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domingo, 16 de abril de 2017

PAS738. Shivery!

Hazel retirou-se para o seu quarto. Sentia-se tão feliz, como se tudo tivesse acabado e vivesse num mundo diferente, onde não existissem os Heston, nem o ódio e a mentira tivessem conspurcado o seu nome.
Amava King com todas as veras da sua alma. A seu lado sentia-se com uma segurança que nunca tivera, e parecia-lhe que nada de mal lhe poderia acontecer estando junto dele. Contemplou os estrelas a piscarem lá do alto, como se pretendessem anunciar-lhe que tudo mudara, animando-a a continuar aquelas relações, nas quais estaria a sua salvação. Tinha a certeza de que King também a amava.
Em várias ocasiões pressentira nos seus lábios uma declaração desse amor, mas ela procurou sempre evitá-la. Mas a partir desse momento, nunca mais o faria. Queria ouvi-lo dizer que a amava e partiriam para o Sul, longe dos ódios de Nova Salomão.
Na vila, notava-se, uma estranha atividade. Via-se - um grupo, cada vez mais numeroso, reunir-se em volta dos estábulos. Eram vaqueiros e cavaleiros desempregados, e rancheiros dos arredores. A todos o álcool subira à cabeça e sentiam-se ferozes, dispostos a qualquer bar-" baridade, pedindo sangue.
Um deles exclamava:
— Não somos homens, se consentirmos que essa perdida se misture com as mulheres decentes. É preciso dar-lhe um corretivo.
Um bêbado gritou:
—Shivaree! (1).
Esta palavra troou como uma granada em suas mentes desvairadas e, como um eco, gritavam todos:
—Shivaree!
—Vamos dar-lhe uma lição que não esquecerá facilmente — ordenou o que capitaneava o grupa.
Avançaram pela estrada, agitando paus e cordas. Os seus cérebros toldados pelo álcool transformavam em heroicidade o que não passava duma triste façanha de bêbados. Um do grupo exibia uma tesoura para lhe cortar os cabelos, e outro um molho de penas besuntadas com breu, com as quais recobririam a cabeça da jovem depois do corte efetuado. Riam à gargalhada, divertidos com o que iam fazer, sentindo-se os heróis da terra. No' dia seguinte, tinham a certeza, toda a gente tos admiraria, pelo seu feito. Os seus semblantes iam contraídos de' fúria e as mãos crispadas. Tinham o dever de vingar insulto sofrido.
Foram avançando até à barraca da rapariga. Sabiam que a encontrariam em casa, e sozinha.
Sentiram-se ainda mais fortes e decididos, ao verem àquela frágil barraca isolada no meio do campo. Mas o chefe do grupo parou, levantando, as mãos.
— É preciso avançarmos em silêncio, para a apanhar de surpresa. Podia fugir-nos.
Com cuidado, dirigiram-se para ali, cercando a barraca. Naquele momento, Hazel, ainda vestida, recostava-se no leito, sonhando com o amor de King e parecendo-lhe possível ser feliz.
Os vaqueiros pararam em redor da casa, sorrindo com ferocidade ante a façanha que iam cometer.
O chefe do grupo ergueu o braço, e deixou-o cair em seguida.
Em volta da barraca, produziu-se um estrepitoso escândalo. Os assaltantes batiam com paus em latas vazias, . outros estalavam com os chicotes e alguns batiam com pedras e paus nas portas e paredes da barraca, gritando desaforadamente. O chefe deu o exemplo, chamando com voz potente:
—Hazel que saia! Hazel que saia!
Dentro de casa, a rapariga pôs-se de pé, aterrada. Aquele barulho não pressagiava nada de bom, e receava que alguma coisa pior se lhe seguisse. Do quarto contíguo o pai perguntou:
— Que aconteceu, Hazel? Que é isto?
A rapariga, cada vez mais assustada, tentou acalmá-lo:
— Não é nada, papá; houve festa na vila, e devem estar alegres.
Mas o escândalo e o barulho aumentavam cada vez com mais força. As pancadas nas paredes e nas latas vazias iam aumentando: A rapariga ouvia chamarem pelo seu nome, e tapou os ouvidos, desesperada.
Mas os que estavam do lado de fora não tiveram paciência para esperar mais tempo e rebentaram com uma janela. Depois saltaram para dentro de casa à procura de Hazel. 
— Que saia essa perdida! Vamos fazê-la dançar como merece!
