quarta-feira, 28 de setembro de 2022

CLF050.10 Arde uma cabana, mas descobre-se um verdadeiro lar


Ao chegar à rua, Parker e os seus companheiros escutaram o ruído trepidante de uma série de tiros. Hamilton, que ia junto de Cecil, gritou: 

— É no acampamento. 

— Os Parson! Devem estar á correr perigo o Parson! 

Cecil esporeou a cavalgadura que montava e partiu a galope. Passaram como raios diante da casa dos Whitney, à porta da qual viram o reverendo e a sobrinha que se preparavam para montar a cavalo, a fim de irem em busca de socorros. 

Ao verem que Cecil e os agricultores se encaminhavam para o acampamento, lançaram-se atrás deles. 

Quando chegaram à vista da cabana dos Parson, descobriram que tinham sido disparadas numerosas flechas incendiárias e que a cabana começava a arder por todos os lados. ~

Do interior da cabana faziam fogo incessantemente contra os assaltantes que a cercavam. Mas os assaltantes, bem entrincheirados, não eram atingidos, A vista do espetáculo, Parker ordenou: 

— Aqueles que tiverem cavalos velozes, que me sigam. Vamos cercá-los, para que não possa escapar nenhum desses bandidos. 

— Que atrocidade! Que é que eles pretendem? — perguntou o reverendo Whitney. 

— Queriam apresá-los e guardá-los como reféns para me obrigarem a capitular. Lutam como desesperados. Mas agora é altura de atacar. Os outros, que vão atacando por esse lado, mas sem se deixarem ver. Não quero que tombe nenhum dos nossos. 

Lançou-se num galope infernal, seguido pelos agricultores mais afoitos. Outros agricultores partiram em direção ao lado oposto, seguindo as suas indicações. E os restantes prepararam-se para atacar pelo lado onde se encontravam, dispostos a atrair a atenção dos facínoras para que os outros pudessem levar a cabo a sua manobra com menos dificuldades. 

Cecil conduziu os seus companheiros por detrás de uma das cantinas e viu que o segundo grupo chegara ao local previamente escolhido. Fez então um sinal. Atacaram como raios, fazendo que as suas armas cuspissem fogo e chumbo, surpreendendo os bandidos pelas costas. 

Os que tinham pegado fogo à cabana, esperando que as chamas obrigassem os seus ocupantes a sair, faziam frente ao ataque que tinha sido desencadeado contra eles pelo outro lado. Não esperavam que ninguém os atacasse do local onde Parker se encontrava e vacilaram sob o fogo mortífero que dizimou rapidamente as suas fileiras. 

Ao darem pelo perigo que corriam de serem cercados, dirigiram-se para a cantina, procurando refugiar-se dentro dela. Mas Amy, da cabana, disparou contra eles, evitando que pudessem atingir o refúgio pretendido. Alguns renderam-se, enquanto outros eram materialmente varridos por Parker e pelos seus amigos. 

Entretanto, o fogo ia aumentando de volume e os gritos de Ned Parson ouviam-se a bastante distância. Todavia, os bandidos que se encontravam na 

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cantina, respondiam aos tiros de Amy, até a obrigar a retirar-se. 

Cecil atacou, então, pela parte de trás da cabana, que ameaçava transformar-se numa gigantesca fogueira. Depois de limpar de bandidos aquela parte, ordenou aos seus companheiros: 

— Cubram-me com o vosso fogo, para prevenir... 

Correu velozmente até à cabana e, uma vez chegado à porta traseira, gritou: 

— Um machado! Depressa! Atirem-no pela janela, ou será impossível tirá-los dessa braseira. 

Não tardou em cair aos pés de Parker o machado que ele pedira. E o jovem atacou vigorosamente os troncos que ardiam, logrando abrir uma brecha na porta. Dois dos agricultores tinham-se apressado a ajudá-lo. Outros correram a buscar água, que foram atirando nos locais que Parker lhes assinalava. 

