muito convencida de o conseguir. Não vivemos tão longe que não possa visitar-nos uma vez por outra...
— Está a ser injusta — protestou ele. — Depois do ocorrido na festa de Sally Ormond não estava muito certo de ser bem recebido se a visitasse, e por outro lado, como deve supor, estou cheio de trabalho.
— É sempre possível arranjar algum tempo para aquilo que realmente se deseja. De qualquer modo, aceito a sua escusa, visto que teve a delicadeza de a engenhar.
— Conceda-me alguns momentos para me desfazer de toda esta sujidade e tentarei convencê-la de que não se trata de nenhuma escusa.
— Concedido — riu ela, pois Gen estava realmente coberto de pó e de suor depois do seu encarniçado combate com o baio.
— Permita-me...
O jovem elevou os braços para abarcar entre as suas mãos a breve cintura da jovem, depositando-a suavemente no solo com a maior facilidade, tal como se ela fosse uma pena.
Mas embora não o parecendo, estava a realizar um esforço superior às suas forças, não propriamente físicas.
Ela estava adorável com o seu elegante traje de amazona e, ao tomar-lhe a cintura para a depositar no solo, ela elevara para ele a sua linda cabeça e sorrira-lhe de um modo tão enfeitiçador, que Gen estivera quase a apertá-la nos braços e a comê-la com beijos.
Mas em vez disso dedicara-lhe uma galante reverência ao mesmo tempo que lhe indicava a casa com um gesto da mão.
— Visto que sou obrigado a abandoná-la por alguns minutos, quero deixá-la ao menos confortavelmente instalada.
— Não se preocupe. Prefiro ficar por aqui a bisbilhotar.
— Está em sua casa. Não conhecia o rancho? — perguntou-lhe Gen, solicito.
— Não. O senhor Kerr e meu pai nunca se entenderam lá muito bem.
— Sei que Kerr acusava seu pai de todas as suas perdas.
-- Isso é absurdo!
— Deve tratar-se de um passatempo local, pois agora Ormond, Morden e outros manifestam a opinião de que sou eu quem lhes reduz as manadas.
— Meu pai não pensa desse modo.
— Na realidade não creio que alguém faça outra coisa que não seja desafogar o seu mau humor. A partir de agora, poderá haver motivo para dúvidas, visto que também eu me tornei ganadeiro. Mas anteriormente resultaria estúpida tal acusação, visto que, desde que cheguei a esta terra, nunca tive, comprei ou vendi uma única vaca. Inteira-se, entenda-se — acrescentou com um sorriso.
Deixou-a instalada no terraço da casa e foi a correr tomar um rápido banho e mudar de roupa, o que não lhe levou mais de quinze minutos. Ao regressar, já com melhor aspeto, verificou que ela não estava onde a deixara, mas sim novamente na cerca onde se encontrava a égua dourada.
— Agrada-lhe? — perguntou ao aproximar-se.
Ela voltou-se, sorrindo.
— Oh! É maravilhosa! Tenciona vendê-la?
-- Não.
Cathy desviou os olhos com certa precipitação, a fim de que ele não se advertisse do seu desencanto.
-- Lamento murmurou. — Gostaria imenso de a possuir.
— Ainda bem.
A rapariga elevou vivamente a cabeça, olhando-o entre surpreendida e desgostada.
— Você não pode sabê-lo -- continuou Gen com um leve sorriso —, mas essa égua escapou-se-nos quando apanhámos toda a manada a que pertencia. Foi precisamente no momento em que chegou o seu vaqueiro com «Stormy». Não obstante, tive-a muito perto, quase ao alcance do meu laço, e pude verificar que era um animal jovem, de bom sangue, veloz e resistente. E decidi que seria uma boa montada para si.
Ela olhou-o de novo, abrindo desmesuradamente os seus belos olhos.
— Para mim?!
— Exatamente. Agrada-lhe?
— Oh, claro que sim! Mas... quer dizer que a caçou para mim?
— Precisamente. Mal acabei de encerrar a manada, tomei dois cavalos frescos e, juntamente com «Storny», iniciei a perseguição. Foi longa e cansativa, mas, finalmente, depois de deixar completamente esgotados os dois animais de reserva, a resistência excecional do meu zaino permitiu que me aproximasse o suficiente para a laçar.
Cathy escutava-o com os olhos brilhantes e a respiração alterada.
— E vai-ma vender? — perguntou, incrédula. Gen sacudiu a cabeça negativamente.
— Já lhe disse que essa égua não está à venda
O brilho luminoso que por momentos transpareceu nas escuras pupilas da rapariga desapareceu lentamente.
— Agradeço-lhe muito, senhor Keller, mas se o entendi bem, não seria correto que aceitasse a sua oferta e, de qualquer modo, tão-pouco mo permitiriam.
