sexta-feira, 6 de abril de 2018

POL157.06 A morte invade a passagem dos Cem Guerreiros

O Desfiladeiro do Forno era conhecido pelos índios «navajos» do Deserto Pintado com outro nome. Tinha urna espécie de lenda que os peles-vermelhas sabiam de cor e que Igswon Odd ouvira contar uma só vez, anos antes, a um velho «mokis» que trabalhava nas terras do pai.
Em certa ocasião, indo à caça com o grande chefe «Águia Branca» passaram por ali em perseguição de uma peça valiosa, e o índio levou-o por uma entrada secreta. Agora, precisamente, recordava-se Igswon desse pormenor quase esquecido no arquivo da memória. O difícil seria descobrir esse buraco lôbrego, de acesso ao canhão.
Talvez Stephen Ewig e os seus homens nunca tivessem ouvido falar da entrada secreta para a Passagem dos Cem Guerreiros, nome que os índios lhe davam. No entanto, Igswon não compreendia bem por que motivo o cacique escolhera aquele local sem saída para aí estabelecer o acampamento.
O nome dado pelos índios àquele desfiladeiro tinha origem na lenda forjada por um grande chefe «navajo» da época da colonização, quando os primeiros brancos empurraram os índios para as montanhas, de onde logo também foram expulsos devido à ambição sem limite dos «rostos-pálidos».
Então, o grande chefe dos homens de cor era uma mulher. Chamavam-lhe «Raio de Sol». O último acampamento índio situara-se nas margens do «Grande Lago Salgado».

quinta-feira, 5 de abril de 2018

POL157.05 Valente, honrado e... bandido

Os cavaleiros camaradas de Igswon Odd alcançaram dentro de pouco tempo as carroças de Egor e das dez outras famílias que tinham abandonado Flown Rock. Uma vez chegados ao cruzamento para Salt Lake, esperaram cerca de meia hora, a fim de se reunirem a eles os animais trazidos da casa do falecido Yaim Swan, cuja mulher e filhos fugiam à vingança de Ewig.
Quando Matt chegou, reiniciaram a marcha, agora lenta, por causa do passo menos vigoroso das mulas que puxavam os carros. O sol concluíra o seu reinado de luz naquele dia. A noite alargava-se nos prados. Muito em breve as estrelas dominariam a abóbada celeste.
O ar vindo das montanhas do Norte já era fresco. O firmamento apresentava uma estranha cor violácea. Os habitantes de Utá sabiam o que significava isto: na manhã seguinte, os altos picos das Rochosas mostrar-se--iam já vestidos de branco.
Aquele ano o Inverno tardava a aparecer. Agora começava o tempo pior para os mórmones. O frio e a neve principiariam a bater os montes e as planícies com o acompanhamento de ventaneira. As pessoas só saíam de casa quando era indispensável. E muitos dos que saíam não voltavam mais, perdidos na neve ou despenhados em barrancos.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

POL157.04 O rapto de Agar

O cavalo irrompeu como enlouquecido no vale dos proscritos e continuou galopando até chegar junto da tenda ocupada por Igswon Odd. «Unha Curta» deu um salto incrivelmente ágil para um homem da sua idade e ficou parado em frente da porta, com os braços cruzados sobre o peito.
Quase no mesmo instante, a pele que cobria a entrada da tenda afastou-se e apareceu Igswon.
— Que se passa, «Unha Curta»? Creio ver nos teus olhos uma nuvem de luto e pelo suor do teu cavalo sei que galopaste desenfreadamente para chegar aqui. Fala!
O índio examinou com olhar grave o interlocutor. Igswon Odd mantinha-se impassível, mas «Unha Curta» sabia ler no rosto dos seus irmãos de raça, e o jovem Odd, se bem que tivesse sido criado com eles, não era tão perito na arte da impassibilidade. O «mokis» adivinhou que Igswon ardia em curiosidade de saber o que teria acontecido. De resto, o jovem Odd, conhecendo-o bem, sabia-o incapaz de efetuar uma galopada daquelas sem haver um motivo imperioso para isso.
Quase não moveu os lábios ao falar:
— A tempestade ruge nos ouvidos de «Unha Curta». Os trovões das «canas de fogo» estão retumbando na casa de Yaim Swan, porque os guerreiros de chefe Ewig têm ouvidos compridos e sabem que falaste com Agar.

