terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

PAS842. O vaqueiro que viu o que não devia

— Diabo! O frio está a chegar.
O vaqueiro olhou para o céu. Nem uma só nuvem empanava o brilho da atmosfera. Estava-se quase a meio de Novembro e os homens, durante o dia, continuavam a ir trabalhar para os campos em mangas de camisa, raro naquela época do ano. À noite, porém, o caso mudava de figura. O ventinho gelado que descia das Montanhas Rochosas furava até os ossos.
Agora, inopinadamente, o vento parecia ter rodai vindo do Norte. Lije Murdock deu a sua observação por terminada. O tempo regressava à sua normalidade, trazendo o frio quando lhe competia... embora com pouco de atraso.
Dispôs-se a regressar a casa, pois a sua missão est cumprida. Viera verificar como se encontravam os a mais e vira que, felizmente, quase não se haviam mexi do mesmo sítio. Antes, contudo, resolveu dar uma vista de olhos para o caso de se ter perdido alguma rês em qualquer ravina.
O vento do Noroeste soprava com maior força ali em cima. Lije procurou proteção, refugiando-se atrás de um penhasco. Não descortinava qualquer animal... Afinal, pareceu-lhe ver um.
Olhou com mais atenção. Que diabo faria uma vaca a descer por ali?
Não. Claro que não! Afinal era um cavaleiro, que quase a seguir identificou como sendo Sammy Eden, o ruivo da quadrilha. Agora já não lhe restava a menor dúvida que era ele.
Encolheu os ombros, como se tivesse perguntado a si mesmo que andaria ele a fazer por ali e tivesse concluído que isso pouco lhe importava. Talvez o chefe o tivesse mandado fazer algum reconhecimento.
Começava a arrefecer deveras. Em menos de meia hora a temperatura tinha descido desalmadamente. Quando atingiu a planície pôde observar como as vacas se colocavam de costas para o vento, procurando defender-se dos seus embates.
— Muito ides sofrer este Inverno, pequenas — comentou para si próprio, ao mesmo tempo que esporeava o seu cavalo para ir ao encontro de Sammy, um pouco mais além. — No Texas, não estáveis habituadas a estas coisas...
Olhou uma vez mais para o céu. Parecia que uma densa neblina, trazida pelo vento, o ia encobrindo. O próprio Sol perdera muito do seu fulgor e, em determinados momentos, era possível olhar para ele.
— Mau, mau — murmurou de novo. — Receio bem que o Inverno se faça anunciar por um nevão de categoria.
Procurou Sammy com a vista, estranhando ainda não o ter visto aparecer do lado do leito da torrente. Esse era o caminho mais indicado para regressar ao rancho.
Incitou a sua montada. O outro parecia não ter a mínima pressa, o que de resto pouco lhe adiantaria enquanto percorresse aquele tortuoso carreiro. Por fim, atingiu o mesmo ponto que ele e, aproximando-se cuidadosamente do bordo da ravina, gritou:
— Ei, Sammy! Onde pensas tu que vais?
Eden levantou a vista, nitidamente sobressaltado. Deu um violento sacão nas rédeas e pareceu mesmo que ia puxar pelo revólver. Porém, não o chegou a fazer.
— Olá, Lije! Vou por aí... — respondeu vagamente.
— Está um frio dos diabos, rapaz. Começou tarde, mas parece decidido a recuperar o tempo perdido. Vamos para casa e deixa-te de passeios!
— Tens razão — concordou Sammy, sorrindo. — Espera aí que eu já subo.
Lije fez o que o outro lhe pedia. O leito da torrente tinha muitos braços por onde as enchentes estivais arrastavam as férteis terras circundantes. De repente viu aparecer Sammy, que acabava de trepar por um deles.
— Que diabo fazias por estas bandas, camarada? —perguntou, ao mesmo tempo que dirigia o cavalo para o seu lado. A pergunta fora feita, não por desconfiança, mas por simples curiosidade. — Julguei que Jeff te mandara a... Não, Sammy! Que vais fazer...?
A sua frase ficou a meio, cortada pelo estampido dum tiro. Lije Murdock, ainda com a incredulidade estampada nos seus olhos ingénuos, levou a mão ao peito, ao mesmo tempo que caía para trás, projetado pela bala que acabava de encaixar. Pete, assustado, encabritou-se, ajudando a queda.
Estendido no solo, fazendo apelo às últimas forças, o vaqueiro apenas pôde murmurar:
— Por... quê, Sam... eu? Por... quê...?
O ruivo sorriu cruelmente do alto do seu cavalo, ao mesmo tempo que soprava o fumo da boca do cano do revólver.
— Porque — ripostou, embora o seu companheiro já o não pudesse ouvir — assim não poderás contar a ninguém que eu não estava onde me tinham mandado. E porque assim ninguém suspeitará que sou eu quem informa Fred de todos os vossos movimentos.
Dito isto, substituiu calmamente o cartucho por outro que tirou do cinturão, e seguiu o seu caminho.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PAS841. Suspeitas sempre suspeitas