Gene desatou a rir.
— Ainda tenho de a domar — disse. Temos tempo.
Ela olhou-o sem compreender até descobrir um fulgor azulíneo nas pupilas masculinas que dançava e ria. Então sorriu lentamente ao mesmo tempo que também fulgurava qualquer coisa na aveludada profundidade dos seus olhos.
— Está assim tão certo de o conseguir? perguntou com intenção, semicerrando os seus belos olhos que brilhavam de malícia. — A si mesmo lhe ouvi dizer que as éguas são mais difíceis de domar.
— É uma questão de habilidade e de firmeza — afirmou Gen.
— Sente-se muito seguro de si mesmo.
— Para triunfar é condição imprescindível.
Ela inclinou a cabeça sorrindo-lhe, enquanto começava a calçar as luvas.
— Devo dizer que lhe desejo o triunfo?
— Sim, desde que o diga sinceramente.
Ela não respondeu, dirigindo-se para a casa, em frente da qual se encontrava o seu cavalo.
— Confio em que não se disponha a deixar-nos já — disse ele, colocando-se a seu lado. — Fique para almoçar e, depois, se mo permitir, acompanhá-la-ei.
— Não é necessário. Você deve estar muito fatigado.
— O banho pôs-me como novo e, em qualquer caso, desfrutar da sua companhia compensa-me sobejamente de qualquer esforço. Ela deitou-lhe um olhar velado pelas suas longas pestanas.
— Agradeço-lhe muito, mas não posso ficar. Meus pais não sabem que vim aqui e ficariam alarmados se não estivesse de regresso à hora do almoço.
— Como você queira. Conceda-me apenas um momento para selar o meu cavalo.
-- Não se incomode.
-- Nada me poderia incomodar menos.
Deixou-a novamente para se dirigir rapidamente ao estábulo, de onde não tardou em regressar com o magnífico «Stormy» conduzido à rédea.
— A sua disposição — disse, inclinando-se junto do cavalo de Cathy, com as mãos entrelaçadas para ajudá-la a montar.
— Sentiria se lhe roubasse o seu tempo -- pretendeu ainda dissuadi-lo a jovem, inclinando-se para ele, uma vez sobre a sela.
-- Nunca o meu tempo foi tão bem empregado replicou Gen galantemente, montado por sua vez.
(1) «Poeira de ouro».

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

PAS700. O vale dos cavalos selvagens

Enquanto subia a íngreme encosta, mantendo-se com dificuldade na sela, Cathy compreendeu perfeitamente por que a maioria das mulheres preferia montar escarranchada, não obstante o processo resultar um tanto masculino.
Também ela montara desse modo, até dois anos antes, quando era ainda uma rapariguinha, e embora depois lhe tivesse custado montar à amazona, vira-se forçada a habituar-se sob pena de se tornar objecto de reparos. Mas uma coisa era cavalgar por um parque em Saint Louis ou nas campinas de Missouri e Illinois, e outra muito diferente nas montanhas do alto Wyoming.
Finalmente, conseguiu vencer o agreste pendente, atrás do vaqueiro que conduzia pelas rédeas o enorme zaino. Atingida a crista da colina, iniciou a descida da ladeira oposta. Seguiam-na mais alguns vaqueiros.
Lá em baixo brilhavam, como prata fundida, as águas de uma lagoa, no extremo mais afastado da qual havia um pequeno pinhal, que se alongava pelo lado oposto do vale que existia à esquerda até se converter num largo e abrupto «canyon» de paredes verticais cobertas de plantas bravias.
Cathy olhou para todos os lados com crescente ansiedade, mas não tardou que as suas belas pupilas se sombreassem.
— Mas aqui não há ninguém! — proferiu.
Um dos vaqueiros voltou-se para ela.
— Olhe ali, menina Cathy, na extremidade da lagoa. Não vê uma linha contínua de arbustos entre os pinheiros e a água?
— Sim. Há como um largo corte a meio.
— É uma cerca dissimulada, menina. Há-de haver uns três dias estavam ali a trabalhar. Eu próprio pude verificá-lo.
— Mas, agora, não há ali ninguém.
— Vou descer para ver. Não podem ter tido tanto trabalho para nada.
— Leve o cavalo e entregue-o ao senhor Keller, se o encontrar. Mas não lhe diga que eu estou aqui, nem mesmo no caso de ele lho perguntar.
— Esteja descansada, menina Cathy.
O vaqueiro, segurando as rédeas de «Stormy», empreendeu imediatamente a descida.
De súbito, algum tempo depois, outro dos vaqueiros que haviam ficado soltou um grito excitado.
— Olhe ali, menina! ... No «canyon» ... saindo dele ...
