sábado, 28 de janeiro de 2023

CLT017.04. Um javali acossado por cães

Tony Trevor deu conta perfeita da sua situação. Antes de cinco minutos encontrar-se-ia encurralado.

Enquanto corria junto à parede de uma casa, olhou até ao fundo da rua, pedindo ao céu que houvesse ali um cavalo, mas não teve sorte. A rua estava deserta.

Podia travar uma luta de morte com os seus revólveres, mas, que ganhava com isso? Mataria meia dúzia de homens e em seguida... se não sucumbisse também na luta, não havia poder divino nem humano que o livrasse da forca.

Mordeu o lábio inferior até fazer sangue.

Nesse momento viu uma janela aberta. Foi algo instintivo. Não se deteve a pensar. Passou uma perna para o outro lado e logo a outra, deslizando silenciosamente para o interior.

Na sala não havia ninguém. Fechou a janela e em seguida as portas de madeira, ficando na maior escuridão. Sentou-se no chão e respirou profundamente. Bem... de momento o perigo havia passado, mas, até quando? Aquela quadrilha de loucos necessitava de encontrá-lo quanto antes para o exibir como um troféu aos honrados cidadãos de Pau Verde. Ouviu passos na rua e levantou a cabeça, prestando atenção.

— Infernos! ouviu exclamar Carrol. — Não se vê!

Em seguida falou Smilles.

— Não pode ter voado. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Eh, rapazes!

Ouviu-se uma voz longínqua:

— Encontrou-o, «sheriff»?

— Nem sequer rastos!... Não passou par aí?

— Não, «sheriff»!... Temos tido os olhos bem abertos!

Seguiu-se o riso inconfundível de Ronald.

— Está claro como água, chefe.

— Como? — interrogou Smilles.

— Penso que se escondeu nalguma casa... Basta que revistemos as casas desta rua para que saia correndo.

— Creio que tens razão— assentiu Smilles. — Eh, rapazes!... Atenção!... Vamos revistar as casas uma a uma! Devem estar preparados.

— Vá descansado, «sheriff»! Se o virmos sair, aqui estaremos para lhe apresentar os nossos cumprimentos.

Smilles imitiu um grunhido e disse:

— Está bem rapazes... Avancemos! Tu, Luke, podes ficar no outro extremo da rua. Os restantes vão dedicar-se às casas.

Tony Trevor notou como os passos se afastavam da janela. Apoiou as costas na parede e soltou uma maldição. A sua sorte estava escrita. Se queria continuar gozando a liberdade, teria de ganhá-la abrindo caminho a tiros. Era inevitável.

Em seguida ouviu passos na sala vizinha e pensou que não havia contado com os donos daquela casa. Endireitou-se rapidamente. Os seus olhos haviam-se acostumado à escuridão. Viu em frente uma porta e, rapidamente, correu a distância que o separava dela.

Os passos detiveram-se do outro lado. Coseu-se contra a parede e enfundou o revólver que empunhava com a mão esquerda, para esta ficar livre. Ouviu-se um ruído e a porta começou a abrir-se.

Um fio de luz penetrou na sala.

Viu a barra de uma saia, uns pontiagudos sapatos e em seguida o perfil de uma mulher. Era um perfil como não havia visto ainda em toda a sua vida. Rosto redondo, nariz direito e uns lábios sensuais. Os olhos eram grandes, bem como as pestanas. Possuía outros atrativos, como por exemplo um busto maravilhoso que se agitou quando a jovem proferiu uma exclamação.

— Oh!

Tony Trevor deduziu qual foi a surpresa da jovem. Ela devia lembrar-se que havia deixado a janela aberta e agora estava fechada. Juntando a isso os tiros na rua principal, tiraria as conclusões lógicas.

A jovem começou a voltar a cabeça, e então ele saltou, tapando-lhe a boca com a mão esquerda enquanto a segurava pela cintura com a direita. Ela tentou libertar-se enquanto abria muito os olhos, mas Tony conseguiu segurá-la com força, apertando-a contra si.

Os seus rostos ficaram muito juntos e ele sentiu o suave calor que emanava aquele formoso corpo feminino.

— Não grite — murmurou-lhe ao ouvido. — Se obedecer às minhas instruções sairá disto sem sofrer qualquer mal.

A jovem olhou-o de frente e Tony jurou que nunca havia visto uns olhos tão negros e brilhantes.

— Está de acordo, senhora?

Ela deixou passar uns segundos e, finalmente, meneou a cabeça em sentido afirmativo. Então deixou-a livre e recuou uns passos. A porta havia-se aberto completamente durante a luta. A jovem observou o revólver que ele empunhava e perguntou com voz seca:

— Que se propõe fazer?

— Andam atrás de mim e não tenho outro remédio senão defender-me.

— Ouvi o barulho na rua — respondeu ela. — E perseguido por toda a população. Não poderá escapar.

— Ê impossível.

— Porque não se rende, então?

— Ê uma hipótese que não me interessa.