A rapariga, vendo as sombras que lhe invadiam a casa, correu para junto de seu pai, em busca de proteção. Mas os vaqueiros seguiram-na até ali. Rindo brutalmente, lançaram-se sobre ela. Hazel abraçou-se ao pai, gritando desesperada, enquanto as lágrimas lhe inundavam as faces:
— Fora daqui! Deixem-me tranquila!
Mas tudo foi em vão. Apoderaram-se dela. Sentiu várias mãos puxarem-lhe pelo vestido; agarraram-lhe os braços arrastando-a dali. O velho, sem compreender o que se passava, exclamou:
— Hazel! Minha querida filha!
Tentou levantar-se ao ver que a arrastavam levando-a dali, e os vaqueiros, bêbados e sedentos de sangue atiraram-no ao chão, sem a menor complacência.
Aos empurrões, agarrando-a com força, arrastaram a rapariga para o campo. Alguns acenderam archotes e o seu tétrico esplendor iluminou a cena. Empurrada por várias mãos, com o vestido em desordem e os cabelos revoltos, Hazel caiu no solo, enquanto se aproximavam o chefe do grupo empunhando um chicote e um outro que exibia uma tesoura. — Como castigo da tua imundícia exclamou o vaqueiro— vamos cortar-te o cabelo, e depois cobrimos--te a cabeça com penas.
Levantou o chicote para a açoitar, mas nesse previso instante soou um tiro, e viu-se o vaqueiro agitar os punhos no ar e cair, como fulminado por um raio. Não tiveram tempo de se recompor da surpresa.
Quase em seguida ouviu-se o tropel dum cavalo e um grito penetrante, um grito de que todos os veteranos da guerra se recordavam. Tinham-no ouvido quando os guerrilheiros do Texas iniciavam uma das suas alucinantes cargas.
Um cavaleiro, de revólver em punho, avançava a todo o galope para eles, debruçado sobre o pescoço da sua montada.
King Lorringer também não pudera conciliar o sono. Aqueles momentos em que pudera estreitar a rapariga: contra o seu coração estavam demasiado presentes na sua mente, e preferiu dar um passeio a cavalo.
Depois dum bom galope, encaminhou-se para a barraca da jovem, para contemplar, à luz da Lua, o lugar onde ela vivia e se encontrava naqueles momentos.
Viu o grupo dos assaltantes com os archotes e calculou, embora em parte, o que estava acontecendo.
Ao aproximar-se a toda a brida, ergueu o revólver, fazendo fogo por duas vezes sobre a multidão. Depois esporeou o cavalo lançando-o sobre o grupo dos assaltantes.
Estes apavoraram-se. Era muito grande, depois da morte de Jack, o prestígio daquele homem e já matara um dos seus companheiros.
As balas sibilaram em volta das suas cabeças, enquanto outro do grupo caía ferido, gritando com dores. O cavalo atropelou dois ou três deles, e os restantes não tiveram coragem para esperar pelo que se avizinhava.
Soltando archotes, paus e tudo quanto levavam nas mãos, deitaram a correr, ficando somente o homem da tesoura junto de Hazel.
A Lua nova dava um claro e brilhante esplendor àquela cena e o assaltante viu como o cavaleiro corria para ele. Aterrado, gritou:
—Não! Não!
Mas King não se deteve a pensar. Premiu o gatilho, até esgotar o tambor. O homem da tesoura recebeu as três balas no corpo, estremecendo a cada tiro, e por fim caiu no solo, sem soltar a ferramenta com que imaginara troçar da rapariga.
King evolucionou com o cavalo como se procurasse novos adversários, mas todos os componentes do «charivari» tinham fugido apavorados, em direção a Nova Salomão.
Lorringer apeou-se, agarrou a rapariga pelos ombros e levantou-a. Ela contemplou-o, ainda aterrada, King perguntou:
— Estás bem agora, Hazel?
Ela assentiu, fitando-o apaixonadamente. Tinha-a salvo. Em silêncio, ficaram juntos por um momento. King mantinha-a nos seus braços. Parecia-lhe que ela ia entregar-se aos carinhos que sentia no seu coração, mas naquele momento Hazel exclamou:
—Meu pai!
Desprendeu-se do jovem e deitou a correr para casa. King acendeu um candeeiro que encontrou no quarto da rapariga, e viram o velho Morrison, estendido no chão, com os braços em cruz e os olhos sem vida, fixos no teto.
(1) Corrupção da palavra charivari, como que no Oeste se designava o escândalo e o barulho.
 