Por fim, o jovem conseguiu alargar a brecha e entrou por ela na cabana. Seguiu-o um dos agricultores, enquanto o outro continuava o trabalho que ele encetara. A cabana estava cheia de fumo, que principiou a dissipar-se ao ser estabelecida a circulação de ar. Mas a corrente de ar fez com que o fogo se ateasse ainda mais, aumentando o perigo para todos. 

— Amy! Amy! Ned! 

Cecil divisou o corpo de Ned Parson estendido ao pé da pequena janela pela qual lhe tinha atirado o machado, num último esforço. Indicou o corpo ao agricultor: 

— Carregue com ele, por favor. Não me parece que pese muito mais de cem libras, se é que não pesa menos. 

O homem dispôs-se a carregar com Ned Parson às costas. Parker compreendeu ser inútil continuar a chamar por Amy e foi à sua procura até junto da janela por onde ela estivera a atirar. 

Duas balas penetraram na cabana e o jovem teve de se agachar. Viu por fim a linda jovem que estava feita num novelo ao pé da janela, com a espingarda entre as mãos. Correu para ela, receando que estivesse ferida. 

Tomou-a nos braços e, sem ousar levantar-se, pois voltaram a entrar duas balas. Arrastou-se com ela pelo chão. Ainda que com dificuldade, passou por entre as labaredas e conseguiu atingir a porta por onde entrara. 

Daquele lado terminara por completo a resistência dos facínoras e vários dos agricultores trabalhavam denodadamente para extinguir o fogo. Amy, ao sentir no rosto o ar frio da manhã, abriu os olhos e estremeceu ao ver-se nos braços de Parker. 

— O meu pai! O meu pai! Vi-o cair ferido... 

— Está livre de perigo. Não se assuste... 

Sentia tal alegria por tê-la salvo, que não pôde conter o impulso de brincar e acrescentou: 

— ... «miss» Parson. 

A jovem saltou dos braços de Parker, mostrando a mais profunda indignação. E gritou, desafiadora: 

— Diz muito bem, pois não lhe permito familiaridades. Percebeu? 

— Não se zangue, por favor. A alegria de a ver sã e salva, quando temi pela sua vida, levou-me a brincar... 

— Temer pela minha vida? Não compreendo... 

— Não seja arisca e veja se me entende. Primeiro, receei que pudesse servir de refém aos bandidos. Quando vi que resistiam desde a cabana, tive medo de não a poder tirar dali com vida... 

— Quer dizer que, nesse caso, lhe devo a vida?... 

— Não é só a mim. Todos nós contribuímos —respondeu Parker. 

Hamilton, que chegara momentos antes, dirigiu-se à jovem: 

— Diga que foi ele acima de todos. Graças a ele vamos poder viver em San Martin de hoje em diante... 

Oona Whitney e o tio chegaram também naquele instante, ficando paralisados pelo impressionado espetáculo que oferecia a cabana a arder cada vez mais. 

Um dos agricultores que mais havia trabalhado para a salvar do fogo, exclamou: 

— É impossível. Não dispomos de recursos, não temos água suficiente... 

— Não se preocupe — replicou Parker. — Salvaram-se os seus habitantes, que era o que realmente interessava. 

— Mas tenho ali as minhas coisas. As poucas roupas que possuo, as minhas ferramentas, os meus livros... 

— Acho preferível que tudo isso se perca a que se arrisquem vidas para tentar o salvamento. Espero que tivéssemos tido sorte e que ninguém ficasse ferido. 

Grass incorporou-se no grupo, levando consigo Lodge e foi ele que respondeu: 

— Do nosso lado, não temos feridos. Uns rasgões sem importância, apenas. Apanhámos John Kraft, Sanders e mais alguns bandidos do mesmo jaez. Só Loyd McCarthy conseguiu escapar... 

— Desse encarrego-me eu. 

Oona dirigiu o seu olhar para Amy e percebeu toda a desolação que se apoderara da linda loira ao ver que a sua cabana, com todas s suas coisas, era destruída pelo fogo. A bonita noiva de Pat acercou-se de Amy e disse-lhe: 

— Compreende-se que esteja desolada. Certamente que ficam aí todas as pequenas coisas que nós, mulheres, amamos pelo que nos fazem recordar. Essas coisas que não têm grande valor material, mas que nos falam ao coração por que são prendas de um passado feliz... 