Tony observou com mais tranquilidade a jovem. Era esbelta, cintura fina, largas ancas e pernas altas. Só havia visto uma mulher como aquela em sonhos. E ficou sempre a pensar que na realidade não existiam, que não podia havê-las em carne e osso. Mas ali estava aquela jovem para demonstrar-lhe que estava equivocado.

Ela sentiu-se observada, e os seus olhos cintilaram. Tony calculou que ela não teria mais de vinte anos. Recordou-se em seguida que a jovem não estava só em casa.

— Quem está lá dentro?

— A minha mãe.

— Onde está?

— Esteja tranquilo. Não lhe pode causar nenhum mal.

— Tenho de ter a certeza.

As narinas da jovem dilataram-se.

— Se você a tivesse encontrado, tinha tido menos dificuldades que comigo. Ê uma inválida. Não pode sair da cama.

Tony franziu as sobrancelhas.

— Sinto muito... — 'murmurou com voz baixa.,

Fez-se um prolongado silêncio que foi quebrado por uma voz vinda das traseiras da casa.,

— Eh, rapazes! — era Carrol. — O «sheriff» pergunta se há alguma novidade?

— Continua sem aparecer! — foi a resposta.

— Bem, já revistámos três casas... Continuamos com as restantes.

Tony e a jovem olhavam-se.

— Estão na casa do lado— anunciou ela. — Carrol acaba de falar da janela do lado.

— E agora virão aqui.

— Sim.

Houve nova pausa.

— O meu nome é Tony Trevor, menina. Nunca estive em Pau Verde. Vim aqui há procura de trabalho. Se não o encontrasse, seguiria para El Paso. Mas as coisas complicaram-se...

— Que foi que roubou?

— Nada, não roubei nada... Escute bem, repito o que já lhe disse. Não quero fazer-lhe qualquer mal, mas terá de fazer-me um favor.

 Quer que o esconda.

— Sim— respondeu ele, afirmando com a cabeça. — Será coisa de uns minutos. O tempo indispensável para escapar desta ratoeira.

— E se não o faço?

Tony Trevor murmurou:

— Não me coloque nesse dilema, menina... Já alguma vez viu o javali acossado pelos cães?

— Não.

— Eu sim... Presenciei-o várias vezes nos bosques de Louisiana. Não é um espetáculo muito agradável. Os cães lançam-se contra o javali e tentam mordê-lo em qualquer parte do corpo. Eles são uma dúzia e por vezes mais, e o javali está só. O javali tenta fugir e os cães perseguem-no por todos os lados, tratando de impedi-lo. Ao princípio o javali julga que pode consegui-lo, mas engana-se... Pouco a pouco vai perdendo a serenidade e então lança-se contra os cães cego de ira. Já não sabe para onde vai, e por vezes chega a perder o sentido de orientação... E chega um momento que começa a dar voltas como louco...

Naquele momento bateram com força na porta da rua. Três pancadas sem interrupção. Tony Trevor observou a jovem com os olhos semicerrados.

— Bem, menina. Chegou a sua vez.

Ela estava imóvel, como se se tivesse convertido numa estátua. Bateram outra vez à porta. Desta vez foram duas pancadas.

— Não estás aí, Lídia?

— Sim, mamã — respondeu rapidamente a jovem. — Abro imediatamente.

Lídia 'desviou os olhos do rosto de Trevor e passou para o quarto do lado. Em seguida puxou a porta e fechou-a. Tony ficou outra vez mergulhado na escuridão. Ouviu os passos dela e pouco depois a porta abriu-se.

— Bons dias, Lídia— disse o «sheriff».

— Como passa, senhor Smilles? — saudou a jovem. — Olá, Ronald.

 

— Pregaste-me um rico susto — respondeu Ronald. — Onde estavas, pequena? — No meu quarto. Deitei-me um pouco... Que se passa? Ouvi uns tiros na rua... Foi algum brincalhão?

Smilles tossiu.

— Não, Lídia. Não foi, infelizmente.

— Então...?

Foi Ronald que respondeu:

— Descobrimos o homem que matou Lee Carey.

Houve uma pausa seguida de uma exclamação:

— Não!... Não pode ser!

— Sinto-o, Lídia— disse Ronald. — Mas os factos o demonstram. O tipo que se escapou das nossas mãos apresentou-se em Pau Verde com o cavalo de Carey. O cavalo tinha sangue seco de um par de dias... e se ainda faltava alguma coisa, pagou no «Bom Cowboy» com notas pertencentes à remessa que Lee Carey devia entregar aqui anteontem.

— Santo Deus!... Lee morto!

— Bem — disse Smilles. — Esse homem nega tê--lo feito.

Ronald riu-se.

— As provas estão contra ele e são suficientemente claras. Não há dúvida nenhuma.

