terça-feira, 27 de julho de 2021

BIS245.08 Trégua quebrada

Havia pouco tempo que os últimos raios do sol tinham deixado de iluminar a terra, quando chegaram a Corrales. Eram numerosos os grupos de pessoas nas ruas da povoação. Todos os contemplaram, verdadeiramente boquiabertos.

Dos portais pareciam saltar olhos para os verem. O facto provocava curiosidade e assombro.

Luís Quintana e Martin Palácios, juntos, montados num mesmo cavalo! A notícia correu com uma rapidez que seria invejável para o cansado e trémulo cavalo. Pararam em frente da casa do único médico existente em Corrales e desmontaram: Martin com facilidade, Luís Quintana a muito custo.

Palácios amarrou o animal a uma coluna da entrada. A serva índia que lhes abriu a porta disse que o doutor Martinez saíra com o xerife, Craig Larson, havia cerca de uma hora. Ignorava se tardaria muito a regressar.

— Bom — decidiu Quintana — creio que será preferível eu esperar aqui. A perna dói-me muito e não a posso mexer.

— E eu vou-me embora. Depois nos tornaremos a ver. Precisamos de conjugar os nossos esforços para vir à superfície toda a verdade, Luís. O ódio tem de acabar entre as nossas famílias.

— Farei o que puder, Martin. Obrigado.

Os dois homens apertaram as mãos de um modo que pareceria impossível umas horas antes. Luis Quintana perguntava a si próprio uma vez mais, como o vinha fazendo na última meia hora, se não se teria cometido com Martin Palácios uma tremenda, irreparável injustiça. Martin demonstrava ser humano; salvara-lhe a vida, mesmo sabendo que Luis teria feito o possível para aniquilar a dele.

Três cavaleiros chegaram junto dos dois e muito surpreendidos ficaram ao ver ainda aquele aperto de mão. Eram Craig Larson, Adams, um dos seus comissários e o doutor Martinez. Os três entreolharam-se e empalideceram. Desmontando, aproximaram-se.

— Não esperava vê-los assim — a voz de Larson não era de satisfeito.

— Larson! Se não te conhecesse bem, diria que te incomoda ou aborrece ver-nos juntos em sinal de paz — replicou Martin, secamente.

— Não, não. Noutras circunstâncias, até me sentiria muito feliz com isso. Mas agora não. Francamente, isto complica as coisas muito mais.

— Não percebo porquê — começou a protestar Luis Quintana.

— Há umas horas assassinaram Jorge Palácios —atalhou o xerife.

— Não! Não é possível! — balbuciou Martin, subitamente desorientado.

O doutor Martinez e Adams confirmaram as palavras de Larson, com gestos, assim respondendo à muda pergunta que Martin lhes dirigira com os olhos. O xerife titubeou antes de prosseguir:

— E a aparência acusa Luís Quintana — disse, por fim, em tom tão baixo que não parecia a sua voz.

A revelação foi como bomba a explodir no cérebro de Martin Palácios. Os seus olhos relampejaram. Deu a sensação de travar interiormente uma luta indescritível. A pouco e pouco, foi volvendo o olhar para o assombrado Luís Quintana — um olhar a exprimir o que os lábios se negavam a dizer.

— Agora sou eu a jurar que não tenho relação nenhuma com isso, Martin. Também eu não sou um assassino. Os Quintanas são incapazes de matar à traição.

— Bom, tenho de te prender — atalhou o xerife. —Depois me contarão o motivo por que estão juntos e vieram montados num só cavalo. Deves compreender que ficas mais seguro metido numa cela. Adams acompanha--te. E tu, Martin, vem comigo. Precisamos de falar.

Despediu-se do médico.

— Um momento, Larson — apelou Quintana. — Estou ferido numa perna. Por isso nos encontrávamos aqui os dois. Tem de permitir que o doutor me veja. Depois irei com Adams para a prisão. A minha família e o meu advogado tratarão do assunto.

— De acordo — acedeu, prontamente, o xerife. —Adams, quando o doutor o tiver tratado, leva-o para uma cela. Ficas responsável por isso.

O médico, parado à porta de casa, voltara-se imediatamente ao ouvir a alegação de Luís Quintana. Só então notou o esforço esgotante que este fazia para se manter em pé.

— Entre, Quintana — disse. — Vamos ver o que tem.

Luís Quintana entrou, seguido pelo doutor Martinez e pelo comissário Adams. Larson olhou-os, em silêncio. Deu o braço a Martin, que estava como absorto, e forçou-o a andar, lado a lado com ele. Os cavalos continuaram ali. O ar do anoitecer foi lenitivo para o torturado Martin Palácios. Não ficava longe a delegacia.