sábado, 15 de abril de 2017

PAS737. A mais bela para ir dançar

King parou o cavalo ante a barraca da rapariga. la levá-la na garupa, segundo o costume do Texas. O insulto feito na véspera por aquele Jack dava-lhe maior coragem e desejava desafiar toda a gente, mostrando-se em público com a jovem. Era corrente em toda a parte enfurecerem-se quando um forasteiro vinha cortejar a rapariga mais bonita da terra, mas não era costume insultá-la a ela. Queria ver se depois do que acontecera Jack alguém mais se atrevia a fazer o mesmo.
Apeou-se tirando: o chapéu, e bateu à porta. Esta abriu-se e Hazel, timidamente, apareceu exibindo o vestido novo, e sobre os ombros um xale antigo. O ligeiro decote deixava a descoberto o pescoço bem modelado e mangas curtas, em forma de globo, mostravam os braços bem torneados, parcialmente ocultos em longas luvas.
 King estremeceu. Não havia no mundo mulher tão formosa como aquela. Sorriu inclinando-se:
—Todos vão invejar-me.
Ajudou-a a montar na garupa do cavalo, e partiu a trote. Hazel reclinou-se sobre o seu ombro, fechando os lhos. Era tão feliz, que não queria pensar no que se avizinhava.
 
***
O baile estava no seu apogeu. A decoração era tal como a imaginara a jovem. Todos dançavam alegremente, procurando os seus pares e divertindo-se. As raparigas ostentavam os seus vestidos mais elegantes, e os homens, ataviados com as suas jaquetas, andavam dum lado para o outro, bebendo e conversando.
De repente alguém exclamou:
— Olha quem entra!
Um grupo de raparigas voltou-se para a porta, abrindo a boca de espanto. Todos os restantes olharam par o mesmo sítio, estupefactos, e sem compreenderem co aquilo era possível.
Hazel, timidamente, mas sem baixar a cabeça, entrava na sala, acompanhada por King Lorringer. Um murmúrio de assombro se ergueu à volta dos recém-chegados, como se a sua presença despertasse os mais vivo comentários.
King percorreu com o olhar os grupos que os fitavam, de maneira tal que os obrigou a baixarem a cabeça. Na mente de todos, estava presente o trágico fim de Jack.
A orquestra iniciou os primeiros compassos de «Lorena» e os pares começaram a dançar. King voltou-para a rapariga, prevenindo:
— Vamos dançar?
A rapariga, com um sorriso, aquiesceu. O jovem enlaçou-a pela cintura agarrando-lhe uma das mãos, enquanto ela segurava a saia, para iniciar a antiga valsa sudista, divulgada por todo o país.
Lorringer, enquanto dançava, sentia o corpo da seu par nos braços. Tinha-a tão perto que, com um simples movimento de cabeça, a poderia beijar. Sentia o perfume da sua pele, e os cabelos roçavam-lhe na cara. Entre os dedos, tinha a mão de Hazel. Não, não podia separar-se dela, e teria de lhe falar quanto antes, para que ela fosse sua esposa.
Hazel cerrou os olhos. A música soava placidamente aos seus ouvidos, adormecendo-a e desligando-a da realidade, da dura realidade do seu mundo. Ele estava a seu lado, e sentia-se feliz. Não queria despertar nem separar-se daquele homem. Mas não queria pensar no futuro. Agora notava o que nunca quisera confessar a si própria: amava-o! Era aquela a razão porque se sentia bem a seu lado, porque não o despedira, e porque fora ao baile. Sentia em volta da sua cintura o braço forte do vaqueiro, como se a protegesse. Não tinha medo, nem lhe interessava nada.
Era feliz.
A assistência via-os dançar intrigada. Como era possível, diziam, que ela se atrevesse a expor-se à vergonha pública? Mas o relato do sucedido com Jack fazia-os ser prudentes. Aquele homem era perigoso. Bastava vê-lo para o compreender, e Jack cometera o erra de confiar demasiado em si mesmo.
Todavia, um grupo de vaqueiros que se encontrava junto à mesa, bebendo ponche, pensava de maneira diferente. Sentiam-se ofendidos por aquela rapariga ter ido à festa, e enchiam-nos de coragem os comentários agrestes das outras raparigas, mordidas de inveja.
Um dos vaqueiros, Gilberte, bebera demasiado, e o álcool fazia-o sonhar com grandes empresas e rasgos de valentia. Mordendo a ponta do charuto que fumava, exclamou:
—Vou dizer duas coisas a Hazel.
Sentia-se bastante seguro, porque o jovem vaqueiro do Texas não levava revólver porque, como todos os convidados, teve de o depositar à entrada. Gilberte pôs-se a andar, inchado de vaidade, por se sentir alva de atenções gerais.
Entretanto, Hazel conversava com King, que puxara por um charuto e se dispunha a fumar.
—És a mais linda da festa; por isso todos me olham com inveja — dizia Lorringer à rapariga.
Ela sorria, feliz, sem querer recordar a tragédia da sua vida. De repente foram surpreendidos por um estranho silêncio feito à sua volta. King voltou-se e viu Gilberte que, muito perto e mastigando o charuto, se dispunha a agarrar Hazel ver um braço. King percebeu a tempo a intenção e, antes do vaqueiro intervir, pôs-se à frente, fitando-o com frieza. Depois estendeu a mão e tirou-lhe da boca o charuto que o outro fumava:
— Obrigado, ia pedir-lhe lume...
Chegou o charuto aceso ao seu, sem deixar de olhar para o atónito Gilberte, e depois devolveu-lho.
--Obrigado rapaz. Agora vamos dançar.
Os seus olhos claros contemplavam com dureza o vaqueiro que compreendeu a ameaça, apesar do álcool que lhe turvava a cabeça. Percebeu muito bem que, se tentasse tocar na rapariga, seria um homem morto.
Baixou a cabeça saindo da sala, enquanto Hazel, nos braços de King, se deixava embalar pelas notas da orquestra.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

