quarta-feira, 5 de julho de 2017

PAS780. O Desfiladeiro das Caveiras

Dois dias mais tarde, ao entardecer, estava tudo preparado.
Luís Kinsey não pôde conter um sorriso quando viu aparecer Pedro de Mejias. Ia vestido como um vaqueiro da União, com os «Colts» pendentes do cinturão-cartucheira, e um chapéu de abas estreitas, em feltro de cor negra. Levava também uma camisa preta, à semelhança dos outros homens, que trajavam igualmente como os vaqueiros americanos.
Parecia-lhe quase impossível que aquele homem, que ele vira nos salões do clube «Novo México», com o seu trajo típico adornado de pedrarias, respeitado por todos, fosse o mesmo que se dispunha agora a iniciar uma operação de contrabando.
O pátio estava agitado. Os trabalhadores iam e vinham. A um canto, via-se um grupo de mulheres. Eram as esposas, as mães e as noivas dos homens que iam partir dentro de uns minutos.
Muitas daquelas mulheres faziam esforços para conter as lágrimas, mas quase nenhuma o conseguia. Todas queriam evitar que o seu pranto entristecesse os que iam partir, mas qualquer coisa superior às suas forças se impunha e as obrigava a chorar.
Também Clara evitava as lágrimas. Tinha os olhos inchados e adivinhava-se que passara horas a soluçar.
Luís Kinsey tentava acalmá-la, mas não o consegui A rapariga movia-se nervosa, de um lado para o outro  ajudando o seu pai.
Dentro da cavalariça, estavam preparados os animam que haviam de levar a prata. Eram doze cavalos de por raça, membros longos e finos, ancas fortes, pescoço grácil e corpo proporcionado. Dos doze, dez eram de pelo escuro, quase negro, e dois de tom mais claro.
Cada um daquelas animais levava dois sacos de couro repletos de pesos de prata. As moedas iam colocadas em pilhas de cinco, cosidas ao forro para que não se deslocassem. Cada um daqueles sacos aderia ao dorso dos cavalos como se fosse uma segunda pele.
Tudo estava calculado para que, em caso de necessidade, não dificultassem a fuga.
— Cada cavalo leva só quarenta quilos de prata — explicou o rancheiro a Luís Kinsey — mas, se tiverem de correr, podem fazê-lo. De outra maneira, ver-nos-íamos impossibilitados de avançar a toda a velocidade e perderíamos animais e prata. Prefiro empregar mais cavalos e ter mais possibilidades de êxito. Nunca me sucedeu nada e espero que desta vez também não... Os animais resistem bem à marcha e os cavaleiros não os esforçam se não for necessário. São sessenta milhas que nos esperam, trinta cada noite se andarmos bem. Durante o dia, descansaremos do outro lado do rio Grande, atravessamos os Desfiladeiros Vermelhos e ao amanhecer chegamos a Las Cruces. Aí, estão à nossa espera, repousamos uns dois dias, o tempo suficiente para vender a. prata e comprar o oiro, e voltamos seguindo o mesmo caminho. Está tudo previsto e calculado.
— Nunca sucedeu nada?
— Nunca. Nem sucederá, Luís.
— Assim o espero.
Pedro de Mejias passou revista aos animais pela última vez. Verificou as cilhas e o ajustamento dos sacos que continham os pesos de Maximiliano.
Depois, erguendo a voz, dirigiu-se aos dezanove homens que o acompanhavam na expedição.
— Amigos!... Vamos percorrer a nossa rota pela última vez. Tudo sairá bem e o êxito coroará os nossos esforços... Peço-lhes que rezem para que Deus nos ajude.
Os homens descobriram-se todos, inclinando a cabeça.
Uma voz de mulher, pertencendo a uma velha que via partir no grupo um filho e um neto, foi que iniciou a prece. A voz dela tinha um tom patético, estranho para as circunstâncias. Eram homens que iam empreender uma aventura perigosa, da qual não sabiam se voltariam com vida.
— ...Ajudai-os, Senhor, e não permitais que morram ali... Fazei que todos voltem sãos e salvos, Senhor. Rezaremos por eles enquanto estejam fora, Senhor, para que não esqueçais que ficamos aqui, as mães, as esposas, os irmãos e os filhos... Senhor, rogamos que os ajudeis... Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Ámen.
Todos responderam como uma só voz:
— Ámen.
Pedro de Mejias pôs novamente o chapéu e deu a ordem:
— A cavalo!
Os homens obedeceram.
— Em marcha!
Em fila indiana, foram saindo da cavalariça.
A escuridão que cobria o rancho envolveu-os imediatamente e converteu-os em sombras que se encaminhavam para a fronteira da União.
Clara sentiu que o braço de Luís Kinsey a cingia, ajudando-a a manter-se em pé.
— Adeus, pai — murmurou a rapariga.
O rancheiro agitou o chapéu no ar por um momento. Seguidamente, só se ouviu o ruído dos cascos dos cavalos que se afastavam.
O grupo de mulheres olhava os entes queridos que partiam, com a respiração suspensa, sem um único comentário, sem choros, pois já tinham esgotado as suas lágrimas. Alguns lábios moviam-se, inquietos, rezando sem., interrupção.
Depressa se deixou de ouvir o som provocado pelo caminhar dos animais.
Eram oito horas. O sol havia desaparecido do horizonte às sete da tarde e a escuridão imperava por toda a parte.
Clara voltou ao edifício central. Na sala de jantar, a mesa estava ainda ocupada pelos restos da refeição. A rapariga sentou-se num cadeirão e cruzou os braços sobre a mesa, apoiando neles a cabeça. Então, não pôde conter-se mais. As lágrimas correram em abundância pelas suas faces e os seus soluços ouviram-se por toda a sala.
Luís tentou acalmá-la, mas não o conseguiu.
— Tenho medo... Tenho medo, Luís... Muito medo... José Iglésias... Iglésias...
— Não acontecerá nada! Acalma-te; verás como hão-de regressar dentro de uns dias.
— Iglésias... O teu amigo Iglésias é um assassino.
— Não é, Clara... Conheço-o como se fosse meu irmão e tenho a certeza de que o não é.
A jovem suspirou profundamente. Os pressentimentos atormentavam-na e um receio crescente apoderava-se do seu coração. Pressentia que era a última vez que tinha visto seu pai.
Ao amanhecer, o nascer do sol surpreendeu o rancheiro mexicano do outro lado do rio Grande, já em território da União.
Os cavalos não haviam tido nenhuma dificuldade em atravessar as águas naquele ponto, embora estivessem uns centímetros mais altas do que o normal.