Cathy voltou-se na direção indicada, descobrindo uma longínqua nuvem de pó através da qual se distinguia muito dificilmente uma manada de cavalos de longas crinas e caudas eretas, que se aproximavam a todo o galope pelo fundo do pequeno vale.
— Cavalos selvagens! — gritou a rapariga com súbita compreensão deleitando-se a contemplar os impetuosos animais.
— Olhe como os empurram para a cerca da lagoa —continuou o homem. — Se o conseguirem, terão apanhado toda a manada. E deve haver para cima de cinquenta cabeças!
— Aí vai Paddy! — gritou de repente outro dos vaqueiros. — Vai lançado e não há dúvida que chega no momento mais oportuno. Aquele baio que vai à cabeça estava a desviar-se para passar para o outro lado da lagoa.
Enquanto os vaqueiros gritavam excitados, Cathy olhava sem perder pormenor algum, muito abertos os seus imensos olhos, retendo quase a respiração e apertando o agitado peito com as mãos, pendente de quanto ocorria no fundo do pequeno vale.
— Olhem o guia! — gritou rouco de excitação um dos homens. — O maldito parece pressentir a armadilha. Está inquieto e galopa com a cabeça erguida, vigilante e desconfiado. Se não o abatem com um tiro irá espantar toda a manada.
— Oh! Não farão tal selvajaria! — protestou a jovem.
Ninguém pareceu ouvi-la.
— Aquele deve ser Keller. Vejam como se aproxima de Paddy. Agora ergue-se nos estribos e ... vai saltar! ...
Efetivamente, um cavaleiro havia-se destacado, correndo a todo o galope na direção do vaqueiro que conduzia o zaino à arreata. Flanqueava a manada de cavalos selvagens, procurando evitar que se desviasse, mas era visível que perdia cada vez mais terreno no seu intento.
Momentos depois, os três animais cavalgavam a par, formando um apertado grupo, até que, de súbito, sem se deter ou mesmo diminuir a velocidade do galope, o cavaleiro saltou para a sela do zaino com uma agilidade circense.
O enorme garanhão estirou-se num súbito arranco e pareceu que os outros dois brutos haviam ficado parados.
— Conseguiu-o!
— É um verdadeiro demónio!... Olhem como corre agora!
— Mas esse baio também é rápido como o vento. Já não há dúvida de que se advertiu da ratoeira e procura contornar a cerca. Vai fazê-lo mesmo pela frente de Keller!
— Levará a manada inteira consigo se não matam esse maldito!
— Aproximam-se cada vez mais!
O bater de cascos ouvia-se já claramente e acabou por se converter num surdo trovão quando a manada passou diante de Cathy e dos vaqueiros que a escoltavam.
Então produziu-se o estampido de alguns disparos e a rapariga soltou m grito.
— Oh, isso não! ... Mas ...
O baio continuava a correr como uma flecha, as suas douradas crinas ao vento, não parecendo assustado com as detonações.
— Escapa-se! — gritou louca de alegria.
— Em compensação os outros assustaram-se... Estão apanhados!
Cathy nem sequer os ouviu e tão pouco lhe importava. Exprimia a sua alegria em virtude do maravilhoso animal ter conseguido desviar-se a tempo e, correndo pela margem da lagoa, rodear esta e iludir a armadilha.
Passou como um raio por entre os primeiros e espacejados pinheiros, voltou novamente ao vale, atravessando uma clareira e, deixada já para trás a cerca, não tardou em desaparecer.
— Que maravilhoso animal! — exclamou Cathy, magnífica na sua excitação, chispantes os seus olhos e coradas as suas faces.
— Pouco faltou para que levasse toda a manada atrás dele. Não compreendo como Keller se arriscou tanto quando podia tê-lo derrubado a tiro.
— Porque isso teria sido uma selvajaria! — protestou a jovem, indignada.
O vaqueiro olhou-a manifestamente admirado.
— Que importância teria isso? De qualquer forma, iria fugir, e podia ter estragado um trabalho de muitos dias.
Cathy fulminou-o com o olhar.
— Como pode ser tão insensível? Será que não lhe importa a vida de um animal tão belo?
O vaqueiro não parecia compreender muito bem a importância que podia ter a beleza de um cavalo que não pudera ser apanhado.
— Se os outros não se assustam, podiam ter envolvido Keller. O baio é, na verdade, um bonito animal, mas bem se viu que se tornava impossível apanhá-lo. Por que se exporem então a perder os outros? Não tem sentido.
Cathy apertou os punhos e tomou alento, mas a expressão do vaqueiro era tão obtusa e surpreendida, que desistiu, compreendendo que seria inútil discutir.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PAS699. O rebelde cruza-se com a bela em apuros

Visto que não estavam em Sheridan e Gen não tinha uma ideia acerca do sítio onde poderia encontrar os seus homens, e sendo já demasiado tarde para continuar a sua viagem, resolveu passar a noite na cidade, escolhendo para o efeito o mais modesto dos seus dois hotéis.
