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segunda-feira, 24 de julho de 2017

PAS784. Um tio que gostava de beijar uma menina

Jantaram sozinhos, na ampla sala que a senhora Cross mandara alindar, e de que tao pouco tempo gozara.
Cross mal comeu. Nao podia afastar os olhos da sobrinha, a qual, de pálpebras modestamente descidas — para que ele nao pudesse notar a repugnância que lhe inspirava — comeu corn apetite normal.
Quando acabaram a refeição, a jovem disse bruscamente que começara a doer-lhe a cabeça e que ia retirar-se para o seu quarto. Cross aproveitou a ocasião para a beijar na testa. Mas logo, quando ela se voltava para se afastar, o homem pareceu endoidecer.
— Outro beijo... — disse ele, com a respiração entrecortada.
Ela olhou-o, sobressaltada, e estendeu-lhe a testa. Mas Cross nao queria beija-la na testa. Os seus lábios delgados buscaram os dela. A jovem recuou, de um salto.
— Mas, tio... — exclamou.
A voz dela tinha um tom levemente irónico, apesar de sentir uma agoniante sensação de repugnância.
— É que... — balbuciou Cross — eu...
— Boa noite, tio Herbert... — respondeu ela, suavemente. — Dorme bem.
Era o ultimo golpe de acicate, e alcançou-o em pleno flanco. Aquela suavidade, aquele não ofender-se... mais do que era preciso para uma jovem honesta... Herbert Cross extasiou-se intimamente. Podia ter a fortuna e, ao mesmo tempo, ter aquela maravilha que caminhava harmoniosamente para a escada.
— Espera... — disse, em voz rouca.
A jovem voltou-se.
— Como, tio Herbert?
— É que... tenho de falar-te.
— Amanhã, tio Herbert. Amanhã, sim?
— Não... Preferia... preferia que fosse agora... Se não te incomoda que suba contigo...
— Não, não, tio Herbert. Isso nao pode ser. Para mais dói-me a cabeça. Amanhã, tio. Vamos, dá-me outro beijo na testa.
0 coração de Cross batia-lhe furiosamente no peito. Mas dominou-se. Compreendeu que nada conseguiria se ela nao quisesse, e ela parecia nao querer. Assim, beijou-a brandamente, na testa. Diante de Herbert Cross alongava-se um futuro cor-de-rosa, só perturbado por uma ou outra pequena nuvem.
Recolheu ao seu quarto.
Mas tinha-se esquecido de uma coisa. A janela da casa de jantar dava para o portal. Regra geral, um dos seus homens guardava dia e noite a porta, armado ate aos dentes, e os criados índios vigiavam como cães de fila. Mas como Billy era da casa, o braço direito do patrão... o guarda nao fez qualquer reparo na sua presença.
Billy pôde escutar à vontade, embora o que escutou não lhe desse qualquer prazer, antes pelo contrário. E pôde ouvir o beijo.
Billy sentia-se sufocar de raiva. A sua mente primitiva tinha feito cálculos, provocados por Cross, entre os quais entrava o seu casamento com Vanessa. Vagamente, pressentia que dessa forma se aproximava dos milhões de Cross, mas a atitude do patrão, agora, nao permitia qualquer dúvida: Cross estava a traí-lo. Pretendia ficar corn «tudo», simplesmente.
Billy decidiu agir. Ali, era preciso contar com ele. Cross precisava dele para os seus trabalhos sujos, e alem disso Billy sabia demasiado. Não podiam atirá-lo para um canto, como um trapo velho.
Dispôs-se a amadurecer um plano, tao vasto e inteligente quanto pudesse. Para isso, entrou na cozinha, foi buscar uma garrafa de uísque e seguiu para o seu quarto que ficava junto das barracas dos peones. Em breve despejou meia garrafa, e as suas ideias — ele assim o julgava — tornaram-se mais lúcidas.
Nao viu, naturalmente, a sombra que seguia ao abrigo das paredes, dando a volta ao pátio central. Nem viu também quando essa sombra, ligeiramente mais escura do que as que a rodeavam, se agarrou a trepadeira e começou a subir.
Mas o guarda da porta viu alguma coisa. Ao principio julgou que seria um gato, mas logo se convenceu do seu erro.
0 guarda ficou numa situação relativamente difícil. Tinha visto Billy espreitar pela janela da casa de jantar do pátio. Tinha-o visto passear pelo pátio, resmungando confusamente. Tinha visto também os olhares que o homenzarrão lançava a rapariga, e somou dois e dois, achando que eram quatro.
— Será melhor ter a certeza... — disse em voz baixa. Dirigiu-se para o barracão onde dormiam os homens. No cubículo que servia de quarto a Billy, não havia luz. Bateu devagar a porta, e ninguém respondeu.