Dan Withers olhou com o rosto carregado para o irmão. Jeff, que não apresentava estar com melhor disposição, contemplava os cadáveres queimados dos dois mexicanos, os quais haviam sido transportados para dentro da cabana, agora sem teto.
Felizmente, o incêndio inutilizara apenas aquela vertente. Dois outros pastores, que se encontravam não muito distantes, tinham ouvido os tiros e, embora a sua chegada se tivesse verificado muito depois da partida dos vândalos destruidores, tinham conseguido dar o alarme a tempo de comparecer o resto do pessoal e impedir que fogo ganhasse proporções catastróficas.
Tinham perdido toda a noite, mas o perigo fora debelado.
— Não resta a menor dúvida — exclamou Jeff, como se estivesse a falar consigo próprio. — São os irmãos Miguel e Alberto.
Os punhos cerraram-se-lhe num sinal de cólera mal contida. Dan observou:
— Isto é apenas o princípio, Jeff, uma espécie de aviso. Neste vale, as ovelhas apenas podem trazer desgraças... e as que conseguirem sobreviver a estas fatalidades, morrerão geladas no Inverno.
Jeff voltou-se vivamente para ele.
— Quem te disse isso?
— Mae. Como sabes, encontro-me todos os dias com ela. Tanto o seu pai como os outros criadores de gado afirmam que as ovelhas são demasiado débeis para resistirem aos tremendos frios destas altitudes.
— E, na dúvida, vão arranjando as coisas de maneira que nenhuma exista nessa altura, ficando assim por provar a veracidade ou falsidade da sua afirmação — acusou a bandido, furioso.
— Não foram eles, Jeff, podes ter a certeza.
— Ainda os defendes?
— Sou amigo deles... ainda que não me considerem como tal. Os que atiraram as ovelhas para o precipício e assassinaram os pastores pertencem ao bando de Weser.
— E por que não de Leigh, por exemplo? Seria aperra a continuação do que se passou outro dia no forte.
— Não são desse género. O que eles temem é que rio ovelhas esgotem o pasto dos nossos terrenos particular» e depois as levemos para os prados comunais. Daí a invadirmos as suas próprias terras, seria apenas um curto passo...
— Não chegaremos a tanto — interrompeu-o o irmão — Quando as trouxe para cá, sabia perfeitamente o que fazia e o terreno de que podia dispor.
— Nisso, estou de acordo contigo. Não há dúvida de que estes animais conseguem alimentar-se em terrenos onde não se daria o gado vacum, e que, portanto, não há previsão de os misturar. Por outro lado, se os mudarmos com frequência, nunca chegarão a esgotar a sua alimentação. Mas os rancheiros receiam outra coisa... e eu também...
— O quê?
— Que nos vejamos obrigados a levar as ovelhas a beber nos locais onde habitualmente o fazem as vacas. Mas, depois, recusar-se-iam a beber aí, porque detestam o cheiro das ovelhas,
— Mas a verdade é que ainda não fizemos nada disso. Se essa altura chegar, então veremos.
Jeff tinha resposta pronta para tudo. Em igualdade de situações, Dan estava convencido de que se comportaria exatamente do mesmo modo. E a prova é que estava a tentar criar simultaneamente as duas espécies de gado no seu rancho. Mas seria ele capaz de convencer igual-utente os seus vizinhos... sobretudo levando em conta que eles nem sequer se dignariam escutá-lo?
— Parece que te informaste muito bem acerca de tudo quanto é necessário para a criação destes bichos —observou.
— Não tenhas a menor dúvida — afirmou Jeff, com um sorriso nos lábios. — Sou a pessoa mais entendida nesta matéria deste lado do Rio Grande. E também sei limitas coisas mais. Por exemplo: dar uma lição àqueles que me mataram dois homens e cerca de um milhar de ovelhas, ensinando-os a não repetirem a graça.
— Como?
— Isso é segredo, Kid. É melhor que ignores esta parte das minhas atividades, para evitares desgostos.
— Proíbo-te que ataques Johnson, Leigh, ou qualquer dos outros.
— Os teus amigos podem estar tranquilos... se de facto estiverem inocentes. Angel! — gritou, voltando-se para um dos pastores que andavam por ali. — Tratem de recolher as ovelhas que ficaram em condições. As restantes, matem-nas. Conviria também lançar os cadáveres num fosso para evitar que empestem o ar quando entrarem em decomposição. As aves de rapina e os coiotes não conseguirão fazê-las desaparecer a tempo de evitar que a atmosfera fique irrespirável.
Angel escolheu três ou quatro companheiros e lançou-se imediatamente ao trabalho. Os restantes, depois colocarem os corpos de Alberto e Miguel Sánchez em cima de uns cavalos, regressaram ao rancho para descansarem, exceção feita para aqueles que tinham outra tarefas urgentes.
Pelo caminho, Tusky Benson, que desempenhava o papel de segundo capataz — o primeiro era o próprio Jeff — foi indicando as enormes medas de feno que estavam a armazenar, prevendo que a neve impedisse durante algum tempo a pastagem normal dos animais.
— Não te parece que já temos o suficiente? — perguntou Dan. — O Inverno promete não ser muito rigoroso. Já nos encontramos em pleno Verão índio, e ainda nem sequer caiu a primeira geada.
 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