Não se levantou muito cedo, pois queria aproveitar para fazer compras: provisões, arame, pregos, algumas ferramentas ... Depois de adquirir tudo, foi a um dos estábulos e alugou um animal forte que pudesse servir-lhe de azémola, carregando-o com as suas aquisições.
Passava, portanto, das dez horas da manhã, quando, finalmente, abandonou a cidade, seguindo o caminho de carros que conduzia a Akron, se bem que não pensasse chegar até ali, mas sim desviar-se muito antes, tomando a direção do Norte.
Todavia, andada pouco mais de meia milha, ouviu uns gritos agudos e angustiosos.
Eram evidentemente de mulher e pareciam soar do outro lado do cotovelo formado pelo caminho à sua frente, num ponto penhascoso coberto de mato. Gen tinha já bastantes conflitos com os seus próprios assuntos, mas mesmo assim não hesitou um momento.
Em caso algum isso teria sucedido, mas muito menos tratando-se de uma mulher.
— Vejamos do que se trata — murmurou de si para si, roçando os flancos do seu cavalo com as esporas.
O zaino lançou-se no mesmo instante para a frente, quase arrastando com ele a azémola que o seguia e cobrindo em poucos segundos a meia centena de jardas que os separava da pronunciada curva.
Ainda não tinha entrado nesta, quando novos gritos chegaram aos seus ouvidos.
— Socorro! ... Socorro! ...
Mas os apelos ainda não se haviam extinguido quando o jovem, dobrada a curva, viu imediatamente o que estava a acontecer.
No mesmo instante também foi visto.
— Cuidado! — gritou um dos homens que procuravam subjugar a mulher.
Ao vê-lo, largaram-na imediatamente, deixando-a cair desamparada no solo poeirento, sob as patas de três cavalos, que se agitavam, nervosos e assustados.
Gene soltou a corda que segurava a azémola e ao mesmo tempo as rédeas. A situação era sob todos os aspetos daquelas que tornam necessário ter as mãos livres.
Não sabia quem pudesse ser a mulher, nem tão-pouco a relação que houvesse entre ela e os dois indivíduos, que se haviam afastado um do outro e avançado alguns passos, fazendo-lhe frente. De maneira que resolveu não se precipitar.
Deteve o zaino com uma leve pressão dos seus joelhos e esperou.
— Quem diabo é você? — perguntou desabridamente o indivíduo de rosto magro e ossudo e olhos de marmota.
— Isso é o que eu perguntava a mim próprio em relação a vocês — redarguiu Gen com calma.
— Ponha-se a andar, rapazola! — grunhiu o segundo dos homens que enfrentavam Keller, mais corpulento do que o seu companheiro.
— Porquê?
A tranquila pergunta pareceu surpreender e encolerizar os dois indivíduos.
— Maldito intrometido! — estalou «Rosto Magro», como era conhecido. — Afaste-se do nosso caminho, imbecil!
O insulto dava à questão um aspeto pessoal, de maneira a permitir a Gen proceder sem aguardar novo pedido de auxílio da mulher nem receio de cometer um possível erro.
— Guarde os seus zurros para quando se dirigir aos quadrúpedes da sua estirpe advertiu, sem se alterar.
Os salientes pómulos do homem obscureceram-se.
— Bastardo ...! — bramiu. — Vou ensinar-te a ...
Era rápido, sem dúvida, mas ainda não tinha acabado de extrair o seu revólver quando viu com olhos espantados voltado para si um dos azulados «Colts» de cano comprido e encaixes de nácar, que despedia reflexos brilhantes sob a ação dos raios solares. E viu o fumo e a pálida língua alaranjada que brotou da arma, ao mesmo tempo que sentia no corpo o impacto paralisante que o empurrava para trás e para o lado, fazendo-o oscilar na sela.
Após, sentiu uma dor vivíssima e uma angustiosa sensação de afogo e de vertigem. Como se se precipitasse num poço sem fundo, sem ar e sem luz. E mais nada.
Nunca chegaria a saber que estava a guinchar desgarradamente, como um suíno, enquanto se precipitava no solo.
Mal apertara o gatilho do seu revólver direito, Gen moveu o esquerdo, já engatilhado, e soltou o percutor quando o segundo indivíduo levantava a sua arma.
Dois tiros impecáveis, precisos, com menos de um segundo de intervalo.
Gen libertou-se dos estribos, passou a perna esquerda por cima da borraina da sela e saltou para o solo, sem largar as suas armas nem deixar de vigiar um só instante os dois corpos que jaziam agora sobre a poeira do caminho.