«— Era ele...» — pensou, corn um sorriso malicioso. Calculou que Billy, demasiado impaciente na sua paixão, não tinha achado melhor solução do que escalar a parede e saltar pela janela da sua dama. Era lá com eles. A pequena nao devia desgostar daquilo, porque não se tinha ouvido qualquer ruído que significasse protesto.
E voltou para o seu posto, pensando que as mulheres eram uns bichos estranhos. Um tipo como aquele Billy...
Lew Carey alcançou a janela, empurrou-a ligeiramente e viu que estava aberta. Dentro do quarto, ouviu um ligeiro soluço.
— Estas aí?... — perguntou. — Vanessa!
A jovem apareceu diante dele.
— Lew!... — exclamou. E abraçou-se a ele, corn tanta força que quase o fez cair. — Lew!... — soluçou. — Por que to demoraste tanto?
— Que aconteceu?
— Meu tio... — a jovem perdeu o domínio dos nervos, e um riso incontrolável sacudiu-a. — Meu tio quis... Oh, Lew! É tão ridículo, e tão repugnante...!
Lew apertou-lhe as mãos até lhe fazer doer.
— Estás a levar as coisas longe de mais... — disse ele.
— É preciso.... Enquanto pensar que pode ter-me, a mim e as terras, não tentará outra coisa qualquer... nao compreendes? Tu mesmo o disseste... Mas há mais. Oh! Querido, por que terá de acontecer-me isto, a mim? Billy tem ciúmes.
Continuava a rir, num ataque de nervos, e Lew bateu-lhe na cara, com pouca força, para a serenar.
— Vão começar a morder-se uns aos outros, não?...— perguntou ele. — Isso estaria muito bem, mas já nao dispomos de mais tempo. Esta manhã um dos fazendeiros do sul, Dyer, creio eu que se chama, recebeu uma carta do advogado de teu tio, pedindo-lhe que lhe venda as suas terras. Nao quero que haja mais sangue, querida.
— Que podemos fazer?
Lew chegou-se à janela e olhou para o pátio. Estava mergulhado em densas sombras.
— Penso apresentar um ultimato. Ou abandonam a região, ou...
— Mas eles têm a força da Lei.
— Nao a terão... «depois»... — disse Lew. E a jovem estremeceu.
Nesse momenta Lew viu que uma sombra avançava pelo pátio.
— Vem alguém... disse ele, em voz baixa.
Outra sombra veio da direita, e encontraram-se as duas ao centro do terreno livre. Depois, ambas se dirigiram rapidamente para a casa.
— Nao me agrada nada isto... — disse Lew. — Querida, tenho de deixar-te. Amanhã mesmo irei procurar o xerife, para propor-lhe, as boas, que detenha as manobras de teu tio. Como sei que vai negar-se, terei de fazer alguma pressão.
As duas sombras aproximavam-se, agora em corrida. — Quando entrarem, sairei.
— Onde tens o cavalo?... — respondeu ela, apertando-se contra ele. Lew sentiu o calor do corpo da jovem, através do roupão que ela vestia.
— Fora do rancho, naturalmente. Agora.
As duas sombras tinham chegado junto da casa, mas só uma delas havia entrado. A outra colocou-se exatamente sob a janela de Vanessa.
— Maldição... — disse Lew, entre dentes.
Ouviram som de pancadas, dentro da casa.
— Tenho pena, mas nao há outro remedio... — disse Lew, cavalgando o parapeito.
— Não... — disse a jovem. — Espera.
Debruou-se da janela e perguntou em voz alta o que se passava.
O guarda levantou a cabeça.
— Há que... entrou um homem na casa... — disse. — Tem a certeza? Por onde?
O guarda engoliu em seco.
— Por... pela sua janela.
— Como se atreve, bastardo?... — bradou ela, furiosa. — Isso vai custar-lhe taro! Tenta dizer que eu...!
— Afasta-te... — sussurrou Lew, segurando a jovem por um braço.
Ouviram-se passos pesados, no vestíbulo. Lew dirigiu¬-se para a porta, abriu-a e perdeu-se na escuridão, depois de fazer um rápido sinal a Vanessa.
Menos de cinco segundos depois apareciam Cross, Billy e os dois criados índios.
— Que aconteceu?... — perguntou a jovem, indignada.
— Este homem diz que viu entrar alguém no teu quarto, pela janela... — disse Cross, num tom gélido. — Se mentiu...
— Eu não vi... — disse Billy, cujos olhos estavam injetados de sangue, em consequência do alcool. — Foi um dos rapazes que disse ter visto.
