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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

PAS677. Um copo de leite para o pistoleiro

Herbert Sidney, acabado o jantar no andar superior, descia agora ao balcão em busca do dono do estabelecimento... e de mais qualquer coisa que pelos vistos lhe faltava.
Herbert Sidney fez o seu pedido numas palavras que foram ouvidas por quase metade dos clientes do «saloon», apesar de a sua voz não se ter elevado absolutamente nada. Mas, tais palavras provocaram naqueles ouvidos e naquele sítio o efeito de uma viola num enterro ou de um grosseiro palavrão numa reunião de damas da Liga contra o Alcoolismo.
— Um copo de leite, por favor — foi o que Sidney pediu, com a maior naturalidade.
A mandíbula do «barman», ao ouvir aquele pedido, descaiu como se todos os tendões e fibras da sua cabeça se tivessem negado a cumprir a sua missão. Ficou imóvel, com o copo vazio na mão e o trapo com que o limpava na outra.
— Que... que disse o senhor? — gaguejou.
— Não me ouviu? Pedi-lhe um copo de leite.
O homem que se encontrava atrás do balcão saiu do seu pasmo ao escutar de novo aquela palavra que parecia fatídica. Atuou, então, com uma rapidez assombrosa, apercebendo-se da bomba que aquele homem tinha lançado no local sem o saber. Pousou o copo e o pano numa prateleira debaixo do balcão, aproximou-se de Herbert Sidney e, elevando-se na ponta dos pés, aproximou os lábios do ouvido do cliente.
— Por favor, por favor! — suplicou, alarmadíssimo. — Não volte a pronunciar aqui essa frase...
Mas, o outro, como se fosse curto de entendimento ou não desse pelos risos de escárnio e ditos obscenos que enchiam o salão, voltou a dizer, sendo cada uma das suas palavras como que uma cacetada na cabeça do dono do «Ás de Ouros»:
— Que se passa? Pedi apenas um copo de leite... Tenho por costume tomar um antes de me deitar...
O homem cerrou os olhos, como se visse desabar sobre ele as vigas do tecto. E, entre os comentários de mofa dos clientes, a voz de Jess Dumond elevou-se por cima de todos.
— Eh! Pombinho! — gritou. — Porque não experimentas beber um copo grande do mata-ratos que vendem aqui? Garanto-te que Morfeu acudirá veloz ao teu leito.
Sidney não lhe deu ouvidos. Crems, a uns passos de distância, fazia-lhe sinais para que desaparecesse... Porque havia de o fazer? Só porque um embriagado como aquele lhe tinha dito uma idiotice?
Jess, por seu lado, ao ver que o sujeito parecia ignorá-lo, pegou na garrafa que tinha à sua frente e, cambaleando, aproximou-se de Herbert.
— Será possível que não me tenhas ouvido, bonitão do Este? — disse, com voz pastosa. — Convidei-te a beber um copo do que bebem os homens.
— Que diabo quer você? — replicou Sidney, aborrecido. — Afaste-se e não me incomode.
Jess lançou à cara do outro uma gargalhada misturada com uma baforada de vapores de uísque. Depois, pegando num copo, o maior que encontrou à mão, encheu-o completamente do conteúdo da garrafa.
— Vamos, amigo, eu convido-te — disse.
Herbert olhou de soslaio para aquele indivíduo que parecia estar com vontade de brincar e a seguir para o copo que lhe apresentava.
— Agradeço, mas não costumo beber bebidas alcoólicas — replicou.
— Mas, desta vez, farás uma exceção — afirmou decididamente Jess.
Herbert Sidney vacilou. Começava a sentir-se ridículo perante a excitada multidão que se havia reunido à volta de ambos, curiosa pelo desfecho da cena.
— Já lhe disse que não bebo! — exclamou, de repente, num repentino impulso de ira que se havia apoderado de si mesmo.
Jess voltou a rir, extremamente divertido. Mas, subitamente, puxou do revólver e, abandonando o seu ar festivo, disse com voz arrastada:
— Bebe! Bebe ou abro-te a caixa dos miolos.
