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sábado, 1 de julho de 2017

PAS777. A paixão impõe a atitude

Por muito estranho que possa parecer, Andrew Jackson foi comprar naquela tarde roupas novas e estava agora a vestir-se com todo o esmero.
A única justificação que encontramos para esta sua atitude era que naquela noite «mister» Gradford organizava em sua casa uma festa para comemorar o aniversário da sua filha mais nova, Suzy, e pela tardinha passara pelo escritório do xerife a avisá-lo de que estavam a contar com a sua presença.
Depois de pronto, Jackson ficou surpreendido ao ver a imagem que o espelho refletia. Parecia completamente outro homem, embora na sua opinião aquelas roupas lhe dessem um ar mais maduro.
Hesitou se devia ou não colocar o emblema de xerife na lapela, mas acabou por guardá-lo na gaveta. Contudo, não prescindiu de colocar o cinturão por debaixo do casaco. Habituara-se já à sua companhia e nunca podia prever antecipadamente o que lhe podia estar reservado. Assim, se tivesse maus encontros, era bem melhor que fosse prevenido.
Instantes depois montava no cavalo que se afeiçoara à sua pessoa e saía da cidade.
Em todas as janelas de «mister» Gradford havia luz.
Andrew entregou as rédeas da montada a um vaqueiro e empurrou a porta.
A súbita claridade, os riscos, a música, os pares que dançavam e toda aquela gente, perturbaram-no. Sobre um estrado habilmente decorado, ao fundo da sala, cinco músicos em uniformes de grande gala faziam o deleite dos dançarinos.
Estavam ali reunidas pessoas de toda a região, a maior parte das quais o xerife desconhecia. Uma festa em casa de «mister» Gradford era coisa falada!
Andrew sentiu que toda a sua vontade em comparecer àquela festa se esfumava. Estava deslocado naquele ambiente.
O milionário avistou-o, indeciso, com a mão no fecho da porta e veio ao seu encontro.
— Estava quase a zangar-me consigo, «mister» Jackson... Já são boas horas de ter aparecido.
Suzy avistou-o também e arrastou a sua irmã Helen consigo.
— Como está, «mister» Jackson? Veja como, a minha festa está linda. Soubemos do que se passou na cidade e minha irmã Helen andou muito preocupada!
— Então, Suzy... — implorou esta, ruborizando-se.
Andrew ia deixando cair o chapéu e atrapalhou-se.
O banqueiro, que não tinha dado por nada, enfiou-lhe o braço e levou-o consigo.
— Helen, minha filha, serve uma bebida ao nosso convidado especial.
— Que prefere, «mister» Jackson? «Whisky»?
— Claro que sim, os homens como nós, só bebem «whisky» — afirmou o milionário rindo. — As outras bebidas são para as senhoras!
— Oh, não traz a sua estrela, xerife — lamentou Suzy. — Olhe que lhe ficava muito bem.
— O nosso xerife é um homem modesto, minha filha. •
-- Aqui tem a sua bebida, «mister» Jackson — e Helen entregou-lhe o copo.
— Tenho uma boa notícia a dar-lhe — disse o banqueiro. — Chegou hoje uma remessa para si: dez mil dólares! O preço da sua vitória e também por ter livrado os homens de bem de um temível assassino. Tomei a liberdade de abrir uma conta em seu nome no meu banco, que está à sua inteira disposição.
— Agradeço, «mister» Gradford.
— Que vai fazer a esse dinheiro, «mister» Jackson?
— Nada... Isto é, não tinha sequer pensado nisso.
— O papá está sempre a falar de negócios, até na minha festa de aniversário! — protestou Suzy.
— Que queres, minha filha, é uma doença lucrativa. Mas dou-te inteira razão.
— Porque é que «mister» Jackson não convida a Helen para dançar? — perguntou em tom inocente a irrefletida filha do milionário.