Acamparam ao pé dos Desfiladeiros Vermelhos, procurando refúgio entre as incríveis ondulações daquele maciço montanhoso.
Os Desfiladeiros Vermelhos formavam uma das barreiras quase intransponíveis que corriam ao longo do rio Grande, já em terras da América. Eram umas montanhas avermelhadas, como se o sangue as tivesse banhado em tempos idos e a sua cor não houvesse desaparecido.
De longe, formavam uma mole imponente, aparentemente impossível de ser atravessada. No entanto, à medida que se aproximavam, viam-se os múltiplos caminhos que apareciam pelas suas vertentes. Muitas daquelas passagens iam-se tornando cada vez mais estreitas até desaparecerem; outras não tinham saída possível e ainda algumas desembocavam nas que continuavam, em procura de saída pelo lado oposto.
Tinha de se ser experiente nos desfiladeiros para uma pessoa não se perder. Mas, o caminho escolhido não constituía preocupação para Pedro de Mejias. O que o apo quentava verdadeiramente era a presença de José Iglésias. Aqueles desfiladeiros eram o local ideal para uma emboscada.
Durante o dia que passou sentado debaixo de uns arbustos que cresciam junto da vertente escarpada, os seus pensamentos foram sempre os mesmos. Mentalmente calculava que faltavam umas nove horas de caminho e que seria muito pouca sorte se precisamente no último dia sucedesse alguma anormalidade.
Quase não se alimentou. Esteve sempre a olhar para o relógio, desejando que o tempo voasse. Mas, o seu desejo era impossível. Os ponteiros continuavam a indicar que o tempo passava com a mesma lentidão do dia anterior e do seguinte.
Às oito horas, quando o sol já se havia posto de nov. e o seu disco brilhante não aparecia no horizonte, Pedro de Mejias deu a ordem de montar.
Voltou a observar os animais. Estavam frescos e na havia nenhum ferido. Se tudo corresse bem, chegariam à hora prevista a Las Cruces.
— Em marcha, amigos, e que Deus nos ajude.
À frente, caminhava Tadeu, um homem que conhecia tão bem os Desfiladeiros Vermelhos como as suas mãos. E, seguindo-o, os restantes puseram-se a caminho.
Depressa foram rodeados pelas altas penedias avermelhadas.
Parecia que viajavam por um mundo de sangue e morte. As encostas surgiam descarnadas, sem uma única planta a adorná-las. Somente havia pedra naquela desolação terrível.
O desfiladeiro ia-se ampliando à medida que novos ramais o engrossavam. Era como que um rio sangrento e rochoso.
Não se ouvia um único ruído a não ser o ressoar dos seus passos. Tudo parecia morto.
Pedro de Mejias olhava os altos paredões que quase se perdiam na escuridão. Aquele era o ponto mais perigoso da sua rota, o sítio indicado para um assalto.
Não obstante, nada via que lhe chamasse a atenção. Tudo se mostrava tão deserto como sempre.
Os outros também vigiavam, com as espingardas na mão, dispostos a abrir fogo. Mas, tal como o seu patrão,  ululavam.
Todavia, a realidade era diferente. Dois olhos estavam fixos na figura um tanto avantajada do rancheiro mexicano. Eram dois olhos pequenos e negros que se moviam rápidos e inquietos. E também o olhar de mais cinco homens seguiam os movimentos dos seus companheiros.
Aqueles indivíduos, colocados nas alturas, esforçavam-se para não perder um único pormenor. As suas mãos acariciavam as «Winchester» de doze tiros.
Tudo tinha sido calculado. Seis espingardas de doze eirós somavam setenta e dois balázios.
Era impossível que escapasse alguém com vida. Nem sequer os cavalos.
Um deles sorriu, satisfeito. Aquele ia ser o melhor " golpe da sua vida. Doze animais carregados de prata, de pesos de Maximiliano, que poderia vender sem dificuldade.
Esperou que passassem mais perto. E, quando julgou que era o melhor momento, a sua voz ressoou pelos desfiladeiros como um trovão:
— Fogo!
No mesmo instante, as espingardas cantaram a s canção de chumbo e de morte. Uma canção trágica, d notas agudas, secas e duras, que destruía por onde passava. Os relinchos dos cavalos e os gritos dolorosos do homens misturaram-se num alarido infernal. Quando se ouviu o grito, acompanhado quase nt, mesmo instante pelos tiros, o pai de Clara sentiu um pancada nas costas, do lado direito, que o atirou ao chã Foi isso que o salvou. Deu várias voltas, rolando com violência, até que o embate numa pedra o fez parar. Tentou levantar-se e vários projéteis cravaram-se quase a seu lado. Quando, a arrastar-se, procurava um refúgio mais seguro, uma nova bala penetrou no calor da sua carne. Atravessou-lhe a coxa e desfez-lhe a anca. Apesar disso, conseguiu encobrir-se atrás de u rocha. De ali, mordendo os lábios para conter as dores que o atormentavam, viu o espetáculo que oferecia o desfiladeiro.
Quase todos os seus homens tinham sido atingidos pelas descargas. Alguns cavalos relinchavam cheio de dor e escoiceavam, procurando a saída daquele inferno. Mas, a única coisa que conseguiam era despedaçar os corpos dos homens que haviam caído sob as suas patas. Só um dos homens não fora alcançado: Tadeu o que caminhava à frente.
Quando ressoaram os tiros, Tadeu, um homem de uns cinquenta anos, pequeno, nervoso e magrizela, atirou-se para detrás de umas pedras. Do seu esconderijo, procurando confundir-se com as rochas e as sombras, presenciou o final de Pedro de Mejias e dos seus homens. A luta durou menos de dez minutos.
Quando os cavalos e os cavaleiros formavam um amálgama de cadáveres, os seis atacantes desceram ao fundo do desfiladeiro. frente deles, ia um homem novo, que não aparentava ter mais de vinte e sete anos, com a «Winchester» na mão, preparado para disparar. Os seis bandidos avançaram por cima dos cadáveres, olhando-os um a um. Depois, começaram a libertar os cavalos das sacas de lona. Tadeu pôde observar tudo minuciosamente e também reconheceu o homem que comandava os cinco foragidos: era José Iglésias! Quando se afastaram, ficaram dezanove cadáveres. Um mês depois, o sol e os abutres tinham deixado apenas os ossos. A partir daquela data, o desfiladeiro passou a ser conhecido pelo nome de Desfiladeiro das Caveiras. Um nome trágico, que definia perfeitamente o que ali havia acontecido.
 