Sidney olhou fixamente para o ébrio e depois para o copo que este lhe impunha que bebesse. Acabou por ceder e estender o braço.
— Não tentes fazer batota — advertiu-o Jess. — Atirares-me o uísque aos olhos será assinares a tua sentença de morte, porque poderia meter-te algumas balas na cabeça com eles abertos ou fechados.
36
Sidney optou por beber. Aproximou o copo dos lábios e humedeceu-os.
— Bebe tudo! De um trago!
O elegante sujeito obedeceu. Sem respirar esvaziou o copo até à última gota. •
 Quando o deixou sobre o balcão, Jess voltou a enchê-lo divertido.
— Bravo, cavalheiro! — exclamou. — Portaste-te como um homem... Bebe este também.
Herbert Sidney mordeu o lábio inferior. Até quando iria durar aquela estúpida brincadeira? Estava a ser o alvo de todos os olhares trocistas dos clientes do «saloon» e o pior era que não tinha outra solução senão obedecer. O indivíduo estava no ponto máximo da embriaguez; todo o seu corpo se alquebrava por momentos; todo exceto a mão direita, que empunhava com firmeza o «Colt» que tinha à sua frente.
— Bebe de novo, pombinho! Verás que dentro em pouco começas a sentir sono.
Herbert voltou a pegar no copo e a beber. Aquilo sabia a demónios. Era uísque de péssima qualidade, a que não estava habituado. Parecia que a garganta se lhe pelava ao passar o líquido por ela.
Jess Dumond perdeu de repente todo o interesse que até então havia sentido por aquele homem. Agora, obedecia e isso não tinha graça nenhuma. Teria preferido que resistisse, que tentasse lutar... Mas, não; portava-se exatamente como um cordeirinho.
Indiscutivelmente, aquilo não tinha graça nenhuma.
Guardou o «Colt» no seu coldre e concentrou a atenção na garrafa que tinha à sua frente. Só lhe restavam dois dedos de líquido... Teria de pedir outra ao tipo com cara de morcego que estava atrás do balcão.
Sentiu, de repente, a desagradável pressão de qualquer coisa dura sobre os seus rins. Diabos! Quem ousava ameaçá-lo?
Voltou a cabeça e olhou para trás, sem mover um só músculo do resto do corpo. A sua surpresa não teve limites. O sujeito do Este apontava-lhe uma pistola que parecia um simples brinquedo e que ele havia sacado só o diabo sabia de onde!
Começou a rir estrondosamente. Herbert Sidney olhou-o sério e muito perfilado.
— Desejo que bebas — declarou. — Agora, convido eu.
— Muito agradecido -- troçou Jess. — Mas, não é necessário que te incomodes a retribuir-me o convite. Ainda me resta um bocado na garrafa.
— Mas, não é uísque precisamente o que eu pretendo que bebas — afirmou Sidney, impávido. — Quero que proves uns quantos deliciosos copos... de leite.
Jess deu um salto e fez um gesto de repugnância.
— Eh? — Cuspiu e perguntou depois: -- Leite?
— Leite, sim, senhor. Puro leite de vaca. — Dirigindo--se depois ao dono do estabelecimento e sem afastar a vista do homem a quem apontava a sua arma, falou: — Traga um copo de leite, rápido. Acabadinho de ordenhar, se for possível.
— Não... creio que... que haja de isso na minha casa — balbuciou Crems.
— Procure-o, então, na rua, mas depressa. Traga alguns litros.
O dono do «Ás de Ouros» afastou-se apressadamente, benzendo-se. Céus! Em que se havia metido o forasteiro!
Jess, entretanto, alarmou-se através da sua embriaguez. Seria possível que aquele janota se vingasse dele de maneira tão humilhante? Leite! Leite de vaca! Ufa! Não havia nada no mundo que lhe repugnasse tanto. Ele, ao fim e ao cabo, havia-lhe dado a beber uísque, uma coisa que sabia bem...