Aquela pergunta teve um efeito fantástico: Andrew engasgou-se com o «whisky», Helen esbugalhou os olhos de assombro e o banqueiro transformou-se em espectador daquela cena cómica. Por seu turno Suzy sorria, mostrando uma dupla fileira de dentes saudáveis, o mais à-vontade que é possível.
— Acho muito bem concordou por fim o pai das meninas.
Andrew olhou para Helen à procura de uma ajuda, os olhos negros da rapariga perturbaram-no ainda mais e desculpou-se o melhor que pôde:
— Lamento... mas não sei dançar!
— Não tem importância, a Helen ensina-o! — carregou Suzy.
O pai interveio como medianeiro conciliador:
— Suzy, não vês como eles estão atrapalhados?
— Gosto de os ver assim!
Só havia uma maneira para o caso se normalizar e para que Suzy não voltasse a repetir as suas «bombas» dialéticas: era retirar os dois da sala!
— Helen, vai mostrar ao nosso xerife a nossa propriedade — convidou o pai. — «Mister» Jackson, parece-me que o senhor está a precisar de um pouco de ar 4, puro.
Andrew e Helen estavam de facto tão pouco à vontade que não esperaram pela repetição do convite.
Já no exterior, ela desculpou-se:
— «Mister» Jackson não conhece a «força» da Suzy. Eu que convivo com ela ainda não posso prever quando vai proferir os seus costumeiros disparates.
— Suzy tem de facto um temperamento ofensivo — concordou Andrew para quem a companhia daquela mulher a seu lado, envoltos naquele cenário lunar, não era de modo algum propícia para que serenasse o espírito.
— O pior é que o nosso rancho não tem nada de especial que o senhor não tenha visto. O meu pai para nos livrar de Suzy colocou-me num beco sem saída. Se não se importa, sentar-nos-emos neste relvado.
Andrew acedeu sem uma palavra. Contudo, competia-lhe a ele iniciar uma conversa fútil, o que não conseguiu. O seu cérebro estava emperrado e achava-se incapaz de coordenar as ideias. Compreendo a situação do seu companheiro, foi Helen quem falou:
— É horrível estarmos aqui sentados sem proferirmos uma palavra. Se não se importa, «mister» Jackson, fale--me de si.
— De mim?! Mas que poderei eu dizer sobre a minha pessoa que lhe possa interessar?
— Tudo! Há dias, creio que teve de defender a sua vida. Aqui em minha casa ficámos todos em sobressalto porque não julgávamos que fosse tão hábil com as armas. O papá era o único que parecia mais calmo, não sei bem o motivo.
— Noutros tempos, menina Helen, fui um bom atirador.
— Ah!
Andrew compreendeu que tinha induzido na sua companheira uma opinião errada sobre a sua pessoa e achou que tinha o dever de a esclarecer.
— Não quero que julgue que eu era um pistoleiro como esse que defrontei; era um agente especial, trabalhava por conta do governo.
Helen voltou-se com uma expressão de alegria súbita...
— Sério?! Quem havia de imaginar! Se a Suzy soubesse disto obrigava-o a contar a sua biografia.
— Peço-lhe que não lho conte.
Helen riu.
— Esteja descansado.
— Guardei sempre segredo sobre esta parte da minha vida porque a mesma arrasta recordações dolorosas para mim.
— Uma mulher?
— Não, não. A morte de um amigo que se perdeu, tornando-se no chefe de uma quadrilha e que tive de eliminar. Por este motivo pedi a minha demissão.
— Compreendo-o e peço-lhe desculpa. Jim Sarno vinha vingar a morte de um irmão, ao que parece.
— Sim, Helen... Oh, desculpe...
— Não faz mal, pode tratar-me por Helen e eu chamar-lhe-ei apenas Andrew. Somos amigos, não é verdade?
— Como queira, menina... Helen...
— Ia a dizer que...
— Ah!. Astkins Sarno era um pistoleiro que eu abati. Como Jim, outros virão tentar uma desforra ou uma vingança...
— Mas, então... Vou falar com o meu pai para que o obrigue a refugiar-se em qualquer lado quando isso acontecer.
Jackson sorriu.
— Isso não é solução, Helen. Estes homens vêm de muito longe e não desistem nunca dos seus intentos.
