sábado, 28 de setembro de 2019

KNS004.04 Preparativos para regressar a Abilene com gado

A notícia da morte de Stanley e a chegada dos seus homens a Free Town, foi tema de inúmeros comentários, durante essa semana. Numa terra de vida tão monótona, acontecimentos daquele tipo, valia bem explorá-los... Mas o espanto atingiu o auge, quando se soube que aquele jovem, que chegara com a filha de Stanley e os «cowboys», estava decidido a comprar uma manada, com a intenção de a ir vender a Abilene.
— Estás cheio de vontade de deitar dólares à rua? — perguntou um rancheiro, sentando-se ao seu lado, num «saloon».
— Porque diz isso?
— O caminho para Abilene está amaldiçoado.
— Isso é uma idiotice.
— Admito-a, mas a realidade diz-me o contrário. Stanley foi morto. Isso quer dizer qualquer coisa, ou não? E que me diz das doenças que assolam as manadas?
— Que culpa tem o caminho para Abilene? Ainda não pensou que só o gado tem culpa, de não estar nas devidas condições, para ser conduzido para lá?
Os rancheiros que se tinham juntado àquele que falava com Shelby, disseram:
— Decidimos levar o nosso gado a Dodge ou a Leavenworth. É curioso, não é? Nesses caminhos não acontece nada ao gado.
Shelby mordeu os lábios, prevendo o entrave que aquilo punha ao progresso de Abilene.


— Não acredito no que vocês dizem. A prova é que compro todo o gado que me queiram vender, para o conduzir a... Abilene.
— A como o paga?
— Digam os vossos preços. Verei se me interessam.
Os circunstantes olharam uns para os outros.
— Acredite em mim, forasteiro — falou o mesmo fazendeiro que já o tinha feito antes —. Vá vender seu gado a Dodge. Lá pagar-lhe-ão o mesmo que em Abilene e pelo menos, a manada chegará inteira.
Shelby sorriu friamente.
— Sou senhor de fazer o que quero, com o meu dinheiro, não sou?
Várias pessoas lhe deram razão.
— Têm gado para vender? -- interrogou.
— Se me pagar a treze dólares por cabeça, vendo-lhe quinhentas.
— Isso é um abuso...
— Pense bem. Treze dólares. Já sei que o normal é onze, mas temos de ganhar alguma coisa, nós, não é verdade?
King examinou os rostos dos que o rodeavam. Em todos, viu as mesmas expressões: receio e astúcia.
— Aceito. Quinhentas, a treze. Alguém tem mais, que queira vender?
Havia vários. Poucos minutos depois, apertos de mão e inúmeros copos de «whisky», selavam os contratos. A compra estava efetuada. Shelby dispunha já duma manada de três mil e quinhentas reses, o que pressupunha o empate de capital de quarenta e cinco mil dólares.
Demasiado dinheiro se a expedição constituísse um fracasso. Depois de se despedir daqueles amigos ocasionais, dirigiu-se ao «saloon», onde Donovan e os outros «cowboys» o esperavam. Quando se sentou à mesma mesa, informou-os:
—Temos três mil e quinhentas. Amanhã mesmo, podemos começar a reuni-las.
Donovan opinou:
— Precisamos de mais gente.
— Contrataremos mais pessoal. Não se preocupem com isso.
— Quem se encarregará de arranjar o equipamento necessário?
— Você, Donovan. Julgo ser o mais capaz.
— Corresponderei à confiança que deposita em mim. Amanhã ou depois dar-lhe-ei uma lista com o material necessário. Precisamos ir bem equipados.
Vernon, outro dos «cowboys», disse:
— Receio que sejamos apanhados pelo Inverno, antes de chegarmos a Abilene.
Mentalmente, fizeram todos o cálculo do tempo.
— Seremos apanhados pelo frio, antes de chegarmos. O gado pôr-se-á bravo.