— No meu quarto?... — perguntou ela. — Quem?
Cross tinha acendido o candeeiro. No quarto não havia ninguéns mais, além deles mesmos. Voltou-se para Billy: — Tu e esse porco... — começou a dizer.
— Todos para fora do meu quarto!... — ordenou a jovem.
Iam a sair quando um dos índios se curvou para o chão. Depois olhou para o parapeito da janela. Levantou o candeeiro e olhou mais atentamente ainda.
— Hugh! — disse ele.
— 0 que há?... — perguntou Cross.
— Um homem entrou pela janela... — foi a resposta. — Há sinais de barro.
Um circulo de caras, ameaçador, voltou-se para Vanessa. 

domingo, 23 de julho de 2017

PAS783. Encontro de pistoleiro com uma gata selvagem

Lew viu Vanessa que, a cavalo, tinha estado a observá-lo.
— Vão recomeçar os insultos?... — perguntou Lew.
— Queria falar consigo... — disse ela, quase sem mover os lábios. — Mas não agora, nem aqui. Esta noite, às onze horas, do outro lado do cercado, junto aos álamos da sepultura de minha tia.
Depois esporeou o cavalo, que se dirigiu, a trote curto, para a entrada do rancho. Durante esses instantes Billy tinha ficado quieto, olhando-os rancorosamente, com a calva reluzente sob os raios do sol.
Às onze horas, Lew saiu sem ruído do cubículo onde dormia. Para alcançar o exterior, precisava atravessar uma esquina do dormitório comum, mas afortunadamente os peones, cansados por um dia de intenso trabalho, dormiam como pedras.
Era lua nova, e a pradaria mergulhara numa escuridão total. Os coiotes uivavam, a distância, e de vez em quando ouvia-se o mugido profundo de um touro.
Lew caminhou rapidamente até alcançar a cerca. Encostado a esta havia um túmulo, o da mulher de Cross, enquadrado por quatro álamos.
Ninguém estava ali. Lew fez um cigarro, às cegas, perguntando a si mesmo se não se trataria de uma artimanha da rapariga para atraí-lo a um sítio quase desconhecido para ele, a sós e às escuras. Não acendeu o cigarro. Não queria servir de alvo a um possível atirador escondido.
E então chegou até ele o perfume característico de Vanessa. Voltou-se e viu uma sombra a seu lado.
— Olá... — disse Lew, em voz baixa.
Ela não respondeu, durante um momento. A mão de Lew acariciava a coronha de um dos seus revólveres. Mas era Vanessa, não podia haver qualquer dúvida.
— Com quem está você?... -- perguntou a rapariga. — Com meu tio ou contra ele?
— Quantos anos tem você?... disse Lew, sem responder à pergunta.
— Como?... — exclamou Vanessa, desconcertada.
— Pergunto-lhe quantos anos tem.
— Que pode isso importar-lhe?
— Muito, para responder à pergunta que me fez. Deve ser muito nova. Uma mulher ter-me-ia perguntado se eu estava com ela ou contra ela.
— Tenho dezanove anos... — respondeu Vanessa, irritada.
— Não sou uma criança.
— O que eu supunha.
— Arrisco-me muito, vindo aqui... — disse ela, dando um passo em frente. Apesar de estarem muito próximos, a escuridão era tão intensa que ele mal lhe podia ver os olhos.
— Calculo isso. Por que o fez?
— Porque não tenho ninguém em quem confiar... —respondeu ela. — Ninguém.
Havia uma tal expressão de desamparo, nas palavras e no tom da voz, que Lew adiantou a mão até lhe tocar no braço. O suave contacto da pele fê-lo estremecer.
— Não a entendo... — disse. — Por que não experimenta explicar-se? Em vez de me injuriar, por que não me disse o que queria de mim?
Houve um silêncio.
— Se meu tio souber disto, provavelmente castiga-me, como já fez de outras vezes. Fecha-me. Oh! Sim, é o que ele faz. Já chegou mesmo a não me dar a comer senão pão mexicano, durante vários dias. Mas, na realidade, nada disso tem importância. Quando eu tiver vinte anos não poderá reter-me aqui mais tempo. Ele sabe isso. E você também o sabe, pode ir contar-lho agora mesmo, se quiser... Que só espero uma oportunidade para envenená-lo, para lhe pôr veneno na comida. Mas ele não se fia em ninguém, a não ser em Billy e nos seus índios.
— Você é uma gata selvagem... — disse Lew. — Mas é corajosa.
— Você... — disse ela, tocando-lhe nas costas da mão — ...não fala como um camponês.
— Venho de um lugar onde há muitas escolas... —respondeu Lew, secamente.