O detonar das armas, os gritos, a queda dos dois cavaleiros e o odor a sangue espantaram os cavalos, de modo que nada se interpunha entre Gen e as suas vítimas quando avançou cautelosamente para elas, engatilhados os revólveres e prontos para abrir fogo ao menor indício de perigo.
Mas já não havia nada que temer. «Rosto Magro» estava morto e o seu companheiro estremecia nas últimas convulsões.
Gen, então, levantou a cabeça, olhando para onde caíra a mulher.
Despenteada, coberta de pó e com o rosto manchado por um amálgama de poeira e lágrimas, contemplava-o por sua vez com uns olhos tão abertos que pareciam encher-lhe as feições.
Permanecia no meio do caminho, semi-ajoelhada, com as mãos mergulhadas na terra solta e tão assustada ao que parecia que só a sua incapacidade de reações a impedia de se levantar de um salto e escapar a toda a pressa.
— Encontra-se bem? Não está ferida nem magoada? — perguntou amavelmente Gen, com uma voz calma e tranquilizadora.
Ela moveu os lábios sem conseguir articular som algum, incapaz de se mexer ou de falar. Fixou os olhos angustiados no rosto moreno do homem, onde ressaltavam os seus dentes brancos num sorriso preocupado.
Procurando conter os soluços com que desafogava a angústia sofrida e lutando contra o violento desejo de esconder a sua cabecinha loira entre os largos ombros masculinos cobertos pelo casaco de pele, sentindo-se mais desvalida e criança do que nunca na sua vida, Cathy acabou por se levantar sem parecer notar a mão que se estendia para a ajudar, refugiando a sua debilidade atrás de uma estranha, incompreensível e a todos os títulos intempestiva atitude orgulhosa.
Erguendo com altivez a cabeça para vencer a sua própria fraqueza, e sem deixar de dar a impressão ao homem que a contemplava de que desprezava a sua ajuda, Cathy procurou sacudir-se do pó e dar uma certa ordem ao vestuário.
Gen quedara-se paralisado de surpresa, pois somente ao inclinar-se para ajudar a jovem a levantar-se é que a reconhecera.
E também sofreu uma estranha reação, não só pela súbita compreensão do que estivera prestes a suceder à linda rapariga que tão profundamente o impressionara em Akron, como pela inexplicável altivez com que praticamente o ignorava, depois de ele a ter salvado com grave risco da sua vida.
— Pelo visto, tanto você como seu pai julgam-se os donos da região — observou desabridamente. — Será que nenhum dos dois tem o senso suficiente para compreender o risco a que se expõe andando sozinha por estes caminhos?
A brusca reprimenda teve o condão de libertar os contraídos nervos da rapariga.
— O facto de me haver salvado a vida não lhe dá o direito de censurar as minhas ações e criticar meu pai — exclamou, fora de si, num tom agreste e mordente.
— Não foi a vida que lhe salvei, menina — replicou Gen, igualmente desagradável, para acrescentar com rude sarcasmo: — Pode inclusivamente ter acontecido que não fosse nada de importância, em cujo caso lhe rogo que desculpe a minha impertinência.
Cathy, ao compreender o alcance daquelas palavras, abriu desmesuradamente os seus formosos olhos.
— Oh! — exclamou, sem palavras, formando um circulo delicioso com os seus lábios trémulos que eram uma pura tentação, bem como todo o seu rosto, não obstante o pó misturado de lágrimas que o cobria.
Contemplando-a, Gen compreendeu que estava perdido, que jamais poderia olvidar aquela maravilhosa criatura tão fora do seu alcance.
— Você!... Você! — gritou ela, rubra de indignação e vergonha, sem encontrar palavras que exprimissem o que sentia.
— De qualquer modo, livrei-a de alguns incómodos — prosseguiu Keller, aparentando uma serenidade que estava longe de sentir. — E para lhe evitar a humilhação de se mostrar agradecida, com isto ficamos quites.
Ainda não havia acabado de falar quando a acolheu entre os braços, abarcando facilmente a breve cintura e beijando com ânsia aqueles lábios tentadores que, surpreendidos, não ofereceram resistência alguma durante alguns instantes.
Depois, a rapariga afastou-se violentamente e tentou esbofetear o atrevido, que o impedia agarrando-lhe os pulsos.
Cathy não se sentia agora assustada. Pelo contrário, experimentava uma estranha sensação, algo que nem ela própria saberia explicar e do qual nem mesmo se chegava a advertir.
Raivosamente, começou aos pontapés contra as tíbias do aprumado jovem, ao mesmo tempo que procurava morder as mãos que lhe sujeitavam os pulsos.