Oona falou docemente e Amy sentiu que a prevenção que sentia contra ela se derretia como gelo entre as chamas. Não queria romper em pranto e limitou-se a mover a cabeça em sinal de concordância. 

— Gostaria de poder fazer alguma coisa por si e espero que fique em nossa casa até que solucionem o problema da habitação. 

Claro que o convite também é dirigido a seu pai. Em casa terá tudo o que necessita. Não somos ricos, mas, afortunadamente, não nos falta o mais necessário. 

— Muito obrigado. Mas não sei se deva aceitar. É demasiado incómodo. Temos todo o dia à nossa frente e, quando chegar a noite, talvez possamos ter a nossa cabana... 

— Nem pensar nisso é bom. Vens para nossa casa e teu pai também. E, se não te importas, passaremos a tratar-nos por tu. 

— Com certeza. 

— Pois, então, não se fala mais nisso. O meu noivo e o senhor Parker também estão em nossa casa. Creio que nos daremos todos bem. Na realidade, a casa é demasiado grande para mim e para o meu tio. 

Ned Parson recobrara já o conhecimento e juntou-se ao grupo formado por Amy e Oona. 

— Vamo-nos embora hoje mesmo deste horroroso lugar. 

— Nada disso, pai. Ficaremos. 

— Se ao menos se tivesse salvo o ouro. 

— Espero que sim. Estava escondido no centro da cabana, debaixo de uma grande pedra. Mas, se não se salvou, já arranjaremos mais. Tudo isto não pode considerar-se mais do que uma pequena contrariedade. 

Parker, solicitado por um dos agricultores, desculpou-se e afastou-se das raparigas. — Que há de novo? 

— Que fazemos com Kraft e esses bandidos? 

— Não é coisa de os levarmos a Lynndyl para o entregar às autoridades. Acho que já é altura de os senhores organizarem a sua vida administrativa. Constituam uma comunidade entre agricultores, ganadeiros e laneiros, para que não volte a dar-se o que acaba de se verificar. 

— Vamos tentar fazê-lo como já o tentámos várias vezes, mas McCarthy sempre punha impedimentos. E esse patife do Lodge ajudava-o... 

— Pois não voltem a deixar-se enganar... Devem escolher os mais sérios entre todos para dirigirem a comunidade e pôr-se depois em contacto com Lynndyl, dando conta do que fizeram. 

— E McCarthy não tentará prejudicar-nos? Ele é influente em Lynndyl... 

— Não lhe darei ocasião. Agora não tenho dúvidas de que foi ele quem ordenou o assassínio de meu pai e, portanto...

 — Não perca então tempo. Olha! Deve ser aquele! E não vai sozinho... 

— É o mesmo. Só ou acompanhado, a sua sorte está lançada. 

Os mais destacados entre os agricultores juntaram-se, dispondo-se a nomear provisoriamente aqueles que deviam dirigir a comunidade até se fazerem as eleições. E escolheu-se também rapidamente o júri que devia encarregar-se dos bandidos que tinham sido detidos. 

Enquanto cada um se entregava às suas tarefas, Parker, sem se despedir de ninguém, aproveitou-se de um momento em que passava despercebido e, montando a cavalo, afastou-se em perseguição de McCarthy. 

Deslizou como uma sombra, procurando atingir a parte traseira da cantina, que o ocultou aos olhos dos seus inimigos. Então lançou o seu cavalo a galope, dirigindo-se para a zona de árvores onde, na tarde anterior, tivera uma entrevista com Amy. Ao chegar, viu Oona e a filha de Ned que, de braço dado, caminhavam e conversavam animadamente em direção da casa dos Whitney. 

— Bem. Parece que se dissiparam os mal-entendidos. Será excelente que Amy volte a entrar em contacto com um verdadeiro lar... 


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