terça-feira, 4 de julho de 2017

PAS779. Reencontros

No dia seguinte, Luís Kinsey saiu pela última vez da casa que tinha sido sua.
Montava um cavalo de estampa não muito elegante e levava um cinturão-cartucheira com dois «Colts». Vestia um trajo de cavaleiro mexicano e cobria a cabeça com um amplo chapéu. Era toda a sua fortuna. Restavam-lhe duzentos pesos e com eles esperava chegar até ao Novo México ou ao Texas, do outro lado do rio Grande.
Não tinha pressa. Antes de abandonar definitivamente o México, queria visitar o rancho de Pedro de Mejias, primo da sua mãe, um homem que rondava os cinquenta anos, proprietário de um grande rancho contíguo à fronteira, em Chipualta, uma povoação que outrora fora ocupada pelos incas.
Demorou dois dias em chegar. Tinha estado ali havia anos, quando contava treze, pouco tempo antes da queda do imperador Maximiliano (1).
(1) Referência a Fernando 7osé Maximiliano, arquiduque de Áustria, que, em seguida à invasão do México pelos franceses, foi nomeado imperador deste país em 1864. Impopular, abandonado por Napoleão II em 1867, foi preso e fuzilado. (N. do T.).
Recordava Pedro de Mejias como um homem afável e muito simples de trato, que o apreciava sinceramente. E também se lembrava da filha, uma garota desajeitada quando ele a conhecera, que se chamava Clara.
Agradava-lhe a ideia de passar por ali antes de entrar na União.
Quando chegou a Chipualta, não fazia a menor ideia do sítio onde se encontrava o rancho. Perguntou a um mexicano velho, que fumava um cigarro escuro e pestilento, à sombra de um alpendre. O mexicano fitou-o inquisidoramente antes de responder e, quando o fez, foi com lentidão.
— Pedro de Mejias tem o rancho a cinco milhas, seguindo o caminho de saída para a União.
Luís Kinsey não se preocupou com o olhar do velho e prosseguiu. Cinco milhas mais adiante, encontrou um rancho que reconheceu imediatamente. As recordações que apareciam confusas na sua mente ganharam atualidade e definiram-se. Lembrou-se perfeitamente dos três corpos do rancho: o edifício central, ocupado por Pedro de Mejias, o da esquerda, pelos trabalhadores, e o da direita, destinado aos cavalos e ao gado.
Entrou no pátio delimitado pelas três construções. Um homem aproximou-se para tomar conta do seu cavalo.
— Está o dono do rancho? — perguntou.
— Não..., mas está a sua filha.
— Pois, diga a Clara que chegou Luís Kinsey. — É para já, senhor.
Luís desmontou e entregou o cavalo ao empregado, que o levou para a cavalariça, correndo logo a seguir para o edifício do rancho.
Momentos depois, apareceu uma rapariga na varanda central do edifício.
— Luís!... Que alegrial... Sobe, anda cá acima.
— Clarita! — exclamou ele, com um amplo sorriso.
E dirigiu-se para a entrada, seguido pelo mexicano, que se movia à sua volta, sem saber se devia adiantar-se¬-lhe para, lhe indicar o caminho ou ir atrás dele.
Luís encontrou-se com Clara na escada do edifício. A rapariga ficou quieta no alto dos degraus, sem saber que fazer, e o mesmo se passou com Luís, no piso inferior.
Havia doze anos que não se viam e a transformação tinha sido enorme.
Clarita deixara de ser uma miúda desengraçada e convertera-se numa mulher encantadora. A sua pele morena, os seus lábios rubros e frescos, os olhos grandes, negros e brilhantes, o cabelo farto caindo-lhe em ondas sobre os ombros, eram um autêntico hino de louvor à Natureza. Luís pensou que havia muito que não via uma mulher tão bela. E, de repente, aglomerou-se no seu cérebro uma infinidade de pensamentos.
— Pequena...—murmurou. — Como te transformaste!
— E tu, Luís! — retorquiu ela, desfeito já o gelo do primeiro momento e descendo a correr a escadaria, para se lançar nos braços do seu primo afastado.
Abraçaram-se.
— Clarita, pareces outra — murmurou Luís Kinsey. — Ninguém te reconheceria.
— Tu também mudaste.
— Mas, tu melhoraste.
— E tu também, Luís -- respondeu-lhe, a sorrir. Anda, sobe e vem beber qualquer coisa.
— Está bem. Há «tequila»?
— Ordenarei que ta vão buscar.
Entraram os dois na sala de jantar. Um criado mexicano pôs uma toalha sobre uma pequena mesa e depois entrou outro com uma bandeja, copos e uma garrafa de «tequila».
— Vejo que a vida lhes tem corrido bem — disse Luís, examinando a bandeja. — É de ouro.
— E os copos de cristal húngaro, importados, autênticos.
— É consolador verificar que alguém da família continua a viver bem. Pensava que lhes haviam tirado a maior parte do rancho quando se deu a queda de Maximiliano.
— E assim foi. O papá lutou pelo imperado e conseguiu salvar a vida. O que não se livrou foi de ver a fazenda repartida e desmantelada.
— Todavia, têm um ambiente de exceção. Móveis luxuosos, impróprias de um rancho, bandejas de ouro, criados... Um milagre.
— Não creias isso; não há milagre nenhum. O papá...
— Que é? Podes continuar — observou ele, ao ver que Clara não prosseguia no que ia a dizer.
— Não. Deixa lá, é a mesma coisa... Ele próprio te contará. Toma, bebe. É a melhor «tequila» que se pode encontrar no México.
Pegou no copo que a rapariga lhe oferecia e ergueu-o. — Por ti, Clara, que te tornaste maravilhosa.
A jovem ruborizou-se.
— Lembras-te? — continuou ele. — Foi há doze anos e, na realidade, dá-me a impressão de que tudo sucedeu ontem.
— Passaram doze anos, Luís, não te esqueças.
— Estás enganada. Passaram-se muitas coisas, mas não esqueci tudo aquilo.
A rapariga acercou-se da varanda que se alcandorava sobre o pátio.
— Éramos umas crianças, Luís... Hás-de compreender.
— Éramos sinceros, Clara. A vida ainda não nos havia pervertido, pelo menos a mim... Depois, aprendi a mentir e a dizer o que não penso, mas foi a sociedade que me obrigou a isso... Noutros tempos, há doze anos, falava verdade quando te disse...
A jovem olhou-o fixamente, ao ver que se interrompia. E foi ela que terminou a frase:
— Quando disseste que me querias, Luís... Já reparaste em que nessa altura eras uma criança?
— Também tu... Dizíamos ambos a verdade... Tu respondeste-me... lembras-te?
— Sim, foi uma garotice como qualquer outra. Brincávamos, corríamos, íamos a toda a parte juntos... E tu, para te fazeres homem, disseste que me amavas... E beijaste-me...
— Não me esqueci. E tu retribuíste-me o beijo... Que tempos aqueles, Clara!
— Já lá vão.
— Achas que sim? Eu não, Clara.
A voz de Luís era acariciante, suave. A sua mão apoiou-se no ombro da rapariga.
Por favor, Luís... Já passaram doze anos sobre tudo isso.
— E que importam os anos? O tempo não conta para certas coisas. Agora, ao ver-te de novo, dei-me conta' dessa verdade... Clara, aquela miudita foi o meu... primeiro amor, permite-me que to diga assim... O meu amor puro, límpido, digno... Continuas a ser tão bonita como para mim o eras então...
— Luís, por favor... Estás a dizer-me que...
— Que gosto de ti, Clara... Passei por Chipualta pari to dizer. Não queria ir para o Oeste sem primeiro voltar a ver-te, sem saber como te encontravas.
— Para o Oeste? Vais-te embora?
— Sim, tenho de ir?
— E as terras? E as casas?
— Tudo nas mãos dos credores, pequena... Não, não te ponhas triste. Tenho o que mereço. Não escutei conselhos de ninguém nem atentei no exemplo de José Iglésias. Também ele se arruinou por levar uma vida semelhante à minha, mas o seu exemplo não me fez mudar... Não me resta nada... Bem, ficaram-me os apelidos, mas para nada me servem.
— Arruinado?... Sem nada?
— Sim. Sobrou apenas um cavalo já cansado e um par de «Colts».
— E que pensas fazer?
— O Oeste é grande e ali pode-se começar uma vida nova. Farei qualquer coisa: jogar, certamente, ganhar dinheiro, comprar um rancho, criar gado...
— Parece impossível... A tua mãe deixou-te terras, ranchos, ninguém tentou apoderar-se de nada quando caiu o imperador Maximiliano...
-- Mas, eu vivi como ninguém no México. É justo que pague agora a minha desorganização.
— Luís, Luís, tu não o mereces.
— Mereço, sim. E agora chegou a hora de demonstrai que sirvo para alguma coisa. Se tenho algum préstimo, voltarei a fazer fortuna do outro lado do rio Grande.
— A fronteira proporciona inúmeras possibilidades. — Que queres dizer, Clara?