 É impossível, não posso acreditar, que você os aguarde com toda essa calma, sabendo que o objetivo desses bandidos é a sua morte!
— Quando seu pai tomou a iniciativa de me eleger para xerife de Newton City, sabia ao que a cidade se expunha. Isto é a consequência inevitável da minha antiga profissão e não posso, ninguém pode fugir ao seu destino. Não vejo, portanto, motivos para me alarmar e prefiro aguardar os acontecimentos na maior calma.
 Nunca vi nenhum homem como você, Andrew! — confessou-lhe num tom de voz tão sincero que levou Jackson a fitá-la. A este parecia-lhe que ela se estava a deixar arrastar por sentimentos que não eram aconselháveis. Pela primeira vez deu conta da afeição que começava a envolvê-los, mas por outro lado, apercebeu¬-se do abismo social que os separava. Sem saber porquê reparou que já podia fixar os seus olhos negros, que não se sentia contrafeito à sua beira, que a sua companhia lhe fazia bem. Era outro homem, descortinava outras facetas da sua vida até então ignoradas, de bom grado desejaria que o tempo parasse para que o sonho - bom que estava a viver não se desfizesse em fumo.
Todavia, amargamente compreendia que estava a olhar muito para o alto. Ela não era a Helen que estava sentada a seu lado a conversar, era a filha de um milionário, de «mister» Gradford dono do Banco de Newton City... E ele? Não passava de um vulgar homem do Oeste, cuja única cultura eram as armas que lhe adornavam a cinta.
Tinha de fazer com que Helen fizesse convergir a sua atenção para este facto de primacial importância e embora muito lhe custasse ia tentá-lo.
— Helen, quero dizer uma coisa: eu sou um homem vulgar, um pistoleiro inculto como existem milhentos em todos os estados da União, desde Virgínia à Califórnia, ou do Texas à Dakota do Norte, e o facto de ter colocado as minhas armas ao serviço da Lei é apenas uma questão de princípios ou de educação. Não me julgo um homem excecional, como você há pouco disse. Quando errava pela planície na pista de um criminoso, no desempenho da minha missão, e dormia no chão, comparava-me aos animais. Os estados da União são vastíssimos e passavam-se semanas que eu não via um ser humano; nessas ocasiões deixava crescer a barba e ficava imundo. Do meu contacto com bandidos empederniu-se-me o coração para as- coisas a que os outros homens chamam amor ou felicidade. Não quero que você faça uma ideia errada a meu respeito, mas também não desejo que confie demasiado no seu coração. Há dias, ao fitar os seus belos olhos negros, fiquei inexplicavelmente perturbado. Não sei o que se passou em mim, nem se foi por esse motivo que eu hoje vim a sua casa. Não estou habituado a assistir a estas festas sociais, Helen, sinto-me deslocado, envergonhado até e fora do meu ambiente. Não devia ter vindo, porque afinal de contas você é a filha de um rico banqueiro e eu — quem sou eu? — absolutamente nada! Peço-lhe que me perdoe e apresente as minhas desculpas a seu pai, mas vou retirar-me, porque acabo de descobrir o motivo que aqui me trouxe. Adeus, Helen.
Andrew apertou entre as suas a mão de Helen, afastou-se. Ela viu-o caminhar na direção do seu cavalo, montar e afastar-se com um cumprimento.
Nessa altura apareceu Suzy a correr.
— Helen! «Mister» Jackson! Mas... estás só! Onde está «mister» Jackson?
A irmã voltou-se para que ela não visse a lágrima furtiva que lhe descia pela face e apontou para o vulto que ao longe estava quase a desaparecer.
— Foi-se embora! Porque se retirou ele, Helen?
— Lembrou-se que tinha um assunto a tratar na cidade e pediu para lhe perdoarmos por ter de se retirar...