Não teria outro remédio senão matá-lo na primeira oportunidade que se lhe apresentasse, por não ter sabido procurar uma brincadeira de melhor gosto.
— Estás a brincar, não é verdade? — disse, quando voltou a pensar no leite, como se se tratasse de um pur-gante. — Não me farás beber essa porcaria...
Herbert Sidney não respondeu. Continuou a mirar fixamente as pupilas do homem que tinha à sua frente e aguardou que Crems regressasse.
Jimmy «Lamentos» e Charlie «Risonho», que presenciavam a cena sem pestanejar, decidiram intervir em favor do seu amigo «Prateado». Eles sabiam que, se Jess não estivesse tão embriagado, já se teria livrado ele sozinho daquele tipo, com uma qualquer das mil artimanhas que conhecia. Mas, no estado em que se encontrava, não o podia fazer com plena segurança de êxito.
Por isso, ambos se aproximaram do grupo, andando com naturalidade e fingindo que se iam encostar ao balcão. Olharam um para o outro e, sem trocarem uma única palavra, traçaram o seu plano de ataque, como o haviam feito já dezenas de vezes, nas suas longas digressões, pelos bares e «saloons» de toda a União: um deles agredi-lo-ia na orelha, precisamente no momento em que se aproximava do balcão. O outro bater-lhe-ia com força na mão armada. Era sempre este o princípio...
— Agora, «Lamentos»!
A ação dos dois indivíduos foi rapidíssima, mas o/ resultado não foi precisamente o que eles esperavam. Nem o punho de «Risonho» desabou contra a orelha de Sidney nem contra nenhuma outra parte do seu corpo. Tão-pouco a mão de «Lamentos» bateu no braço armado com a «Derringer».
Herbert Sidney tinha-se apercebido da manobra um segundo antes de se efetuar. Atirou-se para trás, velozmente, ao mesmo tempo que com a mão esquerda colocava um violento soco em pleno rosto de «Risonho», que o fez retroceder a vários passos de distância.
Quanto a «Lamentos», recebeu uma enorme joelhada no ventre, que o obrigou a cair por terra, soltando uma afogada praga de dor.
Jess Dumond, entre surpreendido e divertido, não fez nada por fugir nos escassos segundos que durou a luta de Sidney com os dois foragidos. E fez mal, pois, passados uns instantes, apareceu o dono do «saloon» com um grande jarro de barro, completamente cheio do branco líquido cujo nome, só de o ouvir, lhe causava horríveis náuseas.
— Aqui tem, senhor — murmurou Crems, deixando o recipiente sobre o balcão. — Acabam de o ordenhar agora mesmo. Ainda está quente.
Jess fez um gesto de repugnância. Seria possível que o tipo levasse a brincadeira tão longe?
— Bebe — ordenou Sidney.
Jess negou com um gesto.
— Não — replicou, obstinado.
— Creio que irás já beber! — exclamou Sidney, sorrindo pela primeira vez.
E fez um gesto significativo com o revólver.
— Pensas matar-me? — troçou «Prateado».
— Não.
— Obrigado por perdoares-me a vida. Nunca conseguirias que eu bebesse isso.
— Penso disparar contra uma das tuas orelhas — disse Herbert.
Jess alarmou-se um pouco ao ouvir a ameaça.
— Não te julgo capaz de o fazeres — comentou, no entanto.
— Deveras? — observou Herbert, jovial. — Contarei até três e, se nessa altura não tiveres começado a beber todo o conteúdo...
— «Todo», disseste tu?
— Sim. E procura não entornar uma única gota. Lembra-te de que eu também conheço o truque de cegar o inimigo atirando-lhe o líquido para os olhos.
Jess coçou a cabeça, deitando o chapéu para trás. Dava-se conta de que estava bastante embriagado, mas nem por isso deixava de perceber que aquele «menino bonito» estava a fazer pouco dele. De «Prateado», o mais hábil pistoleiro das Rochosas!