— Desculpe. Então poderá compreender o que eu sinto... Eu não odeio estas terras. Gostaria de viver aqui, mas odeio os homens que aqui vivem, e que sujam estas terras. Odeio meu tio, que me tirou de um colégio em Abilene, e me trouxe para aqui, e me contou as suas maquinações para se apoderar de todas as propriedades, como se fossem coisas muito engraçadas. Quase todas as terras me pertencem, porque eram de minha tia e de minha mãe, mas ele administra-as até que eu seja maior. Bem enganou o meu pai.
Calou-se. Havia amargura na voz dela. Lew apertou-lhe levemente o braço. O cheiro das ervas do campo e o perfume dos cabelos dela estavam a perturbar-lhe os sentidos. Sentia o sangue correr-lhe pesadamente pelas veias.
— Quando completa vinte anos?... — perguntou.
— No dia um de Junho do ano próximo.
Ela parecia, agora, falar com inteira confiança.
— Mas, de todos os modos, ele terá de prestar-lhe contas. Se vender as terras à companhia...
— Oh! Não compreende? Se eu chegar à maioridade na posse dos meus bens, em terras, ele nada poderá guardar. Mas se as vender antes... o dinheiro pode levar-se para qualquer parte, numa simples mala. E além disso há também toda essa pobre gente a quem ele quer comprar as suas propriedades a troco de uma côdea de pão, Como? Não lhe parece ainda que ele seja bastante patife?
Lew ficou calado, por instantes.
— Agora já me contou tudo. Julga que ele sabe das suas suspeitas?
— Ele? Julga-me idiota, ou pouco menos. Pensa que o meu único motivo de desgosto é ter sido tirada do colégio.
— E... — Lew acariciou-lhe distraidamente o braço —...que aconteceria se eu fosse, esta mesma noite, contar-lhe o que acaba de me dizer?
Sentiu uma rápida aceleração da respiração da jovem.
— Pode fazê-lo, realmente. Uma pobre mulher não tem maneira de impedi-lo, mas penso que a sua consciência, se é que um pistoleiro pode ter consciência, lho censuraria toda a vida. E ainda posso dizer-lhe outra coisa. Sabe o que pensa fazer meu tio, no caso de eu chegar à maioridade sem ele ter conseguido comprar todas as terras e vendê-las à companhia? Sabe?
— Imagino... — disse Lew, falando num tom involuntariamente mais baixo. — Desembaraçar-se de si, não?
Ela ficou calada, durante alguns segundos.
— Não é isso?... — perguntou ele, vendo que o silêncio se prolongava.
— Sim, mas não da maneira que julga. Não me mataria para herdar, não. Casar-me-ia com Billy, o homem a quem ele manobra como uma boneca. Há muito tempo que oiço ofegar Billy, quando passo por ele e me olha. E tenho a impressão de estar junto de uma grande aranha, com pelos.
Lew tinha na mão o cigarro apagado. Atirou-o ao chão.
— E não receia que, uma vez na posse da fortuna, Billy se revolte?... — perguntou.
— Oh, não! Bill é incapaz de entender negócios, ou manejar dinheiro. E sabe isso. Não. Billy contentar-se-ia com uma parte nos lucros... e comigo.
Houve um novo silêncio.
— E agora... — disse ela, tão perto dele que Lew a ouvia respirar — ...vá e explique a meu tio que eu sei o que ele pensa. Mas não se esqueça de lhe dizer que, antes que aconteça uma coisa dessas... me matarei!
— Vá para casa, pequena... — disse Lew.
— É tudo o que tem para me dizer?... — perguntou ela.
— Por agora, é.
— Já calculava. Ela deu meia volta. Lew segurou-a por um braço. — Largue-me, patife! Não se atreva a tocar-me! — Espere um momento.
Ela fez um gesto para soltar-se, e a seda da blusa rasgou-se, no ombro.
— Desculpe... — disse Lew, afastando-se para indicar que não queria tocar-lhe. — Desculpe, mas queria perguntar-lhe uma coisa. Por que não foge?
— Julga que não o tentei? Três vezes! E das três vezes esses nojentos criados índios, de meu tio, me seguiram o rastro, com cães, e me encontraram. Sem dinheiro para ir até longe, como poderei fugir daqui? Deixam-me passear a cavalo, porque sabem que tenho de voltar. E além do mais estas terras são minhas, e quero lutar por elas. Devo lutar!
— Está bem... — disse Lew. — Agora deve ir dormir. E... não precisa afastar-se dessa maneira. Já lhe pedi desculpa. Eu não sou uma grande aranha com pelos, como Billy.
— Não. É pior ainda, porque não parece um malvado, mas é. Por isso é pior.