sexta-feira, 30 de junho de 2017

PAS776. O «cow-boy» que quase caiu do cavalo

Os momentos em que o xerife tinha de agir eram tão esporádicos que naquela manhã, convencido que nada ia acontecer que exigisse a sua presença, Andrew Jackson fechou a porta do seu escritório e montou na intenção de dar uma volta pelos arredores.
A terra americana é tão fértil em panorâmicas de rara beleza para os olhos daqueles que a sabem apreciar, que em qualquer parte o olhar se extasia diante de paisagens deslumbrantes.
Próximo de Newton City corria um regato que serpenteava por entre a densa vegetação, formando aqui uma cascata com as águas a caírem lá de cima em turbilhão; formando um branco rendado de espuma na base do rochedo, acolá; límpidas e serenas como um lago a onde o gado ia beber e a erva crescia viçosa, sempre emoldurado num colorido paisagístico que seduzia.
Eram estes os locais que mais agradavam a Andrew Jackson e que este preferia para os seus passeios.
Sentava-se sobre as raízes de uma das árvores altíssimas, defronte do curso de água, deixando o cavalo livre, e entregava-se aos seus pensamentos, às recordações dolorosas ou felizes que nunca o abandonavam. Refletia no que tinha sido a sua vida e meditava naquela parte da Declaração da Independência de quatro de Julho de mil setecentos e setenta e seis, que ele tinha decorado:
«São verdades incontestáveis para nós: que todos os homens nascem iguais, que o Criador lhes conferiu certos direitos inalienáveis, entre os quais o de vida, o de liberdade e o de buscar a felicidade.»
Andrew Jackson ainda não conseguira alcançar a felicidade e estava profundamente convencido de que já era demasiado tarde para o tentar. Trinta e nove anos de vida, sete dos quais ao serviço da Lei e da Justiça, haviam--lhe endurecido o coração e destruído a esperança de atingir esse dom tão caro ao coração dos homens. Por alturas dos seus vinte anos e num espaço de tempo que durara até próximo dos trinta, Jackson pensava, como todos os da sua idade, em abandonar aquela vida de aventuras e encontrar uma alma gémea da sua, com a qual fundaria o seu lar, primeiro passo para a felicidade. Depois, com o rodar dos tempos, apercebeu-se que não tinha feitio para aquelas coisas, que o seu coração estava demasiadamente empedernido para amar e que, principalmente, estava a ficar velho.
Agora ao perlustrar o que ia ser o seu futuro, via que estava só, tão só como o ermita que foge do contacto humano, a velhice a aproximar-se a passos agigantados... Trinta e nove anos! Num ápice atingiria os cinquenta, os sessenta e depois?...
Ou talvez não durasse tanto. O seu nome podia estar escrito numa bala de um pistoleiro e deixaria o mundo, abandonando o corpo caído sobre o pó da estrada, empapado em sangue. Quem sabe se seria já hoje, ou amanhã?... No Oeste o limite de uma vida não pode ser calculado pela saúde do seu corpo, mas sim pela sorte desse mesmo corpo em não encontrar uma bala disparada que o faça perecer.
Afugentando os seus pensamentos sombrios, um tudo--nada fúnebres, Andrew recordou-se do pedido que o banqueiro lhe fizera para que fosse visitar a filha, cuja propriedade ficava muito próxima dali e resolveu ir até lá.
Tinha simpatizado com a jovem ao sentir o seu peito arfar com os soluços, c ao ver as lágrimas deslizarem-lhe pelo rosto, enquanto comprimia os lábios para abafar os gemidos.
Foi buscar o cavalo e depois de montar dirigiu-se sem pressas para o rancho de «mister» Gradford.