Um dos pontapés alcançou Gen um pouco acima do cano da bota, e embora o pé fosse pequeno e delicado, o golpe arrancou-lhe um grunhido, e fê-lo descuidar-se por um breve instante, que a rapariga aproveitou para fincar os seus dentes pequenos e bonitos, mas fortes e agudos, na mão esquerda de Keller, obrigando-o a soltar um uivo de dor.
Cathy parecia uma gata furiosa e nem sequer pensava em fugir. Mantendo a sua agressividade, deu-lhe uma unhada ao mesmo tempo que lhe aplicava um novo pontapé e tentava morder-lhe a outra mão, tudo isso de uma maneira rápida e contínua, quase simultânea.
Ante aquilo, Gen voltou as costas a Cathy, empreendendo uma tão veloz como ignominiosa retirada, correndo tanto quanto lhe permitiam os altos tacões das suas botas vaqueiras e os pesados safões atados às suas pernas.
Já a salvo e verificando que não era perseguido, voltou-se entre envergonhado e um tanto divertido, para ver o que fazia o orgulhoso diabinho que o havia enfeitiçado. E no mesmo momento esqueceu-se de tudo ... que não fosse a urgente necessidade de se pôr a salvo.
Ela aproximara-se do seu cavalo, arrancando da sela o poderoso e moderno rifle de Gen.
— Diabos! — grunhiu ele, ao mesmo tempo que se lançava de um salto para fora do caminho, arremetendo com ímpeto sobre o agreste matagal que crescia à margem da curva.
Gen fazia mais ruído que um touro enfurecido num sobreiral, mas mesmo assim ouviu perfeitamente o estampido do rifle.
Ela não podia vê-lo, mas o rumor e agitação do mato constituíam uma boa referência, pelo que Gentry Keller se deteve instantaneamente.
— Saia daí, cobarde, atrevido, abusador de mulheres!... Vamos, miserável! Por que não volta?
Os gritos da jovem chegavam aos seus ouvidos com perfeita clareza.
— Um perfeito demónio! — ruminou, assomando com precaução a cabeça por entre a densidade do mato.
Ela continuava no meio do caminho, junto do cavalo e com o rifle empunhado.
Os outros animais haviam-se afastado, espantados com os disparos e o cheiro a sangue, mas o zaino continuava firme, sem acusar medo algum, para além de um ligeiro tremor nos músculos das patas.
— Não se esconda, grande patife! É tão cobarde que tem medo de uma fraca rapariga, só e desamparada?
Gen estremeceu, sacudido por um riso silencioso.
— Livra! — considerou. —Não estão mal estas fracas raparigas, sós e desamparadas! Comparada com ela a mais feroz das panteras é um prodígio de mansidão.
Entretanto, Cathy, parecendo desistir de tirá-lo do seu esconderijo, voltara a meter a arma no coldre da sela e, agarrando-se à respetiva borraina, elevou-se com bastante facilidade, montando o zaino e esporeando-lhe os flancos. O cavalo partiu a galope.
— Ladrazinha! — exclamou Gen, sem que ela o pudesse ouvir, perguntando a si mesmo se devia assobiar ao animal, fazendo-o voltar, ou permitir que a sua linda inimiga o levasse.
Mas ela montava à cavaleiro numa sela inadequada, de maneira que uma paragem brusca do garanhão podia despedi-la por cima das orelhas do animal, do que seria muito possível resultar uma queda desastrosa, inclusivamente com alguma fratura.
Abandonou, portanto, o seu refúgio e ficou-se a ver a gentil amazona afastar-se, até desaparecer na distância. Logo, perdido o sorriso e carregando o cenho, olhou para os corpos que jaziam sobre a poeira do caminho.
Não podia deixá-lo ali, de maneira que se tornava necessário levá-los para a cidade e entregá-los ao xerife. Mas, que faria Sandpon? Não aproveitaria a oportunidade para o encarcerar? A verdade é que não alimentava muitas ilusões acerca do testemunho que Cathy Garfield pudesse dar dos factos, na hipótese de ser solicitada a prestá-lo.
Pensar nisso sombreou ainda mais os seus pensamentos. Que contaria a enfurecida rapariga a seu pai e qual seria a reação deste?
«Por que maldita razão hei-de complicar sempre a existência de tão estúpida forma?», pensou, furioso consigo mesmo. Mas como as recriminações não conduziam a nada, encolheu os ombros e foi à procura dos cavalos.
A azémola estava perto, pastando à beira do caminho e os cavalos dos indivíduos mortos tão-pouco se haviam afastado muito. Mas o da rapariga desaparecera, certamente por ser o único que sabia como regressar à cavalariça.
Tudo se resolveu facilmente atravessando num dos animais os ensanguentados cadáveres das suas vítimas, embora a tarefa não lhe fosse muito agradável, e montando o outro.
