quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

PAS706. Por quem dobram os sinos

O jovem correu para o seu, montou rapidamente e esporeou duramente o animal, procurando alcançar a amazona. Tudo inútil. O corcel da rapariga era muito mais ligeiro do que o seu e ganhava-lhe terreno a olhos vistos.
Deu-se por vencido e entrou na povoação a trote, olhando para um lado e para o outro na esperança de ainda a conseguir ver. E viu-a, montada no veloz animal, em frente da igreja, em cuja porta o pastor entoava uns responsos ante seis ataúdes que encerravam os restos mortais dos madeireiros assassinados no dia anterior.
Charles aproximou-se da ruiva e observou que no seu rosto se operara uma grande transformação.
— Quem... quem são?... — perguntou entrecortadamente, assinalando os caixões com um movimento de cabeça.
— Serradores de uma companhia madeireira — respondeu Charles, contente de poder ser útil à desconhecida.
— Algum acidente?
— Não... Foram os homens de Charisse.
A palidez da jovem acentuou-se.
— Por isso é que o xerife foi ontem ao rancho... — murmurou de si para si.
— Você conhece essa gente?
A jovem não respondeu. Talvez nem sequer tivesse ouvido a pergunta. Um tanto impressionada pelo tremendo espetáculo, esporeou uma vez mais o seu níveo cavalo e deteve-o numa das esquinas da igreja, por detrás dos homens e mulheres que rodeavam as carretas com os féretros.
O pastor acabou o serviço religioso. O cortejo fúnebre pôs-se em preguiçosa marcha. A rapariga dos cabelos de fogo viu-o afastar-se e desceu a seguir do seu cavalo, dirigindo-se para a porta da igreja. O pastor recebeu-a com um sorriso e ambos entraram no templo.
Charles Derek, a cavalo ainda, hesitou entre acompanhar os madeireiros mortos à sua última morada e entrar na igreja, optando pela última hipótese.
Na nave havia uma acolhedora penumbra. Charles observou os bancos.
A princípio não conseguiu ver a rapariga. Mas depois descobriu-a ajoelhada e notou que o seu coração palpitava aceleradamente. Se ela era bela lá fora, à plena luz do dia, sob a calidez do sol, mais bela era ainda ali, naquela repousante penumbra, em atitude de recolhimento e penitência.
Passados alguns minutos, a jovem ergueu-se e começou a caminhar para a saída. Charles Derek girou sobre os calcanhares e precedeu-a, recostando-se no exterior contra a parede.
Ao surgir a mulher, decidido, procurou cortar-lhe a passagem. Ela deteve-se e olhou-o diretamente no rosto.
— Ah, você novamente!... — exclamou, mais enfastiada do que propriamente zangada.
— Desculpe, menina. Chamo-me Charles Derek e gostaria de poder ser seu amigo. Vive por aqui perto?
A rapariga encolheu os ombros e começou a caminhar de novo. O ex-federal seguiu-a.
—Sim, vivo perto daqui. Satisfeito?
— Não inteiramente. Satisfeito me sentiria se me permitisse acompanhá-la.
A mulher sorriu e subiu para o seu cavalo.
— Lamento, mas gosto de cavalgar a bom galope e o seu sendeiro não seria capaz de acompanhar o meu «Raio».
Proferidas estas palavras, meteu esporas ao animal e este partiu a galope.
Derek, apesar de ter tido oportunidade de reconhecer a inferioridade do seu corcel, não hesitou um segundo em segui-la. Ao menos, já que não podia acompanhá-la, vê-la-ia desaparecer no horizonte tal como a vira surgir na margem do lago: como uma visão pertencente a outro mundo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