Desde a entrada até ao edifício da habitação, o xerife foi perseguido por um cão preto que ladrava furiosamente, perante o desagrado do solípede que se sentia por certo incomodado.
Este alarido teve o condão de alertar os moradores da casa e quando chegou à porta já era esperado por uma mulher.
— «Trovão»! Aqui!
O canino calou-se e foi aninhar-se aos pés da dona.
— Desculpe, xerife, esta receção tão ameaçadora. O «Trovão» não sabia que o papá o tinha convidado a vir visitar-nos!
Andrew ficou tão perturbado ao fitar os olhos negros daquela mulher, que as palavras lhe morreram na garganta e quase ia caindo por meter mal o pé no estribo ao apear-se.
Não era muito nova, mas conservava ainda a frescura de uma juventude recente. Tinha fartos cabelos compridos a caírem-lhe sobre os ombros e o seu corpo era harmonioso. Mas aqueles olhos... não os podia fitar!
— Venha, minha irmã espera-o ansiosamente.
Amarfanhando desajeitadamente o chapéu nas mãos, Andrew seguiu-a. Se soubesse os tormentos de que ia ser vítima, teria recusado aquele convite.
A residência de «mister» Gradford estava mobilada com um requinte que Jackson jamais vira, de tal forma que começou a matutar se o banqueiro não se divertira à sua custa com aquela conversa no seu gabinete.
Entretanto, a filha do milionário introduziu-o no quarto da irmã.
— A minha irmã Suzy... O senhor...
— Jackson... Andrew Jackson...
A jovem que estava sentada na cama estendeu-lhe a mão livre, com um sorriso simpático.
— Como está? Sente-se aqui à minha beira — e indicou-lhe um dos lados da cama.
Andrew sentiu-se aflito, podia sujar a alvura das roupas com as suas calças de trabalho e dirigiu um olhar suplicante à irmã mais velha. Esta, porém, colaborou com o pedido.
— Esteja à sua vontade.
Por ironia, descontração e à-vontade eram sensações que ele não sentia. Sem outra solução, não teve outro remédio senão sentar-se. A irmã mais velha de Suzy sentou-se não muito distante, numa cadeira almofadada.
— Eu chorei muito quando caí abaixo do cavalo?
— Não... não... Foi até uma menina muito bem-comportada.
A jovem riu.
— Gostava de o conhecer, sabe? para lhe agradecer o que fez por mim e também para o apreciar.
Andrew sentiu um calor subir-lhe ao rosto. Estava a ser «fuzilado» por dois lados, pois os olhos negros estavam constantemente cravados na sua pessoa.
— Antes de vir pus-me a imaginar como você seria e agora confesso que suplanta tudo o que eu imaginei. Não é muito simpático, Helen?
— Então, Suzy, não deves dizer essas coisas, pois o senhor Jackson não fica à vontade — ralhou a mais velha.
— Ora. Não é crime dizermos o que sentimos e «mister» Jackson não se zanga, pois não?
— Não... Não... Porque havia de zangar-me?
Suzy soltou uma gargalhada apaziguadora.
— O papá disse-me que é um homem valente. Conte--nos a sua vida, «mister» Jackson.
— Suzy, este senhor veio a nossa casa visitar-te, muito amavelmente, e não o deves aborrecer — voltou a interromper a irmã mais velha.
— Está a ver, «mister» Jackson, está a ver? A minha irmã Helen está sempre a ralhar-me por tudo e por nada, e não se lembra que já tenho dezanove anos e sou, portanto, uma senhora...
Andrew conseguiu algum sangue-frio para dizer:
— Vejo, menina Suzy, que já está quase boa e dentro de pouco tempo terá esquecido o seu acidente. Peço-lhes desculpa, mas tenho de regressar ao povoado, vim aqui apenas de passagem, é possível que estejam à minha espera para resolver qualquer assunto — e levantou-se.
— Oh! Já vai! Mas promete vir à festa dos meus anos que o papá vai organizar? A Helen e eu teríamos muito prazer.
— A sua irmã... Bem, virei, terei o maior gosto em vir...