King acabou com as dúvidas:
— Precisamos de partir o mais breve possível. Espero que compreendam a necessidade disso. Se alguém não quiser, não é obrigado a continuar ao meu serviço, embora me tenha dado a sua palavra. Neste momento, cancelo todos os compromissos e convido todos a expor a sua decisão, livremente.
Donovan falou em nome de todos.
— A travessia será dura e difícil. Mas iremos. Continuamos ligados a Stanley, enquanto não o tivermos vingado.
Shelby sorriu:
— Dá gosto trabalhar com homens assim. Vamos trabalhar para não perder tempo.
Foram precisos quinze dias para apartar o gado, nos diferentes ranchos. Quinze dias de trabalho, para escolher o gado mais resistente e concentrá-lo nos currais existentes no norte da povoação.
Quando ficou tudo pronto, King já conhecia perfeitamente todos os seus homens e as reações que teriam em situações de perigo. Ele mesmo tinha aprendido mais naquelas duas semanas, do que nos dois anos que tinha de membro da Associação dos Criadores de Gado de Abilene.
Naquela tarde, quando Shelby chegou ao local onde estava levantado o acampamento, os seus homens rodearam-no. Donovan também.
— Tudo pronto, patrão — disse. — Quando partimos?
— Suponho que não há inconveniente em partir amanhã ao amanhecer.
— É por isso precisamente que os rapazes lhe queriam falar, patrão — disse.
Shelby olhou para os que o rodeavam.
— Bom. Falem.
Foi o jovial Medina que falou:
— Bem, patrão, o senhor é que manda e não se discute. Se manda que saiamos ao amanhecer, obedecemos... Mas eu pensei... e estes também, que talvez o senhor não se importasse...
— Vai direito ao fim, Medina. Estás a maçar o patrão, com tantos rodeios.
-- Bom, a coisa é que amanhã, sábado, é a festa de Free Town; o costume, música, «rodeos», raparigas desejosas de encontrar rapazes como nós e... porque é que não partimos depois de amanhã?
O rapaz não pôde conter o riso.
— E depois acordareis como umas pipas. Incapazes de distinguir um boi dum revólver.
— Juramos-lhe que!...
Donovan interrompeu Vernon:
— Para já, apanham uma grande bebedeira, prevendo o forçado jejum de três meses...
Medina exclamou:
— Oh, Donovan, traiu-nos! Tinha prometido ajudar-nos...
— Apanham uma das grandes, sim — repetiu Donovan —, mas depois serão três meses sem beber. E três meses duros, patrão...
 King aceitou os factos.
— Está bem. Diverti-vos à vontade. Mas ai daquele que apareça sem ser alegre! Terá de ir até Abilene montado numa vaca! — ante o assombro de todos, terminou —. Bem! Dou-vos vinte dólares para que venham como pipas!
*
No salão de baile os pares rodopiavam ao som de animada música. O exercício violento ruborescia as faces femininas e fazia brilhar os olhos dos rapazes. A gente nova divertia-se. A afluência de rapazes elegantemente vestidos, tornava aquele espetáculo rico e animado. As raparigas, bonitas na sua maioria, tinham aumentado os seus encantos com o objetivo de agradar a tanto olhar masculino.
A orquestra composta por cinco voluntariosos amadores, esmerava-se num canto, para satisfazer os bailarinos e no lado oposto um bem fornecido bufete, ajudava-os a refazerem-se do esforço despendido.
O pessoal de Shelby King encontrava-se todo no bailarico. Todos, vestidos da maneira que achavam mais elegante, procuravam cuidadosamente, um par.
Shelby, encostado ao balcão e com um copo na mão, contemplava os que dançavam. Donovan, a seu lado, comentava:
— É um espetáculo agradável à vista, não acha, patrão?
— Sim, agrada-me ver os rapazes divertirem-se.
— E o senhor não dança?
King replicou:
— Não tenho par.
— Eles também não. Procure-o. Qualquer dessas raparigas sentir-se-ia feliz, se o senhor a convidar...
Shelby admitiu que sim, pois tinha reparado na atenção que várias raparigas lhe tinham prodigalizado. Mas a fácil conquista não o tentou e bebendo o resto do seu copo, despediu-se do capataz, deixando umas moedas no balcão.