PAS840. Ovelhas para a morte

— Ouviste, Miguel?
Ao mesmo tempo que pronunciava estas palavras, Alberto Sánchez pousou a mascarrada cafeteira numa pedra da lareira, erguendo-se. Embora estivesse muito longe de ser alto, mesmo assim tocava com a cabeça na ramagem que cobria a pequena cabana, fazendo de telhado.
— Ouvi, sim — respondeu o irmão. — Talvez seja algum coiote.
Um dos seus cães, que se havia introduzido sub-repticiamente na casa, espetou as orelhas ao mesmo tempo que arreganhava os dentes, rosnando ameaçadoramente. Vendo que Miguel empunhava o revólver, acompanhou-o, colado às suas pernas.
Alberto, depois de atirar mais uns ramos para o lume, seguiu-os.
Os outros três cães, atados a um toco de árvore, latiam furiosamente. Um deles deu um violento esticão na corda que o prendia, sem, no entanto, conseguir libertar-se.
Os dois mexicanos entreolharam-se no meio da escuridão.
— Não será um puma? — alvitrou Miguel, pouco tranquilo.
— Vamos ver. Vem cá, Cholo!
O único cão que estava solto começara a afastar-se, mas acorreu obedientemente ao chamamento, embora sem deixar de rosnar ameaçadoramente. Não podia haver a menor dúvida de que algo de anormal se estava a passar um pouco mais abaixo, no local onde tinham reunido os seus dois rebanhos.
— Solta os outros cães, Alberto. Eu vou andando.
O mais novo dos dois irmãos começou a avançar, enquanto Alberto voltava para trás a fim de fazer o que lhe tinha sido pedido. Porém, mal pusera as mãos no pescoço do primeiro cão, ficou imóvel como uma estátua. Nas suas costas acabava de fazer-se ouvir a inconfundível voz de um gringo:
— É melhor que não te mexas, Alberto. A minha arma está apontada para ti.
— Senhor Fred! — exclamou o mexicano ao reconhecer-lhe a voz. E com' esse reconhecimento acabava de assinar a sua sentença de morte, ainda que as anteriores intenções do assaltante pudessem ter sido outras.
Mas não para já... Ainda havia o outro que se afastara e, portanto, não podia descobrir imediatamente o jogo.
— Afasta-te dos cães... e com as mãos no ar. Se fores bom rapaz, não te acontecerá nada.
Os irmãos Sánchez eram ladrões, e talvez pior do que isso. Mas o que ninguém podia negar era que manifestavam uma fidelidade canina em relação a Jeff Withers que, num dos seus raros momentos de bondade, os havia a salvado de perecerem sob as patas de uma tresloucada manada de gado... que ele mesmo acabara de roubar.
Desde aí, pouco faltava para que beijassem o sítio onde ele punha os pés.
Não era, pois, de admirar que Alberto Sánchez estivesse mais disposto a deixar-se matar do que a permitir que alguém tocasse numa só ovelha do patrão. E ele estava certo de que Fred, despeitado por ter sido expulso, procurava fazer algo de prejudicial para os animais.
Aproveitando a escuridão, ergueu-se rapidamente. Tinha o revólver no cinto, onde o colocara para soltar os cães, mas era mau atirador, facto que não ignorava. Por isso, deitou a mão à afiada faca.
O seu braço recuou, preparando-se para lançar a cintilante lâmina. Mas Fred, que o conhecia perfeitamente, vendo o seu gesto e divisando o brilho do aço iluminado pelas estrelas, atirou imediatamente. Apenas uma vez.
Alberto nem chegou a aperceber-se do que lhe acontecera. A bala perfurou-lhe o crânio, impedindo o cérebro de emitir as ordens necessárias para que a faca se fosse cravar no coração de Fred.
O estampido do tiro cortou o silêncio da noite, ouvindo-se ao longe, embora não tanto que atingisse o rancho de Withers. Miguel, pelo contrário, ouvira perfeitamente a detonação. Regressara a correr, preparando-se Cholo para se lançar temerariamente contra o assassino do seu dono.
Porém, Fred não estava só. Ocultando-se com a noite, estavam emboscados Smiley e mais quatro indivíduos. Cão e pastor caíram crivados de balas antes de chegarem a constituir qualquer perigo para o malfeitor.
— Despachem-se, rapazes! — apressou Fred. — Fizemos muito barulho e passaríamos um mau quarto de hora se nos apanhassem aqui. Smiley! Prega um tiro em cada um desses cães!
— Para quê? — perguntou o outro.
— Imbecil! Trata de fazer o que te digo! Ou preferes que amanhã sigam o teu rasto e vão dar contigo na cama? Tu, Red! Vai buscar os cavalos e espera-nos ali em baixo.
Quando Red voltou com os cavalos, já os outros, sob a direção de Fred que era quem melhor conhecia os animais com que estavam lidando, os estava empurrando eu, determinada direção. Uma vez a cavalo, deitaram fogo a uma bolas de resina que pendiam de cordas e, fazendo-as revolutear, espalharam o pânico entre as ovelhas que fugiam.
A perseguição prolongou-se durante cerca de cinco minutos. Alguns animais conseguiram escapulir-se, mas a maior parte continuava a correr sempre em frente, procurando afastar-se daqueles monstros de fogo que os acossavam por todos os lados.
Loucas de terror, as ovelhas que iam à cabeça não repararam que, de repente, o solo desaparecia na sua frente. Um concerto de aflitivos balidos rasgou o ar quando os animais se precipitaram no abismo. As poucas que se aperceberam do perigo, empurradas pelas de trás, não o conseguiram evitar. Em poucos segundos, cerca de mil ovinos desapareceram no precipício.
— Pronto, rapazes — comandou Fred, exibindo os dentes num sorriso de satisfação. — Voltemos para casa.
Algumas das bolas de resina incendiadas haviam-se soltado quando as cordas que as prendiam se tinham queimado. Num ou noutro ponto das matas começava a irromper o fogo, originando pequenos incêndios. Os cavaleiros, porém, não se preocuparam nada com este facto., o rancho deles não corria o menor perigo.
Cinco minutos mais tarde, apenas se ouviam no local os lamentosos balidos das ovelhas que não tinham perecido na terrível queda. Os cadáveres de dois homens e quatro cães jaziam no solo, ilustrando um exemplo de lealdade recompensada a tiro.
O fogo, que primeiro se estendera lentamente para depois alastrar com crescente rapidez, completava este cenário macabro...