PAS705. A dama do lago

No domingo, Charles Derek levantou-se ao amanhecer, selou o cavalo da senhora Allison, meteu entre o cinto os «Colts» que Maureen Cooley lhe emprestara e deixou a povoação a um galope certo. A manhã estava cálida e bela e os pulmões do jovem aspiraram com prazer a balsâmica brisa.
Não se dirigiu para o bosque do rio Pecos, onde tinham sido assassinados os madeireiros, mas sim para o lago, que ficava na direção oposta. Quando chegou ali, deteve-se, empunhou os revólveres e esteve a praticar mais de uma hora nos mais diversos e difíceis exercícios de tiro, primeiro a cavalo e depois a pé.
Corria, parava de repente, dava meia volta, deixava--se cair, disparando em todas essas posições sem qualquer preparação, quase sem fazer pontaria.
Passado algum tempo, sudoroso e fatigado, procurou uma sombra e deitou-se no solo. O sol ia já alto e a atmosfera começava a tornar-se escaldante. Semicerrou os olhos e deixou-se ficar assim um bom bocado, imóvel.
De repente ouviu o frenético galopar de um cavalo na distância e espreitou um segundo por entre a ramagem. O cavaleiro, fosse quem fosse, parecia dirigir-se para o lago. Observou-o por alguns momentos e acabou por soltar um silvo de assombro.
Não se tratava de um homem, mas sim de uma mulher, e esta dispunha-se a tomar um banho, a julgar pela rapidez com que se despojou do vestuário e caminhou para a água. O seu cabelo chamejava sob o beijo dos raios solares e a pele do seu corpo era de um puro tom cor de canela.
Charles viu-a lançar-se de cabeça sobre a líquida superfície e gozar durante algum tempo dos prazeres da natação. Depois veio para terra e correu alguns minutos sobre a alfomba macia da erva que crescia na margem e que o cavalo da mulher mordiscava entretanto.
Seguidamente vestiu-se de novo, saltou com agilidade para a sua montada e esporeou-a nervosamente. O animal relinchou, saltou para a frente e empreendeu uma vez mais o galope, mas agora na direção' do local onde Charles se encontrava deitado.
O jovem esteve quase a pôr-se em pé para chamar a atenção da 'amazona sobre a sua pessoa, mas pensou melhor e encolheu-se, por forma a passar despercebido. A ter-se levantado e feito qualquer gesto, o cavalo da rapariga, que vinha lançado, ter-se-ia muito possivelmente espantado, arrojando a jovem ao solo. Fora apenas para evitar isso que Charles se decidira a continuar atrás da ramagem que lhe servia de refúgio.
Tanto a amazona como o corcel eram uma maravilha.
Os cascos deste ouviam-se cada vez mais perto. A amazona, inclinada levemente para a frente, havia afrouxado as rédeas e animava o bruto com carinhosas palmadas no pescoço.
O alvo animal, fiel aos desejos da dona, saltava limpamente cada obstáculo que encontrava na sua passagem. Ao chegar ao talude, junto do qual Charles se encontrava, o animal saltou da mesma maneira fácil e continuou o seu galope.
Mas a amazona esticou de súbito as rédeas, obrigou o corcel a revolver-se num palmo de terreno, e antes mesmo que ele se detivesse de todo, lançou-o sobre Charles Derek. Este tinha-se levantado já e procurava sorrir um tanto forçadamente.
Ela alçou o chicote sem que entre ambos se trocasse a menor palavra e deixou-o cair sobre a cabeça de Charles. Este, um pouco surpreendido com a belicosa atitude, mal teve tempo para fazer um requebro e agarrai a tira, de couro com que a rapariga procurava castigá-lo.
A jovem, que não esperava a pronta reação do ex-federal, perdeu o equilíbrio e teria caído do cavalo se o próprio Charles a não tivesse sustido.
— Você é um... um... — proferiu ela afogada pela raiva, sem encontrar o epíteto mais adequado para o designar.
— Um quê, menina? — sorriu Charles, sem largar o corpo que tinha abraçado. — Não creio que lhe tenha dado motivos para...
---Acha que não? Ter-se-á visto já cinismo maior? Parece-lhe pouco andar a espiar-me enquanto me banho?
— Juro-lhe que não foi essa a minha intenção.
— Bem, fosse ou não fosse, quer fazer o favor de me largar? Sei aguentar-me sozinha.
Charles perturbou-se ainda mais. Retirou as mãos do corpo da rapariga e procurou encontrar uma desculpa. Mas a sua garganta não modulou o menor som.
O jovem sentia-se constrangido, coisa que, a dizer a verdade, não lhe costumava suceder em situações semelhantes, e pensou que desde a sua chegada a Pecos estava a perder faculdades ao lidar com mulheres, embora aquela fosse um caso à parte. Nunca vira nem esperava voltar a ver uns cabelos tão vermelhos, uns olhos tão azuis e uma figura tão encantadora numa mulher, enfim, tão turbulenta.
— O caso é que... — emitiu, por fim.
Derek perdera já a oportunidade de a reter. A jovem saltara de novo para o seu cavalo e voltava a lançar-se a galope, tomando, sem olhar para trás, o caminho da povoação.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