Levando à arreata a azémola e o cavalo que transportava a fúnebre carga, empreendeu o regresso à cidade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PAS698. Um passeio com maus encontros

Cathy tinha algumas boas amigas em Sheridan e também nos ranchos dos arredores, de maneira que, no dia seguinte ao da sua chegada, com a justificação de visitar uma ou duas delas, fez que lhe selassem um cavalo e, verdadeiramente encantadora com o seu elegante traje de amazona cor de tabaco, encaminhou-se resolutamente para a cidade.
Não disse aonde ia para evitar explicações. Seu pai não estava e sua mãe nunca fora capaz de se opor ao mais pequeno dos seus desejos. Por isso ninguém a preveniu de que a região sofrera uma transformação durante a sua ausência, e não precisamente para melhor.
Dois anos antes não havia em toda a região, para a filha do coronel Andrew Garfield pelo menos, outro perigo que não fosse o dos índios, poucos já e empurrados para os mais recônditos «canyons» dos montes Big Horn, cujas incursões iam sendo cada vez mais raras e menos perigosas, pois embora não faltassem vagabundos, abactores e um ou outro pistoleiro, ninguém se atrevia a provocar a ira do poderoso rancheiro.
Mas, desde então, descobrira-se ouro em Montana e estalara uma violenta guerra entre vaqueiros e ovelheiros. A região era quase continuamente atravessada por silenciosos cavaleiros de aspeto pouco recomendável, procedentes do Sul e do Oeste Médio. Homens que jamais tinham ouvido falar do coronel Garfield, e que não temiam nem o próprio diabo.
O propósito da jovem era falar com o xerife Sandpon. Sabia que o antigo capataz era muito afeto a seu pai e que lhe queria a ela quase como se fosse sua filha, pelo que estava certa de que a poria ao corrente da situação, e também que não lhe seria difícil interceder em favor de uma solução pacífica do litígio com Gentry Keller, assim como para o convencer a legalizar a situação do rancho Garfield, por forma a não poder repetir-se o mesmo caso.
 A jovem era decidida e inteligente, e a gestão que se propunha a mais oportuna, mas não devia ter saído sem escolta. Depressa iria certificar-se disso.
Aproximava-se rapidamente da cidade, a qual começaria a ver logo que dobrasse a primeira curva do caminho, quando viu surgir dela dois homens a cavalo, cavalgando ao trote das suas montadas.
Estavam já suficientemente perto, de maneira a permitir que Cathy verificasse que aqueles homens lhe eram completamente desconhecidos. Mas a rapariga não se preocupou com isso, pois ela estivera ausente muito tempo e havia sempre vaqueiros novos na região. Além disso, aquele caminho ligava Sheridan com a estrada de Bilings, pelo que não podia causar estranheza alguma cruzar-se com viajantes.
Mas os dois cavaleiros não se limitaram a passar. Subitamente, atravessaram-se na sua frente, obrigando-a a deter-se.
Um dos desconhecidos levou inclusivamente o seu descaramento ao ponto de agarrar nas rédeas da sua montada.
— Com mil demónios, Jess! Viste alguma vez uma pombinha tão linda como esta? — exclamou o homem, inclinando-se e olhando-a de uma maneira que era ainda mais insultuosa que as suas palavras.
— Deixa-me vê-la bem, companheiro — replicou o outro, aproximando-se também. — Não esperava encontrar um torrão de açúcar como este a meio do caminho.
Cathy não estava de modo algum assustada. Apenas indignada. Tão indignada que tardou alguns segundos em encontrar a voz.
— Quer fazer o favor de largar a rédea do meu cavalo? -- perguntou altiva, esforçando-se por se lembrar que era uma senhora e não podia perder a compostura.
O indivíduo que retinha o animal, de rosto magro e olhos frios e pálidos como os de um peixe, sorriu lascivamente.
— Pois claro, minha linda. Não é ao cavalo, mas a ti que eu quero agarrar. E por certo que tenho bem onde ...
O outro soltou uma gargalhada.
— Escolheste o cavalo, rapaz. Mas eu dou preferência ao que há debaixo desse avultado casaco.
Cathy tardou em reagir, pois não esperava tanta audácia. Para ela era inimaginável que alguém fosse tão brutal, tão canalha, tão ...
Viu o homem inclinar-se para ela e estender a mão, mas foi só quando sentiu o seio apertado que compreendeu o seu propósito.
Então, como uma labareda de cólera, de vergonha e asco, fustigou o rosto do canalha com uma chicotada dada com toda a força do seu braço.
O homem soltou a sua presa, deitando-se para trás com uma soez imprecação.
— Cadela indecente! Eu já te ...
O outro, interrompendo-se quando ia começar a protestar por o seu companheiro se lhe ter antecipado, soltou uma gargalhada, que também não chegou a terminar, pois Cathy havia metido as esporas nas ilhargas do cavalo ao mesmo tempo que dava uma nova chicotada no homem que a ultrajara.