quinta-feira, 29 de junho de 2017

PAS775. Uma amazona em perigo

Tinha uma necessidade urgente de desabafar consigo mesmo. Aquelas armas e aquele cavalo traziam-lhe à mente um nunca mais acabar de recordações. Há dez anos que não montava, que não arriscava a sua vida, que não ouvia o disparo de uma arma! Há momentos, quando premiu o gatilho para acalmar os contendores, sentiu que o seu vibrava de emoção! Que esforço tremendo tivera que fazer para se habituar àquela vida calma, sem perigos, à monotonia de um quotidiano sem história. Andrew Jackson que percorrera todos os estados da União no desempenho das suas missões, convertido depois em barbeiro e agente funerário.
— Socorro! Socorro!
Jackson despertou das suas divagações a tempo de ver uma mulher que fazia esforços desesperados para deter o seu cavalo que corria numa velocidade doida.
Imediatamente esporeou a sua montada e fê-lo tão bruscamente que o animal relinchou de dor e empinou-se nas patas traseiras, antes de partir em cavalgada veloz.
Andrew esperava que a amazona se segurasse o tempo suficiente para que ele a pudesse segurar, mas tal não aconteceu. A mulher desequilibrou-se e rolou no solo, enquanto a sua montada prosseguia em desfilada.
O xerife desmontou e correu para ela. Ao reparar na beleza e na juventude da amazona sentiu que ficava perturbado. Nunca as suas mãos tinham tocado numa mulher tão jovem e tão bela! Felizmente que ela não tinha perdido os sentidos e num exame rápido Jackson verificou que tinha um braço partido. Os seus olhos estavam marejados de lágrimas e gemia com dores.
— Tenha calma, menina, já vai ficar boa.
Improvisou o melhor que lhe foi possível umas talas, com uns bocados de madeira que encontrou, e amarrou--lhe o braço fraturado.
— Diga-me onde a devo levar, menina.
— Sou a filha de «mister» Gradford — respondeu-lhe a jovem entre soluços.
Andrew surpreendeu-se com esta afirmação, mas reagiu prontamente e levantando a jovem nos seus braços vigorosos, colocou-a sobre o seu cavalo, montando em seguida.
«Mister» Gradford tinha uma sumptuosa propriedade à entrada da povoação, onde também criava gado.
Vagarosamente, com os cuidados que o estado da jovem requeria, o xerife fê-la transportar no seu cavalo ao rancho do banqueiro. À entrada passou por um vaqueiro que ao tomar conhecimento do que tinha acontecido à filha do patrão esporeou a sua montada em direção ao palacete onde estes viviam. Assim, quando Jackson chegou à residência do milionário encontrou um grupo de pessoas à sua espera que, sem quaisquer apresentações ou mais delongas, tomaram ao colo a jovem ferida e transportaram-na para o interior, deixando o xerife sozinho e sem saber a atitude que devia tomar.
— Já foram chamar o médico? — perguntou a um vaqueiro que ia a passar.
— Já sim, senhor. Foi o meu colega McKinley quem o foi chamar.
Vendo que nada mais tinha ali a fazer, Andrew Jackson resolveu regressar ao povoado.