Lew calou-se por instantes, mas a respiração dela dizia-lhe que Vanessa ainda não tinha partido. E disse:
— Uma vez, quando a companhia dos caminhos de ferro fazia a instalação dos seus carris, a muitas milhas daqui, há alguns anos, houve um homem que se negou a vender as suas terras aos mandatários dessa companhia. Uma noite, vários mascarados entraram na propriedade, deixaram os donos inconscientes e lançaram fogo a tudo. Tal crueldade pareceu-lhes necessária para convencer os outros vizinhos de que deviam vendar depressa e barato.
«— O filho dos donos dessa propriedade estava num colégio, em Houston, no Texas. Quando soube a noticia, deixou os estudos e voltou para casa. Nada disse, visto que as autoridades tinham considerado o incendio como «acidental», sem culpas para ninguém — a nao ser, talvez, para os pr6prios donos, que nao tinham tido cuidado corn um candeeiro de petróleo.
«— Não, não disse nada, mas foi ter com «Mono» Fawcett, o celebre pistoleiro, que vivia retirado. Disse-lhe que não tinha dinheiro, mas que trabalharia para ele, como um escravo, se ele o ensinasse a manejar as pistolas, «bem». «Mono» Fawcett tinha um filho no mesmo colégio que o rapaz abandonara, e alem disso, nessa altura, tinha-se convertido numa espécie de pregador contra a maldade. Ensinou o rapaz, grátis. Entre outras coisas ensinou-o a colocar duas balas numa carta de jogar, «de costas», o que valeu ao rapaz a alcunha corn que depois se tornou conhecido.
«— E «Dois-num» procurou, um após outro, os homens suspeitos de terem cometido o crime. E cara a cara, em duelo legal, matou-os. Outros homens, que tentaram detê-lo ou vingar os mortos, morreram também. Dai vem a sua fama.
«— Mas um dia desejou tranquilidade e, cumprida a sua tarefa, pensou em vir mais para o Oeste, em procura de um trabalho são, ao ar livre, que lhe permitisse pensar a respeito do bem e do mal.
«— É só isto, pequena.
Vanessa nada disse. Durante um minuto ficaram ambos em profundo silencio. Depois a mão dela procurou a dele.
— Desculpe... desculpe tudo o que lhe disse.
 — Você nao sabia. E nova, e o mal causa-lhe repugnância. Eu sou uma das formas do mal.
— Você sofreu...
Ela estava tao perto, que ele nao o pôde evitar. Atraiu-a para si, e Vanessa nao opôs qualquer resistência. Sob as mãos de Lew havia a pele suave do ombro, onde se rasgara a blusa. Lew sentia-a palpitar.
Teve a impressão de que lhe tinham colocado um capacete de aço nas fontes. E ela não resistia. Pelo contrário, a respiração dela tinha-se acelerado.
— Vai-te... vai dormir... — disse ele, em voz rouca. Vai-te, ou nao respondo...
— Vou-me embora, sim... — disse ela, sem fazer o menor movimento para se afastar. Lew empurrou-a.
— Vai-te embora! Nao podes ficar aqui...
Beijou-a, e ela passou-lhe os bravos em volta do pescoço. Por um momento, o tempo imobilizou-se. Depois ela soltou-se e começou a andar, muito depressa. Lew seguiu-a.

sábado, 22 de julho de 2017

PAS782. Apresentação de pistoleiro

O rancho dos Lester era pequeno. Ficava situado entre o rio e a linha de colinas. A terra não era demasiadamente boa, e Lew perguntou a si mesmo para que quereria Cross aquilo, tendo tantas terras de pastagem.
Um cão enorme recebeu-o, ladrando e mostrando os dentes, junto da cerca. Quando Lew desmontou, o cão cheirou-o com insistência e depois pôs-se a agitar a cauda, amistosamente.
Um homem de idade apareceu à porta, ao ouvir ladrar o cão. Vestia uma camisa aos quadrados, e um colete. Sobre o nariz tinha uns óculos com aros de metal.
— Você é Lester?... — perguntou Carey.
— Sou... — respondeu o velho. — Não quer entrar?
Lew entrou. Como a casa era pequena, a saleta comum era também a sala de jantar. Estava tudo muito limpo, com todos os móveis nos seus lugares. Nas paredes viam-se troféus de caça, entre os quais os galhos de um grande veado.
Uma mulher idosa, de touca engomada, levantou-se de um cadeirão, ao vê-los entrar.
— Apresento-lhe a senhora Lester... — disse o velho.
— O meu nome é Carey... — disse Lew. — Gostaria de falar consigo.
Nesse momento ouviram-se vozes e risos, à porta. Dois homens e uma rapariga entraram. Os homens eram altos, fortes, com caras inteligentes. A rapariga era Vanessa Cross.