Lá fora, estava urna noite extraordinária. As estrelas cintilavam no céu e uma leve brisa, trazia o aroma delicado da pradaria, um odor embriagador que despertava os sentidos e enchia completamente os pulmões.
Aspirou largamente aquela suave brisa, saboreando o seu aroma, enchendo os pulmões e estreitando-o como se apertasse a mulher amada. Com os olhos fechados pensava que para um verdadeiro homem do Oeste nada havia que se comparasse rústica fragância das infindáveis pradarias texanas. Uma voz, perto dele, fê-lo acordar do seu sonho.
— Não o vi dançar uma única vez! Não gosta?
Carol, embrulhada num xaile preto, olhava-o com os seus olhos enormes.
— Não tinha com quem. Shelby olhou para ela, reparando na sua adolescência encantadora.
— Há muitas raparigas lá dentro — disse ela.
— Mas nenhuma me interessava.
Carol baixou os olhos e afastou-se um pouco, como que amedrontada. Permaneceram em silêncio uns instantes. King fez um cigarro e acendeu-o com um fósforo. A pequena chama iluminou as suas feições bem talhadas, realçando todos os ângulos do rosto varonil.
— Partiremos ao amanhecer, não é verdade?
— Assim o desejo. Mas você não parte, Carol. Você vai tomar a diligência que vai para Austin e dali, para o Este.
Ela pareceu indignar-se.
— Não conseguirá afastar-me! Tenho o firme propósito de vos acompanhar.
— Porquê?
Ela justificou-se:
— Você sabe-o muito bem. Devo fazê-lo, por meu pai.
— Serão três meses duros... e perigosos. Tentarão pôr-nos muitos obstáculos. Em tais ocasiões uma mulher representa sempre um estorvo.
— Nunca fui considerada um estorvo! — gritou, com os olhos brilhantes.
— Nesta ocasião... é! Eu não sou seu pai, Carol. Para seu pai talvez não fosse obstáculo levá-la, mas é-o para mim. Não posso passar o tempo a tomar conta de si!
Disse aquilo impulsivamente, como que protestando contra a fraqueza que sentia quando estava ao pé da rapariga. Esta, ante a dureza daquelas palavras, ergueu-se orgulhosamente e disse com altivez:
— Nunca precisei de muletas! Talvez você precise mais da minha ajuda. Fui criada nesta terra e sei dela, mais que você!
— Não o duvido, mas...
Carol, começou a afastar-se.
— Irei. Espero que se não atreva a expulsar-me. E não se preocupe, não precisará de me proteger. Sou melhor vaqueira que você!
Indignada, desapareceu definitivamente, na sombra da noite. Ao vê-la partir, Shelby sentiu remorsos pelo desgosto que tinha dado à rapariga e esteve quase à chamá-la, para lhe pedir desculpa, mas pensando melhor achou que era preferível assim. Tinha sido sempre livre e não lhe agradava a ideia de se tornar escravo dum insensato capricho feminino.
Não foi possível sair ao amanhecer, como tinha sido combinado. Ninguém estava em estado de o fazer. Foi necessário atrasar a hora da partida, até que todos estivessem livres dos vapores alcoólicos...
King, entretanto, não perdeu o seu tempo e dirigiu-se a Free Town, sem comunicar a ninguém as suas intenções. Quando regressou, entregou a Donovan um pequeno papel verde, dizendo-lhe:
— É um bilhete para a diligência com destino a Austin. Comprei-o para Carol. É o meu desejo e faça-lhe compreender que não pode vir connosco. Em Austin, estará muito bem, pois é uma terra pacata. Percebeu? Não posso levar a rapariga.
— A sua decisão, não lhe vai agradar nada, patrão...
— Penso que não, mas é a melhor solução. Não se trata apenas de uma expedição, é o isco para que caiam na ratoeira. E cairão. Mas não será fácil caçá-los. Não quero mulheres comigo em tais ocasiões. É a minha última palavra. Diga-lho.