///

Passaram-se dois dias sem que nada de importância se passasse. Na tarde do terceiro dia, o xerife recebeu no seu gabinete a visita de «mister» Gradford em pessoa. — Boa tarde, «mister» Jackson.
— Boa tarde, «mister» Gradford. Como está a sua filha? — perguntou o xerife indicando ao banqueiro a única cadeira que havia no compartimento, além da sua, para que se sentasse.
— Obrigado, xerife, vai indo bem. Tenho uma dívida para consigo, não?
O milionário parecia ter descido das alturas onde por vezes o poder do seu dinheiro o guindava e falava com cordialidade. A dor faz com que os homens se esqueçam da posição' social que usufruem e se irmanem num elo de fraternidade. Era o que estava a acontecer ao banqueiro que naqueles dois dias tinha sido visto a caminhar \4 a pé pelo povoado, esquecendo talvez a opulência que anteriormente o rodeava, a sumptuosidade do seu coche vistoso e isto, porque estava preocupado com o desastre ocorrido com a sua filha.
«Mister» Gradford era baixo, levemente entroncado e os olhos, pequenos pontos luminosos no seu rosto bolachudo, tinham um fulgor especial, pareciam perfurar a alma dos outros à procura dos seus segredos.
— Não pense nisso, «mister» Gradford. Lamento apenas que a minha intervenção não tenha sido mais oportuna, pois se me adiantasse um pouco mais teria evitado a queda de sua filha. Todavia, quando eu já estava próximo, ela desequilibrou-se e caiu.
— Se o senhor não lhe tivesse prestado imediata assistência e se não passasse naquele momento por ali, só Deus sabe o que poderia ter acontecido à minha pobre filha, ferida e sem forças para regressar a casa. Estou-lhe muito grato, «mister» Jackson, e para tudo o que precisar de mim estou ao seu dispor e não se acanhe em procurar-me.
— Agradeço, «mister» Gradford, mas deve compreender que eu não procedi daquela maneira para obter uma recompensa. O senhor não vai julgar que eu abandonava a ferida se ela não fosse sua filha.
— Eu sei, eu sei. Mas o que eu lhe estou a oferecer não é de modo algum uma recompensa, é antes para que saiba que tem alguém sempre pronto para o que precisar, e peço-lhe que não fique melindrado com isto.
— De modo algum, «mister» Gradford, e agradeço...
— Tenho também a pedir-lhe desculpa porque na aflição do momento todos o abandonaram à porta de minha casa, o que de maneira alguma pode ser considerado um gesto educado. Se eu estivesse presente as coisas passar-se-iam de outro modo...
— Eu compreendo, «mister» Gradford. Confesso que fiquei um pouco indeciso sobre o que havia de fazer, mas depois de perguntar a um vaqueiro se já tinham chamado um médico, vi que a minha presença não era necessária e resolvi regressar ao povoado.
— Sou portador de um recado que lhe é dirigido, «mister» Jackson. A minha filha pede-lhe que logo que possa a vá visitar. Disse que gostava de conhecer quem a socorreu, porque na altura do acidente não viu sequer se o senhor era novo ou velho, se era um vaqueiro ou um «cow-boy» ...
— Terei o maior prazer, «mister» Gradford, só receio não possuir os atributos de cultura para fazer uma visita agradável.
— Ora, ora. Você baseia essas suas palavras no aspeto exterior que vê na minha família, na minha propriedade e residência, mais opulenta de que qualquer outra, no facto de sermos ricos, de termos dinheiro, etc., e julga que torcemos o nariz ao que é simples, ou humilde! Está redondamente enganado! Não nasci rico, «mister» Jackson. Quando me fiz homem vi que tinha apenas estas duas mãos para construir as bases do meu futuro e foi à custa de muito trabalho e o suor do meu rosto, que eu atingi a minha atual posição. É por este motivo que eu tenho educado os meus de modo que estejam aptos a conhecer o mundo, compreendendo a riqueza e a pobreza... Não tema, portanto, «mister» Jackson, que a sua visita a minha casa seja menos apreciada.
Era notável como aquele homem se desdobrava em personalidade! Ele ali estava, sentado em frente da secretária de Andrew, falando com uma afabilidade e naturalidade tais, como se fosse um simples rancheiro. Onde estava então o rico e impenetrável «mister» Gradford que dirigia e segurava todos os cordelinhos do Banco? Andrew estava estupefacto.
 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