PAS704. Matar por uma mina de prata

Prata. Era uma mina de prata. Ali estava o verdadeiro segredo de Charisse e a razão pela qual os seus sequazes se opunham pela força a que o bosque fosse cortado.
Howard Charisse tinha-a encontrado casualmente algum tempo antes e, receoso de que alguém pudesse disputar-lha, mantinha em segredo o seu achado. Primeiro fora algo de instintivo, mas depois raciocinado. Se alguém podia reclamar o seu direito à mina, esse alguém era Tula, sua prima, com quem necessariamente teria de partilhar o tesouro.
A não se ter enamorado loucamente dela, não se teria importado que tal sucedesse e que ela gozasse com ele do precioso achado. Mas como estava, preso de uma avassaladora paixão, temeu que a jovem, rica e poderosa, se agradasse de outro, pedisse participação na fortuna e se separasse dele para sempre.
Que motivo havia, portanto, para que Tula dependesse sempre dele? Nenhuma melhor que simular uma ruína e, entretanto, ir acumulando prata até o filão se ter esgotado ou ela admitir que também lhe queria e estava disposta a compartilhar a sua vida com ele. Só então lhe diria a verdade, se assim o julgasse conveniente.
Simulara uma epidemia, vendera as reses e parte do produto dessa venda empregara-o na compra de material destinado à exploração da mina. O resto do dinheiro depositara-o num Banco distante. Além das ferramentas, Charisse precisava de homens, mas não de trabalhadores, que pudessem denunciá-lo.
Despediu o pessoal e rodeou-se de uma dezena de pistoleiros a soldo, encarregando-os do recrutamento dos homens necessários para o trabalho da extração do minério. Dezoito ou vinte indivíduos foram alistados à força e encerrados naquele vale, de onde ninguém sairia com vida.

domingo, 8 de janeiro de 2017

ARZ124. Isto não é contigo!


(Coleção Arizona, nº124)

 Charles Derek é um vagabundo expulso dos rurais por se embebedar com frequência. O seu eterno deambular levou-o até Pecos onde veio a conhecer que um seu antigo companheiro ali tinha sido assassinado o mesmo acontecendo a um conjunto de madeireiros que se preparavam para desbastar um bosque.
O próprio facto de ter sido sujeito a um processo de violência por um conjunto de indivíduos menos escrupulosos a soldo de Howard Charisse fez com que procurasse reabilitar-se e interessar-se pelo que se passava na cidade.
Howard movia-se pelo desejo de explorar em proveito próprio uma mina de prata utilizando trabalho escravo protegido por pistoleiros e a sua ganância era tanta que não hesitava em recorrer ao crime. Mas Howard também vivia apaixonado pela sua linda prima, Tula e a sua reação quando alguém se aproximava dela não era a melhor.
Tula era posta à margem das catividades do primo. «Isto não é contigo!» diz o título da novela, mas um dia veio a conhecer Derek e uma nova realidade lhe foi traçada relativamente à família.
Esta novela de Uriah Moltan, autor que não conhecia, é muito interessante e bem narrada, embora um pouco precipitada na fase inicial. Da mesma deixamos algumas passagens.