— O papá te dirá... Olha, ali vem ele. Efectivamente, um cavaleiro entrava naquele momento no pátio do rancho, seguido por outros três.
Um empregado aproximou-se de Pedro de Mejias e disse-lhe qualquer coisa. O rancheiro olhou para a varanda e, ao reconhecer Luís Kinsey, saltou do cavalo e dirigiu-se para o edifício.
—Primo Pedro! — exclamou o rapaz, indo ao seu encontro.
— Luís, filho!... Que' alegrial... Foi a melhor sur¬presa deste ano.
Abraçaram-se como velhos amigos. Na realidade, eram muito mais. Pedro de Mejias cuidara do pequeno Luís como de um filho, quando o pai, Arthur Kinsey, caíra crivado de balas. Sentia uma viva simpatia pelo rapaz, que nunca pudera dissimular.
— Como vai a tua vida, Luís? Anda, vamos tomar um copito de «tequila».
— Não, obrigado, Clarita já me ofereceu... As coisas têm-me corrido mal.
— Que dizes?
— Que as coisas vão mal, mas hão-de melhorar dentro de algum tempo, do outro lado do rio Grande.
— Vais partir? Vais para a União?
— Sim, é uma necessidade.
— E o património dos Acertes y Mejias?
— Voou... Já não é meu nem pertenço à família. Vou trabalhar para a União.
Pedro bebeu o líquido do copo e ficou a olhar para a filha. Depois, como se lhe ocorresse uma ideia, ordenou:
— Clara, vai à cozinha e vê se a comida está a ser bem preparada. Luís está acostumado a comer bem.
A rapariga compreendeu o que o pai queria dizer abandonou a sala.
Quando os dois homens ficaram sós, Pedro disse:
— Já sabes que a maior parte das minhas terras foi confiscada pelo Governo, em represália à minha atuação a favor do imperador.
— Sim, eu sei.
— E consegui salvar a cabeça, com o que me dou por muito satisfeito... Suponho que viste o luxo com que montei de novo o meu rancho e deves ter reparado cm que nada me falta.
— Sim. As terras...
— Não há terras, Luís. Quase não dão o suficiente para se comer. O que há é outra coisa. Escuta... — O dono do rancho deitou mais «tequila» no copo e continuou: — Quando Maximiliano caiu, os seus pesos de prata deixaram de ter valor e o Estado tratou de trocá-los por papel-moeda. Concedeu-se um prazo de cinco dias para a troca, mas muita gente ficou com os pesos no bolso, sem se precatar de que haviam perdido o valor. Asseguro-te que por estas povoações dos arredores, a(, longo de toda a fronteira, muitos trabalhadores verificaram que as suas economias, às vezes produto de uma vida inteira, ficaram reduzidas a nada, um montão de prata que ninguém queria nem quer, pois fundi-la é punido com pena de prisão... Foi então que me ocorreu a ideia de levar os pesos a um sítio onde tivessem valor. Se no México não valiam, na União, do outro lado do rio Grande, a prata continuava a ser prata e, além disso, com um valor superior ao de aqui. Suponho que não sabes que lá a prata tem um preço oficial, superior ao do México.
— Ignorava-o.
— Pois, é assim. Tenta-se manter um equilíbrio económico com os outros metais preciosos, dando-lhes por vezes um valor fictício a qualquer deles. Com a prata sucede isso. Oficialmente, tem um valor superior, para evitar que as empresas mineiras de exploração de prata fiquem desertas e os trabalhadores se lancem na pesquisa do ouro... Quer dizer, se consigo passar a prata, que compro ao preço legal que teve durante cinco dias, fazendo um favor a todos, do outro lado vendo-a a um preço superior, com um lucro de trinta por cento. Recebo ouro, dólares em ouro, que aqui se fazem fundir em lingotes, e encontro¬-lhe fácil saída na capital... Estou certo de que mais de um dos que me compram lingotes são teus conhecidos do clube «Novo México».
— Com certeza. Há lá muitos desavergonhados que compram ouro de contrabando... de contrabando = repisou.
— É verdade, sou um contrabandista, mas creio que não causo mal a ninguém. Limito-me a trocar o que já para nada serve e a pagá-lo com moeda oficial.
— Não deixa de ser uma fraude ao Governo, primo Pedro.
— O Governo que nos rege agora não nos merece essa consideração. Porquê preocuparmo-nos com isso?
Luís Kinsey não respondeu. Limitou-se a encher outro copo de «tequila» e aproximou-se da varanda.
— Que te parece? — insistiu o rancheiro.
— Quase inacreditável — murmurou Luís. — Pedro de Mejias a fazer contrabando.
— É preciso viver, filho... Depois de amanhã, partirei para fazer a última viagem. Estou cansado, esgotado, velho... E a verdade é que cada vez é mais difícil encontrar pesos de prata. Para reunir o próximo carregamento necessitei de três semanas. Os meus homens foram busca os pesos às povoações mais afastadas... Pensei que talvez estivesses interessado.
— Em fazer contrabando?
— Sim... apresentar-te-ei aos homens que do outro lado da fronteira me esperam para comprar a prata a um preço que para eles é vantajoso, e travarás conhecimento com os que compram o ouro no México.
Luís não respondeu. Bebeu a «tequila» lentamente, pensando na proposta que acabavam de lhe fazer e, quando falou, estava já decidido.
— Não me interessa — disse. — Prefiro outra coisa, qualquer vida mais emocionante. Na União, os homens vivem de uma forma mais violenta... Talvez seja a seu sação do perigo que me faça deixar a minha pátria.
— Ah! Ah! Ah! Falta de perigo, dizes...! Ah! Ah! Ah!... Não creias que a minha rota seja um mar de rosas. Temos de atravessar o rio Grande, de percorrer sessenta milhas em duas noites, esconder-nos de dia e vigiar constantemente. Os polícias rurais percorrem a fronteira sem descanso... E há os outros.
— Os outros?
— Sim. Supondo que desconheces a espécie de vida que José Iglésias leva.
— José Iglésias?... Que quer dizer? Que tem ele a ver com tudo isto?
— Muito mais do que tu pensas.
— É impossível. Por José Iglésias, poria a mão no fogo com a certeza de não me queimar.
— Os homens dele fariam o mesmo.
— Os homens dele?... Tem homens sob as suas ordens?
— Sim, os mais ferozes da região, os mais indisciplinados, os mais brutais e valentes. José Iglésias converteu-se no terror da fronteira.
— Não pode ser... — murmurou Luís, num fio de voz. — José não pode ser um ladrão.
— Sinto muito dizer-to, Luís, mas, além de ladrão, é também um assassino... Tu conhecia-lo perfeitamente, melhor que ninguém, e sabes que partiu porque estava arruinado. Fez o mesmo que tu pensas fazer e estou certo de que também lhe agradavam as emoções... Mas, escorregou pela vertente do mal e agora dedica-se a assaltar os contrabandistas, a roubar gado e a passá-lo para o México. É um verdadeiro diabo. Chegou a trazer reses da União, esperar que o rancheiro a quem as vendia as tivesse marcado, roubá-las a este, passá-las para o outro lado da fronteira e vendê-las ao que primeiramente fora roubado, que voltava a marcá-las, por seu turno. Todos se calavam, visto que compravam reses roubadas, o que era ilegal. Estás a ver o negócio!
— Não pode ser ele... É o meu melhor amigo, o meu grande amigo... Criei-me ao lado dele, prosperei com ele... José Iglésias não pode ser assassino.
— Enganas-te... É o homem mais perigoso da fronteira e o que eu mais temo. Sinceramente, respirarei tranquilo quando voltar ao rancho depois da expedição... E tinha pensado que tu, dada a vossa amizade, poderias continuar o contrabando...
— Não, não posso... Nem quero enfrentar-me com José Iglésias. Seria incapaz de empunhar as armas contra ele.
— Portanto, não queres vir.
— Atrai-me o Oeste, mas não o contrabandear carregamentos de prata.
— Posso pedir-te um favor?
— Sim.
— Fica aqui até ao meu regresso. Parto com vim homens e isto ficará quase abandonado. Prefiro que Clara esteja com alguém que possa defendê-la se suceder qualquer coisa.
— Está bem. Ninguém me espera lá e posso chegar quando quiser.
Pedro de Mejias passou familiarmente o seu braço pelo ombro de Luís Kinsey e desceram juntos ao pátio. Ali, encontraram Clara.
— Lembravas-te dela, Luís? — perguntou o rancheiro.
— Sim, primo Pedro... Muitas vezes — foi a resposta que recebeu.
E era a verdade, uma verdade que mais tarde enfrentaria tragicamente no seu destino.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

