(Coleção Cowboy, nº3)
domingo, 4 de agosto de 2013
sábado, 3 de agosto de 2013
PAS039. Esther, a bêbeda
Naquela noite, Esther, «a bêbeda», encontrava-se no bar «Os
três sois», sentada a uma mesa e bebendo. Era esse o seu hábito e ninguém
estranhava, embora um ou outro lhe dirigisse o seu dichote, mais ou menos
pesado. Ela umas vezes aceitava-os com uma risada, outras, repelia-os com
indignação, conforme o estado de espírito ou os copos de whisky ingeridos ou
ainda a simpatia pelo brincalhão.
Era uma mulher curiosa, esta Esther. Na sua juventude, fora
artista de «cabaret». Mais formiga que cigarra, amealhou tudo quanto pôde. E,
quando se encontrou em declínio, comprou um rancho nas imediações do rio
Redwood, arrendou-o em boas condições e instalou-se numa casita em Kneeland,
dedicando-se a viver a sua vida como melhor lhe apetecia. O «viver a sua vida»
consistia em dar largos passeios a cavalo, sozinha, embora quase sempre tivesse
guarda-costas a soldo, embriagar-se todos os dias, frequentar os bares como
um homem, dizer as verdades cara a cara sem medo de ferir suscetibilidades e
rir-se de alguns galãs que lhe apareciam de quando em quando atraídos pela sua
beleza e pela sua bolsa que supunham recheada. Esther divertia-se com eles,
mantendo-os à distância não os deixando nunca ultrapassar as conveniências.
Muito boa era, consentindo algumas brincadeiras. Esqueciam-se da experiência
que ela adquirira em longos anos de luta pela vida.
Não obstante, possuía um coração sensível… e feriram-lho.
Aborrecia-a pensar em tais «incidentes». Sempre que deles se recordava pedia um
Whisky duplo.
Naquela noite, farta de ouvir falar sobre o mesmo assunto,
perguntou com um berro:
- Querem estar calados ou mudar de assunto? Que caturras! Só
sabem falar no mesmo!
Um protesto daqueles, quando toda a gente considerava o caso
como o mais importante da ocasião, emudeceu a assistência, reagindo cada qual À
sua maneira.
- Por favor, Esther, não se aborreça!
- Então o assunto não lhe interessa?
- Não façam caso!
Hilary Tarento, sentado perto com vários amigos, repetiu a
frase de um vaqueiro:
- Não façam caso! – e acrescentou: - Está bêbeda.
Esther fuzilou-o com o olhar.
- É possível que esteja, mas não bastante, que a língua
desentorpecida não possa ainda chamar-lhe carneiro!
Em volta soaram risos. Hilary fez menção de se levantar, mas
os amigos impediram-no. Esther nâo esboçou o mais leve receio. Com desprezo,
bebeu outro copo.
PAS038. A dama de luto
A tragédia consistiu nas relações amorosas que Graford
manteve com uma jovenzita – Ava era o seu nome – de espírito romântico e débil
constituição física. Era a antítese de sua mãe, Martha Nye, uma jovem viúva
saudável, de transbordante e contagiosa alegria.
Nada havia a dizer em desabono da sua honra, embora andasse
sempre em festas, bailes e receções, divertindo-se e animando toda a gente com
a sua graciosa desenvoltura e riso saltitante. Vestia as cores mais garridas e
orgulhava-se de proclamar que a tristeza era uma doença estúpida, contraída
pelas pessoas sem valor bastante para a combater.
Ava apaixonou-se pelo noivo – Graford – de tal maneira que
vivia apenas por ele e para ele. O casamento anunciava-se para breve.
Entretanto, Graford reconheceu não a amar bastante para fazer dela sua
companheira de toda a vida. E, de um dia para o outro, desfez o compromisso. A
rapariga recolheu-se na sua tristeza, perdeu o apetite, e o depauperado
organismo tombou numa tuberculose fulminante.
