segunda-feira, 1 de novembro de 2021

ARZ133.06 Boicote à tragédia grega a partir do «saloon» flutuante

 Sentou-se num banco e pôs o chapéu em cima das pernas. Quando virou a cabeça, descobriu o prefeito, que tirava uma cadeira de um canto do camarote, para se sentar a sua excessivamente adornada esposa. Tyler também o viu. 

— Suba, xerife — convidou-o, depois de o comprimento. — Terei muito prazer em assistir ao espetáculo na sua companhia. Dizem que o de hoje é muito bom. 

E acrescentou ao ouvido de O'Farrell: 

— Nas outras noites adormeci. Não o pude evitar. As tragédias dos grandes autores gregos são joias do teatro mundial, mas maçadoras como os bêbedos. 

O xerife sentou-se e cumprimentou cerimoniosamente a esposa do prefeito. Ocupou um lugar à direita de Tyler, na parte mais afastada do palco. Faltavam apenas dois ou três minutos para o espetáculo começar, o que não impedia que a sala ao ar livre estivesse menos de meia. 

domingo, 31 de outubro de 2021

ARZ133.05 A mulher fascinante que assistia ao «rodeo»

O'Farrell foi assistir ao «rodeo» porque, caso estranho, tomava parte nele Driver, conhecido jogador da quadrilha de Douglas, mas desconhecido na sua nova versão de vaqueiro. Dava-se, além disso, a circunstância, muito tentadora para O'Farrell, de Piky Laura também assistir, entre os bandidos do «saloon» flutuante. 

Driver acabava de se apresentar montado num potro baio, com manchas cor de cinza. Dominou-o com magnifica mestria; nem uma só vez abandonou a sela, apesar de serem muitos os esforços do cavalo. Fê-lo galopar velozmente, saltou por um lado, voltou a subir e atirou-se pelo outro lado. Parecia ter asas nos pés. Fazia verdadeiras diabruras a cavalo; mudava constantemente de posição, saltava por um flanco e aparecia por outro. Mas ainda não estava plenamente satisfeito com o seu trabalho. 

— Agora vão ver! — exclamou. 

sábado, 30 de outubro de 2021

ARZ133.04 Um beijo roubado

Cove S. Copeland encontrava-se sentado no seu gabinete a examinar uma porção de documentos. Atrás dele, na parede, havia um retrato litográfico do atual presidente, William McKinley. Em cima da secretária via-se um tinteiro, um cofrezinho e uma pequena balança, que, convenientemente nivelada, representava a lei. 

Por fim, levantou os olhos. Teria cerca de sessenta anos, era, ossudo e seco, e possuía uma expressão tão dura que se tornava desagradável. 

— Foi um crime político. West tinha ligações com altas personalidades que lhe proporcionavam pingues benefícios. Donde vinha o dinheiro? Da não observância das leis. Os dólares que deviam entrar nos cofres municipais e, por acréscimo, do estado, ficavam a meio do caminho, justamente pela lamentável situação em que se encontra São Luis. 

Cove S. Copeland pôs as mãos atrás das costas e passeou algum tempo, silencioso e grave. 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

ARZ133.03 Dono do império flutuante

Com o chapéu na mão, o xerife subiu a prancha que conduzia ao «saloon» flutuante de Perry Douglas. Trazia fato escuro e laço preto no pescoço, sobre a camisa de seda branca. Excecionalmente, metera a insígnia de xerife no bolso do colete, sem dúvida porque lhe interessava dar uma vista de olhos sem chamar a atenção. Era a primeira vez que entrava ali. Esteve uns minutos indeciso, com a mão na balaustrada. 

Os três barcos fluviais permaneciam fundeados no embarcadouro, dois «saloons» e um teatro. Na realidade, aqueles faziam uma concorrência desleal ao último, cujas receitas provinham das peças que representava. 

Os «saloons» transportavam passageiros de um ponto para o outro do rio, como linha regular de transporte, exploravam os divertimentos e exibiam no palco as artistas mais bonitas. Mas naquele momento o palco tinha o pano descido e os espectadores olhavam para a escada, coisa que surpreendeu o xerife. Olhavam-no a ele? Virou um pouco a cabeça. 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

ARZ133.02 Matança no «saloon» flutuante


 A verdade é que visitou de novo os «saloons» flutuantes. Estes faziam uma longa viagem de Kansas City a Memphis, mas ancoravam durante meses em São Luís. Tinham palcos e salas de jogo, onde os viciados arriscavam o que tinham e o que não tinham. 

Vaqueiros, jogadores profissionais, rancheiros, mulheres desejosas de aventuras, senhores de sobrecasaca preta e chapéu de coco, tais eram os frequentadores habituais dos «saloons» flutuantes, cujo vírus contaminara os teatros fluviais, de tal maneira que às vezes o jogador do «saloon» explorava ao mesmo tempo o barco da farândola. 

— A cheirar por cá, hem? Tome qualquer coisa comigo — convidou-o Mark Dondée, proprietário do «saloon» flutuante rival de Perry Douglas, um jovem muito bem--educado, tão correto que não trazia armas. 

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

ARZ133.01 A morte de um jornalista subitamente rico


S. Luís do Missouri, com os seus cento e cinquenta mil habitantes nos fins do século, era uma cidade mais importante do que Kansas City, esta situada a montante do Missouri. 

Em S. Luis juntavam-se os rios mais caudalosos da União, circunstância que permitia a passagem dos «barcos-saloons» e dos teatros flutuantes, famosos na história do Oeste, os primeiros pela sua turbulência, os segundos pelo seu romantismo. 

Mais do que os problemas de pastos e de linhas férreas que atravessavam os ranchos, como acontecia noutros condados, proliferavam os conflitos de consciência social. Era uma espécie de paraíso dos jogadores e desse mundo tão característico e fascinante que constitui o teatro.