PAS736. Convite para a festa

Hazel, da sua janela, contemplava a vila. Naquela noite realizar-se-ia em Town Hall (1) a festa do quatro do Julho. Antes, também ela as frequentava. Imaginava a sala com as janelas abertas, adornadas com bandeiras. Num topo, haveria um estrado para os músicos, e no outro a mesa onde serviam limonadas e ponche.
As raparigas exibiriam os seus vestidos novos e ririam com alegria, enquanto os jovens iriam convidá-las.
Mas tudo isto passara já para ela. Se ali entrasse, todos a desprezariam rindo-se da sua presença, e ninguém dançaria com ela. Talvez, até, algum bêbado se atrevesse faltar-lhe ao respeito e mais provável era que ninguém o impedisse. Além disso, também não podia ir com os seus vestidos velhos e simples.
Duas lágrimas brilharam nos seus olhos, sentindo ainda mais a desoladora tristeza da sua vida.
De repente, viu King que se aproximava da casa com um grande embrulho debaixo do braço. Parou sorrindo e descobrindo-se.
— Hazel — disse-lhe, quando ela veio ao seu encontro. — Tome isto. É um vestida novo, para a festa de noite.
A rapariga contemplou-o assombrada. Como podia imaginar que ela se misturaria com outras raparigas a desprezariam.? Mas Lorringer continuou:
 --Peço-lhe que me autorize a vir buscá-la às oito horas. Como sou forasteiro, não conheço ninguém e peço que não comprometa as suas danças a não ser comigo.
Inclinou-se outra vez, e partiu a caminho de Nova Salomão. Hazel ficou só, contemplando o pacote que tinha nas mãos. Era uma loucura. Não podia acompanhá-lo à festa. Seria um escândalo e, além disso, não queria sofrer as consequências do seu atrevimento. Olhou novamente para o pacote que ele lhe oferecera.
Para a rapariga, King já era «ele». Mas horrorizava-a aparecer em público e expor-se aos insultos homens. Todavia, como havia de desprezar o jovem? Como recusaria o seu convite?
Quase sem dar por isso, abriu o pacote. O vestido era galante, cintura justa, mangas largas e um ligeiro decote. Em pouco tempo ficaria pronto para o poder levar. Se se atrevesse! Nessa altura, seu pai chamou-a:
--- Que queria o Lorringer?
Ela exclamou, atraiçoando-se:
— Convidou-me para a festa desta noite.
— Deves ir, minha filha — exclamou o velho. — Fazes uma vida muito retraída. .