Martha Nye procurou Graford e implorou-lhe uma visita a sua
filha. Ele, embora contrariado, acedeu. Era tarde, porém. Além disso, Ava
compreendeu bem que só por comiseração ele consentira em regressar, quando
pretendia muito mais. Pouco tempo depois, morreu com o desgosto e a sua paixão.
A partir desse dia, Martha vestiu-se de negro, deixou de rir, renunciou a
festas e a todas as relações, a todas as amizades, encerrou-se em casa, donde
saía somente todas as tardes, para ir ajoelhar-se aos pés da campa da filha. A
dor silenciosa e profunda daquela mãe impressionava toda a gente. Alguém a
denominou «dama de luto» e por esse nome era conhecida em toda a região.
PAS037. Colheita Fatal
Alegrou-se o rosto de Allan Compton, ao avistar as paisagens
verdejantes de Redwood River, que se esboçavam ao longe. Embora não fosse dado
a pieguices de ordem sentimental, muito ao contrário, não podia ocultar certa
emoção, ao aproximar-se de uma terra onde deixara gratas recordações e onde não
voltara havia um ano. Essas espaçadas visitas eram sempre bem recompensadas,
com as inúmeras atenções dos vizinhos, as ofertas do seu tio, Edsel, e
sobretudo pelo amor inspirado pela deslumbrante beleza de Alina. Em boa
verdade, parecia não se entenderem muito bem, porquanto nunca estavam de
acordo, discutiam com frequência, mas era precisamente esta disparidade de
opiniões o que a tornava mais adorável.
Alina, jovem, rica, órfã, afilhada de Edsel Gollet, para
quem ela constituía o seu «ai Jesus», estava há muito tempo prometida para
esposa do seu sobrinho Allan. Ele próprio, entretanto, adiava periodicamente o
casamento, argumentando:
- «És ainda um cabeça no ar e Alina precisa de um homem que
a conduza na vida com segurança. Quando entender que a mereces – prometia ao
sobrinho – eu os casarei.»
Allan, porque lhe convinha estar bem com o ricaço, irmão de
sua mãe, e porque a rapariga era um amor, resolveu demonstrar ter direito à
felicidade. Tomando pelos ombros a responsabilidade de zelar pelos interesses
do rancheiro, muitos e dispersos, andava sempre de um lado para o outro,
estando largas temporadas sem aparecer na sede do rancho onde viviam o tio e a
noiva.
Estava convencido da mudança radical da sua vida, uma vez
que o tio, nas últimas cartas, o convidava a «colher o fruto».
No passo lento da montada desceu do alto donde gozou a
beleza da paisagem, e meteu por uma larga azinhaga onde chegava já a brisa
refrescada pelas águas do rio.
De repente, notou o ruído de furioso galopar. Voltou a
cabeça e o assombro e a surpresa traduziram pela simples expressão:
- Dan!
Parou o cavalo, obrigando-o a dar meia volta. O outro
cavaleiro avançava para ele como um bólide. Coberto de suor e poeira, um
estranho brilho nos olhos negros e o semblante congestionado, oferecia pavoroso
aspeto. Sofreou o animal a alguns metros de Compton, o qual, surpreendido,
exclamou:
- Que significa isto, Dan? A quem procuras?
- A ti, para te matar!
- Mas…
- Deixa-te de explicações! Por de mais conheces o motivo! –
apeou-se de um salto. – Apeia-te e empunha o revólver!...
Allan apeou-se também, mas tomado de extraordinário
nervosismo, que não conseguia dominar, mau grado seu. E com voz pouco segura
disse para Dan:
- Falemos com calma. Garanto-te…
- Cala-te! Até me repugna ouvir-te! «Saca» ou mato-te como a
um cão!
Naquele momento soou uma fuzilaria estranha às armas dos
contendores, ainda nos coldres. Colhidos pela surpresa, tiraram os revólveres,
mas nova rajada de tiros os varreu. Allan caiu pesadamente. Dan olhou atónito
na direção das árvores donde saíram os tiros. Faltaram-lhe as forças e,
dobrando-se como um boneco desengonçado, caiu de bruços sobre a relva do
caminho.
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