sábado, 3 de fevereiro de 2018

PAS839. Roubo de milhares de ovelhas com fuga

— Depressa, rapazes! Temos muito que andar antes que caia a noite!
Quem assim falava era um homem alto, moreno, de rosto aquilino, ao qual dois olhos negros davam uma expressão de implacável crueldade. Rodeava-o uma dúzia de indivíduos de feições muito diversas, mas possuindo todos em comum com o seu chefe o aspeto decidido de quem sabe o que quer e para aonde vai.
— Não me está a agradar muito a questão, Jeff — objetou Tusky Benson, acomodando o seu anafado corpo em cima da sela. — Isto é algo de novo...
— Precisamente, Tusky — interrompeu Jeff Withers, sorridente. — É mesmo o que tem de bom: é novo... e, portanto, mais proveitoso.
— Não vai ser fácil esconder estes bichos... — disse ainda Benson, hesitando.
— Está tudo bem arquitetado. Deixa as coisas correrem como se planeou e verás como tudo desliza sobre rodas.
Tusky Benson calou-se, contemplando o enorme rebanho de ovelhas que, no meio de uma densa nuvem de pó, ia entrando no desfiladeiro. Ao lado e atrás, vários mexicanos a cavalo tocavam os animais para os obrigar a dar o máximo de velocidade possível.
Começava a amanhecer. As primeiras palavras que Jeff Withers havia pronunciado traduziam a simples realidade: tinham muito que andar antes de começar a anoitecer, uma vez que pensavam manter os animais em marcha contínua durante todo o dia, a fim de se afastarem o mais possível daquelas paragens.
As últimas ovelhas e os seus condutores desapareceram num cotovelo do caminho, mas Jeff Withers e os que o acompanhavam permaneceram no mesmo sítio, olhando agora para trás, para o caminho já percorrido.
Pacientemente, aguardaram durante cerca de uma hora.
— Estão a demorar mais do que tínhamos calculado — observou Tusky. — Crês que morderão a isca?
— Forçosamente. Pensa que, até agora, não têm qualquer razão para desconfiar de uma armadilha. As ovelhas e os que as levaram passaram por aqui. Se as querem recuperar, têm de segui-las.
— Parece que estão a chegar — avisou um dos componentes do grupo, estendendo o braço na direção do fundo do vale que se desenrolava ante eles.
Withers e os restantes companheiros observaram atentamente o pequeno grupo. Eram apenas seis ou sete homem. Jeff abanou a cabeça, discordando:
— São muito poucos para nós... e isso não nos convém. Segue para a frente, Tusky, é vai colocar-te no lugar combinado. Aguardem ali. Eu me encarregarei de entretê-los até que se lhes reúnam os reforços que certamente enviaram a pesquisar nas proximidades. Não te impacientes, pois o mais certo é demorarmos um bocado.
Benson acenou afirmativamente e, fazendo um sinal, levou consigo metade do grupo. Em breves segundos desapareceram da vista, no mesmo cotovelo que ocultara as ovelhas momentos antes.
Jeff e os que ficaram com ele instalaram-se comodamente atrás de uns penhascos, esperando que aparecessem os perseguidores.
Estes tiveram o primeiro indício de haver encontrado os ladrões de gado antes do que esperavam, ao receberem uma descarga que lhes derrubou imediatamente dois homens. Os restantes, após um curto período de confusão, trataram de responder ao tiroteio, embora com mais entusiasmo do que pontaria.
Whithers ria com vontade, imaginando a raiva de que deviam estar possuídos os seus inimigos ao pensarem que estavam ali imobilizados no fundo do desfiladeiro, enquanto as reses se afastavam cada vez mais.
— Já sabes o que há a fazer, Fred — lembrou ao homem que estava a seu lado. — Logo que cheguem os reforços, desandamos. Tusky se encarregará de os deter, quando atingirmos o ponto onde ele se encontra.
Mas a esperada ajuda tardou quase duas horas... e eram apenas uns doze ou catorze vaqueiros. Withers e os seus companheiros escaparam-se sem que ninguém os pudesse deter.