PAS778. Balada do rapaz excelente e... arruinado

A carruagem parou diante da entrada principal do clube «Novo México».
Um criado, de rosto moreno, amplo sorriso e comprido bigode, abriu a portinhola do veículo.
Luís Kinsey de Acertes y de Mejias desceu e saudou porteiro.
— Olá, Pedro! Tudo bem?
— Para mim, sim, senhor.
— Nem todos podemos dizer o mesmo. — E, dirigindo-se ao cocheiro, acrescentou: — Francisco, volta para casa e não me esperes. Irei a pé, como me compete.
Ninguém lhe respondeu palavra. Nem uma frase de adulação, nem um comentário que desmentisse o que acabava de dizer. A verdade era conhecida por toda a sua classe social.
A Luís Kinsey de Acertes y de Mejias só restava o nome. Património, ranchos, terras, tudo estava hipotecado ou embargado. Nada se salvara da herança dos Acertes, mas ele não se importava muito.
Meses antes, quando tinham começado a circular rumores sobre a sua ruína, pensara que lhe ficava o mais importante: a sua personalidade. Mas, haviam-lhe bastado uns quantos contactos com os que julgava os seus mais íntimos amigos para se dar conta de que o que lhes interessava era o seu pecúlio. Desaparecidas as riquezas, acabava tudo.
Entrou no edifício do clube. Uma rapariga, vestida com o trajo típico mexicano, aproximou-se dele com um cesto de flores.
íntimos amigos para se dar conta de que o que lhes interessava era o seu pecúlio. Desaparecidas as riquezas, acabava tudo.
Entrou no edifício do clube. Uma rapariga, vestida com o trajo típico mexicano, aproximou-se dele com um cesto de flores.
— Um cravo, senhor? — ofereceu, enquanto colocava a flor na lapela do casaco do rapaz, sem aguardar resposta.
Uma flor como tu, Marina, é que eu gostaria de levar, para a União — respondeu, ao mesmo tempo que lhe passava para as mãos uma nota de cinco pesos.
Marina fitou-o, surpreendida, com os seus olhos grandes e negros muito abertos. Duas coisas a espantavam: os cinco pesos, importância avultada para o que era habitual, e a afirmação de que ele partia para a União.
— Vai partir, senhor? — perguntou, com ar de tristeza.
— Sim, vou-me embora.... Só tu terás pena, tenho a certeza.
— Sim... E eles também sentirão que tu partas — murmurou ela, tratando-o por tu.
— Não, eles não. Eles alegrar-se-ão. As minhas terras, os meus ranchos, ficam nas garras dos Bancos, que são as garras deles. A maioria dos meus amigos, dos que me sorriam e davam palmaditas amistosas nas costas, é acionista das empresas bancárias que não me permitiram um alargamento de créditos. Esses ficarão contentes por eu partir.
— Já sabem?
— Vou hoje anunciar-lhes... E até o festejaremos. Restam-me cinco mil pesos.
— Guarda-os.
— Para quê? Prefiro chegar à União sem nada nos bolsos. Se as coisas me correrem bem, poderei sentir-me orgulhoso de ter começado do nada.
— Que farás lá?
— Jogar... Não sirvo para outra coisa. Sei manejar o laço para que nenhuma rês se me escape, sei disparar e acertar no gargalo de uma garrafa a trinta metros de distância..., mas sei jogar e ganhar. Não posso fazer outra coisa.
— Não me agrada...
— Eu sei, Marina.... És a única pessoa que me fala com sinceridade. Os que estão lá dentro sorrirão satisfeitos e esperarão a minha morte, depois de terem tomado conta dos meus bens.
— E ela?
— Maria Luísa? Oh! Não tem importância! Já está farta de mim... ou da minha penúria. Deixar-me-ia na primeira altura; esquecer-me-á rapidamente. Quando começámos a dar-nos, eu tinha um pouco mais do que longos apelidos. Agora, é a única coisa que me resta e está demonstrado que no México isso não basta para viver. São precisos pesos.
— Às vezes, pode-se ser muito feliz sem dinheiro.
— Sim, com amor... Mas, isso dizem os que nunca conheceram a riqueza. A mim, que fui o que pode chamar-se um rico fazendeiro, não me convencem esses argumentos. No México, vivi como um homem abastado e, portanto, não posso viver como um pobre. Na União, as coisas serão diferentes. Lá, ninguém me conhece e viverei de uma maneira muito diferente.
— E mais perigosa.
— E que me importa isso? Viverei ao ritmo da vida do Oeste: com o «Colt» na mão, um sorriso nos lábios e o coração sem penas... Será uma coisa linda. Anda, pequena, deseja-me boa sorte.
— Sim, Luís, desejo-te sinceramente muita sorte. Agora, que te vais embora, posso dizer-te que...
— Não, não, Marina, não me digas.... Adivinhei-o desde o primeiro dia, mas preferi ignorá-lo. Causar-me-ias mal se aclarasses o que eu já sei... Adeus, Marina.
— Adeus, Luís.
O rapaz separou-se da empregada do clube e penetrou no salão principal.
No «Novo México», um luxo transbordante imperava por toda a parte. O local era requintado em extremo e nele se reuniam os grandes proprietários mexicanos, que viviam na capital, longe das suas terras, deixadas ao cuidado de capatazes e feitores. Também ali apareciam os cultivadores de tabaco, os diretores das empresas de navegação e das grandes firmas construtoras.
Para ser sócio do clube «Novo México» eram precisas duas condições: dinheiro e apelidos ilustres. Aqueles a quem faltava uma ou as duas coisas estavam excluídos do círculo mais fechado e selecionado da capital mexicana.
Ainda se permitia que Luís Kinsey de Acertes y de Mejias franqueasse as portas do clube, mas a sua fortuna, como era do domínio público, havia-se desmoronado e não lhe restava quase nada.
Quando entrou no salão principal, o mordomo saudou-o, com urna cortês reverência.
— Olá, Chano! Deixa-te de mesuras. Não é necessário cumprimentares um homem como eu, que possui o mesmo dinheiro que tu possas ter.
— Menos, senhor — replicou o mordomo do clube.
— Sim, é verdade. Tenho menos. Cinco mil pesos ao todo, e arranjei-os vendendo a carruagem e os dois cava-los. Amanhã, já não serão meus... Sabes que não te conhecia como homem sincero? Estava acostumado a ver-te dobrar a espinha por um peso.
— É a vida, senhor... Mas, há vezes em que sou fraco e digo a verdade, o que penso.
Não te acostumes, homem, não te acostumes. Pode custar-te caro. Se' há alguma coisa que a Humanidade não deixa dizer é a verdade. Se fores um hipócrita, triunfarás.
— O senhor é muito sincero.
— Sim e por isso me arruinei. Tentei jogar limpo e já vês o resultado: sem um peso. Se tivesse feito como outros que passeiam os seus milhões pelo clube, estariam agora a prestar-me homenagens. E os únicos que se aproximam agora são vocês.... Queres tomar alguma coisa, Chano? Convido-te.
— É-me proibido, senhor... De bom grado brindaria pelo seu futuro.
— Já sabes que me vou embora? — perguntou, admirado.
— Não, ignorava-o... Mas, sei que querem expulsá-lo do clube. Na última reunião, a direção foi do parecer de que não era digno de pertencer ao clube porque está arruinado.
— Nem me perdoam que o meu pai fosse um súbdito da União. Não tenho dinheiro nem sangue totalmente mexicano. Não sou homem, Chano... Anda, vamos tomar um copo.