A brincadeira, se era brincadeira como ele esperava que fosse, já era altura de chegar ao fim. «Lamentos» e «Risonho», a dois passos dele, assistiam à cena boquiabertos e observavam o tipo elegante que com tanta mestria e limpeza se havia desenvencilhado de ambos.
«Idiotas! — pensou. — Se tivessem feito a coisa mais perfeita, agora estaríamos a divertir-nos à sua custa...»
Um momento depois, pareceu perder a paciência.
— Largue essa coisa! — gritou, adiantando-se para lhe arrebatar a «Derringer».
Mas, Herbert Sidney parecia disposto a não ceder e a fazê-lo beber o leito. Inclinou-se para trás, veloz, e do negro cano da arma que empunhava brotou uma chama avermelhada, seguida de uma detonação. Jess sentiu o calor da bala roçar-lhe a orelha direita, provocando-lhe um vivo ardor.
— Com mil diabos! exclamou.
— Lamento, errei a pontaria — disse Sidney. — Mas, vamos lá que, em vez de a bala se ter desviado para a cabeça, fê-lo para fora.
Jess olhou para Sidney de relance e perguntou:
— Que tentas na realidade?
— Simplesmente obrigar-te a que bebas esse jarro de leite.
— Sabes que isto te pode custar caro?
— Foste tu que iniciaste a brincadeira, como deves estar lembrado. E eu continuo as brincadeiras até ao fim.
— Estás a procurar um mau inimigo.
— Não me importo. Bebe isso, anda!
Jess emudeceu. Olhou para Sidney, com as pupilas brilhantes de ira, e pegou no recipiente com o níveo líquido.
— Procura não entornar uma gota — repetiu Herbert.
Jess Dumond começou a sentir-se agoniado ao primeiro sorvo. Leite fora sempre para ele uma coisa detestável. Nunca mais o provara desde que havia deixado de mamar. E agora... agora estava a bebê-lo!...
Sentiu que um rato ou qualquer coisa parecida lhe corria do estômago à garganta e vice-versa. Uma transpiração fria começou a inundar-lhe a fronte; o cabelo eriçou-se-lhe... No entanto, continuou a beber. Tinha os olhos muito abertos, fixos no fundo do jarro, que cada vez se elevava mais e mais, conforme o líquido penetrava no seu estômago.
Por fim, a vasilha ficou vazia e Jess largou-a, fazendo que se despedaçasse a seus pés. Apoiou-se no balcão, ofegante, sem ver nada nem ninguém, sentindo cada vez com mais força os estertores do seu pobre e atormentado estômago.
Ruídos surdos, como que procedentes de um estranho mundo interior, rugiam em alguma parte do seu corpo. O animal que parecia ter dentro de si aumentou ostensivamente. Agora, não era um rato. Parecia um gato, um gato enorme, gigantesco...
De repente, Jess Dumond, levando a mão direita à boca, correu apressadamente para a rua, fazendo titânicos esforços para chegar ao passeio antes que o conteúdo do seu estômago saísse por onde havia entrado.
Houve gargalhadas abundantes no estabelecimento quando as portas de vaivém se fecharam atrás do corpo de «Prateado». Jimmy «Lamentos» e Charlie «Risonho», ao verem que o indivíduo do Este não fazia o menor caso deles, ocupado em gargalhar juntamente com os outros, optaram por sair para a rua em busca do seu amigo.
Ninguém viu que no patamar da escada se encontrava Glória Dixon, que havia presenciado a cena do salão com um sorriso de simpatia para Jess Dumond, o pistoleiro.

domingo, 27 de novembro de 2016

PAS676. Por que sou um pistoleiro

Richard Cleveland ficou um segundo pensativo, com o olhar fixo no rosto risonho do seu interlocutor.
— Você é um tipo estranho, Dumond — disse, por fim. — Não parece um vulgar assaltante de diligências.
— Está a pensar seriamente? No entanto, creia que o sou.