O obstáculo seguinte foi o grupo de Benson...
E, quando a noite chegou, os perseguidores não se encontravam mais perto dos animais roubados do que no início da caçada.
Jeff Withers ria até mais não poder.
Com grande assombro dos criadores roubados, a manhã seguinte trouxe-lhes outra desagradável surpresa: ao alcançarem o local onde os animais tinham passado a noite, foram obrigados a verificar que, constituíam agora dois rebanhos... e que cada um tinha partido em sua direção, perdendo-se no dédalo de desfiladeiros e barrancos que constituíam a região.
Brett Sanders, o criador vítima do roubo, agitou o punho num gesto encolerizado, mas sem esperanças. Indeciso, o seu capaz aproximou-se.
— Que vamos fazer agora, patrão? — inquiriu.
— Que vamos fazer? Pois só vejo uma solução; dividir-nos-emos em dois grupos e continuaremos a perseguição.
O outro abanou a cabeça, discordando.
— Isso, provavelmente, é o que eles esperam que nós façamos. Se nos dividirmos, ser-lhes-á mais fácil armar uma emboscada a um dos grupos, aniquilando-o, fazendo depois o mesmo com o outro. Isto feito, poderão voltar a reunir as ovelhas e seguirem calmamente o seu caminho...
— Julgas que não pensei o mesmo? — interrompeu-o Brett, com amargura. — E se não fizerem isso, voltarão a dividir o rebanho uma e outra vez, obrigando-nos a abandonar animais se quisermos prosseguir unidos. No fim, permitir-nos-ão recobrar uma ou duas dúzias de ovelhas... e ainda temos de nos dar por satisfeitos.
— Mas se continuarmos juntos talvez possamos ir seguindo sempre o grupo maior. Até se pode dar o caso de os apanharmos menos atentos e conseguirmos capturar algum.... Obrigá-lo-íamos a dar com a língua nos dentes — contrapôs o capataz.
Brett encolheu os ombros. No seu entender o resultado seria o mesmo, mas a maior experiência do capataz pesou na sua decisão: ficou estabelecido continuarem unidos, dando por perdido metade do rebanho.
— Se por acaso deito a mão a algum, pendurá-lo-ei na primeira árvore que encontrar, ainda que isso me custe perder a outra metade do rebanho — prometeu a si próprio em voz baixa.
Passaram-se dias e dias naquela infindável perseguição. Uma vez por outra os ladrões de gado opunham--lhes uma certa resistência, anulando qualquer pequena vantagem que houvessem conseguido. De tempos a tempos verificavam uma nova bifurcação no rasto.
Jeff Withers continuava a divertir-se, embora não deixasse de admirar a tenacidade daqueles homens. Chegou mesmo uma altura em que o seu maior desejo era evitar ferir qualquer deles.
— São valentes — comentou uma noite. — E teimosos. O grupo de animais que perseguem não excede uma centena... o que eles não ignoram. Que esperam, pois, conseguir? Ainda que os recuperem, para pouco lhes servirá. Estou a pensar em abandonar-lhos.
E assim se fez. Brett Sanders regressou ao seu «rancho» no sul do Novo México com setenta e nove ovelhas das cinco mil que lhe haviam roubado. Durante a perseguição perdera cerca de um mês, e três dos seus peões, atravessando Black Range até penetrar em pleno Arizona através das Gila Mountains... Certamente ignorava até onde tinha chegado dentro deste território.
Entretanto, Jeff Withers rumou diretamente para o Norte, em direção a Utah, deixando que os animais se deslocassem num andamento mais de acordo com as suas possibilidades e que lhes permitisse recomporem-se das marchas forçadas a que haviam sido sujeitos. Semanas depois alcançou um pequeno vale onde o aguardava um milhar de esplêndidos exemplares de gado vacum. Ali despediu parte do seu pessoal — homens recrutados exclusivamente para transporte e tratamento dos animais —e, com os restantes, todos eles veteranos da sua quadrilha e de inteira confiança, desapareceu para o mundo.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