— Impossível, senhor... Talvez, mais logo, lhe faça um brinde.
— Fico-te muito grato.
Luís Kinsey atravessou o salão, cumprimentando à direita e à esquerda. Verificou que era retribuído com maior frieza do que a que tinham empregado nos últimos dias.
Sim, pensou, tinham-no expulsado do clube, em deliberação conjunta. E o encarregado de lho dizer tinha sido Chano, o bom Chano, que entrara como paquete e ascendera até mordomo, à força de repartir muitos sorrisos, escovar muitas casacas e prestar-se a missões muitas vezes de natureza duvidosa.
— Que quer tomar, senhor? — perguntou o empregado do bar.
— «Tequila», a bebida nacional, o que bebem os nossos trabalhadores.
— Sinto muito, senhor, mas não temos «tequila».
— Então, rapaz, em vista do maravilhoso espírito nacional que possuímos, que nos impede de beber o que é e sempre foi bem nosso, arranja-me um uísque, do escocês, do melhor, do mais caro... Do que bebem os ricos que, no fundo, desprezam o México.
O empregado sorriu, ao escutá-lo, e encheu um fino copo de uísque escocês. Com ele na mão, Luís entrou na sala de jogo.
Ninguém o fitou, ou melhor, todos olharam para ele, mas de soslaio, como se fosse um indivíduo que estivesse ali a mais, que os incomodasse. Todos o temiam pelo seu espírito trocista e haviam-no suportado enquanto fora senhor de teres e haveres. Quando tudo se acabara, Luís Kinsey convertera-se num amigo impertinente, sempre indesejado.
Acercou-se de uma mesa e deixou cair uma nota de quinhentos pesos. O encarregado da mesa mirou-o, como se quisesse perguntar-lhe aonde fora arranjar o dinheiro.
Pegou nas cartas e voltou a largá-las. Nem esperou que o jogador da casa mostrasse o seu jogo. Até a sorte lhe virava as costas.
Aproximou-se de outra mesa, esta de roleta, e fez igual aposta. Quando a bola de marfim parou no seu inquieto rodopiar, o «croupier» arrebatou a nota de quinhentos pesos com a pá.
Luís bebeu o uísque e voltou ao bar.
Três sócios do clube, com os quais meses antes o unia uma boa amizade, abandonaram o recinto quando ele chegou. Compreendeu tudo.
— Sou um indesejável... Parece que tenho peste —murmurou para o empregado. — Atreves-te a servir-me outra bebida? — perguntou, colocando ao mesmo tempo uma nota de cem pesos sobre o balcão.
O empregado serviu-lhe o uísque e devolveu-lhe o dinheiro.
— Está tudo pago, senhor.
— Como?
— É como digo. A direção resolveu convidá-lo, para despedida.
— Que amabilidade! — ironizou. — São uns perfeitos cavalheiros... Porque não bebes tu? Convido-te também, já que é a casa que paga.
— Não posso, senhor.
— Ah! Sim, já não me recordava de que para eles pertences à classe pobre e não te deixariam pôr os lábios nos seus copos de ricaços, nem beber os seus licores exóticos... Vou experimentar outra vez a roleta. Ali, ao menos, deixam-me pagar.
Entrou de novo na sala de jogo e, aproveitando a altura em que um jogador se levantava da mesa da roleta, ocupou o seu lugar.
Colocou uma nota de cem pesos no cinco vermelho e esperou.
Perdeu.
Voltou a apostar cem pesos. O «croupier» convidou o resto dos jogadores, com as suas frases em mau francês, mas ninguém foi a jogo e cinco dos jogadores abandonaram os seus lugares.
Luís Kinsey voltou a perder. Insistiu e pôs mais cem pesos sobre o pano, no mesmo número e cor.
Repetiu-se a lengalenga do «croupier» e, então, todos os restantes jogadores desistiram e afastaram-se da mesa.
Luís sorriu.
— Amigo, vamos jogar os dois, até se me acabarem os cinco mil pesos.
— As suas ordens, senhor.
A bolita de marfim parou de novo, mas dessa vez no cinco vermelho. Luís Kinsey retirou o dinheiro e voltou a apostar.
— Estou a ver que isto vai demorar um bom par de horas. Não me levantarei enquanto não estiver arruinado.
— Receio que não lhe custe muito, senhor — replicou o «croupier», sorridente.
Mas, enganava-se. Às três da manhã, Luís ainda possuía trezentos pesos. Às três da manhã, Luís ainda possuía trezentos pesos. As três e meia, voltava a ter dois mil.
Já não havia ninguém nos salões. As mesas de jogo estavam cobertas e os empregados bocejavam, aguardando que terminasse a partida.
O mordomo em pessoa enchia o copo de Luís Kinsey cada vez que estava vazio.
— Bebam, amigos, bebam todos comigo — convidou. Ninguém respondeu.
— Agora, estamos sozinhos.... Somos todos iguais, somos mexicanos pobres, depenados... aceitem o meu oferecimento.
— Senhor, não podemos... — começou o mordomo a dizer.
— Chano, deixa-te de disparates e de me tratar por senhor. Conhecemo-nos há uma porção de anos. Era eu um rapazola quando tu já eras ajudante de mordomo.... Trata-me por tu e bebe comigo.... Bebam, bebam todos.
— Bem, Luís, como queiras — respondeu o mordomo, servindo-se de uísque.
O resto dos empregados fez o mesmo. O «croupier» despiu a casaca negra e Luís o casaco.
As quatro da manhã, tinha quatrocentos pesos. Todos bebiam e conversavam animadamente. Luís Kinsey nem prestava atenção ao que sucedia sobre a mesa de jogo. Limitava-se a pôs notas de cem pesos e a retirar os ganhos, se os havia.
Às cinco, o sol despontou no horizonte e uma suave claridade começou a iluminar a sala de jogo do clube «Novo México».
Alguns empregados dormitavam, estendidos nas poltronas, e só Chano não perdera a compostura.
Luís Kinsey atirou a última nota para cima da mesa. — Onze negro — murmurou.
O «croupier», mecanicamente, repetiu as frases da praxe, como se convidasse hipotéticos jogadores, e lançou a bola. Quando esta parou, sorriu.
— Trinta e seis vermelho, Luís. Perdeste. Estás arruinado.
— Sim, amigo, arruinado... Temos de celebrar a minha ruína.
Chano voltou a encher os copos e o rapaz pôs-se em pé sobre a mesa de jogo.
— Brindo pela minha nova vida, pela União, pelo Oeste e pelo que lá me esperal... Brindo por vocês, que são pobres como eu, que sabem viver sem dinheiro e são felizes!... E brindo pelos meus ex-amigos, os ricos, os adoradores do bezerro de ouro, os ególatras, os fátuos, os que consolidaram fortunas à custa do suor alheio, os que nada merecem e tudo têm!... Brindo pelo México!.
— Brindemos por Luís Kinsey de Acertes y de Mejias, o novo arruinado!
— Não, não, Chano, não...! Estou arruinado, completamente arruinado; tira-me também os apelidos pomposos, os títulos... Sou Luís Kinsey, entendes?
— Sim... Brindo por Luís Kinsey!
— Viva!
Os copos esvaziaram-se num segundo e voltaram a encher-se imediatamente.
Luís saltou da mesa e encaminhou-se para a porta, seguido dos empregados e do mordomo.
Saíram juntos para os jardins do clube, com as garrafas na mão, e dirigiram-se para a rua.
Às seis da manhã, Luís entrava em casa, na casa que já não lhe pertencia.
Lá fora, na rua, ficava um grupo singular. Empregados e mordomo, todos trajando os seus uniformes de servidores do clube «Novo México», cantavam aos gritos:
— É um rapaz excelente, é um rapaz excelente... É um rapaz excelente... E sempre o será, e sempre o será!
Era verdade.