— Volto a fazer-lhe a mesma pergunta que lhe fiz há pouco. Que foi que o levou a seguir esse caminho?
Jess esmagou o charuto contra o cinzeiro, ao mesmo tempo que a sua expressão endurecia bruscamente.
— Isso agora não importa... — murmurou.
Cleveland percebeu que havia uma corda sensível na alma do rapaz e acrescentou:
— Sinto verdadeira curiosidade por conhecer a sua vida.
— Porquê?
— Não sei... Talvez tenha julgado ver em si uni homem que carrega um peso enorme sobre o seu coração. Enganei-me?
Jess Dumond calou-se e mordeu, nervoso, o novo charuto que instintivamente havia retirado de cima da mesa. Cleveland, inclinando-se para a frente na poltrona, acrescentou, com um sorriso de conciliação:
— Bem. Sejamos amigos por agora, ainda que depois tenhamos de lutar um contra o outro.
— Pelo menos, o senhor é leal — falou, por fim, Jess.
— Não se fie na lealdade dos homens, Dumond — replicou imediatamente o seu interlocutor — nem sequer da minha. Na guerra, como no amor, todos os caminhos são válidos para a consecução do fim em vista.
— E, no nosso caso, é a guerra, não é verdade? — disse Jess, sorrindo. — Ignorava que nós havíamos de a declarar com tanta rapidez.
Por uma estranha associação de ideias, lembrou-se da rapariga dos • olhos azuis. Aquilo que sentia por ela no seu íntimo não era amor precisamente; pelo menos, não era o amor que aquele cavalheiro que se sentava em frente dele conhecia. O seu era uma paixão primitiva, dominante, feroz... um desejo nascido num instante, que tanto podia morrer um segundo depois como durar toda a vida.
Houve uma pausa no diálogo. Jess Dumond compreendeu depressa que Cleveland aguardava que ele começasse a relatar-lhe a sua história. Era uma história que não queria recordar, que procurava sempre relegar para segundo plano no seu pensamento ou afogá-la em uísque cada vez que tentava vir à superfície. Mas, ressurgia sempre, diáfana e clara, como se não tivessem decorrido quase dois anos desde então...
 Sem sequer se aperceber, começou a recordar e as palavras afluíram aos seus lábios lentamente, como se fosse outra pessoa que guiasse a sua vontade...
— Em Sun Valley, tive um grande rancho — começou por dizer. -- Pertencia aos meus irmãos e a mim, pois herdámo-lo quando morreu o meu pai. Ali, houve sempre paz e tranquilidade, até que um nefasto dia o meu irmão Walter se lembrou de levar Lucy a Boise, para que conhecesse uma cidade.
Calou-se. Richard Cleveland aguardou uns segundos e, por fim, perguntou, para arrancar o rapaz da sua abstração:
— Quem é Lucy?
— A minha irmã — respondeu ele e acrescentou: — Era a mais nova de todos e muito bonita. Demasiado bonita para permanecer nestas terras.
Cleveland lembrou-se de Glória, metida inesperadamente no coração das Rochosas. Sentiu um ligeiro mal--estar e agitou-se no seu assento.
— Que aconteceu? — murmurou.
— De regresso ao rancho, Lucy vinha radiante de felicidade. Havia travado conhecimento com um homem no hotel onde estivera hospedada. Com um «verdadeiro cavalheiro», segundo as suas palavras... Interroguei Walter acerca desse indivíduo e ele disse-me que o tinha visto apenas duas vezes de passagem. Só sabia que se chamava Milton Greb.
Calou-se um instante para fixar o seu silencioso ouvinte e perguntou:
— Conhece alguém que use esse nome?
As suas pupilas pareciam desprender faíscas enquanto pronunciava aquelas palavras. Cleveland desviou o olhar quando respondeu, um tanto nervoso:
— Não. Receio que não...
— Bem. Tanto faz. — A expressão dos seus olhos normalizou-se. Depois de um curto silêncio, acrescentou: — Durante dois anos, todos me têm dado a mesma resposta. Estou certo de que chegaria a surpreender-me se alguém dissesse o contrário alguma vez.