terça-feira, 3 de abril de 2018

POL157.03 Nem o veneno da artemísia os fez parar

Avançavam os três cavaleiros como sombras. O que ia à cabeça vestia de preto e preta era também a montada. O luar, quando ele passava em planuras, dava-lhe no rosto arrancando lampejos às suas pupilas. Atrás, os outros jovens cavalgavam inclinados sobre as crinas dos animais para lhes aliviarem o peso.
Não falavam. A missão que pretendiam levar a cabo não requeria palavras. Já as tinham dito: «Guess deve morrer.» Iam cumprir esse imperativo de justiça inexorável.
Durante algum tempo continuaram ainda por desfiladeiros e quebradas, até que finalmente começaram a atravessar os campos de artemísias floridas.
O aroma das flores brancas e amarelas embriagava-os. Apressavam-se a deixar aquelas paragens. A artemísia, durante a noite, é muito perigosa, porque o seu perfume entontece as pessoas e destempera os nervos. Isto na época da florescência. Os índios usam-na medicinalmente. Secam as flores de centro amarelo, cozem-nas e ingerem-nas como remédio para várias doenças. Mas sabem que se alguém dormir num campo de artemísias poderá despertar com o Juízo transtornado pelo veneno que provocam.
Deixados para trás esses campos, os três cavaleiros entraram nos cultivados. Agora o luar vestia-os de prata e alongava as suas sombras na verdura. De tempos a tempos, viam milho e arbustos com frutos sazonados.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

POL157.02 Um rebelde com a cabeça a prémio

Stephen Ewig, montado no magnífico alazão, contemplava a cena sem que um só músculo da sua face tostada revelasse o menor sintoma de emoção. Dir-se-ia que era uma estátua de pedra, insensível. Mas o brilho cruel dos seus olhos desmentia a suposição, dando-lhe ao rosto uma expressão diabólica.
A praceta estava pouco menos que deserta. Apenas dez pessoas compunham o quadro selvagem que se desenrolava perante o olhar de Ewig, enquanto o chicote assobiava, traçando velocíssimos ziguezagues no ar e caindo sobre as nuas costas do homem amarrado ao poste de tortura.
Wohim, o ancião pastor de Flown Rock, tinha caído na desgraça de Ewig desde que alguém viu sair de sua casa o filho de Odd. Isto aconteceu um mês antes, mas nessa manhã o primogénito de Wohim partira para a montanha, a juntar-se aos homens de Igswon. Ninguém tornara a ver o jovem Odd, mas todos sabiam que, depois de lançar o repto a Ewig, estava recrutando gente e já contava com alguns dos muitos mórmones que tinham fugido para a montanha, a fim de não caírem sob o chumbo dos de Ewig.
O chicote continuava a flagelar as apergaminhadas costas do ancião. A esposa e as duas filhas choravam, a poucos passos, obrigadas a assistir ao bárbaro espetáculo. Wohim não professava a religião de Young, mas a cristã e por isso tinha uma só esposa e não duas ou mais como é costume entre os mórmones.

domingo, 1 de abril de 2018

POL157.01 O mormon educado pelos navajos

Igswon Odd deteve o cavalo em frente dos restos, ainda fumegantes, da casa dos pais. Os seus olhos pardos contemplaram a cena. Apertou os dentes com força e cerrou os dedos nas rédeas até lhe doerem.
Desmontou devagar e aproximou-se do braseiro, sentindo ardor na tez morena. Assim permaneceu longo tempo, como estátua de bronze, insensível à dor provocada pelo rescaldo do incêndio, na pele e nos olhos.
Tinha chegado excessivamente tarde para sequer intervir na luta. A chamada do pai atrasara-se, Igswon Odd não pôde deter ou contrariar o atentado criminoso. Agora tudo estava consumado.
Sentiu passos à retaguarda. Não se voltou. Parecia petrificado pelas reflexões, com o pensamento posto na grandeza da tragédia. A voz chegou-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe:
— Igswon Odd...
Lentamente, foi-se voltando. Os seus olhos pardos cravaram-se no homenzinho que se mantinha a alguns passos dele. Perguntou-lhe:
— «Unha Curta», como sucedeu isto?