domingo, 2 de julho de 2017

BIS134. Chuva de balas

 
 
(Coleção Bisonte, nº 134)
 
 
A Luís Kinsey de Acertes y de Mejias só restava o nome. Património, ranchos, terras, tudo estava hipotecado ou embargado. Nada se salvara da herança dos Acertes, mas ele não se importava muito.
Decidiu abandonar o México e ir para a União, local onde novas oportunidades surgiriam. E partiu. Ao fazer as despedidas de um tio, soube que este fazia contrabando com a União e que ia fazer mais uma viagem bastante arriscada. Permaneceu na casa dele até ao dia em que um dos que partira na expedição voltou dizendo que a mesma tinha sido chacinada pelo facínora José Iglesias, um amigo de Luís.
A partir de então, as intenções do jovem arruinado modificaram-se e começou a caça àquele que lhe tinha dizimado a família.
«Chuva de balas» é um texto muito interessante de John Weiber. Os primeiros capítulos são entusiasmantes e um convite à leitura total da obra que será publicada no «Novelas»

BIS133. Um Mormon arrependido

Coleção Bisonte, nº 133. Capa e texto indisponíveis

sábado, 1 de julho de 2017

PAS777. A paixão impõe a atitude

Por muito estranho que possa parecer, Andrew Jackson foi comprar naquela tarde roupas novas e estava agora a vestir-se com todo o esmero.
A única justificação que encontramos para esta sua atitude era que naquela noite «mister» Gradford organizava em sua casa uma festa para comemorar o aniversário da sua filha mais nova, Suzy, e pela tardinha passara pelo escritório do xerife a avisá-lo de que estavam a contar com a sua presença.
Depois de pronto, Jackson ficou surpreendido ao ver a imagem que o espelho refletia. Parecia completamente outro homem, embora na sua opinião aquelas roupas lhe dessem um ar mais maduro.
Hesitou se devia ou não colocar o emblema de xerife na lapela, mas acabou por guardá-lo na gaveta. Contudo, não prescindiu de colocar o cinturão por debaixo do casaco. Habituara-se já à sua companhia e nunca podia prever antecipadamente o que lhe podia estar reservado. Assim, se tivesse maus encontros, era bem melhor que fosse prevenido.
Instantes depois montava no cavalo que se afeiçoara à sua pessoa e saía da cidade.
Em todas as janelas de «mister» Gradford havia luz.
Andrew entregou as rédeas da montada a um vaqueiro e empurrou a porta.
A súbita claridade, os riscos, a música, os pares que dançavam e toda aquela gente, perturbaram-no. Sobre um estrado habilmente decorado, ao fundo da sala, cinco músicos em uniformes de grande gala faziam o deleite dos dançarinos.
Estavam ali reunidas pessoas de toda a região, a maior parte das quais o xerife desconhecia. Uma festa em casa de «mister» Gradford era coisa falada!
Andrew sentiu que toda a sua vontade em comparecer àquela festa se esfumava. Estava deslocado naquele ambiente.
O milionário avistou-o, indeciso, com a mão no fecho da porta e veio ao seu encontro.
— Estava quase a zangar-me consigo, «mister» Jackson... Já são boas horas de ter aparecido.
Suzy avistou-o também e arrastou a sua irmã Helen consigo.
— Como está, «mister» Jackson? Veja como, a minha festa está linda. Soubemos do que se passou na cidade e minha irmã Helen andou muito preocupada!
— Então, Suzy... — implorou esta, ruborizando-se.
Andrew ia deixando cair o chapéu e atrapalhou-se.
O banqueiro, que não tinha dado por nada, enfiou-lhe o braço e levou-o consigo.
— Helen, minha filha, serve uma bebida ao nosso convidado especial.
— Que prefere, «mister» Jackson? «Whisky»?
— Claro que sim, os homens como nós, só bebem «whisky» — afirmou o milionário rindo. — As outras bebidas são para as senhoras!
— Oh, não traz a sua estrela, xerife — lamentou Suzy. — Olhe que lhe ficava muito bem.
— O nosso xerife é um homem modesto, minha filha. •
-- Aqui tem a sua bebida, «mister» Jackson — e Helen entregou-lhe o copo.
— Tenho uma boa notícia a dar-lhe — disse o banqueiro. — Chegou hoje uma remessa para si: dez mil dólares! O preço da sua vitória e também por ter livrado os homens de bem de um temível assassino. Tomei a liberdade de abrir uma conta em seu nome no meu banco, que está à sua inteira disposição.
— Agradeço, «mister» Gradford.
— Que vai fazer a esse dinheiro, «mister» Jackson?
— Nada... Isto é, não tinha sequer pensado nisso.
— O papá está sempre a falar de negócios, até na minha festa de aniversário! — protestou Suzy.
— Que queres, minha filha, é uma doença lucrativa. Mas dou-te inteira razão.
— Porque é que «mister» Jackson não convida a Helen para dançar? — perguntou em tom inocente a irrefletida filha do milionário.
Aquela pergunta teve um efeito fantástico: Andrew engasgou-se com o «whisky», Helen esbugalhou os olhos de assombro e o banqueiro transformou-se em espectador daquela cena cómica. Por seu turno Suzy sorria, mostrando uma dupla fileira de dentes saudáveis, o mais à-vontade que é possível.
— Acho muito bem concordou por fim o pai das meninas.
Andrew olhou para Helen à procura de uma ajuda, os olhos negros da rapariga perturbaram-no ainda mais e desculpou-se o melhor que pôde:
— Lamento... mas não sei dançar!
— Não tem importância, a Helen ensina-o! — carregou Suzy.
O pai interveio como medianeiro conciliador:
— Suzy, não vês como eles estão atrapalhados?
— Gosto de os ver assim!
Só havia uma maneira para o caso se normalizar e para que Suzy não voltasse a repetir as suas «bombas» dialéticas: era retirar os dois da sala!
— Helen, vai mostrar ao nosso xerife a nossa propriedade — convidou o pai. — «Mister» Jackson, parece-me que o senhor está a precisar de um pouco de ar 4, puro.
Andrew e Helen estavam de facto tão pouco à vontade que não esperaram pela repetição do convite.
Já no exterior, ela desculpou-se:
— «Mister» Jackson não conhece a «força» da Suzy. Eu que convivo com ela ainda não posso prever quando vai proferir os seus costumeiros disparates.
— Suzy tem de facto um temperamento ofensivo — concordou Andrew para quem a companhia daquela mulher a seu lado, envoltos naquele cenário lunar, não era de modo algum propícia para que serenasse o espírito.