sábado, 7 de janeiro de 2017

PAS703. Nunca peças perdão por este beijo

Conversaram muito pouco até atingirem a cascata de águas espumantes, no ponto em que se convertia num re-manso cristalino povoado de trutas.
-- Não gosta de pescar ? perguntou-lhe Cathy.
— Muito — assentiu ele. — Quer que nos detenhamos um momento aqui ?
Como ela não fizesse qualquer objeção, Gen desmontou rapidamente e, tomando-a pela cintura, colocou-a também em terra.
Logo, tomando-lhe a mão, levou-a para uma rocha que penetrava na água, passando sob a ramagem de um enorme cedro.
— Está-se bem aqui, não lhe parece?
Ela parecia absorta contemplando a água.
— Há aqui trutas enormes — disse.
Mas Gen estava disposto a iniciar a sua ofensiva e não sentia nesse momento o menor interesse pelas trutas.
— Que lhe pareceu o meu rancho?
Ela olhou-o então, começando a rir.
-- Um desastre — disse. — Refiro-me à casa, evidentemente. Sem adornos de espécie alguma e com alguns escassos móveis, pelo que me foi dado ver. Os homens não têm jeito algum para essas coisas.
Gen disfarçou um sorriso, pois a jovem tinha mordido a isca muito mais depressa do que ele podia esperar.
— A casa é ampla, solidamente construída e bem situada disse como se a quisesse defender. Só lá falta uma mulher que a arranje.
Cathy olhou-o com uma expressão ingénua, perguntando seguidamente:
— Você não é casado?
Ele riu, sacudindo a cabeça negativamente:
-- Ainda não — retorquiu.
— Que tola que eu sou! Devia supô-lo, pois de outro modo você não faria a corte a Sally.
-- A corte a Sally? — perguntou o californiano, divertido com aquele ataque inesperado, deixando-se cair sobre o rochedo a seu lado.
Ela atirou o busto para trás a fim de o olhar melhor, exprimindo todo o seu assombro. Um assombro demasiado para ser sincero.
— Não? Mas eu julguei que... inclusivamente chegou a lutar por ela.
— Não lutei por ela, mas sim por causa dela, o que não é a mesma coisa. Esse brutamontes de Dave está enamoradíssimo, mas é tão tímido que não se atreve a confessá-lo à interessada. E como o coquetismo de Sally lhe dá para se divertir comigo... aí tem.
As suas razões não me parecem muito sinceras —replicou Cathy secamente, pondo novamente os olhos na água cristalina, onde a sua encantadora imagem se refletia. — Deu-me a impressão de que o coquetismo de Sally não lhe desagradava em absoluto.
Gen riu, inclinando-se para a jovem.
— Tratava-se do mesmo jogo — disse alegremente, com os lábios quase a roçarem as douradas madeixas que ocultavam as lindas orelhas da rapariga. — Eu também pretendia fazer ciúmes a certa e deliciosa criaturinha.
— Mas como...? Oh!
Cathy voltara-se vivamente, ficando no mesmo instante amordaçada pelos lábios do californiano.
Era para ser uma carícia suave e breve, como casual e inocente. Mas Gen confiara excessivamente nas suas forças e, antes de poder notar que já não era o mesmo, que estava irremediavelmente enamorado, perdia a cabeça e abraçava apaixonadamente a sua amada, beijando-a vorazmente.
O desejo martelava-lhe as fontes, mas conseguiu dominar-se e largou-a, ainda as palpitações do seu sangue pareciam ensurdecê-lo. Contemplou-a consternado.
Começara já a aperceber-se da gravidade da sua situação. Uma verdade tornava-se-lhe bem patente: estava em risco de perder aquela mulher e precisava tanto dela como do ar que respirava. Era indispensável ganhá-la naquele mesmo instante, antes que ela pudesse reagir.
Mas ofegava, hesitante, sentindo-se impotente pela primeira vez na sua vida. Não obstante, não parecia que a urgência fosse tão acutilante como imaginara.
Ela olhava-o altivamente, mas nem sequer fizera um gesto para se levantar.
— Costuma fazer sempre estas experiências, senhor Keller? — perguntou com frio desprezo, se bem- que o tremor da voz a traísse.
— Nunca senti nada semelhante a isto -- afirmou Gen com sinceridade.
—Devo pedir-lhe que se vá embora? Devo-lhe muito, mas nenhuma dívida me pode obrigar a suportar a sua presença depois de me ter ferido duas vezes com o mesmo insulto.
Mas havia lágrimas na sua voz e Gen sentiu que algo se quebrava no mais íntimo do seu ser, como um dique que rebentasse e desse passagem a uma onda avassaladora de sentimentos nunca antes experimentados por ele, pelo menos com tanta intensidade.
— Amo-te — proferiu, tomando-a de novo nos braços para reclamar faminto os seus doces lábios.
Quando a soltou novamente, fê-lo com temor, desvanecida essa onda avassaladora que lhe dominara os sentidos, pois ela não correspondera aos seus beijos, permanecendo imóvel nos seus braços.
E olhá-la em nada o esclareceu, pois Cathy mantinha-se de olhos baixos, enquanto as lágrimas lhe deslizavam silenciosamente pelas acetinadas faces.
Seria verdade o que ela lhe dissera? Perdera ele inclusivamente a sua gratidão?
— Servir-te-á de alguma coisa dizer-te que sinto muito o que sucedeu? — perguntou roucamente, sentindo um frio mortal na alma.
Um momento depois abria a boca assombrado, olhando incrédulo os olhos brilhantes que sorriam picarescos.
--- Faças o que fizeres no futuro — proferiu Cathy —, nunca peças perdão por este beijo.
Ele conteve a tempo o novo e selvático impulso que o impelia a apertá-la junto ao coração. Precisava de demonstrar a Cathy e a si mesmo que era capaz de se dominar e colocar-se ao seu nível, e rir quando a emoção e o anseio lhe esmagassem o coração, pondo-lhe um nó na garganta.
— Que se deve fazer, pois, num caso como este? —perguntou num acento que pretendia ser jovial e soava a choco.
— Deve-se dizer à outra pessoa que não te pudeste conter. Isso fará que ela se sinta melhor.
— E depois?
-- Depois voltar a beijá-la... se a conseguires apanhar.
Mas ela não fez nada para escapar quando Gen voltou a tomá-la nos braços e a resposta dos seus lábios nessa ocasião fez estremecer os sentidos do jovem californiano.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