Tony sentia o bater do seu coração. Agora arrependeu-se de não ter posto a jovem ao corrente de tudo. Tomara-o por um simples ladrão, pois perguntara-lhe o que tinha roubado. Que ia fazer agora Lídia, se julgasse que tinha dentro de casa um assassino? A resposta era muito simples. Dir-lhes-ia que ele, Tony, se encontrava ali atrás da porta, e tudo acabaria... Bem, defenderia a sua vida até ao fim.

Smilles tossiu novamente, acrescentando:

— Estamos revistando todas as casas, Lídia. Até agora não o encontrámos. Pode estar aqui.

Passou-se um segundo... dois... três.

Tony sentiu os lábios secos. Lentamente, foi levantando o revólver que apertava na mão direita e apontou para a porta, junto à altura da fechadura.

— Não, «sheriff». Esse homem não está aqui.

Tony fechou os olhos ao ouvir a resposta dá jovem. Em seguida, fez-se um prolongado silêncio.

— Como o sabes? — inquiriu, por sua vez, Ronald. — Como sabes que não está aqui, Lídia?

— Só há uma janela que dá para a parte de trás, a do meu quarto de dormir, que é precisamente onde eu estava quando vocês chegaram. Estive deitada quase meia hora e sempre tive a janela fechada. Não se pode abrir por fora. Para entrar aqui teria de o fazer pela porta principal.

— Isso não o pode ter feito— disse Smilles. — Deve ter entrado por alguma das janelas que dão para as traseiras. Bem; aqui não está. Vamos, Ronald. Ouviram-se passos.

— Como está a tua mãe? — perguntou Smilles.

— Perfeitamente.

— Diz-lhe que um dia destes virei vê-la. Adeus, pequena. E tem cuidado. Não saias até tudo estar esclarecido.

— Obrigada, «sheriff». Assim farei.

Os passos perderam-se ao longe.

— Não te vais embora, Ronald? — disse em seguida Lídia.

— Queria falar contigo um momento, Lídia, a sós— respondeu o ajudante do «sheriff».

— Sobre quê?

— Sobre um tema interessante. De ti e de mim... e de Lee Carey.

— Será melhor deixares isso para outra ocasião.

— Não, Lídia. E possível que tu possas esperar, mas eu não. Conheces os meus sentimentos por ti desde há muito tempo.

— Por favor, Ronald...

— Não te vou pedir nada... Mas quero que o saibas de uma vez. Continuo a gostar de ti, Lídia, e estou disposto a casar contigo. E só isto. Não sei se isto te confortará, mas não podia calar-me.

— És muito amável.

— Esperei muito tempo e estou disposto a esperar um pouco mais.

— Adeus, Ronald.

— Não o esqueças nem um segundo. Amo-te. Voltarei a ver-te em breve, Lídia.

A porta fechou-se definitivamente. Tony Trevor respirou fundo e então desentorpeceu os músculos devido à tensão em que tinha estado. A porta que tinha em frente abriu-se em seguida e viu a jovem no umbral. O rosto dela estava pálido e os seus olhos fixaram-se nele de uma forma estranha.

— Não podia imaginar que você fosse um assassino— disse ela.

Tony fez uma careta de amargura.

— Não sou.

— Como prova você isso?... O «sheriff» é uma pessoa honrada. Nunca acusa ninguém sem provas.

— Não ouviu o que ele disse? E esse maldito Ronald quem trata de me imputar o crime. Eu tenho a impressão de que o «sheriff» é um homem honrado, mas não me servirá de nada a sua virtude. Se me prendem, sou um homem perdido.

— Você matou Lee Carey.

— Não, Lídia. Eu não o matei. Nunca vi Carey em toda a minha vida. Envolveram-me nesta embrulhada sem eu querer.

— Chegou aqui montando o cavalo de Lee e a sela estava manchada de sangue. Pagou com o dinheiro que ele devia trazer para Pau Verde.

Tony apertou as fontes com a mão livre. Começava a estar cansado. Havia comido muito pouco durante os últimos dias e ainda que a sua constituição fosse forte, notava sintomas de esgotamento.

— Escute, pequena. As circunstâncias estão contra mim, mas só se trata disso, de factos casuais... De todas as formas, pode ficar tranquila. Agora vou-me embora.

— Por onde vai sair?

— Pela porta principal, como o «sheriff». Estará menos vigiada. Tratarei de arranjar um cavalo... Faz-me muita falta.

Passou para o outro quarto e voltou-se para Lídia.

— Você crê também na minha culpabilidade... Leio-o nos seus olhos.

— Que lhe pode importar isso?

— E verdade. Que me pode isso importar? Fico--lhe muito grato de todas as formas... Boa sorte.

Começou a andar rapidamente. Chegado à porta, abriu-a umas polegadas e 'espreitou. Viu uma cancela, um jardim e mais além a rua. Não havia ninguém nos arredores, mas agora teria que a sorte o acompanhar. Nesse instante a voz de Lídia soou nas suas cos tas:

— Não se mova, senhor Trevor! Estou-lhe apontando um revólver!... Ê possível que não tenha a sua habilidade, mas garanto-lhe que a esta distância não falho um tiro na sua cabeça.

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