BIS151. Chumbo na neve

 
(Coleção Bisonte, nº 151)
 
 

Muitas foram as histórias forjadas em torno da lendária figura de Jeff Withers — seu nome verdadeiro —aliás Leo Humphrey, aliás Kid Anson, aliás... A lista seria interminável, do mesmo modo que o eram as suas inúmeras façanhas que, de comum, apenas tinham uma posição permanentemente oposta à da Lei: roubo à mão armada em todas as oportunidades, desde o assalto a bancos, a diligências ou a um criador de gado bem instalado na vida; homicídio em qualquer dos graus; incêndios; raptos...
Infindáveis são ainda as versões que descrevem o modo como acabou a sua vida de bandoleiro. Há quem afirme que foi gravemente ferido num dos seus múltiplos trabalhos, e que a sua quadrilha o abandonou numa ignorada gruta das montanhas, para que se esvaísse em sangue; outros garantem que se retirou para o México para desfrutar pacificamente as suas mal adquiridas economias, mas que morreu numa rixa de taberna; outros ainda defendem a teoria de que terminou os seus dias na cama, cercado pela esposa mexicana e cinco filhos, os quais ignoravam a proveniência da sua fortuna.
Nenhuma destas explicações corresponde à verdade. Ao apropriar-se -das cinco mil ovelhas de Brett Sanders e das mil cabeças de gado bovino de um criador californiano cujo nome se desconhece, Jeff Withers pretendia apenas vir a estabelecer-se como criador misto. Não tinha qualquer outro plano ulterior, exceto o abandono de toda e qualquer catividade criminosa... possivelmente até que voltasse a surgir uma tentação demasiadamente forte. De modo algum estava arrependido das suas façanhas passadas.
Com o produto do seu roubo, escondeu-se no rancho do irmão, Dan Withers, o qual estava numa situação de ruína provocada por uma companhia que lhe pretendia ficar com as terras. A presença das ovelhas veio ainda piorar o ambiente relativamente a Dan e a situação foi resolvida com chumbo e sangue empestando a neve…