PAS702. A arte de domar uma égua selvagem

Cathy dormiu bem naquela noite, o que não era muito de estranhar, pois sofria nos últimos tempos de insónias com muita frequência. Desde o seu encontro com os bandidos, precisando melhor, embora não em consequência dele.
Mas os seus propósitos de vingança contra o culpado estavam ameaçados de morrer por extinção, pois Gentry Keller parecia haver desaparecido tragado pelas montanhas e ninguém voltara a vê-lo em Sheridan nem em Akron.
E ela precisava de o humilhar, fazê-lo pagar o ultraje que lhe infligira ao roubar-lhe aquele beijo, cujo fogo sentia ainda a queimar-lhe os lábios, enrubescendo-a de vergonha cada vez que o recordava.
Mas se durante toda a semana, após a festa de Sally, dominara a sua impaciência com a esperança de que no domingo o poderia ver na cidade, essa esperança desvanecera-se por completo. Por isso, depois de uma noite inteira sem dormir, resolveu ir visitá-lo ao seu rancho.
Entre as terras da fazenda Garfield e a que fora de Kerr havia apenas uma franja montanhosa de escassa importância e que não era ponto de passagem para parte alguma, pelo que as possibilidades de ter um encontro desagradável eram tão escassas que não valia a pena toma-las em consideração.
Contudo, Cathy não estava muito certa de que os seus pais pensassem da mesma maneira, e muito menos que estivessem de acordo com a sua iniciativa de visitar sozinha um homem jovem e solteiro, pelo que resolveu não comunicar a ninguém o seu propósito, dizendo apenas que tencionava dar um passeio matinal.
Que o foi, realmente, e delicioso, certamente.
Ao transpor a área montanhosa que separava os dois ranchos, esquilos e gralhas escondiam-se na espessura.
Sob uma espumante cascata, da qual subia um poético e maravilhoso cântico murmulhante, grandes trutas nadavam no fundo cristalino da água, cheio de brancos seixos. Um lagarto de bom tamanho fugiu assustado, internando-se na verde penumbra da vegetação. Nos pontos mais soalheiros, os fetos, os lírios e uma gama variada de plantas multicores inclinavam-se ou balanceavam suavemente ao sopro preguiçoso da brisa.
Em dado momento, de um parapeito assomado sobre a pradaria, pôde dominar o conjunto de instalações do rancho que fora de Kerr, que dali se viam muito bem, não obstante a distância.
Advertiu-se de alguns movimentos que atraíram a sua atenção para um pequeno curral com uma alta vedação, no alto da qual se viam dois homens encarrapitados, enquanto mais três, no seu interior, sujeitavam e selavam o único animal ali encerrado e que se debatia furiosamente.
— Oh! meu Deus!
Cathy levou as mãos ao peito, incrédula e consternada, pois aquela labareda dourada que reluzia ao sol era inconfundível e já a vira antes, na inolvidável ocasião em que fugira à armadilha preparada junto do lago, no Choked Cannyon.
Como era possível que aquele formoso animal estivesse cativo?
A jovem ficou aturdida. Haviam-na impressionado extraordinariamente tanto a inteligência como a beleza do baio e experimentara uma grande alegria ao vê-lo escapar. Mas agora, não obstante, não sabia se a impressionava mais a deceção de ver aprisionado o indómito bruto, ou a sua admiração pelo homem capaz de o caçar vivo e incólume, não obstante a sua extraordinária rapidez e apurado instinto.
Porque nem por um momento duvidou que fora Gentry Keller quem o tinha caçado.
A contemplação do baio e a certeza de que se estavam a fazer os necessários preparativos para o montar, fizeram que a rapariga esquecesse completamente os absurdos propósitos de vingança que a tinham levado ali e, metendo as esporas nos flancos da sua montada, empreendeu a descida com uma rapidez desaconselhada pela prudência.
A ondulante linha do mal traçado caminho terminava no sopé da montanha, onde uma tosca ponte de grossos troncos ligava esta com a planura, através de um largo arroio que descia serpenteando das alturas, em remansos ou saltos espume jantes.
