sexta-feira, 2 de agosto de 2013
PAS036. Como te enganas, querida Judite!
Judite tardou muito a conciliar o sono. Começava a amanhecer quando finalmente pôde cerrar os olhos, mas a fadiga acumulada durante a sua viagem interminável e as comoções sofridas, além de febre, obrigaram-na a dormir agitadamente até passado o meio-dia.
Ao despertar, viu que seus pais continuavam a velá-la. Nenhuma censura lhe tinham feito quando a tinham trazido horas antes e agora Judite, ao despertar e vendo-os solícitos junto da cama, sentiu a garganta sacudida por um soluço.
Judite voltou a cabeça para a janela para que não vissem as lágrimas. Os seus lábios curvaram-se e os dentes bateram. Pensou que Stephen, incapaz de encarar a humilhação e a derrota, a tinha abandonado. A vida podia ser fácil no Oeste para um homem só, mas era terrível para o que tivesse de suportar uma mulher enferma como ela.
Stephen devia ter-se sentido cobarde pela primeira vez na sua vida. Devia tê-lo assaltado o medo naquela encruzilhada da vida dos dois, e tinha-a abandonado para seguir o seu caminho só e para que ela o seguisse só. Só para sempre…
PAS035. A presença da morte
Judite, estendida na palha, ouviu o tiro. O vento levou-o
até ao seu refúgio com uma profética nitidez. Vencida pela dor, os olhos fixos
nas trevas, sentiu que um soluço a afogava, apertando a sua garganta.
Com ambas as mãos gemendo como um animal ferido, procurou
voltar-se de bruços, metendo os braços pela palha. Fê-lo bruscamente como se
quisesse enterrar-se nela.
Foi então quando as suas mãos tocaram algo brando, quieto,
frio…
Tão brando, tão quieto e tão frio como o cadáver de um
homem…
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
PAS034. Noite sem Luar
Mais além da empinada encosta com que terminava a rua
principal de Butler Town, existiam campos silenciosos. Na noite sem Lua, todos
os seus perfis pareciam sinistros e carregados de ameaças. Nenhum rumor chegava
até à cidade vindo das pradarias que a circundavam, e nas casas e currais
isolados não se notava o menor indício de vida.
Só num deles havia uma débil luz, mas era preciso
aproximar-se muito para a ver. Tratava-se de um coto de vela que se esgotou
rapidamente.
A mulher, ao ver-se envolta em trevas, começou a soluçar.
- Não te inquietes. Quando aparecer a Lua verás tão bem como
se fosse de dia. Agora, fecha os olhos. Fecha os olhos e apoia a cabeça nos
meus braços. Assim. Quieta.
A voz do homem era suave e tranquila, mas em cada uma das
inflexões acusava uma imensa fadiga.
A mulher serenou-se. Fechou os olhos e esforçou-se por esquecer
tudo. Mas a sua testa ardia e cada uma das suas lágrimas resvalava pelos braços
do homem.
- Ardes em febre, Judite. Queres que te abrigue com a manta?
- Não. Isto passa.
Por um instante, ouve um brilho de esperança nos olhos da
mulher. Mas o homem, na obscuridade, não o pôde notar.
- Sim, durará muito pouco. Assim que a Lua assomar, sairei
daqui.
Um golpe de vento fez que chegasse até ambos, mais intenso
que nunca, o odor fresco da palha. As madeiras do celeiro em que se ocultavam
vibraram, produzindo um ruído fantástico, como se algo de misterioso,
ameaçador, atravessasse as suas juntas.
(Coleção Búfalo, nº 19)
(Coleção Búfalo, nº 19)
BUF019. Caminhos sinistros
(Coleção Búfalo, nº 19)
Eis uma novela notável.
Descobri-a em minha casa mal me despertou o interesse pela
leitura, mas este é o quarto exemplar que me passou pelas mãos, descoberto
recentemente num alfarrabista, já que os outros acabaram destruídos por razões
desconhecidas.
O autor é um Silver Kane ainda bastante jovem, acabado de sair das masmorras franquistas, mas já numa fase de maturação assinalável, capaz de transmitir ao leitor um espectro de emoções mui variado. A passagem em que se descreve o repouso, num estábulo completamente escuro, de uma mulher doente que toca o corpo frio de um morto cuja presença lhe era desconhecida enquanto a porta se abre para deixar passar mais um utente do espaço, bem armado e bem perigoso, é digna de qualquer filme de terror. Mas toda a novela é bem violenta.