O capataz agarrou no bilhete.
— Vai ficar furiosa, com certeza. Ou talvez chore. Conhece-me há muitos anos. Porque...?
Shelby interrompeu-o:
— Sei o que me vai dizer. Porque não lho digo eu? Não quero ceder aos seus olhares. Para você será mais fácil. Cumpre ordens.
O capataz preparou-se para se retirar.
— Deus queira que seja a melhor solução; não é bom que ela fique só.
— Pior é expô-la à travessia, com uma batalha em perspetiva.
Não se falou mais naquele assunto. Shelby, com as feições carrancudas, sem deixar transparecer os seus verdadeiros sentimentos, presidiu aos últimos preparativos. O cozinheiro, junto ao carro dos mantimentos, enchia enormes canecas de café.
— Um golo, patrão? — perguntou Mart, o cozinheiro, ao ver King aproximar-se.
— Não preciso. Em compensação, os teus companheiros...
— Apanharam ontem «uma» bem boa! Nunca na minha vida, vi beber assim. Parecia que era a última vez que o faziam!...
King franziu as sobrancelhas. Sim, aquela viagem de Free Town a Abilene, podia ser a última. Ninguém podia prever o que os aguardava naqueles 1.700 quilómetros que separavam as duas povoações.
 — Dá-lhes bastante café, para ver se despertam. Não podemos passar a vida aqui. O seu olhar penetrante fixou-se nas pálidas e sonolentas figuras dos «cowboys», que encostados às árvores ou passeando, procuravam reanimar-se.
Entretanto, Donovan tinha encontrado Carol. A rapariga não necessitou de palavras, para perceber o que queriam dela, ao ver o pequeno papel verde.
— Atira-me para o lado como se fosse um estorvo, eh, Donovan?
O capataz não lhe respondeu, limitando-se a estender-lhe a passagem para Austin.
— Não penso obedecer-lhe! Quem é ele, para me dizer o que devo fazer?
— Ninguém. Toma, Carol. Cumpro ordens.
— Eu quero ir com vocês! Trata-se da morte de meu pai! Porque não hei-de ter o direito de colaborar em fazer justiça?
— O patrão não quer mulheres. Estorvam, diz ele. Levar-te-ia, mas cumpro ordens.
Carol agarrou lentamente no bilhete e olhou para ele, sem o ver. Uma pena profunda rasgava-lhe a alma.
— Está bem... — cedeu.
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, mas conteve os soluços, mordendo os lábios. Era uma cena penosa. Donovan parecia querer dizer qualquer coisa, mas não se atreveu.
— Que vais fazer em Austin?
Ela encolheu os ombros. O capataz olhou longamente para ela e disse-lhe, em voz baixa:
— Se queres, podes vir connosco.
Os olhos dela iluminaram-se.
— Como?
— Finges que obedeces e vais para Free Town. Deixas passar alguns dias e vens à nossa procura. Ele não poderá abandonar-te.
— Sozinha?
Donovan parecia ter previsto aquele óbice.
— A pradaria é perigosa para uma rapariga. Talvez seja melhor... — parou e depois de se certificar de que ninguém o escutava, disse: — Na taberna de Holmes há sempre tipos desocupados. Diz a Holmes que vais da minha parte e que te arranje dois homens para te acompanhar. Ele perceberá. Com eles não haverá perigo.
Por entre lágrimas, Carol agradeceu:
— Obrigado Donovan. Que bom que tu és! Dentro duma semana, estarei convosco.
Deu meia-volta e dirigiu-se ao carro para juntar as suas coisas. Fez um embrulho com elas, montou a cavalo e afastou-se. Foi então que os seus olhos tropeçaram nos de Shelby. Houve um momento em que pareceram dispostos, a dizer qualquer coisa um ao outro, mas Carol viu-os tão frios, tão animados por um coração de ferro, que desistiu. Esporeou o cavalo e afastou-se do acampamento, rumo a Free Town.

Sem comentários:

Enviar um comentário