A ponte era estreita e não muito segura, mas Cathy atravessou-a a todo o galope, pois uma nuvem de poeira elevava-se do pequeno curral, tornando-lhe difícil distinguir o cavaleiro que pugnava por se manter na sela do serril cavalo e dominá-lo.
Cathy nunca estivera ali, pois o antigo proprietário jamais fora amigo de seu pai, mas tinha ouvido dizer que Kerr era um homem pouco cuidadoso em questões de ordem e asseio, e, renunciando a lutar havia algum tempo, tinha a sua fazenda completamente abandonada, pelo que se admirou dos arranjos e reparações, alguns deles bastante visíveis, que notava por toda a parte, e que não podiam deixar de se dever ao novo proprietário, não obstante o pouco tempo decorrido desde que adquirira o rancho.
No entanto, não se fixou em todos os pormenores, de tal maneira a sua atenção se concentrava no pequeno curral, onde os homens, parecendo advertir-se da sua aproximação, se voltavam para olhar curiosamente, enquanto um deles parecia destacar-se dos restantes para caminhar ao seu encontro.
Cathy deteve a sua montada e o homem aproximou-se, tomando as rédeas do animal junto ao freio. A rapariga verificou tratar-se de um homem já idoso, de magro e apergaminhado rosto no qual brilhavam estranhamente uns amarelados olhos de falcão que a examinavam penetrantemente.
— É a menina Garfield, não?
— Sim. Lamentaria muito havê-los interrompido. Eu queria apenas...
— Chamo-me Sad e sou o capataz. Quer desmontar? Deve ter sido um bom passeio e é natural que esteja cansada.
— Obrigada.
Ao aceitar a ajuda do capataz e saltar em terra, Cathy sorriu timidamente sem saber que dizer.
Mas não teve de se esforçar.
— Gen está a domar aquela égua dourada. Quer assistir?
A rapariga sorria agora mais abertamente, desvanecida a sua timidez. Sem saber porquê, sentia que o velho Sad era seu amigo.
— Oh, ficaria encantada!
— Será capaz de se atrever a encarrapitar-se ali em cima ... Na ópera é de onde melhor se vê ... Claro que me atrevo.
Cathy era «western» e rancheira de nascimento, pelo que sabia perfeitamente que os vaqueiros denominavam de «ópera» a última travessa da vedação.
— Nesse caso, venha. Eu ajudá-la-ei a subir.
Um momento depois a jovem estava também encavalitada no alto da cerca, junto do veterano vaqueiro, olhando com os olhos muito abertos a violenta luta que estava a desenrolar-se no recinto.
— Está quase terminado — ouviu o capataz dizer-lhe. -- Este bicho é de uma energia inesgotável. Já foi vencido, mas nega-se ainda a admiti-lo.
No entanto, Cathy não conseguiu advertir-se de qualquer indício que a levasse a supor que o animal estava dominado.
A égua, que sabia agora ser o magnífico baio, espinoteava como se fosse de borracha, a cabeça encolhida entre as patas, rígidas estas, o dorso violentamente arqueado, numa vertiginosa sucessão de saltos de natureza a parecer impossível que alguém pudesse manter-se sobre a sela.
Mas Gen permanecia ali e ali continuou, até que o animal se deteve para tomar fôlego, pausa que o cavaleiro aproveitou para o exasperar, metendo-lhe as esporas ao longo das ilhargas.
«Gold Dust» (1), como mentalmente havia já batizado a égua, elevou as mãos, batendo o espaço com os cascos e relinchando o seu protesto. Depois, num violento impulso, arrancou em desenfreada correria que cortou subitamente, cravando as patas dianteiras no solo e deixando-se cair de flanco contra a vedação.
Cathy soltou um grito de angústia, pois numa ocasião idêntica, sendo ainda muito criança, vira fazer aquilo mesmo a um cavalo selvagem e, a partir de então, o seu domador passou a ocupar-se da cozinha de campanha do rancho, coxo e inutilizado para montar.
No entanto, desta vez foi diferente. Gene soubera retirar a perna antes de se verificar o intento do bruto de lha esmagar, deixando-se ficar montado de lado até o animal se afastar da paliçada.
— Está assustada. É o final — gritou Sad.
Efetivamente, «Gold Dust» debatia-se cegamente e com tal violência que só a sua enorme resistência podia permitir. No entanto, tornava-se impossível prolongá-la por muito mais tempo.