A capa, de Provensal, está muito bem elaborada e reflecte mais uma passagem de grande suspense da obra onde se vê uma jovem, formosa e escultural, muito assustada, em risco de ser apunhalada por alguém cuja sombra está projectada na parede, vendo-se, no entanto, uma mão a empunhar a faca ameaçadora, enquanto um gun-man toma a sua defesa e aponta a pistola ao potencial assassino. Mas por que não dispara? Existirão mais indivíduos armados? Ou já não terá balas no tambor?
O autor é um Silver Kane ainda bastante jovem, acabado de sair das masmorras franquistas, mas já numa fase de maturação assinalável, capaz de transmitir ao leitor um espectro de emoções mui variado. A passagem em que se descreve o repouso, num estábulo completamente escuro, de uma mulher doente que toca o corpo frio de um morto cuja presença lhe era desconhecida enquanto a porta se abre para deixar passar mais um utente do espaço, bem armado e bem perigoso, é digna de qualquer filme de terror. Mas toda a novela é bem violenta.
A capa, de Provensal, está muito bem elaborada e reflecte mais uma passagem de grande suspense da obra onde se vê uma jovem, formosa e escultural, muito assustada, em risco de ser apunhalada por alguém cuja sombra está projectada na parede, vendo-se, no entanto, uma mão a empunhar a faca ameaçadora, enquanto um gun-man toma a sua defesa e aponta a pistola ao potencial assassino. Mas por que não dispara? Existirão mais indivíduos armados? Ou já não terá balas no tambor?
Passagens selecionadas:
PAS033. Linchamento
A tarde declinava rapidamente, enquanto a caravana de
linchadores subia a colina. O Sol assemelhava-se a um disco vermelho sobre os
picos das serras no Oeste e até ao Oriente a terra começava a cobrir-se de
sombras.
Cooper, rodeado por quatro cavaleiros de durus rostos e más
expressões, voltou-se na sua sela para olhar Archer que vinha mais atrás.
Levava as mãos atadas nas costas e já lhe tinham passado o laço pelo pescoço,
cuja ponta era levada por um dos homens de Kenton. Reconheceu o caminho por
onde passara aquela manhã. Não tinha imaginado, então, que iriam terminar tão
rapidamente os seus dias.
O seu olhar cruzou-se com o de Archer que sorriu duramente.
Erguido sobre o seu grande cavalo, o gigante sentia-se dono absoluto da
situação. Quase todos aqueles homens eram gente de Kenton que lhe obedecia
cegamente. Agora os seus gritos pediam, sem cessar, a morte de Cooper.
- Quero que me julguem lealmente! – gritou Clay. O seu tom
expressava cólera e rancor, mas não medo. – Há autoridades e juízes no condado.
Sim, há – riu desdenhosamente Archer. – Mas neste momento
não estão aqui, e nós gostamos de fazer justiça rapidamente. Não é, rapazes?
Um coro de gritos afirmativos fez eco com as suas palavras.
E eles impediram, com selvagens insultos, que Cooper pudesse fazer-se ouvir. A
algaraviada aumentou quando chegaram ao pé da árvore.
Um dos que escoltavam Cooper procedeu ao lançamento da corda
sobre um ramo. Compreendia que tinham chegado ao final do caminho. Nada nem
ninguém ia impedir que o senhor da comarca executasse friamente mais um crime
com toda a impunidade. Mas, apesar da sua juventude, Clay Cooper lamentava mais
a sua morte pelo que ia representar para
outras pessoas: Fay Bolto e o pai, e seus primos.
Sacudiu-se ferozmente sobre o cavalo, increpando Archer:
- Cobarde! Asqueroso assassino! Cobarde! Não pudeste
vencer-me limpamente e agora vales-te disto.
Um novo alarido de gritos e insultos calou a sua voz.
Archer, sorrindo, não fez caso do insulto. Tudo o que Cooper lhe tinha feito e
o que dizia agora ia pagá-lo dentro de minutos.
O homem que apanhou o outro extremo do laço já o tinha atado
ao tronco da árvore. Lefty pôs-se atrás do cavalo de Cooper, com um chicote na
mão para lha bater nas ancas, assim que Archer desse o sinal. Este, quando tudo
estava pronto, levantou a mão sã. Fez-se um silêncio impressionante o qual foi
aproveitado por Cooper para gritar:
- Cão assassino! Há-de chegar o teu fim! Um fim pior que o
meu!
O aludido franziu a testa. Era supersticioso e aborrecia-o
as maldições dos moribundos. Apressou-se a baixar a mão.
Instantaneamente, Lefty bateu no cavalo de Cooper o qual deu
um passo para diante. A figura de Cooper saltou no ar, agitando-se no extremo
da corda.
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