terça-feira, 27 de agosto de 2019

ARZ014.10 Sem balas na arma

Nancy, debaixo da manta, sentia o corpito quente de Bobby, que se estreitava contra ela para combater o frio. A jovem fechou os olhos, pensando que era preciso dormir para estar folgada no dia seguinte.
— Menina Nancy...
Era a voz de Bobby que, num sussurro, lhe falava junto ao ouvido.
— Que queres? — perguntou ela, também muito baixinho.
— A menina e aquele homem que encontrámos na cavalariça chamam-lhe Cliff Sheridan. Porquê, se o seu nome é Nick Werfel?
Nancy ficou um momento indecisa, mas a seguir respondeu:
— Escuta, Bobby, tens de prometer-me que não o dirás a ninguém, nem mesmo ao xerife; mas a verdade é que o seu nome autêntico é Cliff Sheridan.
— Então porque disse chamar-se Nick Werfel?
— É uma história muito longa, Bobby. Algum dia ta contarei. Todavia, agora, é preciso que guardes segredo.
— Que fez ele? Fugiu da cadeia?
— Não é isso exatamente. Já te disse que outro dia te contarei. Palavra de honra que não o dirás a ninguém? É para bem de Cliff, compreendes?
O pequeno demorou uns momentos a responder. Quando o fez, havia na sua voz uma decidida firmeza:
— Palavra de honra.