— Que faz você aqui?... — perguntou ela, tão surpreendida que se esqueceu da sua habitual expressão de desprezo.
— Conhecem-se?... — perguntou o velho Lester. «Mister» Carey, apresento-lhe meus filhos, Saul e Jonathan. Este é «mister» Carey, e veio para falar comigo.
— Ponham-no na rua... — disse Vanessa, venenosamente. -- Sabe quem é ele, «mister» Lester? É um dos patifes a quem meu tio paga, para as suas imundas proezas. Expulsem-no!
— Vamos, vamos... — protestou o velho Lester.
— Carey, foi o que disse?... — perguntou Saul. —Você é Carey «Dois-num»?
Lew confirmou, com um aceno de cabeça. Depois disse:
— Não acreditem na propaganda de «miss» Cross. Ignoro por que motivo, mas mal me viu começou a desejar-me a morte, que ardesse num incêndio, que rebentasse, e outras coisas igualmente desagradáveis. Não sei porquê, repito. Mas isso é outro assunto. Venho por ordem de «mister» Cross, para lhes perguntar qual o preço por que venderiam o vosso rancho.
As caras dos Lester endureceram. Os dois rapazes começaram a falar ao mesmo tempo.
— Pode ir para o diab...!
— Maldito seja, não conseguirá sair-se com...!
O velho Lester levantou a mão, reclamando silêncio.
— Basta!... — disse. — «Mister» Carey, sabe o que significa a proposta que acaba de nos fazer?
— Suponho que signifique um bom negócio. «Mister» Cross talvez lhes pague bem a propriedade.
— Você é um cínico!... — exclamou a rapariga, enfurecida.
— Aviso-a de que já começa a cansar-me... — disse Lew, sem deixar de sorrir. '
Mas havia um brilho duro nos seus olhos.
— Não me importa... — retorquiu ela.
O velho Lester falou:
— «Mister» Carey, não sei qual é a sua posição neste assunto, mas recuso-me a acreditar que conheça as intenções de Cross.
— Acredite ou não, a verdade é que as desconheço.
— Pois então desculpe-me que lhe tenha chamado cínico... — disse Vanessa, sarcástica. — Não passa de um idiota. Mas não lhe dê ouvidos, «mister» Lester. Ele sabe perfeitamente o que quer o patife do meu tio.
— Se volta a insultar-me... — começou Lew.
Lester interrompeu-o:
— «Mister» Carey, quer ignore quer não, vou-lho dizer, para que depois não possa alegar que o não sabe. Cross quer todas as nossas terras do vale, porque o caminho de ferro vai passar por aqui. A companhia do caminho de ferro pagar-lhe-á, a ele, pelo preço que ele pedir, visto que não tem outra solução senão a de seguir por estes terrenos, e "o Governo não pode expropriá-los. Compreende? Os caminhos de ferro ver-se-ão na necessidade de pagar os terrenos aos preços que lhe sejam exigidos por homens como Cross. Ele, portanto, pretende comprá-los aos colonos. E sabe o que acontece aos que não que rem vender a Cross?
— Disse-lhe já que ignoro tudo isso.
— Não faça caso desse patife, «mister» Lester. Fizeram uma farsa, no escritório do xerife, mas ninguém acredita nela. Ele veio aqui porque Cross o chamou.
Lew fitou-a, e alguma coisa que ela leu naqueles olhos fez calar Vanessa.
— Pois, simplesmente... o nosso rancho arderá, uma noite, os meus filhos e eu seremos mortos por algum foragido bêbedo, que depois «não será encontrado», como diz o xerife... Ou uma manada de porcos selvagens passará pelos nossos campos de semeadura, e destruirá o nosso trabalho. E assim sucessivamente. Compreende agora?
— Já aconteceu, antes, alguma coisa dessas?
— Se já aconteceu? Que Deus lhe valha, homem! Escute... Os Antrin negaram-se a vender porque tinham uma boa terra de pastagens e muitas centenas de cabeças de gado. Também a eles conviria que o caminho de ferro passasse por aqui, mas continuando na posse das suas terras. Pois bem, um pistoleiro matou um dos filhos. O feno que tinham guardado ardeu completamente. Quando acusaram Cross, o xerife prendeu o chefe da família, «por difamação», e quando os dois outros filhos quiseram tirá-lo da cadeia, «o populacho enfurecido assaltou a prisão e o velho morreu na luta». O «populacho enfurecido», inútil é dizê-lo, eram os sicários de Cross.
— Nós não sairemos daqui... -- disse Saul Lester.
Falava num tom grave, e com profunda convicção.