— O pior é que o nosso rancho não tem nada de especial que o senhor não tenha visto. O meu pai para nos livrar de Suzy colocou-me num beco sem saída. Se não se importa, sentar-nos-emos neste relvado.
Andrew acedeu sem uma palavra. Contudo, competia-lhe a ele iniciar uma conversa fútil, o que não conseguiu. O seu cérebro estava emperrado e achava-se incapaz de coordenar as ideias. Compreendo a situação do seu companheiro, foi Helen quem falou:
— É horrível estarmos aqui sentados sem proferirmos uma palavra. Se não se importa, «mister» Jackson, fale--me de si.
— De mim?! Mas que poderei eu dizer sobre a minha pessoa que lhe possa interessar?
— Tudo! Há dias, creio que teve de defender a sua vida. Aqui em minha casa ficámos todos em sobressalto porque não julgávamos que fosse tão hábil com as armas. O papá era o único que parecia mais calmo, não sei bem o motivo.
— Noutros tempos, menina Helen, fui um bom atirador.
— Ah!
Andrew compreendeu que tinha induzido na sua companheira uma opinião errada sobre a sua pessoa e achou que tinha o dever de a esclarecer.
— Não quero que julgue que eu era um pistoleiro como esse que defrontei; era um agente especial, trabalhava por conta do governo.
Helen voltou-se com uma expressão de alegria súbita...
— Sério?! Quem havia de imaginar! Se a Suzy soubesse disto obrigava-o a contar a sua biografia.
— Peço-lhe que não lho conte.
Helen riu.
— Esteja descansado.
— Guardei sempre segredo sobre esta parte da minha vida porque a mesma arrasta recordações dolorosas para mim.
— Uma mulher?
— Não, não. A morte de um amigo que se perdeu, tornando-se no chefe de uma quadrilha e que tive de eliminar. Por este motivo pedi a minha demissão.
— Compreendo-o e peço-lhe desculpa. Jim Sarno vinha vingar a morte de um irmão, ao que parece.
— Sim, Helen... Oh, desculpe...
— Não faz mal, pode tratar-me por Helen e eu chamar-lhe-ei apenas Andrew. Somos amigos, não é verdade?
— Como queira, menina... Helen...
— Ia a dizer que...
— Ah!. Astkins Sarno era um pistoleiro que eu abati. Como Jim, outros virão tentar uma desforra ou uma vingança...
— Mas, então... Vou falar com o meu pai para que o obrigue a refugiar-se em qualquer lado quando isso acontecer.
Jackson sorriu.
— Isso não é solução, Helen. Estes homens vêm de muito longe e não desistem nunca dos seus intentos.
 É impossível, não posso acreditar, que você os aguarde com toda essa calma, sabendo que o objetivo desses bandidos é a sua morte!
— Quando seu pai tomou a iniciativa de me eleger para xerife de Newton City, sabia ao que a cidade se expunha. Isto é a consequência inevitável da minha antiga profissão e não posso, ninguém pode fugir ao seu destino. Não vejo, portanto, motivos para me alarmar e prefiro aguardar os acontecimentos na maior calma.
 Nunca vi nenhum homem como você, Andrew! — confessou-lhe num tom de voz tão sincero que levou Jackson a fitá-la. A este parecia-lhe que ela se estava a deixar arrastar por sentimentos que não eram aconselháveis. Pela primeira vez deu conta da afeição que começava a envolvê-los, mas por outro lado, apercebeu¬-se do abismo social que os separava. Sem saber porquê reparou que já podia fixar os seus olhos negros, que não se sentia contrafeito à sua beira, que a sua companhia lhe fazia bem. Era outro homem, descortinava outras facetas da sua vida até então ignoradas, de bom grado desejaria que o tempo parasse para que o sonho - bom que estava a viver não se desfizesse em fumo.
Todavia, amargamente compreendia que estava a olhar muito para o alto. Ela não era a Helen que estava sentada a seu lado a conversar, era a filha de um milionário, de «mister» Gradford dono do Banco de Newton City... E ele? Não passava de um vulgar homem do Oeste, cuja única cultura eram as armas que lhe adornavam a cinta.
Tinha de fazer com que Helen fizesse convergir a sua atenção para este facto de primacial importância e embora muito lhe custasse ia tentá-lo.
— Helen, quero dizer uma coisa: eu sou um homem vulgar, um pistoleiro inculto como existem milhentos em todos os estados da União, desde Virgínia à Califórnia, ou do Texas à Dakota do Norte, e o facto de ter colocado as minhas armas ao serviço da Lei é apenas uma questão de princípios ou de educação. Não me julgo um homem excecional, como você há pouco disse. Quando errava pela planície na pista de um criminoso, no desempenho da minha missão, e dormia no chão, comparava-me aos animais. Os estados da União são vastíssimos e passavam-se semanas que eu não via um ser humano; nessas ocasiões deixava crescer a barba e ficava imundo. Do meu contacto com bandidos empederniu-se-me o coração para as- coisas a que os outros homens chamam amor ou felicidade. Não quero que você faça uma ideia errada a meu respeito, mas também não desejo que confie demasiado no seu coração. Há dias, ao fitar os seus belos olhos negros, fiquei inexplicavelmente perturbado. Não sei o que se passou em mim, nem se foi por esse motivo que eu hoje vim a sua casa. Não estou habituado a assistir a estas festas sociais, Helen, sinto-me deslocado, envergonhado até e fora do meu ambiente. Não devia ter vindo, porque afinal de contas você é a filha de um rico banqueiro e eu — quem sou eu? — absolutamente nada! Peço-lhe que me perdoe e apresente as minhas desculpas a seu pai, mas vou retirar-me, porque acabo de descobrir o motivo que aqui me trouxe. Adeus, Helen.
Andrew apertou entre as suas a mão de Helen, afastou-se. Ela viu-o caminhar na direção do seu cavalo, montar e afastar-se com um cumprimento.
Nessa altura apareceu Suzy a correr.
— Helen! «Mister» Jackson! Mas... estás só! Onde está «mister» Jackson?
A irmã voltou-se para que ela não visse a lágrima furtiva que lhe descia pela face e apontou para o vulto que ao longe estava quase a desaparecer.
— Foi-se embora! Porque se retirou ele, Helen?
— Lembrou-se que tinha um assunto a tratar na cidade e pediu para lhe perdoarmos por ter de se retirar...