Nancy respirou tranquila. Tinha a certeza de que o pequenito não quebraria a sua promessa por coisa alguma do mundo. Pouco a pouco, o sono foi apoderando-se dela e as suas pálpebras fecharam-se insensivelmente. Acordou-a a sensação de que alguma coisa se movia junto dela. Ao abrir os olhos, deslumbrou-a a luz do dia. Depois viu que Bobby saía de dentro da manta. Mais além, estava Cliff de pé, iluminado pelo resplendor do sol.
— Vamos, é preciso levantar-se — disse o jovem, ao vê-la acordada. — Quanto mais depressa marcharmos, melhor.
A rapariga afastou a manta e pôs-se também de pé. Passou a mão pelos revoltos cabelos, com a sensação, instintiva de todas as mulheres, de estar horrível. Todavia, ela ignorava que, com as roupas em desordem e a cabeleira solta, encontrava-se mais formosa que nunca. Cliff fitou-a um instante, recolhendo as mantas em seguida.
— Ali fora há um charco de água das chuvas. Se quiser, pode refrescar a cara.
Trouxeram os cavalos para fora da cova, selados e prontos para retomarem a marcha. Depois os três dirigiram-se para umas rochas entre as quais se formara um lago com a água das chuvas.
— Vamos, Bobby, para ver se espalhas o sono.
O pequeno meteu as mãos na água e teve um calafrio.
— Está gelada.
Cliff e Nancy também se lavaram, esfregando vigorosamente o rosto. Depois a rapariga pôs os cabelos em ordem e arranjou-se tão bem quanto lhe foi possível. O jovem e Bobby contemplavam-na em silêncio.
— Já está pronta, Nancy? -- perguntou Cliff por fim.
— Ah! As mulheres passam horas inteiras ao espelho para se arranjarem — disse o pequenito, em tom de desprezo. — É uma sorte ser homem.
— Tens razão. Nós não nos preocupamos tanto com essas coisas.
Cliff sorriu.
—É muito mais importante saber manejar um revólver como tu o fazes, Cliff.
O jovem franziu a fronte, ao mesmo tempo que os seus músculos se punham tensos.
— Cliff... — sussurrou.
Depois dirigiu um olhar interrogador à rapariga. Esta, que acabara de arranjar-se, abanou a cabeça.
— Era inevitável — murmurou. — Ouviu-me chamar--lhe assim, e àquele homem na cantina também. Mas não se preocupe, deu-me a sua palavra de honra de não dizer nada a ninguém.
— Eu sei guardar um segredo dum amigo, Cliff —assegurou Bobby, muito sério.
O jovem pôs-lhe a mão sobre o ombro.
— Bem sei, Bobby. Tu és um homem, e os homens de verdade nunca atraiçoam um amigo. E agora, em marcha. Temos de sair daqui.
Quando disse isto, o jovem ficou quieto, direito, com todo o corpo vibrante e uma expressão tensa no rosto. Nancy olhou para ele, admirada.
— Que acon...?
Não pôde concluir a frase pois Cliff, com um violento empurrão, atirou-a ao chão. Quase em seguida, fez o mesmo a Bobby, enquanto ele, com incrível rapidez, empunhava o revólver e encolhia-se sobre ele próprio, como um felino pronto a atacar.
Apenas decorrera um segundo, quando de entre o matagal surgiram três cavaleiros, que pararam bruscamente ao ver Cliff, a rapariga e o pequeno. Um deles era Lloyd Hudson e os outros, dois homens da sua quadrilha.
— Quietos! Dispararei se fizerem o menor movimento! — ordenou o jovem.
Um dos cavaleiros encabritou o cavalo, ao mesmo tempo que puxava pelo revólver. Cliff disparou e a bala atingiu em cheio o ventre do cavalo que caiu pesadamente, esperneando em dolorosa agonia.
Hudson e o outro bandido aproveitaram a oportunidade para brandir as suas armas que começaram a vomitar fogo. Mas Cliff, agilmente, entrincheirara-se atrás duma árvore, fazendo dois novos tiros. O companheiro de Hudson, atingido no peito, caiu de costas da sela do cavalo. Lloyd por sua vez, desmontou dum salto, não cessando de disparar.
O que caíra com o cavalo, abriu fogo do solo. Cliff viu os projéteis levantarem estilhas da casca da árvore a poucos milímetros da sua cabeça. Rodou sobre os calcanhares, apertando uma vez mais o gatilho. A bala cravou-se na fronte do homem, que ficou estendido de boca para cima junto ao cadáver do seu cavalo.
O jovem voltou-se desesperadamente, à procura de Hudson. Duas balas zumbindo junto das suas faces obrigaram-no a refugiar-se novamente atrás da árvore. Com todos os músculos tensos, tentou localizar o seu mortal inimigo.
Entretanto Nancy e Bobby continuavam deitados no chão abrigados pelo arbusto aonde os atirara o jovem.
Cliff compreendeu que Hudson se escondera no mato para dar uma volta e atacá-lo de surpresa. Angustiado, olhou em volta. Era preciso evitar que o atacasse de improviso. Estavam em jogo as vidas de Nancy e Bobby.
De repente ouviu um ruído à sua direita e viu mexer uns ramos. Fez fogo, mas a bala perdeu-se no mato. Então, dum lugar próximo daquele matagal surgiu a figura robusta e gigantesca de Lloyd Hudson. Os dois homens ficaram frente a frente: Cliff, com uma expressão decidida e bélica; Hudson, com um brilho cínico e homicida nos olhos.
— Bem, bem, Cliff. Pelos vistos, tens várias vidas como os gatos. Eu juraria que não há muito tempo te deixei morto na pradaria.
— Julgaste isso, mas não foi assim. E agora vais responder por aquela façanha, Lloyd, mas de cara a cara.
Hudson deitou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.
— Não sejas estúpido, Cliff. Isso é que sempre te perdeu, seres um sentimental. Que necessidade tinhas de te pores contra nós no assalto de Clarenceville? Escrúpulos... Ora! Já te disse que eu castigava os traidores com a morte, e se então não consegui acabar contigo, desta vez verificarei bem que não te resta um sopro de vida. Nas pupilas de Cliff havia um brilho perigoso.
— Não estejas tão seguro disso, Lloyd. Não tens perto nenhum dos teus homens para te ajudarem, e não sabes qual de nós dois é o mais rápido com o revólver. Hudson fez um gesto de desprezo.
— É o que menos me preocupa, porque não sou tão imbecil que corra riscos desnecessários. O importante é que vou matar-te.
Riu-se, acrescentando em tom trocista:
—Lembraste-te de contar os tiros que disparaste? Contei eu, e posso garantir-te que foram cinco. Tens o revólver descarregado. Compreendes o que isso significa?
Cliff, num gesto instintivo, abriu o tambor do seu revólver. Os seus olhos, assombrados, verificaram que as cápsulas estavam vazias. Num instante, compreendeu o que isso significava. Estava à mercê de Hudson, inteiramente nas suas mãos, o que queria dizer que a sua morte era certa. Hudson voltou a rir-se ruidosamente.
— Pobre estúpido! Sempre tiveste o maldito defeito da nobreza e isso é que vai acabar contigo. Imaginavas que eu ia arriscar-me sem estar completamente seguro de que não tinhas a mínima possibilidade de sair triunfante? De propósito te fiz gastar as balas para não poderes disparar contra mim!
Cliff estava sucumbido. Aquele homem era um diabo astuto e perigoso como uma víbora. Uma vez mais com o seu engenho maléfico o tinha à sua mercê, e desta vez não saía com vida.
Maldisse-se a si próprio, por não ter a precaução de contar as balas gastas. Um ruído obrigou-o a voltar a cabeça. Nancy e Bobby, que sem dúvida ouviram toda a conversa saíram detrás do matagal. Hudson contemplou-os com certa surpresa.
— Ah! De maneira que estavas acompanhado —murmurou, fitando a rapariga da cabeça aos pés. — E pelo que vejo, muito bem acompanhado.
Cliff voltou-se para Nancy.
— Porque saiu donde estava? Era melhor que continuassem escondidos.
Bobby olhou para Hudson com descaramento.
— Não temos medo. Este senhor é um cobarde.
Lloyd fez uma careta.
— Depois conversarei contigo, meu ranhoso.
Nancy tinha o rosto muito pálido, mas estava serena e tranquila.
— Há uma coisa que eu gostaria de esclarecer—disse olhando para Hudson. — Você disse que durante o assalto a Clarenceville, Cliff se pôs contra vós. Que foi o que aconteceu?
— Não tenho inconveniente em dizer, preciosa —respondeu Lloyd com um mau sorriso. — Dizem que sempre se deve cumprir a última vontade dos condenados à morte. Quando atacámos Clarenceville, um grupo dos meus homens dirigiu-se para a escola a fim de a saquear. Cliff, de repente, teve um dos seus estúpidos arranques de humanitarismo e, temendo que morressem os alunos, o que era mais que provável, enfrentou sozinho os meus homens dando morte a muitos deles e facilitando a fuga de todos os pequenos. Foi uma traição, e eu elimino, seja como for, os traidores.
Nancy voltou-se para o jovem e fitou-o com os olhos húmidos, nos quais brilhava uma luz de emoção, uma centelha de infinito agradecimento.
— Cliff... — murmurou.
— Bom, já me entretive bastante — interrompeu-a Hudson. — Cliff, vou despejar o tambor do meu revólver no teu corpo, para ter a certeza de que desta vez, ficas bem morto. Será interessante ver até onde chega a tua serenidade.
O jovem continuou imóvel, enquanto viu na sua frente Hudson levantar o revólver donde haviam de partir as balas que poriam termo à sua vida. Não sentia medo algum, mas apenas um certo temor pela sorte de Nancy e de Bobby. Apertou os punhos com força, dispondo-se a morrer.

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