— Lutaremos até ao fim... — acrescentou o irmão. -- Somos seis, contando com os nossos peones.
— Far-se-á o que eu mandar... — disse o pai. — Não os quero ver mortos, a nenhum de vocês. Eu sou velho e não importa o que possa acontecer-me, mas não quero que qualquer bandido os mate pelas costas, e que ainda por cima o crime fique impune. Prefiro vender este rancho onde vocês nasceram.
Os olhos do filho mais velho brilharam.
— Pai... Tu e a mãe vão para qualquer lado, enquanto isto se arranja. Jonathan e eu mostraremos a esses coiotes o que podem os homens, quando têm armas e a razão pelo seu lado.
— Prefiro vender... — repetiu o velho, obstinadamente.
— Bem, agora que deixou o seu recado, pode ir-se embora... — disse Vanessa, voltando-se para Lewis. —Agora já sabemos quem você é, e o que quer. Dentro de uns dias Cross lhe dará ordem para matar alguém nesta casa. Vá, portanto, vendo as possíveis vítimas. Mas tome cuidado, Carey. Tome cuidado.
Havia lágrimas nos belos olhos azuis. Lewis olhava-a, meditabundo. Depois voltou-se para Lester:
— Cross disse-me para lhes dar dois dias para pensar.
— Sobram esses dois dias... — disse Saul Lester. — Não queremos vender, e pode dizer-lhe isto mesmo. Fora daqui, Carey!
— Calma, filhos… — disse o pai.
— Não acabei ainda... — disse Lewis. — Que sabem vocês a respeito de Lew «Dois-num»?
— Como?
— Que sabem a meu respeito?
— Que é... bem, que...
— Está a ver? É assim, toda a gente parte do princípio que o facto de me chamarem Lew «Dois-num», me converte num bandido. E, no entanto... — sorriu — ...a minha história é bastante conhecida. Ou pelo menos eu assim o julgava. Talvez seja apenas vaidade minha, no entanto, e eu não seja de facto tão famoso como me quiseram fazer acreditar.
— Que quer dizer com isso?... — perguntou Lester.
— Por que motivo estavam assim tão seguros de que eu me prestaria a esse jogo?
— Bem... pois este... — Lester tirou os óculos e esfregou-os com um lenço. Depois perguntou: — E não é verdade?
— Vocês ouviram falar de mim. Respondam, vocês mesmos, a essa pergunta.
Lewis saiu e montou a cavalo. Ouviu que alguém o chamava. Voltou-se. Vanessa tinha saído atrás dele.
— Saiba que o considero capaz de tudo... — disse ela — Saiba que o considero um bastardo. E agora mais ainda.
Lew mostrou os dentes, num sorriso.
— De que se ri?
Lew desmontou, de um salto. Num movimento ágil agarrou-a pelos ombros e, segurando-a com força, beijou-a na boca. Foi um beijo perdido, um simples contacto físico, forçado. Ela soltou um gemido abafado e tentou libertar--se, mas os braços que a seguravam pareciam de ferro.
— Cada vez que me insulte receberá o mesmo... —disse ele, largando-a.
Ela levantou a mão e bateu-lhe na cara, com fúria.
Lew empurrou-a. Nesse momento apareceram os Lester.
Lew montou a cavalo.
— Hei-de matá-lo por isto!... — bradou ela, com as faces em brasa.
— Que aconteceu?... — perguntou Saul. — Que fez esse...?
— Sugiro-lhe que nem sequer leve as mãos aos coldres, rapaz... — disse Lew, gravemente. — Qualquer de vocês, que o tente, sabe que não tem a menor probabilidade diante de Lew «Dois-num».
— Se tocou em «miss» Cross, mato-o!... — disse Jonathan, dando um passo em frente. Vanessa empalideceu e pôs-lhe a mão no braço, detendo-o.
— Quieto!... — ordenou. — Nem sequer me tocou... Quieto, Jonathan!
— Essa pequena acaba de salvar-lhe a vida, ou um braço... — disse Lew. Tocou com as esporas nos flancos do animal e partiu, a trote.
A jovem limpou repetidas vezes a boca, com o lenço, e depois entrou em casa dos Lester.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

PAS781. Um homem que sabe manejar as armas

A casa era grande e estava construída sobre uma elevação de terreno densamente arborizado. O caminho levava diretamente até à porta, onde esperavam dois criados índios.
— Bonita casa... — disse Lew.
Cross não respondeu. Entrou, e Lew seguiu-o. A jovem ficou à porta, olhando umas flores que cresciam junto do muro.