— Larson... como foi? — perguntou de súbito Martin, quebrando o incómodo silêncio que os asfixiava.

— Encontraram-no junto da cabana que há no sopé das «Colinas Pardas». Tinha duas balas no corpo. Uma perto do coração, mas entrada pelas costas, e outra em pleno rosto.

— Jorge... tinha disparado o revólver dele? — perguntou Martin, com voz lenta, dominada a custo.

— Não.

— Porque disseste que foi Luís Quintana? — insistiu Martin no interrogatório.

— Na mão de Jorge encontrámos um relógio com as iniciais de Luís. Eu próprio o reconheci. Tenho-lho visto várias vezes.

— Incrível... incrível... — balbuciou Martin Palácios. — Onde está agora o corpo de Jorge?

— Na funerária de Carson. Não me atrevi a levá-lo para o teu rancho sem primeiro falar contigo ou com Enrique. Será um golpe duríssimo para os teus pais.

— O meu pai, no estado em que se encontra, não sei como o suportará — murmurou Martin. Quanto a minha mãe, nem quero pensar nisso! Tem andado com o coração muito em baixo.

Remeteram-se os dois a longo silêncio.

— A que horas foi? — perguntou Martin.

— Ao começo da tarde, segundo a opinião do doutor — respondeu Larson. — Porque fazes essa pergunta?

— Aí pelas cinco, Enrique e eu andávamos aos tiros com Quintana e Alcântara na «Charca Grande».

O xerife abanou a cabeça, com um gesto de quem o lamentava.

— Prefiro não ter conhecimento oficial disso, não havendo reclamações.

— Larson, estarás a pensar o mesmo que eu?

O xerife encarou em Palácios e acabou por concordar:

— Sim. Quintana teve tempo para o fazer. Não era isso o que pensavas?

— Mas acreditas que o tenha feito? — insistiu Martin.

— Não — redarguiu categoricamente Larson. — Não acredito.

— Nem eu. Nem eu, repito. Há dez anos que anda uma criminosa mão a lançar os Palácios contra os Quintanas e vice-versa. Porquê? Para quê?

Novo silêncio caiu entre os dois. Meditaram ambos no mesmo. Por fim, chegaram à delegacia. O xerife empurrou a porta. Hoskins, o outro comissário, cumprimentou-os ao vê-los entrar.

— Que venho fazer aqui, Larson? — perguntou Palácios.

— Se há alguém que deseje dar cabo de vocês, os Palácios, não devemos dar-lhe esse gosto. Aqui, ficarás mais seguro. Pelo menos até eu descobrir uma ponta por onde pegue para deslindar o assunto.

Martin Palácios riu forçadamente.

— Não estás a falar a sério, Larson — murmurou. —Vivi dez anos atrás de grades. Foi mais do que suficiente para mim. Não consentirei numa repetição, mesmo só por horas.

Um revólver apareceu inesperadamente na mão direita de Craig Larson.

— Não me obrigues a utilizá-lo, ferindo-te. Quero acabar com esta loucura que ameaça Corrales. Por isso, usarei da violência seja contra quem for... Até contra ti, embora te considere inocente.

Martin Palácios fitou-o com dureza.

—Está bem. Compreendo. Mas dou-te um prazo: até amanhã ao meio-dia. Depois dessa hora, ninguém me reterá aqui. Se não encontrares o assassino, encontrá-lo-ei eu. Precisamos de falar os dois com Matias Quintana. De muito nos poderá esclarecer. Tenho a certeza.

O xerife tornou a encará-lo com fixidez, desprezando a ameaça, mas não desprezando a sugestão.

— Porquê falar com Matias? Que sabes?

— Não falarei senão na presença do velho Quintana. Basta de comentários por agora. E não te esqueças, Larson: até amanhã ao meio-dia. Passada essa hora, resolverei tudo à minha maneira. Quanto aos meus, manda recado dizendo que Jorge e eu ficámos em Corrales. Não queria que soubessem do sucedido senão amanhã de manhã.

— De acordo, Martin. Diz a Hoskins o que queres comer. Ele se encarrega de trazer-to.

—Julgas que posso ter apetite depois de saber da morte de Jorge e de ter tido um tão mau dia? Não preciso de nada.

— Bom, isso é contigo. Anda.

Suave e delicadamente, Larson empurrou Martin pelo corredor que ia para as traseiras do edifício e onde se encontravam as celas, vazias naquele momento. A porta de uma delas fechou-se nas costas de Martin Palácios — o homem que julgara nunca mais vir a saber, por experiência própria, o que fosse uma prisão.

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