— Que aconteceu com esse Milton Greb? — indagou Cleveland, cuja voz tremeu ligeiramente ao pronunciar aquele nome, como se o seu possuidor lhe fosse sobejamente conhecido.
— Dir-lhe-ei em muito poucas palavras — declarou Jess. — Iludiu Lucy, depois de a visitar no rancho às escondidas, durante algum tempo. E acabou por levá-la... Ela deixou um bilhete, dizendo-nos que partia para casar--se com ele.
Jess fez uma pausa e prosseguiu:
— Milton Greb não se casou com ela. Fez pouco da sua inocência e, quando lhe pareceu, deixou-a abandonada numa mísera estalagem de uma povoação próxima de Boise.
«Eu, nessa altura, encontrava-me ausente do rancho — continuou a falar sombriamente. — Quando regressei, ao fim de mês e meio, verifiquei que Lucy tinha voltado e que os meus irmãos não estavam ali.
«Perguntei por eles à minha irmã e respondeu-me, desviando o olhar, que tinham ido a Boise. Até então, não havia reparado no estado de espírito em que ela se encontrava, muito próximo da apatia. Lembrei-me nessa altura de que Lucy não devia encontrar-se no rancho, uma vez que tinha abalado para se casar. Interroguei-a.
«Ela começou a chorar, sem se poder conter por riais tempo. Confessou-me, então, tudo. Walter e Duff, sabedores do que se passara, haviam partido em busca daquele canalha de Milton para linchá-lo...»
Jess Dumond voltou a deter-se para coordenar as ideias. Grossas gotas de suor corriam-lhe pelas suas faces.
— Naquele mesmo dia, parti atrás dos rastos dos meus irmãos — continuou. — Tive um pressentimento... Ao chegar a Boise, encontrei o desagradável espetáculo de Walter e Duff mortos. Assassinados.
-- Que havia acontecido? — perguntou Cleveland, num fio de voz.
— Segundo um mineiro que presenciou o acontecimento, os meus dois irmãos encontraram o tipo num bar. Walter, sem se poder conter, arrastou-o para o exterior e no meio da rua aplicou-lhe uma tareia tão violenta que j amais na sua vida poderá esquecê-la por muito que o tente.
«Mas, Milton Greb tinha os seus adjuntos, tão cobardes e traidores como ele mesmo. Um deles disparou contra as costas de Walter, deixando-o morto ali mesmo. Duff matou o traidor, mas caiu também, atravessado por mais de uma dúzia de balas que surgiram de todos os cantos».
Houve uma nova pausa.
— Milton Greb fugiu, ninguém sabia para aonde — continuou dizendo. — Só logrei descobrir que tomou o caminho de Helena, mas também podia ter ficado entre estas montanhas ou em Anaconda...
— Continue.
— Lucy fugiu de casa, envergonhada e cheia de remorsos. Julgou, sem dúvida, que foi a causadora da morte dos seus dois irmãos. Eu vi-me sozinho de repente. Comecei, então, a deambular por todos os povoados entre Sun Valley e Helena, procurando desesperadamente o maldito cobarde. Mas, parecia que a terra o tinha engolido.
«No meu vaguear contínuo de um sítio para o outro — continuou — entreguei-me à bebida quase sem dar por isso. Depois, matei um homem num duelo e mais tarde outro. Juntei-me a tipos sem escrúpulos e consegui dinheiro facilmente... Acabei por estar implicado na morte do xerife de Missoula e tive de fugir para salvar a pele.
«Agora, sou um proscrito, um fora-da-Lei... Não há muito tempo que me vi atrás das grades, mas conseguiu fugir, depois de ter atacado o xerife que me prendeu.
«Como vê, a minha vida é um constante vagabundear, enterrando-me cada vez mais neste maldito atoleiro...»