De facto, começou a correr loucamente em redor do recinto, até que, pouco a pouco, foi obedecendo à vontade do cavaleiro, que lhe fez diminuir a marcha, reduzindo o furioso galope a trote moderado, dirigindo-o para um lado e para o outro até detê-lo completamente.
— Já está! — voltou Sad a exclamar, entusiasmado. Não há outro cavaleiro como Gen.
-- Oh!, com toda a certeza que não! — concordou a excitada Cathy com muito mais veemência do que convinha a uma senhora.
— Agora terei de lhe dar uma fricção e agasalhar bem esse animal para que não apanhe um resfriamento. Dá--me licença, menina Garfield?
— Naturalmente.
O capataz saltara já para o interior da cerca com uma agilidade perfeitamente juvenil, assim como os vaqueiros, que se agruparam em torno do baio e do seu cavaleiro.
— Bom trabalho! — ouviu Cathy dizer ao rapaz.
Com crescente inquietação viu Gen desmontar fatigadamente e, entregando as rédeas ao capataz, desapertar o lenço do pescoço e dirigir-se para ela, enxugando o bronzeado rosto brilhante de suor onde ressaltavam, cada vez mais intensamente à medida que se aproximava, o branco da sua impecável dentadura e o azul dos seus grandes olhos que a contemplavam com perturbante firmeza.
— Que alegria, Cathy! exclamou ele. — Estou contentíssimo de a ver.
Ela notou que o rosto masculino se avermelhara um tanto e sorriu, fazendo um esforço para dominar a timidez de que se sentia invadida.
— Custa a 'acreditar que assim seja — redarguiu a jovem, procurando mostrar-se jovial, mas sem estar muito convencida de o conseguir. Não vivemos tão longe que não possa visitar-nos uma vez por outra...
— Está a ser injusta — protestou ele. — Depois do ocorrido na festa de Sally Ormond não estava muito certo de ser bem recebido se a visitasse, e por outro lado, como deve supor, estou cheio de trabalho.
— É sempre possível arranjar algum tempo para aquilo que realmente se deseja. De qualquer modo, aceito a sua escusa, visto que teve a delicadeza de a engenhar.
— Conceda-me alguns momentos para me desfazer de toda esta sujidade e tentarei convencê-la de que não se trata de nenhuma escusa.
— Concedido — riu ela, pois Gen estava realmente coberto de pó e de suor depois do seu encarniçado combate com o baio.
— Permita-me...
O jovem elevou os braços para abarcar entre as suas mãos a breve cintura da jovem, depositando-a suavemente no solo com a maior facilidade, tal como se ela fosse uma pena.
Mas embora não o parecendo, estava a realizar um esforço superior às suas forças, não propriamente físicas.
Ela estava adorável com o seu elegante traje de amazona e, ao tomar-lhe a cintura para a depositar no solo, ela elevara para ele a sua linda cabeça e sorrira-lhe de um modo tão enfeitiçador, que Gen estivera quase a apertá-la nos braços e a comê-la com beijos.
Mas em vez disso dedicara-lhe uma galante reverência ao mesmo tempo que lhe indicava a casa com um gesto da mão.
— Visto que sou obrigado a abandoná-la por alguns minutos, quero deixá-la ao menos confortavelmente instalada.
— Não se preocupe. Prefiro ficar por aqui a bisbilhotar.
— Está em sua casa. Não conhecia o rancho? — perguntou-lhe Gen, solicito.
— Não. O senhor Kerr e meu pai nunca se entenderam lá muito bem.
— Sei que Kerr acusava seu pai de todas as suas perdas.
-- Isso é absurdo!
— Deve tratar-se de um passatempo local, pois agora Ormond, Morden e outros manifestam a opinião de que sou eu quem lhes reduz as manadas.
— Meu pai não pensa desse modo.
— Na realidade não creio que alguém faça outra coisa que não seja desafogar o seu mau humor. A partir de agora, poderá haver motivo para dúvidas, visto que também eu me tornei ganadeiro. Mas anteriormente resultaria estúpida tal acusação, visto que, desde que cheguei a esta terra, nunca tive, comprei ou vendi uma única vaca. Inteira-se, entenda-se — acrescentou com um sorriso.