quinta-feira, 13 de abril de 2017

PAS735. Morte de víbora

King entrou no «saloon» para tomar um copo. Sentia-se em parte triste e em parte de bom humor. Conseguira a intimidade de Hazel e parecia-lhe que tudo corria bem. Todavia, não conseguia afastar do pensamento aquele olhar triste e amargo da jovem.
Não podia negar que estava apaixonado por ela e desejava fazê-la sua esposa. Voltaria para o Sul a incorporar-se na equipa de Matthews. Com o tempo, seria o capataz, e acabaria por ter um rancho próprio. Com ela ao seu lado, nada o impediria.
Hazel todavia acolhia-o com agrado, tratando-o com simpatia, mas dir-se-ia que evitava todas as tentativas do jovem para lhe declarar o seu amor.
«Porquê? — perguntava-se. — Se ela lhe não correspondia, dizia-lho, e estava tudo arrumado. Desde pequeno sabia que os desejos das mulheres, sob este aspeto, eram irrevogáveis».
Sentou-se junto do balcão, e pediu um copo de «whisky». Notou que os clientes da casa vaqueiros, fazendeiros e cavaleiros sem ocupação definida, o olhavam com interesse, cochichando entre si. Não lhes ligou importância. Sentia uma tão grande indiferença por eles como antipatia sentiam por ele. A sua fala nasalada grosseira, o seu aspeto ordinário e os seus modos rudes não se conjugavam facilmente com os hábitos de Estrela Solitária.
De repente, uma voz desagradável cantou, num ordinário arremedo do sotaque do Texas:
«I just come from
 way down in Texas.» (1)
Os restantes, segundo o costume daquele Estado, bateram palmas e desataram à gargalhada. King voltou-se ofendido. Não era seu costume tolerar troças, nem insultos, e estava bem à vista a mofa que aqueles homens estavam fazendo.
No centro do grupo, via-se um cavaleiro corpulento, de cabelo encaracolado e rosto bem barbeado. Tinha chapéu quase caído para os olhos e um revólver ao lado muito baixo, junto da anca.
Acostumado a medir os homens com um simples golpe de vista, pois muitas vezes a sua vida dependera disso, compreendeu tratar-se do pistoleiro local, o orgulho dos vaqueiros e dos cavaleiros da terra. Conteve um sorriso. Talvez ali, no «Estado da erva curta» (2) fosse um virtuoso do revólver, mas no Sul, na terra dos pistoleiros e dos lutadores, não passaria de medíocre
(
O cavaleiro acrescentou então:
— É fácil, à força de falar, convencer toda a gente uma coisa, mesmo que seja mentira.
Outro indagou:
—Que queres dizer com isso, Jack?
O chamado Jack sorriu, olhando com insistência para Lorringer.
— É o sistema de todos os sudistas e dos texanos em particular. Não fazem outra coisa senão, falar, falar da sua valentia, da sua maneira de combater, para impressionar toda a gente e não se notar o medo que têm.
Riram todos, enquanto um cavaleiro acrescentava:
 - Conta-nos o que fizeste combatendo contra Bill Anderson (3).
— Não tem importância. Eu servia às ordens do major Heston e soubemos que Anderson e os seus guerrilheiros vinham invadir o Kansas. Andámos à procura deles e, por fim, encontrámo-los a comer as sobras do nosso rancho. É o que fazem sempre os texanos. Comer o que nós deixamos.
Uma gargalhada geral coroou as últimas palavras, enquanto Jack cravava os olhos em Lorringer. Este deixou o copo no balcão e voltou-se para o cavaleiro.
—Você julga que nós, os texanos, não fazemos mais do que recolher os despojos que vocês abandonam?
Jack assentiu:
— Você mesmo, Lone Star (4), o demonstrou. Não faz outra coisa senão falar com alguém, com quem nemos negros nem os vagabundos falariam. Mas é natural. Você é igual a ela.
King sorriu, sentindo que o invadia uma fria cólera. Estava bem claro o insulto a Hazel. Aquele homem procurava a luta, e tê-la-ia. Naquele momento, o proprietário do «saloon», um homem corpulento e pacífico, preveniu em voz baixa:
— Não faça caso. Está bêbado e não sabe o que diz.
Mas Lorringer não o escutou.
—Poderia falar mais claro — convidou.
Jack, animado pelo riso dos companheiros, sentia-se alvo da atenção geral, retorquiu:
—Como queira. Não sou homem para falar por meias palavras. O que desejávamos era saber quanto lhe pagam para distrair Hazel.
Lorringer não se alterou aparentemente:
—Continuo sem o compreender.
— Pois não se percebe que a não ser por dinheiro algum homem, um homem de verdade, evidentemente, se entretenha a conversar com Hazel. Esta é a razão minha pergunta, e por isso volto a insistir em saber quanto lhe ofereceram para entreter uma perdida desse tipo. Claro que talvez os texanos tenham por costume fazê-lo. Não se preocupam muito com quem são as mulheres com que falam.
Lorringer contemplava-o com um frio sorriso, ia exasperando o outro, mas que ao mesmo tempo incutia confiança.
— E tudo o que diz não será despeito?
Jack abriu a boca estupefacto.
— Despeito? — repetiu. — Despeito? Não se esqueça de que se eu mesmo tivesse querido...
— Se tivesse querido o quê? — insistiu o jovem. — Você tem o mau costume de deixar as frases em meio. Mas eu acabo-a. Se tivesse querido, sofreria o maior ridículo da sua vida.
Jack, enfurecido, recuou um passo, exclamando ao mesmo tempo que levava a mão ao revólver:
—Essa perdida vai fazê-lo morrer.
--É por essa razão que não se aproxima dela?
Uma cólera surda dominava o jovem, que procurava o meio de matar o seu rival. Queria provocar a luta, unis antes desejava gozar a cólera do seu adversário.
Jack exclamou, empunhando o revólver:
—Basta já de conversa!
Lorringer não se mexeu, mantendo as mãos juntas do corpo, sem afastar os olhos do seu contendor que tirara o revólver do coldre e o apontava ao seu peito.
Lorringer fez de repente um rápido movimento de ombros inclinando-se ligeiramente para a frente e, sem que alguém pudesse ver as suas mãos, na direita reluziu um «Colt», que cuspiu uma bala antes de Jack poder apertar o gatilho. Jack deu um salto como se alguém lhe tivesse batido no peito e cambaleou, tentando manter a pontaria. Lorringer guardou o revólver, mantendo o olhar fixo no adversário, enquanto sorria com a mesma frieza de há pouco.
Jack não pôde suster a arma, que acabou por apontar para o chão, cravando-se ali o projétil. Depois, perdendo as forças, caiu de joelhos, levantou a cabeça, contemplando com assombro o seu rival. Este, sem deixar de sorrir, exclamou:
—No Texas, mata-se o que insulta uma mulher.
Jack compreendeu que ia morrer. A bala roubara-lhe a vida e, então, sentiu um medo horrível pelo Além. Imaginara urna luta fácil, que ele mesmo provocara e encontrava-se moribundo.
—Piedade, piedade — gemeu, caindo no chão.
King voltou-se para o balcão, colocando uma moeda junto do copo de «whisky». Depois, disse para todos os presentes:
— Tomem nota. Insultar as mulheres é próprio de víboras. E as víboras, matam-se.
Ia a retirar-se, quando alguém o deteve:
—Ouça, texano. — O jovem voltou-se e viu um ajudante do xerife avançar para ele. — Tem de vir comigo, para responder pelo assassínio desse homem.
—Assassínio? — repetiu King admirado. — Todos viram ele provocar-me, sem eu dizer nada.
—Isso já não é comigo. Será com o juiz, mas eu prendo-o por assassinar um homem:
King olhou para ele, medindo-o dos pés à cabeça enquanto sorria.
— Você prende-me a mim? Você, sozinho?
Fez-se um pequeno silêncio.
O ajudante da autoridade estremeceu, ao ver aquele sorriso, que precedera a morte de Jack. Depois Lorringer preveniu:
— Contarei até cinco. É o tempo que lhe concedo para sair daqui pelo seu próprio pé. Um... dois... três..,
Não pôde continuar. O agente da autoridade saiu disparado, esquecendo-se até de levar o chapéu.
(1) «Eu venho dali, lá de baixo, do Texas». Canção popular daquela terra. Os texanos acompanham as suas canções populares à viola, batendo as palmas.
(2) Alcunha que no Oeste tem o Estado do Kansas.
(3) Guerrilheiro confederado que serviu às ordens do famoso Quantrell e depois se desligou dele, organizando um grupo sob o seu comando.
(4) Estrela Solitária.
 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