PAS774. Procura-se um xerife

— Gallapo além de camarada de profissão era também um grande amigo meu. Se fosse possível perdoar os delitos de um homem atentando nos motivos que o forçaram a ser um criminoso, ele seria perdoado. O seu destino entrou na sua fase mais negra quando os seus inimigos não podendo vingar-se na sua pessoa — era terrível com os «Colts»! — assassinaram-lhe a mulher depois de terem praticado na sua pessoa a mais humilhante selvajaria. Quando Gallapo soube disto quase que enlouqueceu. Imediatamente pediu a sua demissão, embora todos nos esforçássemos para que tal não acontecesse. Transformou-se num bêbado incorrigível. O álcool acabou por lhe arruinar completamente a razão e começou a dar que falar quando formou o seu bando, assaltando diligências e caminhantes. Procurei esquivar-me ao cumprimento da minha missão, mas as ordens eram terminantes «detenha-o vivo ou morto». A Lei tem de ser justa e imparcial. Era muito difícil, se não impossível, liquidar Gallapo. Eu convenci-me que talvez conseguisse convencê-lo a entregar-se em nome da nossa camaradagem e amizade. Segui-o de Kentucky a Illinois, onde o encontrei. Quando lhe disse que se rendesse, ele gritou-me de dentro da sua cabana que o fosse matar, que estava só e que o que eu podia fazer em nome da nossa amizade era matá-lo! Respondi-lhe que não fosse burro que havia uma possibilidade de se salvar. Como resposta ele apareceu à porta da barraca, trazia os braços caídos ao longo do corpo... Não estava bêbado, olhou-me de frente e disse-me:
«— Vou-te matar, Andrew!»
«Eu conhecia a sua velocidade em «sacar». Refleti numa fração de segundo o que devia fazer. Compreendi que tinha de lutar porque a minha morte de nada adiantaria, já que ele continuaria a trilhar o mesmo caminho.
— «Somos amigos, Gallapo! Não faças tolices!» — gritei-lhe.
— «Nada, Andrew. Ou tu, ou eu!» — foi a sua resposta.
«As suas mãos desceram para os coldres... Nunca pensei ser tão rápido! Fui o primeiro a disparar e ele caiu. Corri e vi que o ferimento era mortal, estava a agonizar. Com a precipitação não tive tempo de calcular a pontaria. Segurei-lhe a cabeça e as suas últimas palavras foram: «Obrigado, Andrew. És um bom amigo!» Estava morto. Só então reparei que tinha feito um crime: Gallapo estava desarmado! As suas armas estavam dentro da cabana, sobre uma mesa, e debaixo tinha deixado um bilhete com as mesmas palavras: «Obrigado, Andrew. És um bom amigo!» Propositadamente ele tapara-me os coldres com as mãos e fizera o gesto de «sacar» para que eu o alvejasse... Ninguém poderá calcular o efeito que este ato teve na minha consciência. Gallapo queria morrer, mas eu queria que ele vivesse!
«Pedi para que me julgassem em tribunal e me executassem como castigo. Nada disto aconteceu. O juiz entendeu que eu não era um criminoso, embora o gritasse que sim. Em vez de uma execução deram-me um diploma no qual enalteciam o meu feito. Pedi a minha demissão...».
Andrew tinha as feições contraídas e os nervos crispados, de tal forma que todos recearam o pior.
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— Então, «mister» Jackson, isso já passou — disse o banqueiro.
— Tem razão, «mister» Gradford. No entanto, esta parte do meu passado atormentar-me-á até ao fim da minha existência...
— Porque não procura esquecer...
Que julga o senhor que eu tenho feito? Compreendemos, «mister» Jackson.
— Por tudo isto os senhores já veem que não resolvem coisa alguma se me nomearem xerife deste povoado. Pelo contrário, chegará o dia em que alguns bandidos conheçam o meu poiso e recordem promessas antigas. Então só a minha morte os afastará destas paragens.
— Já lá vão dez anos, «mister» Jackson.
— Não creio que esse espaço de tempo seja suficiente para que eles esqueçam a morte de um irmão, de um amigo, ou de um chefe. Eles virão, «mister» Gradford.
— Receia-os?
— Sim, a paz e os valores da terra estão em jogo. „ Se fosse incumbido de eleger o novo xerife quem: seria o seu eleito, «mister» Jackson?
— Não sei. Os senhores estão mais habilitados do que eu, nasceram aqui, conhecem todos os habitantes. Ouvi «mister» Gradford dizer que havia outro candidato. Talvez esse seja o mais indicado.
— John Whistler? O povo não gosta dele, é um avarento da pior espécie e, com franqueza, receamos atribuir-lhe a nomeação. Aparte esse não vemos mais ninguém indicado para o lugar. Constituímos uma população de trabalhadores, criadores de gado, agricultores, todos têm os seus afazeres que lhes roubam todo o tempo e não vamos entregar o cargo aos nossos filhos. Nenhum completou ainda vinte anos, seria nomear uma criança para um lugar de muita responsabilidade, não lhe parece, «mister» Jackson? Não temos outra solução que não seja nomear o senhor xerife de Newton City.
— Posto o problema nesse pé, não vejo também soluções, cavalheiros. Não quero que julguem que fujo ao perigo. Se desejarem nomear-me já sabem o risco que correm.
— Compreendemos, «mister» Jackson, mas confiamos em si. Se quiser fazer o favor de nos acompanhar ao escritório da autoridade, teremos o maior prazer em lhe entregar o emblema que o identificará.
— Estou ao vosso inteiro dispor.
Os cinco homens tinham-se levantado e caminharam para a saída. Quando abriram a porta verificaram que havia uma multidão reunida em frente da casa de Andrew. O sussurro das vozes extinguiu-se com a saída dos «poderosos» da cidade.
O banqueiro levantou os braços para indicar que ia falar.
— Cidadãos de Newton City, correspondendo aos nossos desejos «mister» Andrew Jackson acaba de aceitar o lugar de xerife da nossa cidade!

terça-feira, 27 de junho de 2017

BIS132. Os três cavaleiros do mal

 
(Coleção Bisonte, nº 132)


Andrew Jackson foi um agente federal que, tendo abatido um amigo no cumprimento do dever, se retirou para a povoação de Newton City, com o objetivo de iniciar uma nova vida entre quem não conhecesse a sua vida anterior.

Estabeleceu-se aí como barbeiro, ganhou a simpatia de todos e os anos foram passando. Um dia foi eleito para o cargo de xerife e, mal o seu nome ultrapassou as fronteiras da cidade, esta começou a ser visitada por bandidos que tinham contas a ajustar com ele. Foi assim que se viu perante «Os três cavaleiros do mal».

Eis um livro muito engraçado de um autor português. Ficam algumas passagens para criar o desejo de o lerem completamente no Novelas.