Deixou-a instalada no terraço da casa e foi a correr tomar um rápido banho e mudar de roupa, o que não lhe levou mais de quinze minutos. Ao regressar, já com melhor aspeto, verificou que ela não estava onde a deixara, mas sim novamente na cerca onde se encontrava a égua dourada.
— Agrada-lhe? — perguntou ao aproximar-se.
Ela voltou-se, sorrindo.
— Oh! É maravilhosa! Tenciona vendê-la?
-- Não.
Cathy desviou os olhos com certa precipitação, a fim de que ele não se advertisse do seu desencanto.
-- Lamento murmurou. — Gostaria imenso de a possuir.
— Ainda bem.
A rapariga elevou vivamente a cabeça, olhando-o entre surpreendida e desgostada.
— Você não pode sabê-lo -- continuou Gen com um leve sorriso —, mas essa égua escapou-se-nos quando apanhámos toda a manada a que pertencia. Foi precisamente no momento em que chegou o seu vaqueiro com «Stormy». Não obstante, tive-a muito perto, quase ao alcance do meu laço, e pude verificar que era um animal jovem, de bom sangue, veloz e resistente. E decidi que seria uma boa montada para si.
Ela olhou-o de novo, abrindo desmesuradamente os seus belos olhos.
— Para mim?!
— Exatamente. Agrada-lhe?
— Oh, claro que sim! Mas... quer dizer que a caçou para mim?
— Precisamente. Mal acabei de encerrar a manada, tomei dois cavalos frescos e, juntamente com «Storny», iniciei a perseguição. Foi longa e cansativa, mas, finalmente, depois de deixar completamente esgotados os dois animais de reserva, a resistência excecional do meu zaino permitiu que me aproximasse o suficiente para a laçar.
Cathy escutava-o com os olhos brilhantes e a respiração alterada.
— E vai-ma vender? — perguntou, incrédula. Gen sacudiu a cabeça negativamente.
— Já lhe disse que essa égua não está à venda
O brilho luminoso que por momentos transpareceu nas escuras pupilas da rapariga desapareceu lentamente.
— Agradeço-lhe muito, senhor Keller, mas se o entendi bem, não seria correto que aceitasse a sua oferta e, de qualquer modo, tão-pouco mo permitiriam.
Gene desatou a rir.
— Ainda tenho de a domar — disse. Temos tempo.
Ela olhou-o sem compreender até descobrir um fulgor azulíneo nas pupilas masculinas que dançava e ria. Então sorriu lentamente ao mesmo tempo que também fulgurava qualquer coisa na aveludada profundidade dos seus olhos.
— Está assim tão certo de o conseguir? perguntou com intenção, semicerrando os seus belos olhos que brilhavam de malícia. — A si mesmo lhe ouvi dizer que as éguas são mais difíceis de domar.
— É uma questão de habilidade e de firmeza — afirmou Gen.
— Sente-se muito seguro de si mesmo.
— Para triunfar é condição imprescindível.
Ela inclinou a cabeça sorrindo-lhe, enquanto começava a calçar as luvas.
— Devo dizer que lhe desejo o triunfo?
— Sim, desde que o diga sinceramente.
Ela não respondeu, dirigindo-se para a casa, em frente da qual se encontrava o seu cavalo.
— Confio em que não se disponha a deixar-nos já — disse ele, colocando-se a seu lado. — Fique para almoçar e, depois, se mo permitir, acompanhá-la-ei.
— Não é necessário. Você deve estar muito fatigado.
— O banho pôs-me como novo e, em qualquer caso, desfrutar da sua companhia compensa-me sobejamente de qualquer esforço. Ela deitou-lhe um olhar velado pelas suas longas pestanas.
— Agradeço-lhe muito, mas não posso ficar. Meus pais não sabem que vim aqui e ficariam alarmados se não estivesse de regresso à hora do almoço.
— Como você queira. Conceda-me apenas um momento para selar o meu cavalo.
-- Não se incomode.
-- Nada me poderia incomodar menos.
Deixou-a novamente para se dirigir rapidamente ao estábulo, de onde não tardou em regressar com o magnífico «Stormy» conduzido à rédea.
— A sua disposição — disse, inclinando-se junto do cavalo de Cathy, com as mãos entrelaçadas para ajudá-la a montar.
— Sentiria se lhe roubasse o seu tempo -- pretendeu ainda dissuadi-lo a jovem, inclinando-se para ele, uma vez sobre a sela.
-- Nunca o meu tempo foi tão bem empregado replicou Gen galantemente, montado por sua vez.
(1) «Poeira de ouro».