Jess Dumond calou-se e embrenhou-se nos seus pensamentos. Por fim, reagindo, levantou a cabeça e acrescentou:
— E é tudo. Agora, sou um dos muitos pistoleiros que infestam esta parte das Rochosas.

sábado, 26 de novembro de 2016

PAS675. Chegada de diligência após assalto

A diligência de Helena entrou na rua principal de Anaconda uma hora depois do que era costume. Em frente ao edifício do terminal, esperava-a um compacto grupo de curiosos e, um pouco mais além, o xerife da cidade, ataviado no seu melhor fato dos dias de festa.
Quando o bamboleante veículo se deteve no sítio do costume, com um áspero chiar de travões e duas pragas do condutor, o representante da Lei abriu caminho para ele, um tanto nervoso.
— Deixem passar! Afastem-se! — exclamava.
Indubitavelmente, alguém fora do que era corrente vinha no interior daquela empoeirada e ruidosa caixa. Por isso mesmo, as duas dúzias de curiosos, em vez de obedecerem ao xerife, acotovelaram-se em volta das janelas, mais ainda do que habitualmente, tentando olhar para dentro.
Por fim, a porta abriu-se à viva força e um indivíduo de idade madura, envergando um majestoso fraque e chapéu salto, desceu os dois estribos do veículo. Sem fazer o menor caso do xerife, que lhe estendia a mãe em sinal de boas-vindas, voltou-se para a portinhola a fim de ajudar alguém a descer.
Um «Oh!» de espanto e admiração brotou das gargantas dos circunstantes, ao verem aparecer pelo braço do cavalheiro do chapéu alto uma mulher linda, escultural e elegante, que, um tanto pálida, pousou os seus minúsculos pés no tosco passeio de madeira, da ainda mais tosca cidade de Anaconda.
— Onde está o xerife? — perguntou, irritado, o distinto cavalheiro, olhando à sua volta.
— Aqui, senhor Cleveland — replicou o aludido, tratando de esticar o pescoço entre as presentes, para se tornar mais visível.
Seguidamente, lembrando-se do discurso que tinha preparado para o momento, o representante da Lei acrescentou, em tom solene:
— Em nome de Anaconda, a mais honrada cidade de todo o Estado de Montana...
— Vá para o diabo! — atalhou o indivíduo do fraque, furioso. — Honrada cidade, foi o que disse?
— E acabam de nos assaltar quase à sua entrada!
A exclamação, um tanto trocista, saiu da portinhola da diligência, da qual já ninguém fazia caso, julgando que todos os seus ocupantes haviam descido.
Os rostos, incluindo o do desconcertado xerife, voltaram-se para ali. Viram, então, um rapaz, tão elegantemente vestido como Cleveland, que trazia consigo duas pesadas malas e tentava atravessar o passeio com dificuldade.
— O meu nome é Herbert Sidney, xerife — saudou, sorrindo.
— Sabe, xerife Gibons — interrompeu, furibundo, Cleveland, sem dar importância ao rapaz que havia falado -- que nos roubaram até ao último cêntimo a poucas milhas da sua «honrada cidade»?
— De verdade? — murmurou o xerife, abrindo a boca, admirado. E acrescentou: — Lamento, lamento deveras.
— É tudo quanto lhe ocorre dizer?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

BUF121. O pistoleiro das Rochosas

 
(Coleção Búfalo, nº121)
 
Jess Dumond abandonou o seu rancho à procura do homem que tinha enganado e abandonado a sua irmã e contribuído para a morte dos seus dois irmãos. Associou-se a um bando, tornou-se no istoleiro das Rochosas, e, na sequência de um assalto em que tinha sido abandonado pelos companheiros, chegou a Anaconda onde uma surpresa o esperava. Finalmente, parecia ter encontrado o rasto do homem que tanto procurara. E a sorte fez com que encontrasse alguém que o ajudou a mudar de vida.
Este livro é mais um bom registo de Dave Turner, que já conhecemos de «O quinto condenado», o qual surge neste 13º ciclo da Coleção Búfalo, mais uma vez excelente.