Lew foi conduzido a um amplo escritório, mobilado com pesados móveis de carvalho. Cross sentou-se na cadeira que estava atrás da secretária, e acendeu um cigarro,
— Sente-se... — disse. Suponho que deve estar a perguntar a si mesmo que género de trabalho lhe vou oferecer, não é certo?
— Pode exprimir-se assim.
— Pois bem. Eu sou rápido e direto nas minhas coisas. Não preciso de si para cuidar do gado nem para vigiar os trabalhadores. Para isso qualquer tipo serve. Necessito-o por causa da especial habilidade com que maneja as armas.
Lew sorriu, mas continuou calado.
— Eu lhe darei ordens, nesse sentido ou noutro, e você executá-las-á. A maneira de as executar é de sua conta. Eu limito-me a dar ordens.
— E as ordens naturalmente, serão para disparar, não é assim?
Cross fez um gesto com a mão, como a afastar o assunto.
— Pode ser que sim, e pode ser que seja só para assustar alguém, sem necessidade de disparar.
— E a quem terei de assustar, ou matar?
— Dir-lhe-ei isso no momento oportuno.
— Gostaria que me dissesse mais alguma coisa. Sobre as razões que o levam a precisar de um homem especial para esse trabalho, por exemplo.
Cross olhou-o friamente.
— Isso é comigo. No entanto dir-lhe-ei que desejo comprar todas as terras do vale, e que alguns proprietários são contrários à ideia de vender.
— E para que quer comprar as terras?
— Isso não o interessa. E basta! Encontrará alojamento nas dependências dos outros rapazes.
Lew ia replicar, mas resolveu calar-se. Olhava fixamente as biqueiras das botas, cobertas de pó.
— Não está de acordo, talvez?... — perguntou Cross, bruscamente. — Aviso-o de que não pode escolher. Ou o que lhe proponho, ou a cadeia. E eu me encarregaria de que a sua condenação fosse objeto de sucessivas prorrogações. Deve ter notado, visto que não o julgo tolo, que a Lei sou eu, nesta terra.
— Sim... — disse Lew, sorrindo — ...você manda.
— Ora assim entendemo-nos. Não duvido de que acabaremos por nos entender ainda melhor. Vá às dependências do pessoal e diga a Jones, o capataz, que lhe dê um bom alojamento, com um quarto separado dos outros. Os rapazes ouviram falar muito a seu respeito, de maneira que não creio que tenham alguma coisa a dizer se eu lhe conceder qualquer privilégio especial.
Lewis levantou-se e saiu do escritório. O vestíbulo estava mergulhado em penumbra, e por isso só viu a rapariga quando estava quase a chocar com ela. Sobressaltou--se ao ouvir-lhe a voz.
— Patife!... — disse ela, com uma expressão de ódio.
— Que tem?... — perguntou Lew, espantado.
— Mais um tipo para as patifarias dele. Se pudesse lançar fogo a isto, não hesitaria em fazê-lo. Com todos vocês cá dentro!
— Acho que você está doida... — declarou Lew, friamente. — Ou sou eu que estou transtornado, por causa da pancada na cabeça. Que lhe aconteceu, a si?
Ela voltara-lhe as costas e encaminhava-se para uma das portas. Em dois pulos, Carey alcançou-a e segurou-a por um braço.
— Largue-me, porco ou arrepende-se!... — disse ela, furiosa.
Lewis sentiu-se envolvido pelo suave perfume que vinha dos cabelos dela.
— Quero que me diga por que me insultou.
— Por não poder matá-lo... — respondeu ela, violentamente…
Libertou-se, com um puxão, e desapareceu. Lew encolheu os ombros e dirigiu-se às dependências do rancho, para falar com o capataz Jones.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

BIS139. O sorriso do diabo

 
(Coleção Bisonte, nº 139)

Um homem chega à cidade e mostra, desde logo, que é hábil com as armas e duro com os punhos. Tanto bastou para ser contratado por um rancheiro, interessado em usar as suas capacidades para se apoderar das terras dos vizinhos para, posteriormente, negociar indemnizações com os caminhos de ferro. Mas o contratado não era bem o que parecia. Se, por fora, em tudo se assemelhava a um pistoleiro, interiormente, era um ser pleno de honestidade que odiava este tipo de mafiosices. Acresce que o rancheiro era tio de uma jovem muito formosa que desde logo chamou a sua atenção e que também não apreciava as ações do tio, o qual chegava a assediá-la para ações menos dignas. E já calculam como tudo se resolveu...
Esta é uma obra de Frank MC Fair um pouco mais interessante do que a anterior aqui apresentada.
A capa, não assinada, mostra um dos momentos da chegada do famoso "pistoleiro" ao hotel, onde teve de usar a argumentação das armas... embora não se tivesse saído muito bem da situação.