PAS734. Abordagem à maneira do Texas

King parou o seu cavalo e olhou para o longe, onde se erguia Nova Salomão. Não era difícil reconhecer a vila, na extensa planície verde e cinzenta.
Acariciou o queixo, perguntando a si próprio o que diria à rapariga. Durante todo o trajeto desde Dodge City, não fizera outra coisa senão pensar nela, sem saber o que iria dizer-lhe.
Agora, esse problema apresentava-se com a maior importância. Não podia chegar ao pé dela e dizer lhe que vinha procurá-la para a tirar da miséria. Aquela rapariga, cujo nome ignorava, podia interpretá-lo mal e ofender-se.
Continuou o seu caminho, procurando uma solução. Só então pensou que tudo aquilo era uma doidice, e que o melhor era regressar a Santo António com a equipa e continuar a trabalhar.
A vila já estava perto. Os lavradores e cavaleiros que ali viviam olharam-no com pouca simpatia. Tudo nele denunciava o Texas; desde a sela do cavalo, até à maneira como usava o chapéu inclinado ao lado. Isto não podia agradar-lhes, visto recordarem muito bem as incursões dos guerrilheiros texanos e, além disso, o quarto regimento do Kansas encontrava-se em Gettyaburg, quando Hood com os homens do Texas tinham leito a sua famosa carga.
King atravessou a povoação dirigindo-se para o hotel onde pensava hospedar-se. Os desempregados da vila, sempre atentos a qualquer novidade, e os comerciantes das proximidades, observaram que um texano entrara em. Nova Salomão. Não eram muitos os forasteiros que ali aportavam e por isso cada um constituía motivo para quebrar a monotonia da vida local.
Uma das raparigas que o contemplavam informou a sua amiga mais íntima que se encontrava ao lado naquele momento:
— Este cavaleiro que acaba de chegar, pertencia à equipa de vaqueiros do Texas que aqui esteve há umas semanas.
A outra abriu os olhos.
— Tens a certeza?
—Evidentemente — fez uma pausa e acrescentou: — Porque terá ele voltado?
Muito alheio aos comentários que o seu regresso provocara, King encaminhou-se para o seu quarto, onde arrumou a bagagem. Estava nervoso e inquieto. Não sabia como havia de entrevistar-se com a jovem, nem o que lhe diria.
Mas, visto encontrar-se na terra, o melhor era ir vê-la quanto antes. Havia de saber convencê-la de que não pretendia ofendê-la.
Por um momento, ficou silencioso, contemplando pela janela a árida paisagem do Kansas, diferente do seu Texas natal. Era curioso como uns olhos verdes, cheios de tristeza, e um sorriso, que iluminava um semblante, podiam gravar-se no coração dum homem.
Pegou no chapéu e saiu para a rua. Notou os olhares de hostilidade que lhe dirigiam alguns dos ociosos e vários vaqueiros, que se reuniram à porta do «saloon».
Nada disto o preocupava. A violência e as lutas andavam sempre em redor dos texanos e eles aceitavam essa situação como uma prova da sua personalidade.
Pôs-se a andar retinindo as esporas, e sem olhar para aqueles que o contemplavam com tanta insistência.
Seguiu pelo mesmo caminho aberto pelas rodas dos carros, e pelas pegadas das manadas que percorriam aquelas terras. No fim, encontraria a barraca da rapariga, e falar-lhe-ia.
Avançou muito tranquilo aparentemente, mas sentindo o coração bater com mais força. Como o receberia ela? Aceitaria as suas desculpas? Nem sequer sabia o seu nome.
De repente, avistou a barraca, solitária, isolada de todas as outras. Parou um momento a contemplá-la. Estaria ela em casa?
Sentia ter feito um disparate. Nada sabia -daquela mulher, e podia muito bem ter noivo ou marido. O seu pai ou os seus irmãos podiam interpretar mal a sua visita.
Mas era já tarde para se arrepender. Ao examinar a barraca, viu a rapariga a trabalhar na terra, com as ferramentas de cabo comprido, utilizadas no Kansas. Sorriu ao vê-la.
Não, francamente, não havia sobre a Terra mulher mais formosa e, pelo que supunha, mais infeliz. Falar com sinceridade, sem subterfúgios, à maneira do Texas.
Hazel parou um momento, para respirar. Estava muito cansada, mas não podia parar. Urgia concluir depressa para começar o trabalho que trouxera da vila.
A rapariga já nada esperava. Aqueles dois anos tinham acabado com todas as suas esperanças, e aos dezanove anos considerava a sua vida acabada. Seria sempre a mesma coisa. Estaria sempre só, completamente só. O seu pai nada sabia, e ela portanto, não podia desabafar com ele. Mas imaginava o seu desespero quando o pai morresse.
Empunhou com mais firmeza a ferramenta e dispôs-se a continuar o trabalho.
De repente, uma voz, de suave entoação, cumprimentou:
— Bons dias, menina.
Surpreendida, voltou-se e viu um cavaleiro que, encostado ao muro que rodeava a sua pequena propriedade, a contemplava sorrindo e com o chapéu na mão. Nem a sua figura, nem o fato eram da região. Além disso. aquela maneira de falar denunciava o sotaque do Texas.
Hazel olhou para ele, aborrecida pelo atrevimento daquele homem. que lhe falava e, então, reconheceu-o. Era aquele vaqueiro galhardo e bem apresentado, que um dia tinha passado com uma equipa em Nova Salomão.