Montava um formoso cavalo negro, de pouca estatura, mas de sangue puro e bela estampa, o qual, ao sentir a cruel mordedura na carne e estando sujeitado pelas rédeas, elevou as patas dianteiras, soltando um relincho e golpeando com os cascos o animal que se lhe interpunha, procurando afastá-lo.
O homem que o montava, alcançado também numa perna, soltou a rédea com um grito de dor, inclinando-se para um lado com risco de cair.
O negro palafrém, aberto já caminho, atirou-se para a frente acicatado pela sua amazona, mas sem grande impulso, travado como estava pelo outro animal, não obstante o que esteve prestes a derrubar o outro cavaleiro, que se aferrou às rédeas e deu um violento esticão.
— Não escaparás, maldita — rugiu, inclinando-se mais para a frente para a agarrar por um braço.
Cathy golpeou-o na cabeça com o chicote, mas, já assustada, furiosa e aturdida pelo inesperado, violento e rápido desenrolar dos acontecimentos, não se advertiu de que o outro meliante lhe caía em cima até lhe arrebatar o látego das mãos com um esticão brutal.
— Agora arrancar-te-emos as unhas, gatinha — regougou o homem.
— Largue-me! Largue-me!
— Quieta, pequena!
— Meu pai matá-los-á por isto! -- gritou a rapariga, lutando desesperadamente para se libertar das mãos que a sujeitavam.
— Tira-a do caminho, Jess! ofegou o que lhe prendia o braço. Leva-a para o meio do mato. Vamos tirar--lhe as prosápias e mais alguma coisa.
Mas qualquer deles não largava a sua presa e Jess gritou:
— Larga-a tu, maldito! Puxando cada um para seu lado não haverá maneira de a levar daqui.
Cathy estava agora verdadeiramente aterrorizada. Mas, mesmo assim, gritava e debatia-se com todas as suas forças. Resvalou da sela e ficou pendurada pelos braços, sem chegar ao solo, aprisionada pelas rudes mãos que se cravavam na sua carne e lhe davam tais esticões que ameaçavam deslocar-lhe as articulações.
— Vamos, agora! — gritava o facínora que dava pelo nome de Jess. — Aguenta-a no ar e dá-lhe um esticão. Não importa que lhe arranques um braço. Não é disso que precisamos.
— Socorro! ... Socorro! ... — clamou a rapariga.
— Dá-lhe um bom tempero e obriga-a. a calar-se! Se essa maldita continua a gritar...
— Cuidado!
Cathy caiu pesadamente no solo, súbita e quase simultaneamente largada pelos dois canalhas, e rolou entre as patas dos cavalos, revolvendo-se numa densa nuvem de poeira que a sufocava.
Perdido o chapéu, coberto de pó o seu vestuário, tornados cinzentos os loiros cabelos e sujas as faces molhadas de lágrimas, Cathy permaneceu por alguns momentos incapaz de reagir, ocultando entre os braços o rosto transtornado pelas violentas e angustiosas sensações sofridas, estremecendo-lhe o corpo de soluços. E durante esse tempo esteve muito perto de ser espezinhada pelos animais.
Depois, os cascos afastaram-se e aproximaram-se, e ela levantou a despenteada cabeça do refúgio dos seus braços, embora nos primeiros instantes a poeira lhe impedisse toda a visão.
 

domingo, 1 de janeiro de 2017

ARZ123. O rebelde


(Coleção Arizona, nº123)

 No Oeste convertera-se numa lei não escrita o principio de que os precursores podiam instalar-se na pradaria livre sem mais requisitos, tomando para si toda a terra que a sua força e ambição lhes permitisse. Essa lei estava tão fortemente arreigada que um homem podia vender o seu rancho a outro sem ser o dono legalmente reconhecido da terra.
Evidentemente que não havia legitimidade legal no sistema, mas como as leis do Oeste não tinham então nada que ver com a legalidade, pois estavam diretamente relacionadas com a capacidade de cada um para defender o seu ou apropriar-se do dos outros, o facto não oferecia grande importância.
Gentry Keller rebelou-se contra este sistema e registou em seu nome um conjunto de terras nos arredores de Akron, estado do Wyoming, iniciando a sua exploração contra os interesses do coronel Garfield um homem que desbravou um vasto império depois de o arrebatar aos índios. O conflito assim iniciado só terminou graças à presença de uma beldade filha do coronel que impressionou fulminantemente o rebelde.
Eis a pura novela do Oeste pela mão de Tex Taylor. Estão cá todos os ingredientes: a presença adivinhada dos índios, o saque das suas terras, o contacto com os cavalos selvagens, o baile onde a beldade humilha o que a vai cortejar