Também ele julgara, como toda a gente, que se lhe podia faltar ao respeito facilmente. O seu rosto entristeceu-se e ia voltar-lhe as costas, quando o cavaleiro disse, em tom sério e amável:
— Menina, permite-me uma palavra?
Aquela maneira de falar não era a de quem pretende cometer uma grosseria. Por isso, esperou que ele continuasse.
King, com o chapéu na mão, rogou:
— Dê-me licença que entre, menina. Falaremos mais à vontade.
Não parecia uma desculpa. Havia uma pronunciada sinceridade nas suas palavras. Não se notava nelas nem súplica, nem simulação. Falava com sinceridade e com hombridade, mas duma maneira simples. Hazel, um pouco intrigada, querendo saber o que ele pretendia, aproximou-se do muro, dizendo:
—Não é preciso entrar. Podemos falar aqui.
Lorringer contemplou-a extasiado. As suas recordações não o enganavam. Era muito formosa e aquela expressão de tristeza parecia vir do mais profundo do seu coração.
Ela, pelo seu lado, analisou-o mais atentamente, embora não quisesse demonstrá-lo. Era bem-parecido e simpático. No seu rosto, curtido pelo sol, notava-se uma expressão de sinceridade e de audácia que, todavia, não ofendia uma mulher.
--- Que deseja? — inquiriu a rapariga.
King sorriu.
— Há uns dias, quando a minha equipa passou por aqui, eu fiz qualquer coisa, involuntariamente, que me pareceu aborrecê-la. Venho apresentar-lhe as minhas desculpas.
Hazel fitou-o, atónita.
—Veio só para isso? Para mais nada?
King assentiu.
— Sim, só por isso. Não gosto de ofender as mulheres, e como não era minha intenção ofendê-la, embora pareça tê-lo feito, quero que me perdoe. E acrescentar, mais uma vez, que não quis ofendê-la. Reconheço todavia que procedi mal.
Hazel não sabia o que havia de responder. Tanta gente a ofendera, rindo depois e contando a façanha a toda a gente! Olhou-o de novo, para se certificar se ele troçava, ou se as suas palavras ocultavam outra intenção. Não lhe parecia. Tanto no seu rosto como na entoação, notava-se a mais completa sinceridade.
— Podia tê-lo dito então — exclamou a rapariga.
Lorringer sorriu:
— Foi-me impossível. Quando nos separámos, a equipa marchou para Dodge City, e até lá não pude libertar-me. Acabo de chegar à vila.
Ninguém podia, portanto, ter-lhe contado o que dela se dizia. Uma profunda gratidão por aquele cavaleiro galante e atrevido nasceu no coração da rapariga. Não a tratavam assim há muito tempo. Fitou-o por um momento e perguntou de novo:
— Mas porque faz isto, se eu sou uma desconhecida para si?
Lorringer encolheu os ombros.
—No Texas, perseguimos a tiro quem ofenda uma mulher. Parece-me, pois, imperdoável fazer urna coisa semelhante.
Hazel baixou a cabeça, para ocultar as lágrimas que lhe afloravam aos olhos. Conteve-as o melhor que pôde e sorriu.
— Não precisava incomodar-se. De qualquer maneira, agradeço-lhe a gentileza.
— E julga que para a ver sorrir não valia a pena atravessar novamente a rota do Texas e expor-me a todos os perigos que ali possa haver? — e, a seguir, acrescentou: — Chamo-me King Lorringer.
— Hazel Morrison.
— Hazel…— repetiu o jovem. — É um nome precioso.
Ela agradeceu o cumprimento e disse:
— Não quero que por minha causa atrase a sua viagem para o Texas.
Lorringer abanou a cabeça.
— Não, não atrasa. Decidi passar aqui algum tempo. Gosto destes sítios e passarei aqui uns dias. — Depois fez uma pausa e acrescentou: — Poderei vir vê-la amanhã?
A rapariga ficou surpreendida, sem saber o que responder. Vê-la? Pretenderia aproximar-se dela como tentara Frank Ruthford? Não, não podia ser, porque acabariam por o assassinar.
Porém, não teve força para recusar em absoluto e exclamou:
—É que eu vivo só e...
King sorriu por sua vez.
— Já não está só. Eu serei seu amigo para tudo quanto precisar.
Levou o chapéu ao peito, e começou a andar em direção à vila, retinindo as esporas. Hazel viu-o partir. Tinha muito medo. Tinha a certeza de que, tarde ou cedo. seria a causa da morte daquele homem. Mas como detê-lo? No dia seguinte, não sairia ao seu encontro e, além disso, procuraria afastá-lo da sua casa.
Era para seu bem, ao fim e ao cabo.

terça-feira, 11 de abril de 2017

BIS052.1. Pela Honra de Hazel

O contato tardio com este livro permite-nos uma revisita ao mesmo e aos bons tempos da Coleção Bisonte.
Hazel era uma jovem muito bonita que trabalhava em casa dos Heston. Ao ser perseguida pelas intenções menos honestas do filho da família onde trabalhava, resistiu e este fez com que uma fama de impúdica a perseguisse obrigando-a a retirar-se para uma cabana onde sofria o ostracismo de toda a cidade.
Um dia tudo mudou.
Um grupo de vaqueiros chegou à cidade, transportando gado, e um deles, King Lorringer, ficou extasiado com a beleza da rapariga. Começa aí um novo período na vida desta o qual não deixou de passar por um ajuste de contas com os seus conterrâneos.
Eis um livro muito interessante de J.Leon, onde fica bem claro o abuso que muitas vezes as relações de servidão permitiam, com uma capa muito vistosa, infelizmente sem assinatura de autor. Vamos recordar algumas passagens.

Outras passagens

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